segunda-feira, 24 de março de 2008

Revoluções tecnológicas - impactos sociais

“Todo aquele que tem familiaridade com as categorias das ciências sociais e que conheça, ainda que superficialmente, a história do desenvolvimento social deve compreender claramente que as conseqüências da segunda revolução industrial se manifestarão não apenas na formação econômica da sociedade, mas também em suas formações social e política, o que significa dizer que irão se manifestar não apenas na base mas também em sua superestrutura.

Da maneira como é utilizado aqui, o termo “formação” deve ser interpretado como a totalidade de relações sociais definidas entre seres humanos (portanto sociais, econômicas, políticas etc.), que formam determinado sistema. Isto significa que elas estão de tal modo ligadas entre si que a mudança num dos elementos do sistema produz mudanças nos outros elementos. Há, além disso, um elemento neste sistema (ou, dito de outra maneira, uma parte das relações a que nos referimos), cujas mudanças determinam a base da dinâmica dos demais elementos. No caso da formação econômica da sociedade, este papel é desempenhado pelas forças produtivas, e no caso da formação social, relas relações de classe características. Quando falamos em “classe social” nos referimos à totalidade de seres humanos inter-relacionados no interior de uma dada formação econômica, antes de tudo em função de uma mesma relação de propriedade com as forças produtivas (o que eqüivale a dizer que ou são proprietários das forças produtivas ou carecem dessa propriedade). É na relação entre as diferentes classes sociais que vemos a força motriz da formação social das sociedades baseadas em classes. É neste sentido que nos perguntamos sobre as implicações sociais da atual revolução industrial: o que acontecerá na esfera das relações de classe?

Evidentemente, não se trata de uma pergunta isolada; a resposta a ela está estreitamente vinculada à análise das mudanças que se produzem na formação econômica da sociedade, já que estas mudanças desempenham sempre um papel dominante. Apesar disso, tal pergunta pode e deve estar sujeita a uma análise relativamente independente.

Os prognósticos das mudanças na estrutura de classes da sociedade informática – que é o que nos interessa principalmente aqui – dependem sobretudo da análise do futuro do trabalho assalariado e das possíveis e diversas formas de ocupação que o substituirão. Baseio minhas conclusões no pressuposto de que o trabalho, no sentido tradicional da palavra, desaparecerá gradualmente (isto é, o trabalho que consiste no emprego da própria capacidade em troca de um determinado salário ou seu equivalente sob a forma do preço recebido pelo fruto de trabalho de alguém). Este desaparecimento será uma conseqüência dos avanços da automação e da robotização produzidos pela revolução da microeletrônica. Para evitar erros de interpretação, devemos salientar que a eliminação do trabalho (no sentido tradicional da palavra), não significa o desaparecimento da atividade humana, que pode adquirir a forma das mais diversas ocupações. Este desaparecimento não é possível por vários motivos que examinaremos em seguida.

Quem quisesse polemizar com as minhas próximas afirmações deveria começar por refutar, ou pelo menos questionar profundamente, esta premissa do meu raciocínio, tanto mais que sua conseqüência lógica é a tese do desaparecimento da classe trabalhadora, o que modificaria totalmente a idéia da realidade social que conhecemos hoje.

À primeira vista, essas afirmações parecem escandalosas e nos induzem a pensar na ficção científica. Contudo, isto se deve exclusivamente às características conservadoras do nosso pensamento, quando não – para piorar as coisas – ao mecanismo da dissonância cognitiva, um mecanismo que torna a mente humana impermeável às verdades novas nos casos de conflito entre a ideologia que se defendeu até aqui e os fatos que a refutam, conflito que não pode ser resolvido recorrendo-se a argumentos racionais. Não estamos tratando aqui de ficção científica, mas de fatos objetivos que muitas vezes são mais assombrosos que a ficção. É um fato, por exemplo, que a chamada automação plena (que já pode ser observada no Japão não como mero experimento, mas como prática industrial nas chamadas unmanned factories, nas quais o processo de produção se dá praticamente sem a participação do homem), eliminará inteiramente o trabalho humano, o que sido mais fácil de acontecer – como se tem podido constatar – nos serviços que na produção. É pois um fato que o trabalho, no sentido tradicional da palavra, desaparecerá paulatinamente e com ele o homem trabalhador, e portanto também a classe trabalhadora entendida como a totalidade dos trabalhadores. Não queremos ainda aqui entrar em considerações sobre se isto é bom ou mau do ponto de vista dos valores que são importantes para o homem; mesmo que chegássemos à conclusão de que seria mau, fatos são fatos e não se pode descartá-los enfiando-se a cabeça na areia como o avestruz.

Citarei aqui – como curiosidade histórica e não como prova - ... o fato de que Karl Marx previu a situação hodierna há mais de cem anos (em 1859), no primeiro esboço de O Capital, conhecido pelo título de Grundrisse. Nas páginas 582-600 desta obra ... Marx previu o advento da automação e da plena automação, em decorrência das quais ocorreria uma mudança na posição do proletariado e da estrutura de classes da sociedade.

Na sociedade informática a ciência assumirá o papel de força produtiva. Mesmo hoje a força de trabalho se modifica e desaparece em sentido social. Na nova estrutura de classes da sociedade, a classe trabalhadora também desaparecerá. Como será, então essa estrutura?

Referimo-nos aqui, folgo dizer, a uma perspectiva ampla, a algo que virá, digamos, em trinta ou cinqüenta anos, uma vez que essas mudanças não ocorrem instantaneamente, pois necessitam de tempo para que surjam forças e mecanismos sociais adequados. A classe trabalhadora desaparecerá. Mas e a classe capitalista, ou seja, aquela classe que é formada pelos proprietários dos meios de produção, incluídos os grandes latifundiários? Isto depende da natureza e do ritmo da mudança social que terá lugar no futuro próximo, isto é, dentro de uns vinte anos.

Como dissemos, pode ser que ocorram mudanças de caráter socialista. Estas poriam fim à propriedade privada dos meios de produção e dos serviços em larga escala e, consequentemente, também à classe capitalista, o que corresponderia a uma modificação radical da estrutura social. Como vimos, no caso dos países mais industrializados, a barreira que se opõe a um tal rumo são os fenômenos negativos que se manifestam nos países do socialismo real. Por outro lado, a existência desses países é um elemento positivo na medida em que servem como instrumento de defesa diante do perigo de uma intervenção de fora. No caso dos países mais industrializados, portanto, as intervenções seriam raras, ou não se produziriam, ainda que não possam ser totalmente excluídas.

Uma outra variante parece mais provável, a saber: sociedades com uma classe trabalhadora que desaparece e uma classe de capitalistas rurais e urbanos fortemente debilitada e destinada, também ela, a desaparecer. Ainda que os acontecimentos se limitem a que o Estado, através de uma política fiscal adequada, fique com a maior parte das rendas dos capitalistas e impeça, mediante uma legislação adequada, que os filhos herdem as propriedades dos pais, a situação resultante se parecerá mais com o modelo de sociedade proposto por Lênin – isto é, uma sociedade que compra as propriedades dos capitalistas e atribui a eles o papel de administradores – do que com alguma forma de capitalismo clássico.

Vemos, pois, uma sociedade cujas duas principais classes estão desaparecendo. Deixamos de lado aqui o campesinato, embora também esta classe deverá ser arrastada no processo de mudança ao longo do desenvolvimento da automação. Quem ocupará o lugar destas classes? Provavelmente o lutar destas classes desaparecidas será ocupado por um estrato social integrado por cientistas, engenheiros, técnicos e administradores, que se incumbirão do funcionamento e dos progressos da indústria e dos serviços. Um lugar especial no interior deste estrato caberá aos especialistas na distribuição dos mais variados bens. É bastante compreensível que as fileiras deste estrato social sejam formadas principalmente por técnicos e administradores na qualidade de organizadores da produção e dos serviços. Quem em suas fileiras sejam incluídos os representantes das ciências (não só das disciplinas tecnológicas, mas também das ciências fundamentais como, por exemplo, a matemática, a física, a química, a biologia etc.), sem as quais seriam impossíveis os progressos da moderna tecnologia, pode ser facilmente explicado pelo fato de que a ciência é hoje um instrumento de produção cuja importância é crescente e cada vez mais determinante para o progresso em geral. Este estrato social será em certo sentido novo, mas apenas em certo sentido: os especialistas e os profissionais existiam ontem como existem hoje; o mesmo cabe dizer da utilização de seus conhecimentos como instrumento de produção. Este estrato não será tão numeroso quanto o conjunto das duas classes que substituirá, mas as substituirá plenamente no que diz respeito à suas funções sociais e, provavelmente, também com um nível mais elevado de eficiência.

Porque então utilizamos o termo “estrato” e não “classe social”? Isto está relacionado com a definição do conceito de “classe social”, definição hoje aceita universalmente, que identifica as diversas classes com base na relação de seus membros com os meios de produção. Pode-se, é claro, mudar este critério específico; e, quando desaparecer o trabalho no sentido tradicional da palavra e modificar-se a propriedade privada dos meios de produção, uma nova definição do conceito de “classe” será mesmo necessária. Não apenas a propriedade dos meios de produção, mas também, por exemplo, o exercício do poder político poderia servir como critério de pertinência a uma classe. Poder-se-ia então verificar que a população que tem em comum relações específicas determinadas pela sua função social, que hoje denominamos de “estrato”, seja, de fato, uma classe social. Outro argumento poderia ser buscado no fato de que seus membros seriam proprietários de meios de produção, uma vez que a ciência se converteu já hoje em um meio de produção. Contudo, se levamos em conta a interpretação dos termos hoje predominante, seria mais correto conservar o conceito de "estrato" a fim de evitar equívocos semânticos.

Mas os problemas da estrutura de classes de modo algum esgotam todos os problemas sociais resultantes da atual revolução industrial, embora formem a base destes e de outros problemas. Observemos três deles, todos pertencentes à corrente tradicional do reformismo social inaugurado pelos grandes sistemas do socialismo utópico: a eliminação das diferenças entre trabalho manual e intelectual; a eliminação das diferenças entre trabalho nas cidades e no campo; e o igualitarismo econômico como fundamento para a superação das demais desigualdades sociais.

A eliminação das diferenças entre trabalho manual e trabalho intelectual, que pressupunha não apenas a abolição das fadigas do trabalho manual, mas também a eliminação das diferenças de status social entre estes dois grupos de trabalhadores, era um dos sonhos utópicos dos grandes sistemas socialista na passagem do século XVIII para o século XIX. Ela continuou sendo utópica no âmbito marxista, que a recolheu dos postulados dos sistemas anteriores de pensamento socialista. A exigência se tornou realista apenas hoje, na sociedade informática. Esta assistirá ao desaparecimento do trabalho manual; o que restar do antigo trabalho (como ainda o entendemos hoje), assumirá o caráter de ocupações intelectuais, de natureza criativa, dado que o trabalho intelectual rotineiro, que consiste em realizar operações repetitivas que podem ser automatizadas, também desaparecerá. Assistiremos pois à materialização da antiga palavra de ordem não através da equiparação dos dois tipos de trabalho, mas através da eliminação de um deles. A forma de realização do antigo programa será, pois, nova, diversa daquela originariamente prevista, mas em compensação será efetiva. Isto mudará muitas coisas, incluída a condição social da intelectualidade. Se todas as pessoas de uma ou de outra forma se ocuparem intelectualmente, não haverá motivo para singularizar os intelectuais como estrato dotado de características especiais e de tarefas sociais igualmente especiais: a totalidade das pessoas desenvolverá a inteligência. Isto é particularmente evidente se levarmos em conta que a educação permanente será uma das principais formas de resolver o problema do desemprego estrutural. De outro modo se coloca a questão dos intelectuais (no sentido do trabalho criativo) que, em qualquer formação social, permanecerão como um grupo social distinto ainda que relativamente, embora sob as novas condições seu número possa crescer quando comparado aos dados de hoje, a não ser que a engenharia genética torne possível a produção em série de gênios. Mas isto já faz parte da ficção científica, pelo menos considerando o nível atual dos nossos conhecimentos neste campo.

Ao contrário, a eliminação da diferença entre o trabalho no campo (na agricultura), e o trabalho nas cidades (na indústria e nos serviços), continua sendo uma exigência, embora sua realização pareça, hoje, mais promissora que no passado. Já hoje a aplicação da microeletrônica ao maquinário agrícola torna possível realizar automaticamente certas operações no campo inclusive durante a noite: melhor fertilização automática do solo antes da semeadura etc. Os novos avanços da engenharia genética permitirão aos agricultores não apenas incrementar imensamente as colheitas, como também selecionar as plantas mais resistentes às condições climáticas e a pragas e doenças. A simbiose das plantas com certas bactérias permitirá que aquelas assimilem nitrogênio diretamente da atmosfera sem a necessidade da fertilização artificial do solo etc. Os avanços neste campo são enormes e resta esperar que sejam ainda maiores no futuro. Contudo, o trabalho agrícola, especialmente a criação de animais, continua se diferenciando qualitativamente do trabalho nas zonas urbanas, e a eliminação dessa diferença, no entanto, não se apresenta ainda no horizonte.

Evidentemente, o desenvolvimento dos modernos meios de comunicação de massa aproxima as zonas rurais dos centros culturais e permite aos agricultores uma melhor utilização do que produzem. A vinculação de povoados isolados, ou até de granjas isoladas, às cidades por meio das fibras óticas e dos computadores, que já ocorre no Canadá, pode reduzir enormemente a sensação de isolamento de que padecem as pessoas que trabalham na agricultura. Meios de transporte modernos, cada vez mais aperfeiçoados e acessíveis – automóveis, helicópteros, pequenos aviões, barcos a motor etc. – constituem também um passo nesta direção. Apesar disso, permanece sempre a diferença qualitativa e quantitativa entre trabalho agrícola e trabalho urbano (sempre segundo os dados de que dispomos hoje), não obstante a atual revolução industrial. Analogamente, a despeito de todos os progressos realizados, o isolamento do camponês dos grandes centros continuará a incidir negativamente sobre as suas atividades culturais, sociais, políticas etc.

Poderíamos obviamente imaginar uma mudança radical no atual modelo de urbanização, com sua tendência a criar megalópoles desastrosas por seu tamanho e pela conseqüente forma de vida que impõem aos seus habitantes. Também poderíamos sonhar com cidades-jardins e com mesclas de assentamentos urbanos e rurais que, ao modificarem seu tamanho e as distâncias entre elas, eliminariam a maior barreira que impede que se aproximem umas das outras do ponto de vista da qualidade de vida. Infelizmente, tudo isto continua sendo ficção científica. Contudo, deveríamos também nos interessar por este gênero literário, pois ele nos revela o que é não só desejável como também plausível, tendo em vista as possibilidades tecnológicas atuais. E isto já é muito.

O problema do nivelamento das diferenças sociais existentes, isto é, o problema de um igualitarismo social específico que deve ser obtido como conseqüência das mudanças tecnológicas e da base da sociedade, é todavia mais complexo. Existe uma escola de pensamento que afirma que os avanços no igualitarismo relativo da esfera econômica eliminariam automaticamente outras diferenças da vida social. Creio que esta opinião peca por excesso de otimismo. Tais mudanças podem conduzir a um incremento do igualitarismo social até a abolição das diferenças de classe, mas podem também – e este é um perigo real – produzir a aparição de outras diferenças, talvez ainda maiores que as anteriores, incluindo a formação de um novo tipo de sociedade totalitária. Isto todavia nos leva já a refletir sobre a formação política da sociedade... Por ora queremos apenas assinalar um problema fundamental que pertence à categoria das questões sociais tais como as definimos aqui.

Não cabe qualquer dúvida quanto ao fato de que o desaparecimento do trabalho no sentido tradicional, aliado ao desaparecimento da propriedade privada dos meios de produção – ou pelo menos a uma mudança de status da mesma – com a conseqüente modificação da estrutura de classes da sociedade, eliminará, ou pelo menos debilitará, certas diferenças sociais entre as pessoas. Isto afeta principalmente as diferenças que se baseiam na riqueza e, provavelmente, aquelas relacionadas com a origem de classe (as diferenças relacionadas com a origem nacional e a religião são muito mais persistentes, como tem demonstrado a experiência). Seria um importante passo em direção a um igualitarismo social específico se não acarretasse o perigo de surgirem novas diferenças, que poderiam ser muito profundas sob certas condições políticas.

Quais são as fontes desse perigo?

Pode-se produzir uma nova divisão entre as pessoas, a saber: uma divisão entre as que têm algo que é socialmente importante e as que não têm. Este “algo”, no caso, é a informação no sentido mais amplo do termo que, em certas condições, pode substituir a propriedade dos meios de produção como fator discriminante da nova divisão social, uma divisão semelhante, mas não idêntica, à atual subdivisão em classes.

Atualmente podemos observar uma divisão clara – algo parecido com a incultura das massas e a cultura de um número ainda reduzido de pessoas iniciadas na ciência dos computadores – entre as que conhecem e as que desconhecem o funcionamento dos computadores. Não me refiro aqui à diferenças entre este “conhecimento” e a “ignorância”, já que este é um fenômeno transitório que não tardará a desaparecer quando forem modificados os currículos escolares. Refiro-me na realidade a algo que será muito mais persistente (e que poderá, inclusive, se agravar), e que diz respeito à “informação”.

Quando falamos de sociedade informática referimo-nos a uma sociedade em que todas as esferas da vida pública estarão cobertas por processos informatizados e por algum tipo de inteligência artificial, que terá relação com computadores de gerações subseqüentes. O problema não está no modo como ocorre este processo nas diversas esferas da vida pública; o verdadeiro problema é quem deve gerir os resultados deste processo informático generalizado e como utiliza os dados que tem à sua disposição. Quanto maior é a expansão do processo, maior é o perigo de uma divisão entre os que possuem e os que não possuem as informações adequadas. Esta divisão, sob determinadas condições, pode assumir um caráter de classe, como já constatamos antes. Tentarei explicar esta afirmação geral através de um exemplo concreto.

A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos criou um laboratório especial destinado a estudas a influência das novas técnicas de informação na esfera da vida privada (privacy) e nos direitos civis dos cidadãos americanos. A que se deve esta preocupação? Os perigos resultantes da computadorização generalizada são tão óbvios para estas esferas que os sindicatos começaram a reagir diante deles, não apenas nos Estados Unidos. Tudo começou com a supervisão das operações do trabalhador: o computador registra cada operação, cada interrupção do trabalho, o ritmo, a produtividade etc. Comprovou-se que este controle provoca stress nos trabalhadores, tanto mais que os resultados de tal “observação” podem levar à demissão, e isto num período em que, devido ao desemprego em massa, intensifica-se a concorrência. Neste sentido, é evidente o motivo da intervenção dos sindicatos.

Mas o problema se torna muito mais sério quando levamos em conta todas as informações recolhidas sobre cada cidadão. Toda instituição que tenha contatos com uma pessoa reúne informações sobre ela na esfera de seu interesse e armazena estas informações na memória de um computador. Isto é feito pelos patrões, pelas instituições de seguro social, pelos hospitais e ambulatórios, pelas escolas, pelos partidos políticos, pelos sindicatos etc.

Em princípio, cada uma destas instituições recolhe informações para si. Mas imaginemos uma situação em que uma “super-instituição” qualquer (na maioria dos países as informações recolhidas deste modo são secretas e não acessíveis a outras instituições ou cidadãos privados), conseguisse recolher dados pertinentes de todas as instituições que os possuem e submetesse estes dados a uma análise integrada. Estas instituições existem em qualquer país e não estão submetidas à obrigação habitual de guardar segredo quando são chamadas a defender um “interesse mais elevado”. Uma instituição deste tipo poderia não apenas saber praticamente tudo sobre uma determinada pessoa, mas, ademais, na prática, poderia conhecê-la mais e de forma mais confiável do que esta se conhece a si mesma (o que é compreensível se considerarmos as barreiras psicológicas que impedem a auto-análise). Mas poderia proporcionar oportunidades fantásticas, não apenas para a chantagem, mas também para os mais refinados métodos de manipulação de pessoas. Imaginemos pois esta instituição no interior de uma burocracia forte e bem organizada e não estaremos longe da visão de Orwell. Há, pois, motivos para preocupação e para “espremer” o cérebro a fim de evitar o mal... O problema não é simples nem é fácil de resolver.

Mas voltemos à intrigante possibilidade de que surjam novas desigualdades sociais e ao paralelo renascimento de uma divisão quase classista da sociedade informática. Trata-se de algo mais que um perigo, é inevitável que o advento da sociedade informática possa produzir uma nova divisão entre os que têm e os que não têm. Esta situação criará, portanto, uma nova base que, através da diferenciação social, poderá produzir algo semelhante à diferenciação social, poderá produzir algo semelhante à diferenciação existente entre as classes. Mesmo assim, não se tratará da trivial divisão entre aqueles que dispõem de um adequado conhecimento técnico no âmbito da informática e aqueles que carecem de tal conhecimento. Como dissemos, esta divisão poderá ser facilmente eliminada por meio de uma ampliação apropriada dos programas escolares, o que de resto já ocorre hoje. A divisão se dará, antes, entre aqueles que possuem informações pertinentes sobre diversas esferas da vida social e aqueles que estarão privados destas em razão de leis relativas a segredos oficiais. Um grande perigo e um problema difícil! Mas com isso entramos em uma nova esfera igualmente social, a saber: a política”.

(Adam Schaff – A Sociedade Informática)

terça-feira, 11 de março de 2008

LULA TREMEU

Ao puxar as orelhas do Congresso Nacional por não ter ainda votado o orçamento da República, Luiz Inácio se traiu no arroubo inusitado. Disse que os parlamentares deveriam deixar a preguiça de lado e ser como ele: “será que só eu quero trabalhar no Brasil?”, indagou sem enrubescer. Sua fala, no entanto, e todos que a ouviram de viva voz podem confirmar, tremeu de maneira quase imperceptível. Neste momento, a alma profunda presidencial, de uma certa forma, falou mais alto. Falsidades costumam se revelar em palpitações, tremores, suadeiras, esquecimentos, atos falhos etc. Mesmo o mais contumaz e mais hábil dos mentirosos não está imune a estas manifestações incontroláveis do inconsciente. Pois desde quando Lula tem apreço ao trabalho? Sua proclamação parece, mesmo, ser mais uma piada de seu inesgotável estoque. Uma inspeção em sua agenda diária, semanal, mensal ou anual, mostrará que seu tempo é gasto mais em perambular pelos quatro cantos do mundo, que em se devotar à resolução dos complexos desafios que avassalam a nação. Sua mesa de trabalho (?) que aparece nas imagens dos jornais e das TVs é de uma limpeza hospitalar e de um vazio extraordinário. Nenhum papel jaz sobre ela. Nada de processos volumosos, nada de relatórios, nada que lembre vagamente o que seja em termos de devoção ao estudo e à reflexão. Seu negócio é pegar o avião e viajar por aí, vadiando neste mundão de Deus como alma penada. Onde houver um palanque lá está ele, vociferante, quase apoplético. Se não houver palanque, constrói-se um imediatamente. Em negócio de palanque, há de se reconhecer, aliás, ele é profissional. São décadas de falatório compulsivo. Não há um dia, um mísero dia que seja, que a criatura não faça um discurso. Talvez pense, vá lá, que não pode nos privar do deleite de ouvir sua voz acatarrada e rascante onde a banalidade e a grosseria fincaram praça eterna. É uma maneira estranhamente absurda de querer agradar aos outros. Muitos dispensariam o agrado torcendo para que o silencio presidencial fosse mais praticado.

SANCHO PANZA

Sancho Panza, o vilão de “pouco sal na moleira” no dizer de Cervantes, costuma ser visto como a representação do homem realista. Aquele que está sempre com os pés no chão, ao contrário do engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, delirante e sonhador a ponto de confundir moinhos de vento com ferozes dragões. Saudosos desenhos animados também faziam uso deste arquétipo. .Mas neste caso a divisão era entre otimistas (Lipy, o leão), e os incuráveis pessimistas (Hardy, a hiena). Quem não se lembra da conclamação de Lipy – “vamos, Hardy, eu sei que vai dar certo”, e a resposta amarga da hiena – “Oh! Dia, Oh! Azar; não vai dar certo, Lipy, eu sei que não vai?” Na atualidade, contudo, as diferenças não são mais estabelecidas entre essas velhas categorias – dos otimistas e sonhadores contra os pessimistas sempre tão realistas. Agora o corte se faz entre os espertos que levam vantagem em tudo versus os tolinhos que nada sabem dos mistérios do mundo.

Tolinhos são aqueles para os quais preto é preto e branco é branco, ou bandido é bandido e polícia é polícia. Quando essas categorias se misturam há um curto circuito na cabeça dessas pessoas. Os espertos, ao contrário, possuem um grande jogo de cintura. Espertos, por exemplo, são os políticos mineiros para os quais haveria uma infinita gradação entre o preto e o branco, e inumeráveis situações onde o que é banditismo pode muito bem estar próximo da suprema honestidade. Os tolinhos não pensam nem agem dessa forma sofisticada. Tolinhos acreditam que quem traiu uma vez será sempre traidor. Uma convivência amena, caso acontecesse, entre Tiradentes e Silvério dos Reis, após a delação do primeiro pelo segundo, seria sinceramente incompreensível. Da mesma forma soa estranha uma parceria entre os que pregam a honestidade e lisura com notórios e refinados corruptos. Tolinhos, coitados, acreditam que quem com porcos se mistura farelos come, e que, quando gente decente aceita conviver com patifes, há um benefício para estes últimos ao preço da desmoralização dos primeiros. Os espertos do PT e outros partidos que estão a ensaiar rendosa sociedade nas próximas eleições, talvez se deparem com uma reação nossa, os tolinhos de BH. Esta aliança pode se transformar no beijo da morte para os espertos.

segunda-feira, 3 de março de 2008

SABOTAGEM AO BIODIESEL

O modelo de uso do biodiesel no Brasil, a partir de janeiro do corrente, prevê sua adição ao petrodiesel na proporção de 2% daquele para 98% deste (o chamado B-2). Esta formatação foi concebida mais para atender aos interesses do agro-negócio da soja e à Petrobrás, que aos pequenos produtores familiares do Brasil profundo os quais, em conformidade com a propaganda oficial, deveriam ficar plantando mamona, cultivar sem atrativo e que só prospera em lugares de extrema pobreza. Ao agro-negócio negócio da soja, o modelo proposto pelo governo Lula é uma verdadeira sopa no mel, em vista da relativamente ampla disponibilidade do óleo vegetal (subproduto de seu verdadeiro interesse – a produção de farelo para alimentação animal), que passa, então, a ter como desovar seus estoques. À multinacional brasileira, pelas dificuldades decorrentes do modelo adotado, interessa, e muito, que se inviabilize, ou prospere, um combustível concorrente passível de ser obtido de maneira sustentável e com preço competitivo (com óbvia quebra de monopólio sobre os combustíveis líquidos). Quando, todavia, os preços do óleo de soja se elevam devido à cotação internacional, praticamente desaparece do mercado o biodiesel dele derivado. Uma simples equação econômica preside este processo: se o custo de produção de biodiesel ficar acima do preço do petrodiesel, qualquer projeto daquele combustível ecológico estará condenado ao fracasso.

Maneira sofisticada de sabotar o programa de biodiesel, portanto, é esta insistência no uso de fontes oleíferas inadequadas (como a mamona e a soja), e no sistema de distribuição obrigatório para todos os usuários de diesel. As fontes de óleo vegetal mais promissoras são aquelas originadas de culturas perenes (do tipo pinhão manso, dendê e macaúba), com grande potencial produtivo por hectare, ao contrário do obtido pela ricinocultura, tão pouco rentável que somente párias (que os há aos milhões na Índia, maior produtor mundial), se dispõem ao seu plantio. A mamona ainda tem contra si os riscos para a saúde humana, pela presença nela de poderoso alérgeno, este sim o verdadeiro perigo e, não, a ricina como pensam alguns. Muito mais sensato e viável seria a obrigatoriedade do uso de biodiesel pelos mineradores (como forma de indenização pelos danos ambientais), e pelos usineiros produtores de álcool, em suas máquinas e equipamentos agrícolas. Os mineradores e os usineiros, aliás, estão entre os maiores consumidores de diesel do país. Em Carajás, no Pará, a Vale do Rio Doce possui mais de centena daqueles gigantescos caminhões que gastam, cada um, mais de 150 litros de diesel por hora. Já do lado da indústria sucroalcooleira, cada tonelada de cana esmagada consome em torno de 2,5 litros de diesel. Para a safra 2007/2008 projeta-se o processamento de algo como 400 milhões de toneladas de cana. Só aí haveria uma previsão de demanda de 1 (hum) bilhão de litros de diesel. As unidades de produção de biodiesel deveriam ser construídas, pois, junto aos grandes consumidores. Isto daria eficiência ao reduzir seu custo de produção, com os benefícios sociais lastreados em realidades econômicas e, não, no assistencialismo barato que é a marca do atual governo. E tudo com uma enorme vantagem: o biocombustível não precisaria fazer turismo, como pretende a Petrobrás com seu modelo doidivanas, feito para não funcionar.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

E SE TIVESSEM PRIVATIZADO TUDO?

Ataulfo Alves cantou a inconsciência do menino que “era feliz e não sabia”. De fato, só se tem clareza sobre o sentido do que foi vivido num determinado momento, principalmente se foi algo bom ou fecundo, muito tempo depois do ocorrido. É verdade que alguns acham inútil recorrer à lanterna na popa para se conhecer melhor as coisas. Pedro Nava dizia que precisávamos, de fato, é de farol para frente e, não, voltado para trás (sugerindo uma certa inutilidade da experiência). Nos dias atuais, por exemplo, ao se observar o PT e o PMDB lutando pelos cargos das empresas públicas, tal qual abutres disputando com hienas e chacais os despojos e a carniça de imenso búfalo, mesmo os maiores críticos do governo passado chegam a pensar que, talvez, FHC tivesse razão na promoção do largo processo de privatização durante seu governo. Não se pode esquecer, a bem da justiça, as façanhas de Collor e de Itamar na mesma direção (este último, aliás, foi o autor da privatização da empresa símbolo do Estado-empresário – a CSN).

Pelo que a grande imprensa tem divulgado, o controle e saqueio do dinheiro do povo cristalizado nas empresas públicas se faz entre quadrilhas regionais de todo o Brasil, com destaque para aquelas com base no Maranhão, Pará, Alagoas e Bahia. Os petistas do sul e sudeste são mais sofisticados: controlam os poderosos fundos de pensão das estatais e se tornam, assim, sócios dos grandes empreendimentos que prosperam no país. A barbárie nordestina cria predadores individualizados (Sarney, Barbalho, Calheiros etc.). Esta é a turma primitiva do PMDB. Os petistas, ativados por uma concepção coletivista, gostam, ao contrário, de mamar em grupo. Não há entre eles um gatuno da estatura de um Quércia ou Maluf, com a provável exceção do tal Delúbio. Mas o famoso professor de matemática saqueava caninamente para os companheiros e, não, para si, sendo um homem modesto e desprovido de ambição pessoal. FHC nos livrou de ver a corriola brigando pela Vale, pela Telebrás, pela Usiminas e outras. Fica, para muitos, a indagação se não deveria ter incluído no rol das privatizadas os correios, os bancos e as empresas de energia que sobraram. Uma coisa seria certa: teria nos poupado dos vexames agora presenciados e muito, muito do dinheiro que nos roubam. Num balanço imparcial talvez tivesse ficado mais barato para o povo brasileiro.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

AS FUNÇÕES DO PROFESSOR

O ensino, mais do que a maioria das outras profissões, transformou-se, durante os últimos cem anos, de uma pequena profissão altamente especializada referente apenas a uma minoria da população, num grande e importante ramo do serviço público. Essa profissão tem uma grande e honrosa tradição, que se estendeu desde o raiar da história até tempos recentes, mas qualquer professor do mundo moderno que se permite ser inspirado pelos ideais de seus predecessores está sujeito a perceber claramente que a sua função não é ensinar o que ele acha que deve ensinar, mas disseminar crenças e preconceitos que possam ser considerados úteis por aqueles que são os seus empregadores. Em outras épocas esperava-se que um professor fosse um homem de conhecimento ou sabedoria excepcionais, em cujas palavras os homens faziam bem em atentar. Na Antigüidade os professores não constituíam uma profissão organizada, não se exercendo controle algum sobre o que ensinavam. É verdade que, com freqüência, eram punidos, depois, pelas suas doutrinas subversivas. Sócrates foi condenado à morte e afirma-se que Platão foi lançado à prisão, mas tais incidentes não interferiram com a divulgação de suas doutrinas. Qualquer homem que possua o impulso genuíno de professor mostrar-se-á mais ansioso de sobreviver em seus livros do que em sua própria carne. Um sentimento de independência intelectual é essencial ao desempenho adequado das funções do professor, já que a sua tarefa é instilar o que sabe a respeito do conhecimento e da razoabilidade no processo de formar a opinião pública. Na Antigüidade, desempenhava ele livremente as suas funções, exceto quando se verificavam intervenções espasmódicas e inefetivas por parte de tiranos ou de multidões. Na Idade Média, o ensino tornou-se prerrogativa exclusiva da Igreja Católica, tendo como resultado pouco progresso, quer intelectual, quer social. Com o Renascimento, o respeito geral pela cultura trouxe de novo considerável grau de liberdade ao professor. É verdade que a Inquisição obrigou Galileu a retratar-se e queimou Giordano Bruno na fogueira, mas ambos já haviam realizado o seu trabalho antes de serem punidos. Instituições tais como as universidades permaneceram, em grande parte, nas garras dos dogmatistas, resultando daí que a maioria do melhor trabalho intelectual foi feito por homens de cultura independente. Na Inglaterra, principalmente, até quase o fim do século dezenove, dificilmente se encontravam homens verdadeiramente proeminentes, com exceção de Newton, que estivessem ligados a universidades. Mas o sistema social era tal que isso pouco interferia com as suas atividades ou a sua utilidade.

Em nosso mundo altamente organizado, deparamos com um novo problema. Algo que se chama Educação é ministrado a toda gente, geralmente pelo Estado, mas também, às vezes, pelas Igrejas. O professor transformou-se, assim na grande maioria dos casos, num servidor cortês obrigado a executar as ordens de homens que não têm a sua cultura, não dispõem de experiência quanto ao trato da juventude, e cuja única atitude com respeito à educação é a de um propagandista. Não é muito fácil de ver-se de que maneira podem os professores, em tais circunstâncias, realizar as funções para as quais estão especialmente adequados.
A educação pelo Estado é obviamente necessária, mas, de maneira igualmente óbvia, envolve certos perigos contra os quais deve haver certas precauções. Os males que há a temer puderam ser vistos, em sua plena magnitude, na Alemanha nazista, podendo, ainda hoje, ser observados na Rússia. Onde tais males prevalecem, homem algum pode ensinar, a menos que subscreva um credo dogmático que poucas pessoas de inteligência livre são capazes de aceitar sinceramente. Não apenas deve ele subscrever um tal credo, mas, ainda, ser indulgente diante de abominações, abstendo-se de manifestar suas opiniões a respeito de assuntos correntes. Enquanto tal homem estiver apenas ensinando o alfabeto e a tabuada, os quais não despertam controvérsias, os dogmas oficiais não deturpam, necessariamente, a instrução por ele ministrada; mas mesmo quando se acha ensinando esses elementos, espera-se, nos países totalitários, que ele não empregue os métodos que lhe pareçam os mais capazes de produzir os melhores resultados didáticos, mas que inculque medo, subserviência e obediência cega, exigindo indiscutível submissão à sua autoridade. Logo que passa além dos simples elementos, é obrigado a adotar a opinião oficial em tudo o que se refere a questões controvertidas. O resultado disso é que os jovens se tornaram na Alemanha nazista – e ainda o são na Rússia – intolerantes fanáticos ignorantes do mundo existente fora de seus países, desacostumados inteiramente à discussão livre e incapazes de perceber que as suas opiniões possam ser discutidas sem maldade. Tal estado de coisas, mau como é, seria menos desastroso se os dogmas inculcados fossem, como no catolicismo medieval, não só universais como, também, internacionais. Mas toda a concepção de uma cultura internacional é negada pelos dogmatistas modernos, os quais pregaram um credo na Alemanha, outro na Itália, outra na Rússia e ainda outro no Japão. Em cada um desses países, o nacionalismo fanático era o que mais se ressaltava no ensino dos jovens, resultando daí que os homens de um país não têm nenhuma base em comum com os homens de outro, e que nenhuma concepção de uma civilização comum se coloque no caminho de um ferocidade belicosa.

A decadência do internacionalismo cultural continuou de maneira cada vez mais acentuada desde a Primeira Guerra Mundial... Há países em que o aprendizado do nacionalismo é menos extremo, mas não deixa de ser, em toda parte, muito mais forte do que era antes. Há uma tendência na Inglaterra e nos Estados Unidos para se dispensar os professores franceses e alemães encarregados do ensino de francês e alemão. A prática de se considerar a nacionalidade de um homem, em vez da sua competência, ao designá-lo para um posto, é prejudicial à educação, além de constituir uma ofensa ao ideal da cultura internacional, que foi uma herança por nós recebida do Império Romano e da Igreja Católica, mas que está agora sendo submergida por uma nova invasão bárbara, procedente mais de baixo do que de fora.

Em países democráticos, tais males ainda não atingiram nada que se possa comparar a essas proporções, mas deve-se admitir que há grave perigo de que semelhantes manifestações se verifiquem na educação, e que esse perigo só poderá ser evitado se aqueles que acreditam na liberdade de pensamento estiverem alerta, a fim de proteger os professores contra a escravidão intelectual. Talvez o primeiro requisito para isso seja uma concepção clara dos serviços que podem ser esperados do professor em benefício da comunidade. Todos concordam com os governos do mundo em que a disseminação de informação de caráter positivamente não controvertível é uma das funções menos importantes do professor. Essa é, certamente, a base em que se elaboram todas as demais e, numa civilização técnica como a nossa, isso tem, indubitavelmente considerável utilidade. Deve existir numa comunidade moderna um número suficiente de homens que possua a habilidade técnica necessária à preservação do aparelhamento mecânico do qual depende o nosso conforto material. Além disso, é inconveniente que uma grande parte da população não saiba ler nem escrever. Por essas razões, somos todos a favor da educação compulsória universal. Mas os governos perceberam que é fácil, no decurso de tal instrução, inculcar crenças relativas a assuntos passíveis de controvérsia, produzindo hábitos mentais que podem ser convenientes ou inconvenientes aos que se acham à testa do governo. A defesa do Estado, em todos os países civilizados, está tanto nas mãos dos professores como nas das pessoas que pertencem às forças armadas. Exceto nos países totalitários, a defesa do Estado é desejável, e o simples fato de a educação ser usada para tal propósito não constitui, por si só, motivo para crítica. A crítica só surgirá se o Estado for defendido pelo obscurantismo e apelar para a paixão irracional. Tais métodos são inteiramente desnecessários no caso de um Estado digno de ser defendido. Não obstante, há uma tendência natural no sentido da sua adoção por aqueles que não possuem conhecimento de primeira mão relativa à educação. Acha-se muito difundida a crença de que as nações se tornam fortes pela uniformidade de opinião e pela supressão da liberdade. Ouve-se dizer, repetidamente, que a democracia enfraquece um país na guerra, apesar do fato de, em cada guerra importante desde o ano de 1700, a vitória ter ficado nas mãos do lado mais democrático. As nações têm sido levadas à ruína, de maneira muito mais freqüente, devido mais à insistência quanto a uma uniformidade doutrinal acanhada do que devido à discussão livre e à tolerância de opiniões divergentes. Os dogmatistas do mundo inteiro acreditam que, embora eles próprios conheçam a verdade, os outros serão levados a crenças falsas, se lhes for permitido ouvir os argumentos apresentados por ambas as partes. Esta é uma opinião que conduz a um ou outro destes dois infortúnios: ou um grupo de dogmatistas conquista o mundo e proíbe todas as idéias novas, ou, o que é pior, os dogmatistas rivais conquistam regiões diferentes e pregam o evangelho do ódio contra o outro grupo. O primeiro deste males existiu durante a Idade Média; o último, durante as guerras religiosas e, novamente, em nossos dias. O primeiro torna a civilização estática; o segundo tende a destruí-la completamente. Contra ambos, o professor deve ser a principal salvaguarda.

É óbvio que o espírito partidário organizado constitui um dos maiores perigos de nossa época. Na forma de nacionalismo, conduz a guerras entre nações e, nas outras formas, leva à guerra civil. Deveria ser tarefa dos professores manter-se fora das lutas partidárias e procurar inculcar na juventude o hábito da investigação imparcial, fazendo com que julgue as questões pelos próprios méritos destas e se mantenha em guarda contra a aceitação de afirmações ex parte, apenas pelo seu valor aparente. Não se devia esperar que o professor lisonjeasse os preconceitos quer da multidão, quer dos alto funcionários do Estado. Sua virtude profissional deveria consistir numa presteza em julgar com isenção de ânimo ambas as partes, empenhando-se por elevar-se acima da controvérsia e manter-se numa região de investigação científica imparcial. Se há pessoas para as quais o resultados das suas investigações possa ser inconveniente, deveria ele ser protegido contra o seu ressentimento, a menos que se possa provar haver ele se dedicado a uma propaganda desonesta, mediante a disseminação de inverdades demonstráveis.

A função do professor, porém, não é somente atenuar a violência das controvérsias. Tem ele tarefas mais positivas a realizar, e não pode ser um grande professor a menos que seja inspirado pelo desejo de realizar tais tarefas. Os professores são, mais do que qualquer outra classe profissional, os guardiães da civilização. Deveriam estar intimamente cônscios do que é a civilização, bem como desejosos de comunicar um atitude civilizada aos seus alunos. Somos, assim, levados à pergunta: que constitui uma comunidade civilizada?

Tal pergunta poderia ser respondida, comumente, tendo-se em vista apenas testes materiais. Um país é civilizado se tiver muitas máquinas, muitos automóveis, muitos banheiros e uma grande quantidade de meios rápidos de locomoção. Na minha opinião, a grande maioria dos homens modernos atribui a tais coisas demasiada importância. A civilização, no sentido mais importante, é uma coisa do espírito, e não acréscimos materiais ao lado físico da vida. É, em parte, uma questão de conhecimento e, em parte, uma questão de emoção. Quanto ao que diz respeito ao conhecimento, o homem deveria ter consciência da sua própria pequenez e do seu meio imediato em relação ao mundo no tempo e no espaço. Deveria encarar o seu próprio país não apenas como o seu país, mas como um dentre os demais países do mundo, todos eles com igual direito de viver, de pensar e de sentir. Deveria ver a sua própria época em relação ao passado e ao futuro, percebendo que as suas próprias controvérsias parecerão tão estranhas às épocas futuras como hoje nos parecem as controvérsias das épocas passadas. Adotando-se um ponto de vista ainda mais amplo, deveria ter consciência da vastidão das épocas geológicas e das enormes distâncias astronômicas; mas deveria ter consciência de tudo isso não como um peso que esmagasse o espírito da criatura humana, mas como um vasto panorama que alargasse a mente que o contemplasse. Quanto ao que diz respeito às emoções, é necessário, para que um homem seja verdadeiramente civilizado, um alargamento bastante idêntico de perspectiva, partindo do que é puramente pessoal. Os homens vão do nascimento à morte às vezes felizes, às vezes infelizes; às vezes generosos, outras vezes avaros e mesquinhos; às vezes heróicos, outras vezes covardes e servis. Para o homem que encara esse desfile como um todo, certas coisas se sobressaem como dignas de admiração. Certos homens foram inspirados por amor à humanidade; outros, pelo intelecto supremo, nos ajudaram a compreender o mundo em que vivemos; e alguns outros, mediante sensibilidade excepcional, criaram beleza. Tais homens produziram algo de bom e positivo para contrabalançar o longo registro de crueldade, opressão e superstição. Tais homens fizeram tudo que estava em seu poder para tornar a vida humana uma coisa melhor do que a breve turbulência dos selvagens. O homem civilizado, quando não pode admirar tem em mente mais a compreensão do que a reprovação. Procurará antes descobrir e remover as causas impessoais do mal do que odiar os homens que se encontrem em suas garras. Tudo isto deveria estar na mente e no coração do professor, pois, se isto estiver em sua mente e em seu coração, procurará transmitir tal coisa aos jovens que se acham sob os seus cuidados.

Homem algum poderá ser um bom professor se não tiver sentimentos de cálida afeição para com os seus alunos, bem como um desejo sincero de comunicar-lhes o que ele próprio considera de valor. Para o propagandista, os seus alunos são soldados em potencial de um exército. Estão destinados a servir a propósitos alheios à suas próprias vidas, não no sentido em que cada propósito generoso transcende o próprio eu, mas no sentido de contribuir para privilégios injustos ou para um poder despótico. O propagandista não deseja que os seus discípulos observem o mundo e escolham livremente um propósito que lhes pareça valioso. Deseja, como um artista podador, que o seu desenvolvimento seja exercitado e retorcido no sentido de adaptar-se ao propósito do jardineiro. E, ao contrariar o seu desenvolvimento natural, torna-se apto a destruir neles todo o generoso vigor, substituindo-o pela inveja, pelo espírito de destruição e pela crueldade. Não há necessidade de que os homens sejam cruéis; ao contrário, estou persuadido de que a maior parte da crueldade é resultado de se contrariar os impulsos dos primeiros anos, principalmente os impulsos no sentido do que é bom.

As paixões repressivas e de perseguição são muito comuns, como a situação atual do mundo o prova amplamente. Mas não constituem parte inevitável da natureza humana. Pelo contrário, são sempre, creio eu, resultado de alguma espécie de infelicidade. Deveria ser uma das funções do professor abrir novas perspectivas aos seus alunos, mostrando-lhes a possibilidade de atividades não só agradáveis como úteis, libertando, assim os seus impulsos generosos e impedindo o desenvolvimento do desejo de roubar aos outros as alegrias que lhes faltam. Muita gente se refere com desprezo à felicidade como um fim, mas pode-se suspeitar de que se trata de criaturas amargas. Uma coisa é renunciar à própria felicidade tendo-se em vista uma finalidade pública; mas é inteiramente diferente tratar-se a felicidade geral como se fosse coisa sem importância. No entanto, isso é feito, freqüentemente em nome de algum suposto heroísmo. Há, em geral, nas pessoas que adotam tal opinião, um veio de crueldade, baseado, provavelmente, em inveja inconsciente, sendo que a fonte dessa inveja será encontrada, quase sempre, na infância ou na juventude. O educador deveria ter por objetivo educar adultos livres desses infortúnios psicológicos, que não se mostrem ansiosos de privar os outros da felicidade porque eles próprios foram privados dela.

Como as coisas se encontram hoje em dia, muitos professores se acham incapazes de dar o melhor que podiam de si mesmos. Há várias razões para isso, algumas das quais mais ou menos acidentais, e outras profundamente enraizadas. Começando pelas primeiras dessas razões, convém dizer que a maioria dos professores se acha sobrecarregada de trabalho, sendo eles obrigados a preparar os seus alunos apenas para os exames, em vez de lhes ministrar um treino mental generoso. As pessoas que não estão acostumadas a ensinar – e isto inclui, praticamente, todas as autoridades educacionais – não têm idéia do dispêndio de inteligência que isso envolve. Não se espera que os padres façam sermões, todos os dias, durante várias horas, mas um esforço análogo é exigido dos professores. O resultado disso é que muitos deles ficam esgotados e nervosos, alheios às obras recentes sobre as matérias que ensinam, e incapazes de inspirar aos seus alunos a sensação de prazer intelectual que se obtém através de uma nova compreensão e de um novo conhecimento.

Isso não constitui, no entanto, de modo algum, a questão mais grave. Na maior parte dos países, certas opiniões são reconhecidas como corretas, enquanto que outras são tidas como perigosas. Espera-se que os professores cujas opiniões não são corretas se mantenham calados a respeito delas. Se mencionam as suas opiniões, isso é considerado propaganda, enquanto que a referência a opiniões corretas é considerada como sendo simplesmente instrução sólida. O resultado disso é que as vozes perquiridoras têm com freqüência de sair para fora da sala de aula a fim de descobrir o que é que pensam os espíritos mais vigorosos da sua época. Há nos Estados Unidos uma matéria chamada Instrução Cívica, na qual, mais do que em qualquer outra, se deverá esperar que o ensino conduza a caminhos errados. Ensinam aos jovens, numa espécie de compêndio que parece feito em copiador, como é que se supõe que os assuntos públicos devam ser conduzidos, evitando-se cuidadosamente que os alunos tenham qualquer conhecimento quanto à maneira pela qual são eles realmente conduzidos. Quando se tornam adultos e descobrem a verdade, o resultado é, com muita freqüência, um cinismo completo, no qual se perdem os ideais públicos – ao passo que, se lhes tivessem ensinado meticulosamente qual a verdade e feito, quando ainda bastante jovens, os comentários adequados, poderiam ter-se tornado homens capazes de combater males que, tal como são as coisas, não lhes despertam mais do que um complacente alçar de ombros.

A idéia de que a falsidade é edificante é um dos pecados que assediam aqueles que elaboram os planos educacionais. Eu não consideraria que um homem pudesse ser um bom professor a menos que ele estivesse firmemente resolvido, no exercício de sua profissão, a não ocultar a verdade devido ao fato de não ser ela considerada “edificante”. A espécie de virtude que pode ser produzida pela ignorância protegida é demasiado frágil, rompendo-se ao primeiro contato com a realidade. Há, neste mundo, muitos homens que merecem admiração, e seria bom que os jovens aprendessem a ver as razões pelas quais esses homens são admiráveis. Mas não é bom ensinar-lhes a admirar patifes ocultando a sua patifaria. Pensa-se que o conhecimento das coisas tais como são conduzirá ao cinismo, mas o mesmo poderá acontecer se o conhecimento chegar subitamente a causar surpresa e horror. Se vier, porém, gradualmente, devidamente entremeado com o conhecimento do que é bom, no decurso de um estudo científico inspirado pelo desejo de se chegar à verdade, não terá tal efeito. De qualquer modo, contar mentiras aos jovens, os quais não dispõem de meios para verificar o que se lhes diz, é coisa moralmente indefensável.

O que, antes de mais nada, um professor deveria procurar produzir em seus alunos, se se quiser que a democracia sobreviva, é a espécie de tolerância que nasce do empenho de se compreender aqueles que são diferentes de nós. Constitui, talvez, um impulso natural encarar-se com horror e aversão todas as maneiras e costumes diferentes daqueles com que estamos habituados. As formigas e os selvagens condenam os estranhos à morte. E aqueles que nunca viajaram, quer física, quer mentalmente, acham difícil de se tolerar as maneiras estranhas e grotescas de outras nações e de outras épocas, bem como outras seitas e outros partidos políticos. Esta espécie de intolerância ignorante é a antítese da visão civilizada, constituindo um dos mais graves perigos a que está exposto o nosso mundo superpovoado. O sistema educacional deve ter por objetivo corrigir tal coisa, mas pouquíssimo se fez nesse sentido até o momento. Em cada país, o sentimento nacionalista é encorajado, ensinando-se às crianças das escolas – coisa em que elas se acham bastante prontas a acreditar – que os habitantes de outros países são moral e intelectualmente inferiores aos do país em que os escolares vivem. A histeria coletiva, a mais louca e cruel de todas as emoções humanas, é encorajada, em vez de ser desencorajada, sendo os jovens incentivados a acreditar naquilo que ouvem com freqüência dizer, em lugar de acreditarem naquilo em que há uma base racional para se acreditar. Em tudo isso, não se deve censurar o professor. Eles não são livres para ensinar o que desejam. São eles que conhecem mais intimamente as necessidades da juventude. São eles que, mediante contato diário, se interessam pelos jovens. Mas não são eles que decidem o que deverá ser ensinado ou quais os métodos didáticos que deverão ser adotados. Deveria haver muito mais liberdade do que a que existe na profissão de professor. Deveria haver muito mais oportunidades de autodeterminação, mais independência quanto à interferência de burocratas e intolerantes. Ninguém consentiria, em nossos dias, que se sujeitasse os médicos ao controle de autoridades que nada entendessem de medicina e tencionassem dizer-lhes de que maneira deveriam tratar de seus pacientes, exceto, naturalmente, quando se apartassem criminosamente do propósito da medicina, que é o de curar o paciente. O professor é uma espécie de médico cujo propósito é curar o paciente de infantilidade, mas não lhe permitem decidir por si mesmo, baseado em sua experiência, quais os métodos mais apropriados para tal fim. Algumas poucas universidades históricas, pelo poder de seu prestígio, asseguram uma autodeterminação virtual, mas a imensa maioria das instituições educacionais se acha tolhida e controlada por homens que não compreendem o trabalho em que estão interferindo. A única maneira de se impedir o totalitarismo em nosso mundo altamente organizado, é assegurar um certo grau de independência aos indivíduos que realizam trabalho público útil, e entre tais indivíduos os professores merecem lugar de destaque.

O professor, como o artista, o filósofo e o homem de letras, somente pode realizar adequadamente o seu trabalho caso se sinta como indivíduo dirigido por um impulso criador íntimo, e não sentindo-se dominado e agrilhoado por um autoridade externa. É muito difícil de encontrar-se, em nosso mundo moderno, um lugar para o indivíduo. Pode ele subsistir no alto como ditador num Estado totalitário ou como magnata plutocrático num país de grandes empreendimentos industriais, mas no reino do espírito está se tornando cada vez mais difícil preservar-se a independência das maiores forças organizadas que controlam as existências de homens e mulheres. Caso se queira que o mundo não se veja privado do benefício a ser auferido de seus melhores espíritos, terá ele de encontrar algum método que lhes permita, apesar da sua organização, escopo e liberdade. Isso envolve uma abstenção deliberada por parte daqueles que dispõem do poder, bem como uma percepção consciente de que há homens aos quais se deve dar liberdade de ação. Os Papas da Renascença puderam sentir desse modo com respeito aos artistas renascentistas, mas os homens poderosos de nossa época parecem experimentar maior dificuldade em sentir respeito pelas criaturas dotadas de talento excepcional. A turbulência de nossa época é inimiga da fina flor da cultura. O homem da rua acha-se cheio de medo, não se sentindo, portanto, disposto a tolerar liberdades que não lhe parecem necessárias. Talvez devamos esperar tempos mais tranqüilos, antes de que as reivindicações da civilização possam de novo vencer as reivindicações do espírito partidário. Entrementes, é importante que ao menos alguns continuem a perceber as limitações, pela organização, do que pode ser feito. Todo sistema deveria permitir saídas e exceções, pois, se não o fizer, acabará, no fim, por esmagar tudo o que há de melhor no homem.

(Texto escrito pouco depois da Segunda Grande Guerra, pelo filósofo e matemático inglês Lorde Bertrand Russel).

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

CORRUPÇÃO TRANSPARENTE

O mais recente escândalo do regime lulista – o dos cartões corporativos – tem provocado reações de oposicionistas pregando mais transparência como antídoto à roubalheira. Apenas para recordar o bom Aurélio, transparência é a qualidade do que é transparente, ou que se deixa atravessar pela luz. Em sentido figurado é aquilo que deixa perceber um sentido oculto. Enfim, refere-se ao que é evidente e claro. Em vista dos inumeráveis exemplos que a grande imprensa divulga quase todos os dias (a respeito das práticas de Lula e da respectiva companheirada), se há algo de que não se pode reclamar do petismo é justamente a transparência. As falcatruas são feitas a céu aberto. Parece, mesmo, que há um propósito deliberado de se cometer transgressões à vista de todos, como a afronta de Absalão a Davi, estuprando quatro de suas mulheres em público. Tem-se a impressão que o objetivo final é a desmoralização das estruturas normativas vigentes. Um cinismo militante de grande eficiência solapa a base dos valores que fundam o ordenamento social.

Se algum ingênuo denuncia atos de corrupção, qual a resposta oficial? Dizer que outros também se corromperam, como se os crimes passados justificassem os crimes presentes. Digamos que uma pessoa escravize um semelhante. Que pegue um afro descendente ou uma afro descendente (para ser politicamente correto, como os tempos exigem), e os coloque num tronco, dando-lhes periódicas boas chibatadas. Se questionado por alguém poderá responder (adotando o espírito do lulismo), que escravidão é normal, que é um ato comum, que sempre se fez assim em outras épocas. Poderia, até, lançar uso da resposta padrão dos delinqüentes atuais quando pilhados em flagrante: “estou tranqüilo!” e tudo ficar por isso mesmo. O professor Delúbio, aliás, com a sapiência filosófica que costuma cercar os matemáticos, definiu bem o destino final das denúncias comprovadas do mensalão. Segundo ele, tudo acabaria virando piada de salão! Gostemos, ou não, do diagnóstico não se pode deixar de aplaudir esta cintilante verdade. O PT é, de fato, o partido dos humoristas. Mas de humoristas masculinos, frise-se. As mulheres petistas, não se sabe se devido à influência lunar nos seus humores, ou por algum defeito genético, apresentam-se sempre em público com carantonhas de mau humor. Alguém já viu covinhas meigas em sorriso claro da parte da ministra Dilma? Ou a pavorosa senadora Ideli Salvatti expressando, feliz, alegre manifestação no seu semblante? A máscara mortuária de algumas de melhor catadura, como a ministra Suplicy, parece congelada, embebida em toneladas de botox. E a cara de cachorro-que-quebrou-o-pote da ex-ministra Matilde quando denunciaram a farra dos cartões corporativos? Fazendo pose de humilde a madame esconde suas altas qualificações pessoais e institucionais, a fim de obter comiseração pública. No entanto, ela não era nenhuma "maria ninguém". Era, sim, uma mulher poderosa. Foi membro destacado da cúpula que compunha a Comissão de Programa de Governo de Lula, em 2002, ao lado de Palocci, Marco Aurélio Garcia, Aloízio Mercadante, Luiz Marinho, Marina Silva, Oded Grajew, Luiz Dulci, Patrus Ananias, Tarso Genro e outros, para ficar apenas em alguns nomes notórios. Esta turma toda ainda tinha vínculos orgânicos com o Instituto Cidadania, organização fundada e dirigida por Luiz Inácio, o Lula, centro de formulação dos projetos de poder adotados pelo PT. Difícil acreditar que, convivendo lado a lado com tão experientes mandarins, ela nunca tenha ouvido falar do significado legal de peculato e das regras que devem ser obedecidas pela administração pública. Mais surpreendente neste caso de D. Matilde é o fato dela ocupar cargo ministerial por mais de cinco anos, e ainda alegar em sua defesa do indefensável o desconhecimento das leis que vigem “neste país”. Teve, ainda, a coragem de afirmar ter sido induzida ao “erro” por algum obscuro assessor. Burrice dela, portanto, não foi; covardia, alguma, por não assumir os próprios atos. O cinismo, sim, foi demasiado, ao achar que ninguém iria perceber seus crimes e, se percebesse, não faria a menor diferença, em sintonia com a doutrina que orienta seu chefe e o restante da companheirada.