segunda-feira, 11 de junho de 2018

Bolsonaro e Fernando Pessoa


Bolsonaro gosta de comparar o Brasil a países como Israel dizendo: veja o que eles não têm e o que eles são; veja agora o quê nós temos e poderíamos ser.

Num poema sem título, de 1924, Pessoa arrisca: 

"Aqui, agora, rememoro
Quando de mim deixei de ser
E, inutilmente, ...choro 
O que sou e não pude ser". 

sábado, 19 de maio de 2018

Kit passeata (Publicado em OTEMPO, de 17-05-2018)




Talvez seja uma espécie de amarga tradição ou, talvez somente uma infortunada coincidência ou - quem sabe? – uma singela sinalização a respeito do futuro que nos espera.  O fato é que no intervalo de pouco mais que uma geração (1979 e 2018),  professores mineiros foram  recepcionados da mesma maneira pelas forças repressivas em Belo Horizonte: com empurrões e com jatos d’água, em truculenta resposta às suas principais reivindicações.

Professores da educação básica, em geral, pedem três coisas às autoridades de qualquer nível às quais estão subordinadas: condições de trabalho, dinheiro e segurança. Algo absolutamente razoável sob qualquer ponto de vista.


Naquele já longínquo ano de 1979 o governador era Francelino Pereira e Paulino Cícero o Secretário Estadual de Educação (é bom memorizar o nome dos mandões). Pedia-se aumento salarial. Como nos dias que correm, os cofres estavam vazios, alegavam os então Secretários da Fazenda e da Administração. A prefeitura da capital, mera extensão política do Estado, pouco podia fazer para os seus. 

Hoje é diferente. As instâncias locais e regionais possuem competência relativa dentro do pacto federativo. Quanto ao papel desempenhado pela Polícia e Bombeiros militares, sob o comando do governo estadual, naquela época e agora, vale lembrar que só atuam cumprindo ordens, em estrito respeito às normas da disciplina e da hierarquia. Quem, portanto, acionou, à distância, o gatilho dos canhões de água gelada contra homens e mulheres indefesos não foram os policiais; os responsáveis são os dirigentes, portadores da caneta que assinou as ordens.


Nos velhos bons tempos de explícita e corajosa solidariedade, professores da UFMG convocaram greve em apoio aos docentes reprimidos e humilhados da rede estadual. Agora, não se ouviu mais que um silêncio obsequioso ou, no máximo, algum leve rosnado pra dentro, vindo das estruturas educacionais aparelhadas pelo petismo pois, afinal, há importantes interesses que não podem ser comprometidos, caso a corda venha a ser esticada ao ponto de ruptura. 

As boquinhas, conforme diria Garotinho, não podem ser ameaçadas por situações tão banais. Há quem diga que as mestras até apreciaram o banho involuntário.


Na próxima passeata, professoras incorporarão ao kit passeata – composto de bandeiras da CUT, do PT e dos seus puxadinhos, apitos e megafones – um vistoso maiô listrado de preto e branco, em homenagem simultânea ao demiurgo recolhido na cadeia de Curitiba, um sabonete e uma toalha. Tudo acabará, então, como festa em alegre confraternização da companheirada. É pedagógico recuperar as palavras de Lula da Silva ditas aos professores enxovalhados, no calor dos acontecimentos, quatro décadas atrás: “A luta de vocês é de todos os trabalhadores brasileiros”. Agora, não mandou nem um bilhetinho. Carta, então, nem pensar. Seu furor epistolar está voltado para o juiz Moro.

Ai de Bolsonaro se fosse ele, ou algum de seus adeptos ou simpatizantes, os responsáveis pelo covarde canhonaço d’água lançado contra as mestras. O mundo cairia abaixo: machista, sexista e outros adjetivos que tais. Seria o mínimo a se esperar. Vejamos o que outubro próximo nos reserva. 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Israel

No último 14 de maio foi comemorada a criação do estado de Israel, ocorrida há 70 anos, em 1948. Tal fato histórico foi um dos desdobramentos da pavorosa guerra mundial, que cobrou do povo judeu um altíssimo preço. Coroou o esforço de gerações de sionistas que lutaram pelo direito a um lar nacional judeu (prometido desde 1917, conforme explicita a Declaração Balfour, então ministro da Grã-Bretanha). 
O movimento sionista - daqueles que defendiam a imperiosidade da migração para o território que abarcava, sob mandato inglês, o milenar local onde florescera a civilização judaica, também conhecida como Palestina. Ali conviviam, desde tempos imemoriais, povos de diferentes extrações, entre eles bom número de judeus sefarditas e de turcos otomanos, que dominaram a região por vários séculos. No Direito vigente em Israel está a prova da força da presença otomana. Ainda hoje são válidas normas jurídicas elaboradas pelos turcos. Sefarditas (judeus de origem ibérica que falavam o Ladino), que viviam em países sob dominação turca - como na Bulgária - chegaram a patrocinar a migração em massa para o território sob mandato britânico, conforme relata Elias Canetti, muito antes das fugas para escapar da barbárie nazista. Canetti também nos conta que importantes intelectuais judeus - como Kafka e o Dr. Sonne - também eram adeptos do sionismo, em vez de se alinharem com os que defendiam a integração junto às populações majoritárias da Europa.
Apreciando o curso da história judaica não há como ser contra a existência de Israel. Dentre outras e respeitáveis razões, está sua luta defensiva contra vizinhos hostis e traiçoeiros. Esta é demonstração da tenacidade e talento de um povo que não luta só por si; seu esforço está na própria base da civilização ocidental. 
Cabe observar, por último, que Israel é a única e verdadeira democracia naquela região do oriente. Os outros países são tiranias sanguinárias, ou monarquias hereditárias ou, mesmo, teocracias infensas a qualquer chamado da razão.    

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Versos íntimos (Augusto dos Anjos)




Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

As damas pacíficas do PT (adaptado do blog de Polibio Braga)



"Fascistas têm de morrer, um a um, e me inscrevo para essa missão", escreveu bem assim a professora e doutora Rejane Barreto Jardim, coordenadora do Laboratório de Estudos Feministas da Ufpel, Pelotas, RS. A Ufpel é pública, mantida com dinheiro dos contribuintes, o que quer dizer que nós pagamos os salários de Rejane para que ela nos ameace de morte. Ela também é professora de História Medieval.

"Morte aos fascistas !", apela aos seus correligionários lulopetistas a doce professora Regina, ao se referir a todos os patriotas brasileiros que defendem a prisão do réu condenado por corrupção Lula da Silva. O Estado Islâmico já tem quem o represente no Brasil.

Leitores que acompanham os posts de Rejane Barreto Jardim, compartilharam do discurso de ódio, sobretudo quando ela escreve:

- Meu ódio é revolucionário e é ódio de classe, sim. Odeio burguês. E você, cuide-se para saber de que lado está".

Obs: Marilena Chauí também odeia a classe média...

Perto de tais senhoras, Jair Bolsonaro é apenas um bom samaritano. Aliás, ai do Bolsonaro se ousasse se expressar de tal maneira.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Lula e a schadenfreude


O recolhimento de Lula da Silva à prisão parece ser o destino inevitável, e tardio, de uma biografia repleta de incidentes condenáveis. Ninguém se torna delinquente após chegar à presidência da república; ao contrário, ocupar a primeira magistratura é tão somente a oportunidade de aperfeiçoar aquilo que já vem, no essencial, constituído previamente. 

Itamar Franco, por acaso, foi um sujeito corrupto? e Juscelino? e Jango? e Getúlio? para ficar apenas em alguns nomes emblemáticos da história brasileira. Isso para não falar dos presidentes militares, sob cujos ombros pesaram estrelas, jamais a pecha de desonestos, essa virtude burguesa considerada coisa de fracos e moralistas que não sabem o que é o poder e o significado de seu exercício. 

Acusações graves à elite política, já fartamente tornadas públicas, apenas no período lulopetista, no qual se inscreve, também, como indissociável, o breve reinado do presidente Temer, que aparece como que acossado pela reima pegajosa de sua antecessora imediata, de quem foi vice-presidente por seis longos anos. 

A prolongada coabitação com gente do tipo de Lula ou Dilma foi desastrosa para os atuais dirigentes do país. Millor Fernandes disse certa vez que riqueza não pega, mas pobreza, sim. Parafraseando o grande humorista (e sagaz observador da natureza humana), a convivência com gente honesta pouco afeta o indivíduo; mas sentar-se à mesa com bandidos é um prelúdio de futura condenação, verdadeira tranca de cadeia.

Pois, então, Lula da Silva foi pilhado pelo aparelho judiciário brasileiro, inicialmente por suas traficâncias imobiliárias referentes a um triplex em movimentada praia paulista. Marcha, agora, célere, para a prestação de contas quanto a um sítio em Atibaia. Antes, outra negociata envolvendo outro apartamento vizinho àquele em que reside, e uma nova sede para um tal de Instituto Lula. Tudo já sobejamente conhecido por todo o povo brasileiro. Só gente sofrendo de dissonância cognitiva para não reconhecer a conduta delituosa de Lula e seus parceiros, homens de negócio como ele mesmo o é, e sempre foi, tudo amparado por irrefutável conjunto probatório a expor, à luz do sol, o vasto conjunto de piratas e corsários devotados ao saqueio sistemático da coisa pública.  

Configurando um bloco de poder composto por sindicalistas dos fundos de pensão, empreiteiros, latifundiários (curiosamente chamados de "pecuaristas"), renomados patrícios (para utilizar a classificação proposta por Darcy Ribeiro), coronéis nordestinos e banqueiros discretíssimos sob a liderança inconteste de Lula da Silva, a resultante é a materialização atualizada daquilo já visto na obra de Raymundo Faoro (Os donos do Poder), publicado há mais de 60 anos. Safos como sempre o foram, somente os banqueiros ainda se mantém longe do fogaréu onde ardem alguns dos trapaceiros pegados em flagrante. Interessante nessa articulação é o fato dos Bancos terem sido os primeiros beneficiários do regime lulista: quem chega mais cedo bebe a água mais limpa. Se houver dúvida quanto a isso basta conferir o teor do suprimido artigo 192 da Constituição de 1988, ocorrido em 29 de maio de 2003, através da Emenda Constitucional 40, a primeira promulgada no fatídico período lulopetista.

Lula está, portanto, no lugar para o qual se preparou com tão larga competência. Se em alguns brasileiros emerge um sentimento de solidariedade a ele pelo transe atravessado, a outros muitos aflora aquilo que os alemães chamam de "schadenfreude" (alegria pelo infortúnio alheio). Em vista dos fatos e dos personagens, é uma alegria justa que não desmerece a quem a sente. O passivo deixado por Lula e seus acumpliciados justifica tal avaliação da parte dos mais revoltados.

A nova saúva - Cora Rónai (O GLOBO, 12/04/2018)



"O antipetismo é o novo bicho papão dos intelectuais de esquerda. Ele acaba de ser comparado, por um amigo culto, inteligente e a quem respeito muito, ao antissemitismo na Alemanha de Hitler. Só posso atribuir a comparação ao calor do momento — vastas emoções, pensamentos imperfeitos. Mas acho que, em algum momento do futuro, serenados os ânimos, valeria à esquerda procurar, com honestidade, as origens desse suposto antipetismo, até porque é difícil encontrar a cura para um mal cuja causa se desconhece. Digo “suposto” não porque ele não exista, mas porque, da forma como vem sendo colocado, ele mais parece um movimento organizado, um conluio de vermes, o autêntico oposto de “democracia” — seja lá o que entenda por democracia alguém que defende o PT.

Ao contrário de tanta gente que denuncia o antipetismo, não tenho a menor pretensão de falar “pelo povo”, “pelos brasileiros”, “por todos nós”. Falo única e exclusivamente por mim, e já é responsabilidade que me baste. Eu detesto o PT. E detesto o PT pelo que o PT é, pelo que o PT fez e continua fazendo, e pela forma como o PT se comporta.

Não há um único fator externo ao PT embutido no meu sentimento.

É lógico que a sua intensidade tem a ver com o fato de que este é o partido que estava no poder até ontem: a crise que vivemos é, em maior ou menor grau, o resultado das suas escolhas e das suas ações. Tem a ver também com a hipocrisia do partido, que sempre se apresentou como alternativa ética aos demais, e foi incapaz de um simples pedido de desculpas à população quando se viu no centro do maior escândalo de corrupção já apurado no país.

E olhem que a corrupção do PT é, para mim, o menor dos seus males — ainda que ele a tenha elevado à categoria de arte. Meu maior problema com o PT, e com a esquerda como um todo, é a sua incapacidade de diálogo, a sua aversão ao contraditório e, sobretudo, a sua militância arrogante e patrulheira, que exige que todos se posicionem exatamente da mesma forma. Já estive em países de pensamento único e não gostei.

Há movimentos de direita igualmente obtusos e intolerantes, mas de modo geral eles se apresentam exatamente como são, toscos e primitivos. A sua embalagem é mais sincera; eles não pretendem ser “bons”, e nem falam do alto de um pedestal de virtudes.

Um dia, ainda naquela remota eleição que Lula disputou com Collor, eu estava na rua com o Millôr, e comentei com ele que, pelo visto, o Lula ia ganhar — todos os carros que passavam com adesivos eram PT. O Millôr olhou, olhou, e me disse para prestar mais atenção: a maioria dos carros simplesmente não tinha adesivos.

— Sabe o que isso significa, né?

Eu sabia. Usar um adesivo do Collor, pelo menos na Zona Sul do Rio de Janeiro, era se arriscar a ter o carro arranhado e enfrentar militantes petistas raivosos. Eu tinha passado por isso com o adesivo do Covas que havia usado no primeiro turno.

Collor ganhou a eleição sem adesivos, não exatamente com “votos envergonhados”, como o PT disse à época, mas com votos intimidados.

Lula, um militante intolerante ele também, nunca desceu do palanque. Passou todos os seus anos de presidência, e mais os da Dilma, como vítima de um complô das elites, insistindo na divisão do nós contra eles: ricos contra pobres, brancos de olhos azuis contra negros, todos contra nordestinos.

Lula, como todos sabem, é uma mulher negra da periferia; agora, ainda por cima, encarcerada.

Um candidato pode ser o que quiser, mas um presidente não. O presidente de todos os brasileiros não pode dizer que quem não votou no seu partido odeia pobres e tem horror de ver os filhos dos pobres na universidade, porque além de divisiva, essa afirmação é extremamente ofensiva.

Há uma esquerda bem intencionada que talvez não tenha percebido o quanto de ódio havia, e ainda há, nesse discurso, porque ele a põe no pedestal ao qual ela imagina ter direito e massageia o seu ego. Ele reafirma a sua superioridade moral e apenas põe os inferiores no seu devido lugar.

Mas para quem não votou no PT — e que não é necessariamente de direita, de extrema direita ou, como está na moda, “fascista” — cada declaração dessas soou como um insulto. Durante 13 anos, os 50 milhões de eleitores que não votaram em Lula ou Dilma, e que, em sua vasta maioria, são apenas brasileiros como os demais brasileiros, ouviram que eram péssimas pessoas. Qualquer política de estado era invariavelmente apresentada como um desafio à sua intrínseca maldade: apesar de vocês, que não votam no PT, os pobres vão ter saúde, vão estudar, vão ter moradia e dignidade.

Como se qualquer ser humano, por não petista que seja, pudesse ser contra isso.

Cinquenta milhões de eleitores foram sistematicamente agredidos e desumanizados pela retórica de Lula e pelo “ódio do bem” da esquerda; agora não suportam o PT.

Mas por que será, não é mesmo?"