quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Adélio Bispo Ravaillac: de quem é o braço que operou o punhal?

François Ravaillac: vida e infortúnio

(Origem: Wikipédia)
 


Nascimento:1578    



Morte
27 de maio de 1610 (32 anos)
Paris


Ocupação
Causa da morte


François Ravaillac (Angoulême, c. de 1577Paris, 27 de Maio de 1610) foi o assassino de Henrique IV, Rei de França, em 14 de Maio de 1610.

Biografia

A família Ravaillac estabeleceu-se em Angoumois no início do século XVI e possuía em Angoulême, desde esta época, escritórios de política através dos quais muitas famílias burguesas chegaram inicialmente a cargos públicos ou judiciários e depois até mesmo à nobreza.

François Ravaillac começa sua vida primeiramente como servidor e a seguir torna-se professor. Muito religioso, tenta entrar na Ordem dos "Feuillants". Seu noviciado fracassa devido a suas "visões". Tenta então entrar para a Companhia de Jesus em 1606, não sendo aceito por já ter pertencido a outra religião. 

Em 1609, tem uma visão ordenando que convença Henrique IV a converter os huguenotes. Incapaz de encontrar-se com o rei, interpreta a decisão real de invadir os Países Baixos Espanhóis como o início de uma guerra contra o Papa.

O Assassinato de Henrique IV

Em 14 de Maio de 1610, Ravaillac rouba uma faca dum albergue. Esconde-se na Rua de la Ferronnerie, em Paris (no atual Quartier des Halles; as armas de Henrique IV, esculpidas no chão, indicam hoje o local exato do regicídio). Aí espera pela passagem da carruagem real, já que o rei havia decidido dirigir-se ao Arsenal para visitar seu ministro Sully que estava enfermo.

Às quatro horas da tarde, o rei chega. De repente, o cortejo fica bloqueado devido a um congestionamento. Haviam duas carroças bloqueando a passagem: Ravaillac aproveita a chance e atira-se sobre o rei. Dá-lhe dois golpes de faca: o primeiro desliza entre duas costelas, o outro atinge a carótida direita.

Ravaillac descreveu desta forma em seu depoimento: "Procurou o Rei no Louvre...ao vê-lo sair do coche, seguiu-o até os Inocentes, perto do local onde outrora o encontrara fortuitamente, quando ele não lhe quis falar, e vendo seu coche detido por causa de umas carroças, Sua majestade no fundo voltando o rosto e inclinando para o lado do Duque de Epernon, deu-lhe uma punhalada nas costas passando o braço por cima da roda do coche".

Ravaillac refugia-se em seguida em um porão na Rua des Lombards, bem próximo ao local do atentado,[2] mas é rapidamente encontrado e subjugado. É levado ao Hôtel de Retz para evitar um linchamento e conduzido à Conciergerie.

Após a morte do Rei Henrique IV, tido como o "bom rei", a França é tomada por um sentimento de comoção. A população se volta fortemente contra o regicida, intentando prosseguir com sua vingança. Ravaillac, por sua vez, tem a tranquila serenidade dos justiceiros, assumindo atitude que o acompanhará durante todo o processo, mesmo diante dos suplícios mais tenazes a que seria submetido.[3]

Processo, tortura e execução

Fato a se destacar é que nas monarquias de direito divino, a exemplo da Francesa, o monarca era considerado como o pai de todos os seus súditos. Logo, o regicídio contra Henrique IV também se reveste de parricídio. O interrogatório e o processo, por essa razão, demandavam celeridade e rigidez, a fim de oferecer respostas à população enlutada e de dar exemplo acerca das consequências que se destinariam a alguém que cometesse esse tipo de crime. Os principais objetivos dos interrogatórios foram descobrir as motivações e os eventuais cúmplices do ato.

O processo de Ravaillac vai durar somente 10 dias, o que parece pouco, ao se pensar em todos os inquéritos, depoimentos e acareações que poderiam ter sido feitos. O interrogatório de Ravaillac não serviu de fio condutor para a verdade, pois este manteve por todo o tempo sua afirmação de que agira sozinho, guiado somente por revelações da eterna providência.

Sua sentença rezava: "Foi dito que o Tribunal declarou e declara o dito Ravaillac devidamente atingido e condenado pelo crime de lesa-majestade divina e humana, em primeiro grau, pelo muito cruel, abominável e detestável parricídio cometido na pessoa do Rei Henrique IV, de muito boa e muito louvável memória. Para reparação do qual o condenou e condena a fazer penitência pública em frente da porta principal da Igreja de Paris, onde será levado e conduzido numa carroça em camisa, segurando um brandão a arder com o peso de duas libras, dizer e declarar que infeliz e premeditadamente cometeu o dito mui horrível, abominável e detestável parricídio e atingiu o dito rei com duas punhaladas no corpo, de que se arrepende, pede perdão à Deus, ao rei e à justiça; daí conduzido à praça de Grève e sobre um cadafalso que ali será erguido, lhe será aplicado o suplício das tenazes nos mamilos, braços, coxas e interior das pernas, a mão direita segurando a faca com a qual cometeu o dito parricídio será queimada em fogo de enxofre e nos sítios em que for atenazado, será lançado chumbo fundido, óleo fervente, pez ardente, cera e enxofre fundidos conjuntamente. Feito isto, seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos, os seus membros e seu corpo consumido no fogo, reduzidos a cinza e lançados ao vento."[4]

Antes do interrogatório, Ravaillac é preso à roda. A roda é girada e Ravaillac agredido. Suas pernas são esmagadas para fazê-lo falar e são feitos cortes em seu torso, braços e costas. Uma mistura de chumbo derretido, óleo, vinagre e sal foi derramada sobre seu corpo para fechar as feridas. Colocaram-lhe a seguir um culote úmido e o aproximaram do fogo. O culote encolhe, para fazer com que os ossos das pernas, já quebrados, movam-se ; toda sua pele é retirada e ele é queimado vivo. Na verdade, Ravaillac ainda permaneceu vivo e nunca confessou a existência de cúmplices em seu crime. Foi, a seguir, esquartejado por quatro cavalos.

Ao final, Ravaillac foi decapitado, seu corpo queimado e as cinzas jogadas ao vento.

Seus parentes foram condenados ao exílio e um édito foi promulgado proibindo a qualquer pessoa do reino de se chamar Ravaillac.

No extrato do texto da condenação do Grande Parlamento, tem-se:"Ordena que a casa onde nasceu seja demolida, aquele a quem pertence seja previamente indenizado sem que nas suas fundações possa no futuro ser construída outra casa. E na quinzena após a publicação da presente sentença a som de trompa e grito público na cidade de Angoulême, seu pai e sua mãe saiam do reino com a proibição de nunca mais voltarem sob pena de serem enforcados e estrangulados sem outra forma ou figura de processo. Proíbe seus irmãos, irmãs, tios e outros a usarem daqui para o futuro o dito nome de Ravaillac, ordena-lhes que mudem para outro sob as mesmas penas."[5]

Apesar de seus familiares serem condenados conjuntamente pelo crime de Ravaillac, os mesmos não foram escutados durante o julgamento. Estima-se que por uma conveniência para a celeridade do julgamento, considerando que trazer seus familiares demoraria duas a três semanas.

A sentença, além de condenar o assassino, também buscava condenar algumas doutrinas recentes que defendiam o regicídio.

Este assassinato desencadeou uma enorme polêmica. Por um lado, levantou-se a suspeita de que os jesuítas teriam incitado Ravaillac ao regicídio. Por outro lado, este ato teria sido inspirado por uma conspiração de que teriam participado Maria de Médicis (esposa do rei), Henriqueta d'Entragues (Marquesa de Verneuil) e o Duque d'Epernon; teriam agido em nome da Espanha.

A tese do complô

Em Janeiro de 1611, Madame Jacqueline d'Escoman, que havia conhecido Ravaillac, denuncia o Duque d'Epernon como responsável pela morte de Henrique IV. Por causa disso ela será jogada na prisão pelo resto de seus dias.

Em seu livro "L'Étrange Mort de Henri IV" ("A Estranha Morte de Henrique IV") (1964), Philippe Erlanger pretende que, em sua chegada a Paris, Ravaillac foi alojado na casa de Charlotte du Tillet, amante do Duque d'Epernon. Para ele, o assassinato foi "teleguiado" pelo Duque, por Henriqueta d'Entragues e por Charlotte du Tillet.

Uma análise médica atual

Segundo a maior parte dos psiquiatras que se interessaram pelo caso, François Ravaillac apresenta o perfil típico do doente esquizofrênico paranóico. Inteiramente voltado para sua idéia fixa há muito tempo, Ravaillac já teria se deslocado duas vezes de Angoulême até Paris, a pé, acreditando poder encontrar-se facilmente com o rei para dissuadi-lo de invadir os Países Baixos Espanhóis (atual Bélgica). É apenas na terceira vez que ele passa à ação.

Em diferentes momentos apresenta comportamentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que se mostrou "envergonhado" e culpado o suficiente somente pelo fato de pensar em assassinar o Rei, não se permitiu comungar na ocasião. Tal fato indicaria que talvez não fosse capaz de consumar o crime.

Provavelmente neste século XXI, ele teria sido declarado « irresponsável por seus atos » e colocado em um hospital especializado para ser tratado.[

PS: A fonte desta postagem não é lá muito rigorosa. Permite, porém, especular sobre fatos de ontem e de hoje com curiosas semelhanças. Essa questão sobre de quem seria o braço que conduziu a mão de Ravaillac - sempre se suspeitou do jesuíta - continua aberta. Como ainda está para ser esclarecida a cadeia de comando que levou um tal Adélio Bispo a apunhalar o presidente Bolsonaro, em 6 de setembro de 2018, na cidade de Juiz de Fora.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

As acusações de abuso sexual a líder religioso: outra Escola Base?

O caso da Escola Base, em São Paulo, no início dos anos 90 do século passado, expôs a dignidade e a honra do casal que dirigia aquela instituição de educação infantil. Foram acusados de praticarem atividades sexuais com as crianças postas aos seus cuidados. Há relato pormenorizado feito pelo jornalista Alex Ribeiro sobre o assunto (Cf. o livro "Os abusos da imprensa", publicado pela Editora Ática, no ano 2.000).

Acusações das mais cabeludas destruíram a vida dos donos e dos demais professores da escolinha. Ao final de todas as provações, os mestres foram absolvidos. Mas, e daí? As acusações já eram uma condenação. Não há qualquer presunção de inocência, conforme deveria ser a praxe. Caiu na boca do leão (como ocorria na antiga Roma), está ferrado.

O momentoso caso de agora - as acusações ao médium e líder espiritual de Abadiânia - sinaliza penoso prognóstico para o "suspeito" de inumeráveis crimes contra a dignidade sexual das mulheres . Para estudiosos dos crimes contra a honra, um prato cheio para bem ilustrar teses e monografias.

Freud e a psicanálise silvestre

No artigo "Psicanálise Silvestre", em que discorre sobre a má compreensão a respeito do assunto por parte de neófitos, Freud tece alguns comentários que deveriam, ainda hoje e mais que nunca, ser levados em consideração.

Procurado por duas mulheres já maduras, que lhe relataram os "conselhos" recebidos de outro médico bem jovem para uma delas, recém divorciada (voltar a conviver com o ex-marido, arrumar um amante ou, então, masturbar-se), Freud assinala, de início, que o "conceito do que é sexual vai muito além de sua posição vulgar". Tão má compreensão científica pode acarretar danos aos pacientes, bem como ao próprio médico. 

Deixemos, então, que o grande pensador austríaco fale por si, segundo conferência pronunciada em 1905:

"Longos anos de experiência me ensinaram - como podem ensinar a qualquer outro - a não aceitar de imediato como verdade o que os pacientes, especialmente os pacientes nervosos, relatam acerca de seus médicos. Não apenas facilmente se torna o especialista em doenças nervosas o objeto de muitos dos sentimentos hostis de seus pacientes, qualquer que seja o método de tratamento que empregue; ele deve também, muitas vezes, resignar-se a aceitar, por uma espécie de projeção, a responsabilidade pelos desejos reprimidos ocultos de seus pacientes nervosos. É um fato melancólico, mas significativo, que tais acusações em nenhum outro lugar encontrem crédito mais prontamente do que entre os outros médicos" (p. 207, 208 do vol. XI, das obras completas de Freud, editadas pela Imago).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Olavo de Carvalho, Santo Josemaría Escrivá e o apostolado dos palavrões

Em favor de Olavo de Carvalho, no uso de palavrões, pode-se invocar, igualmente, o insuspeito depoimento de outro santo da Igreja, o espanhol Josemaría Escrivá, agora já no século XX, quatro séculos após Santo Thomas Morus.

No ponto 850, de seus Caminhos, cultiva o por ele denominado Apostolado dos Palavrões, ao orientar jovens discípulos.

Em tom provocativo afirma o criador da Opus Dei:

"Que conversas! Que baixeza e que ... nojo! E tens de conviver com eles, no escritório, na universidade, no consultório ... no mundo. Se pedes por favor que se calem, ficam caçoando de ti. Se fazes má cara, insistem. Se te vais embora, continuam.

A solução é esta: primeiro, pedir a Deus por eles e desagravar; depois ... ir de frente, varonilmente, e empregar o apostolado dos palavrões. Quando te vir, hei de dizer-te, ao ouvido, um bom repertório".

Olavo de Carvalho e Santo Thomas Morus

O ilustre pensador Olavo de Carvalho é conhecido, também, por suas irreverências e uso de linguagem obscena.
Em seu favor pode-se avocar o exemplo de Santo Thomas Morus, mártir da Igreja , beatificado por Leão XIII, em 1886, e canonizado por Pio XI, em 1935.

Em sua célebre "Responsio ad Lutherum", o padroeiro dos intelectuais e dos professores questiona  o monge alemão por sua contestação a um tratado teológico de autoria de Henrique VIII, rei da Inglaterra. Além de usar os mais chocantes palavrões disponíveis, repete-os e, ainda, os floreia.

A justificativa dada por Morus para o emprego da linguagem chula  foi simples: responder com puras contestações eruditas à baixeza de Lutero seria conceder-lhe um honra imerecida, motivo que o levou, então, a fazê-lo nos termos a seguir.

"Enquanto continuardes a dizer essas desavergonhadas mentiras, a outros será permitido que joguem de volta na vossa boca cheia de merda, verdadeiro depósito de toda merda, a sujeira e merda inteira que vossa execrável podridão vomitou, e esvaziar todos os esgotos e privadas na vossa coroa despida da dignidade da coroa  sacerdotal, em prejuízo da qual decidistes bancar o palhaço". 

Para maiores informações, vale a pena consultar, no original, os textos do iracundo santo.

(The complete works of St. Thomas More, ed. John M. Headley, vol. V, New Haven: Yale University Press, 1969, pag. 181 ss.) 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

As funções do professor (Bertrand Russel)


A educação conduzida pelo Estado “é, obviamente necessária, mas, de maneira igualmente óbvia, envolve certos perigos contra os quais deve haver certas precauções. Os males que há a temer puderam ser vistos, em sua plena magnitude, na Alemanha nazista, podendo, ainda hoje, ser observados na Rússia. Onde tais males prevalecem, homem algum pode ensinar, a menos que subscreva um credo dogmático que poucas pessoas de inteligência livre são capazes de aceitar sinceramente. Não apenas deve ele subscrever um tal credo, mas, ainda, ser indulgente diante de abominações, abstendo-se de manifestar suas opiniões a respeito de assuntos correntes”.

Proudhon: Confissões de um revolucionário


"A ironia foi, em todos os tempos, o caráter do gênio filosófico e liberal, o selo do espírito humano, o instrumento irresistível do progresso. Os povos estagnados são todos sérios: o homem do povo que ri está mil vezes mais perto da razão e da liberdade que o anacoreta que reza ou o filósofo que argumenta. Ironia, verdadeira liberdade, és tu que me livras da ambição de poder, da servidão dos partidos, do respeito pela rotina, do pedantismo da ciência, da admiração pelos grandes personagens, das mistificações da política, do fanatismo dos reformadores, da superstição desse grande universo e da adoração de mim mesmo" (Proudhon). 


A história humana está recheada dos mais acabados exemplos do uso da ironia: Diógenes, Rabelais, Padre Vieira, Sorokin e Darcy Ribeiro, para ficar tão somente em alguns ícones do pensamento mundial. Isto para não se referir a Borges e ao maior de todos eles, Jonathan Swift. Caso a alguém seja recomendada a leitura de que “uma criancinha sadia e bem amamentada é, com um ano de idade, um alimento dos mais deliciosos, nutritivos e saudáveis, quer ensopada, assada ou cozida e, não tenho dúvidas, que ela poderá também ser preparada como fricassé ou ragout”, conforme o contido na “Proposta Modesta” do genial irlandês, correrá o risco de ser acusado de defesa e propagação do canibalismo.