domingo, 21 de agosto de 2016

Qualificação da mão de obra e contratação de pessoas com deficiência (Cláudio Sampaio, no Estadão)


A falta de qualificação de mão de obra é um grande impasse para a absorção de pessoas com deficiência pelo mercado de trabalho, falhando o Estado ao não promover políticas eficientes de qualificação desse segmento. A capacitação ainda é tímida e inadequada, especialmente se considerarmos que mais de 15% de nossa população tem algum tipo de deficiência.

Nesse passo, apesar de entidades filantrópicas se disporem a atender essa demanda, possuem consideráveis limitações orçamentárias e nem sempre estão alinhadas com as necessidades do mercado.

Boa parte das empresas oferece vagas estritamente nos setores administrativo e operacional. Isso decorre, em alguns casos, da natureza da atividade, pois na construção civil, por exemplo, seria arriscado colocar pessoas com deficiência atuando em regiões perigosas do canteiro de obra, incluindo andaimes.

Todavia, este fato não se revela decisivo para a ociosidade de vagas destinadas ao preenchimento das cotas previstas no artigo 93 da Lei nº 8.213/91, pois se as pessoas com deficiência forem treinadas de modo adequado, precipuamente pelo Estado, e encontrarem um ambiente acessível, com confiança no desenvolvimento de seus potenciais, não terão problemas em exercer funções úteis dentro das empresas.

Uma forma de promover a acessibilidade, ainda incipiente em alguns estabelecimentos e escritórios, é investir no ambiente laboral e na sua ergonomia, promovendo, por exemplo, adaptações para receber esses funcionários e torná-los efetivos no cotidiano.

As empresas que contratarem essa mão de obra especial, além de cumprir a lei, ganham maior simpatia da sociedade e de seus clientes. A responsabilidade social e trabalhista, além de ser uma demonstração de espírito humanista, tem trazido, conforme atestam vários indicadores, crescentes prestígio e visibilidade às marcas das empresas comprometidas com a inclusão.

Desta forma, a iniciativa privada tem avançado nesse sentido e não há utopia em esperar uma inclusão crescente das pessoas com deficiência no mercado de trabalho, desde que o Estado invista de modo maciço na educação e na qualificação dos detentores das mais diversas limitações.

Por fim, convém refletir sobre outros fatores que contribuem para o não preenchimento integral das cotas disponíveis, como a acessibilidade urbana, a qual ainda é ruim, em muitas cidades, para as pessoas com necessidades especiais, desestimulando-as a sair de suas casas com frequência.

Ademais, muitas vezes essas pessoas não detêm apoio de suas famílias, temerosas dos desafios do mundo externo, ou não se sentem qualificadas para enfrentar o mercado de trabalho, enquanto outras preferem receber benefícios estatais sem sujeitar-se aos desafios do cotidiano empregatício.

Assim, se aliado ao claro interesse dos empresários na mencionada inclusão, o Estado assumir, finalmente, sua responsabilidade pela educação adequada, acessibilidade ampla, nas vias públicas e no transporte coletivo, e pela capacitação profissional em larga escala, das pessoas com deficiência, teremos sim um decisivo crescimento da cidadania e da justiça social. Não pode o Estado simplesmente transferir suas responsabilidades mais básicas para o setor privado.

A crise que assolou o País nos últimos anos fechou muitas empresas e diminuiu a disponibilidade de postos de trabalho, o que, sem dúvida, impactou, proporcionalmente, as vagas disponíveis para as pessoas com deficiência. Contudo, há expectativa de superação deste momento delicado, face à qualificada gestão atual da área econômica, não havendo motivo para que se adiem a adoção de efetivas medidas de qualificação, acessibilidade e apoio a este importante segmento de nossa população.

* Cláudio Sampaio é sócio-fundador do escritório Sampaio Pinto & Advogados e Presidente da ABRAMI (Associação Brasiliense dos Advogados do Mercado Imobiliário).

O pacifismo de Stefan Zweig (Celso Lafer, no Estadão)

 


Em agosto de 1936, em sua consagradora primeira vinda ao Brasil, o escritor Stefan Zweig pronunciou no Rio conferência de larga repercussão sobre a Unidade Espiritual do Mundo. Não foi um trabalho improvisado: insere-se coerentemente na conhecida e destacada trajetória da militância pacifista de Zweig, afirmada na Europa da 1.ª Guerra Mundial. A conferência será publicada pela Casa Stefan Zweig de Petrópolis (cidade que foi sua última morada), cuja existência tanto deve a Alberto Dines, o grande estudioso da vida e da obra do escritor austríaco.

O movimento pacifista foi propulsionado pela ideia da efetivação da paz, valor que se contrapôs à tradicional glorificação de guerra, de que é exemplo a afirmação de Hegel na sua Filosofia do Direito, em que, contrapondo-se a Kant, assevera que a guerra assegura a saúde moral dos povos, que se veria afetada pela estagnação de uma paz perpétua, do mesmo modo como os ventos protegem o mar da podridão inerente às águas paradas. Organizado a partir do século 19 no âmbito da sociedade civil europeia o movimento pacifista foi uma reação aos horrores e males da guerra que atingem e afetam as pessoas.

Foram os sofrimentos da Guerra da Crimeia que levaram, com o relato de Henri Dunant e por sua ação, à criação, em 1863, da Cruz Vermelha. A percepção dos males da guerra incentivou, no plano jurídico, a realização das Conferências Internacionais da Paz em 1899 e 1907, em Haia. E impulsionou sua visualização nas artes plásticas.

Nesse âmbito, cabe evocar a obra de Otto Dix, que com a força do expressionismo reagiu aos desastres humanos provocados pela 1.ª Guerra Mundial. Estes, como se vê no olhar de Dix, foram magnificados pela surpresa, tanto estratégica quanto moral, proveniente do emprego militar dos avanços do conhecimento e da tecnologia.

Dessa surpresa Zweig se dá conta. Lamenta, na conferência, que a esperança no progresso da ciência como caminho unificador e salvador da humanidade tenha sido posta em questão, pois ela foi utilizada para despejar venenos e bombas sobre pessoas indefesas.

Zweig sabia que o meio de expressão do escritor não é o de um pintor como Dix. Por isso em sua conferência se valeu de seus instrumentos, os de um escritor com identidade própria. Encontrou assim o caminho apontado pelo padre Antônio Vieira no Sermão da Sexagésima: “O pregador há de pregar o seu e não o alheio. (...) Pregador que peleja com as armas alheias, não hajais medo que derrube gigante”.

Na peleja contra o gigante do belicismo, Zweig, para lidar com uma atmosfera envenenada por desconfiança, desarmonia e medo, recorre à alegoria bíblica da Torre de Babel, que aponta para a incompreensão como base do conflito na Terra. Babel é a grande e originária alegoria da pluralidade dos discursos e das dificuldades da comunicação entre povos e culturas. Mas, como lembra Paul Ricoeur, tradutores sempre existiram desde tempos imemoriais. A capacidade de traduzir é o fio de Ariadne que conduz o homem para fora do labirinto da incomunicabilidade. A tradução torna possível o diálogo entre culturas e a aproximação entre povos, como caminho para a paz.

É pela compreensão por meio da afirmação da unidade da cultura que Zweig vai articular o seu pacifismo. Para essa articulação estava muito bem aparelhado porque ele foi, como observou Anatol Rosenfeld, um intelectual mediador. Seguiu nessa vocação mediadora uma dimensão relevante da Europa da Cultura, no âmbito da qual, para Bobbio, “a política divide, a cultura une”, pois “a cultura é, por sua própria natureza, universal”.

Bobbio propôs uma esclarecedora tipologia das modalidades de um pacifismo ativo que ajuda a compreender as características da posição de Zweig. Observa que o pacifismo ativo pode estar voltado para os meios de evitar a guerra. É o que acontece com a busca da solução pacífica de conflitos e o desarmamento, temas das conferências de Haia. É opacifismo instrumental. Pode estar voltado para a criação de instituições que contenham o arbítrio instigador da guerra dos Estados e ensejam a paz pelo Direito. É o pacifismo institucional, de que são exemplos a Liga das Nações e a ONU.

O pacifismo ativo pode empenhar-se na lida com a conduta dos que criam as instituições e empregam ou não os meios violentos. É o pacifismo de fins, que anima os que se dedicam a promover a cultura da paz como ação pedagógica que, pelo vigor da persuasão, se empenha em instilar os méritos do seu valor.

A conferência de Zweig é um grande exemplo de pacifismo de fins. Ela mostra que se no desenvolvimento da humanidade existem terríveis retrocessos e recaídas, nunca se rompe totalmente o fio da ascensão humana. Cabe “aos donos da palavra”, os intelectuais, não duvidar da força da razão, mesmo em época em que ela se vê combalida. Não são, como ele diz no fecho da conferência, “as línguas e as montanhas e os mares que separam as pessoas, mas seus preconceitos e sua desconfiança”.

O tema recorrente de sua exposição é o de traduzir e mediar para superar o labirinto da incomunicabilidade, afirmando pela força da palavra sua confiança no potencial de um entendimento entre os povos e a cultura. “A livre admiração de valores estrangeiros não diminui a força criativa da alma.” É um antídoto ao nacionalismo de orgulho e de prepotência, propiciador da névoa tóxica da desconfiança.

As névoas tóxicas da desconfiança, da intolerância dos fundamentalismos e da violência permeiam, com suas sombras, o mundo contemporâneo. Daí a atualidade da conferência. Com efeito, como Bobbio observou, estamos num momento em que “a violência talvez tenha deixado definitivamente de ser a parteira da história e está se tornando cada vez mais o seu coveiro”. Nesse contexto, na voz de Bobbio evocando Herzen, a inteligência “pressiona terrivelmente” a tomada de posição. A conferência de Zweig responde, com talento e firmeza moral, a essa válida pressão da inteligência.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Dilma no Senado: comédia ou tragédia?


Dona Dilma, a implausível, disse que irá depor no Senado no próximo dia 29 de agosto. Conhecendo-se a criatura, ela tanto pode ir, quanto não ir. Não fará, aliás, a menor diferença para um melhor esclarecimento dos senadores e do restante do país, já convictos das culpas da delinqüente. Só acreditam nela os igualmente loucos, em especial as pavorosas parcas, Shakespeare que nos perdoe a alusão: Gleisi, Vanessa, Kátia e Fátima.  

A única coisa a temer é a púcara senhora fazer alguma presepada, transformando o pastelão indigesto em alguma coisa de aspecto trágico. Belicosa e covarde, a companheira de armas de Zé Dirceu bem pode surtar e, invocando o exemplo de Getúlio, meter uma bala na cabeça à frente de todos, criando uma tragédia para o Brasil. Que a insanidade da madame não nos leve a testemunhar gestos desse tipo. Um desmaio fingido seria aceitável. O tribufu esparramado no chão coroaria simbolicamente todo o tempo de reinado do regime lulo-petista, essa tragicomédia interminável. 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O protagonismo do STF e as fronteiras do ‘aceitável’ (José Eduardo Faria, no Estadão)


Em meu último artigo discuti o papel contramajoritário defendido para o Supremo Tribunal Federal (STF) por alguns de seus ministros, como forma de conferir efetividade à Constituição em matéria de direitos fundamentais e assegurar os direitos das minorias contra Parlamentos e governos eleitos com base na regra da maioria. Terminei indagando se seus ministros são mais preparados do que parlamentares e governantes para filtrar demandas sociais. Suscitada por uma nova e talentosa geração de constitucionalistas, que enfatizam a força normativa dos princípios jurídicos e defendem a ponderação como método de interpretação das leis, essa discussão envolve questões importantes, das quais destaco quatro.

A primeira diz respeito às implicações institucionais da criação judicial do direito. Quando dispositivos constitucionais têm a forma de princípios, que são indeterminados por natureza, como definir critérios minimamente objetivos para interpretá-los, conjugando legitimidade com segurança do direito? Ao ampliar os poderes político-normativo dos juízes, as intervenções extensivas permitem aos tribunais expandir seu campo de atuação, o que tende a criar tensões institucionais.

A segunda questão trata do alcance da representatividade do regime democrático. Por causa do poder econômico no financiamento eleitoral, de pressões corporativas e da apropriação de verbas públicas por certos grupos, esses sistemas não representariam a vontade majoritária da população – entendem os neoconstitucionalistas. Com isso os partidos estariam cada vez mais desconectados da sociedade civil, levando-a a encarar a política com indiferença e desconfiança. Assim, ao invalidar um ato do Legislativo, o STF neutralizaria os vícios de representatividade agindo de modo contrarrepresentativo – concluem.

A terceira questão parte do déficit democrático da representação política. Segundo os neoconstitucionalistas, a crise de legitimidade do Legislativo permitiu a expansão do Judiciário, levando-o a se tornar mais sensível aos anseios sociais do que os canais encarregados de promover agregação de interesses e tomar decisões coletivas. Assim, a sociedade se identificaria menos com os parlamentares e mais com os magistrados, que seriam imunes ao populismo.

A quarta questão trata do que chamam de “substantivação” do conceito de democracia. Para eles, a democracia não se limita à regra de maioria e ao papel legislativo dos Parlamentos, implicando um aumento do peso político do Judiciário. Se os Parlamentos são legitimados pelo voto, a Justiça seria legitimada por um processo discursivo ao fim do qual são explicitadas as razões das decisões tomadas – afirmam. O problema é que, ao recorrer muitas vezes a argumentos extrajurídicos e a juízos de oportunidade não deduzidos das leis interpretadas, os juízes podem construir regras distanciadas das diretrizes gerais da ordem legal. E quanto mais se apegam a princípios e doutrinas muito amplas, mais tendem a extravasar os limites dos casos concretos sub judice. Com isso o Judiciário deixa de operar com base na legalidade e imparcialidade, convertendo-se numa instituição que decide com critérios políticos – e a politização judicial implica parcialidade e protagonismo.

Esses argumentos são polêmicos, por entreabrirem uma visão romantizada das virtudes da magistratura e da Justiça. Faz sentido a afirmação de que juízes podem ter, com base no título de Excelência, mais representatividade que quem ascendeu a um cargo legislativo ou executivo com base no voto popular? É aceitável e democrático que um grupo de juízes possa tomar decisões morais e fundamentais em nome de todos ou criar leis que a maioria dos cidadãos terá dificuldades para mudar? Por mais problemas de representatividade que apresente, o Legislativo permite críticas, protestos e vetos, atuando como um mecanismo de desocultação, vigilância e impugnação. São características opostas às do Judiciário, cujos membros sacralizam o princípio da autoridade, cultivam um discurso incompreensível para os leigos e não admitem críticas. O boneco que imitava um ministro do STF, por exemplo, foi classificado pelo presidente da Corte como “inaceitável atentado à credibilidade do Judiciário”.

Alguns neoconstitucionalistas advertem para a arrogância a que os magistrados estão sujeitos. Mas o fazem com indulgência, lembrando que, enquanto parlamentares têm mandatos e muitas vezes negociam favorecimento a interesses particulares em troca de financiamento eleitoral, juízes não precisam fazer concessões, por terem garantia da vitaliciedade. Alegam ainda que, como o acesso à corporação se dá por concurso, os juízes viriam de diferentes segmentos sociais, o que lhes daria a representatividade para interpretar melhor a vontade da sociedade.


Esses argumentos pecam pela excessiva idealização da magistratura, como se seus membros fossem anjos, arcanjos e querubins. Dizer que o STF é essencial para a democracia é correto. Alegar que ele pode corrigir omissões dos outros Poderes também é correto. Afirmar que sociedades complexas exigem formas abertas de raciocínio jurídico, estimulando os juízes a incorporar em suas decisões o respeito ao princípio da dignidade humana, é correto. 

Reconhecer que o STF assume algum protagonismo quando enfrenta problemas de antinomias jurídicas é aceitável. Mas enfatizar que interpretações contramajoritárias e contrarrepresentativas dão “potencialidades civilizatórias” aos juízes é temerário. Principalmente se lembrarmos as conversas telefônicas em que um ex-presidente da República cobrava alinhamento político de ministros que indicou para o STF ou do número de magistrados que o CNJ já afastou por desvio de função. Entre os neoconstitucionalistas, há quem diga que são poucas as decisões do STF que ultrapassaram a “fronteira aceitável” do bom senso e do respeito à Constituição. Não é o número dessas decisões que preocupa, e sim os precedentes abertos.

"A luta do João é a de muitos" (Olivia Byington, no Estadão)


A decisão de Olivia Byington de relatar suas experiências, muitas delas dolorosas, em O que é que Ele Tem? (Objetiva), não veio de uma hora para outra. Foi preciso “muito músculo”, diz ela, para tirar essa história que veio “de dentro para fora”. No livro, Olivia fala sobre a maternidade e sua relação com o filho João, portador da rara Síndrome de Apert. Um grande relato de resiliência que reforça o coro dos grupos de mulheres que lutam por direitos de inclusão de seus filhos com deficiência.

“Estou afogada em reações amorosas. Amores de pessoas maravilhosas, ONGs, grupos de apoio. Gente inteligente, engajada. Acredito que tudo faz parte de uma turma que trabalha por uma humanidade melhor”, contou a cantora em entrevista à repórter Marilia Neustein. “Toda criança com deficiência se beneficia convivendo em sociedade e também a sociedade inteira se beneficia dessa convivência. É uma mão dupla de bons frutos”, completa.

A luta contra o preconceito e a busca por boas políticas públicas nessa área só fizeram com que ela se engajasse ainda mais na causa: “O preparo para lidar com as crianças com deficiência tem que começar já ao sair da maternidade. Tem que haver um empenho enorme nisso”. Abaixo, os melhores trechos da entrevista.

Seu livro é, entre outras coisas, um relato de resiliência. Como foi a decisão de escrever e por que agora?

A vida foi me empurrando para escrever esse livro. Não foi muito planejado, nada de fora pra dentro. A decisão veio com o apoio do Daniel, meu marido. Ele me ajudou a ter esse “músculo” pra seguir nessa história.

Foi um processo difícil?

Não teve nada muito fácil ao escrever esse livro. Não só pelo assunto, mas também pelo fato de eu não ser escritora e de ter que me debruçar sobre algo delicado e doloroso para mim. O maior desafio foi achar o tom, para não ficar algo ressentido, pesado, piegas ou negativo. São muitas as armadilhas em que podemos cair ao falar de um sofrimento.

Fez isso como um desabafo?

De uma certa maneira, sim. Mas, no fim das contas, esse livro não é um acerto de contas. Não quero punir ninguém, não sou dona da verdade e errar é muito humano. E tem ali no livro algo que eu sei que é um julgamento da minha parte. É quando eu divido as pessoas entre as que gostavam do João e as que não gostavam. Mas isso é uma característica minha, não só em relação ao João. Sou assim.

Como foi a reação do João à ideia do livro? 

Ele acompanhou. Mesmo sem ter o hábito de ler – o único aqui em casa que não pegou o amor pela leitura–, todo dia, às vezes depois do jantar, eu lia um pedaço do livro para ele. E procurei ler partes das quais eu sabia que ele ia gostar muito, nas quais eu estava louvando o melhor dele. E ele viu algumas entrevistas também sobre o seu nascimento e eu disse: ‘Viu, João, ainda bem que eu passei por isso e que você é essa pessoa tão legal’. Reforçando a felicidade que eu tinha de estar com ele, sabe?

Como tem sido o retorno de outras mães e leitores sobre o livro? Tem recebido feedback?

Estou afogada em reações amorosas. Amores de pessoas maravilhosas, ONGs, grupos de apoio. Gente inteligente, engajada. Acredito que tudo faz parte de uma turma que trabalha por uma humanidade melhor.

Acredita que há uma união em torno da causa? 

Sim, porque a luta do João é a mesma luta de muita gente. É por igualdade, inclusão, antipreconceito. É a mesma luta do LGBT, dos negros, das mulheres. São as minorias. E é impressionante como existem pessoas luminosas que estão a fim de investir no ser humano. Então, o livro tem me dado isso, tem me dado esse prazer.

Você falar sobre a inclusão como uma forma de aprendizado para todos. 

Sim. É preciso dar voz, legitimidade e dizer para a sociedade: “Olhe para essas pessoas porque você vai ser melhor”. No livro explico um pouco quanto toda criança com deficiência se beneficia convivendo em sociedade e também como a sociedade inteira se beneficia dessa convivência. É uma mão dupla de bons frutos. Porque se aprende a lidar a com a diferença. Você aprende a aceitar e a não ter cerimônia com aquilo também. Pois, às vezes, também a pessoa não tem preconceito, mas não sabe como se aproximar.

Sente que há um certo tabu?

Sim. Algumas pessoas ficam sem jeito, não sabem o que falar e acabam falando que essas crianças são abençoadas. Eu detesto ouvir isso, sabe? “Você é uma pessoa premiada”. Não sou, não. Ou “seu filho é um anjo”. Não é anjo. Anjo não faz fisioterapia. Essas crianças com deficiências são pessoas que precisam da gente, de muita dedicação, carinho, tolerância e precisam que todo mundo aumente o coração. E aumentar o espaço no coração só é bom.

Você fala muito também de como a convivência com seus outros filhos foi boa para todos.

Criança é muito engraçado. As pessoas acham que ela vai ter medo do diferente, mas criança tem muito mais criatividade para entender a diferença. Ela aceita, pergunta o que é, tem curiosidade. Tenho certeza de que, aqui em casa, todo mundo se beneficiou muito da convivência com o João, porque todos têm um tremendo orgulho dele. O João sempre esteve presente em todos os momentos, nunca ficou de fora de nenhuma atividade familiar ou de amigos meus.

Como vê o trabalho de políticas públicas que vem sendo feito nesse sentido?

Está completando um ano a Lei da Inclusão, assinada pela Dilma no ano passado, que entrou em vigor agora. Neste momento, existem 16 mil crianças no Rio beneficiadas pela lei, só que a Secretaria de Educação do Rio não contrata os 12 mil profissionais de apoio à educação que já fizeram o concurso. E eles não contratando, não liberam a verba. Então só temos 100 trabalhando. É um absurdo. Porque essas crianças são incluídas e têm que ser cuidadas. Elas têm que ter esse profissional, material para trabalhar. Não adianta só assinar a lei e botar inclusão e depois disso falar “ah não, já tem uma lei lá no Brasil pela qual você não pode rejeitar um aluno na escola”. A luta é muito maior.

Acha que o livro pode ajudar nesse debate?

Sim, estou ouvindo muita gente e as pessoas têm me agradecido por falar sobre o assunto, não apenas ter escrito. Não se trata apenas da Síndrome de Apert, existem inúmeras síndromes.

Por falar em inclusão, como você reagiu ao impacto das crianças microcefalia? O que diria a essas mães que, muitas vezes, estão sozinhas?

Tenho uma profunda empatia com esses assuntos. Tem que haver essa consciência, é a primeira coisa, e o Estado tem que tomar conta disso, né? Não tem jeito. A primeira coisa é a informação. Muitas pessoas não sabem do que se trata. Depois trabalhar isso no SUS. Na Inglaterra, que é referência no tema, quando a criança nasce com Síndrome de Down, por exemplo, no hospital a mãe é abordada com um kit e um discurso para lidar com aquela informação. Na primeira semana ela já vai a uma reunião com mães com crianças com Síndrome de Down. Isso é um preparo que tem que começar já ao sair da maternidade. Tem que haver um empenho enorme nisso. E acho que os homens que abandonam essas crianças têm que ser punidos. Obrigados a ajudar.


No livro você narra um episódio grave, que foi uma violência que você sofreu quando tinha 18 anos. Como vê a nova primavera feminista?

Eu estou completamente dentro dessa primavera. Escuto muito as pessoas falarem que as feministas são chatas Eu acho que chato é quem não quer ouvir que uma mulher é estuprada a cada 15 minutos no Brasil. Chatas e desagradáveis são essas pessoas que não querem falar nesse assunto, querem negar isso e continuar no passado, e realmente, com isso, dando força pra um País onde a violência doméstica é praticada todos os dias. Temos aí uma luta inglória pela frente. É uma luta muito forte, de todos nós. E eu fico muito chateada porque percebo que, no mundo, tem muita mulher que não vê isso.

sábado, 13 de agosto de 2016

Adega de Lula


Aventureiros tomaram o Brasil de assalto depois da eleição presidencial de 2002. A manobra já vinha se estruturando ainda nos estertores do regime militar, a partir da captura de posições de poder dentro dos sindicatos e da própria administração governamental, sem falar no mundo acadêmico e nos meios de comunicação de massa.

Capitaneados por um bando de famílias inescrupulosas, herança irremovível do bragantismo, conforme dizia Manoel Bomfim, os saqueadores foram se estabelecendo no coração do Estado. Rapinantes bem treinados em disputas sindicais, avançaram gulosamente sobre o erário ao longo dos anos. 

Com a eficiência e letalidade de uma blitzkrieg chegaram a fazer crer que eram irremovíveis dos lugares que ocuparam no cenário nacional. Somente alguns, muito poucos, apostavam que um dia essa quadrilha de infinita ousadia cairia de podre do seu pedestal. Incapazes de produzir algo que se acrescentasse ao patrimônio do povo brasileiro, devotaram-se àquilo em que são efetivos profissionais: o saqueio e o consumo, num gigantesco potlach destrutivo. 







Esse traço orgiástico de queima de riquezas pode ser apreciado nas imagens da adega de Lula da Silva. Afora a breguice flamejante, também incurável, pois que somente a cultura permite superá-la, chama a atenção o envolvimento da mais fina elite empresarial com arrivistas vulgares e gananciosos. Verdade que diálogos e textos que vêm sendo divulgados denotam o mais profundo desprezo dos grandes empreiteiros pelo estilo de viver de Lula e família, cuja voracidade era igualmente objeto de escárnio geral. 

Tais parvenus, conforme os denominava Karl Marx, já estão sendo jogados na vala da história. Aliás, na vala de monturos, pois lixo deve mesmo ser enterrado. Os cuidados que exigem atenção redobrada, porém, remetem ao chorume resultante da decomposição das matérias serosas. Os pesadelos, felizmente, caminham a passos largos para o fim. Lula, nunca mais!     

Da mesma laia (publicado em O Tempo, de 28 de novembro de 2009)

"Os outros presidentes são todos da mesma laia!" O autor da frase é ele mesmo. Sim, é ele, o atual presidente da República, Lula da Silva, que assim se referiu aos seus antecessores em evento recente na capital mineira. Nem é preciso ir a um dicionário para saber que laia é uma palavra depreciativa sobre alguma característica comum a um grupo de pessoas. Mais do que um arroubo eventual em linguagem de sarjeta, no entanto, a assertiva presidencial mostra ao grande público a forma habitual de pensar de um homem carente de qualquer estofo espiritual. Carência, aliás, não só dele, como, também, daqueles que o cercam e o seguem caninamente.

Não é de se estranhar, então, que a vulgaridade esteja mais presente em sua língua do que a própria saliva. A coleção de desatinos daria para fazer um dicionário político-pornográfico. Do ponto de vista político, a forma lulesca de conceber o mundo (dividido, segundo seus acólitos, entre "nós" e "eles") mostra a incrível persistência de uma concepção de origem stalinista, mesmo após aquela sangrenta ditadura comunista ter-se dissolvido no tempo.

Pois não é que Lula, Zé Dirceu e Dilma (para ficar apenas nos nomes mais notórios) desenterraram do museu das perversões históricas a teoria de Jdanov? Esse tal de Jdanov, ex-ministro da Cultura do regime soviético, dizia que o ambiente político se dividia em dois campos: os que estão conosco e os outros que, certamente, não estando conosco, estão contra nós.

Assim, quem estiver "conosco" pode ser o maior patife, o maior gângster ou o maior canalha que, apesar disso, será acolhido no ninho (deixam de ser piratas para virarem corsários do rei). Estão aí os nomes emblemáticos de Sarney, Maluf, Calheiros, Jáder Barbalho e toda a turma do mensalão.

Essa gente primitiva reduz o mundo, portanto, a duas possibilidades antagônicas: se não é preto, é branco; se não é amigo, é inimigo; se não é crente, é descrente. A rigidez mental os leva a praticar, ao longo da vida, os maiores desatinos, inclusive a tortura e o assassinato em massa. Não possuem qualquer limite. Estão aí para o demonstrar os exemplos do dia a dia. A própria corrupção do governo Lula, com sua frondosa cleptocracia, é uma herança ideológica do stalinismo, conforme se observa na estrutura similar da Rússia atual, ainda marcada pelos hábitos de Stalin.

Não é algo fortuito: é parte de um sistema, de um modo bárbaro de ver e de viver. Nada diferente de Hitler e similares que povoaram a história humana. Quem duvidar se ponha a ler as manifestações de Zé Dirceu, Dilma e de outros asseclas conhecidos que os seguem e defendem.

O propósito deliberado desses liberticidas é implantar nos trópicos uma imitação barata e tardia dos regimes totalitários de outrora. O culto à personalidade, ao estilo stalinista, é apenas a parte visível do processo. Tem o resto.