Biodiversidade (Vittorio Medioli)
Um crítico das ações e posicionamentos adotados por Vittorio Medioli, fundador do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, afirmou a seu respeito:
“Enquanto portador de um método de análise sistêmico da complexidade,
observa-se em Medioli sua indiferença e completo distanciamento, quando não
hostilidade, sobre a fundamental questão da sobrevivência dos ecossistemas
integrados como base da vida na Terra, da economia e da política. O escritor,
pela sua capacidade e posição, poderia ajudar a construir essa ponte tão
necessária à superação dos desequilíbrios socioecológicos atuais, que nada têm
a ver com a recente conferência de Paris baseada no comércio de créditos de
carbono e monoculturas com exportação de commodities”.
Respondendo à atrevida formulação, o ex-deputado do PV, assim escreveu o que segue abaixo.
"O estímulo para entrar no assunto de hoje está aí acima" (ponderou o ilustre empresário e genuíno praticantes das artes ambientais, na sua costumeira coluna publicada no jornal O Tempo, todos os domingos).
"Ecologia e preservação são uma religião que pratico em silêncio, com gestos e
exemplos práticos, atendendo o chamado da minha consciência e do ensinamento
que recebi por mestres que me educaram. O ambientalismo no Brasil está sendo
monopolizado por fariseus na porta do templo.
A natureza é o encantador presente de Deus, Sua Manifestação. Assim a sinto e a
respeito.
Ensinei as minhas filhas, já com quatro anos de idade, a considerar os passeios
na praia e os mergulhos ao fundo do mar como um dever de recolher resíduos que
os incultos despejam na natureza e nas águas.
Passamos férias inteiramente dedicadas a catar lixo. Minhas filhas tiveram a
alegria de devolver prazer aos olhos de pessoas sensíveis e vida melhor aos
animais. Sentimos juntos um prazer suficiente a si mesmo, importante como
qualquer dever cumprido. Em silêncio, em comunhão com a natureza, tão rica de
forças incalculáveis.
Aos domingos, quando caminho à beira da lagoa da Pampulha com minhas cadelas,
recolho descartes que as pessoas deixam cair, os coloco nas lixeiras com muita
alegria. Sou um gari por prazer, sem me sentir bobo. Em 1993, quando a lagoa,
por omissão da prefeitura, foi tomada de aguapés, coloquei, pagando do meu
bolso, máquinas e barcos para a retirada de 24 mil caminhões dessa manta verde
desafiadora, degradante e geradora de pernilongos. O exemplo levou os prefeitos
de BH a tomar vergonha, e a cuidar da lagoa. Mais que lamúrias e denúncias, o
exemplo gerou soluções duradouras.
Eu sinto na alma a obrigação de deixar o lugar que frequento melhor de quanto o
encontrei, mesmo sem fiscais ameaçadores. Se toda a humanidade deixasse o local
que frequenta mais agradável, não haveria muitas preocupações ou necessidade de
defensores da natureza.
Eu guardo o lixo no bolso ou no carro e o deposito em recolhedores seletivos.
Descartes orgânicos, como cascas de banana e de frutas, uso nos canteiros do
meu jardim de adubação. Colho sementes nas minhas viagens e tenho em meu jardim
árvores frutíferas e jacarandás que trouxe no bolso da Ásia e da Itália, onde
nasci.
Já plantei 12 mil hectares de terras degradadas, 22 milhões de árvores, quase
uma árvore por habitante de Minas. Ainda, as empresas que administro plantam
cana e produzem 100 milhões de litros de bioetanol por ano de fonte renovável.
Um litro para cada litro de diesel que os caminhões que usamos na empresa
consomem. Produzimos ainda energia de biomassa para atender o consumo inteiro
de nossas atividades produtivas e para o uso doméstico de mais de 400 mil
pessoas.
Essas compensações, entre emissões e sequestros de CO², se dão não por
imposição ou por lei. Decisão espontânea, ditada pela consciência.
O Estado, entretanto, apenas atrapalha, não orienta, cobra injustamente e
velhacamente a pretexto da natureza. Cria dificuldades que atrasam o progresso,
usa hipocrisia desavergonhada para cobrar o que não pode e não deve.
Cada árvore na natureza é sagrada, mas mais sagrado ainda é o ser humano. O uso
das árvores deve ser feito para um fim nobre, para proveito humano.
Pessoalmente me dedico com prazer ao repovoamento das margens de lagoas, de
curso de água, de beiras de rios. Sinto as forças que me chegam dessas atitudes
na natureza.
Como o Mestre, que não tinha apreço dos fariseus (falsos e interesseiros), o
mesmo não consigo ter dos modernos fariseus ambientalistas. Não há amor e nem
interesse outro que seja o dinheiro.
Já participei de um partido eminentemente ambientalista, achando que nesse
encontraria um ambiente limpo e voltado à sustentabilidade, mas encontrei a
aridez do deserto.
O ambientalismo brasileiro é desqualificado e mal-intencionado. A delinquência
anda solta; apenas aqui em Minas, nos últimos anos, a PF flagrou um presidente
da Feam e um secretário de Estado em grave desvio de conduta. Aqui ruiu a
barragem de Mariana, licenciada a toque de caixa, e denunciada como obra
criminosa antes mesmo de ruir.
Devo confessar que tentei entrar nos círculos do ambientalismo para somar, só
que encontrei a ganância ditando insolentemente discursos. Nem todos são assim,
desprovidos de genuíno interesse. Tem caçadores de bruxas, fabricantes de
dificuldades para, assim, parentes e laranjas cobrar caras facilidades. É um
ambiente que produz desastres e deixou Minas uma colcha de retalhos.
O que se enxerga sem lupa é a existência de esquemas que olham o proveito
exclusivamente próprio. Raposas em galinheiro, como a PF flagrou.
Autorização de um replantio de floresta de eucalipto no Jequitinhonha pode
ficar oito anos (sem um santo forte) para ser liberado. No Norte de Minas, para
poder utilizar a lenha de um desmate, se paga uma taxa ambiental três vezes
superior ao valor da lenha que já pagou compensação ambiental. Absurdos e
anacronismos emparedando quem trabalha.
Nas entrevistas em off, corrupção e máfia são os problemas mais lembrados, o
caso de Mariana dá uma confirmação.
Dormem nas gavetas do ambientalismo de Estado mais de 80 mil empreendimentos ou
1,5 milhão de empregos. Aguardam render ganhos aos esquemas, enquanto o próprio
Estado se priva de uma arrecadação de alguns bilhões a cada ano e o povo amarga
o desemprego. Esses são os produtos de um ambientalismo perverso e que impera.
A mortalidade de empresas e o desânimo para montar outras são a realidade.
Para responder ao leitor, confesso que minha vida já foi vivida, faço o que
posso.
Mantenho minha consciência ligada e tento expandi-la, já que, depois de acesa,
não mais se apagará. Procuro nos exemplos, distribuindo mudas nativas a cada
ano, replantando florestas que atendem a humanidade em suas necessidades.
Compenso o que emito. Tenho, contudo, pena dos jovens que deverão erguer um
novo sistema depois de demolir o atual.
O resto a Deus pertence e Dele aguardo o prêmio e o castigo por minhas ações.
Peço apenas e sempre misericórdia".
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