quinta-feira, 11 de março de 2010

Revoluções Tecnológicas: impactos sociais

“Todo aquele que tem familiaridade com as categorias das ciências sociais e que conheça, ainda que superficialmente, a história do desenvolvimento social deve compreender claramente que as conseqüências da segunda revolução industrial se manifestarão não apenas na formação econômica da sociedade, mas também em suas formações social e política, o que significa dizer que irão se manifestar não apenas na base mas também em sua superestrutura.Da maneira como é utilizado aqui, o termo “formação” deve ser interpretado como a totalidade de relações sociais definidas entre seres humanos (portanto sociais, econômicas, políticas etc.), que formam determinado sistema. Isto significa que elas estão de tal modo ligadas entre si que a mudança num dos elementos do sistema produz mudanças nos outros elementos. Há, além disso, um elemento neste sistema (ou, dito de outra maneira, uma parte das relações a que nos referimos), cujas mudanças determinam a base da dinâmica dos demais elementos. No caso da formação econômica da sociedade, este papel é desempenhado pelas forças produtivas, e no caso da formação social, relas relações de classe características.

Quando falamos em “classe social” nos referimos à totalidade de seres humanos inter-relacionados no interior de uma dada formação econômica, antes de tudo em função de uma mesma relação de propriedade com as forças produtivas (o que eqüivale a dizer que ou são proprietários das forças produtivas ou carecem dessa propriedade). É na relação entre as diferentes classes sociais que vemos a força motriz da formação social das sociedades baseadas em classes. É neste sentido que nos perguntamos sobre as implicações sociais da atual revolução industrial: o que acontecerá na esfera das relações de classe?Evidentemente, não se trata de uma pergunta isolada; a resposta a ela está estreitamente vinculada à análise das mudanças que se produzem na formação econômica da sociedade, já que estas mudanças desempenham sempre um papel dominante. Apesar disso, tal pergunta pode e deve estar sujeita a uma análise relativamente independente.

Os prognósticos das mudanças na estrutura de classes da sociedade informática – que é o que nos interessa principalmente aqui – dependem sobretudo da análise do futuro do trabalho assalariado e das possíveis e diversas formas de ocupação que o substituirão. Baseio minhas conclusões no pressuposto de que o trabalho, no sentido tradicional da palavra, desaparecerá gradualmente (isto é, o trabalho que consiste no emprego da própria capacidade em troca de um determinado salário ou seu equivalente sob a forma do preço recebido pelo fruto de trabalho de alguém). Este desaparecimento será uma conseqüência dos avanços da automação e da robotização produzidos pela revolução da microeletrônica. Para evitar erros de interpretação, devemos salientar que a eliminação do trabalho (no sentido tradicional da palavra), não significa o desaparecimento da atividade humana, que pode adquirir a forma das mais diversas ocupações. Este desaparecimento não é possível por vários motivos que examinaremos em seguida.

Quem quisesse polemizar com as minhas próximas afirmações deveria começar por refutar, ou pelo menos questionar profundamente, esta premissa do meu raciocínio, tanto mais que sua conseqüência lógica é a tese do desaparecimento da classe trabalhadora, o que modificaria totalmente a idéia da realidade social que conhecemos hoje.À primeira vista, essas afirmações parecem escandalosas e nos induzem a pensar na ficção científica. Contudo, isto se deve exclusivamente às características conservadoras do nosso pensamento, quando não – para piorar as coisas – ao mecanismo da dissonância cognitiva, um mecanismo que torna a mente humana impermeável às verdades novas nos casos de conflito entre a ideologia que se defendeu até aqui e os fatos que a refutam, conflito que não pode ser resolvido recorrendo-se a argumentos racionais. Não estamos tratando aqui de ficção científica, mas de fatos objetivos que muitas vezes são mais assombrosos que a ficção. É um fato, por exemplo, que a chamada automação plena (que já pode ser observada no Japão não como mero experimento, mas como prática industrial nas chamadas "unmanned factories", nas quais o processo de produção se dá praticamente sem a participação do homem), eliminará inteiramente o trabalho humano, o que sido mais fácil de acontecer – como se tem podido constatar – nos serviços que na produção.

É pois um fato que o trabalho, no sentido tradicional da palavra, desaparecerá paulatinamente e com ele o homem trabalhador, e portanto também a classe trabalhadora entendida como a totalidade dos trabalhadores. Não queremos ainda aqui entrar em considerações sobre se isto é bom ou mau do ponto de vista dos valores que são importantes para o homem; mesmo que chegássemos à conclusão de que seria mau, fatos são fatos e não se pode descartá-los enfiando-se a cabeça na areia como o avestruz.Citarei aqui – como curiosidade histórica e não como prova - ... o fato de que Karl Marx previu a situação hodierna há mais de cem anos (em 1859), no primeiro esboço de O Capital, conhecido pelo título de Grundrisse. Nas páginas 582-600 desta obra ... Marx previu o advento da automação e da plena automação, em decorrência das quais ocorreria uma mudança na posição do proletariado e da estrutura de classes da sociedade.
Na sociedade informática a ciência assumirá o papel de força produtiva. Mesmo hoje a força de trabalho se modifica e desaparece em sentido social. Na nova estrutura de classes da sociedade, a classe trabalhadora também desaparecerá. Como será, então essa estrutura?

Referimo-nos aqui, folgo dizer, a uma perspectiva ampla, a algo que virá, digamos, em trinta ou cinqüenta anos, uma vez que essas mudanças não ocorrem instantaneamente, pois necessitam de tempo para que surjam forças e mecanismos sociais adequados. A classe trabalhadora desaparecerá. Mas e a classe capitalista, ou seja, aquela classe que é formada pelos proprietários dos meios de produção, incluídos os grandes latifundiários? Isto depende da natureza e do ritmo da mudança social que terá lugar no futuro próximo, isto é, dentro de uns vinte anos.
Como dissemos, pode ser que ocorram mudanças de caráter socialista. Estas poriam fim à propriedade privada dos meios de produção e dos serviços em larga escala e, conseqüentemente, também à classe capitalista, o que corresponderia a uma modificação radical da estrutura social. Como vimos, no caso dos países mais industrializados, a barreira que se opõe a um tal rumo são os fenômenos negativos que se manifestam nos países do socialismo real. Por outro lado, a existência desses países é um elemento positivo na medida em que servem como instrumento de defesa diante do perigo de uma intervenção de fora. No caso dos países mais industrializados, portanto, as intervenções seriam raras, ou não se produziriam, ainda que não possam ser totalmente excluídas.

Uma outra variante parece mais provável, a saber: sociedades com uma classe trabalhadora que desaparece e uma classe de capitalistas rurais e urbanos fortemente debilitada e destinada, também ela, a desaparecer. Ainda que os acontecimentos se limitem a que o Estado, através de uma política fiscal adequada, fique com a maior parte das rendas dos capitalistas e impeça, mediante uma legislação adequada, que os filhos herdem as propriedades dos pais, a situação resultante se parecerá mais com o modelo de sociedade proposto por Lênin – isto é, uma sociedade que compra as propriedades dos capitalistas e atribui a eles o papel de administradores – do que com alguma forma de capitalismo clássico.

Vemos, pois, uma sociedade cujas duas principais classes estão desaparecendo. Deixamos de lado aqui o campesinato, embora também esta classe deverá ser arrastada no processo de mudança ao longo do desenvolvimento da automação. Quem ocupará o lugar destas classes? Provavelmente o lutar destas classes desaparecidas será ocupado por um estrato social integrado por cientistas, engenheiros, técnicos e administradores, que se incumbirão do funcionamento e dos progressos da indústria e dos serviços. Um lugar especial no interior deste estrato caberá aos especialistas na distribuição dos mais variados bens. É bastante compreensível que as fileiras deste estrato social sejam formadas principalmente por técnicos e administradores na qualidade de organizadores da produção e dos serviços. Quem em suas fileiras sejam incluídos os representantes das ciências (não só das disciplinas tecnológicas, mas também das ciências fundamentais como, por exemplo, a matemática, a física, a química, a biologia etc.), sem as quais seriam impossíveis os progressos da moderna tecnologia, pode ser facilmente explicado pelo fato de que a ciência é hoje um instrumento de produção cuja importância é crescente e cada vez mais determinante para o progresso em geral. Este estrato social será em certo sentido novo, mas apenas em certo sentido: os especialistas e os profissionais existiam ontem como existem hoje; o mesmo cabe dizer da utilização de seus conhecimentos como instrumento de produção. Este estrato não será tão numeroso quanto o conjunto das duas classes que substituirá, mas as substituirá plenamente no que diz respeito à suas funções sociais e, provavelmente, também com um nível mais elevado de eficiência.Porque então utilizamos o termo “estrato” e não “classe social”? Isto está relacionado com a definição do conceito de “classe social”, definição hoje aceita universalmente, que identifica as diversas classes com base na relação de seus membros com os meios de produção. Pode-se, é claro, mudar este critério específico; e, quando desaparecer o trabalho no sentido tradicional da palavra e modificar-se a propriedade privada dos meios de produção, uma nova definição do conceito de “classe” será mesmo necessária. Não apenas a propriedade dos meios de produção, mas também, por exemplo, o exercício do poder político poderia servir como critério de pertinência a uma classe. Poder-se-ia então verificar que a população que tem em comum relações específicas determinadas pela sua função social, que hoje denominamos de “estrato”, seja, de fato, uma classe social. Outro argumento poderia ser buscado no fato de que seus membros seriam proprietários de meios de produção, uma vez que a ciência se converteu já hoje em um meio de produção. Contudo, se levamos em conta a interpretação dos termos hoje predominante, seria mais correto conservar o conceito de "estrato" a fim de evitar equívocos semânticos.

Mas os problemas da estrutura de classes de modo algum esgotam todos os problemas sociais resultantes da atual revolução industrial, embora formem a base destes e de outros problemas. Observemos três deles, todos pertencentes à corrente tradicional do reformismo social inaugurado pelos grandes sistemas do socialismo utópico: a eliminação das diferenças entre trabalho manual e intelectual; a eliminação das diferenças entre trabalho nas cidades e no campo; e o igualitarismo econômico como fundamento para a superação das demais desigualdades sociais.A eliminação das diferenças entre trabalho manual e trabalho intelectual, que pressupunha não apenas a abolição das fadigas do trabalho manual, mas também a eliminação das diferenças de status social entre estes dois grupos de trabalhadores, era um dos sonhos utópicos dos grandes sistemas socialista na passagem do século XVIII para o século XIX. Ela continuou sendo utópica no âmbito marxista, que a recolheu dos postulados dos sistemas anteriores de pensamento socialista. A exigência se tornou realista apenas hoje, na sociedade informática. Esta assistirá ao desaparecimento do trabalho manual; o que restar do antigo trabalho (como ainda o entendemos hoje), assumirá o caráter de ocupações intelectuais, de natureza criativa, dado que o trabalho intelectual rotineiro, que consiste em realizar operações repetitivas que podem ser automatizadas, também desaparecerá. Assistiremos pois à materialização da antiga palavra de ordem não através da equiparação dos dois tipos de trabalho, mas através da eliminação de um deles. A forma de realização do antigo programa será, pois, nova, diversa daquela originariamente prevista, mas em compensação será efetiva. Isto mudará muitas coisas, incluída a condição social da intelectualidade. Se todas as pessoas de uma ou de outra forma se ocuparem intelectualmente, não haverá motivo para singularizar os intelectuais como estrato dotado de características especiais e de tarefas sociais igualmente especiais: a totalidade das pessoas desenvolverá a inteligência. Isto é particularmente evidente se levarmos em conta que a educação permanente será uma das principais formas de resolver o problema do desemprego estrutural. De outro modo se coloca a questão dos intelectuais (no sentido do trabalho criativo) que, em qualquer formação social, permanecerão como um grupo social distinto ainda que relativamente, embora sob as novas condições seu número possa crescer quando comparado aos dados de hoje, a não ser que a engenharia genética torne possível a produção em série de gênios.

Mas isto já faz parte da ficção científica, pelo menos considerando o nível atual dos nossos conhecimentos neste campo.Ao contrário, a eliminação da diferença entre o trabalho no campo (na agricultura), e o trabalho nas cidades (na indústria e nos serviços), continua sendo uma exigência, embora sua realização pareça, hoje, mais promissora que no passado. Já hoje a aplicação da microeletrônica ao maquinário agrícola torna possível realizar automaticamente certas operações no campo inclusive durante a noite: melhor fertilização automática do solo antes da semeadura etc. Os novos avanços da engenharia genética permitirão aos agricultores não apenas incrementar imensamente as colheitas, como também selecionar as plantas mais resistentes às condições climáticas e a pragas e doenças. A simbiose das plantas com certas bactérias permitirá que aquelas assimilem nitrogênio diretamente da atmosfera sem a necessidade da fertilização artificial do solo etc. Os avanços neste campo são enormes e resta esperar que sejam ainda maiores no futuro. Contudo, o trabalho agrícola, especialmente a criação de animais, continua se diferenciando qualitativamente do trabalho nas zonas urbanas, e a eliminação dessa diferença, no entanto, não se apresenta ainda no horizonte.

Evidentemente, o desenvolvimento dos modernos meios de comunicação de massa aproxima as zonas rurais dos centros culturais e permite aos agricultores uma melhor utilização do que produzem. A vinculação de povoados isolados, ou até de granjas isoladas, às cidades por meio das fibras óticas e dos computadores, que já ocorre no Canadá, pode reduzir enormemente a sensação de isolamento de que padecem as pessoas que trabalham na agricultura. Meios de transporte modernos, cada vez mais aperfeiçoados e acessíveis – automóveis, helicópteros, pequenos aviões, barcos a motor etc. – constituem também um passo nesta direção. Apesar disso, permanece sempre a diferença qualitativa e quantitativa entre trabalho agrícola e trabalho urbano (sempre segundo os dados de que dispomos hoje), não obstante a atual revolução industrial. Analogamente, a despeito de todos os progressos realizados, o isolamento do camponês dos grandes centros continuará a incidir negativamente sobre as suas atividades culturais, sociais, políticas etc.Poderíamos obviamente imaginar uma mudança radical no atual modelo de urbanização, com sua tendência a criar megalópoles desastrosas por seu tamanho e pela conseqüente forma de vida que impõem aos seus habitantes. Também poderíamos sonhar com cidades-jardins e com mesclas de assentamentos urbanos e rurais que, ao modificarem seu tamanho e as distâncias entre elas, eliminariam a maior barreira que impede que se aproximem umas das outras do ponto de vista da qualidade de vida. Infelizmente, tudo isto continua sendo ficção científica. Contudo, deveríamos também nos interessar por este gênero literário, pois ele nos revela o que é não só desejável como também plausível, tendo em vista as possibilidades tecnológicas atuais. E isto já é muito.O problema do nivelamento das diferenças sociais existentes, isto é, o problema de um igualitarismo social específico que deve ser obtido como conseqüência das mudanças tecnológicas e da base da sociedade, é todavia mais complexo. Existe uma escola de pensamento que afirma que os avanços no igualitarismo relativo da esfera econômica eliminariam automaticamente outras diferenças da vida social. Creio que esta opinião peca por excesso de otimismo. Tais mudanças podem conduzir a um incremento do igualitarismo social até a abolição das diferenças de classe, mas podem também – e este é um perigo real – produzir a aparição de outras diferenças, talvez ainda maiores que as anteriores, incluindo a formação de um novo tipo de sociedade totalitária. Isto todavia nos leva já a refletir sobre a formação política da sociedade... Por ora queremos apenas assinalar um problema fundamental que pertence à categoria das questões sociais tais como as definimos aqui.

Não cabe qualquer dúvida quanto ao fato de que o desaparecimento do trabalho no sentido tradicional, aliado ao desaparecimento da propriedade privada dos meios de produção – ou pelo menos a uma mudança de status da mesma – com a conseqüente modificação da estrutura de classes da sociedade, eliminará, ou pelo menos debilitará, certas diferenças sociais entre as pessoas. Isto afeta principalmente as diferenças que se baseiam na riqueza e, provavelmente, aquelas relacionadas com a origem de classe (as diferenças relacionadas com a origem nacional e a religião são muito mais persistentes, como tem demonstrado a experiência). Seria um importante passo em direção a um igualitarismo social específico se não acarretasse o perigo de surgirem novas diferenças, que poderiam ser muito profundas sob certas condições políticas.
Quais são as fontes desse perigo?Pode-se produzir uma nova divisão entre as pessoas, a saber: uma divisão entre as que têm algo que é socialmente importante e as que não têm. Este “algo”, no caso, é a informação no sentido mais amplo do termo que, em certas condições, pode substituir a propriedade dos meios de produção como fator discriminante da nova divisão social, uma divisão semelhante, mas não idêntica, à atual subdivisão em classes.Atualmente podemos observar uma divisão clara – algo parecido com a incultura das massas e a cultura de um número ainda reduzido de pessoas iniciadas na ciência dos computadores – entre as que conhecem e as que desconhecem o funcionamento dos computadores. Não me refiro aqui à diferenças entre este “conhecimento” e a “ignorância”, já que este é um fenômeno transitório que não tardará a desaparecer quando forem modificados os currículos escolares. Refiro-me na realidade a algo que será muito mais persistente (e que poderá, inclusive, se agravar), e que diz respeito à “informação”.Quando falamos de sociedade informática referimo-nos a uma sociedade em que todas as esferas da vida pública estarão cobertas por processos informatizados e por algum tipo de inteligência artificial, que terá relação com computadores de gerações subseqüentes. O problema não está no modo como ocorre este processo nas diversas esferas da vida pública; o verdadeiro problema é quem deve gerir os resultados deste processo informático generalizado e como utiliza os dados que tem à sua disposição. Quanto maior é a expansão do processo, maior é o perigo de uma divisão entre os que possuem e os que não possuem as informações adequadas. Esta divisão, sob determinadas condições, pode assumir um caráter de classe, como já constatamos antes. Tentarei explicar esta afirmação geral através de um exemplo concreto.
A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos criou um laboratório especial destinado a estudas a influência das novas técnicas de informação na esfera da vida privada (privacy) e nos direitos civis dos cidadãos americanos. A que se deve esta preocupação? Os perigos resultantes da computadorização generalizada são tão óbvios para estas esferas que os sindicatos começaram a reagir diante deles, não apenas nos Estados Unidos. Tudo começou com a supervisão das operações do trabalhador: o computador registra cada operação, cada interrupção do trabalho, o ritmo, a produtividade etc. Comprovou-se que este controle provoca stress nos trabalhadores, tanto mais que os resultados de tal “observação” podem levar à demissão, e isto num período em que, devido ao desemprego em massa, intensifica-se a concorrência. Neste sentido, é evidente o motivo da intervenção dos sindicatos.

Mas o problema se torna muito mais sério quando levamos em conta todas as informações recolhidas sobre cada cidadão. Toda instituição que tenha contatos com uma pessoa reúne informações sobre ela na esfera de seu interesse e armazena estas informações na memória de um computador. Isto é feito pelos patrões, pelas instituições de seguro social, pelos hospitais e ambulatórios, pelas escolas, pelos partidos políticos, pelos sindicatos etc. Em princípio, cada uma destas instituições recolhe informações para si. Mas imaginemos uma situação em que uma “super-instituição” qualquer (na maioria dos países as informações recolhidas deste modo são secretas e não acessíveis a outras instituições ou cidadãos privados), conseguisse recolher dados pertinentes de todas as instituições que os possuem e submetesse estes dados a uma análise integrada. Estas instituições existem em qualquer país e não estão submetidas à obrigação habitual de guardar segredo quando são chamadas a defender um “interesse mais elevado”. Uma instituição deste tipo poderia não apenas saber praticamente tudo sobre uma determinada pessoa, mas, ademais, na prática, poderia conhecê-la mais e de forma mais confiável do que esta se conhece a si mesma (o que é compreensível se considerarmos as barreiras psicológicas que impedem a auto-análise). Mas poderia proporcionar oportunidades fantásticas, não apenas para a chantagem, mas também para os mais refinados métodos de manipulação de pessoas. Imaginemos pois esta instituição no interior de uma burocracia forte e bem organizada e não estaremos longe da visão de Orwell. Há, pois, motivos para preocupação e para “espremer” o cérebro a fim de evitar o mal... O problema não é simples nem é fácil de resolver.

Mas voltemos à intrigante possibilidade de que surjam novas desigualdades sociais e ao paralelo renascimento de uma divisão quase classista da sociedade informática. Trata-se de algo mais que um perigo, é inevitável que o advento da sociedade informática possa produzir uma nova divisão entre os que têm e os que não têm. Esta situação criará, portanto, uma nova base que, através da diferenciação social, poderá produzir algo semelhante à diferenciação social, poderá produzir algo semelhante à diferenciação existente entre as classes. Mesmo assim, não se tratará da trivial divisão entre aqueles que dispõem de um adequado conhecimento técnico no âmbito da informática e aqueles que carecem de tal conhecimento. Como dissemos, esta divisão poderá ser facilmente eliminada por meio de uma ampliação apropriada dos programas escolares, o que de resto já ocorre hoje. A divisão se dará, antes, entre aqueles que possuem informações pertinentes sobre diversas esferas da vida social e aqueles que estarão privados destas em razão de leis relativas a segredos oficiais. Um grande perigo e um problema difícil! Mas com isso entramos em uma nova esfera igualmente social, a saber: a política”.

(Adam Schaff – A Sociedade Informática)

"Passou do limite" - Editorial FSP de 11-03-2010

NÃO PARECE demais, em nome do registro histórico, reproduzir mais uma vez as palavras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista à Associated Press:

"Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba. A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade".

A declaração é escandalosa -mesmo para os padrões de Lula, que habituou os brasileiros a seus disparates. Lembre-se, por exemplo, quando disse, ainda em 2003:

"Quem chega a Windhoek [capital da Namíbia], não parece que está num país africano. Poucas cidades do mundo são tão limpas e bonitas arquitetonicamente quanto esta".

Desta vez, porém, a manifestação não se reveste de nenhuma graça, tosca que seja. E não pode ser atribuída a mais um entre tantos deslizes de quem abusa dos improvisos, não esconde o orgulho por falar errado e se diverte com as gafes que comete. Não. Lula, este personagem satisfeito com as suas próprias precariedades, desta vez passou dos limites na agressão aos valores democráticos.

Vejamos mais de perto a escalada de impropriedades: Lula endossa uma ditadura que reprime a divergência de opinião. Prega "respeito" pela legislação cubana, que autoriza a prisão de pessoas cujo crime é dar sinais de "conduta manifestamente em contradição com as normas da moralidade socialista".

A seguir, avança outra casa ao qualificar os direitos humanos de "pretexto" dos presos políticos que fazem greve de fome. Pretexto? Em 2003, o governo cubano fuzilou três dissidentes que tentaram fugir do país. Outros 75 opositores foram presos, entre os quais Orlando Zapata. Condenado inicialmente a três, ele teve sua pena ampliada para mais de 25 anos de prisão. Morreu após uma greve de fome, no dia em que Lula chegou à ilha, semanas atrás, para visitar Fidel Castro pela quarta vez.

Surpreendido por jornalistas, primeiro alegou desconhecer o apelo que entidades defensoras dos direitos humanos haviam feito para que intercedesse por Zapata. Limitou-se, a seguir, a lamentar que "um preso se deixe morrer por greve de fome".

Como disse ontem à Folha o jornalista e dissidente cubano Guillermo Fariñas, também em greve de fome: "Lula demonstra seu comprometimento com a ditadura dos Castro e seu desprezo com os presos políticos".

Nada supera, porém, o escárnio da conclusão presidencial: os presos políticos da ditadura cubana são equiparáveis aos presos comuns de um país democrático, no caso o Brasil. "Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade."Imaginemos, nós, com mais razão, que tal aberração a serviço da defesa de um regime homicida não seja apenas um tropeço, mas, antes, a revelação do real apreço de Lula pela democracia.

quinta-feira, 4 de março de 2010

"FOTOGRAFIAS DE HAVANA" - Demétrio Magnoli

"David Nicholl, um neurologista britânico, coordenou em 2006 a campanha internacional da comunidade médica contra a alimentação forçada de prisioneiros na base americana de Guantánamo. Ele explicou que, nos EUA e na Grã-Bretanha, as regras de ética médica proíbem tal prática. Em Cuba, a ética médica, como tudo mais, oscila ao sabor da vontade do Partido-Estado e ninguém inseriu tubos alimentares em Orlando Zapata, o preso político que morreu após 85 dias de greve de fome. Um artigo do Granma, o jornal oficial castrista, responsabilizou os EUA e os dissidentes cubanos pelo desfecho. Lula, em visita a Cuba, lamentou que “uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome”, algo equivalente a culpar a própria vítima. Marco Aurélio Garcia preferiu banalizar o mal, explicando com sua peculiar cupidez que “há problemas de direitos humanos no mundo inteiro”.

Essa gente não tem vergonha na cara?

A linguagem da ditadura militar no Brasil era idêntica à do regime cubano e de seus bonecos de ventríloquo brasileiros. Vladimir Herzog morreu em virtude de seus atos subversivos e, no fundo, por responsabilidade do “comunismo internacional”. Herzog era qualificado como um “terrorista”, mesmo se nunca cometeu um ato de violência, tanto quanto Zapata era qualificado como um “mercenário”. Lula et caterva estão ecoando as vozes dos tiranos “de direita”, quando reverberam as sentenças dos seus amigos tiranos “de esquerda”. As coisas que disseram em Havana constituem uma desgraça nacional. Eles falam sobre nós: nossa história e nosso passado recente. O inefável Marco Aurélio Garcia mencionou Guantánamo, como Dilma Rousseff mencionara Abu Ghraib para “normalizar” a selvagem repressão em curso no Irã. Anos atrás, nos tempos de George Bush, o governo Lula esquivava-se de tocar nesses temas melindrosos. O silêncio, agora se sabe, não derivava da covardia, mas de uma forma obscena de esperteza: eles guardavam Guantánamo e Abu Ghraib num cofre, como uma apólice de seguro para o futuro. Os parasitas da tortura de Bush usam hoje aquela apólice para desculpar as violações de direitos humanos de seus aliados ideológicos ou circunstanciais.

Essa gente não tem nenhum princípio?

Meses atrás, o ex-senador Abdias do Nascimento, dirigente histórico do movimento negro no Brasil, enviou uma carta de protesto contra o encarceramento do médico cubano e ativista de direitos humanos Darsi Ferrer, que iniciara greve de fome pelo reconhecimento de sua condição de preso político. A carta tinha como destinatários Raúl Castro, Lula e o próprio Ferrer, a quem Abdias suplicava que desistisse da greve de fome. Cuba continuou a recusar o estatuto de preso político ao ativista e não se conhece nenhuma manifestação de Lula a respeito. Ferrer, contudo, atendeu à súplica de Abdias. Agora, no caso de Zapata, Lula criticou a opção do prisioneiro pela greve de fome, mas esqueceu-se de mencionar a reivindicação que o movia, igual à de Ferrer.

Nosso presidente não atina para o que acontece em Cuba?

Fidel Castro alcançou notoriedade no dia 26 de julho de 1953, quando comandou um ataque frustrado ao quartel Moncada, em Santiago de Cuba, numa tentativa insurrecional contra a ditadura de Fulgêncio Batista. O jovem Castro foi sentenciado a 15 anos de prisão e enviado ao cárcere da Isla de Pinos, reservada a presos políticos, onde permaneceu menos de dois anos, até ser beneficiado por uma anistia geral. Na Cuba dos Castro, Ferrer, Zapata e duas centenas de outros presos políticos que jamais participaram de levantes armados são declarados criminosos comuns. Zapata morreu para não ser obrigado a usar um uniforme de criminoso. Ele foi assassinado por uma ditadura pior que a de Batista, avessa aos princípios elementares de respeito à dignidade humana.

Lula não é capaz nem ao menos de pedir que os irmãos Castro, seus amigos do peito, concedam aos dissidentes encarcerados o direito ao rótulo de presos políticos?

Laura Pollán entregou a Fidel Castro, dois anos atrás, o livro Enterrados Vivos, escrito por seu marido Héctor Maseda, um dos 75 dissidentes sentenciados na Primavera Negra de 2003. O gesto lhe custou o emprego, mas assinalou a criação da organização Damas de Branco, formada por parentes de presos políticos. Enquanto Lula divertia os irmãos Castro, fotografando-os e rindo como uma hiena, Laura carregava uma alça do caixão de Zapata e abraçava em silêncio a mãe do dissidente morto. Dias antes, ela ajudara a encaminhar uma mensagem de presos políticos cubanos solicitando uma palavra do presidente brasileiro em favor da vida do prisioneiro que jogava sua cartada final. O pedido ficou sem resposta, mas não faltou uma ofensa equilibrada sobre os pilares simétricos da covardia e do cinismo: “As pessoas precisam parar com o hábito de fazer carta, guardar para si e depois dizer que mandaram.”


A ditadura castrista não matou Zapata quando decidiu não alimentá-lo à força, mas bem antes, ao recusar-lhe o estatuto de preso político, um santuário simbólico da dignidade dos que sacrificam a liberdade pessoal em nome de poderosas convicções. Os assassinos estão cercados de cúmplices, que são os líderes políticos e os intelectuais “amigos de Cuba”. No passado ainda recente da guerra fria, nenhuma voz poderia demover o regime de Havana da decisão de fuzilar ou enterrar vivos aqueles que ousavam denunciar o totalitarismo. Hoje, a clique anacrônica aferrada ao poder absoluto num sistema social em decomposição só pode matar na redoma fabricada pela cumplicidade dos “companheiros de viagem”.

Zapata morreu não porque Lula não disse nada. Ele morreu porque os intelectuais disponíveis para firmarem um abaixo-assinado contra o editorial equivocado de um jornal brasileiro não estão disponíveis para contrariar a “linha justa” do Partido.

Com que direito todos eles ainda usam o nome dos direitos humanos?"

terça-feira, 2 de março de 2010

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO - 2010

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAISFAE/DECAE
Sociologia da Educação - 1/2010
CARGA HORÁRIA: 60 HORAS (4 créditos)
Professor: Antônio Machado de Carvalho

EMENTA:Estrutura social e Educação: reprodução social e transmissão de conhecimento. O impacto das revoluções tecnológicas nos processos civilizatórios: o papel da escola. A relação da escola com a sociedade e com o Estado. Análise sociológica do fracasso escolar.

PRIMEIRA UNIDADE: A Sociedade contemporânea

a) Conceitos básicos da teoria sociológica
b) As revoluções científicas e tecnológicas e suas implicações
c) A nova divisão do trabalho
d) A questão ambiental e energética

SEGUNDA UNIDADE: A escola fundamental e os determinantes da escolarização

a) O papel do Estado
b) Os direitos sociais e a questão da cidadania
c) O fracasso escolar e as determinações de classe, gênero e cor

TERCEIRA UNIDADE: Propostas de organização da escola

a) Contexto histórico em que surgiram
b) Objetivos sociais e políticos
c) Concepção da formação para o trabalho e para a cidadania

METODOLOGIA: Aulas expositivas, trabalhos em grupo e seminários

AVALIAÇÃO: Provas em sala, ao final de cada unidade, num total de três, e trabalho final.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BÁSICAS (outras sugestões serão apresentadas ao longo do semestre):

- RUSSEL, B. As funções do professor (texto avulso).
- MONTAIGNE. Ensaios. São Paulo: Abril Cultural, 1984
- MEKSENAS, Paulo. Sociologia da Educação. São Paulo: Ed. Loyola, 1992.
- MANACORDA, M. A. História da Educação: da antigüidade aos nossos dias. São Paulo: Cortez, 1989.
- TEIXEIRA, Anisio. Educação não é privilégio. São Paulo: Ed. Nacional, 1977.
- TEIXEIRA, Anisio. Valores reais e valores proclamados... (texto avulso).
- DURKHEIM, E. Educação e sociologia. São Paulo: Ed. Melhoramentos, 1972.
- SCHAFF, Adam. A sociedade Informática. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1990.
- SOARES, Rose Dore. A concepção gramsciana do Estado e o debate sobre a escola (Tese de doutoramento).
- PASTORE, José. Desigualdade e mobilidade social no Brasil. São Paulo: TAQ/EDUSP. 1979
- ARENDT, H. A condição Humana. Rio de Janeiro: Ed. Forense, 1991.
- ARENDT, H. As origens do totalitarismo
-TAVARES, José Giusti. Totalitarismo tardio - o caso do PT. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2000.
- RIBEIRO, Darcy. Nossa escola é uma calamidade. Rio de Janeiro: Salamandra, 1986.
- RIBEIRO, Darcy. Teoria do Brasil. Petrópolis: Vozes, 1985.
- CASTRO, Cláudio Moura. Educação brasileira, consertos e remendos. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
- CASTRO, Cláudio Moura. Custos e determinantes da educação na A. Latina. Rio de Janeiro: INTED, 1978.
- CASTRO, Cláudio Moura. Escolas feias, escolas boas. (texto avulso).
- MANGABEIRA-UNGER, R. A alternativa transformadora. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 1990.
- MANGABEIRA-UNGER, R. A democracia realizada. São Paulo: Boitempo, 1999.
- MANGABEIRA-UNGER, R. A segunda via. São Paulo: Boitempo, 2001.
- SENGE, Peter. A quinta disciplina. São Paulo: Atlas, 1990.
- LOJKINE, Jean. A revolução informacional. São Paulo: Cortez, 1995.
- CORIAT, Benjamin. Pensar pelo avesso: o modelo japonês... Rio de Janeiro: Revan, 1994.
- RODRIGUES, Alberto Tosi. Sociologia da Educação. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2002.
- FORRESTER, V. O horror econômico. São Paulo: UNESP, 1997.
- MUFFAT, R. A incivilidade como barômetro da deterioração social (texto avulso).

"A oposição e seus desafios" (Marco Antônio Villa)

"A OPOSIÇÃO vai ter uma difícil tarefa. Não será nada fácil vencer a eleição de outubro. A aliança política que dará sustentação à candidatura oficial vai de Paulo Maluf a José Rainha. O grande capital vai se somar às centrais sindicais. Os especuladores estrangeiros estarão de mãos dadas com os dirigentes dos "movimentos sociais". O presidente Lula usará -como já está usando- a máquina oficial. Para ele, não será uma simples eleição: joga o seu futuro político. Se a sua preposta perder, ele dificilmente terá chances de voltar à Presidência em 2014.

É sabido que a ministra Dilma Rousseff é uma candidata politicamente pesada, sem jogo de cintura, com dificuldade de comunicação e inexperiente em campanhas eleitorais. Foi uma jogada arriscada de Lula. Ele tinha outras alternativas dentro do PT. A opção por Dilma foi para ter controle absoluto da campanha e de uma eventual Presidência.A candidata é neófita no PT, não tem história no partido. Nos sete anos como ministra, não estabeleceu relações mais estreitas com o Congresso Nacional, muito menos com as principais lideranças partidárias. Basta consultar sua agenda em 2009.Em Brasília, recebeu somente sete governadores e dois senadores. Até os ministros foram esquecidos. Em um ano, atendeu 19 dos 36 ministros, a maioria deles somente uma vez. As exceções foram Guido Mantega e principalmente Alfredo Nascimento, Márcio Fortes e Edison Lobão.Será um trabalho de Hércules transformá-la em candidata popular. Um exemplo: a tentativa de fazer uma omelete no programa "Superpop" foi um desastre (aliás, vale destacar que o vídeo, em oito partes, com um total de mais de uma hora, está disponível no site da Casa Civil sem que possamos saber qual a relação da entrevista com a ação administrativa da ministra).

O discurso na convenção do PT desanimou até os mais entusiastas apoiadores da ministra. Foi burocrático, modorrento, lido ao estilo dos dirigentes dos antigos PCs da Europa oriental, mesmo tendo uma plateia que desejava, a todo custo, aplaudir a candidata. Depois da convenção, entre os dirigentes do PT, ficou reforçada ainda mais a ideia de que a candidatura Ciro Gomes é um perigo, pois poderá suplantar Dilma rapidamente, após o início efetivo da campanha eleitoral, quando ela não poderá simplesmente ser a candidata de Lula.

Mesmo assim, a oposição vai ter muitas dificuldades. Terá de enfrentar -ainda que não diretamente- Lula, que é o presidente que melhor conseguiu se comunicar com o povo. Nesse quesito Lula é um craque.Adora cerimônias públicas e detesta o trabalho administrativo. Criou uma nova forma de a Presidência se relacionar com o país. E agradou os eleitores e os jornalistas (facilitando as manchetes do dia seguinte). Pela primeira vez (expressão tão ao seu gosto) vai ter de assistir, mas sem participar, de uma campanha eleitoral. Veremos se conseguirá.

A oposição deve estabelecer um programa político que aponte para as tarefas que o país terá de enfrentar na segunda década do século 21. Terá de dizer o que vai fazer com os programas assistenciais, como o Bolsa Família. Se é certo que o embrião do programa vem do governo anterior, foi o atual que expandiu o benefício. A candidata oficial certamente afirmará que a oposição quer extinguir o programa, que hoje tem entre seus beneficiários 13 milhões de famílias, representando quase 50 milhões de eleitores, cerca de 40% do eleitorado.

E que tipo de Estado deseja a oposição? O da revolução de 1930 ou outro que consiga dar conta dos desafios do século 21? Para o Nordeste, vai manter a transposição das águas do São Francisco, projeto que não enfrenta os problemas da região e só serve para favorecer as empreiteiras? Terá algum programa para a região, longe dos paradigmas do século 20, como foi a absurda recriação da Sudene? E para a Amazônia, o que propõe? Falará da defesa nacional? Vai apoiar a compra dos caríssimos aviões franceses? Concordará com a aquisição dos submarinos que não conseguem submergir? E os problemas das grandes cidades, a política econômica, a saúde, a segurança pública?

Não faltam problemas e críticas ao atual governo, mas o que a oposição precisa é mostrar para o eleitor que pode governar melhor que o PT. Deve explorar as contradições do bloco governamental, mostrar a fragilidade da candidata oficial, que está encoberta, momentaneamente, sob a proteção de Lula. Em suma: a oposição terá de ir para o enfrentamento, fazer política, sob o risco de desaparecer."

(Publicado na FSP de 02-03-2010)

MARCO ANTONIO VILLA , 54, historiador, é professor UFScar (Universidade Federal de São Carlos) e autor, entre outros livros, de "Breve História do Estado de São Paulo" (Imprensa Oficial, 2009).

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

DARCY RIBEIRO: MAIS UM ANO


Em 17 de fevereiro de 1997 o mundo ficou órfão de Darcy Ribeiro. São, portanto, longos treze anos sem a presença física do mais audacioso dos educadores brasileiros. Darcy pensava grande e estimulava os outros a fazerem o mesmo (nem sempre com sucesso, diga-se a bem da verdade). Ele, porém, insistia em seu quixotismo, ancorado na mais profunda convicção que os homens podem ser melhorados. Darcy tinha clareza quanto ao instrumento para tal: a educação, em todos os seus níveis, do elementar ao superior. Discípulo fiel de Anísio Teixeira – a quem considerava seu mestre – foi um crítico feroz da desonestidade da escola oferecida ao homem comum do povo – essa triste, ineficaz e caríssima escola de turnos. Escola esta que, segundo ele, produzia mais analfabetos que alfabetizados, num paradoxo inaceitável para os verdadeiros patriotas. As diferentes elites, claro, sempre tiveram o cuidado de construir escolas para os seus ou, como costumam dizer, os “nossos” filhos; para os filhos dos miseráveis, entretanto, bastava qualquer arremedo de projeto educacional, pois, afinal, era uma escola para “eles”, para os “outros”, onde os felizes bem nascidos nunca iriam comparecer. Algo do tipo: para quem é, bacalhau basta. Ou para plagiar o título de conhecida canção brega: tá ruim mas tá bom! Estão aí, para os que têm olhos para ver, as denominadas "escola plural", "escola inclusiva", "escola candanga" e outras mais com adjetivos exóticos.
Critica-se o analfabetismo. Ele, no entanto, não é um mal em si. Em épocas já passadas, onde a cultura rústica ajustava o homem aos desafios do viver, não havia maiores problemas em não dominar a cultura letrada. O camponês analfabeto, por exemplo, sabia e podia sobreviver à perfeição no seu ambiente social e cultural. Nos dias de hoje, porém, quando o estilo de vida predominante é urbano, o conhecimento escolar se torna uma categoria central na existência de todos. Não compartilhar dos benefícios civilizatórios trazidos pelo domínio da leitura e da escrita é condenar os que dessas habilidades se encontram privados a viverem à margem de tudo como verdadeiros párias. Pois bem, os resultados da má obra de mesquinhas e sucessivas gerações estão aí, à vista de todos: dez milhões de iletrados adultos e dezenas de milhões de analfabetos funcionais. Eles são agravados pelos desatinos do mandarinato caboclo (e seus acólitos intelectualizados), que preferem adotar políticas compensatórias demagógicas, a propor e executar políticas educacionais universais decentes, como se faz e se fez em todo lugar do mundo. Um dinheirinho aqui, um favorzinho acolá, uma vaga comprada na rede privada superior para beneficiar, mais os "traficantes do conhecimento" que os supostos beneficiários, e chega-se à imagem que vai perpetuar a passagem pelo governo dos responsáveis pelos destinos atuais do povo brasileiro: um presidente da república, do alto de sua majestade, inaugurando uma ou outra creche, ou máquina de cortar salame, nas vastas periferias urbanas do país. Darcy sonhou mais alto!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A CULTURA DA PERIFERIA (Publicado originalmente em 5-12-2007)

(Autor: Reinaldo de Azevedo)

"A crença na "culturada periferia" é coisa degente com miolo mole. E não é que o pensamento social moreno resolveu inventar? Num rasgo de criatividade, deu à luz uma jabuticaba teórica que chamarei aqui de Antropologia da Maldade. O seu objeto de estudo – ou de culto – são os índios bororos que moram nos morros do Rio. Ou os nhambiquaras do Capão Redondo, em São Paulo. Ou os caetés da periferia de Vitória. Ou os tupiniquins de qualquer aglomerado pobre do Brasil. A exemplo de boa parte das idéias inúteis que circulam no país, os antropólogos da maldade estão nos cursos de humanidades e ciências sociais das nossas universidades, mas também se espalham pelas redações e chegam à televisão. Ocupam ainda posições de estado. Sua sacerdotisa midiática é a atriz Regina "Casebre". A cada vez que ela proclama que "a periferia é o centro" – ou o contrário, sei lá –, somos remetidos imediatamente aos versos do inglês Auden (1907-1973): "And the crack in the tea-cup opens / A lane to the land of the dead". A fenda na xícara de chá abre uma vereda para a terra dos mortos.

Sei que pôr Auden e Regina Casé num mesmo parágrafo pode parecer certo exagero. Comentando esses mesmos versos num texto da década de 70, o jornalista Paulo Francis (1930-1997) observou que a xícara de chá representava a velha ordem do Império Britânico e de suas classes dominantes. Trincada a xícara – um mundo, então, que desaparecia –, abriu-se caminho para as tragédias das duas grandes guerras. Nossa "xícara" é outra. Não chegamos a ter uma "aristocracia", mas já tivemos algumas ambições. O certo é que a Antropologia da Maldade decidiu fazer da barbárie uma civilização.

Um antropólogo da maldade não acredita ser possível ensinar matemática ou a poesia de Camões e Manuel Bandeira ao morro ou à periferia, mas está certo de que o morro e a periferia é que têm de ensinar funk e rap aos "imperialistas" e aos "playboys", já que se trataria da expressão de um novo sistema de valores. É como se aquela "civilização" já não fosse a nossa. Perguntaram certa feita ao antropólogo francês Lévi-Strauss (na verdade, nascido em Bruxelas) se ele havia se identificado com os índios que estudara. "De modo nenhum!", respondeu. Os nossos antropólogos da maldade não chegam exatamente a se identificar com a "civilização" do morro e da periferia, mas têm por ela um respeito basbaque e reverencial. Lutam para preservá-la da nefasta influência da cultura central, esta nossa – vocês sabem, corroída pelo materialismo, pelo capitalismo e por um moralismo de fachada.

Que coisa formidável! Estamos diante da defesa de uma nova forma de apartheid, um dos refúgios do "pensamento" da esquerda contemporânea. Se a tentativa de ver a "cultura da periferia" como um sistema com valores próprios é só coisa de gente de miolo mole, uma banalidade, essa visão "preservacionista" da civilização da miséria pode assumir uma face cruel quando o assunto é, por exemplo, segurança pública. A polícia, segundo os antropólogos da maldade, estaria proibida de subir o morro sem o prévio consentimento da "comunidade", ou isso caracterizaria uma "invasão". A disposição de enfrentar o crime, que seqüestra as áreas pobres das cidades, é encarada como um ato de guerra, uma hostilidade a um país estrangeiro. E os mortos nos confrontos – exceção feita aos policiais, os "soldados invasores" – serão sempre vítimas inocentes do país agressor.

Lévi-Strauss poderia ensinar a essa gente que os costumes e hábitos de superfície das sociedades – e, pois, também dos morros e das periferias – são manifestações de estruturas de poder. Parecem-me indecentes os protestos de artistas contra a ação da polícia no Rio em contraste com o seu silêncio então cúmplice diante do fato de que os soldados do tráfico matam livre e impunemente nas favelas. A estupidez reacionária desses progressistas chega ao ponto de considerar que isso é coisa "lá deles", da "outra cultura", "matéria da autodeterminação dos povos". Será que devemos reagir ao assassinato dos nossos pobres com o mesmo distanciamento antropológico com que reagimos ao infanticídio entre os ianomâmis?

É improvável que Lévi-Strauss retorne ao Brasil, repetindo a façanha de 1934, quando veio dar aula na Universidade de São Paulo. Agora com 99 anos, completados neste 28 de novembro, é compreensível que tenha outras prioridades. Se o fizesse, talvez aproveitasse para adensar ainda mais a sua obra-marco, Antropologia Estrutural, ou, então, entre a melancolia e o escárnio, perceberia que fez muito bem em esculhambar o país em Tristes Trópicos, obra de 1955 com apontamentos sobre comunidades indígenas brasileiras e notas sobre a nossa cultura urbana. Sobrou até para os universitários, como não? Nos anos 30, eles demonstravam certo desprezo pelos livros de referência, preferindo os resumos. Sua curiosidade intelectual se igualava a uma inquietação gastronômica, e o que parecia inteligência era só disputa por prestígio e vanglória...

Se voltasse, o quase centenário estudioso teria a chance de conhecer, então, esse novo saber. Por enquanto, ele está mais bem adaptado ao clima e à geografia do Rio, mas floresce também em São Paulo, uma cidade mais vetusta, razão por que os antropólogos da maldade, por aqui, costumam se esconder dentro de batinas – ainda que meramente simbólicas – e se entregam a folias físicas e metafísicas com seus "correrias" de estimação. Quando Lévi-Strauss conheceu os índios bororos e nhambiquaras (os de verdade), sabia estar lidando com civilizações que estavam em outro estágio do domínio da natureza, mesmo para os padrões do Brasil, que já lhe pareceu, à sua maneira, tão primitivo, com suas cidades que iam do nascimento à decadência sem conhecer o apogeu.

Ele jamais demonstrou qualquer simpatia pelos grupos que estudou. Constituíam o seu material de trabalho. Bastava-lhe identificar as estruturas, o conjunto de relações, que fazem com que as sociedades sejam o que são – à sua maneira, de fato, cada uma delas encerra um mundo completo e dinâmico. Assim, é perfeitamente possível supor que a cultura ianomâmi seja eficiente para... um ianomâmi. E só outro indivíduo do mesmo grupo é capaz de propor questões pertinentes que mudem a sua história. Veja como sou multiculturalista hoje em dia. Mas, confesso, no tempo de padre Anchieta, meu negócio era catequizar a bugrada.

Para os antropólogos da maldade, os morros e as periferias são civilizações independentes, com estruturas simbólicas definidas pelos indivíduos das tribos, e a postura progressista de um estudioso implica deixá-los entregues à sua própria dinâmica, à sua cultura, a seus valores. Mais do que isso: "eles" teriam algo a nos ensinar, assim como se supõe, ainda hoje, que os silvícolas – veja como sou antigo – podem nos abrir as portas da percepção para a generosidade, a convivência pacífica com a natureza, a igualdade, o associativismo... Poucos se dão conta de que ser índio pode ser chato, difícil e cruel. O Brasil adotou o "bom selvagem" de Rousseau (1712-1778) – o "suíço, castelão e vagabundo", como o chamou o poeta português Fernando Pessoa –, mas não deu a menor bola para as ironias do livro Cândido, de Voltaire (1694-1778), este, sim, um francês legítimo, que fez pouco caso da idéia de um homem em harmonia com a natureza.

A periferia e o morro não são o centro. Continuarão a ser o morro e a periferia, e seus "valores" particulares não são senão a manifestação de uma utopia regressiva de basbaques ideológicos que imaginam converter um dia a linguagem da violência em resistência política. Aquela gente não é o "outro". Aquela gente somos nós, só que "sem fé, sem lei e sem rei": sem esperança, sem estado e sem governo.

Mas você sabe: eu sou muito reacionário. Progressistas são os antropólogos da maldade, desbravadores das veredas que levam à terra dos mortos".