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Sapos suíços namorando |
Quando a Suíça comemorou 700 anos de existência algumas personalidades mundiais foram convidadas para as festividades. Entre elas estava Darcy Ribeiro, ilustre professor precocemente falecido em 1997. Em discurso feito à época, o arguto antropólogo chamou a atenção para um fato insólito, notadamente se o caso brasileiro fosse tomado como contraponto. A Suíça estava pronta. Nada havia a fazer naquele país. A última realização da qual se teve notícia, foram pequenos túneis (construídos sob as formidáveis autoestradas do país), destinados a facilitar a migração de sapos à procura de amor.
Em sua sofreguidão erótica, os sapos e sapas estavam sendo
atropelados nas pistas de alta velocidade. Com a proverbial eficiência local, entretanto, no verão seguinte os batráquios já puderam, organizadamente, transitar, incólumes, de um
lado para outro por baixo das estradas, tudo na mais perfeita ordem. Sucesso
total.
Darcy Ribeiro lamentava - eis a grande verdade - a pasmaceira da vida suíça, em tudo antagônica aos enormes desafios
postos aos brasileiros. Aqui entre nós, tudo, ou quase tudo, estava por se fazer, o que
daria encantamento e sentido à nossa vida nestes trópicos. Talvez por tais
condições objetivas, o Brasil seja considerado um paraíso das empreiteiras. Não seria por acaso que algumas das maiores empresas do mundo neste ramo tão estratégico sejam de capital nacional. Obras
públicas, é claro, requisitam dinheiro dos impostos. Sem governo, portanto, não
haveria negócios, bons negócios.
Então, entra governo, sai governo, seja ele
federal, estadual ou municipal, as empreiteiras continuam como se fossem parte
da estrutura do Estado. Seriam elas uma espécie de pinico de palácio. Os
príncipes morrem ou se mudam, mas o pinico continua lá, impávido, sob a cama, a
desafiar qualquer esforço de mudança, em vista de sua função indelegável. Não
seria absurdo compreendê-las, também, como uma espécie de autarquias com fins lucrativos,
dada a criatividade política e legiferante da burocracia nacional,
vocacionalmente corrupta e venal desde sua origem.
Engana-se, porém, quem
imaginar as empreiteiras submetidas apenas às contingências governamentais de
fazer obras. Amancebadas com a classe política (onde não é pequena a parcela de
ladrões dispostos a qualquer trapaça), aplicam também seus cabedais em
atividades destinadas à prestação de outros serviços públicos, de varrição de
ruas e telefonia celular até geração, transmissão e distribuição de energia
elétrica. Em suma, se há governo e povo para pagar a conta, elas estão na bocada! Propina
não é problema para elas, propina é custo. Se vendessem sementes de capim,
bastaria dosar a quantidade de areia para definir o preço final.
As
empreiteiras só se arreganham quando se deparam com raros governantes honestos
não susceptíveis a peita. A favor das empreiteiras, no entanto, cumpre registrar as chantagens
que burocratas desavergonhados fazem para lhes pagar o eventualmente devido. Operacionalizam a manobra postergando ao máximo a quitação de faturas, somente liberadas se houver algum unto que as facilite. Há que se lembrar, sempre, que a chave do cofre está com o poder executivo. Quem quer que preste algum serviço ao Estado deverá pagar o devido tributo, não aquele regular, formal e legítimo, mas o tributo oculto, porém real, na forma de doações, presentes, comissões e outras formas que podem incluir, até, festas de bunga-bunga, com travecos e prostitutas profissionais, para adocicar a vida das autoridades.
É um processo onde quase todos ganham, um jogo de soma diferente de zero, onde o único que perde, achacado, é o cidadão
brasileiro.
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