quinta-feira, 15 de outubro de 2009

AOS PROFESSORES

Muitos anos atrás o brilhante e falecido professor de História do Pensamento Político José Olegário Ribeiro de Castro citava, sempre, em sala de aula, uma frase atribuída a Platão: “Aquele a quem os Deuses odeiam, fazem-no professor”. Em bom latim: "Dii oderunt paedagogum fecerunt". Se ela era, ou não, do grego pouco importa. Nunca consegui achar no original a referida citação (incompetência, certamente). Porém, ao se apropriar dela o saudoso mestre fazia-a sua e tão significativa como se fora do outro. Homem refinado, o professor José Olegário aliava uma grande delicadeza com ferino senso de humor.

Esta combinação, aliás, não era incomum entre outros docentes da velha Faculdade de Filosofia da UFMG (citaria dois como símbolos – os professores Morse de Belém Teixeira e Welber da Silva Braga – mas sem esquecer, contudo, de inúmeros pares dos diferentes departamentos). Possivelmente, aquela foi uma graciosa herança bendita deixada pelo professor Arthur Versiani Velloso, líder intelectual e espiritual de tantas gerações. Os que tiveram o privilégio de conhecer o professor Velloso testemunharam como uma poderosa inteligência podia se exprimir, de maneira cáustica e cortante, principalmente contra a burrice ou a má fé.

Paulo Duarte, intelectual e ativista da revolução constitucionalista de 32, em São Paulo, lamenta no seu livro de memórias - publicado ainda nos anos 70 do século passado - a invasão da universidade pelos que ele chamava de “rinocerontes”. Quem sabe tenha sido, esta, apenas uma manifestação de mau humor eventual por parte de um dos maiores responsáveis pela fundação da USP? Afinal, vivíamos desde meados da década anterior dentro dos que foram considerados “anos de chumbo”. Para um liberal e democrata, como Paulo Duarte, o regime militar era uma aberração que contaminava indelevelmente a universidade, ao imprimir nela seu espírito bestial, daí a referência aos rinocerontes.

O que diria ele, se vivo fosse, ao observar a universidade que existe na atualidade, tão ocupada por professores silenciosamente cúmplices com os crimes e com as práticas deletérias do lulismo e do petismo em todas as instâncias da vida social brasileira? A sedução totalitária pode atingir, até mesmo, aqueles que julgávamos mais protegidos (não pertenceu Heidegger ao partido Nazista?). Talvez, Paulo Duarte fizesse (como outros de sua época também o fariam), o mesmo que o desencantado rabino aludido por Borges em célebre poema: “na hora da angústia e de luz vaga, em seu Golem os olhos detinha. Quem nos dirá as coisas que Deus sentia, ao olhar para seu rabino em Praga?”

Prenúncios da barbárie já se fazem presentes aos nossos olhos (inclusive dentro das salas de aula onde professores são achincalhados quando não agredidos fisicamente, com omissão de superiores e outras autoridades). O embotamento crítico (daqueles que deveriam ser fiéis herdeiros de uma lúcida tradição), coloca um grave desafio aos professores de amanhã.

2 comentários:

Eliana Gerânio Honório. disse...

Professor

Tomei a liberdade de postar
suas palavras no Espaço Mensaleiro.

Muito obrigada.

Também sinto muito...!

Ernane disse...

Caro Professor,

O desafio certamente já está posto aos atuais professores! A escola precisa recuperar com urgência a sua autoridade! E a iniciativa deve partir dos professores! Já na aguentamos mais o discurso delinquente de que os nossos alunos são oprimidos pelo sistema!

Olavo de Carvalho está certíssimo em "Educação ao contrário" quando afirma que educação não é um direito, mas um dever. Vejamos um trecho de seu artigo:
"Mais ainda, a experiência universal dos educadores genuínos prova que o sujeito ativo do processo educacional é o estudante, não o professor, o diretor da escola ou toda a burocracia estatal reunida. Ninguém pode "dar" educação a ninguém. Educação é uma conquista pessoal, e só se obtém quando o impulso para ela é sincero, vem do fundo da alma e não de uma obrigação imposta de fora. Ninguém se educa contra a sua própria vontade, no mínimo porque estudar requer concentração, e pressão de fora é o contrário da concentração. O máximo que um estudante pode receber de fora são os meios e a oportunidade de educar-se. Mas isso não servirá para nada se ele não estiver motivado a buscar conhecimento. Gritar no ouvido dele que a educação é um direito seu só o impele a cobrar tudo dos outros – do Estado, da sociedade – e nada de si mesmo".

Abraços!

Ernane Siqueira.