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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Para onde vão os votos dos petistas?

O PT e o petismo sempre tiveram ao menos uma terça parte do eleitorado de Belo Horizonte. É necessário fazer referência ao petismo (sem vínculo exclusivo com o PT) por uma simples razão. Em outras eleições o partido se revestiu do manto de outras siglas, como é o caso do PSB, mera linha auxiliar histórica do PT, que era reforçado, ainda, pela sopa de letrinhas de outros grupos partidários, como o PC do B, velho serviçal sempre disponível para o que desse e viesse, além de dissidentes fanáticos gerados no mesmo ventre perverso (PSOL, PSTU, Rede etc.).

As últimas pesquisas de opinião na capital mineira apontam que a chapa de candidatos a prefeito e vice - formada respectivamente por dois deputados federais do PT e do PC do B - mal alcança 5% das intenções de voto.  

Ora, onde estão os eleitores petistas que não se dariam a aparecer? Mergulhados em algum  limbo político? Ou estão se encaminhando para alguma candidatura de perfil gelatinoso e pronto para aceitar escolhas de variadas origens políticas e ideológicas, verdadeiro voto útil, capaz de, menos que vencer, infligir uma derrota aos principais e tradicionais adversários, os tucanos?

Kalil, sem dúvida, é o nome do "tapado" como dizem os mexicanos para o verdadeiro candidato oculto do centro de poder. Dentre os demais pretendentes que, talvez, até buscassem criar um cenário que lhes fosse mais favorável, o que parece não ter se configurado até o momento (a quinze dias da eleição), Kalil, o empreiteiro parvenu, corre por fora da raia verbalizando o popular discurso da anti-política, atraindo cada vez mais os votos ressentidos do petismo, agora desamparado de opções orgânicas. 

Assim como Collor fez com as elites políticas brasileiras em outro momento, Kalil se impôs ao governador Pimentel, que ao estilo de Pilatos, lavou as mãos, liberando seus adeptos para fazerem suas escolhas eleitorais. Fragilizado por sua participação nas escandalosas roubalheiras da companheirada, Pimentel sabe, no entanto, que um empreiteiro como prefeito de Belo Horizonte não será obstáculo a um entendimento e a acertos de natureza política e administrativa com o governo estadual. Para o governador, o importante agora é reduzir os danos, optar pelo mal menor. Pimentel circula bem, muito bem, aliás, no ambiente empresarial. Kalil seria um interlocutor bastante satisfatório, caso venha a vencer a disputa, credenciando-se para enfrentar no segundo turno o deputado João Leite, desta feita o real preferido de Aécio, coisa que não o fora nas eleições municipais de 2004. Mas esta é outra história. Os ventos mudam de direção e o secretamente rejeitado de ontem torna-se o desejado de hoje.  


sexta-feira, 20 de maio de 2016

A mamata da bolsa-quarentena



Dezenas, que talvez cheguem às centenas, de petistas acharam um novo meio de vida fácil. É uma boquinha sensacional em que o cidadão fica dispensado de trabalhar e ainda recebe um gordo pagamento ao final do mês. É a bolsa-quarentena, destinada aos felizes assessores de dona Dilma, enquanto continuarem membros da famulagem da casa real. Esta senhora, que deveria estar hospedada na Papuda continua, no entanto, a se servir do suado dinheirinho dos pagadores de impostos, escorchados sem dó nem piedade pelos leões da Receita Federal.

Homiziada no palácio da Alvorada, com mordomias nababescas, a madame que conduziu o país ao caos que este está vivendo não se envergonha dos seus atos. Claro, vergonha é um conceito que não faz parte do universo simbólico dessa gente. O brasileiro comum ao ser demitido socorre-se de sua poupança e do salário desemprego por alguns meses. Enquanto o tempo passa ele busca se requalificar nos cursos disponíveis a fim de dar um novo rumo na vida.

Ora, por qual razão os inumeráveis assessores de dona Dilma não procuram o Pronatec, seguindo conselho que ela mesma deu na última campanha eleitoral? Mas, não. Só de pensar na hipótese, a turma tem calafrios. Os parasitas se acostumaram a ganhar sem trabalhar. É um vício de caráter. Incurável. São capazes de, até, se inscreverem para receber a merreca da bolsa-família. Algo similar ao viciado em heroína que, na ausência de recursos para tal droga, vai se valer do cheirinho da loló, da gasolina e dos solventes. O importante é a prevalência do princípio: mamãe, eu quero mamar!

Para não ficar em simples abstrações, que os leitores avaliem a magnitude da bolsa-quarentena paga aos ex-ministros de dona Dilma. Está na ordem de R$1 mil reais. Um mil reais, por dia! Enquanto há trabalhadores que suam para receber tal valor ao final de um mês de trabalho, os bajuladores da madame recebem isso no intervalo entre um nascer e um por do sol. Façam as contas. 

Comparem. Houve um caso de ministro que ficou no cargo por uma semana. E já reivindicou a gorda bufunfa que julga ter direito.
Quem quiser conferir, trata-se do consorte de miss Bumbum, uma espécie de marido de madame Pompadour, cuja performance no gabinete ministerial chocou o Brasil pela falta de compostura. 




Tais aventureiros e alpinistas sociais, se computados em toda a inteireza, encheriam as páginas de um catálogo telefônico, daqueles antigos que pesavam quase uma arroba. Dizer que o Brasil não merece isso talvez seja um equívoco. Houve larga cumplicidade.

Tal parasitismo vem de longe. A turma não aprendeu a roubar quando chegou ao planalto. Aprendeu nos sindicatos, nas entidades estudantis, nas universidades, nas associações comunitárias, ONG’s, prefeituras e nos governos estaduais. Chegando à presidência da república, só aperfeiçoaram as habilidades tão largamente cultivadas através dos anos. Mudaram no volume, no quantitativo, não na essência, qualitativamente. 

terça-feira, 29 de março de 2016

Augúrios: Dilma e Pimentel


Historiadores do futuro mostrarão que dona Dilma e Fernando Pimentel começaram e terminaram a vida política juntos. No início compartilhado eram somente terroristas um tanto trapalhões, é verdade; no fim, continuaram abestados, como diria Tiririca, acabando abraçados nos corredores de alguma Vara Penal sob o jugo do artigo 121 do CPB.

Em prol de ambos, há de se reconhecer que não iludiram o eleitorado, conforme muitos estão a dizer. Nem Lula o fez, para complementar a relação dos principais nomes que são equivocadamente tachados de enganadores da fé pública. Achar o contrário é o mesmo que dizer que o povo alemão foi enganado por Hitler. Este foi eleito em 1933 e gozou por doze anos, até 1945, da aprovação e apoio entusiasmado da grande maioria dos alemães, mesmo quando a Alemanha já estava perdendo a guerra. De fato, o povo alemão era nazista, de cabo a rabo. Não se pejava em ir às ruas, aos magotes, para aplaudir e receber de volta a saudação desmunhecada e frescalhote do Fuhrer. 

Os opositores e demais críticos do nazismo, bem como do petismo, sempre foram uma minoria. Nunca o nacionalismo alemão esteve mais vivo. Espantar-se, hoje, que intelectuais chapa-branca sejam devotos do PT, e até se postem de quatro para melhor serem possuídos, é ignorar o extraordinário número de pensadores alemães que gostosamente sucumbiu aos estupradores nazistas naqueles anos negros em que o mundo submergiu na barbárie totalitária. O nome de Martin Heidegger aí é emblemático; um dos maiores filósofos do século XX foi afiliado do Partido Nacional Socialista do Trabalhadores. Não existindo no Brasil qualquer nome de envergadura semelhante, a solução foi se contentar com Marilena Chauí, a plagiária, aquela que sofre epifanias quando se deleita ouvindo Lula da Silva num gozo ao estilo de Santa Tereza D'Ávila.  

Prometer e não cumprir, notadamente no campo político, mas não somente nele, é vício antigo e universal. Na economia dos afetos, as juras esquecidas marcam de maneira democrática a trajetória amorosa dos homens e mulheres de diferentes classes sociais. No Canto XXVII do Inferno, na Divina Comédia, Dante sintetiza em versos inesquecíveis o cerne da vida política: "muita promessa e pouco atendimento", conforme sugeriu um aventureiro da época ao papa de então, Bonifácio VIII, para ajudá-lo em sua guerra contra os irmãos Colona. Funcionou. O único problema foi o destino final de tão mau conselheiro, condenado à danação eterna em uma das valas do inferno, pena a que estão sujeitos a quase totalidade dos assessores dos governantes. Para ficar no âmbito popular basta recordar o belo samba canção imortalizado por Orlando Silva: "Aos pés da Santa Cruz". Pode-se ouvi-lo no Youtube.

A triste verdade é que os eleitores desejaram essa gente abominável. Talvez se possa dizer que o eleitorado tem alma feminina. Quantas são as mulheres (a começar das nossas próprias famílias), que, apesar de advertidas pelos pais, parentes e amigos, insistem em se casar com bandidos e outros tipos possuidores de caráter não recomendável? Passado algum tempo, e após maus tratos de toda ordem, ei-las, as desobedientes, reconhecendo enfim a enrascada em que se meteram. Às vezes, o fazem tarde demais. Se arrependimento matasse, a maioria já estava morta.   

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Se tudo vai mal, logo... (Roberto da Matta)


A lógica nacional sempre foi sensata. Ela rezava assim: se tudo vai mal e, se o Brasil também vai mal, então tudo vai bem. Este princípio – hoje em suspeição – permeia o nosso pensamento. Está tão dentro de nós quanto o melado que nos lambuza. Prestigiado, ele foi encampado pela esquerda como um valor.

O roubo dos outros, vociferam, legitima o nosso. Ademais, roubar aquilo que seria de todos para ajudar os pobres não é safadagem porque, até o advento desta desagradável era de transparência e de liberalismo golpista, o que era de todos, não era de ninguém. Pertencia aos que "subiam" e controlavam a "república".

Aliás, devo lembrar o nosso desgosto por tudo o que é "re-pública" (coisa pública), pois sendo mais filhos de família do que cidadãos, temos horror a impessoalidade e ao anonimato, esses irmãos da igualdade. No país das celebridades e dos queridinhos, todo mundo quer, além da conta bancaria na Suíça, uma coleção de carros de luxo ou um quarto secreto cheio de quadros tão falsos quanto o dono. Roubar para ostentar é um ato falho do nosso inconsciente aristocrático.

O de "todos" é negativo. Ou alguém vai casar com uma "mulher publica"? Não estaria ai o temor que, ao lado do nosso machismo, afasta as mulheres da política?

O fato é que a indiferença a "tudo que é de todos" define o que nós, brasileiros, entendemos por "política". Para nós, a política é o túmulo do que não gostamos. Como nada temos a ver com ela, tudo o que diz respeito ao gerenciamento público é entregue aos políticos que fazem o que bem entendem, desde que atendam aos nossos pleitos. Ou não nos perturbem com muitos deveres e impostos.

Enquanto isso, nós jogamos o nosso lixo na rua certos de que cabe ao "governo" resolver o assunto mas a maldita "política" não deixa. Tudo vai bem até o dia em que descobrimos que o descaso em massa, ao lado de incompetência administrativa e da má-fé ideológica, levam o País à ruína.

E se países não são empresas, eles só prestam quando gastam menos do que arrecadam. Mas se a nossa utopia é todo mundo virar funcionário público, bolsista ou aposentado e, como prêmio, todo "político" ter o direito de roubar sem ser punido então o Brasil vai pro brejo! E se ele não é de ninguém, hoje nós temos certeza que ele não pode mais ser de Lula, do PT, da dona Dilma e do lambuzado Jacques Wagner.

Há uma cadeia. A indiferença que é o maior fosso entre o estado e a sociedade começa a acabar quando o colapso da saúde, da segurança e da educação viram calamidades. Ao lado das catástrofes climáticas e dos abismos sociais ainda puerilmente tratados como dependentes de "vontade política" e não de uma moralidade engendrada pela escravidão negra, comandada por uma aristocracia branca entramos no vermelho.

Mas se somarmos a tudo isso incompetência e roubalheira temos o nó de porco perfeito. O que me intriga, porém, não é somente o roubo; é achar que há roubo de direita e roubo de esquerda. O primeiro é errado, o segundo é certo.

Curiosa essa inversão carnavalesca já anunciada quando o lider do partido e um dos que mais lucrou com a ladroagem – Lula, o probo – desafia-nos publicamente afirmando que não há "viva-alma" mais honesta que ele. Só mesmo pensando no Carnaval, pode-se ouvir essa bazófia de um sujeito capaz de desconstruir-se com tanta competência.

Eis o operário pobre que virou o presidente mais amigo dos ricos da história deste país. E não satisfeito com essa mascarada, deu aos seus novos amigos mais que dinheiro, pois num feito digno de sua patológica onipotência, entregou-lhes o Brasil. Para tanto, tornou-se um misto de presidente-garoto-propaganda e criou uma rede de favores nacionais e internacionais com todo tipo de gente, preferencialmente, com pluto-cleptocratas.

Seu governo criou uma imensa e incompetente máquina estatal voltada para a reação anti-igualitária, com o devido abandono dos idiotas que por amor, esperança, honestidade, ideologia e utopia, o elegeram. Voltado para o poder do dinheiro, o lulo-petismo fabricou uma nova elite e um novo discurso não mais baseado no velho marxismo libertador da guerra fria, mas num populismo de massa unipartidário capaz de comprar legislação e legisladores no que se transformou na mais grave roubalheira da historia do capitalismo: o assalto que arruinou a Petrobrás.

A parceria de um partido dito revolucionário com setores tradicionais do empresariado, resultou em ganhos eleitorais, num fardo impossível de administrar e num incrível embaralhamento institucional. Hoje, ser de esquerda é impedir o funcionamento da Justiça. Hoje, buscar o rumo, é ser golpista.

Criamos mais um brasileirismo: o "capitalismo de esquerda". Aquele que rouba e não faz. Ao fim e ao cabo quem paga somos nós. Mas como tais arranjos ocorrem em toda parte e, além disso, como disse a presidenta, todo mundo erra, se tudo vai mal, logo...


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Nazismo e petismo


Uma liderança que leva seu povo até a beira do abismo... é uma liderança de aventureiros infames (Thomas Mann, in "Ouvintes Alemães", publicado pela Ed. Zahar).

Tal diagnóstico descreveu muito bem a insanidade e dilemas da Alemanha nazista à época. Apesar de escrito em setembro de 1941, é profeticamente aplicável ao presente caso brasileiro. 

sábado, 10 de outubro de 2015

Ventos e tempestades

Inferno, Canto XXV - punição dos ladrões


Velho adágio ensinava: quem planta vento colhe tempestades. A ojeriza que o povo brasileiro vem demonstrando ao PT e às suas lideranças é a prova viva daquela verdade. Não é gratuita tal rejeição. Colhem apenas um pouco do que plantaram com afinco e zelo. O coitadismo do qual lançam mão para se fazerem de vítimas é só mais uma prova de cinismo temperado com atrevimento. Poucos seriam os adultos que não conseguiriam citar um exemplo de condutas delinquentes, atrabiliárias e arrogantes cometidas por petistas ao longo dos últimos trinta anos. 

Um inventário de suas incivilidades preencheria toneladas de papel. Não há um setor da vida social que tenha ficado imune a seus atos deletérios. Em escolas de qualquer nível as práticas petistas mais pareciam piadas, para dizer o mínimo, tal o nível de desfaçatez. Ficaram famosas as folclóricas agitações patrocinadas por seus simpatizantes nos corredores de vetustas universidades. Para impor sua totalitária visão de mundo, bandos de bárbaros tumultuavam atividades escolares normais, soprando seus apitos a guisa de argumento, irritando professores e demais alunos que só queriam trabalhar e estudar, e não podiam.

Tumultos e outras impertinências conduzidas por marmanjos petistas desocupados (em boa parte financiados com dinheiro dos sindicatos ou pixulecos de empresas públicas), infernizam a vida dos cidadãos comuns. Adoram engarrafar o trânsito nos horários de maior movimento nas grandes cidades. Para eles é fácil, pois que não trabalham nem têm quaisquer outras obrigações. Isso quando não estão na linha de frente da paralisação de serviços essenciais: educação, saúde, transporte, combustíveis, energia etc. O povo fraco e dependente que se dane, é o conceito que os orienta sem qualquer remorso dos males que provocam.

Na dimensão da vida política eleitoral e parlamentar o elenco das malfeitorias da moçada (para lançar mão do curioso jargão da presidenta), chega ao nível do sublime. Onde há petistas e seus acólitos pode-se esperar alguma trapalhada. É quase que a crônica de uma morte anunciada. Os recentes episódios do mensalão e do petrolão, sem subestimar as novas patifarias que marcham para o centro do palco (atingindo outras empresas públicas cujos cofres estão a descoberto), sugerem que o petismo gangrenou todas as instituições. Alguns, com suposta ingenuidade, alegam que o PT de antigamente era puro e honesto. A convivência com Maluf, Barbalho, Collor, Sarney e outros é que os teriam levado a cair na vida. Falso. O homem adulto já está na criança. Aprenderam a saquear o erário treinando nos sindicatos, nas entidades estudantis e nas diversas associações. Foi um processo, bem sucedido, se não for heresia dizer isso. 

O espírito de rapina do PT é comprovado pelo destino dos seus últimos tesoureiros. Um foi para a Papuda, o outro engaiolado pela Lavajato. Ou alguém terá a cara de pau de dizer que o PT se financiava vendendo estrelinhas em barracas de camelôs no centro das cidades? Quando desembarcaram na presidência da república, em 2003, o fizeram com a mão grande e a goela aberta. Que o diga o caso, até hoje não esclarecido, da primeira briga dentro da caverna de Ali-Babá, que levou a mudança, um ou dois meses após a posse, da cúpula do Ministério do Trabalho. Essa gente - do mesmo modo que outros flibusteiros - é capaz de vender a própria mãe para fazer uma boa catira. A única diferença é que os petistas entregam a velha, tudo conforme o combinado. 

A rejeição popular vista hoje possui, portanto, raízes profundas. O futuro dessa quadrilha está selado. Aguarda-os a sétima vala do oitavo círculo do Inferno (Canto XXV), onde os ladrões correm em meio de enormes serpentes. Quando por elas picados, entram em combustão, reduzindo-se a cinzas, para renascerem logo em seguida. Que Dante tenha razão em sua especial profecia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Batom na cueca


Muito difícil o exercício de crítica a Dilma, Lula e petismo. Como eles são capazes de tudo, conforme dia a dia mostra o noticiário, resta pouco espaço para os eventuais comentaristas. Essa gente consegue roubar até o espaço crítico da oposição. As vigarices são de tal ordem, e de tal magnitude, que a imprensa diária, ao divulgar os fatos mais recentes, impede que os inconformados se manifestem. Gente de outros tempos diria simplesmente que eles são um bando de sem vergonhas. Só isso. Eles têm a cara estanhada, imune a qualquer rubor.

Talvez a solução seja começar a defendê-los. Advogados fazem isso com perfeição. Assumem a defesa dos maiores crápulas - assassinos e ladrões - e conseguem até absolvições. A cueca pode estar manchada de batom e os causídicos não se intimidam. 

"Cueca com batom? Ah, sim. Fácil de esclarecer. Meu cliente estava ali urinando detrás de uma árvore; a donzela ia passando; tropeçou numa pedra e, por mera coincidência, caiu de boca exatamente onde nosso amigo aqui satisfazia suas naturais necessidades". 

E há aqueles que engolem tal explicação, esquecendo-se que a mancha estava do lado de dentro da cueca. Americanos não possuem tal imaginação para inventar desculpas. Bill Clinton, o puritano devasso, que o diga. Para ele, sexo oral não era sexo. 

terça-feira, 10 de março de 2015

Dilma e o exército de orcs

Dona Dilma Rousseff é a demonstração viva e atual da eterna sabedoria dos poetas. Em Os Lusíadas, Camões já alertava que um fraco rei faz fraca a forte gente. Dona Dilma é a mais completa demonstração do quanto isso é verdade. Mais perdida que cachorro que caiu da mudança, a ainda presidente demonstra, a cada dia que passa, o monumental equívoco que foi sua eleição, e posterior reeleição, ao mais alto cargo da república brasileira. Arrogante e prepotente, conforme se viu em suas declarações no último dia 8 de março, ela não faz mais que ratificar, em todas as oportunidades que surgem, sua falta de discernimento e de compreensão a respeito da realidade.

Entre tantos outros exemplos, vem à memória, incontinenti, o episódio de 2012 em que ela se pôs a dar conselhos à Ângela Merkel, sobre qual receita a chanceler alemã deveria seguir para salvar seu país. Profetizando o caos europeu e censurando o FMI, a rudimentar senhora assegurava que a salvação da Alemanha jamais viria se não seguisse a receita vitoriosa do Brasil. Parece brincadeira, mas não é. Uma dirigente séria e respeitada, como Merkel, ter a orelha puxada por alguém da estatura de Dilma é simplesmente espantoso.

Qualquer pessoa minimamente sensata seria capaz de dizer quem estaria precisando receber conselhos. Visto assim à distância, o ridículo perde um pouco de sua força impactante, podendo levar os leitores a pensar que se trata de alguma obra de ficção. Os inumeráveis acontecimentos políticos protagonizados direta ou indiretamente por dona Dilma, porém, mostram sem sombra de dúvidas, que a ainda presidente do Brasil, ela sim, não tem condições de dirigir a mais modesta prefeitura de qualquer rincão do país, e muito menos dar conselhos econômicos e políticos a quem quer que seja.

Pois bem, os dias que correm estão desnudando dona Dilma. Os dias e, também, os fatos inquestionáveis para os quais ela não apresenta qualquer contestação válida. Dona Dilma aproxima-se velozmente do ato final. Com um governo enroscado com o que há de pior na sociedade brasileira, a ainda presidente não tem mais o que dizer. O bando de gatunos que saqueia os cofres públicos é de tal magnitude que até Maluf assume ares de honesto. A Interpol deveria ser alertada para as injustas acusações que recebe.  Maluf e o malufismo não passam de antiquadas nódoas inofensivas, fáceis de serem retiradas com boas doses de benzina. O petismo e o dilmismo, não.

O dilmismo é um petismo degenerado. Ambos operam como um câncer terminal disseminado por todas as dimensões sociais. O petrolão é apenas a ponta do iceberg. Quando aflorarem os tumores do setor elétrico, dos bancos públicos e dos fundos de pensão, a entropia crescente chegará ao seu auge. O retorno à barbárie será capitaneado, não mais por dona Dilma ou Lula. Será conduzido pelo general Stédile à frente de seu exército de orcs, similares àqueles do filme O Senhor dos Anéis.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Psicopetismo (Arnaldo Jabor)


"Finalmente vimos a cara verdadeira da Dilma, carregada de ódio, acusando o governo anterior do FH, porque lá teria havido também corrupção. Claro que sempre houve; corrupção existe desde a fundação da cidade de Salvador, desde 1550, quando Tomé de Souza, primeiro governador do Brasil criou o “bahião”, roubando tanto que quase quebrou Portugal. Dilma tenta responsabilizar outros governos, esquecendo-se de que estão no poder há 13 anos e só fizeram m... ah, “malfeitos”.

Os mais espantosos escândalos do planeta foram provocados por uma corrupção diferente das tradicionais: com o PT no governo, a corrupção foi usada como ferramenta de trabalho, quando o nefasto Lula chamou a turminha dos ladrões aliados e disse: “Podem roubar o que quiserem, desde que me apoiem e votem comigo”. Mas, neste artigo não quero mais bater no governo, pois tudo já está dito, tudo provado, tudo batido.
Quero me ater aos vícios mentais que assolam essa gente, para além da roubalheira.
Como se forma a cabeça de um sujeito como Dirceu, Vaccari, a cabeça do petismo, esse filho bastardo do velho socialismo dos anos 1950?
Havia antigamente uma forte motivação romântica nos jovens que conheci. Era ingênuo, talvez, mas era bonito.
A desgraça dos pobres nos doía como um problema existencial nosso, embora a miséria fosse deles. Era difícil fazer uma revolução? Deixávamos esses “detalhes mixurucas” para os militantes tarefeiros, que considerávamos inferiores “peões” de Lênin ou (mais absurdo ainda) delegávamos o dever da revolução ao presidente da Republica, na melhor tradição de dependência ao Estado, como hoje.
Quando o PT subiu ao poder, eu achava que havia um substrato generoso de amor, uma crença na “revolução”, que era a mão na roda para justificar tudo, qualquer desejo político. Nada disso. Só vimos uma “tomada do poder”, como se os sindicalistas estivessem invadindo o palácio de inverno em São Petersburgo.
Seus vícios mentais eram muito mais óbvios e rasteiros do que esperávamos. Foi minha grande decepção; em vez da “justiça social”, o que houve parecia uma porcada magra invadindo o batatal.
E aí, me bateu: como é a cabeça do petista típico?
Em primeiro lugar, eles são inocentes, mesmo antes de pecar. Estão perdoados de tudo, pois qualquer fim justifica seus meios, vagamente considerados “nobres” no futuro.
Para eles não existe presente — tudo será “um dia”. Não sabem bem o quê, mas algo virá no futuro.
Eles têm a ideia assombrosa de que o partido pode se servir do Estado como se fosse sua propriedade; assim, podem assaltar a Petrobras, fundos de pensão, outras estatais com a consciência limpa, porque se a Petrobras é do povo, é deles. Não é roubo, em sua limitada linguagem de slogans — é “desapropriação”.
Aliás, e o silêncio dos intelectuais simpatizantes diante dos crimes óbvios? Está tudo caladinho...
Outra coisa: o petista legítimo, “escocês” (como o Blue Label 30 anos, único que o Lula toma), acha que “complexidade” é frescura e que a verdade é simplista, um reducionismo dualista. Para eles, o mundo se explica por opressores e oprimidos, tudo, claro, culpa do “capitalismo”, tratado como uma pessoa, com crises de humor: “Ih, o capitalismo está muito agressivo ultimamente”.
Para eles, na melhor tradição stalinista, deve-se ocultar da população questões internas do governo, pois não confiam na sociedade, esse aglomerado de indivíduos alienados e sem rumo.
Podem mentir em paz, sem dar satisfações a ninguém. Eles têm ausência de culpa ou arrependimento, têm o cinismo perfeito de quem se sente uma vítima inocente no instante mesmo em que se esmeram na mentira.
Na prática têm as mesmas motivações do velho stalinismo ou do fascismo: controle de um sobre todos e o manejo da Historia como uma carroça em direção ao “socialismo” imaginário em que creem ou fingem crer.
Ser esquerdo-petista é uma boa desculpa para a própria ignorância (como o são!) — “não preciso pensar muito ou estudar, pois já sou um militante do futuro!” Entrar no partido é sentir-se vitorioso, escondendo o fracasso de suas vidas pessoais, por despreparo ou incompetência.
Nunca vi gente tão incompetente quanto a velha esquerda. São as mesmas besteiras de pessoas que ainda pensam como nos anos 1940. Não precisam estudar nada profundamente, por serem “a favor” do bem e da justiça — a “boa consciência”, último refugio dos boçais.
Aliás, vão além: criticam a competência como porta aberta para a direita; competência é coisa de neoliberal, ideia que subjaz por exemplo na indicação de Joaquim Levy — “neoliberal sabe fazer contas”, pensam. Se não der certo, por causa de suas sabotagens, a culpa é dos social-democratas. Como não têm projeto algum, acham que os meios são seus fins.
A mente dos petistas é uma barafunda de certezas e resume as emoções e ações humanas a meia dúzia de sintomas, de defeitos: “sectários, obreiristas, alienados, vacilantes, massa atrasada e massa adiantada, elite branca” e ignoram outros recortes de personalidade como narcisistas, invejosos, vingativos e como sempre os indefectíveis filhos da puta. Como hoje, os idiotas continuam com as mesmas palavras, se bem que aprenderam a roubar e mentir como “burgueses”.
Obstinam-se com teimosia nos erros, pois consideram suas cagadas “contradições negativas” que se resolverão por novos acertos que não chegam nunca. Há anos vi na TV um debate entre o grande intelectual José Guilherme Merquior e dois marxistas que lamentavam erros passados: derrota em 1935, 56 na Hungria, 68 na Tchecoslováquia, 68 no Brasil, erros sem fim que iriam “superar.” Mas nada dava certo. Merquior não se conteve e replicou com ironia: “Por que vocês não desistem”?

Não pode haver dúvida da loucura contida nisso tudo. Só uma agenda irracional defenderia uma destruição sistemática dos fundamentos que garantem a liberdade organizada. Apenas um homem irracional iria desejar o Estado decidindo sua vida por ele. Muitos são psicopatas, mas a maioria é de burros mesmo".

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Crime político

Os petistas e associados repetem, qual um mantra, que todos - políticos e partidos - são ladrões. Em sua ladainha monótona buscam justificar a formidável roubalheira que praticam, ou patrocinam, desde sua origem nos valhacoutos sindicais, diariamente denunciada pela grande imprensa (que a pequena está na folha de pagamento das empresas estatais e nada fará que comprometa a bocada). 

Uma das mais patéticas afirmações dos governistas larápios diz que "a corrupção não foi inventada pelo PT". Ora, claro que não foi. Também o assassinato não foi inventado pelos nazistas. Atentar contra a vida, a dignidade e o patrimônio alheios faz parte, de fato, da larga história humana. A própria existência de vedação expressa no Decálogo mosaico indica que condutas reprováveis - do tipo matar e roubar - já se apresentavam como possíveis, desde tempos imemoriais, e deveriam ser repudiadas. Não é cabível, portanto, nenhuma justificativa para os crimes de hoje, apontando para os crimes que foram cometidos ontem. A ser assim, aqueles que ainda escravizam, ou estupram, estariam autorizados a escorar suas malfeitorias presentes nas lamentáveis estripulias do passado.   

Os petistas e os nazistas possuem a mesma base genética, a mesma natureza totalitária. Hannah Arendt demonstrou a identidade do nazismo e do comunismo. Ponto importante que os assemelha é a escala com que violaram antigos e respeitáveis cânones civilizatórios. O genocídio sofrido pelo povo judeu (junto com outros menos referidos, porém tão graves quanto), só se equipara ao praticado pelos soviéticos desde 1917, aliás, matriz ideológica do stalinismo tardio que viceja frondosamente no Brasil e alguns de seus vizinhos. A decisiva doutrina dos dois campos - cunhada por Jdanov após a segunda grande guerra - é a prova acabada dos laços espirituais que unem a visão de mundo dos velhos comunistas da Rússia e a dos novos (?) velhos comunas abrigados na estrutura do lulo-petismo.  

O petismo parece atuar obedecendo a algum algoritmo que visa, ao fim e ao cabo, minar as instituições, a começar pelo desrespeito sistemático às leis e, principalmente, à Constituição. É um quadro tão assombroso que não seria ilícito afirmar que (onde há petistas), alguma tramoia está em curso ou, no mínimo, em estágio de planejamento. Seu potencial deletério poderia ser aferido por uma medida de distância entre um petista e algum cofre, com a respectiva ponderação derivada de relação funcional. Segundo tal gradação de periculosidade, seu auge se concretizaria com a posse plena da chave e o monopólio do segredo, dispensando assim a gazua e a dinamite habituais a que pequenos gatunos lançam mão. 

O grande crime petista não é o que atenta contra o patrimônio: é o que afronta a ordem jurídica da nação brasileira. Seu crime é político. O dinheiro furtado dos cofres públicos é apenas um instrumento. Verdade que seduz alguns, mais, outros, menos, mas seu papel é o de alavancar um projeto de poder. Eventuais deslumbramentos são postos na conta das fraquezas humanas ou, então, no preço a ser pago para a manutenção dos áulicos no lugar que lhes é destinado: um calaboca. Aos favoritos da Corte sempre couberam dádivas e prebendas valiosas como prêmio e tributo de fidelidade, nem sempre muito estável. 

O petismo inverteu o processo clássico que mandava constituir uma classe social antes da tomada do poder. Viraram a regra de cabeça para baixo: primeiro tomaram de assalto o aparelho do Estado e, em seguida, passaram a organizar uma nova classe social - cujo cerne é o patriciado burocrático - controlador do núcleo financeiro composto pelos bancos públicos e os fundos de pensão. A clientela diversificada que se acoplou a tal base (desde os que auferem as migalhas do assistencialismo até os rentistas de grossos cabedais), construíram uma incrível espécie de solidariedade, mais orgânica que mecânica, para tomar emprestados velhos conceitos sociológicos, cuja perpetuação persegue se legitimar utilizando-se dos processos eleitorais de massa, momentos onde é possível fazer o diabo, menos perder as decisivas eleições majoritárias. 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Cautela às oposições

Os petistas estão inquietos. Comportam-se como um formigueiro de lava-pés quando remexido. Farejam vagamente a derrota e se conduzem como os nazistas acoitados no último bunker, na reta final da segunda grande guerra: ordens disparatadas, fantasias sobre suas forças, senso extremado de onipotência e, sobretudo, a mentira permeando a tudo e a todos. Enquanto os fanáticos deliravam, a poucos quarteirões de distância, americanos, russos, ingleses e franceses preparavam a última cartada. 

Dona Dilma não suportará a derrota eleitoral. Talvez siga o mesmo caminho de Hitler. Antes, porém, pode deflagrar operações desesperadas ao estilo Estado Islâmico. Sua alma, nunca se deve esquecer, foi forjada no terrorismo. Essa gente, se não puder beber da água, ninguém se iluda: emporcalhará a fonte. Capacidade, estrutura e coragem para tal há de sobra. O estranho silêncio dos MST's da vida impõe cautela às oposições. 

As forças armadas e as polícias que se preparem. Respeito, escrúpulo e decência não fazem parte de todos os dicionários. A maneira como os petistas e seus sócios fatiaram e privatizaram a Petrobrás é sintomática. A carniça é grande e suculenta para ser assim abandonada sem mais nem menos. Eles não têm nenhum senso de limites. Como já foi dito alhures, a turma é composta de incapazes capazes de tudo. Ai de quem pensa que esse tipo de gente aceitará, com o devido fair play, a vitória dos que consideram inimigos. 

domingo, 7 de setembro de 2014

Volte, Joaquinzão!

Se o povo brasileiro pudesse ser ouvido, o grande grito dos excluídos seria, neste sete de setembro de 2014, o de "Volte, Joaquinzão"! Empobrecido pela saída precoce do ilustre ex-ministro, o STF perdeu, com isso, o lugar de depositário das esperanças da nação. 

Mais que nunca, o princípio da publicidade deve ser o principal instrumento jurídico, para que a nação tome ciência dos nomes daqueles que fatiaram, e estão a devorar a Petrobrás. 

É absolutamente necessário que todos saibam quem são os cleptocratas que saqueiam os cofres públicos. Será lamentável, será um atentado à cidadania, se o ministro Teori Zavaski proibir o acesso da imprensa aos autos do inquérito contendo as denúncias do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa. 

A chefia do bando já é bem conhecida. Lula e Dilma não poderão escapar de suas responsabilidades. A madame - gorda e patusca como diria Nelson Rodrigues - fez o diabo enquanto pôde, e ainda faz, conforme se constata no dia-a-dia da política brasileira. Há doze anos que ela manda e desmanda na Petrobrás, Eletrobrás e outras. 

A conduta irresponsável ou, no mínimo temerária, da plastificada senhora de cérebro baldio, pode ser aferida pela sua autorização de compra do ferro velho de Pasadena. Ela mesma assim se delatou. Assinou importantes documentos sem ao menos lê-los, numa leviandade incomparável. Ora, como uma pessoa capaz de tal comportamento ainda quer ser juiz de propostas de adversários, como ela está fazendo ao tecer críticas às propostas da candidata Marina Silva?

Marina Silva deveria interpelá-la para saber se, ao fazer o que fez, dona Dilma estava defendendo os interesses da Petrobrás ou, então, estava apenas dando uma ordem prévia para que se operasse o saqueio de centenas de milhões de dólares dos cofres da estatal. Talvez aqui se devesse utilizar as medidas de Tio Patinhas para se ter uma ideia mais aproximada do quantum surrupiado: Quaquaquilhões, estupidibilhões, dada a magnitude das medidas, inconcebível para pessoas normais. 

A gatunagem no setor energético durante todo o período do lulopetismo, ali incluído o vasto segmento elétrico, sempre teve como parceiro o ainda senador José Sarney. Saber que o ministro Lobão pai (outro bate pau do Sarney, de quem imita até a tintura dos cabelos), era um dos comensais das propinas, causa agora tanto espanto quanto causou, outrora, a notícia de que o ex-ministro Silas Rondeau (também das Minas e Energia e homem de confiança de Sarney), recebia gratificações dentro de seu próprio gabinete. 

Que espanto isso ainda provoca? Nenhum, pode-se dizer, sem qualquer e mínima dúvida. O petismo comprova, como se fora necessário, a cada denúncia que vem a lume, que sua natureza é a mesma da turma de Ali Babá. 

Volte, Joaquinzão! Volte!   

sábado, 23 de agosto de 2014

Marina e a crítica ao projeto totalitário

Marina Silva continua a surpreender o Brasil. Foi dela a mais contundente crítica ao projeto totalitário do PT. Para os petistas, conforme se sabe há tempos, não há distinção entre Estado, Governo e Partido. Estas instâncias perdem sua especificidade no jogo político, numa redução perversa  que mata no berço qualquer veleidade de se ter uma democracia constitucional. Qual um crocodilo - Leviatã? - o Partido destroça e digere as funções que são governamentais e/ou estatais. Vem desse procedimento a crítica recorrente ao que se chama "aparelhamento", praticado desde sempre pelo PT na administração pública.

O século XX assistiu o surgimento de experiências totalitárias cuja medida se faz em milhões... de mortos, por suposto, indicando os riscos sofridos pela humanidade. O comunismo em suas diferentes roupagens - maoísmo, castrismo, leninismo, estalinismo - bem como o fascismo, igualmente travestido de peculiaridades locais ou regionais - nazismo, salazarismo, franquismo e outros ismos - foram varridos para o lixo da história, deixando um espólio que figuras caricatas da América Latina, Ásia e África tentam ressuscitar. 

Estão aí, para ficarmos no mais próximo, o lulismo e o chavismo, anacrônicas manifestações de um totalitarismo tardio, sem falar nos jihadismos peculiares onde prospera o Islã. Marina Silva, por incrível que possa parecer, em vista de sua origem política, foi ao nervo da questão ao apontar o necessidade de se separar Estado, Governo e Partido. Caso persevere nessa senda, o país estará dando um passo à frente. 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Os cafajestes


O ministro Paulo Bernardo, consorte da ex-ministra Gleisi Hoffman, resolveu dar sua modesta contribuição aos costumes pátrios. Maus costumes, claro, pois que o ministro é um dos mandarins petistas, portanto, inimputável. Para ele é natural haver trapaças e atentados à Constituição. Pegados com a boca na botija, os espertalhões que estavam a sabotar a CPI da Petrobrás ficaram sem ter o que dizer. É o tal batom na cueca. Como explicar à patroa, ao chegar em casa, a comprometedora marca? Inexplicável, obviamente. A menos que se crie uma narrativa tão fantasiosa, tipo, "isso aconteceu, querida, porque uma jovem senhora que passava escorregou, quase caiu, exatamente ali onde eu estava fazendo xixi, ao pé de um árvore; estava muito escuro o local e, no tombo que a coitada tomou, ao inclinar o corpo, caiu, manchando minha roupa de batom". A versão se complica, no entanto, devido a um simples aspecto: a marca fatal estava na parte interna da cueca.


Pontificou solenemente o ministro, amicíssimo, aliás, daquele deputado sócio de notório doleiro que está recolhido atrás das grades:


"Na primeira CPI já deve ter acontecido isso. Vem desde Pedro Álvares Cabral. A não ser que queiramos fingir que somos todos inocentes, que somos muito hipócritas, e falar que isso não acontece (referia-se ao conluio do palácio do Planalto, a Petrobrás e os senadores petistas e aliados para melar as investigações). Isso é uma tempestade em copo d'água - prosseguiu - que fizeram para ver se alavanca a oposição".

Bem, segundo tal incrível concepção, se um irmão der um tiro na cabeça do outro, ele estará absolvido. Afinal de contas, essa prática é antiga. Caim não matou Abel? Coisa pouca, ora. Escravizar os outros também é um velho costume, não sejamos hipócritas. Os fazendeiros pilhados reduzindo homens à condição análoga ao do trabalho escravo, bem poderão convidar o ministro para depor em seu favor. E essa tal lei Maria da Penha? Mulheres sempre tomaram uns bofetões dos maridos e companheiros. Coisa mais natural, então, qual o problema? E tapinhas de amor nem doem, dizem os entendidos. Os mensaleiros petistas condenados pelo STF deveriam reivindicar absolvição e, mesmo, uma gorda indenização, pois que, patriotas de escol, só fizeram aquilo que Newtão, Maluf, Sarney e outros próceres sempre fizeram. Qual o problema, indagaria certamente o ministro Paulo Bernardo? Não sejamos hipócritas, em conformidade com seu bordão. 

O ministro Paulo Bernardo ainda foi além da imaginação. Botou até o pobre do Pedro Álvares Cabral no seu suruba ético e moral. Não demora muito, ele vai incluir na sua galeria algum santo da Igreja. E eles existem: São Paulo e Santo Agostinho que se cuidem. Este último, então, é um rico manancial. Estão lá em nas Confissões suas peripécias antes de se converter pelas mãos de sua mãe - Santa Mônica. Papini também deu notas esclarecedoras a respeito do ilustre Doutor da Igreja na sua obra A Vida de Santo Agostinho. 

Como, ao que parece, a vida anda imitando muito a arte, devemos render um tributo a Jece Valadão, grande ator brasileiro já falecido. Um de seus filmes antecipou em meio século o espírito que preside o modus operandi do petismo: Os cafajestes! A cafajestagem será o núcleo da herança maldita que Lula, Dilma e companheirada deixarão para os brasileiros. Uma incurável doença do espírito, é o que receberemos em breve.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Nuvens de gafanhotos

O ex-governador Garotinho criou uma frase memorável anos atrás. Definiu o PT como o partido da boquinha, sempre à cata de algum cargo para seus inumeráveis "militantes". O PT, evidentemente, evoluiu nas suas pretensões. Já não se satisfaz mais com meras boquinhas na administração pública. O negócio agora são as bocadas, coisa grande, negócio dos bons para ninguém botar defeito. As recentes notícias sobre a invasão da turma na seara do Sistema S (SESI, SENAI, SEBRAE, etc), dão uma pálida ideia a respeito do método de saqueio a que estão submetidas as instituições brasileiras. Segundo o divulgado pela imprensa, a nora de Lula mamava treze paus (para respeitar a terminologia do Vavá, irmão de Lula); a mulher do mensaleiro hóspede da Papuda - ex-deputado petista João Paulo Cunha - o capilé era mais suntuoso: 23 paus por mês! E tudo sem a necessidade de sequer bater o ponto na repartição. Às duas madames junta-se um exército de coordenadores de sei lá o quê, de assessores de porra nenhuma, de consultores do nada e outras denominações funcionais fajutas que a larga imaginação da turma oferece.

O PT parece uma nuvem de gafanhotos, verdadeira praga do Egito, que não poupa nada nem ninguém. Curioso é a capacidade que revela de aparelhar entidades patronais, arrancando dinheiro dos empresários com a mesma facilidade com que depredam as entidades sindicais dos trabalhadores. Há casos, como o do candidato petista ao governo mineiro - ex-ministro Fernando Pimentel - que abocanhou alguns milhões de reais fazendo "consultoria" para a Federação das Indústrias de Minas Gerais (como se empresários solidamente estabelecidos precisassem de um comunista para lhes ensinar a ganhar dinheiro). A menos, claro, que Pimentel seja uma encarnação do banqueiro anarquista, personagem aludido por Fernando Pessoa em seus Contos de Raciocínio.  

Com faro extraordinariamente apurado, os petistas seguem e perseguem o dinheiro onde quer que este esteja, qualquer que seja seu eventual controlador, depositário ou proprietário. Pode ser bicheiro? Sim. Pode ser traficante? Sim. Pode ser quadrilheiro? Sim. Pode ser igreja? Sim. Pode ser banco ou instituição financeira? Sim. Pode ser empreiteiro? Sim. Pode ser sindicato patronal? Sim. Pode ser entidade estudantil? Sim. Enfim, qualquer que seja o tipo de trapaceiro, picareta, publicitário ou similar, em tudo quanto é entidade, o petismo e assemelhados lá estarão de biquinho aberto a espera da cobiçada ração, qual filhotes esganados de carniceiros e de rapinantes.

Essa vasta clientela sugando a seiva vital da nação venderá caro a derrota nas próximas eleições. Perder uma bocada de um ou dois paus por dia não é para qualquer um. As hienas demonstram a força com que se aplicam na defesa da carniça. Enfrentam leões, leopardos e crocodilos com assombroso destemor. E essa nuvem de gafanhotos não se deixará ser varrida do mapa se maneira graciosa, cheia de fair play, como finos cavalheiros que respeitam as regras do jogo. Farão o diabo, já advertiu e conclamou  dona Dilma. Essa nefasta senhora e Lula da Silva são apenas o ápice de uma estrutura tentacular que se desdobra e se multiplica como erva daninha. A tiririca do jardim, não o inofensivo palhaço deputado, resiste aos mais poderosos herbicidas. O herbicida para o PT é o voto livre e a defesa das leis e das instituições.

Os parasitas que congregam nos templos do PT configuram, mais que uma nova classe social, uma casta que transfere de pai para filho, de marido para mulher, de irmão para irmão, de cupinchas para cupinchas os privilégios e os recursos subtraídos da sociedade. É um esquema mais vasto e mais profundo que o clientelismo tradicional dos coronéis nordestinos, um tanto amadores perto dos petistas; estes sim são profissionais.

Frente aos caraminguás da bolsa-família, a bolsa-companheiro é um insulto aos pobres do Brasil. A bolsa-família poderia ser duplicada melhorando a vida dos que a recebem. Bastaria, tão somente, acabar com as boquinhas, as bocas e as bocadas diversas que alimentam os parasitas - do petismo e associados - que engordam mamando nos cofres públicos.  

quinta-feira, 19 de junho de 2014

CORAÇÕES E MENTES

Os doutrinadores do lulo-petismo construíram um estratégia política que lhes garantiu a vitória nas eleições presidenciais por três vezes sucessivas. Aplicando conceitos extraídos do leninismo renovado (basicamente nas doutrinas de Gramsci), erigiram um conjunto de procedimentos, seguidos com a disciplina stalinista, que lhes desse a hegemonia em todos os campos da vida social, cultural, econômica e política. 

O projeto é simples na sua concepção, porém de complexa execução quando posto em prática. Ganhar ou perder eleições nunca foi o objetivo maior a ser alcançado. Tanto isso é verdade que ao longo dos últimos trinta anos o PT marchou sozinho – ou com alguns fiéis partidos satélites – em disputas de toda ordem. Buscaram, antes, consolidar um nicho que ancorasse seus movimentos no futuro, que ganhar mandatos a qualquer preço em eventuais disputas. Consolidado, passou a admitir então qualquer tipo de composição com outras forças sociais e políticas, desde que eles, petistas, detivessem o controle e o comando último.

Para que este projeto de larga duração obtivesse êxito seria necessária, todavia, a conquista dos corações e das mentes, não só das massas populares quanto, também, de artistas, professores, intelectuais e outras lideranças políticas, empresariais, eclesiásticas e militares. Mais que as mentes, aliás, o fundamental seria conquistar os corações, em toda sua extensa significação e valor simbólico. Laços baseados no afeto são mais duradouros que aqueles forjados pela fria inteligência. David Hume, o notável racionalista inglês, já reconhecia a razão como escrava das paixões. Nenhum argumento, por exemplo, nem o mais consistente, levaria um torcedor apaixonado a renegar seu time, quando derrotado, pelas cores de outro, mesmo que este seja persistentemente vitorioso.

O desespero da cúpula dirigente do petismo com as manifestações críticas nos estádios de futebol e nas ruas tem, pois, razão de ser. O povo brasileiro denota claramente que está com preguiça de dona Dilma e sua corte de patifes – Sarney, Collor, Calheiros, Zé Dirceu, Genoíno, Delúbio etc. Do mais graduado ao mais reles, a relação é enciclopédica, quase infinita. Quem quer que tenha sua própria lista de políticos corruptos poderá constatar: todos com Dilma, sem tirar nem por, em qualquer estado da federação. 

Em sua volúpia hegemônica os petistas açambarcaram, sem pudor, de caquéticos e anacrônicos coronéis nordestinos, a modernosos tecnocratas gatunos, como os que abundam na Petrobrás e outras empresas públicas. Até Maluf, ícone inconteste e notório da velhacaria e cinismo nacional, antigamente tratado pelo PT a tapas, agora andam aos beijos, sôfregos, nas enxovias, próximos dos cofres. Enlouquecidos pela soberba, os petistas julgaram que o afeto popular lhes perdoaria qualquer crime. Mas o filtro de tolerância que beneficiou o partido durante tantos anos se esgarçou. Perderam.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O PAPEL DA OPOSIÇÃO - Fernando Henrique Cardoso

O Papel da Oposição

Há muitos anos, na década de 1970, escrevi um artigo com o título acima no jornal Opinião, que pertencia à chamada imprensa “nanica”, mas era influente. Referia-me ao papel do MDB e das oposições não institucionais. Na época, me parecia ser necessário reforçar a frente única antiautoritária e eu conclamava as esquerdas não armadas, sobretudo as universitárias, a se unirem com um objetivo claro: apoiar a luta do MDB no Congresso e mobilizar a sociedade pela democracia. Só dez anos depois a sociedade passou a atuar mais diretamente em favor dos objetivos pregados pela oposição, aos quais se somaram também palavras de ordem econômicas, como o fim do “arrocho” salarial. No entretempo, vivia-se no embalo do crescimento econômico e da aceitação popular dos generais presidentes, sendo que o mais criticado pelas oposições, em função do aumento de práticas repressivas, o general Médici, foi o mais popular: 75% de aprovação.

Não obstante, não desanimávamos. Graças à persistência de algumas vozes, como a de Ulisses Guimarães, às inquietações sociais manifestadas pelas greves do final da década e ao aproveitamento pelos opositores de toda brecha que os atropelos do exercício do governo, ou as dificuldades da economia proporcionaram (como as crises do petróleo, o aumento da dívida externa e a inflação), as oposições não calavam. Em 1974, o MDB até alcançou expressiva vitória eleitoral em pleno regime autoritário. Por que escrevo isso novamente, 35 anos depois?

Para recordar que cabe às oposições, como é óbvio e quase ridículo de escrever, se oporem ao governo. Mas para tal precisam afirmar posições, pois, se não falam em nome de alguma causa, alguma política e alguns valores, as vozes se perdem no burburinho das maledicências diárias sem chegar aos ouvidos do povo. Todas as vozes se confundem e não faltará quem diga – pois dizem mesmo sem ser certo – que todos, governo e oposição, são farinhas do mesmo saco, no fundo “políticos”. E o que se pode esperar dos políticos, pensa o povo, senão a busca de vantagens pessoais, quando não clientelismo e corrupção?

Diante do autoritarismo era mais fácil fincar estacas em um terreno político e alvejar o outro lado. Na situação presente, as dificuldades são maiores. Isso graças à convergência entre dois processos não totalmente independentes: o “triunfo do capitalismo” entre nós (sob sua forma global, diga-se) e a adesão progressiva – no começo envergonhada e por fim mais deslavada – do petismo lulista à nova ordem e a suas ideologias. Se a estes processos somarmos o efeito dissolvente que o carisma de Lula produziu nas instituições, as oposições têm de se situar politicamente em um quadro complexo. Complexidade crescente a partir dos primeiros passos do governo Dilma que, com estilo até agora contrastante com o do antecessor, pode envolver parte das classes médias. Estas, a despeito dos êxitos econômicos e da publicidade desbragada do governo anterior, mantiveram certa reserva diante de Lula. Esta reserva pode diminuir com relação ao governo atual se ele, seja por que razão for, comportar-se de maneira distinta do governo anterior. É cedo para avaliar a consistência de mudanças no estilo de governar da presidente Dilma. Estamos no início do mandato e os sinais de novos rumos dados até agora são insuficientes para avaliar o percurso futuro.


É preciso refazer caminhos

Antes de especificar estes argumentos, esclareço que a maior complexidade para as oposições se firmarem no quadro atual – comparando com o que ocorreu no regime autoritário, e mesmo com o petismo durante meu governo, pois o PT mantinha uma retórica semianticapitalista – não diminui a importância de fincar a oposição no terreno político e dos valores, para que não se perca no oportunismo nem perca eficácia e sentido, aumentando o desânimo que leva à inação. É preciso, portanto, refazer caminhos, a começar pelo reconhecimento da derrota: uma oposição que perde três disputas presidenciais não pode se acomodar com a falta de autocrítica e insistir em escusas que jogam a responsabilidade pelos fracassos no terreno “do outro”. Não estou, portanto, utilizando o que disse acima para justificar certa perplexidade das oposições, mas para situar melhor o campo no qual se devem mover.

Se as forças governistas foram capazes de mudar camaleonicamente a ponto de reivindicarem o terem construído a estabilidade financeira e a abertura da economia, formando os “cam¬peões nacionais” – as empresas que se globalizam – isso se deu porque as oposições minimizaram a capacidade de contorcionismo do PT, que começou com a Carta aos Brasileiros de junho de 1994 e se desnudou quando Lula foi simultaneamente ao Fórum Social de Porto Alegre e a Davos. Era o sinal de “adeus às armas”: socialismo só para enganar trouxas, nacional-desenvolvimentismo só como “etapa”. Uma tendência, contudo, não mudou, a do hegemonismo, ainda assim, aceitando aliados de cabresto.

Segmentos numerosos das oposições de hoje, mesmo no PSDB, aceitaram a modernização representada pelo governo FHC com dor de consciência, pois sentiam bater no coração as mensagens atrasadas do esquerdismo petista ou de sua leniência com o empreguismo estatal. Não reivindicaram com força, por isso mesmo, os feitos da modernização econômica e do fortalecimento das instituições, fato muito bem exemplificado pela displicência em defender os êxitos da privatização ou as políticas saneadoras, ou de recusar com vigor a mentira repetida de que houve compra de votos pelo governo para a aprovação da emenda da reeleição, ou de denunciar atrasos institucionais, como a perda de autonomia e importância das agências reguladoras. Da mesma maneira, só para dar mais alguns exemplos, o Proer e o Proes, graças aos quais o sistema financeiro se tornou mais sólido, foram solenemente ignorados, quando não estigmatizados. Os efeitos positivos da quebra dos monopólios, o do petróleo mais que qualquer outro, levando a Petrobras a competir e a atuar como empresa global e não como repartição pública, não foram reivindicados como êxitos do PSDB. O estupendo sucesso da Vale, da Embraer ou das teles e da Rede Ferroviária sucumbiu no murmúrio maledicente de “privatarias” que não existiram. A política de valorização do salário mínimo, que se iniciou no governo Itamar Franco e se firmou no do PSDB, virou glória do petismo. As políticas compensatórias iniciadas no governo do PSDB – as bolsas – que o próprio Lula acusava de serem esmolas e quase naufragaram no natimorto Fome Zero – voltaram a brilhar na boca de Lula, pai dos pobres, diante do silêncio da oposição e deslumbramento do país e… do mundo!

Não escrevo isso como lamúria, nem com a vã pretensão de imaginar que é hora de reivindicar feitos do governo peessedebista. Inês é morta, o passado… passou. Nem seria justo dizer que não houve nas oposições quem mencionasse com coragem muito do que fizemos e criticasse o lulismo. As vozes dos setores mais vigorosos da oposição se estiolaram, entretanto, nos muros do Congresso e este perdeu força política e capacidade de ressonância. Os partidos se transformaram em clubes congressuais, abandonando as ruas; muitos parlamentares trocaram o exercício do poder no Congresso por um prato de lentilhas: a cada nova negociação para assegurar a “governabilidade”, mais vantagens recebem os congressistas e menos força político-transformadora tem o Congresso. Na medida em que a maioria dos partidos e dos parlamentares foi entrando no jogo de fazer emendas ao orçamento (para beneficiar suas regiões, interesses – legítimos ou não – de entidades e, por fim, sua reeleição), o Congresso foi perdendo relevância e poder. Consequentemente, as vozes parlamentares, em especial as de oposição, que são as que mais precisam da instituição parlamentar para que seu brado seja escutado, perderam ressonância na sociedade. Com a aceitação sem protesto do “modo lulista de governar” por meio de medidas provisórias, para que serve o Congresso senão para chancelar decisões do Executivo e receber benesses? Principalmente, quando muitos congressistas estão dispostos a fazer o papel de maioria obediente a troco da liberação pelo Executivo das verbas de suas emendas, sem esquecer que alguns oposicionistas embarcam na mesma canoa.

Ironicamente, uma importante modificação institucional, a descentralização da ação executiva federal, estabelecida na Constituição de 1988 e consubstanciada desde os governos Itamar Franco e FHC, diluiu sua efetividade técnico-administrativa em uma pletora de recursos orçamentários “carimbados”, isto é, de orientação político-clientelista definida, acarretando sujeição ao Poder Central, ou, melhor, a quem o simboliza pessoalmente e ao partido hegemônico. Neste sentido, diminuiu o papel político dos governadores, bastião do oposicionismo em estados importantes, pois a relação entre prefeituras e governo federal saltou os governos estaduais e passou a se dar mais diretamente com a presidência da República, por meio de uma secretaria especial colada ao gabinete presidencial.

Como, por outra parte, existe – ou existiu até há pouco – certa folga fiscal e a sociedade passa por período de intensa mobilidade social movida pelo dinamismo da economia internacional e pelas políticas de expansão do mercado interno que geram emprego, o desfazimento institucional produzido pelo lulismo e a difusão de práticas clientelísticas e corruptoras foram sendo absorvidos, diante da indiferença da sociedade. Na época do mensalão, houve um início de desvendamento do novo Sistema (com S maiúsculo, como se escrevia para descrever o modelo político criado pelos governos militares). Então, ainda havia indignação diante das denúncias que a mídia fazia e os partidos ecoavam no Parlamento. Pouco a pouco, embora a mídia continue a fazer denúncias, a própria opinião pública, isto é, os setores da opinião nacional que recebem informações, como que se anestesiou. Os cidadãos cansaram de ouvir tanto horror perante os céus sem que nada mude.


Diante deste quadro, o que podem fazer as oposições?

Definir o público a ser alcançado
Em primeiro lugar, não manter ilusões: é pouco o que os partidos podem fazer para que a voz de seus parlamentares alcance a sociedade. É preciso que as oposições se deem conta de que existe um público distinto do que se prende ao jogo político tradicional e ao que é mais atingido pelos mecanismos governamentais de difusão televisiva e midiática em geral. As oposições se baseiam em partidos não propriamente mobilizadores de massas. A definição de qual é o outro público a ser alcançado pelas oposições e como fazer para chegar até ele e ampliar a audiência crítica é fundamental. Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos. Isto porque o governo “aparelhou”, cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias.

Sendo assim, dirão os céticos, as oposições estão perdidas, pois não atingem a maioria. Só que a realidade não é bem essa. Existe toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens), de profissionais das atividades contemporâneas ligadas à TI (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora, às quais se soma o que vem sendo chamado sem muita precisão de “classe C” ou de nova classe média. Digo imprecisamente porque a definição de classe social não se limita às categorias de renda (a elas se somam educação, redes sociais de conexão, prestígio social, etc.), mas não para negar a extensão e a importância do fenômeno. Pois bem, a imensa maioria destes grupos – sem excluir as camadas de trabalhadores urbanos já integrados ao mercado capitalista – está ausente do jogo político-partidário, mas não desconectada das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter, etc. É a estes que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente, sobretudo no período entre as eleições, quando os partidos falam para si mesmo, no Congresso e nos governos. Se houver ousadia, os partidos de oposição podem organizar-se pelos meios eletrônicos, dando vida não a diretórios burocráticos, mas a debates verdadeiros sobre os temas de interesse dessas camadas.

Mas não é só isso: as oposições precisam voltar às salas universitárias, às inúmeras redes de palestras e que se propagam pelo país afora e não devem, obviamente, desacreditar do papel da mídia tradicional: com toda a modernização tecnológica, sem a sanção derivada da confiabilidade, que só a tradição da grande mídia assegura, tampouco as mensagens, mesmo que difundidas, se transformam em marcas reconhecidas. Além da persistência e ampliação destas práticas, é preciso buscar novas formas de atuação para que a oposição esteja presente, ou pelo menos para que entenda e repercuta o que ocorre na sociedade. Há inúmeras organizações de bairro, um sem-número de grupos musicais e culturais nas periferias das grandes cidades, etc., organizações voluntárias de solidariedade e de protesto, redes de consumidores, ativistas do meio ambiente, e por aí vai, que atuam por conta própria. Dado o anacronismo das instituições político-partidárias, seria talvez pedir muito aos partidos que mergulhem na vida cotidiana e tenham ligações orgânicas com grupos que expressam as dificuldades e anseios do homem comum. Mas que pelo menos ouçam suas vozes e atuem em consonância com elas.

Não deve existir uma separação radical entre o mundo da política e a vida cotidiana, nem muito menos entre valores e interesses práticos. No mundo interconectado de hoje, vê-se, por exemplo, o que ocorre com as revoluções no meio islâmico, movimentos protestatários irrompem sem uma ligação formal com a política tradicional. Talvez as discussões sobre os meandros do poder não interessem ao povo no dia-a-dia tanto quanto os efeitos devastadores das enchentes ou o sufoco de um trânsito que não anda nas grandes cidades. Mas, de repente, se dá um “curto-circuito” e o que parecia não ser “política” se politiza. Não foi o que ocorreu nas eleições de 1974 ou na campanha das “diretas já”? Nestes momentos, o pragmatismo de quem luta para sobreviver no dia-a-dia lidando com questões “concretas” se empolga com crenças e valores. O discurso, noutros termos, não pode ser apenas o institucional, tem de ser o do cotidiano, mas não desligado de valores. Obviamente em nosso caso, o de uma democracia, não estou pensando em movimentos contra a ordem política global, mas em aspirações que a própria sociedade gera e que os partidos precisam estar preparados para que, se não os tiverem suscitado por sua desconexão, possam senti-los e encaminhá-los na direção política desejada.

Seria erro fatal imaginar, por exemplo, que o discurso “moralista” é coisa de elite à moda da antiga UDN. A corrupção continua a ter o repúdio não só das classes médias como de boa parte da população. Na última campanha eleitoral, o momento de maior crescimento da candidatura Serra e de aproximação aos resultados obtidos pela candidata governista foi quando veio à tona o “episódio Erenice”. Mas é preciso ter coragem de dar o nome aos bois e vincular a “falha moral” a seus resultados práticos, negativos para a população. Mais ainda: é preciso persistir, repetir a crítica, ao estilo do “beba Coca Cola” dos publicitários. Não se trata de dar-nos por satisfeitos, à moda de demonstrar um teorema e escrever “cqd”, como queríamos demonstrar. Seres humanos não atuam por motivos meramente racionais. Sem a teatralização que leve à emoção, a crítica – moralista ou outra qualquer – cai no vazio. Sem Roberto Jefferson não teria havido mensalão como fato político.


Qual é a mensagem?

Por certo, os oposicionistas para serem ouvidos precisam ter o que dizer. Não basta criar um público, uma audiência e um estilo, o conteúdo da mensagem é fundamental. Qual é a mensagem? O maior equívoco das oposições, especialmente do PSDB, foi o de haver posto à margem as mensagens de modernização, de aggiornamento do País, e de clara defesa de uma sociedade democrática comprometida com causas universais, como os direitos humanos e a luta contra a opressão, mesmo quando esta vem mascarada de progressismo, apoiada em políticas de distribuição de rendas e de identificação das massas com o Chefe. Nas modernas sociedades democráticas, por outro lado, o Estado tanto mantém funções na regulação da economia como em sua indução, podendo chegar a exercer papel como investidor direto. Mas o que caracteriza o Estado em uma sociedade de massas madura é sua ação democratizadora. Os governos devem tornar claros, transparentes, e o quanto possível imunes à corrupção, os mecanismos econômicos que cria para apoiar o desenvolvimento da economia. Um Estado moderno será julgado por sua eficiência para ampliar o acesso à educação, à saúde e à previdência social, bem como pela qualidade da segurança que oferece às pessoas. Cabe às oposições serem a vanguarda nas lutas por estes objetivos.

Defender o papel crescente do Estado nas sociedades democráticas, inclusive em áreas produtivas, não é contraditório com a defesa da economia de mercado. Pelo contrário, é preciso que a oposição diga alto e bom som que os mecanismos de mercado, a competição, as regras jurídicas e a transparência das decisões são fundamentais para o Brasil se modernizar, crescer economicamente e se desenvolver como sociedade democrática. Uma sociedade democrática amadurecida estará sempre comprometida com a defesa dos direitos humanos, com a ecologia e com o combate à miséria e às doenças, no país e em toda a parte. E compreende que a ação isolada do Estado, sem a participação da sociedade, inclusive dos setores produtivos privados, é insuficiente para gerar o bem-estar da população e oferecer bases sólidas para um desenvolvimento econômico sustentado.

Ao invés de se aferrarem a esses valores e políticas que lhes eram próprios como ideologia e como prática, as oposições abriram espaço para que o lulopetismo ocupasse a cena da modernização econômica e social. Só que eles têm os pés de barro: a cada instante proclamam que as privatizações “do PSDB” foram contra a economia do País, embora comecem a fazer descaradamente concessões de serviços públicos nas estradas e nos aeroportos, como se não estivessem fazendo na prática o mea-culpa. Cabe às oposições não apenas desmascarar o cinismo, mas, sobretudo, cobrar o atraso do País: onde está a infraestrutura que ficou bloqueada em seus avanços pelo temor de apelar à participação da iniciativa privada nos portos, nos aeroportos, na geração de energia e assim por diante? Quão caro já estamos pagando pela ineficiência de agências reguladoras entregues a sindicalistas “antiprivatizantes” ou a partidos clientelistas, como se tornou o PCdoB, que além de vender benesses no ministério dos Esportes, embota a capacidade controladora da ANP, que deveria evitar que o monopólio voltasse por vias transversas e prejudicasse o futuro do País.


Oposição precisa vender o peixe

Dirão novamente os céticos que nada disso interessa diretamente ao povo. Ora, depende de como a oposição venda o peixe. Se tomarmos como alvo, por exemplo, o atraso nas obras necessárias para a realização da Copa e especializarmos três ou quatro parlamentares ou técnicos para martelar no dia-a-dia, nos discursos e na internet, o quanto não se avança nestas áreas por causa do burocratismo, do clientelismo, da corrupção ou simplesmente da viseira ideológica que impede a competição construtiva entre os setores privados e destes com os monopólios, e se mostrarmos à população como ela está sendo diretamente prejudicada pelo estilo petista de política, criticamos este estilo de governar, suscitamos o interesse popular e ao mesmo tempo oferecemos alternativas.

Na vida política tudo depende da capacidade de politizar o apelo e de dirigi-lo a quem possa ouvi-lo. Se gritarmos por todos os meios disponíveis que a dívida interna de R$ 1,69 trilhão (mostrando com exemplos ao que isto corresponde) é assustadora, que estamos pagando R$ 50 bilhões por ano para manter reservas elevadas em dólares, que pagamos a dívida (pequena) ao FMI sobre a qual incidiam juros moderados, trocando-a por dívidas em reais com juros enormes, se mostrarmos o quanto custa a cada contribuinte cada vez que o Tesouro transfere ao BNDES dinheiro que o governo não tem e por isso toma emprestado ao mercado pagando juros de 12% ao ano, para serem emprestados pelo BNDES a juros de 6% aos grandes empresários nacionais e estrangeiros, temos discurso para certas camadas da população. Este discurso deve desvendar, ao mesmo tempo, o porquê do governo assim proceder: está criando um bloco de poder capitalista-burocrático que sufoca as empresas médias e pequenas e concentra renda.

Este tipo de política mostra descaso pelos interesses dos assalariados, dos pequenos produtores e profissionais liberais de tipo antigo e novo, setores que, em conjunto, custeiam as benesses concedidas ao grande capital com impostos que lhe são extraídos pelo governo. O lulopetismo não está fortalecendo o capitalismo em uma sociedade democrática, mas sim o capitalismo monopolista e burocrático que fortalece privilégios e corporativismos.

Com argumentos muito mais fracos o petismo acusou o governo do PSDB quando, em fase de indispensável ajuste econômico, aumentou a dívida interna (ou, melhor, reconheceu os “esqueletos” compostos por dívidas passadas) e usou recursos da privatização – todos contabilizados – para reduzir seu crescimento. A dívida pública consolidada do governo lulista foi muito maior do que a herdada por este do governo passado e, no entanto, a opinião pública não tomou conhecimento do fato. As oposições não foram capazes de politizar a questão. E o que está acontecendo agora quando o governo discute substituir o fator previdenciário, recurso de que o governo do PSDB lançou mão para mitigar os efeitos da derrota sofrida para estabelecer uma idade mínima de aposentadoria? Propondo a troca do fator previdenciário pela definição de… uma idade mínima de aposentadoria.


Petistas camaleões

Se os governistas são camaleões (ou, melhor, os petistas, pois boa parte dos governistas nem isso são: votavam com o governo no passado e continuam a votar hoje, como votarão amanhã), em vez de saudá-los porque se aproximam da racionalidade ou de votarmos contra esta mesma racionalidade, negando nossas crenças de ontem, devemos manter a coerência e denunciar as falsidades ideológicas e o estilo de política de mistificação dos fatos, tantas vezes sustentado pelo petismo.

São inumeráveis os exemplos sobre como manter princípios e atuar como uma oposição coerente. Mesmo na questão dos impostos, quando o PSDB e o DEM junto com o PPS ajudaram a derrubar a CPMF, mostraram que, coerentes, dispensaram aquele imposto porque ele já não era mais necessário, como ficou demonstrado pelo contínuo aumento da receita depois de sua supressão. É preciso continuar a fazer oposição à continuidade do aumento de impostos para custear a máquina público-partidária e o capitalismo burocrático dos novos dinossauros. É possível mostrar o quanto pesa no bolso do povo cada despesa. E para ser coerente, a oposição deve lutar desde já pela redução drástica do número de cargos em comissão, nomeados discricionariamente, bem como pelo estabelecimento de um número máximo de ministérios e secretarias especiais, para conter a fúria de apadrinhamento e de conchavos partidários à custa do povo.

Em suma: não há oposição sem “lado”. Mais do que ser de um partido, é preciso “tomar partido”. É isso que a sociedade civil faz nas mais distintas matérias. O que o PSDB pensa sobre liberdade e pluralidade religiosa? Como manter a independência do Estado laico e, ao mesmo tempo, prestigiar e respeitar as religiões que formam redes de coesão social, essenciais para a vida em sociedade? O que pensa o partido sobre o combate às drogas? É preciso ser claro e sincero: todas as drogas causam danos, embora de alcance diferente. Adianta botar na cadeia os drogados?


Sinceridade comove a população

Há casos nos quais a regulação vale mais que a proibição: veja-se o tabaco e o álcool, ambos extremadamente daninhos. São não apenas regulados em sua venda e uso (por exemplo, é proibido fumar em locais fechados ou beber depois de uma festa e guiar automóveis) como estigmatizados por campanhas publicitárias, pela ação de governos e das famílias. Não seria o caso de fazer a mesma coisa com a maconha, embora não com as demais drogas muito mais danosas, e concentrar o fogo policial no combate aos traficantes das drogas pesadas e de armas? Se disso ainda não estivermos convencidos, pelo menos não fujamos à discussão, que já corre solta na sociedade. Sejamos sinceros: é a sinceridade que comove a população e não a hipocrisia que pretende não ver o óbvio.

Se a regra é ser sincero, por que temer ir fundo e avaliar o que nós próprios fizemos no passado, acreditando estar certos, e que continua sendo feito, mas que requer uma revisão? Tome-se o exemplo da reforma agrária e dos programas de incentivo à economia familiar. Fomos nós do PSDB que recriamos o Ministério da Reforma Agrária e, pela primeira vez, criamos um mecanismo de financiamento da agricultura familiar, o Pronaf. Nenhum governo fez mais em matéria de acesso à terra do que o do PSDB quando a pasta da Reforma era dirigida por um membro do PPS. Não terá chegado a hora de avaliar os resultados? O Pronaf não estará se transformando em mecanismo de perpétua renovação de dívidas, como os grandes agricultores faziam no passado com suas dívidas no Banco do Brasil? Qual é o balanço dos resultados da reforma agrária? E as acusações de “aparelhamento” da burocracia pelo PT e pelo MST são de fato verdadeiras? Sem que a oposição afirme precipitadamente que tudo isso vai mal – o que pode não ser correto – não pode temer buscar a verdade dos fatos, avaliar, julgar e criticar para corrigir.

Existe matéria em abundância para manter os princípios e para ir fundo nas críticas sem temer a acusação injusta de que se está defendendo “a elite”. Mas política não é tese universitária. É preciso estabelecer uma agenda. Geralmente esta é dada pelo governo. Ainda assim, usemo-la para concentrar esforços e dar foco, repetição e persistência à ação oposicionista. Tomemos um exemplo, o da reforma política, tema que o governo afirma estar disposto a discutir. Pois bem, o PSDB tem posição firmada na matéria: é favorável ao voto distrital (misto ou puro, ainda é questão indefinida). Se é assim, por que não recusar de plano a proposta da “lista fechada”, que reforça a burocracia partidária, não diminui o personalismo (ou alguém duvida que se pedirão votos para a lista “do Lula”?) e separa mais ainda o eleitor dos representantes?


Compromisso com o voto distrital

Não é preciso afincar uma posição de intransigência: mantenhamos o compromisso com o voto distrital, façamos a pregação. Se não dispusermos de forças para que nossa tese ganhe, aceitemos apenas os melhoramentos óbvios no sistema atual: cláusula de desempenho (ou de barreira), proibição de coligações nas eleições proporcionais e regras de fidelidade partidária, ainda que para algumas destas medidas seja necessário mudança constitucional. Deixemos para outra oportunidade a discussão sobre financiamento público das campanhas, pois sem a distritalização o custo para o contribuinte será enorme e não se impedirá o financiamento em “caixa preta” nem o abuso do poder econômico. Mas denunciemos o quanto de antidemocrático existe no voto em listas fechadas. Em suma: não será esta uma boa agenda para a oposição firmar identidade, contrapor-se à tendência petista de tudo burocratizar e, ao mesmo tempo, não se encerrar em um puro negativismo aceitando modificações sensatas?

Por fim, retomando o que disse acima sobre o “triunfo do capitalismo”. O governo do PT e o próprio partido embarcaram, sem dizer, na adoração do bezerro de ouro. Mas, marcados pelos cacoetes do passado, não perceberam que o novo na fase contemporânea do capitalismo não é apenas a acumulação e o crescimento da economia. Os grandes temas que se estão desenhando são outros e têm a ver com o interesse coletivo: como expandir a economia sem destroçar o meio ambiente, como assegurar direitos aos destituídos deles, não só pela pobreza, mas pelas injustiças (desigualdades de gênero, de raça, de acesso à cultura)? Persistem preocupações antigas: como preservar a Paz em um mundo no qual há quem disponha da bomba nuclear?

A luta pela desnuclearização tem a ver com o sentido de um capitalismo cuja forma “selvagem” a sociedade democrática não aceita mais. Esta nova postura é óbvia no caso da ecologia, pois o natural egoísmo dos Estados, na formulação clássica, se choca com a tese primeira, a da perpetuação da vida humana. O terror atômico e o aquecimento global põem por terra visões fincadas no terreno do nacional-estatismo arcaico. Há um nacionalismo de novo tipo, democrático, aberto aos desafios do mundo e integrado nele, mas alerta aos interesses nacionais e populares. Convém redefinir, portanto, a noção do interesse nacional, mantendo-o persistente e alerta no que é próprio aos interesses do País, mas compatibilizando-o com os interesses da humanidade.

Estas formulações podem parecer abstra¬tas, embora se traduzam no dia-a-dia: no Brasil, ninguém discute sobre qual o melhor modo de nossa presença no mundo: será pelo velho caminho armamentista, nuclearizando--nos, ou nossas imensas vantagens comparativas em outras áreas, entre elas as do chamado soft power, podem primar? Por exemplo, nossa “plasticidade cultural mestiça”, a aceitação das diferenças raciais – sem que se neguem e combatam as desigualdades e preconceitos ainda existentes – não são um ganho em um mundo multipolar e multicultural? E a disponibilidade de uma matriz energética limpa, sem exageros de muitas usinas atômicas (sempre perigosas), bem como os avanços na tecnologia do etanol, não nos dão vantagens? Por que não discutir, a partir daí, o ritmo em que exploraremos o pré-sal e as obscuras razões para a “estatização do risco e divisão do lucro” entre a Petrobras e as multinacionais por meio do sistema de partilha? São questões que não exploramos devidamente, ou cujas decisões estão longe de ser claramente compatíveis com o interesse nacional de longo prazo.


Falta de estratégia

Na verdade, falta-nos estratégia. Estratégia não é plano de ação: é o peso relativo que se dá às questões desafiadoras do futuro somado à definição de como as abordaremos. Que faremos neste novo mundo para competir com a China, com os Estados Unidos ou com quem mais seja? Como jogar com nossos recursos naturais (petróleo à frente) como fator de sucesso e poder sem sermos amanhã surpreendidos pelo predomínio de outras fontes de energia? E, acima de tudo, como transformar em políticas o anseio por uma “revolução educacional” que dê lugar à criatividade, à invenção e aos avanços das tecnologias do futuro?

A China, ao que parece, aprendeu as lições da última crise e está apostando na inovação, preparando-se para substituir as fontes tradicionais de energia, sobretudo o petróleo, de que não dispõe em quantidade suficiente para seu consumo crescente. E os próprios Estados Unidos, embora atônitos com os erros acumulados desde a gestão Bush, parecem capazes de continuar inovando, se conseguirem sair depressa da crise financeira que os engolfou.

De tudo isso o PT e seus governos falam, mas em ziguezague. As amarras a uma visão oposta, vinda de seu passado recente, os inibem para avançar mais. Não é hora das oposições serem mais afirmativas? E se por acaso, como insinuei no início deste artigo, houver divisões no próprio campo do petismo por causa da visão canhestra de muitos setores que apoiam o governo e de suas necessidades práticas o levarem a direções menos dogmáticas? Neste caso, embora seja cedo para especular, terá a oposição inteireza e capacidade política para aproveitar as circunstâncias e acelerar a desagregação do antigo e apostar no novo, no fortalecimento de uma sociedade mais madura e democrática?

Engana-se quem pensar que basta manter a economia crescendo e oferecer ao povo a imagem de uma sociedade com mobilidade social. Esta, ao ocorrer, aumenta as demandas tanto em termos práticos, de salários e condições de vida, como culturais. Em um mundo interconectado pelos modernos meios de comunicação o cidadão comum deseja saber mais, participar mais e avaliar por si se de fato as diferenças econômicas e sociais estão diminuindo. Sem, entretanto, uma oposição que se oponha ao triunfalismo lulista, que coroa a alienação capitalista, desmistificando tudo o que seja mera justificativa publicitária do poder e chamando a atenção para os valores fundamentais da vida em uma sociedade democrática, só ocorrerão mudanças nas piores condições: quando a fagulha de alguma insatisfação produzir um curto-circuito. Mesmo este adiantará pouco se não houver à disposição uma alternativa viável de poder, um caminho preparado por lideranças nas quais a população confie.

No mundo contemporâneo este caminho não se constrói apenas por partidos políticos, nem se limita ao jogo institucional. Ele brota também da sociedade, de seus blogs, twitters, redes sociais, da mídia, das organizações da sociedade civil, enfim, é um processo coletivo. Não existe apenas uma oposição, a da arena institucional; existem vários focos de oposição, nas várias dimensões da sociedade. Reitero: se as oposições institucionais não forem capazes de se ligar mais diretamente aos movimentos da vida, que pelo menos os ouçam e não tenham a pretensão de imaginar que pelo jogo congressual isolado alcançarão resultados significativos. Os vários focos de insatisfação social, por sua vez, também podem se perder em demandas específicas a serem atendidas fragmentariamente pelo governo se não encontrarem canais institucionais que expressem sua vontade maior de transformação. As oposições políticas, por fim, se nada ou pouco tiverem a ver com as múltiplas demandas do cotidiano, como acumularão forças para ganhar a sociedade? •

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, sociólogo, foi presidente da República (1995–2003) e é presidente de honra do PSDB.