Mostrando postagens com marcador Dante. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dante. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Harmonia e cacofonia

Ministros do Supremo Tribunal Federal, bem como presidentes do Senado e da Câmara dos deputados, não se cansam de, dia sim, dia não, proclamar as altas virtudes da separação dos poderes, a fim de justificarem suas abusivas intromissões no campo de competência do presidente da república. Tais manifestações de tão altos juízes togados criam, ao contrário da harmonia estipulada constitucionalmente, uma infernal cacofonia. Algo parecido com uma orquestra composta por vuvuzelas, caxirolas e berimbaus agrupados num bando de dimensões equivalentes ao somatório do número de magistrados das Cortes Superiores. Obedecido o critério, isso vai pra lá de meia centena de participantes, todos vuvuzelando, caxirolando e berimbausando. Nem Dante imaginou ruídos tão infernais para seus condenados. Seria esta, de fato, a mais perfeita imagem de cacofonia, com a orquestra de vuvuzelas, caxirolas e berimbaus comandada por um ensandecido Barbarícia. Somente este,  postado como maestro da turma, demônio indecente que era, portava instrumento diferente daqueles outros, ao fazer de tuba o traseiro rodopiante, conforme apontou o memorável poeta florentino.   

Harmonia, ao contrário, exige instrumentos de outra ordem. No paraíso a bem aventurança é gozada não apenas pela presença de Deus, mas pelas melodias harmoniosas que brotam do violino de Bach, e se espalham eternamente pelo éter, para gáudio das almas escolhidas, aquelas que buscaram com sinceridade cultivar a harmonia como princípio, em todas as oportunidades com as quais se depararam em vida. 


 

sábado, 16 de janeiro de 2016

Brasília, herdeira de Lucca


Segundo informa Dante em sua Comédia, a cidade de Lucca era a mais corrupta da Itália, uma espécie de Brasília infestada de petistas. Os luquenses eram famosos por seus trapaceiros. Dentre eles Bonturo foi o mais célebre, um Lula da época. Para demonstrar o superlativo grau de venalidade corrente em Lucca, Dante chega a classificar Bonturo como o único sujeito honesto da cidade (Inferno, canto XXI, versos 37 a 42).

     "Ó Malembranche, aqui" bradou, irado;
     "Trago-te alguém que em Santa Zita opina!
      Mergulha-o já, que volto, alvoroçado,

      àquela terra, certo a mais indina;
      todos lá são venais, menos Bonturo,
      lá do não se faz sim pela propina.


ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia (tradução e comentários de Cristiano Martins). Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1984).

sábado, 10 de outubro de 2015

Ventos e tempestades

Inferno, Canto XXV - punição dos ladrões


Velho adágio ensinava: quem planta vento colhe tempestades. A ojeriza que o povo brasileiro vem demonstrando ao PT e às suas lideranças é a prova viva daquela verdade. Não é gratuita tal rejeição. Colhem apenas um pouco do que plantaram com afinco e zelo. O coitadismo do qual lançam mão para se fazerem de vítimas é só mais uma prova de cinismo temperado com atrevimento. Poucos seriam os adultos que não conseguiriam citar um exemplo de condutas delinquentes, atrabiliárias e arrogantes cometidas por petistas ao longo dos últimos trinta anos. 

Um inventário de suas incivilidades preencheria toneladas de papel. Não há um setor da vida social que tenha ficado imune a seus atos deletérios. Em escolas de qualquer nível as práticas petistas mais pareciam piadas, para dizer o mínimo, tal o nível de desfaçatez. Ficaram famosas as folclóricas agitações patrocinadas por seus simpatizantes nos corredores de vetustas universidades. Para impor sua totalitária visão de mundo, bandos de bárbaros tumultuavam atividades escolares normais, soprando seus apitos a guisa de argumento, irritando professores e demais alunos que só queriam trabalhar e estudar, e não podiam.

Tumultos e outras impertinências conduzidas por marmanjos petistas desocupados (em boa parte financiados com dinheiro dos sindicatos ou pixulecos de empresas públicas), infernizam a vida dos cidadãos comuns. Adoram engarrafar o trânsito nos horários de maior movimento nas grandes cidades. Para eles é fácil, pois que não trabalham nem têm quaisquer outras obrigações. Isso quando não estão na linha de frente da paralisação de serviços essenciais: educação, saúde, transporte, combustíveis, energia etc. O povo fraco e dependente que se dane, é o conceito que os orienta sem qualquer remorso dos males que provocam.

Na dimensão da vida política eleitoral e parlamentar o elenco das malfeitorias da moçada (para lançar mão do curioso jargão da presidenta), chega ao nível do sublime. Onde há petistas e seus acólitos pode-se esperar alguma trapalhada. É quase que a crônica de uma morte anunciada. Os recentes episódios do mensalão e do petrolão, sem subestimar as novas patifarias que marcham para o centro do palco (atingindo outras empresas públicas cujos cofres estão a descoberto), sugerem que o petismo gangrenou todas as instituições. Alguns, com suposta ingenuidade, alegam que o PT de antigamente era puro e honesto. A convivência com Maluf, Barbalho, Collor, Sarney e outros é que os teriam levado a cair na vida. Falso. O homem adulto já está na criança. Aprenderam a saquear o erário treinando nos sindicatos, nas entidades estudantis e nas diversas associações. Foi um processo, bem sucedido, se não for heresia dizer isso. 

O espírito de rapina do PT é comprovado pelo destino dos seus últimos tesoureiros. Um foi para a Papuda, o outro engaiolado pela Lavajato. Ou alguém terá a cara de pau de dizer que o PT se financiava vendendo estrelinhas em barracas de camelôs no centro das cidades? Quando desembarcaram na presidência da república, em 2003, o fizeram com a mão grande e a goela aberta. Que o diga o caso, até hoje não esclarecido, da primeira briga dentro da caverna de Ali-Babá, que levou a mudança, um ou dois meses após a posse, da cúpula do Ministério do Trabalho. Essa gente - do mesmo modo que outros flibusteiros - é capaz de vender a própria mãe para fazer uma boa catira. A única diferença é que os petistas entregam a velha, tudo conforme o combinado. 

A rejeição popular vista hoje possui, portanto, raízes profundas. O futuro dessa quadrilha está selado. Aguarda-os a sétima vala do oitavo círculo do Inferno (Canto XXV), onde os ladrões correm em meio de enormes serpentes. Quando por elas picados, entram em combustão, reduzindo-se a cinzas, para renascerem logo em seguida. Que Dante tenha razão em sua especial profecia.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Promessas

Prometer o diabo a fim de alcançar os mais variados fins parece ser uma das mais intensas e trágicas das sinas humanas. Seria algo universal, situação que não variaria quer no eixo do tempo quer do espaço. Em qualquer latitude do planeta, ou em indiferenciado momento histórico, lá estarão as promessas impregnando a vida humana, provocando confusão, ressentimentos, expectativas, alegrias e tristezas. Nem o Eterno ficou livre de tais injunções.O Senhor garantiu de pés juntos, naqueles distantes tempos bíblicos, que daria aos filhos de Abraão, de Isaac e de Jacob a posse e a propriedade de um lugar maravilhoso onde manaria eternamente o leite e mel (ledo engando, pelo que se sabe do inferno em que se tornou o Oriente Próximo). 

Tal lugar só não seria melhor que o próprio jardim celestial (exceto, sem dúvida, o Senado brasileiro, este sim, superior ao paraíso, pois não se careceria de morrer para nele se adentrar, conforme afiançou Darcy Ribeiro). O saudoso professor e antropólogo, aliás, deve estar, hoje, gozando das refinadas delícias da eternidade, depois de ter usufruído por curto período da bem aventurança senatorial em Brasília. Em vista de seu notório amor pelas mulheres, Darcy, certamente, poderá ser encontrado na seção muçulmana do paraíso, qual pinto no lixo, cercado para todo o sempre de seis dúzias de gentis donzelas. 

Não se pense, entretanto, que somente a divindade superior seja capaz de tentar seduzir os homens com inefáveis acenos, acicatando-lhe os desejos com tentadoras ofertas. Tal estratégia para se alcançar objetivos, lícitos ou não, puros ou impuros, verdadeiros ou falsos, não é desconhecida pelo demônio. 

Após ter prometido o que prometeu ao Divino Mestre - na famosa tentação da montanha - sendo devidamente escanteado, o demônio se vingou multiplicando-se em infindáveis partículas que se encarnaram nos mercadores de ilusões de todos os tempos, seres cuja manifestação mais perfeita e acabada são os atuais magos da propaganda e da publicidade.

Seria injustiça se esquecer do destacado lugar reservado aos políticos, profissionais celebrados por Dante na Divina Comédia, obra prima da literatura universal. Instado pelo papa Bonifácio VIII, ávido por colher um bom conselho sobre como derrotar os cardeais Colona (seus inimigos figadais homiziados no castelo de Palestrina), um vulgar aventureiro, Guido de Montefeltri, assim lhe recomendou perfidamente: "Muita promessa e pouco atendimento". Mal sabe a elite política brasileira que seu entranhado costume (fazer promessas e delas se esquecer quase que incontinenti), já fora sintetizada naquelas tão escassas palavras do genial poeta florentino.

No cotidiano singelo dos homens comuns as falsidades compõem também parte significativa da nossa precária existência. Nem no amor (de fato, nele notadamente), as promessas não cumpridas deixam de se fazer presente. Jacob, aquele mesmo já referido acima como destinatário dos acenos da Divindade, foi vergonhosamente iludido pelo sogro, que lhe prometera Raquel mas lhe entregou Lia -  a dos olhos remelosos - usando de artifício que ilaqueava sua boa fé - dando-lhe um esfarrapada e mal costurada desculpa para não cumprir a promessa feita. Verdade que tal evento, tão contaminado de malícia, propiciou a Camões a oportunidade de redigir uma das mais belas páginas da lírica universal (em uma das páginas de Borges consta que os Deuses imputam desgraças aos homens, para permitir aos poetas temas a serem cantados).


Raquel


"Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por premio pretendia.


Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.


Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;


Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!"


O tema da infidelidade ou desventura amorosa, aliás, não é estranho aos poetas populares. Quem nunca ouviu os lamentos dos que se consideram injustiçados, traídos ou enganados? Lupicínio Rodrigues foi um mestre no assunto. Seu "Nervos de Aço" é antológico. Também Orlando Silva se imortalizou, entre outras canções, pela sugestiva "Aos pés da Santa Cruz" (na verdade o nome original era "Aos pés da Cruz"), de autoria de Marino Pinto e Zé da Zilda, que pode ser conferido em http://youtu.be/k6BHozYoY2I, e cuja letra segue abaixo:


"Aos pés da Santa Cruz você se ajoelhou
Em nome de Jesus um grande amor você jurou
Jurou, mas não cumpriu, fingiu e me enganou
Pra mim você mentiu
Pra Deus você pecou
O coração tem razões que a própria razão desconhece
Faz promessas e juras, depois esquece
Seguindo este princípio você também prometeu
Chegou até a jurar um grande amor
Mas depois esqueceu".


Promessas parecem ter a ver com as ilusões permanentes que impregnam a vida humana. Talvez esta seja a única, trágica e insuperável verdade. Se somos feitos da mesma matéria que nossos sonhos, como apontava Shakespeare, e se o homem pode ser definido como uma máquina de sonhar (Lacan), melhor permanecer no doce torpor do sono em que estamos mergulhados. Quem nos dirá que a suposta lucidez dos que acordam não é o outro nome de pesadelo? 

Ainda bem que Mário Lago e Custódio Mesquita nos deixaram uma recomendação: Nada Além!, que pode ser conferida em http://youtu.be/_358PNNVDDc

"Nada além
Nada além de uma ilusão
Chega bem
E é demais para o meu coração
Acreditando em tudo que o amor
Mentindo sempre diz
E vou vivendo assim feliz
Na ilusão de ser feliz
Se o amor
Só nos causa sofrimento e dor
É melhor
Bem melhor a ilusão do amor
Eu não quero e não peço
Para o meu coração
Nada além de uma linda ilusão".


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Muita promessa...

...E pouco atendimento! Não pense algum desavisado que o título deste artigo, e sua continuação no início deste texto, faça  parte de algum receituário gerado nos porões obscuros do palácio do Planalto. Ou seja fruto do vadio e imaginoso espírito marqueteiro de Lula da Silva, harmonizado com eventuais emanações do cérebro sáfaro de dona Dilma. Felizmente não é assim tão vulgar. Trata-se, de fato, de um verso da Divina Comédia que anuncia pérfido conselho – recebido de um aventureiro, e acatado pelo papa Bonifácio VIII – desejoso de derrotar seus inimigos de então, os cardeais Colona. São antigas, como se vê, as deploráveis práticas a que se entregam os políticos (pátrios e de outras plagas também): prometer muito, e pouco cumprir das promessas.

Fazendo o diabo em época de eleições, como já pontificou a atual presidente, imagine-se o que não fariam nossos dirigentes, caso tivessem lido na íntegra a obra de Dante Alighieri, tão ricamente ilustrada com pecados e perversões os mais diversificados. Sob tal inspiração o país viraria uma festa! De arromba! Sorte nossa que Lula seja pouco dado às letras clássicas, se é que é dado a alguma. E do vernáculo, dona Dilma não domine quantidade de palavras superior à de um funkeiro mediano. Até em coisas das mais triviais o Brasil se empobreceu nos últimos tempos: em vez de trinca de patetas, temos agora apenas uma dupla. Relembre-se, a propósito, que Ulisses Guimarães tachou de "três patetas" o triunvirato militar que se apossou do governo após a morte de Costa e Silva. 
       
O deplorável casal petista, verso e reverso de um mesmo disco arranhado, não possui o mínimo daquilo que se chamava antigamente de semancol. Lula e dona Dilma não “se mancam”, não desconfiam, ou fingem não desconfiar, que seu tempo acabou. Zumbis insepultos que se recusam a ir para a cova, continuam a agir como se o Brasil não estivesse a mudar, grávido, ansioso por novos tempos e novas caras na condução do país. Um país ansioso, sobretudo, por palavras que lhe toquem o ânimo e o estimule na busca de um tempo mais civilizado. 

Os brasileiros estão fartos das vulgaridades costumeiras de Lula, e das tronchices com as quais dona Dilma fere dia a dia nossos ouvidos e  sensibilidade. Uma inspeção nos arquivos da internet mostrará a qualquer curioso a magnitude da estupidez e da mais granítica ignorância de ambos frente a assuntos corriqueiros. Enfim, basta ler e ouvir para crer quem são os atuais dirigentes do Brasil.

Lula e Dilma arregimentaram em torno de si o lixo político e cultural produzido em cinco séculos da história brasileira. De tal união brota o chorume repulsivo que alimenta figuras emblemáticas como Sarney, Collor, Dirceu e Maluf. As recentes manifestações e censuras públicas ligadas à realização da Copa do mundo não passam de um sintoma do que fermenta sob a superfície. Quem mais vai acreditar em promessas desses embusteiros? Que pessoa normal consegue imaginar a nação conduzida, nos próximos anos, por gente tão desqualificada cujo maior legado foi a institucionalização da corrupção, da propaganda desavergonhada, da mentira e das falsas promessas? O Brasil está farto de tais trapalhões. Os eleitores têm sinalizado pela rejeição ao nome de dona Dilma, que desejam mudanças. Entretanto, não se viu ainda uma clara opção alternativa. Nas simulações que os institutos de pesquisa publicam, as oposições ainda patinam no mesmo lugar. Os discursos dos pretendentes oposicionistas soam perigosamente similares uns aos outros. Por surpreendente que possa parecer, o único que tem se manifestado de forma clara e inequívoca é o pastor Everaldo Pereira, candidato do nanico PSC, falando com firmeza à expressiva base evangélica disseminada por todo o país. Os dois nomes mais em evidência - Aécio Neves e Eduardo Campos - parece estarem a oferecer apenas mais do mesmo. Suas bases programáticas são variantes daquilo que o petismo implantou nos últimos doze anos, com acréscimos cosméticos e pontuais aqui e ali. Talvez por isso o aparente paradoxo: o povo não quer dona Dilma, mas ainda não indicou aquele que melhor interprete o desejo eleitoral da maioria em outubro próximo. Frente ao lenga-lenga burocrático e administrativista de Campos e Aécio, não causaria surpresa um crescimento dos índices eleitorais do pastor Everaldo.  

terça-feira, 17 de junho de 2014

Linguagem e pornografia política

A crua linguagem popular, quando transcrita e publicada, pode violar normas editoriais; pior, ainda, quando os brados soam retumbantes nos ouvidos, trazendo junto ao eco as imagens da ira e de repúdio dos que lançam injúrias aos poderosos do momento, tal qual vem ocorrendo nas ruas e, principalmente, nos grandes estádios brasileiros onde se disputa a copa do mundo. Governistas no Brasil pretendem, com tal pretexto, cultivar agora um gosto refinado pelo qual nunca mantiveram maior apreço. Em palavras mais contundentes, os petistas e seus aliados querem implantar a censura no Brasil.

Reverbera nas profundezas dos cránios os apodos pornográficos com os quais o povo vem brindando as autoridades do país. E isso dói. Dói pela força da verdade que contém. Em reação à vontade popular, os petistas querem, enfim, retirar do cidadão seu direito mais elementar: o de espernear e de dirigir aos governantes as palavras mais duras possíveis, como reação ao habitual comportamento irresponsável, leviano e corrupto observado na última década, desde que Lula ascendeu ao governo da república. 
É, portanto, um direito, sim, do povo, o de protestar, que adquire legitimidade pelo insuportável da situação vivida pela maioria. 

Josemaría Escrivá é um dos santos mais recentes do panteão católico. Em sua obra - Caminhos - no Ponto 850, o príncipe da Igreja, dirigindo-se a um discípulo, aconselha-lhe um curioso, insólito, meio de reação contra aqueles que nos infernizam:

"Que conversas! Que baixeza e que... nojo! E tens de conviver com eles, no escritório, na universidade, no consultório..., no mundo. Se pedes por favor que se calem, ficam caçoando de ti. Se fazes má cara, insistem. Se te vais embora, continuam. A solução é esta: primeiro, pedir a Deus por eles e desagravar; depois..., ir de frente, varonilmente, e empregar O APOSTOLADO DOS PALAVRÕES (grifo meu). Quando te vir, hei de dizer-te ao ouvido um bom repertório".

Não é exclusividade de Josemaría Escrivá tal compreensão dos limites do suportável. Outro santo homem - Thomas Morus, mártir da Igreja, beatificado por Leão XIII, em 1886, e canonizado por Pio XI, em 1935 - questionou Lutero duramente, em sua célebre obra "Responsio ad Lutherum". Além de usar os mais chocantes palavrões disponíveis, repete-os e, ainda, os floreia. A justificativa dada por ele ao emprego da linguagem obscena foi: responder com puras contestações eruditas à baixeza de Lutero, seria conceder-lhe um honra imerecida, motivo que o levou a usar os seguintes termos:

"Enquanto continuardes a dizer essas desavergonhadas mentiras, a outros será PERMITIDO QUE JOGUEM DE VOLTA NA VOSSA BOCA CHEIA DE MERDA (grifo meu, em tradução livre), verdadeiro depósito de toda merda, a sujeira e merda inteira que vossa execrável podridão vomitou, e esvaziar todos os esgotos e privadas na vossa coroa despida da dignidade da coroa sacerdotal, em prejuízo da qual decidistes bancar o palhaço" (Cf. The complete works of St. Thomas More, ed. Jonh M. Headley, vol. V, New Haven: Yale University Press, 1969, pag. 181).

Palavrões, enfim, frequentam de há muito a literatura, a poesia e, até, a teologia, conforme se pode ver.
No Canto XX, Inferno, Dante tripudia sobre os trapaceiros que negociavam cargos públicos, ou roubaram os seus amos, sendo por isso condenados a ficar mergulhados em piche fervente, na quinta vala, sob a severa vigilância de Barbarícia e seus demônios (Zé Dirceu que se cuide; seu futuro será deplorável). A partir de imagem tão asquerosa, o ilustre florentino constrói refinados versos elaborando o que há de mais sórdido:
(...)
"À sestra os dez então fizeram rosto;
Nos dentes cada qual mostra primeiro,
Por mofa a língua ao cabo já disposto;

E ele trompa fazia do traseiro".

A inusitada descrição de Barbarícia (peidorreiro infame), em surpreendente e sublime linguagem  não é repetida em outros momentos das literaturas erótica ou da fescenina exceto, talvez, com Verlaine (vide Para ser caluniado), e certamente nas 1001 Noites. Veja-se o caso de L'art de péter, de Pierre Hurtaut, para quem "peidar seria uma arte que, bem praticada, se tornaria uma arma social", publicado meio milênio após a Comédia, em 1751. Vale destacar que nos tempos de Hurtaut ainda não se conhecia o elevador, local hoje de costumeiros atentados terroristas olfativos.

Ora, se tais licenças linguísticas são permitidas a sofisticados pensadores, por qual razão censuraríamos o comum do povo no seu exercício legítimo de injuriar ou insultar os poderosos, estes sim, pornográficos habituais em suas falas, atitudes e comportamentos?

Estamos testemunhando um fenômeno de massa que, por incrível que pareça, encontrou o tom certo para fazer os mandarins que nos mal governam passar recibo sobre o que ouviram em alto e bom som. A partir de agora Dilma, Lula e companhia entenderão corretamente o profundo sentimento de insatisfação popular que vai se apoderando do país, de norte a sul, de leste a oeste.

A conduta popular seria fruto da razão e fundada em base científica? Claro que não! A virtude não se relaciona com a ciência. Em sua costumeira irreverência, Lacan afirma que não há episteme da areté. As massas, melhor que nós - pessoas que somos eventualmente devotadas a complexos discursos - acertou bem no meio do alvo com seu Hai Kai picaresco, ironia levada ao paroxismo nas ruas e nos templos futebolísticos, redutos da impessoalidade e do anonimato dissolventes, que reduzem os indivíduos à condição de malta.

Gente como Lula, Dilma e os demais que os acompanham não se ofendem quando chamados de ladrões, corruptos ou incompetentes. Acostumados com as sujeiras, e desejosos delas no seu inconsciente, só se sentem atingidos com alusões anais. Aliás, observados bem de perto, o que mais predomina na elite petista que subjuga o Brasil são os traços caracterológicos de submissão e agressão autoritárias, propensão a pensar de acordo com categorias rígidas, inclinação a valorizar aspectos místicos no destino individual etc. A vontade obsessiva de impor uma sistematização aos outros, vistos como resistentes, é peculiar aos possuidores de viés psicótico próprio da fixação na fase anal, ao longo do processo de construção da personalidade.