Mostrando postagens com marcador Divina Comédia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Divina Comédia. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de janeiro de 2016

Brasília, herdeira de Lucca


Segundo informa Dante em sua Comédia, a cidade de Lucca era a mais corrupta da Itália, uma espécie de Brasília infestada de petistas. Os luquenses eram famosos por seus trapaceiros. Dentre eles Bonturo foi o mais célebre, um Lula da época. Para demonstrar o superlativo grau de venalidade corrente em Lucca, Dante chega a classificar Bonturo como o único sujeito honesto da cidade (Inferno, canto XXI, versos 37 a 42).

     "Ó Malembranche, aqui" bradou, irado;
     "Trago-te alguém que em Santa Zita opina!
      Mergulha-o já, que volto, alvoroçado,

      àquela terra, certo a mais indina;
      todos lá são venais, menos Bonturo,
      lá do não se faz sim pela propina.


ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia (tradução e comentários de Cristiano Martins). Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1984).

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Muita promessa...

...E pouco atendimento! Não pense algum desavisado que o título deste artigo, e sua continuação no início deste texto, faça  parte de algum receituário gerado nos porões obscuros do palácio do Planalto. Ou seja fruto do vadio e imaginoso espírito marqueteiro de Lula da Silva, harmonizado com eventuais emanações do cérebro sáfaro de dona Dilma. Felizmente não é assim tão vulgar. Trata-se, de fato, de um verso da Divina Comédia que anuncia pérfido conselho – recebido de um aventureiro, e acatado pelo papa Bonifácio VIII – desejoso de derrotar seus inimigos de então, os cardeais Colona. São antigas, como se vê, as deploráveis práticas a que se entregam os políticos (pátrios e de outras plagas também): prometer muito, e pouco cumprir das promessas.

Fazendo o diabo em época de eleições, como já pontificou a atual presidente, imagine-se o que não fariam nossos dirigentes, caso tivessem lido na íntegra a obra de Dante Alighieri, tão ricamente ilustrada com pecados e perversões os mais diversificados. Sob tal inspiração o país viraria uma festa! De arromba! Sorte nossa que Lula seja pouco dado às letras clássicas, se é que é dado a alguma. E do vernáculo, dona Dilma não domine quantidade de palavras superior à de um funkeiro mediano. Até em coisas das mais triviais o Brasil se empobreceu nos últimos tempos: em vez de trinca de patetas, temos agora apenas uma dupla. Relembre-se, a propósito, que Ulisses Guimarães tachou de "três patetas" o triunvirato militar que se apossou do governo após a morte de Costa e Silva. 
       
O deplorável casal petista, verso e reverso de um mesmo disco arranhado, não possui o mínimo daquilo que se chamava antigamente de semancol. Lula e dona Dilma não “se mancam”, não desconfiam, ou fingem não desconfiar, que seu tempo acabou. Zumbis insepultos que se recusam a ir para a cova, continuam a agir como se o Brasil não estivesse a mudar, grávido, ansioso por novos tempos e novas caras na condução do país. Um país ansioso, sobretudo, por palavras que lhe toquem o ânimo e o estimule na busca de um tempo mais civilizado. 

Os brasileiros estão fartos das vulgaridades costumeiras de Lula, e das tronchices com as quais dona Dilma fere dia a dia nossos ouvidos e  sensibilidade. Uma inspeção nos arquivos da internet mostrará a qualquer curioso a magnitude da estupidez e da mais granítica ignorância de ambos frente a assuntos corriqueiros. Enfim, basta ler e ouvir para crer quem são os atuais dirigentes do Brasil.

Lula e Dilma arregimentaram em torno de si o lixo político e cultural produzido em cinco séculos da história brasileira. De tal união brota o chorume repulsivo que alimenta figuras emblemáticas como Sarney, Collor, Dirceu e Maluf. As recentes manifestações e censuras públicas ligadas à realização da Copa do mundo não passam de um sintoma do que fermenta sob a superfície. Quem mais vai acreditar em promessas desses embusteiros? Que pessoa normal consegue imaginar a nação conduzida, nos próximos anos, por gente tão desqualificada cujo maior legado foi a institucionalização da corrupção, da propaganda desavergonhada, da mentira e das falsas promessas? O Brasil está farto de tais trapalhões. Os eleitores têm sinalizado pela rejeição ao nome de dona Dilma, que desejam mudanças. Entretanto, não se viu ainda uma clara opção alternativa. Nas simulações que os institutos de pesquisa publicam, as oposições ainda patinam no mesmo lugar. Os discursos dos pretendentes oposicionistas soam perigosamente similares uns aos outros. Por surpreendente que possa parecer, o único que tem se manifestado de forma clara e inequívoca é o pastor Everaldo Pereira, candidato do nanico PSC, falando com firmeza à expressiva base evangélica disseminada por todo o país. Os dois nomes mais em evidência - Aécio Neves e Eduardo Campos - parece estarem a oferecer apenas mais do mesmo. Suas bases programáticas são variantes daquilo que o petismo implantou nos últimos doze anos, com acréscimos cosméticos e pontuais aqui e ali. Talvez por isso o aparente paradoxo: o povo não quer dona Dilma, mas ainda não indicou aquele que melhor interprete o desejo eleitoral da maioria em outubro próximo. Frente ao lenga-lenga burocrático e administrativista de Campos e Aécio, não causaria surpresa um crescimento dos índices eleitorais do pastor Everaldo.  

terça-feira, 1 de novembro de 2011

À moda stalinista - Roberto Pompeu de Toledo

(Os impostores, fraudadores, alguimistas etc., segundo Dante Alighieri, estão condenados a um dos círculos do inferno. Importante o destaque para os falsários da matéria, os da imagem e os da palavra. Está reservada para eles, não tão fofa nem confortável, a décima vala do oitavo círculo). Em homenagem ao artigo de Roberto Pompeu de Toledo, seguem abaixo alguns versos sobre eles:

136 - Como quem sonha o mal, confusamente,
E no sonho deseja estar sonhando,
De sorte que o que é não o é na mente,

139 - Mudo fiquei, um jeito procurando
De me escusar, sem ter como o fazer,
Mas pela própria mágoa me escusando.

142 - “O rubor no teu rosto a se estender
Desculpar-te-ia de erro mais pesado”,
Disse meu mestre: “vamo-lo esquecer.

145 - Mas se acaso te vires arrastado
A querelas assim, de igual baixeza,
Faze de conta que eu te falo, ao lado:

148 - Só querer escutá-las já é torpeza”

(Inferno, Canto XXX)

..................................................................................

À MODA STALINISTA


"Pouco antes de jogar a toalha, na semana passada, e entregar a cabeça do ministro do Esporte, Orlando Silva, o PCdoB tentou reinventar seu passado. No programa de propaganda obrigatória que foi ao ar no dia 20, apresentou como emblemas do partido Luís Carlos Prestes, Olga Benario, Jorge Amado, Portinari, Patrícia Galvão (a Pagu), Oscar Niemeyer e Carlos Drummond de Andrade. Era uma fraude similar às operações do programa Segundo Tempo. Dos sete, os seis primeiros pertenceram ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o arquirrival do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). O sétimo, o poeta Carlos Drummond de Andrade, não foi nem de um nem de outro. O partido tentava, num programa de TV em que jogava as últimas fichas para safar-se do escândalo no Ministério do Esporte, pegar carona num casal de ícones da história brasileira (Prestes e Olga) e em algumas das mais queridas figuras da cultura do país.

O caso menos grave é o de Oscar Niemeyer, o único vivo do grupo. Apesar de ter sido militante do PCB, já apareceu em programas anteriores do PCdoB, do qual aceita as homenagens. O mais grave é o de Prestes. O PCdoB surge, em 1962, do grupo que, no interior do PCB, discordou da denúncia do stalinismo promovida na União Soviética após a morte do ditador. O PCdoB, com um curioso “do” no meio da sigla, será daí em diante o guardião da pureza stalinista. Os outros são a “camarilha de renegados”. E o renegado-mor, claro, é Prestes, o líder do PCB. No verbete “PCdoB” da Wikipédia, escrito num tão característico comunistês que não deixa dúvida quanto à sua procedência oficial, Prestes é tratado de “revisionista” (insulto grave, em comunistês) e acusado de ter “usurpado a direção partidária”. Também se diz ali que “abandonado à própria sorte, em idade avançada”, Prestes “dependerá de amigos como Oscar Niemeyer para sobreviver”. Eis colocadas na mesma cloaca da história (o comunistês é contagiante) duas figuras que agora o PCdoB alça ao altar de seus santos.

Entre os outros casos de usurpação biográfica, a alemã Olga, primeira mulher de Prestes, foi fiel soldado das ordens de Moscou. Morreu muito antes de surgir o desafio do PCdoB, mas é de apostar que essa não seria a sua opção. Portinari e Pagu morreram, no mesmo 1962 do cisma comunista, ele fiel à linha de Moscou, ela convertida ao trotskismo, portanto inimiga do stalinismo. Jorge Amado na década de 60 já tinha o entusiasmo mais despertado pelo cheiro de cravo e pela cor de canela do que pela causa do proletariado. Em todo caso, sua turma era a de Prestes, o “Cavaleiro da Esperança” que cantara num livro com esse título.
O caso mais estapafúrdio é o de Drummond. Nos anos 1930/1940 ele praticou uma poesia de cunho social e filocomunista. Chegou a colaborar com o jornal Tribuna Popular, do PCB. Mas nunca se filiou ao partido. Cultivou a virtude de nunca ser firme ideologicamente. O namoro com o comunismo, dividia-o com a fidelidade ao Estado Novo, ao qual serviu no Ministério da Educação. No pós-guerra, mitigava o comunismo com a sedução pela UDN do amigo e mentor Milton Campos. Em 1945 votou para senador em Luís Carlos Prestes, do PCB, e para presidente em Eduardo Gomes, da UDN. E, em 1964, apoiou o golpe militar. “A minha primeira impressão foi de alívio, de desafogo, porque reinava realmente, no Rio, um ambiente de desordem, de bagunça, greves gerais, insultos escritos nas paredes contra tudo. Havia uma indisciplina que afetava a segurança, a vida das pessoas”, explicou numa entrevista, transcrita em livro recente (Carlos Drummond de Andrade Coleção Encontros). Agora vem o PCdoB dizer que Drummond foi um dos seus!?

Desconcertante história, a desse partido. A defesa do stalinismo levou-o a festejar o grande timoneiro Mao Tsé-tung e, quando o timão do chinês emperrou, buscar inspiração na Albânia do “Supremo Camarada” Enver Hoxha. Arriscou uma aventura guerrilheira nos barrancos do Araguaia. E, em anos recentes, encantou-se pela UNE e pelo monopólio da carteirinha de estudante, declarou ao esporte um amor insuspeitado em quem associava o partido à figura franzina do patrono João Amazonas (1912-2002) e recrutou, para reforço de suas chapas, jogadores de futebol (Ademir da Guia, Muller) e cantores (Netinho de Paula, Martinho da Vila) em quem nunca se suporia inclinação pela causa da foice e do martelo. Se há uma coisa em que manteve a coerência, é no vezo stalinista. Stalin mandava cortar das fotos dirigentes do partido caídos em desgraça. O PCdoB inclui em suas fileiras gente que lhe foi alheia. Pelo avesso, chega ao mesmo fim de falsificar a história".

(Publicado em Veja, edição de 29-10-2011)