Há alguns anos, cinco jovens de classe média em Brasília escolhiam uma forma inusitada e
cruel de se divertir durante a madrugada, depois de uma festa com os amigos.
Compraram gasolina e uma caixa de fósforos, atearam fogo em um índio que dormia
em uma parada de ônibus, na W3 Sul, avenida de um bairro nobre da capital
federal, e fugiram.
O índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, de 44 anos, que estava na cidade para
comemorar o Dia do Índio, acordou em chamas e horas depois morreu no hospital
com 95% do corpo queimado. Os rapazes foram reconhecidos, presos e condenados a
14 anos de prisão, mas a lei brasileira garantiu que ficassem apenas oito anos
na cadeia — e com direito a várias regalias.
Para justificar o crime bárbaro, os rapazes alegaram que acreditavam ser um
mendigo e resolveram "brincar" com ele. Anos depois do crime que
chocou o Brasil, uma onda de ataques a mendigos e moradores de rua se espalhou por Brasília e também pelo País.
Dos cinco envolvidos no crime contra o índio Galdino, um deles era menor de idade na época e foi
encaminhado para o centro de reabilitação juvenil do Distrito Federal. G.N.A.J
ficou internado na unidade por três meses, mesmo tendo sido condenado a um ano
de reclusão.
Os outros quatro — Tomás Oliveira de Almeida, Max Rogério Alves, Eron
Chaves Oliveira e Antônio Novely Cardoso Vilanova — foram condenados pelo
júri popular por homicídio doloso (com intenção de matar), crime hediondo com
qualificadores por ter sido um crime por motivo fútil, com crueldade extrema
(uso de fogo) e sem chance de defesa para a vítima.
Todos tinham idade entre 17 e 19 anos na época e eram de classe média alta em
Brasília. Antônio Novely é filho de juiz federal; Max Rogério, enteado de um
ex-ministro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral); Eron e Tomás, filhos de
funcionários públicos.
De acordo com a promotora do Ministério Público do Distrito Federal que
acompanhou o caso, Maria José Miranda Pereira, o crime foi premeditado. Os
jovens planejaram com calma por cerca de duas horas. Eles trocaram de carro
para não ser identificados, pararam em uma rua paralela, buscaram gasolina em
vários postos de combustível, dividiram as tarefas igualmente — dois
jogaram o líquido inflamável sobre Galdino e os outros três riscaram o fósforo
— e escaparam. Só foram reconhecidos porque um chaveiro que estava próximo
anotou a placa do carro.
— A defesa alegou o tempo todo que eles eram bons meninos, que foi só uma
diversão. Eu sei se uma pessoa é boa ou não pelas atitudes delas e não porque
os amigos ou a família estão dizendo isso. E diversão com a imagem de um ser
humano em chamas é o que há de maior crueldade e gravidade.
Presos em 1997, os garotos só foram julgados em 2001, depois de todos os
recursos dos advogados de defesa. Em cinco anos, os advogados tentaram
modificar o crime para lesão corporal seguida de morte e evitar que os garotos
fossem julgados pelo Tribunal do Júri de Brasília. Além disso, conseguiram
benefícios para que os acusados estudassem e trabalhassem fora do presídio,
benefício que outros presos não tinham.
— Eles [os advogados de defesa] tentaram tudo que puderam. Eu lutei muito na
época e não por um caso, mas por uma causa. Queria que fossem julgados pelo
crime que realmente cometeram, um homicídio, e deveriam ser julgados como
outros pelo Tribunal do Júri. Se não fosse assim, que moral eu teria para
condenar outros presos que dão um tiro na cabeça de alguém sendo que quem matou
com uma crueldade tão grande como aqueles meninos nem sequer seriam julgados da
forma certa?
Os jurados condenaram Max Rogério, Antônio Novely, Eron e Tomás a 14 anos em
novembro de 2001. Como a lei, na época, dizia que com um sexto de pena em
regime fechado os presos de bom comportamento e sem antecedentes criminais
poderiam ir para um regime semiaberto, em 2002 os jovens já não viviam mais na
prisão, apenas voltando lá para dormir.
Todos tinham benefício de estudar e trabalhar fora do Complexo Penitenciário da
Papuda. Saíam nos próprios carros e, muitas vezes, aproveitaram o benefício
para "esticar" o dia e fazer um happy hour nos bares da cidade, como
revelou reportagem do jornal Correio Braziliense em 2003.
Em 2004, oito anos depois de colocarem fogo no índio Galdino, estavam livres.
Progrediram para o regime aberto e, como Brasília não possui colônias agrícolas
e albergues, foram para suas casas. Deveriam voltar para dormir todos os dias e
não viajar. No entanto, segundo a promotora, a Justiça concedeu vários
benefícios e os assassinos do índio Galdino puderam fazer turismo enquanto
cumpriam pena.
Quinze anos depois, os garotos "estão muito bem e reconstruíram suas
vidas", de acordo com o advogado de três deles, Raul Livino. O menor se
formou em processamento de dados. Tomás fez faculdade de administração e
trabalha em uma empresa, como funcionário. Eron se formou em economia e tem o
próprio negócio, uma pizzaria e locadora de vídeos cujo proprietário é o pai.
Antônio Novely fez faculdade de fisioterapia, trabalhou como funcionário de
digitação da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e na área de cirurgia
plástica do Hran (Hospital Regional da Asa Norte). Hoje é concursado da
Secretaria de Saúde. Max se formou em direito e é advogado da empresa do padrasto,
ex-ministro do TSE.
Nenhum deles quis falar com a reportagem. Max disse que não ia comentar a
respeito. Os outros, segundo os advogados, querem esquecer o assunto,
considerado passado. Segundo o advogado Raul Livino, eles aguardam apenas a reabilitação.
Esse documento, concedido pela Justiça, apaga da ficha dos jovens o passado
criminal.
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| Índio Galdino enfaixado após ter 95 % do corpo queimado |