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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Brasília faz mal à saúde


De repente, não mais que de repente, figurões da república afastam-se de seus cargos por alegadas razões médicas. Um está com problema de coluna, outro com próstata bichada, outro mais com hemorroida exposta e por aí vai a tenebrosa lista. Isso sem falar nos loucos, nos desequilibrados, nos exibicionistas patológicos, nos portadores de aneurismas, nos pederastas e nos pedófilos, uma listagem da espessura da CID, catálogo internacional das doenças. 

Há um conjunto atual de malandros que, tal como frei Betto, que também pulou fora do governo Lula pouco antes de explodir o mensalão, tais malandros, repita-se, pediram demissão a Temer, o que prova o valor de boa rede de informantes para fazer sucesso entre os seus chegados. Mas o fizeram agora, às vésperas da publicação da delação da Odebrecht, a delação do fim do mundo. Viu-se, portanto, dois dos mais notórios personagens do Planalto pedirem pra operar ou cagar, e saindo. 

Tomara que tudo não seja mais que singela paranoia a acometer os cidadãos, todos de saco cheio das bizarrices do período lulo-dilmista. Temer ainda tem algum crédito. A herança que recebeu de Dilma e Lula, mais que maldita, o deixaram engessado em algumas de suas escolhas. Afinal, viver não é preciso; só o navegar, com a ajuda de mapas, instrumentos e estrelas, é preciso. Michel Temer, no fundo, no fundo, é herdeiro da milenar sabedoria dos fenícios. O Brasil conta com tal herança. A carga morta ou inútil deve ser lançada ao mar.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Bonzo brasileiro


Quando da guerra do Vietnam, religiosos budistas (bonzos) se auto imolavam em praça pública colocando fogo em suas vestes. Talvez, não exista manifestação mais terrível de inconformidade que esta, a de queimar, até a morte, por um ato voluntário.




Neste último fim de semana o povo brasileiro tomou conhecimento de mais uma tragédia, em Brasília. Às portas do Palácio do Planalto, um bonzo nativo, como a coroar todo um conjunto de desatinos produzidos durante o governo lulo-petista, ateou fogo em si próprio. Pelo noticiário disponível, teria queimado 90% do corpo. 




Enquanto policiais e bombeiros não sabem o que fazer, o infeliz suicida jaz deitado no chão, inerte. Dona Dilma, certamente, estaria, àquela hora, se empanturrando no café da manhã, enquanto conspirava para manter a vasta boquinha que a sustenta e a seus alegres fâmulos.    

sábado, 16 de janeiro de 2016

Brasília, herdeira de Lucca


Segundo informa Dante em sua Comédia, a cidade de Lucca era a mais corrupta da Itália, uma espécie de Brasília infestada de petistas. Os luquenses eram famosos por seus trapaceiros. Dentre eles Bonturo foi o mais célebre, um Lula da época. Para demonstrar o superlativo grau de venalidade corrente em Lucca, Dante chega a classificar Bonturo como o único sujeito honesto da cidade (Inferno, canto XXI, versos 37 a 42).

     "Ó Malembranche, aqui" bradou, irado;
     "Trago-te alguém que em Santa Zita opina!
      Mergulha-o já, que volto, alvoroçado,

      àquela terra, certo a mais indina;
      todos lá são venais, menos Bonturo,
      lá do não se faz sim pela propina.


ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia (tradução e comentários de Cristiano Martins). Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1984).

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Reforma política: os primeiros passos


A reforma política exige uma providência inicial: decapitar Dilma. Não precisa, é claro, ser ao estilo do Estado Islâmico. No caso brasileiro, onde o Estado é "Lâmico", limpar a pocilga do Planalto já estará de bom tamanho. Será o primeiro passo para que Michel Temer inicie o penoso processo de recondução do Brasil por trilhas mais seguras. 

Afastada a nefasta madame, seus seguidores, por naturalmente inconformados, podem ampará-la. Por exemplo, nomeando-a para algum alto cargo dos governos estaduais que eles ainda controlam. Os mineiros ganhariam, por exigência histórica, a prioridade. Se a dobradinha Dilma/Pimentel destruiu a indústria brasileira, talvez eles possam resgatar a situação mineira daqui para frente, com Dilma nomeada Secretária do Desenvolvimento de Minas Gerais. Quem sabe, até, como suporte para eventual candidatura da madame ao Senado federal? Os gaúchos terão que se conformar, e lamentar, não poderem gozar com tamanha felicidade. Afinal, Belo Horizonte é o berço que embalou a funesta criatura. Quem pariu Mateus que o embale. Minas Gerais, sem qualquer dúvida tirará enormes proveitos da dobradinha do além. 

O feliz estado das Alterosas poderá, ainda, ganhar a colaboração de outras sumidades da cúpula dilmista quando a abominável criatura for defenestrada junto com seus mirmídones. Para evitar o risco de cometer injustiças, melhor não identificar nominalmente esse extraordinário conjunto de varões e viragos da República. 

Apesar de ser considerado ministério da xepa - nunca dantes se viu igual na história do país - reajuntá-lo sob a liderança de Pimentel será oportunidade pedagógica para os demais membros da federação. A lição é simples e direta: eis o que acontece quando os eleitores escolhem Barrabás em vez do Divino Mestre. 

Cassar o mandato de dona Dilma tem o efeito adicional, não desprezível, de afastar os parasitas, milhares deles, verdadeira legião, das boquinhas de onde sugam a energia da Nação.    

Outra medida profilática seria transferir a Capital da República para São Paulo ou, então, voltar com ela para o Rio de Janeiro. Certamente é impraticável, mas seria engraçada a hipótese de envolver Brasília com cerca eletrificada para impedir que alguém possa de lá fugir. Entrar, pode. Não pode é sair. O Brasil, inegavelmente, respiraria ares mais puros. Para que a Sodoma brasiliense não fique desprovida de alguma função, ela pode ser transformada num Museu aberto da Corrupção, esta sim, a obra cultural que falta para coroar o destino infame da filha bastarda de Juscelino.

terça-feira, 21 de julho de 2015

As meninas entram em cena (Fernando Gabeira)

Bunga-bunga em Brasília





















Você poderia chamá-las de petroputas ou prostipetro, mas não seria preciso. As meninas aparecem em quase todo grande escândalo em Brasília. Não são especializadas. Finalmente, deram as caras no escândalo do Petrolão. Documentos da PF indicam que houve gastos com garotas de programa, mencionadas em rubricas como Jô 132 e 3 Monik nas planilhas de Alberto Youssef, um dos grandes nomes do caso.

Lembro-me de que uma das grandes cafetinas de Brasília uma vez me perguntou no aeroporto o que pensava das garotas de programa nesses escândalos. Disse que não as incriminava. Os políticos e empresários gostam de Rolex, compram sapatos Labutin para suas mulheres. Não se podem culpar as marcas, muito menos os vendedores que não costumam perguntar sobre a origem do dinheiro.

Mas a presença das meninas dá um tom global ao escândalo. O ex-dirigente do FMI Dominique Strauss-Kahn foi preso em Nova York por assédio. Mas na França, onde a prostituição é criminalizada, teve de responder a processo. O mesmo se passa com Silvio Berlusconi, com suas famosas bunga-bungas. Também foi processado.

Num contexto de prostituição legalizada, as coisas seriam mais fáceis. Aos documentos da Lava-Jato seriam incorporados recibos de prestação de serviços. Papai e mamãe, blow jobs e o caríssimo beijo na boca seriam especificados.

A Lava-Jato já tem inúmeros componentes cinematográficos. Mas a entrada das meninas nas festas dos poderosos assaltantes da Petrobras era uma espécie de elo que faltava. Gurus, políticos e empresários costumam revelar nesses episódios o desejo de uma satisfação sexual ilimitada. É uma espécie de calcanhar de Aquiles.

Leio que as garotas de programa já apareceram em revistas e talvez por isso cobrem mais caro. São contratadas como os ricos compram quadros, não pelas formas, mas pela fama do pintor.

Outro dia, um grupo de São Paulo me convidou para contribuir com o roteiro de um filme sobre Brasília. Respondi com uma ideia tão maluca que nunca mais voltaram ao assunto.

Era uma nave de outra galáxia que se aproximava de Brasília com a missão de ocupar alguns prédios habitados por duas tribos de cabelos pintados: os Acaju e os Graúna. Na medida em que eles se aproximavam, acompanhavam pela tela da nave o comportamento da sociedade que ainda não conheciam em detalhes.

Agora vejo que caberia nesse argumento cinematográfico uma garota de programa infiltrada que mandaria mensagens constantes para o big data; crescimento dos implantes de pênis, baixa da tesão nos dias em que o Banco Central anuncia a taxa de juros.

Sempre me interessei pela economia libidinal de Brasília. No passado, escrevi sobre as prostitutas que faziam um cordão em torno do setor de hotéis. Cheguei a propor uma cartilha para os prefeitos do interior distinguirem uma travesti de uma garota de programa.

Um equívoco. Creio hoje que para todos é melhor uma dose de ambiguidade. Uma travesti que conheço, talentosa técnica administrativa, me contou que ao descobrirem o que se trata, alguns políticos fingem que não viram.

Talvez no futuro vejamos um livro do tipo “Memórias de uma cafetina em Brasília”. Espero também que não tenha nomes. Apenas elementos que nos ajudem a descortinar o universo libidinal do poder. Se não servir para a história, no sentido mais amplo, servirá para os roteiristas que buscam histórias de gente de carne e osso.

As meninas custaram a aparecer no Petrolão. Parecia um escândalo baseado em fortunas, compra de apartamentos, obras de arte. Elas apelam não só para um sentido universal, o sexo, mas também para o fugaz reencontro com o doce pássaro da juventude.

Com a entrada da Polícia Federal na casa de Fernando Collor, constatei que, além de seu carro oficial, ele tem três carros de luxo na garagem que devem valer juntos R$ 6 milhões. São apenas três de sua coleção de 14. Qual o sentido disso, exceto garantir a Collor que ele tem carros de luxo na garagem, que é o bambambã?

Com a grana da corrupção, compram um sopro de juventude, transando com as meninas: com a coleção carros compra-se uma infância de brinquedos de luxo.


A nave se aproxima horrorizada.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Galdino, queimado vivo

Há alguns anos, cinco jovens de classe média em Brasília escolhiam uma forma inusitada e cruel de se divertir durante a madrugada, depois de uma festa com os amigos. Compraram gasolina e uma caixa de fósforos, atearam fogo em um índio que dormia em uma parada de ônibus, na W3 Sul, avenida de um bairro nobre da capital federal, e fugiram. 

O índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, de 44 anos, que estava na cidade para comemorar o Dia do Índio, acordou em chamas e horas depois morreu no hospital com 95% do corpo queimado. Os rapazes foram reconhecidos, presos e condenados a 14 anos de prisão, mas a lei brasileira garantiu que ficassem apenas oito anos na cadeia — e com direito a várias regalias. 

Para justificar o crime bárbaro, os rapazes alegaram que acreditavam ser um mendigo e resolveram "brincar" com ele. Anos depois do crime que chocou o Brasil, uma onda de ataques a mendigos e moradores de rua se espalhou por Brasília e também pelo País.

Dos cinco envolvidos no crime contra o índio Galdino, um deles era menor de idade na época e foi encaminhado para o centro de reabilitação juvenil do Distrito Federal. G.N.A.J ficou internado na unidade por três meses, mesmo tendo sido condenado a um ano de reclusão. 

Os outros quatro — Tomás Oliveira de Almeida, Max Rogério Alves, Eron Chaves Oliveira e Antônio Novely Cardoso Vilanova — foram condenados pelo júri popular por homicídio doloso (com intenção de matar), crime hediondo com qualificadores por ter sido um crime por motivo fútil, com crueldade extrema (uso de fogo) e sem chance de defesa para a vítima. 

Todos tinham idade entre 17 e 19 anos na época e eram de classe média alta em Brasília. Antônio Novely é filho de juiz federal; Max Rogério, enteado de um ex-ministro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral); Eron e Tomás, filhos de funcionários públicos. 

De acordo com a promotora do Ministério Público do Distrito Federal que acompanhou o caso, Maria José Miranda Pereira, o crime foi premeditado. Os jovens planejaram com calma por cerca de duas horas. Eles trocaram de carro para não ser identificados, pararam em uma rua paralela, buscaram gasolina em vários postos de combustível, dividiram as tarefas igualmente — dois jogaram o líquido inflamável sobre Galdino e os outros três riscaram o fósforo — e escaparam. Só foram reconhecidos porque um chaveiro que estava próximo anotou a placa do carro. 

— A defesa alegou o tempo todo que eles eram bons meninos, que foi só uma diversão. Eu sei se uma pessoa é boa ou não pelas atitudes delas e não porque os amigos ou a família estão dizendo isso. E diversão com a imagem de um ser humano em chamas é o que há de maior crueldade e gravidade.

Presos em 1997, os garotos só foram julgados em 2001, depois de todos os recursos dos advogados de defesa. Em cinco anos, os advogados tentaram modificar o crime para lesão corporal seguida de morte e evitar que os garotos fossem julgados pelo Tribunal do Júri de Brasília. Além disso, conseguiram benefícios para que os acusados estudassem e trabalhassem fora do presídio, benefício que outros presos não tinham. 

— Eles [os advogados de defesa] tentaram tudo que puderam. Eu lutei muito na época e não por um caso, mas por uma causa. Queria que fossem julgados pelo crime que realmente cometeram, um homicídio, e deveriam ser julgados como outros pelo Tribunal do Júri. Se não fosse assim, que moral eu teria para condenar outros presos que dão um tiro na cabeça de alguém sendo que quem matou com uma crueldade tão grande como aqueles meninos nem sequer seriam julgados da forma certa?

Os jurados condenaram Max Rogério, Antônio Novely, Eron e Tomás a 14 anos em novembro de 2001. Como a lei, na época, dizia que com um sexto de pena em regime fechado os presos de bom comportamento e sem antecedentes criminais poderiam ir para um regime semiaberto, em 2002 os jovens já não viviam mais na prisão, apenas voltando lá para dormir. 

Todos tinham benefício de estudar e trabalhar fora do Complexo Penitenciário da Papuda. Saíam nos próprios carros e, muitas vezes, aproveitaram o benefício para "esticar" o dia e fazer um happy hour nos bares da cidade, como revelou reportagem do jornal Correio Braziliense em 2003. 

Em 2004, oito anos depois de colocarem fogo no índio Galdino, estavam livres. Progrediram para o regime aberto e, como Brasília não possui colônias agrícolas e albergues, foram para suas casas. Deveriam voltar para dormir todos os dias e não viajar. No entanto, segundo a promotora, a Justiça concedeu vários benefícios e os assassinos do índio Galdino puderam fazer turismo enquanto cumpriam pena. 


Quinze anos depois, os garotos "estão muito bem e reconstruíram suas vidas", de acordo com o advogado de três deles, Raul Livino. O menor se formou em processamento de dados. Tomás fez faculdade de administração e trabalha em uma empresa, como funcionário. Eron se formou em economia e tem o próprio negócio, uma pizzaria e locadora de vídeos cujo proprietário é o pai. 

Antônio Novely fez faculdade de fisioterapia, trabalhou como funcionário de digitação da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e na área de cirurgia plástica do Hran (Hospital Regional da Asa Norte). Hoje é concursado da Secretaria de Saúde. Max se formou em direito e é advogado da empresa do padrasto, ex-ministro do TSE. 

Nenhum deles quis falar com a reportagem. Max disse que não ia comentar a respeito. Os outros, segundo os advogados, querem esquecer o assunto, considerado passado. Segundo o advogado Raul Livino, eles aguardam apenas a reabilitação. Esse documento, concedido pela Justiça, apaga da ficha dos jovens o passado criminal.



Índio Galdino enfaixado após ter 95 % do corpo queimado