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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Cotas raciais

O debate sobre as chamadas cotas raciais, tipo específico de política social compensatória, de clara natureza neoliberal, volta à ordem do dia. Esse tipo de orientação - é bom recordar - nasceu no seio de governos "direitistas" americanos, sobressaindo-se aí o período em que os Estados Unidos foram presididos por Richard Nixon. O antigo programa televisivo chamado Vila Sésamo, por exemplo, bem como o busing (dispersão e matrícula de alunos por diferentes escolas localizadas em bairros de diversificadas bases sócioeconômicas e demográficas), configuraram uma resposta política ao retrato da educação americana delineado pelo Relatório Colleman. 

Soa algo irônico que os corifeus das cotas raciais de hoje tenham  como inspiração doutrinária um notório conservador como Nixon. Algo parecido com a feroz defesa do FGTS que dele fazem líderes ditos de "esquerda". O Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, criação genial do ministro Roberto Campos, ainda no tempo em que dirigia o Brasil o marechal Castelo Branco, foi apropriado de tal maneira pela pelegada sindical que até assento na Constituição Federal de 1988 ele, o Fundo, ganhou.  

A imitação, ou o louvor de obras alheias, nada tem de mal em si mesmo. Tem, até, algo de virtuoso e de humildade política e filosófica ao reconhecer que uma coisa é boa, independentemente de sua autoria.

É possível,  no entanto, que a prática do mimetismo leve seus praticantes às tênues fronteiras que separam a flexibilidade do ridículo e da crueldade. O barroquismo  mineiro apresenta curiosos exemplos. Um deles, que causa sincera admiração é a patética imitação de paredes de azulejos em igrejas barrocas. Não os havendo, pintava-se uma tábua com reproduções daqueles, e tudo ficava como se azulejos fossem. 

Agora, o Brasil está a testemunhar as perniciosas invectivas de frades desocupados e de mulatos atrevidos no sentido de criar privilégios para os seus, reservando-lhes vagas nas instituições públicas de educação e, claro, polpudos cargos na frondosa burocracia governamental. E tudo chancelado e coordenado pelos que deveriam ser os primeiros a denunciar o renascimento espiritual do nazismo. Classificar alguém pela taxa de melanina da pele, ou pelo tipo de cabelo, ou pela espessura dos beiços, ou pelo nariz arreganhado só faz legitimar os caçadores de judeus, tal qual se deu no terrível período do nazifascismo alemão. Um nariz adunco era um passaporte garantido para um campo de concentração. Circuncidado, então, já ia direto para os fornos crematórios.

quinta-feira, 29 de março de 2018

A violência e o PT


As campanhas eleitorais do PT e seus puxadinhos - PC do B, PSOL e outros menos votados - possuem u'a marca em comum: a violência, verbal, física ou ambas ao mesmo tempo. E não só para eleições gerais como, também, em disputas sindicais, em entidades estudantis e outras mais. Pode-se, mesmo, sem macular a história dessa gente, dizer que a violência está no DNA do petismo. É um traço totalitário inerente à sua natureza mais profunda. Sua matriz se encontra no comunismo, tal qual foi entendido por Marx, Lenine e Stalin e que, depois, foi incorporado pelo fascismo e pelo nazismo. O comunismo, de fato, antecede historicamente a defesa e a prática da violência como estratégia política. Apenas para recordar, a revolução comunista russa se deu em 1917; já o fascismo italiano se fez vitorioso em 1922 e a subida dos nazistas ao poder, na Alemanha, só viria a ocorrer em 1933.

As afinidades programáticas do comunismo com o fascismo e o nazismo são, portanto, bem conhecidas. A grande pensadora judia Hannah Arendt demonstrou exaustivamente tais fatos em seu precioso estudo As origens do totalitarismo. Não há como ignorá-lo nem dele divergir. 

O petismo já foi identificado como manifestação tardia do comunismo (essencialmente totalitário, repita-se), na periferia do mundo ocidental. O curioso é que tenha sobrevivido até o presente momento, apesar da ruptura do bloco soviético. Com o desmonte dos regimes ideologicamente vinculados à antiga União Soviética, restou ao PT e seus asseclas o culto nostálgico de países e lideranças ditatoriais ainda existentes em pouquíssimos lugares do planeta, como é o caso de Cuba, Coreia do Norte, satrapias africanas e, em menor escala de intensidade, a China, expressão suprema do capitalismo de estado totalitário. 

Chega a ser patético que um dos mais trêfegos puxadinhos do PT - o PC do B - ainda mantenha um culto quase que religioso ao grande irmão da Coreia do Norte, uma das excrescência mais notáveis do largo portfólio de devoções dessa gente. Cabe rememorar, nem que seja para indicar o grau de insanidade desses comunistas um tanto abilolados, a maneira como se referiam à balcânica Albânia (sociedade tribal de criadores de cabras), e a seu líder Enver Hoxa: o farol do socialismo! Deve existir alhures alguém que consiga explicar tal subserviência. Talvez a psicanálise ofereça algum recurso para tal. Afinal de contas, chamar os líderes de "grande timoneiro", "inefável irmão", "maravilhoso e sábio condutor", "painho de Garanhuns" e outras denominações mais para o ridículo do que para o cômico, deve ter algum fundamento teratológico. Talvez, quem sabe, uma resultante da ausência do pai na constelação familiar. A bastardia materialmente real se superaria com a figura de um Grande Pai simbólico. Num país como o Brasil, em que ao menos 40% das famílias são chefiadas por mulheres, a presença do pai é desejada  como nunca se viu antes na história brasileira.  

terça-feira, 29 de março de 2016

Augúrios: Dilma e Pimentel


Historiadores do futuro mostrarão que dona Dilma e Fernando Pimentel começaram e terminaram a vida política juntos. No início compartilhado eram somente terroristas um tanto trapalhões, é verdade; no fim, continuaram abestados, como diria Tiririca, acabando abraçados nos corredores de alguma Vara Penal sob o jugo do artigo 121 do CPB.

Em prol de ambos, há de se reconhecer que não iludiram o eleitorado, conforme muitos estão a dizer. Nem Lula o fez, para complementar a relação dos principais nomes que são equivocadamente tachados de enganadores da fé pública. Achar o contrário é o mesmo que dizer que o povo alemão foi enganado por Hitler. Este foi eleito em 1933 e gozou por doze anos, até 1945, da aprovação e apoio entusiasmado da grande maioria dos alemães, mesmo quando a Alemanha já estava perdendo a guerra. De fato, o povo alemão era nazista, de cabo a rabo. Não se pejava em ir às ruas, aos magotes, para aplaudir e receber de volta a saudação desmunhecada e frescalhote do Fuhrer. 

Os opositores e demais críticos do nazismo, bem como do petismo, sempre foram uma minoria. Nunca o nacionalismo alemão esteve mais vivo. Espantar-se, hoje, que intelectuais chapa-branca sejam devotos do PT, e até se postem de quatro para melhor serem possuídos, é ignorar o extraordinário número de pensadores alemães que gostosamente sucumbiu aos estupradores nazistas naqueles anos negros em que o mundo submergiu na barbárie totalitária. O nome de Martin Heidegger aí é emblemático; um dos maiores filósofos do século XX foi afiliado do Partido Nacional Socialista do Trabalhadores. Não existindo no Brasil qualquer nome de envergadura semelhante, a solução foi se contentar com Marilena Chauí, a plagiária, aquela que sofre epifanias quando se deleita ouvindo Lula da Silva num gozo ao estilo de Santa Tereza D'Ávila.  

Prometer e não cumprir, notadamente no campo político, mas não somente nele, é vício antigo e universal. Na economia dos afetos, as juras esquecidas marcam de maneira democrática a trajetória amorosa dos homens e mulheres de diferentes classes sociais. No Canto XXVII do Inferno, na Divina Comédia, Dante sintetiza em versos inesquecíveis o cerne da vida política: "muita promessa e pouco atendimento", conforme sugeriu um aventureiro da época ao papa de então, Bonifácio VIII, para ajudá-lo em sua guerra contra os irmãos Colona. Funcionou. O único problema foi o destino final de tão mau conselheiro, condenado à danação eterna em uma das valas do inferno, pena a que estão sujeitos a quase totalidade dos assessores dos governantes. Para ficar no âmbito popular basta recordar o belo samba canção imortalizado por Orlando Silva: "Aos pés da Santa Cruz". Pode-se ouvi-lo no Youtube.

A triste verdade é que os eleitores desejaram essa gente abominável. Talvez se possa dizer que o eleitorado tem alma feminina. Quantas são as mulheres (a começar das nossas próprias famílias), que, apesar de advertidas pelos pais, parentes e amigos, insistem em se casar com bandidos e outros tipos possuidores de caráter não recomendável? Passado algum tempo, e após maus tratos de toda ordem, ei-las, as desobedientes, reconhecendo enfim a enrascada em que se meteram. Às vezes, o fazem tarde demais. Se arrependimento matasse, a maioria já estava morta.   

quinta-feira, 24 de março de 2016

Os crimes do PT e os crimes de Stalin e Hitler


O comunismo como sistema é tão totalitário como o nazifascismo. A natureza de ambos foi dissecada por Hanna Arendt em seu magistral livro "As origens do totalitarismo". Os crimes contra a humanidade irmana-os da maneira mais natural possível. Curiosa é a postura dos seus intelectuais e simpatizantes na apreciação de seus ídolos e suas práticas nefandas: absolutamente semelhantes. Basta, apenas, trocar o sinal. Não há nada mais parecido com um nazista que um comunista de boa cepa. Nem entre estes e os petistas. Não gostam da ideia de questionar os desatinos cometidos por seus líderes. Não enxergam o mínimo de culpa ou de responsabilidade daqueles dirigentes pelo que fizeram. 

Em nome da classe proletária, Stálin liquidou milhões de russos, ucranianos e outros, sem qualquer contestação por parte da vasta maioria de intelectuais comunistas ocidentais. Só mudaram de posição quando os próprios soviéticos denunciaram os métodos bárbaros de Stálin após, claro, a morte deste. O genocídio comunista foi equivalente ao cometido pelos nazistas contra judeus, dementes, gays, ciganos e outras minorias.  

No Brasil contemporâneo os adeptos do lulo-petismo, que infestam o mundo universitário e cultural (tornados novas madrassais), chegam ao desplante de patrocinar recentes atos públicos em defesa e louvação dos seus delinquentes (Lula e Dilma à frente). Não conseguem ver que o rei e a rainha tão adorados estão, de fato, completamente nus.

Frente a tal doença do espírito (incurável, segundo alguns), torna-se preocupante o day after, aquele que se seguir à queda de Dilma e sua vasta famulagem. Haverá que se pensar em algum projeto de reeducação. Quem sabe, adotar, ao estilo chinês, campos de trabalho forçado? 

sábado, 13 de junho de 2015

Coisas e pessoas, segundo Lula


Lula da Silva é pródigo em declarações que ficarão na história brasileira. Mais incrível que seus diagnósticos, no entanto, é a receptividade deles. Como o, ainda, poderoso chefão é uma máquina de produzir discursos os mais mirabolantes, os registros precisam estar bem datados. Analfabeto funcional, o ex-presidente tece considerações, com a maior facilidade, resultantes da mistura de alhos com bugalhos, apreendidos de oitiva, pois que não lê e nunca leu nada que não tivesse a única finalidade de lhe curar da insônia. Onde estará frei Betto para lhe fazer as devidas corrigendas? Ou, então, aquele outro frade famoso, o frei Boff, que se arvoram em consciência viva do mundo?

"Ficam levantando coisas contra as pessoas", eis o cerne do discurso lulista no último dia 12 de junho de 2015, não dentro da convencional caverna de Ali-Babá, mas em luxuoso hotel de Salvador, onde se reuniu a quadrilha que o ex-presidente comanda com mão de ferro. 

"Coisas contra pessoas" deve sr entendido da seguinte maneira: a imprensa divulga "coisas", ou fatos inquestionáveis sobre os malfeitores (vale dizer, as "pessoas"), que, no limite, quer significar ele próprio - Lula da Silva - atraindo a censura pública e, pior, a atenção da polícia e das autoridades judiciárias. As "coisas", ou a roubalheira, o tráfico de influência, a corrupção ativa e passiva, a improbidade administrativa e mais um rol de condutas capitaneadas no Código Penal, atingem Lula e outros cúmplices ("as pessoas") de maneira inequívoca. 

O mais espantoso, contudo, é a conclusão que a abominável criatura retira de suas considerações. Segundo ele, as informações que a imprensa divulga caracterizariam um projeto fascista ou nazista em curso contra o povo brasileiro. Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler não teria melhor discípulo. Aliás, a bem da verdade, o famigerado führer alemão, ele sim, é quem parece ter se reencarnado no bufão que é dono do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Brasileiros, o PT.

Lula apenas sangrou na veia da verdade. O petismo é que representa uma visão de natureza totalitária da política, assim como o é o comunismo e seu meio irmão, o fascismo. Os petistas, conforme já foi visto em inúmeras oportunidades, adoram imputar aos outros aquilo que eles mesmos fazem, ou pretendem fazer. É uma clássica lição leninista, quase sempre repetida com muito sucesso. Dona Dilma, na última campanha eleitoral, mostrou que aprendeu bem a lição. 

Uma conclusão provisória pode ser tirada: o país se encontra sob a ameaça totalitária. Seria bom que os interessados nos destinos do Brasil relessem, para começar, o clássico de Hannah Arendt - As Origens do Totalitarismo.   Seria um erro gravíssimo supor que o PT se subordinará às regras - e a seus efeitos - de um processo político democrático constitucional. Os efeitos perversamente pedagógicos do que fazem os petistas - mostrar de maneira escancarada que as leis podem ser violadas sem conseqüências negativas para os violadores - fortalecem na sociedade uma descrença e uma apatia generalizadas. Os crimes dessa gente ainda pedirão que se implante, aqui, um tribunal ao estilo de Nuremberg.     

sábado, 28 de março de 2015

Heidegger e o nazismo (Luiz Nazário)























“Em 1988, os meios acadêmicos da França reagiram com inusitado furor quando o chileno Victor Farias publicou Heidegger e o nazismo [1], um estudo brilhante denunciando as implicações da adesão ao nazismo do filósofo alemão Martin Heidegger (Messkirch, 1889-1976) no interior de sua filosofia. Essas reações demonstraram, antes de tudo, que esses círculos já estavam preparados para defender a filosofia de Heidegger como um sistema autônomo e couraçado contra influências internas e externas das posições políticas de seu próprio autor.

Parecia importante aos acadêmicos preservar a ideia de que um “grande pensador” pudesse aderir ao nazismo sem ter as produções de seu intelecto afetadas, garantindo uma continuidade da assimilação de seus pensamentos sem restrições pelos contemporâneos. Por extensão, qualquer artista ou intelectual de alguma estatura que tivesse colaborado com o nazismo poderia ter suas obras consumidas na atualidade sem contra-indicações. Os “erros” políticos de um criador ou intelectual não afetariam suas obras artísticas, seus sistemas filosóficos.

No artigo “Ainda Heidegger e o nazismo”, por exemplo, o acadêmico francês Pierre Aubenque estranhou que a denúncia do nazismo de Heidegger fizesse mais barulho em 1988 que em 1933 e, como ilustração, lembrou que Jean-Paul Sartre, “o primeiro e mais célebre discípulo francês de Heidegger […] estava neste momento em Berlim, e devia ler os jornais” [2].

De fato, Sartre estudava a fenomenologia de Husserl em Berlim, mas bastante alheio ao que se passava a seu redor. A política só passou a ocupar seu pensamento com a mobilização e ele só veio a ler Heidegger quando foi internado num campo de prisioneiros. Em 1944, Sartre defendeu Heidegger dos críticos comunistas, tentando separar sua filosofia de seu engajamento nazista [3]. Fazia uma autodefesa, na medida em que se considerava influenciado pelo pensamento de Heidegger. No entanto, a diferença que o excluía deste pensamento foi revelada pelo próprio Heidegger, ao recusar recebê-lo para uma entrevista. Assim, se o engajamento nazista de Heidegger não perturbara Sartre, à época, isto prova apenas a ingenuidade deste filósofo.

Por outro lado, Herbert Marcuse, que se acreditava mais profundamente influenciado por Heidegger, experimentou, em 1933, uma indignação igual à manifestada por Farias. Tendo aprendido filosofia com Heidegger em Freiburg, Marcuse chocou-se ao vê-lo, quatro meses depois da tomada do poder pelos nacional-socialistas, apoiar Hitler com entusiasmo, em palavras e atos, filiando-se formalmente ao NSDAP (o Partido Nazista) a 1° de maio de 1933. Assumiu o Reitorado da Universidade de Freiburg em abril de 1933 por votação unânime do conselho plenário da universidade. Heidegger mentiu sobre isso ao Tribunal de Desnazificação ao dizer que nunca foi membro do NSDAP. Quatro meses depois da nomeação de Hitler como chanceler, ele discursou sobre a “grandeza e magnificência da reabilitação nacional”. E exaltou a ditadura nazista em seu discurse de posse, A auto-afirmação da universidade alemã (1933):

“A tão decantada ‘liberdade acadêmica’ se vê corrida da universidade alemã, porque esta liberdade era inautêntica, porque somente negadora. Ela significava principalmente a despreocupação, o arbitrário dos projetos e das inclinações, a licença em tudo o que se fazia ou não se fazia. O conceito de liberdade do estudante alemão é agora reconduzido à sua verdade. É dela que se desprendem no futuro as obrigações e o serviço dos estudantes alemães.”
“A primeira obrigação é a que os conduz à comunidade popular. Ele os leva ao dever de […] meter a mão na massa. Essa obrigação é desde agora afixada e enraizada na existência estudantil pelo serviço do trabalho.”

“A segunda obrigação é a que os liga à honra e ao destino da nação no meio dos outros povos. Ela exige uma disponibilidade – assegurada pelo saber e a capacidade, e fortificada pela disciplina – a se engajar até o fim. Essa obrigação encerra e penetra desde então a existência estudantil enquanto serviço militar.”

“A terceira obrigação da comunidade estudantil é a que a liga à missão espiritual do povo alemão [que] trabalha para o seu destino na medida em que coloca sua história numa certa possibilidade: a de manifestar a superpotência de todas as potências formadoras do mundo da existência humana e onde ele conquista sempre novamente seu mundo espiritual […] o serviço do saber” [4].

As duas primeiras obrigações (o serviço do trabalho e o serviço militar são claras, mas a terceira (o serviço do saber) é um tanto obscura: referindo-se à “missão espiritual histórica” da Alemanha e ao “destino do povo alemão” entrevisto por Heidegger sob o nazismo, seria esta uma de forma cifrada de obrigar a juventude à missão de dominar o mundo até torná-lo “espírito puro” como só o povo alemão seria capaz de sê-lo e de fazê-lo. As três novas “obrigações” da juventude alemã defendidas por Heidegger estavam perfeitamente de acordo com as medidas tomadas pela ditadura do novo Estado nazista.

“Tal era então a minha convicção”, declarou o filósofo em 1966 numa entrevista originalmente concedida à revista Der Spiegel, publicada apenas em 1976, por ocasião de sua morte, “eu não via outra alternativa na época. No meio da confusão geral das opiniões e das tendências políticas representadas por 22 partidos, tratava-se de encontrar uma posição nacional e, sobretudo, social, no sentido geral da tentativa de Friedrich Naumann” [5]. Ou seja, a ditadura nazista e suas “obrigações” impostas à juventude alemã pareciam a Heidegger (e ainda lhe pareciam em 1966) a única alternativa viável aos “males” da democracia liberal – que era, contraditoriamente à declaração de Heidegger, o ideal de Friedrich Naumann.

Na mesma entrevista, Heidegger defendeu-se das acusações de antissemitismo, revelando um episódio de resistência pessoal: dois dias depois de aceitar o cargo de reitor, o chefe dos estudantes nacional-socialistas e dois companheiros foram ao reitorado renovar o pedido de colocação dos cartazes contra judeus. Heidegger teria recusado. Os três estudantes teriam se retirado observando que a proibição seria comunicada à chefatura dos estudantes nacional-socialistas. Alguns dias depois Dr. Baumann, chefe de grupo da S.A., teria telefonado a Heidegger exigindo a autorização para afixar os cartazes, como já se fizera em outras universidades. No caso de recusa, Heidegger seria destituído do cargo e a universidade poderia ser fechada. Heidegger teria buscado apoio junto ao Ministro da Educação de Baden e ouvido dele que nada podia fazer contra as S.A. No entanto, Heidegger teria se mantido firme na negativa [6]. Não foi demitido por isso, nem a universidade foi fechada pelo regime…

Ernildo Stein também exibiu uma carta inédita de Heidegger em que ele se defende das acusações de antissemitismo: ‘Ide a Munique e perguntai ao Pe. Karl Rahner que assistiu às minhas aulas de 1934 a 1936, para verem a crítica que se ousava contra o biologismo, o racismo do nacional-socialismo’. [7] Contudo, de seu posto de poder no reitorado, onde permaneceu até fevereiro de 1934, Heidegger aprovou diversas medidas de Hitler, entre as quais o ato pelo qual a Alemanha deixou a Sociedade das Nações [8].

Por motivos obscuros – que Faria associa ao massacre das S. A. na Noite das Facas Longas –, Heidegger demitiu-se no décimo mês dos quatro anos que tinha pela frente. Seus cursos passaram a ser supervisionados por agentes do regime, mas ele não foi perseguido, nem censurado: continuou lecionando e publicando. Segundo testemunhas oculares, Heidegger usou a insígnia do Partido Nazista na lapela (foto) até fins de 1938. Não se desligou do NSDAP até o fim da guerra, em 1945. A partir de então, ficou proibido de lecionar pelo Tribunal da Desnazificação.

Marcuse procurou, na própria filosofia do mestre, sinais que pudessem explicar a aparente “conversão” do filósofo do Ser ao admirador de Hitler, encontrando, em Ser e tempo (1927), uma série de categorias que faziam Heidegger interpretar o Dasein a partir dos medos e frustrações produzidos numa sociedade repressiva, uma existência sem alegria, obscurecida pela morte e a ansiedade – material humano para a personalidade autoritária [9]. Assim, já em 1934 Marcuse denunciou a traição de Heidegger à filosofia ocidental que ele pretendia representar [10].

Em 1947, Herbert Marcuse visitou Heidegger em sua cabana em Todtnauberg, na Floresta Negra, esperando do filósofo que o influenciara com Ser e tempo uma palavra que o dissociasse de uma vez por todas do nazismo. A palavra esperada não foi proferida. Inconformado, Marcuse enviou a Heidegger, dos Estados Unidos, um pacote de alimentos, dedicados “ao homem com o qual aprendi filosofia de 1928 a 1932”, exprimindo sua esperança de vê-lo manifestar publicamente sua dissociação em relação ao nazismo ou uma efetiva mudança de pensamento. Heidegger respondeu a Marcuse com uma série de racionalizações.

Ele teria esperado do nacional-socialismo um “renascimento espiritual da vida em sua totalidade, uma reconciliação de antagonismos sociais e uma libertação do Dasein ocidental dos perigos do comunismo”. E teria reconhecido seu “erro” em 1934, retirando-se do Reitorado “em protesto contra o Estado e o Partido”. Mais tarde, teria incorporado em suas leituras e cursos “um ponto de vista que era tão inequívoco que entre aqueles que foram meus estudantes, nenhum caiu vítima da ideologia nazista”. Heidegger concluía que a guerra fizera dos alemães ocidentais vítimas na mesma medida que os judeus, com a diferença de que “tudo o que ocorreu desde 1945 tornou-se conhecimento público, enquanto o terror sanguinário dos nazistas na realidade foi mantido em segredo do povo alemão”[11].

Marcuse observou que ignorar a diferença entre os campos de concentração nazistas e as deportações e internamentos do pós-guerra era colocar-se fora da dimensão do Logos, o que tornava todo diálogo impossível: “O senhor, o filósofo, confundiu a liquidação do Dasein ocidental com o seu renascimento? Mas esta liquidação não era já evidente em cada palavra dos “líderes”, em cada gesto e morte das S.A. muito tempo antes de 1933?… Talvez estejamos ainda experimentando a continuação do que começou em 1933. Que o senhor ainda considere isso como um “renascimento”, eu não estou certo.” [12] Com isso Marcuse rompeu todas as relações com Heidegger.

Nos anos de 1950, sua ex-aluna e ex-amante Hannah Arendt, depois de afastar-se dele devido ao engajamento nazista do mestre, voltou a procurá-lo e, perdoando-o, empenhou-se na sua reabilitação intelectual. Numa carta à sua aluna mais brilhante, datada de 12 de abril de 1950, Heidegger, anticomunista de longa data, rejeitou as atitudes de pessimismo e desespero da filósofa diante do início da Guerra Fria insistindo para que ela entendesse o “ser” sem reduzi-lo a uma mera ocorrência histórica. Defendia que “o destino dos judeus e dos alemães tem a própria verdade que não pode ser alcançada pelo nosso raciocínio histórico… Quando o Mal sobrevém, e isso tem acontecido, então o ser ascende, desse ponto em diante, e se torna um mistério para o pensamento e para a ação dos homens; pois o fato de alguma coisa existir não significa que seja boa e justa… Não sou experiente nem tampouco talentoso no domínio do político.” Heidegger abdicava da resistência e mesmo de qualquer crítica aos desmandos do poder, colocando-se do lado dos “alemães”, ou seja, dos colaboradores, submetido às “forças irracionais”, ou seja, ao nazismo, além de qualquer explicação ou “intelecção”.

Em La poésie comme expérience, Philippe Lacoue-Labarthe comentou a tentativa fracassada de diálogo com Heidegger empreendida em julho de 1967 pelo poeta romeno Paul Celan, cujos pais haviam sido mortos num campo de concentração, do qual ele escapara, exilando-se em Paris. Na Floresta Negra, Celan esperava ouvir uma explicação do filósofo sobre Auschwitz. Tudo o que se sabe é que saiu da cabana de Heidegger com a decisão de nunca mais encontrá-lo. Exprimiu mais tarde sua frustração no poema “Todtnauberg”, que registra, hermeticamente, a ausência da palavra que seu coração esperava receber [13]. Considerado o grande poeta do Holocausto, Celan suicidou-se poucos anos depois, em 1970.

Esses mal-entendidos em torno da posição política e da postura ética de Heidegger devem-se, em grande parte, como já notara Pierre Bourdieu, à linguagem cifrada criada pelo filósofo [14]. Hannah Arendt justificava o engajamento nazista de Heidegger como um “erro político” do mesmo tipo que o de Platão em relação à tirania [15]. E Karl Jaspers tentou até o fim da vida “entender” o sentido do Reitorado de Heidegger, em anotações cada vez mais céticas, em seus diários [16]. Atraídos pelo incompreensível, Sartre e Marcuse projetaram, no emaranhado da filosofia de Heidegger, seus próprios pensamentos, descobrindo nele uma genialidade que não passava do reflexo de suas mentes. No caso de Celan, o emaranhado assumiu a aparência de um pensamento abismal, digno de reverência, mesmo depois de viver o inferno do Holocausto. Contudo, em oposição aos seus “discípulos” visceralmente éticos, Heidegger jamais distinguiu padrões de aplicação da racionalidade técnica a objetos ou seres humanos. Provam-no as duas únicas passagens conhecidas de sua obra em que ele se referiu ao Holocausto:

“Agricultura é hoje uma indústria alimentícia motorizada, em essência o mesmo que a fabricação de cadáveres nas câmaras de gás e campos de extermínio, o mesmo que o bloqueio e fome de países, o mesmo que a fabricação de bombas atômicas.”
“Centenas de milhares morrem en masse. Eles morrem? Eles perecem. Eles foram suprimidos. Eles morrem? Eles tornam-se itens do material disponível para a fabricação de cadáveres. Eles morrem? Dito duramente, eles foram liquidados em campos de extermínio. E, além disso, milhões perecem agora de fome na China. Morrer, entretanto, significa suportar a morte em sua essência. Ser capaz de morrer significa ser capaz de suportar esta morte. Mas estamos aptos a isso somente quando a essência da morte tem uma afinidade com nossa essência.”

Essas pérolas estão incrustadas em duas de quatro leituras que Heidegger apresentou em 1949 no Clube de Bremen [17]. Aí, a técnica assume o papel do diabo, atravessando o mundo e reduzindo homens e coisas a uma única matéria orgânica. A questão de saber quem manipula a técnica, e com que finalidade, é irrelevante no sistema de Heidegger, que apreende a História como uma catástrofe metafísica. O que ele nega radicalmente é o próprio fundamento da liberdade, que obriga cada homem a assumir a responsabilidade de suas ações frente às ações alheias, num mundo eternamente em conflito.

A seu ver, a técnica é o mal, fora do controle humano, capaz de ser dominada apenas por um deus, um messias, um Führer. Heidegger espera que esse deus apareça para salvar a humanidade ou que não apareça e tudo então se aniquile na nulidade do nada, constituindo sua filosofia no preparar espiritualmente os homens para esse grande momento de salvação ou de aniquilação:

“[…] A técnica em sua essência é algo que o homem não pode dominar. […] a técnica moderna não é um utensílio e nada tem a ver com os utensílios. […] Tudo funciona, isto é o inquietante, que funcione, e que o funcionamento nos impila sempre a um maior funcionamento […] a técnica dos homens separa-os da terra e os desarraiga sempre mais. […] eu me assusto ao ver as fotos da Terra vista da lua. Não precisamos de bombas atômicas, o desenraizamento dos homens é um fato. Temos apenas puras relações técnicas. Não há um só canto da Terra em que o homem, hoje, possa viver. […] A filosofia não pode realizar imediatamente uma mudança no atual estado do mundo. […] Só um deus pode salvar-nos ainda. Resta-nos a única possibilidade de prepararmo-nos, pelo pensar e poetar, para a aparição de um deus ou sua ausência no ocaso. Frente à ausência de um deus, nos afundamos. […] A preparação para essa espera é a primeira ajuda. O mundo, o que é e como é, não pode ser só para os homens, mas tampouco sem eles. […]”[18]

Heidegger é capaz de sugerir, através de uma sutil distinção entre morrer e perecer, que os seis milhões de “eles” (a palavra “judeus” é tabu no seu sistema; Heidegger também reduz os seis milhões a “centenas de milhares”) gaseados nos campos de extermínio, comparados a milhões de chineses dizimados pela fome, não “morreram”, pois, “incapazes de morrer”, limitaram-se a “perecer” (como “pulgas”, diria Joseph Goebbels: se para morrer é preciso merecer a morte, somente os soldados morrem, na guerra, uma morte afinada com sua essência). 

O comportamento aético ou mesmo antiético de Heidegger, que inclui a denúncia do químico Hermann Staudinger (futuro Premio Nobel) e do filósofo Eduard Baumgarten, não perturba Pierre Aubenque, que se irrita, sim, com o sucesso do livro de Farias, duvidando de sua competência: “As escassas análises a que se propõe ou são curtas demais ou estão redondamente erradas. A gente fica se perguntando, como disse com justeza J. Derrida, a seu respeito, ‘se ele lê Heidegger há mais de uma hora’. Mas, argumentar-se-á, talvez seja um livro de História. Também não acredito nisso, não apenas por estar repleto de erros como também porque seu fim único e confesso consiste em erigir um requisitório”.

Aubenque interroga-se sobre a natureza do livro, ataca o tom das afirmações do autor, acusa-o de malevolência por abrir e encerrar a obra com a figura do escritor e pregador anti-semita Abraham a Sancta Clara, cujo estilo Heidegger admirava desde a juventude: “Para a maior parte dos franceses, sem dúvida, este nome não significa nada, o que permitiu ao senhor Farias abismar-se nesta ignorância”. Mas Farias não escreveu seu livro para os franceses:Heidegger e o nazismo só foi publicado na França depois que as editoras alemãs procuradas recusaram publicá-lo.

Aubenque fala em “impostura”, “delírio de interpretação” e “insinuações que teriam ido parar nos tribunais se Heidegger fosse vivo” quando Farias ousa imaginar porque Heidegger jamais se manifestou publicamente a respeito de Auschwitz. Por fim, é obrigado a admitir: “O que fica de todo esse embrulho é o que já se sabia”. Cuidadosamente, Aubenque evitou examinar a causa de suairritação, ligada à tese de Farias, descartada como “sumária”.

Em que consiste essa tese? É muito simples, clara e coerente: Heidegger teria sido um nazista essencial, isto é, o seu nazismo estaria em sua própria maneira de ser, pensar e exprimir-se, tanto quanto no único engajamento político que tomou em sua vida. Identificava-se com o movimento espartano das S.A., traído por Hitler na Noite das Facas Longas, permanecendo irrealizado e idealizado.

Ora, admitir a existência de um nazismo essencial – uma ideologia que transcende o momento histórico, com pontos de contato em diversas outras ideologias, numa tradição que encontra continuidade e permanência, independente dos movimentos nos quais se encarna, é admitir a possibilidade de se aderir a ele inconscientemente, ou sem a necessidade de uma prévia identificação. O fato de Heidegger “fechar-se numa solidão desgostosa” a partir de 1934, e “consagrar-se unicamente ao ensino até 1944” não o teria impedido de permanecer fiel ao que ele uma vez chamou de “a verdade interna do movimento nacional-socialista”.
Aubenque inquieta-se com a questão decisiva de haver ou não “uma relação essencial entre a filosofia de Heidegger e seu engajamento nacional-socialista”. Se houver uma dependência essencial, como os documentos levantados por Farias o indicam – e muitos arquivos relativos à questão continuam fechados, o que significa, perigosamente para os defensores de Heidegger, que apenas a ponta do iceberg emergiu do oceano – os heideggerianos não poderão mais vangloriar-se de ler Heidegger há mais de uma hora, e haverá de pairar para sempre, sobre o hermetismo de seus discursos, a sombra indesejável de Auschwitz. Antes de Farias, eles podiam orgulhar-se de seu mestre, mesmo sabendo, e sabendo que todos sabiam, que ele havia sido um nazista militante, por um curto período de tempo, logo tomando suas distancias críticas – discretas, coerentes e dignas de sua “grandeza”. Até Jünger Habermas tentou vislumbrar esta “grandeza” ao interpretar o silencio de Heidegger como uma forma de não suportar a vaidade ferida por não ter sido sempre o porta-voz da verdade[19]. Mas teria sido Heidegger alguma vez o porta-voz da verdade?

Desconcertado com a negação desta “grandeza”, Aubenque busca socorro até junto a um ideólogo nazista, Ernst Krieck, que criticava, à época, o pensamento e a linguagem heterodoxos de Heidegger, e se reconforta na fantasia de um monolitismo na visão de mundo nacional-socialista, como se Adolf Hitler, Joseph Goebbels, Otto Strasser, Alfred Rosenberg ou Carl Schmitt pensassem em uníssono: “Há ou não uma relação de dependência essencial entre a filosofia de Heidegger e seu engajamento nacional-socialista? E. Krieck, que conhecia bem o nazismo, pensava que não. Também acredito que não.” O problema é que, em que pese a opinião do ideólogo nazista, a crença de Aubenque não altera a tese de Farias.

Aubenque procura, então, detectar, no emaranhado dos conceitos forjados por Heidegger, algum sinal, algum sussurro, que demonstre, de forma cabal e retumbante, que ele se distanciou do nazismo, que o criticou, sim, “à sua maneira”. É uma tarefa ingrata: Heidegger “desconfia dos valores morais”. O filósofo “se esforça, através do pensamento, para galgar novamente uma encosta”. Mas as pedras são escorregadias: Heidegger tropeça sem cessar. Aubenque joga-lhe uma corda, tenta dar-lhe a mão, deduzindo a partir do nada que o filósofo compreendeu o nazismo “como a realização mais monstruosa, porque mais completa, da administração total da sociedade e do ente”. Mas Aubenque só engana a si mesmo. E ele precisa desta automistificação. Afinal, o que mais o perturba é o fato de o engajamento nazista de Heidegger despertar em Farias uma indignação moral e intelectual que ele desconhece, pois sempre tomou este engajamento de forma leve, como um episódio biográfico a registrar e desconsiderar.

Frustrado, Aubenque culpa os “novos tempos” de estarem estigmatizando o nazismo, reduzindo-o ao Holocausto, numa “estilização” enquanto “figura do mal absoluto”, “bloco errático da História” ou “cesura apocalíptica”, representações “cujo efeito é tornar cada vez mais odioso, cada vez mais indesculpável todo e qualquer contato, mesmo o mais superficial, com ele”. Afinal, em 1948, quando Aubenque travou conhecimento com Heidegger, a militância nazista do filósofo não diminuiu sua admiração por ele: “Sabíamos que Heidegger fora nazista… seria a inconsciência da juventude que nos tornava, então, de tal modo indiferentes?”.

Não, não era a inconsciência da juventude: Aubenque não é mais jovem, e continua indiferente. Ele considera o Reitorado de Heidegger uma “relação superficial” com o nazismo, incapaz de indignar-se com a adesão de um “grande pensador” a um regime que estava queimando livros, exilando o melhor da cultura alemã, perseguindo judeus e internando opositores em campos de concentração. A explicação para a indiferença de Aubenque diante do colaboracionismo de Heidegger está no colaboracionismo latente entre os acadêmicos, o que lhes relativiza e suaviza a visão. É sua simpatia pelo ideal nazista, que o faz constatar, algo surpreso, que algumas das reivindicações nazistas de Heidegger, como as de “reabilitar o trabalho manual e de aproximar os estudantes do mundo do trabalho, não são inteiramente desprezíveis”, achando apenas absurdo “depositar nos nazistas a esperança de satisfazê-las”. Sim, o nazismo histórico não poderia esgotar o nazismo essencial, que sempre projetou e projetará suas reivindicações sobre todos os movimentos sociais, independentemente de sua cor política.

Em Heidegger: Introdução do nazismo na filosofia (2005), Emmanuel Faye, professor de Filosofia da Universidade de Paris, em Nanterre, levou a crítica do fascismo essencial ao extremo: as ideias fascistas estariam tão entremeadas na filosofia de Heidegger que as livrarias deveriam colocar suas obras não nas estantes de Filosofia, mas nas de História do Nazismo, em sinal de advertência, do mesmo modo que se coloca uma caveira na etiqueta das garrafas de veneno, para impedir a difusão descuidada de seu “discurso de ódio”, que inclui: exaltação do Estado em relação ao indivíduo, impossibilidade da moralidade, anti-humanismo, pureza racial. Foi o ataque mais violento a Heidegger, cuja leitura é geralmente obrigatória nas faculdades de Filosofia. Faye alerta para o culto a Heidegger na extrema direita, mas observa que os intelectuais da esquerda quase sempre foram inspirados por ele.

O livro de Faye reacendeu a polêmica: Richard Wolin declarou não ter se convencido de que o pensamento de Heidegger “esteja inteiramente (sic) contaminado pelo nazismo” [20]. Mais ambígua foi a “defesa” de Heidegger por Richard Rorty: “Você não pode ler a maioria dos grandes filósofos mais recentes sem levar o pensamento de Heidegger em conta […] O cheiro da fumaça dos crematórios sobreviverá nas suas páginas” [21]. Citando Bernard Wasserstein, Ron Rosenbaum, autor de Explaining Hitler, sugeriu até que a visão do Holocausto por Hannah Arendt tenha sido corrompida pelas ideias de Heidegger, que lhe teriam inspirado o conceito da “banalidade do mal”. Já Carlin Romano, no artigo Heil Heidegger!” (The Chronicle of Higher Education), chutou o pau da barraca qualificando Heidegger como “o falastrão da Floresta Negra” [22].

Vimos como Sartre e Marcuse equivocaram-se em seu contato com a filosofia de Heidegger. Mais problemática é a influência acrítica que essa filosofia exerceu e exerce nos pós-modernistas, anticolonialistas e ecologistas, baseando nela suas críticas à razão, à ética e à tecnologia. Alexandre Marques Cabral fala de uma destruição da ética em Heidegger [23]. Mas teólogos basearam sua defesa do ato da fé na crítica heideggeriana da razão. Arquitetos se inspiraram na rejeição das convenções em Heidegger ao introduzir novas formas e materiais em seus projetos. A crítica heideggeriana da tecnologia atraiu não apenas filósofos, como também críticos literários, ambientalistas, urbanistas, poetas. Tanta simpatia por um luminar nazista dá o que pensar…

Os defensores de Heidegger à direita e à esquerda consideram o engajamento nazista de Heidegger um “erro”, que atribuem à sua “ingenuidade política” e ao seu “desconhecimento do mundo real”.  Para Gianni Vattimo, o erro foi “filosófico”, ou seja: “Heidegger acreditou que [na Alemanha nazista] fosse possível reconstruir uma situação histórica análoga àquela da Grécia pré-clássica, na qual, errando, porque esquecia a diferença ontológica, pensou que o ser pudesse ‘dar-se’ de modo não-metafísico. Mas era um erro, antes de tudo filosófico.” Ainda em defesa de Heidegger, Vattimo estende sua crítica a outros filósofos: “Acredito que o Heidegger dos anos trinta […] se deu conta de que a autenticidade da qual falava Ser e tempo, não é algo que se possa procurar ‘sozinhos’. Autenticidade significa co-responder à chamada do ser; mas o ser assim entendido é também a própria comunidade, a sociedade na qual se vive, etc. Também por isso Heidegger se empenhou com Hitler, errando. Mas devemos pensar que naqueles anos Lukacs e Bloch estavam com Stalin, Giovanni Gentile com Mussolini, etc.” Os desculpadores sempre terminam com um “mas”, citando outros culpados, como se muitos culpados de diferentes culpas desculpassem o culpado da culpa maior…

Vattimo completa seu pensamento fraco com uma apreciação parcial da atualidade: “Se Heidegger visse o que acontece hoje por causa do fundamentalismo, da pretensão de ser ‘correto’ (Bush acredita de verdade, como os nazistas, no Gott mit uns, Deus está conosco; e age exatamente como eles), enfraqueceria muito as próprias posições” [24]. Desculpando Heidegger pelo forte apoio a Hitler, culpa Bush de agir exatamente como os nazistas (com campos de extermínio? Câmaras de gás? Genocídios?). Já os verdadeiros fundamentalistas, os terroristas islâmicos, não merecem do pensador fraco qualquer crítica, forte ou fraca: o pensamento fraco também acabará desculpando Hitler pelo Holocausto?


Para Ernildo Stein, Heidegger “fez um juízo equivocado sobre o regime que estava começando, pensando que aceitando a reitoria teria condições de criar a nova universidade que substituiria a universidade dos mandarins […] O filósofo foi ingênuo porque desconhecia as ciências humanas da sociologia, da política, da economia e pensava, contudo, poder diagnosticar o futuro de um regime. […] os filósofos não foram feitos para serem heróis da resistência […]. O silêncio do filósofo sobre o gesto de que ele confessou a Jaspers que ‘se sentia envergonhado do passo dado’, deve-se […] à convicção de que uma confissão pública não tinha sentido porque não apagaria nada.” [25]  Mas como dar algum crédito a um filósofo que desconhece a sociologia, a política e a economia? A um pensador que luta contra os “mandarins” da universidade, mas exalta Hitler, e cujos defensores consideram como alguém incapaz de entender o mundo em que vive?

Já à extrema-direita Henri Crétella e Stéphane Zagdanski tentam embaralhar o jogo fazendo de Heidegger um antinazista visceral, um humanista radical cuja filosofia seria a única capaz de explicar, resistir e combater o nazismo, devendo ser esse filósofo considerado como um “pensador judeu”, o que transformaria os críticos que o “difamam” em “criminosos” e “nazistas” [26]. Sem comentários.

Pode-se separar a filosofia de Heidegger de seu compromisso com o nazismo? A questão é mais clara quando pensamos no cinema: alguém em sã consciência dirá que a obra de D. W. Griffith não foi de modo algum contaminada por sua visão racista do mundo? Basta rever The Birth of a Nation (O nascimento de uma nação, EUA, 1914). Mas é preciso identificar em qualquer discurso todos os seus sentidos, tanto os óbvios quanto os obtusos. O racismo de Griffith impregna-se em seu cinema, que permanece datado sob esse aspecto. Por outro lado, seus filmes não se limitam aos clichês racistas, e comovem ainda hoje porque sob os estereótipos reside uma essência humanista que os redime. Griffith jamais seria um nazista. Mas que dizer de Heidegger? Sua filosofia foi comprometida pela sua fé no nazismo, mas ela também não se limita a essa ideologia. Infelizmente para Heidegger, ela tampouco é redimida pelo humanismo, que o filósofo rejeita. Por sua vez, o antifascista Faye trilha um caminho perigoso ao sugerir, para além da crítica, e mesmo da crítica mais radical da filosofia e do engajamento nazista de Heidegger, o banimento físico, material, de suas obras: num mundo de fanáticos, o fascismo essencial irrompe mesmo entre os antifascistas…”



[1] FARIAS, Victor. Heidegger e o nazismo. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1988, 1ª edição, 368p.
[2] AUBENQUE, Pierre. Heidegger e o nazismo. Novos Estudos Cebrap, n° 22, São Paulo, 1991.
[3] SARTRE, Jean-Paul. A propos de l’existentialisme: mise au point. In: CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Les Écrits de Sartre. Paris: Gallimard, 1970, p. 653-658.
[4] HEIDEGGER, Martin. L’auto-affirmation de l’université allemande. Discurso proferido na cerimônia oficial de posse do cargo de Reitor da Universidade de Fribourg-em- Brisgau a 27 de maio de 1933. Traduzido do alemão por Gérard Granel. Paris: Trans-Europ-Repress, 1982, P. 15-16. Tradução do autor.
[5] HEIDEGGER Martin. Réponses et questions sur l’histoire et la politique. Traduzido do alemão por Jean Launay. Paris: Mercure de France, 1988, p, 17. Tradução do autor.
[6] HEIDEGGER Martin. Réponses et questions sur l’histoire et la politique. Traduzido do alemão por Jean Launay. Paris: Mercure de France, 1988, p, 13-14. Tradução do autor.
[7] STEIN, Ernildo. A superação da metafísica e o fim das verdades eternas. Entrevista com Ernildo Stein. O século de Heidegger. Revista IHU On-Line, n° 185, 9 jun. 2006, p. 6. URL:http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/edicoes/1158344730.57pdf.pdf.
[8] A revista Les Temps Modernes, sob a direção de Jean-Paul Sartre, publicou diversos artigos sobre o caso Heidegger em 1946 e 1947, assinados por Towarnicki, Candillac, Loewith, De Waelhens e Eric Weil, sendo este último reputado o mais importante deles.
[9] MARCUSE, Herbert. Heidegger’s Politics: An Interview. In: PIPPIN, Robert (ed.), Marcuse: Critical Theory and the Promise of Utopia, Bergin and Garvey, South Hadley, M. A., 1988, p. 99.
[10] MARCUSE, Herbert. La lutte contre le libéralisme dans la conception totalitaire de l’État. In: MARCUSE, Herbert. Culture et Société. Paris: Les Éditions de Minuit, 1970, pp. 61-102.
[11] MARCUSE, Herbert; HEIDEGGER, Martin. New German Critique, n° 53, p. 28-30.
[12] WOLIN, Richard. Introduction to Herbert Marcuse and Martin Heidegger: An Exchange of Letters. New German Critique, n° 53, Spring/Summer 1991, p. 21-32.
[13] ANDERSON, Mark M. The ‘Impossibility of Poetry': Celan and Heidegger in France. New German Critique, n° 53, p. 3-19.
[14] BOURDIEU,Pierre. Ontologia Política de Martin Heidegger. Sao Paulo: Papirus, 1989.
[15] ARENDT, Hannah. Martin Heidegger a quatre-vingt ans. In: ARENDT, Hannah. Vies Politiques. Paris: Gallimard, 1974, pp. 307-320.
[16] JASPERS, Karl. In: SANER, H. (ed.). Notizen zu Martin Heidegger. Munique: Pipper, 1981.
[17] NESKE, Gunther; KETTERING, Emil (ed.). Martin Heidegger and the Nationalsocialism. Nova York: Paragon House, 1990, p. XXIX.
[18] HEIDEGGER, Martin. Entrevista com Martin Heidegger a Der Spiegel, gravada em 1966 e publicada apenas em 1976, após a morte do filósofo.Folhetim, Folha de S. Paulo, 15 jan. 1988.
[19] HABERMAS, Jünger. Martin Heidegger – L’oeuvre et l’engagement. Paris: Les Éditions du Cerf, 1988.
[20] COHEN, Patricia. Heidegger sob novo ataque. O Estado de S. Paulo,15 nov 2009. URL: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=27552.
[21] COHEN, Patricia. Heidegger sob novo ataque. O Estado de S. Paulo,15 nov 2009. URL: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=27552.
[22] COHEN, Patricia. Heidegger sob novo ataque. O Estado de S. Paulo,15 nov 2009. URL: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=27552.
[23] CABRAL. Alexandre Marques Heidegger e a destruição da ética. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009, 208p.
[24] VATTIMO, Gianni. O nazismo e o “erro” filosófico de Heidegger. Instituro Humanitas Unisinos, 1° jul. 2006. URL: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=2934
[25] STEIN, Ernildo. A superação da metafísica e o fim das verdades eternas. Entrevista com Ernildo Stein. O século de Heidegger. Revista IHU On-Line, n° 185, 9 jun. 2006, p. 6. URL:http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/edicoes/1158344730.57pdf.pdf.
[26] RANCIÈRE, Jacques. Heidegger, filósofo judeu? Folha de S. Paulo, 4 set. 2005.