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quinta-feira, 18 de junho de 2015

PT VAI RADICALIZAR À ESQUERDA! (Cesar Maia) - 17-06-2015


Em seu excelente ex-blog, Cesar Maia publicou os comentários abaixo:
            
1. As reações de parlamentares e dirigentes do PT – Lula incluído - contra as medidas do chamado ajuste fiscal indicam, claramente, que o PT está disposto a perder o governo, mas não quer correr o risco de perder em médio prazo a hegemonia da esquerda.  As mudanças políticas na Espanha, com as vitórias de candidatas às prefeituras de Madrid e Barcelona, fermentadas pelas redes sociais e apoiadas em novos movimentos sociais sem os sindicatos, usando os tradicionais chavões da esquerda, servem como referência para este novo ciclo que o PT inicia.
                
2. A convenção do PT já sinalizou para 2016 que não há alianças preferenciais pragmáticas (PMDB...), mas alianças orgânicas ideológicas. Seus intelectuais – incluindo economistas próximos- já começaram a usar a artilharia de esquerda contra Levy e desvios neoliberais do governo Dilma. O Instituto Lula está servindo de cenário, com Lula como mestre de cerimônias.  
                
3. Até uns poucos anos atrás a CUT continha a radicalização em nome do emprego e de seu intenso entrelaçamento com as multinacionais do setor metalúrgico. Essa foi a base de pacificação no governo Lula. Mas a democracia direta associativa foi atropelada pela democracia direta desierarquizada, desideologizada, horizontalizada das redes sociais. O escritor Humberto Eco, ao receber mais um prêmio semana passada –nessa mesma linha-, disse que “as redes sociais estão dando voz aos imbecis”. Qual o problema? Elitismo do escritor. 
                
4. O que políticos, sindicalistas e intelectuais de ontem não aceitam é uma interlocução sem uma cara explícita, sem líderes e sem assembleísmo. Perdendo o controle dos ditos movimentos sociais, o caminho tem sido atacar as redes sociais como fascismo e populismo de direita, com referências aos anos 20 e 30. 
                
5. O fracasso do PT no governo está servindo de pretexto para voltar à vocalização dos discursos da esquerda do século 20. Dizem alguns: “Vamos perder o governo. É a alternância democrática. Mas o que não podemos perder é a hegemonia na esquerda.”  Na edição de maio-2015 do Jornal dos Economistas do conselho regional RJ, desfilam vários economistas atacando a política econômica atual. Reparem no final do texto abaixo, que Porchman não fala em maioria eleitoral ou parlamentar, mas de maioria política. Hummmm... Na marra?
                
6. Márcio Porchman, intelectual e ex-secretário municipal do PT em SP, candidato a prefeito de Campinas e agora integrado ao Instituto Lula, em uma entrevista ao Jornal dos Economistas de maio diz com todas as letras:   
                
7. "É um começo de um governo enfraquecido, que tenta se recompor aceitando diagnósticos que anteriormente não eram seus, que vêm do mercado financeiro. A eleição passada não produziu uma maioria e, portanto, gerou uma crise política. E essa crise política vem sendo enfrentada nessa modalidade. Eu particularmente acredito que não vai produzir resultados efetivos para o país. A minha percepção é de que as medidas tomadas respondem a um problema político. Não acredito que essas medidas que estão sendo tomadas produzam resultados melhores. A meu modo de ver, elas agravam a crise política. 
            
8. De um lado você toma medidas que enfraquecem sua base social sem trazer o apoio da oposição. A tentativa era, do ponto de vista político, tomar medidas que pudessem trazer ou dividir a oposição, ou seja, buscando reconstituir uma maioria política que passasse pela divisão da própria oposição – porque você trouxe gente do outro lado, trouxe para Ministro da Fazenda quem havia sido um dos formuladores do plano do candidato derrotado. O ajuste das finanças públicas está sendo feito no controle dos recursos na boca do caixa. Essa é a pior forma de fazer ajustes porque é um corte linear, e você está tendo resultados inquestionáveis. Está começando a parar o governo, a parar obras. 
            
9. De um lado você corta gastos de custeio, mas de outro aumenta o gasto financeiro (juros). O gasto de custeio gera emprego e renda. O gasto financeiro gera concentração de renda, não gera empregos, e sim os destrói. E eu nem acredito que a taxa de juros tenha a ver com o problema inflacionário. Tem a ver com a fragilidade das contas externas. Nós temos um déficit em conta corrente entre quatro e cinco por cento do PIB. Mais uma vez, estamos usando o diferencial entre a taxa de juros real nacional e a internacional para poder atrair capital especulativo para fechar as contas. 
          
10. Há um realismo de parte do PT (o que não reduz os erros), mas é preciso ter uma visão um pouco mais ampla, que é o seguinte: com quem você pode contar para fazer medidas mais ousadas, num Congresso, num sistema político fracassado como o que temos hoje, em que as eleições não produzem maiorias políticas? Sem maioria política não se faz um governo". 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

CORAÇÕES E MENTES

Os doutrinadores do lulo-petismo construíram um estratégia política que lhes garantiu a vitória nas eleições presidenciais por três vezes sucessivas. Aplicando conceitos extraídos do leninismo renovado (basicamente nas doutrinas de Gramsci), erigiram um conjunto de procedimentos, seguidos com a disciplina stalinista, que lhes desse a hegemonia em todos os campos da vida social, cultural, econômica e política. 

O projeto é simples na sua concepção, porém de complexa execução quando posto em prática. Ganhar ou perder eleições nunca foi o objetivo maior a ser alcançado. Tanto isso é verdade que ao longo dos últimos trinta anos o PT marchou sozinho – ou com alguns fiéis partidos satélites – em disputas de toda ordem. Buscaram, antes, consolidar um nicho que ancorasse seus movimentos no futuro, que ganhar mandatos a qualquer preço em eventuais disputas. Consolidado, passou a admitir então qualquer tipo de composição com outras forças sociais e políticas, desde que eles, petistas, detivessem o controle e o comando último.

Para que este projeto de larga duração obtivesse êxito seria necessária, todavia, a conquista dos corações e das mentes, não só das massas populares quanto, também, de artistas, professores, intelectuais e outras lideranças políticas, empresariais, eclesiásticas e militares. Mais que as mentes, aliás, o fundamental seria conquistar os corações, em toda sua extensa significação e valor simbólico. Laços baseados no afeto são mais duradouros que aqueles forjados pela fria inteligência. David Hume, o notável racionalista inglês, já reconhecia a razão como escrava das paixões. Nenhum argumento, por exemplo, nem o mais consistente, levaria um torcedor apaixonado a renegar seu time, quando derrotado, pelas cores de outro, mesmo que este seja persistentemente vitorioso.

O desespero da cúpula dirigente do petismo com as manifestações críticas nos estádios de futebol e nas ruas tem, pois, razão de ser. O povo brasileiro denota claramente que está com preguiça de dona Dilma e sua corte de patifes – Sarney, Collor, Calheiros, Zé Dirceu, Genoíno, Delúbio etc. Do mais graduado ao mais reles, a relação é enciclopédica, quase infinita. Quem quer que tenha sua própria lista de políticos corruptos poderá constatar: todos com Dilma, sem tirar nem por, em qualquer estado da federação. 

Em sua volúpia hegemônica os petistas açambarcaram, sem pudor, de caquéticos e anacrônicos coronéis nordestinos, a modernosos tecnocratas gatunos, como os que abundam na Petrobrás e outras empresas públicas. Até Maluf, ícone inconteste e notório da velhacaria e cinismo nacional, antigamente tratado pelo PT a tapas, agora andam aos beijos, sôfregos, nas enxovias, próximos dos cofres. Enlouquecidos pela soberba, os petistas julgaram que o afeto popular lhes perdoaria qualquer crime. Mas o filtro de tolerância que beneficiou o partido durante tantos anos se esgarçou. Perderam.