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quarta-feira, 23 de março de 2016

Como não comer? (Roberto daMatta)


Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza! Disse o engraxado, mas impoluto ministro Jacques Wagner, usando um brasileirismo. Com o brio dos comediantes, ele defendia e tencionava racionalizar o conjunto de delitos cometidos pelo governo do qual participa como barão. Na sua fala sempre generosa para com os seus, era mais que natural que um partido “juvenil” em matéria das sacanagens afeitas ao poder à brasileira – o PT – fosse com muita gana ao pote do mel e lambuzado ficasse.

Vale assinalar essa representação do poder como um pote de mel. Como algo doce a ser comido sem pudor e em grandes quantidades precisamente porque ele é um atributo daqueles poucos que o “tomaram”. A representação do poder como mel, como disse em outra ocasião, é reveladora daquilo que a crise brasileira, como os atos falhos e o reprimido, esconde revelando.

Realmente, se o poder é um mel, como não comê-lo? No fundo, trata-se, como se sabe, de limites. Há quem o tenha desejado mas não comido e há quem o tenha comido ao ponto da lambujem. Um mensalão e um petrolão são eventos wagnerianos.

Mas o que quero observar é a natureza da figura (poder = mel) em franco contraste com outras visões. Entre elas, eu lembro a da “mão de ferro”, da “mordaça”, da “espada”, da “águia” suástica e, para finalizar uma lista infindável, a foice e o martelo ou a caveira das SS cujo uniforme cairia como uma luva naqueles que falam em golpe tentando precisamente golpear as instituições pelo retorno desavergonhado da aristocracia que, desigualando pessoas confundidas com cargos – com o devido respeito a Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados –, imobiliza o sistema.

Mas eis que todos esses símbolos são venenosos, daí o contraste do poder como o doce mel, porque o mel é fluido e bom para distribuir. Pode ser comido em goladas ou gotas e avidamente lambido ao ponto de esgotar o pote.

Quando isso ocorre, revela-se o nosso lado brutal, violento e, sejamos gentis, “deseducado” – antidemocrático porque uns fazem tudo enquanto outros sequer podem denunciar ou, eis o pecado moral num sistema aristocrático, prender a quadrilha constituída de gente querida e importante.

De gente que roubava o Brasil para mudá-lo e torná-lo mais popular e socialista! Mas o fato é que comer enchendo a boca implica no abandono da serenidade típica dos “caras de pau” (eis um outro brasileirismo), todos lambuzados porque não seguiram as normas da boa “educação” – lida no Brasil como “boas maneiras” e aquiescência – mais um brasileirismo – e não como saber.

Comido em doses wagnerianas, o mel promove diarreia ou lambuza como bem diagnosticou o barão-ministro e, hoje, todo o povinho brasileiro (do qual eu faço parte), dito golpista justamente porque sabe que o mel é por ele produzido!

Como brasileirismo, o mel compete com a “caneta”. Embora a história brasileira tenha sido marcada por episódios crudelíssimos, é a canetada que tudo legaliza, deixando de lado a tal da ética, muito falada e teorizada mas pouco praticada.

O dilema entre a igualdade de um mel universal e a aristocracia do melado para poucos, denunciado por mim no livro Carnavais, Malandros e Heróis, publicado 1979, retorna forte com o governo Dilma dando um violento “Você sabe com quem está falando?” em todo o povo que foi às ruas, quando tenta transformar Lula num ministro-barão, situando-o acima da lei.

A crise, reveladora de ambiguidades e ausências, revelou telefonemas nos quais o baixo calão de Lula confunde-se com a presença inequívoca de um outro brasileirismo: o dos “puxa-sacos” que viram “soldados”, traem os seus companheiros de governança, falam mal de quem os ajudou e, pior que isso, oferecem, de calças arriadas, a solução a ser seguida. Um deles diz: “Vocês têm a faca e o queijo na mão, façam de Lula um ministro, cacete!”.

A mim foi tanto ou mais vergonhoso ouvir os planos para aristocratizar Lula, livrando-o de uma eventual prisão do que as vigorosas lambidas dadas no seu traseiro as quais, como aprendi nos Estados Unidos, transformam quem as pratica em “brown noses” – em narizes sujos de merda!

Mas o fato político relevante, o brasileirismo principal e recorrente, é o de aristocratizar pessoas nesse Brasil feito de superiores e inferiores, sempre desconfiado ou desconfortável com a igualdade como revelam o trânsito, as filas, os hospitais, a ausência de segurança e um sistema educacional que é a chave mestra da igualdade.

Minha sugestão é simples. Dilma deveria ouvir a teoria do Ministro Teori pronunciada num evento: Moro coloca-se demais nos holofotes e deveria ser destituído. Em seguida, ela deveria restaurar o Império. Assim, Lula voltaria como Rei do Brasil e aí todo mundo (golpistas, cínicos, donos do poder e ricaços) vão poder comer o nosso mel sem os problemas da lambujem.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Futuro (Vittorio Medioli)


A maior das crises que o Brasil enfrenta é reflexo do vazio. Vazio de lideranças, de escrúpulos, de honestidade, de respeito. Difícil é escolher um exemplo, alguém que possa servir de farol, de guia, de inspiração. Algumas figuras míticas se desintegrando como bolhas ao sol. O que oferecer ao jovem de exemplo? Mais temos a esconder.
 
Antes da apresentação de um “Jornal Nacional”, deveria ser exposto em tarja vermelha: “Vetado aos menores de 60 anos”. O que passa na tela deseduca. Coisas apenas para aposentados, que da vida já tiveram quase tudo.
 
A cada dia, uma forma nova e sofisticada de roubar, de desviar, de aniquilar um país. Falsidade e fórmulas de envenenamento da sociedade. Pelas ondas se espalham a descrença, o desespero, a depressão. Uma incitação à revolta. A covardia é banalizada. O execrável se repete, exposto e esmiuçado para qualquer um ver o que havia de feio.
 
Gatos do mesmo balaio, um dedurando o outro. Quem mais e quem menos, todos dedicados a mensalão ou mensalinho, mas sempre unidos na exploração sórdida do poder. Rouba-se das verbas da saúde, da educação, da caixinha da igreja, nada escapa, qualquer oportunidade serve, mesmo deixando sofrimentos e cadáveres no rastro.
 
Ficou exposto também o nobre e democrático instrumento da CPI, que deveria investigar e apurar condutas delituosas. Ele se transformou, como o resto, em forma de achaque, de negociatas, de lavar crimes. CPI usada como ameaça de constrangimento, para depois extorquir verbas que, de regra, saem da coisa pública.
 
O que se salva hoje? Difícil de dizer. Vazio de propostas, de vontade de enfrentamento. Esperanças que se apequenam num Brasil esvaziado. Fosse manga este país, teríamos para descrevê-lo apenas um caroço seco e pelado. As boas cabeças saem, não têm por que ficar aqui. Não há perspectiva, clima, seriedade, respeito às leis.
 
Quem vai apostar sua vida neste país? Que futuro esperar? Perder a flor dos anos num covil de lobos?
 
O indivíduo aspira ao grau de cidadão, emancipado pelas suas capacidades. Quer trabalhar, quer ter renda para satisfazer suas necessidades, viver sua vida. Muitos jovens querem se casar, ter sua família e um lar, uma vida tranquila.
 
Eu já passei por isso e tenho pena dos jovens de hoje, também muitos deles já deteriorados pelo mal a que ficaram expostos, matando sonhos e esperanças de juventude. Faltam líderes, comandantes, pessoas que pensem amplo e que aspirem a uma sociedade justa.
 
Tenho pavor de comentaristas políticos caçando cabelos nos ovos e banalizando o desfrute sórdido do exercício do poder. Gostava do antigo Boris Casoy, até ser silenciado.
 
Arrepio e não entendo como famílias inteiras, brindadas por patrimônios incalculáveis, se dedicam ao arriscado assalto da coisa pública, dos remédios, da comida, sem consciência do mal que provocam e de que deverão, um dia, dar conta a Deus.
 
Eu não sou pregador nem fanático montanista. Acredito que não há felicidade nem desenvolvimento, individual e da nação a que pertencemos, sem respeito às regras. Não tem Estado que progrediu sem respeito a seus mandamentos. Um Estado predador é terminantemente desautorizado pelas suas atitudes a gerir o poder.
 
A roda atual gira para favorecer os escroques, incita as novas gerações a trilhar o mau caminho. Apresenta seu pendor execrável.
 
Brasil: um potencial assombroso jogado fora. Recessão em 2015 de 4% ao ano. Já o ano de 2016 iniciou pior. Nada no horizonte a não ser impeachment e briga de uma classe política que asfixia os entusiasmos dos mais otimistas. O consumo de energia nos primeiros 15 dias do ano caiu 9,6%. Sinal de uma catástrofe iminente? O Estado ocupado por falanges que usam suas prerrogativas para roubar o esforço honesto de quem trabalha. Estado cuja função principal se reduziu a extorquir quem trabalha, lançando mão de tudo.
 
O Brasil está no limite da revolta; hoje dá medo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Nazismo e petismo


Uma liderança que leva seu povo até a beira do abismo... é uma liderança de aventureiros infames (Thomas Mann, in "Ouvintes Alemães", publicado pela Ed. Zahar).

Tal diagnóstico descreveu muito bem a insanidade e dilemas da Alemanha nazista à época. Apesar de escrito em setembro de 1941, é profeticamente aplicável ao presente caso brasileiro. 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Inútil! A gente somos inútil! (José Nêumanne)


Em 17 de junho de 2013, cerca de 2 milhões de brasileiros protestaram nas ruas contra o status quo. Em 15 de março deste ano, cidadãos em número similar queixaram-se de Dilma, Lula e do PT deles. Em 12 de abril, 660 mil. Em 16 de agosto, 790 mil. Neste domingo, 73 mil exigiram impeachment, cassação, deposição ou renúncia da presidente Dilma Rousseff. O povo está se calando? Ou já se cansou de berrar o óbvio, à toa?

Para entender o esvaziamento progressivo das ruas este ano convém, primeiro, ouvir o que dizia quem saiu de casa e relatar como a elite política dirigente do País lhe respondeu. Em 2013, o Movimento Passe Livre (MPL) convocou protestos contra o aumento de tarifas de transporte urbano e evoluiu para reivindicar a gratuidade. A multidão aproveitou para exigir direitos que a Constituição garante e os três Poderes da República lhe negam: segurança pública, saúde e educação, principalmente.

Quem, em sã consciência, garante que o povo foi atendido? Fingindo só ter percebido o pedido de dispensa de R$ 0,20, governadores, entre eles o paulista Geraldo Alckmin, do PSDB, e prefeitos de grandes cidades, incluído o paulistano Fernando Haddad, do PT, adiaram o aumento, fingindo que assim eliminariam a causa da revolta. Mitigariam a ira popular por R$ 0,20 a cabeça?

Ledo e Ivo engano, dir-se-ia na minha adolescência em Campina Grande, quando grande parte dos adolescentes sabia ler. O PT no poder, sob a égide de Dilma Rousseff, fez ouvidos surdos ao clamor e prometeu Constituinte exclusiva para reforma política, com financiamento das milionárias campanhas eleitorais dos políticos pelo suado dinheirinho escasso do cidadão. Mera embromation, diz-se na pré-adolescência de meu neto. E a oposição prometeu dar o que o povo pedia e o governo não atendia. Só que não contou como. Um ano e meio depois, Dilma e o PT venceram Aécio e o PSDB. Se o pleito foi fraudado, como muitos desconfiam, ninguém na rua jamais saberá, pois é impossível recontar votos.

O que qualquer cidadão que protestou contra gregos e baianos no inverno de 2013 e contra o 13 petista nas quatro estações no primeiro ano do segundo desgoverno Dilma viu foi tudo piorar muito nestes 30 meses. Inocentes morrem em tiroteios nos bairros pobres de grandes cidades em maior número do que antes. E a saúde pública, totalmente sucateada, não honra seu patrono, Oswaldo Cruz, que expulsou o Aedes aegypti, transmissor da febre amarela, destes tristes trópicos há cem anos. Mas este voltou para ficar em pleno século 21, transmitindo dengue, zika e chikungunya antes mesmo de o ovo virar inseto, segundo explicação da douta presidenta no ápice de sua sesquipedal ignorância sobre todos e tudo.

O símbolo da educação desbaratada são sem-teto organizados, black blocs alucinados e partidecos de extrema esquerda sem eleitores que, beneficiados pelo aparelhamento generalizado dos Poderes republicanos, invadem escolas públicas no Estado mais rico da Federação. Enquanto o governo tucano brinca de fechar e reabrir escolas ao sabor da queda nos índices de popularidade

Essa explicação não é única. Há outra, além da falta de líderes à altura da crise, do curto prazo da organização e da proximidade das festas de fim de ano: é que todos concordam quanto ao diagnóstico da situação, mas falta consenso sobre o que fazer para lhe dar o xeque-mate. A solução para a crise, ulula o óbvio (apud Nelson Rodrigues), será tirar de Dilma qualquer poder. Todos sabem que ela condescendeu com a metástase do câncer moral que nos assola, erigiu tijolo por tijolo a ruína econômica, como o faz na transposição do Véio Chico, e afagou a fera política com as garras da arrogância e da ignorância que formam sua personalidade. E é incapaz de debelá-las pelas mesmas deficiências próprias que as produziram: como poderá liderar a conciliação se não convive em paz sequer com o seu vice?

A carta de desamor de Michel Temer a Dilma é criticada por explicitar o fisiologismo reinante no presidencialismo de coalizão, que vira de colisão – o caso no momento. Nunca antes na História tantas queixas pessoais exibiram com tanta crueza as mazelas deste sistema que \joga o público na privada.

Três processos dentro dos conformes do Estado Democrático de Direito se propõem a remover o obstáculo à pacificação nacional e à entrega da administração a gestores com QI de mais de dois dígitos. Impeachment, ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) investigando uso de propina no financiamento da campanha presidencial e votação no Congresso da violação explícita da Lei de Responsabilidade Fiscal, que a presidente jurou cumprir, não são lana caprina. Mas talvez nem a divulgação pelo Valor Econômico de documento obtido por Leandra Peres, revelando o que os “juristas” vassalos do Planalto não conseguirão provar que ela “jura” que não sabia, tenha o condão de evitar que 5.600 trabalhadores percam o emprego no Brasil diariamente sob o jugo de uma chefe de governo que tem provado diuturna, noturna e madrugadurnamente não saber de nada em geral.

A Nação suporta o Legislativo contaminado por presidentes da Câmara e do Senado investigados por corrupção milionária. E a oposição muda ao capricho do vento, só que na direção contrária, não sendo alternativa de poder e só gemendo no muro das lamentações.


Tardando a enquadrar os maganões, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF) negam à cidadania o tratamento igual dado pelo juiz Sergio Moro, pela PF e pelo MPF na Lava Jato, que processam ricos e pobres sem distinção. Ao distinguir quem tem mandato de quem não tem, PGR e STF tornam letra morta a igualdade de todos perante a lei. Nesta democracia capenga, em que uns são mais iguais que outros e não se ouve o cidadão, é o caso de trocar o Hino Nacional pela canção do Ultraje a Rigor: “Inútil! A gente somos inútil!”.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Quem quer trabalhar diz: Fora Dilma!


Há mais de 40 anos no mercado de shoppings, José Isaac Peres é o pai do Morumbi Shopping, do Barra Shopping e do BH Shopping, além de outras catedrais do consumo nas grandes metrópoles brasileiras.

Agora, Peres diz que a indefinição político-econômica está empurrando sua empresa, a Multiplan, para explorar negócios em outros países da América Latina.

Não que faltem projetos aqui. Assim que a economia permitir, a Multiplan tem prontos para lançar: um novo shopping em Jacarepaguá (na zona oeste do Rio), uma expansão do Village Mall na Barra da Tijuca (além de torres comerciais), e um imenso projeto residencial ao lado do Barra Shopping Sul, em Porto Alegre. São bilhões de reais em lançamentos — tudo parado pela taxa de juros de 14% e a incerteza na política.

Peres se queixa, mas coloca as coisas em perspectiva. “A Multiplan tem 40 anos. Quantas crises eu passei em 40 anos? Eu não me lembro de ter inaugurado um só shopping sem falar em crise. Em todos que eu inaugurei, o meu discurso começava assim: ‘Apesaaar da criiiise….. Nós tamos aquiiii….’ (risos)”

Peres recebeu VEJA Mercados para uma conversa, na qual reclamou que nossos vizinhos estão arrumando a casa antes do Brasil, disse que a atual taxa de juros “existe para você não fazer nada” e que o País precisa abandonar o protecionismo e encorajar o ‘espírito animal’ dos empresários.

“Esses caras malucos como eu, com 75 anos e trabalhando feito um doido, são a galinha dos ovos de ouro. Eu podia estar lá no meu iate, dando umas voltas, tomando uma champagne…. e eu tou aqui trabalhando. Por quê? Porque o que move o empresário não é necessariamente só o dinheiro. É o desafio. O ser humano precisa do desafio.”

Abaixo, a versão integral da entrevista publicada na edição impressa de VEJA desta semana.

Como você está vendo esta crise?

Eu não passei no Brasil por uma crise tão séria, apesar de ser empresário há mais de 50 anos. O que inibe hoje o investimento? Não é o consumo. Não é o País. É a falta de confiança no Governo. As pessoas, para investir, precisam ver uma linha de condução do Governo, e esta linha não está definida. Existe um conflito entre o Congresso e o executivo, uma guerrilha fratricida que não ajuda o País, é um querendo destruir o outro. O cenário é o pior possível. Não obstante, existe uma parte da população que não está no Congresso nem no Governo: tá nas ruas, tá trabalhando, tá produzindo. É o sujeito que acredita, é aquele que sonha. Felizmente, não existe ainda um decreto impedindo o homem de sonhar.

Como é que perdemos a confiança?

Como o Brasil precisa do capital de fora, precisamos mostrar que somos sérios e que respeitamos contratos — coisas que o Governo não fez. Estão aí as distribuidoras elétricas [que sofrerarm perdas homéricas com uma mudança na regulação] e outras coisas que você sabe muito bem. A coisa mais importante que existe na vida de uma empresa é credibilidade e confiança. Este é um ativo invisível, mas que tem um valor gigantesco. Nós somos uma empresa que preserva muito a credibilidade e a confiança. Alguns grandes lojistas, quando a gente às vezes vai fazer um shopping, me dizem: “Poxa, Peres, eu já tou cheio de loja aqui nessa região… Por que você não faz o shopping em outro lugar?” Eu digo: “Bem… eu vou sentir muito que você não venha junto…” Aí — e esse é um grande varejista — ele diz: “Mas infelizmente, se você for, eu vou ter que ir..” Isso vale muito. Ou seja, quando a gente vai, o lojista sabe que a gente não vai deixar a peteca cair. Que não vai ser só o fundo de promoção que vai bancar a publicidade dele. Nós vamos meter a mão no nosso bolso e vamos pagar. Somos parceiros dos nossos lojistas.

Mas e os empresários, como estão lidando com esse ambiente?

John Maynard Keynes falava do ‘espírito animal’. Quando um leão percebe que naquela floresta não tem mais água, não tem outros animais, o que ele faz? Ele migra, ele vai buscar um outro lugar pra sobreviver. O empresário é a mesma coisa. Ele passa a pensar em investir em outros países, porque neste momento no Brasil não dá pra investir. É lamentável que, com tanta coisa pra fazer neste país, a gente tenha que começar a olhar para o exterior.

Você disse há um ano e meio, mais ou menos, que estava olhando coisas em Portugal e no Chile. Como é que isso evoluiu?

Naquela época nós olhávamos e dizíamos, ‘bom, mas ainda tem muita coisa no Brasil pra fazer’. Agora nós estamos olhando de novo, muito mais objetivamente. Temos know-how, competência, etc.. O que prejudica o empresário brasileiro é toda a infraestrutra pra se lançar no exterior: impostos muito altos, taxa de juros aqui (14% aqui, contra 5% em outros países), e uma burocracia tremenda.

Vocês já compraram algum terreno fora do Brasil para desenvolver shoppings?

Não. Talvez compremos uma empresa lá fora, talvez seja mais fácil começar assim. O capital da Multiplan hoje é 20 vezes maior do que quando eu investi no exterior [nos anos 80] e a empresa está muito mais estruturada e consolidada, temos captação fácil no exterior, somos grau de investimento, maior do que o Brasil… Então podemos chegar lá fora e dizer, ‘eu quero fazer aqui um empreendimento e preciso de crédito’, e logicamente temos garantias para dar no Brasil. Eu acho que a maneira correta para nós é comprar uma empresa menor, com um sócio local, que já esteja operando. Você tem que caçar um leão, nem que ele seja um filhote. Não existe negócio sem empresário. Não adianta comprar uma empresa lá fora mandar só executivos pra lá, porque os executvos são ótimos, mas eles não resolvem. Você chega lá e tem que tomar decisões, você precisa de gente local.

Então, apesar do câmbio hoje a quase R$4, faria sentido esse investimento lá fora porque você faria a estrutura de financiamento lá fora também, não é isso?

Certamente, você tem que trabalhar com a moeda local. Somos conservadores. A gente poderia dar como garantia os próprios ativos lá.

Em quanto tempo, você vai tomar a decisão sobre investir lá fora?

Esse ano não, porque o ano já acabou. Mas ano que vem, sim.

Faz sentido investir nos EUA?

Eles têm shopping demais nos EUA. A gente poderia eventualmente comprar um, mas o que adianta comprar um para competir com um cara que tem uma rede de 400? É a mesma coisa que você ser varejista e abrir uma lojinha para competir com outra loja que vende o mesmo produto mas que está em 400 pontos. Muito difícil, né? Agora, na América Latina, eu acho que há espaço. Estou olhando agora principalmente a Argentina, que me parece está tomando um novo curso. Se realmente o Governo mudar a política dele — porque o populismo deu no que deu — eu acho que a Argentina é um parceiro ótimo.

Mas o preço dos ativos lá já deve estar num ponto de inflexão, né?

Ah sim! Já começou a subir. As ações estão subindo, tá tudo subindo. A gente também não tem bola de cristal, né? O [Daniel] Scioli era o candidato certo que ia ganhar, mas agora parece que o povo argentino acordou de um pesadelo e está votando certo, está votando em quem é liberal, em quem prestigia a economia de mercado, em quem quer estar no eixo das grandes nações. [Nota da coluna: A entrevista foi feita antes da vitória de Mauricio Macri].  Não adianta a gente ficar aqui associado à Venezuela, à Bolívia, ao Equador, que isso não vai levar a gente a lugar nenhum.. Esses países não podem nos dar nada, não ganhamos nada com isso, não aprendemos nada com eles. Dizer que a gente vende lá meia dúzia de coisas é ridículo.

Me fala mais um pouco sobre os seus planos para investir fora.

Eu acho que você tem países na América Latina que vão performar bem, principalmente com esse acordo [de comércio] agora com os EUA em que o Chile entra, provavelmente o Peru vai entrar, a Colômbia também… É um novo acordo comercial que não tem tributações, não tem barreira alfandegária, não tem nada disso. O Brasil precisava aprender que o dia que ele acabar com o protecionismo, esse País vai dar um salto gigantesco, porque o crescimento depende de intercâmbio, e intercâmbio só existe quando os mercados são livres.

No Brasil, hoje, você acha que está na hora de segurar o investimento pela falta de visibilidade?

Eu não diria isso pelo seguinte: porque mesmo na crise a gente cresce. Você vai sair tonto dessa entrevista comigo [risos] porque a única regra que eu conheço em comércio e no mundo dos negócios é que comércio não tem regra. Então, é tudo oportunidade. Pode ter, sim, mesmo na crise, boas oportunidades no Brasil. A gente enxerga essas oportunidades, elas existem, nós estamos estudando. Temos um projeto [de shopping] pronto aqui para lançar em Jacarepaguá que eu tenho certeza que será um sucesso. Nós só não demos início ainda porque estamos olhando o cenário macroeconômico, ou seja, como vai ficar o câmbio, a taxa de juros.. Essa taxa de 14%, se você se financiar com ela, você quebra. Essa taxa existe para você não fazer nada. O Brasil vai ter que baixar essa taxa de juros logo porque nem o Governo brasileiro aguenta pagar uma taxa tão alta. Agora, enquanto estiverem reajustando a luz em 100%, não tem como segurar a inflação: o Banco Central não é mago. Os buracos que criaram neste País são tão grandes que a gente não sabe nem como vão fechar as contas da nação: se o buraco vai ser de 100, 150 ou de 200 [bilhões de reais].

Vários de seus concorrentes estão hoje nos jornais vendendo ativos…

Nós não estamos vendendo ativos.

Sim, mas você acha que vai haver um movimento de consolidação no setor de shoppings?

Não é um bom momento para vender ativos porque está tudo depreciado. Quem está apertado financeiramente tem que vender. Os bancos batem na nossa porta sempre, trazendo uma série de negócios e dizendo que nossa situação financeira é muito boa para comprar alguém. E eu digo a eles que nossa situação financeira não é tão boa: é razoável. Porque com 14% de juros, nenhuma empresa está em boa situação financeira, concorda?


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

No cavalo de Agamenon, às portas de Tróia (José Nêumanne)


Na quinta-feira 29 de outubro, em Brasília, onde assumiu a Presidência de fato no segundo mandato de sua substituta conveniente e conivente, Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva divertiu sua claque no Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) com as metáforas de hábito e a grosseria de praxe. Nesse discurso, confessou que a afilhada praticara estelionato eleitoral na campanha vitoriosa da reeleição em 2014. “Tivemos um problema político sério, porque ganhamos a eleição com um discurso e depois das eleições tivemos que mudar o nosso discurso e fazer aquilo que a gente dizia que não ia fazer”, disse.

Na ocasião, proibiu investidas do PT contra o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tido como o maior desafeto de Dilma e do partido. “Tudo o que interessa à oposição é que a gente arrume quinhentos pretextos para discutir qualquer assunto e depois não discutir o que interessa, que é aprovar o que a Dilma mandou para o Congresso Nacional. A não ser que tenha alguém aqui que ache que isso não é importante. Primeiro, vamos tentar derrubar o Eduardo Cunha, depois derrubar o impeachment e, depois, se der certo, a gente vota nas coisas que a Dilma quer”, ironizou. E recuou das rudes críticas que antes fazia ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Nunca antes em sua vida pública, desde que assumiu a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, em 1975, Lula foi tão claro, estratégico e cuidadoso em qualquer discurso. Fez-se muito barulho em relação ao reconhecimento do estelionato, crime definido no Código Penal. Com a agravante de ter sido um estelionato que vitimou a Nação, em especial o eleitorado que não anulou voto, votou em branco ou se absteve de votar e, em particular, os brasileiros mais pobres e menos esclarecidos que acreditaram em sua candidata. E daí?

Qualquer advogadinho do PT sabe e, na certa, lhe informou que estelionato não basta para abrir processo de impeachment contra a presidente.

Além disso, Lula recebe de novo inestimável apoio de quem se apresenta à cidadania como adversário. Há um vácuo jurídico na Constituição de 1988: inexiste lei que regulamente o impedimento de presidente. O texto legal de 1950, aos 65 anos de vigência, serviu de base para levar Collor a renunciar. Mas não é suficiente para depor Dilma de forma democrática. E é nesse argumento incontestável que os dependentes da miríade de boquinhas do governo lulodilmopetista se apoiam para chamar de “golpista” quem não suporta mais a presidente (7 em 10 brasileiros). A Constituição vige há 27 anos, o oitavo mandato presidencial está começando e nunca parlamentar algum cuidou desse detalhe.

Este não é, definitivamente, um pormenor para a oposição, que não encontrou até agora base jurídica séria para fazer o que a Nação quase inteira exige: retirar a estelionatária de palanque do cargo poderoso do qual comanda esta nossa marcha da insensatez para monumentais crises moral, econômica, política e quase à beira de outra, a institucional. Lula sabia disso quando confessou o delito da preposta. Os adversários, tudo indica, não.

Em relação à reeleição, recorde-se ainda que o líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio (SP), requereu recontagem dos votos para verificar se não houve fraude na vitória da presidente sobre o senador Aécio Neves (PSDB-MG) no segundo turno do pleito de 2014. Qualquer usuário de computador em jardim de infância sabe que, no sistema de coleta e contagem de votos no Brasil, recontar votos é simplesmente impossível. Um ano depois, com a vencedora enredada em outras suspeitas, Sua Excelência disse o que todos já sabiam: não dá para recontar. Não contou, porém, por que, do alto de sua sapiência legislativa, não empreendeu alguma lei que ao menos dificultasse as fraudes que qualquer hacker iniciante pode praticar no Brasil.

O pior é que, mesmo sem o haver dito explicitamente, o ex no poder avalizou o mais asqueroso pacto de conivência criminosa de nossa História. Nele, a primeira mandatária da República e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, dois degraus abaixo dela na escada sucessória, achincalham as instituições garantindo um a impunidade da outra, e vice-versa. Em sua frase aqui citada, Lula não precisou de nenhum argumento para mandar seus asseclas evitarem incômodos a Cunha, fazendo ouvidos de mercador às evidências que brotam no seu prontuário policial como capim em pasto farto. A aceitação muda e mansa dos petistas à ordem do chefe, que, tal qual um Ulysses Guimarães do século 21, passou a comandar o governo federal, o partido e a oposição, é a maior prova de que apenas emudeceu o óbvio que, apud Nelson Rodrigues, ulula.

E se havia alguma dúvida de que o ex resolveu assumir, mantendo a preposta como rainha da Inglaterra de plantão, esta foi dirimida por sua guinada de 180 graus ao apoiar os ajustes e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. O padim aceitou outro óbvio – de que a cabeça de Dilma está sob a espada de Dâmocles, suspensa pelo fio do rabo de um cavalo.

O fio é dos bancos, que com a crise têm lucrado como nunca ninguém lucrou. Nisso ele é craque: há 40 anos o clã Lula da Silva morava numa vila operária e hoje se espalha em apartamentos de luxo, até na praia, mercê de sua carreira de palestrante para empresas acusadas de delinquir – o que lhe permitiu movimentar R$ 52,3 milhões em quatro anos, conforme o Coaf.


O descalabro de quatro desgovernos do PT, delatado nas Operações Lava Jato e Zelotes e com 3 mil brasileiros perdendo o emprego todo dia, mostra que o cavalo de cujo rabo pende a espada, e que Lula monta, após destruir tudo ao redor – empresas, empregos, crédito de agências de risco, honra e pudor –, não é de Átila, mas de Agamenon.


Pois, às portas de Troia, abertas com a conivência de adversários néscios, ele planeja invadir-lhe as ruínas.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Mãe pede socorro: filho condenado à decapitação na Arábia Saudita

Pietá













Amputação de mãos, crucificação, decapitação, enforcamento, chibatadas e outras fazem parte do acervo de punições dos retrógrados regimes teocráticos do Oriente Médio (Irã, Arábia Saudita, Síria etc.). 

Israel, a única democracia constitucional daquela região, no entanto, é alvo de feroz oposição nos jornais, nas escolas e nos parlamentos. As práticas terroristas contra o povo judeu são apoiadas, quando não aplaudidas entusiasticamente, inclusive pelo mundo oficial. 

Aqui no Brasil os ditos militantes dos direitos humanos sabem de tudo isso e não dão um pio em contrário. Nada falam nem quando a barbárie se volta contra meninas inocentes (a famigerada mutilação genital feminina ou, mesmo, quando ainda crianças são obrigadas a se casar com varões decrépitos). Nossos profissionais dos Direitos Humanos só parecem se interessar em defender bandidos de colarinho branco ou, então, os "inocentes" que a justiça consegue, quase sempre tardiamente, mandar para as prisões. 

Este caso - do jovem preso aos 17 anos por protestar contra a fossilizada monarquia saudita é um exemplo acachapante das deformações ideológicas que impedem uma avaliação justa, honesta e responsável dos horrores pelos quais passam aqueles que pretendem exercer o direito à liberdade de opinião. 

Os direitos humanos são para todos, diferente do que acham os relativistas. Não pertencem a esse ou àquele povo, nem a essa ou àquela classe social. São uma conquista universal. Só Obama, e os americanos, ainda podem fazer alguma coisa.

Saudita condenado à decapitação




















"A mãe de um jovem condenado à decapitação por ter participado de protestos contra a monarquia saudita pediu ao presidente americano Barack Obama que salve seu filho, em uma entrevista veiculada nesta quinta-feira. A sentença contra Ali al-Nimr, que tinha apenas 17 anos quando foi detido em fevereiro de 2012, atraiu atenção no mundo inteiro por sua idade e pela suspeita de que foi torturado para confessar supostos crimes.

"Quando visitei meu filho pela primeira vez, não o reconheci", explicou sua mãe, Nusra al Ahmed, ao jornal britânico The Guardian. "Vi claramente uma ferida em sua testa. Outra ao redor de seu nariz. Eles o desfiguraram, seu corpo estava muito magro", contou. "Ele urinou sangue por dias e disse que sentia muitas dores". O pai de Ali, Mohammed al-Nimr, admite que seu filho participou das manifestações, mas afirmou que é inocente das acusações de roubo, violência contra a polícia e uso de coquetéis molotov.





A mãe disse que a sentença - que decreta que seu filho seja crucificado após ser decapitado - é "extremamente retrógrada". "Nenhum ser humano normal e lúcido faria isso com um menino de 17 anos. E por quê? Ele não derramou sangue, não roubou nada". Por fim, pediu a ajuda de Obama. "Ele é um dos homens mais influentes do mundo e pode interceder para resgatar meu filho", apelou.


O menino é sobrinho de Nimr al Nimr, um religioso xiita - o regime saudita é sunita - condenado à morte acusado de ser um dos mentores das manifestações que abalaram o país há quatro anos, no período conhecido como Primavera Árabe, quando países do Oriente Médio e Norte da África tiveram protestos pedindo por democracia e mais liberdades civis". (Redação de VEJA).



sábado, 26 de setembro de 2015

Navegando no pântano (Fernando Gabeira)



Navegando no pântano do Rio Pandeiros, no norte de Minas, tive uma intuição sobre o curso das coisas no Brasil. As plantas aquáticas dominavam o caminho, não se via água. Onde estava o leito do rio? Nosso objetivo era alcançar o São Francisco onde o Rio Pandeiros desemboca.

O barco avançava entre os aguapés ao som do ruído do choque das plantas com o metal do casco e percebi que sozinho ficaria perdido na imensidão daquele pântano verde-garrafa. Por isso levamos o barqueiro Pedro, que conhece as pequenas e fugidias trilhas da água. E ele nos levou, depois de quase três horas de viagem, ao encontro do São Francisco.

A verdade é que na volta, pelo mesmo caminho, o motor do barco fundiu. Mas Pedro faz o mesmo percurso quase todo dia. Sabe se mover no pântano.

A sensação de se mover de forma errática naquele território de mil hectares seria insuportável. No entanto, ela se parece com a que vivemos na cena nacional. Os atores aparentam não conhecer as trilhas do pântano. E se perdem no emaranhado das folhas, retrocedem achando que avançam.

Falemos dos projetos de “bondades” que o Congresso aprovou e Dilma vetou. Derrubar os vetos da presidente, sem dúvida, a enfraqueceria. Mas ao custo de perpetuar a mesma ilusão que nos jogou no buraco: fazer o bem sem olhar o momento ou saber como pagar.

O governo, então, parece ter adotado o pântano, como os jacarés. Delira em público sobre impostos, da CPMF à Cide, e termina sua noite nos cassinos, sonhando em legalizar o jogo. Com quem será, com quem será que a gente vai se ferrar?

Todos sabem que não se sai do pântano sem um timoneiro. E a maioria considera o impeachment inevitável. Mesmo o PT já deve estar discutindo internamente se a renúncia ou o impeachment pode servir-lhe melhor na outra vida. Se houver outra vida depois da que se perdeu na delinquência.

Dos atores pantaneiros, o que me parece ter um esboço do caminho é o PMDB. Recusou indicar ministros e marcou para dia Proclamação da República a convenção que pode romper com o governo federal. Daí para se unir com a oposição e despachar Dilma é somente um passo.

Não é um trajeto fácil, porque o barco do PMDB ainda vai enfrentar a tempestade da Lava Jato, mais ameaçadora ainda com o surgimento de novas delações premiadas. E alguns dos seus quadros não resistem a participar de um governo, mesmo depois de morto.

E há as grandes dificuldades do pós-impeachment. As empresas brasileiras perderam R$ 1 trilhão em valor de mercado. O dólar aumenta vertiginosamente, com reflexos na economia, no cotidiano e na produtividade de quem depende de produtos importados.

São instrumentos de trabalho que não se vendem no posto Ipiranga. Falava de tudo isso, segunda-feira, num encontro com amigos em Niterói, no momento em que o motorista que me esperava na porta foi sequestrado e assaltado.

Com os últimos arrastões no Rio e a insegurança que sinto nos meus deslocamentos, deveria ter enfatizado algo que apenas esbocei em alguns artigos. As duas crises que se alimentam mutuamente, a política e a econômica, começam a disparar o gatilho da que realmente vai mudar a qualidade do processo: a crise social.

Dois importantes termômetros são o índice de desemprego e o aumento da violência urbana. Daí o sentido de urgência não só de despachar Dilma, de mas esboçar uma visão de como sair do pântano. Algumas realidades não desaparecem com a saída de Dilma. O rombo no Orçamento, por exemplo. Teremos pouco dinheiro para demandas crescentes.

Creio que as trilhas do impeachment são visíveis no momento. Para o depois, nem tanto.

Existe um quase consenso, do qual compartilho, de que é preciso reconquistar a confiança do mercado. Inúmeras vezes defendi essa tese no Parlamento, a de uma sintonia com o mercado. No entanto, sempre ressalvei que precisava trabalhar com outras coordenadas, senão iria soltar a voz na Bolsa de Valores, e não no Congresso Nacional.

O desafio de sintonizar-se com o mercado, articulando as diferentes dimensões da crise, é dos políticos. Talvez esteja dramatizando um pouco, mas em outro contexto. O Congresso deveria estar fervilhando não apenas com o impulso da queda de Dilma, mas no debate das opções que se abrem.

Em linhas mais gerais, ficou claro que só é possível avançar respeitando as leis que regem o capitalismo. Só tem sentido contrariar essas grandes realidades quando se tem outro modelo como estratégia. Exemplo: o “socialismo do século 21” na Venezuela. Na verdade, uma ruína do século 21.

Ao longo destes anos, o governo do PT suscitou um arsenal crítico que é um ponto de referência. Mudar a política externa, hoje talvez seja fácil, pelo menos no curto período que vai até 2018: bastaria inverter as prioridades do governo petista. Isso não significa voltar as costas para os vizinhos continentais. Mas diante das potencialidades do país, não podemos distanciar-nos da inovação tecnológica.

A tarefa central de um governo minimamente articulado será a de levar o país para 2018, restabelecendo um fio de confiança no processo político brasileiro. Aí, então, será possível renovar a esperança e prosseguir na tarefa gigantesca não só de resolver a crise econômica, mas todos os problemas que incomodavam quando a economia, para muitos, ainda parecia bem em 2013 e milhões de pessoas foram às ruas exigir melhores serviços públicos.

Quando caiu o Muro de Berlim, os camelôs vendiam seus pedaços aos turistas. O material acabou e os camelôs passaram a vender pedaços de muro falsificados. Não sei se vejo bem, mas a ideia me ocorreu quando comecei um livro sobre o meu aprendizado da democracia nos trópicos.

 Este momento histórico mostra a implosão, no país, do último pedaço falsificado do Muro de Berlim.