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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Mãe pede socorro: filho condenado à decapitação na Arábia Saudita

Pietá













Amputação de mãos, crucificação, decapitação, enforcamento, chibatadas e outras fazem parte do acervo de punições dos retrógrados regimes teocráticos do Oriente Médio (Irã, Arábia Saudita, Síria etc.). 

Israel, a única democracia constitucional daquela região, no entanto, é alvo de feroz oposição nos jornais, nas escolas e nos parlamentos. As práticas terroristas contra o povo judeu são apoiadas, quando não aplaudidas entusiasticamente, inclusive pelo mundo oficial. 

Aqui no Brasil os ditos militantes dos direitos humanos sabem de tudo isso e não dão um pio em contrário. Nada falam nem quando a barbárie se volta contra meninas inocentes (a famigerada mutilação genital feminina ou, mesmo, quando ainda crianças são obrigadas a se casar com varões decrépitos). Nossos profissionais dos Direitos Humanos só parecem se interessar em defender bandidos de colarinho branco ou, então, os "inocentes" que a justiça consegue, quase sempre tardiamente, mandar para as prisões. 

Este caso - do jovem preso aos 17 anos por protestar contra a fossilizada monarquia saudita é um exemplo acachapante das deformações ideológicas que impedem uma avaliação justa, honesta e responsável dos horrores pelos quais passam aqueles que pretendem exercer o direito à liberdade de opinião. 

Os direitos humanos são para todos, diferente do que acham os relativistas. Não pertencem a esse ou àquele povo, nem a essa ou àquela classe social. São uma conquista universal. Só Obama, e os americanos, ainda podem fazer alguma coisa.

Saudita condenado à decapitação




















"A mãe de um jovem condenado à decapitação por ter participado de protestos contra a monarquia saudita pediu ao presidente americano Barack Obama que salve seu filho, em uma entrevista veiculada nesta quinta-feira. A sentença contra Ali al-Nimr, que tinha apenas 17 anos quando foi detido em fevereiro de 2012, atraiu atenção no mundo inteiro por sua idade e pela suspeita de que foi torturado para confessar supostos crimes.

"Quando visitei meu filho pela primeira vez, não o reconheci", explicou sua mãe, Nusra al Ahmed, ao jornal britânico The Guardian. "Vi claramente uma ferida em sua testa. Outra ao redor de seu nariz. Eles o desfiguraram, seu corpo estava muito magro", contou. "Ele urinou sangue por dias e disse que sentia muitas dores". O pai de Ali, Mohammed al-Nimr, admite que seu filho participou das manifestações, mas afirmou que é inocente das acusações de roubo, violência contra a polícia e uso de coquetéis molotov.





A mãe disse que a sentença - que decreta que seu filho seja crucificado após ser decapitado - é "extremamente retrógrada". "Nenhum ser humano normal e lúcido faria isso com um menino de 17 anos. E por quê? Ele não derramou sangue, não roubou nada". Por fim, pediu a ajuda de Obama. "Ele é um dos homens mais influentes do mundo e pode interceder para resgatar meu filho", apelou.


O menino é sobrinho de Nimr al Nimr, um religioso xiita - o regime saudita é sunita - condenado à morte acusado de ser um dos mentores das manifestações que abalaram o país há quatro anos, no período conhecido como Primavera Árabe, quando países do Oriente Médio e Norte da África tiveram protestos pedindo por democracia e mais liberdades civis". (Redação de VEJA).



quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A OAB e o Bey de Túnis


Eça de Queirós nos conta a história de seu comércio pessoal com o Bey de Túnis. Segundo o notável romancista português, quando faltava assunto para crônica que lhe fora encomendada, não tinha dúvida: sacava do bolso a figura da repulsiva figura que tiranizava a velha cidade do norte da África, e sentava-lhe o pau! Era batata. Em poucos minutos preenchia as linhas necessárias, e sua obrigação estava cumprida. É um truque antigo, portanto, criar um inimigo ou adversário que esteja colocando em risco alguma coisa importante - a paz ou a democracia, por exemplo - para, em seguida, postar-se frontalmente contra esse que patrocina a ameaça. 

O atual presidente da OAB nacional deu uma de Eça. Em suas justificativas para apoiar um manifesto de empresários comensais do erário, o ilustre causídico apontou o dedo para os militares, que estariam – segundo ele - querendo implantar, de novo, uma ditadura militar no Brasil. De onde sua excelência tirou tamanha tolice? Militares, hoje, não têm coragem, sequer, de andar fardados pelas ruas. Estão mais interessados na intendência (salsichão e alho, dizia Marx), e nos seus brinquedos de guerra de alta tecnologia. Outras ameaças - essas sim, reais, à democracia - estão assentadas ao lado da direção da OAB. Milícias armadas travestidas de "movimentos sociais" praticam e defendem condutas que em qualquer país civilizado seriam taxadas como terroristas. Para estes que verdadeiramente ameaçam a Constituição, a voz do presidente da Ordem é um leve, quase inaudível, cicio. 

Faz sentido tal postura. A velha entidade de Faoro devota-se, agora, mais em agir como broker para filtrar pretendentes às vagas nos tribunais superiores, que ser a voz concentrada dos inumeráveis juristas do Brasil.

Por qual razão a OAB afirma que "mudanças, respeitando-se a Constituição, se fazem necessárias?" Isso é de uma obviedade que dispensaria ser enunciado. É um axioma que não merece lembrança por parte de ninguém. A menos que os que assinaram a tal carta à nação saibam o que corre nos subterrâneos dos palácios, lugares onde circulam com ampla desenvoltura, e foco de articulações totalitárias, a começar por convocação para a luta armada, conforme explicitou o presidente da CUT.

Em sendo assim, cabem desculpas a esses patriotas (os presidentes de algumas confederações mais o presidente nacional da OAB), desejando-lhes sucesso e que continuem a alertar o país dos riscos que a democracia brasileira está sofrendo no desgoverno do PT e seus fâmulos.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O melhor dos mundos para Lula e o PT


O PT pretende viver no melhor dos mundos no campo político. Quer ser governo e oposição ao mesmo tempo. Quer as delícias dos palácios - com a caneta nas mãos - e quer, também, ser a voz rouca das ruas clamando por mudanças, empoleirado num estridente trio elétrico.

A democracia para os petistas tem um formato de natureza totalitária: sua possibilidade encerra-se, tão somente, no plano interno de sua organização. É uma democracia confinada, como dizia Antônio Faria. Só vale para suas diversas facções. Brigam entre si com ferocidade. Depois, serenados os ânimos, dividem os despojos conquistados, ou a conquistar, em conformidade com o peso de cada tendência interna. Pairando acima das divergências e das gulosas reivindicações, o guia genial dos povos, Luiz Inácio, ícone em torno do qual borboleteiam todos, caninamente. 

Em qualquer situação, no entanto, a fonte de luz, o farol do socialismo, pois é disso que se trata - "quando Lula fala, o mundo se ilumina", proclamou, babosa, vetusta madame da USP antes de seu habitual boquete filosófico - continua inamovível, pois está aí a pedra de toque do sistema. Talvez, nem a morte o afaste do centro dos acontecimentos, conforme já se viu em outros lugares, como a Coréia do Norte e a antiga União Soviética. O cadáver embalsamado para resistir à podridão, num simulacro de eternidade, continua a exalar fétidas recomendações e caminhos a seguir. 

O mausoléu imaginado por Lula da Silva tem o melhor lugar possível: a Praça dos Três Poderes, no coração de Brasília. De lá, como se fora um Lenin tropical, continuará a assombrar o povo brasileiro, até que uma pira funerária o dissolva, para sempre, em golfadas de fumaça pelos sertões afora.    

sábado, 2 de maio de 2015

Corrupção (Héctor Schamis)

A cara da corrupção


















"O termo está nas manchetes dos jornais. Descreve a vasta maioria dos governos latino-americanos. Sem dúvida, o vírus em questão não é exclusivo desta parte do mundo, mas a variedade endêmica pareceria ser resistente e estar em fase de propagação. É matéria de epidemiologia, e também acontece na saúde pública: os governos que negam a existência do mal, ao mesmo tempo, se apresentam como os campeões da luta contra ele; neste caso, a tão maldita corrupção.

O problema não são apenas as atividades criminosas, que não são escassas, mas também a reprodução de condutas que nem sequer são consideradas ilegítimas, muito menos delitos. É que, além de afetar o uso dos recursos públicos, esta epidemia modificou o marco cognitivo da elite política latino-americana. Não entendem, por exemplo, a noção de conflito de interesse, tanto quanto a de tráfico de influências. A corrupção se naturalizou, e a linha que separa a legalidade da ilegalidade tornou-se flexível e porosa. Aqueles que ocupam as alturas do poder se eximiram da obrigação de render contas, de responder pelos atos de seu governo. Com o contágio se generalizou a impunidade.

Na Venezuela, as contas de funcionários em bancos da Suíça e de Andorra, e as cifras delas são lendárias. Representam vários pontos do Produto Interno Bruto. Qualquer denúncia a respeito é traduzida pelo aparato oficial de propaganda como uma conspiração desestabilizadora. Nesse sentido, têm razão: a informação pública sobre corrupção às vezes pode gerar instabilidade política.

Na Argentina, o oficialismo e seus testa-de-ferros acumulam dezenas de denúncias por contas sem justificativas, lavagem de dinheiro e negócios ilegais diversos. O rechaço do governo a essas acusações é sistemático, como também, todos os anos, ao aumento patrimonial que é visto nas próprias declarações de impostos de seus mais altos funcionários. A dissonância legal é produto da dissonância cognitiva, precisamente, a derivada do fato de que todos eles se enriqueceram sendo funcionários públicos. Difícil explicar, mas nenhum deles fica envergonhado.

No México, o governo castigou por corrupção a mais de cem funcionários nos últimos dois anos com multas de mais de 22 milhões de dólares. Apesar de benigna a pena, multa em vez de prisão, ninguém pagou um dólar. Isso sublinha um problema mais de fundo. É difícil que um governo corrupto imponha sanções por corrupção e que as mesmas sejam cumpridas. O presidente combate a corrupção em seu discurso enquanto sua esposa e seu Secretário de Fazenda tentam explicar a compra de suas casas de um empreiteiro favorecido pelo governo, que também lhes concedeu a hipoteca.

No Brasil, o caso Petrobras revela a profundidade da corrupção dentro do aparato do Estado e do partido do governo. A informação fala de perda de 2 bilhões de dólares só por corrupção e descreve um sistema institucionalizado de dinheiro ilícito, criado para terminar nas arcas do PT. O círculo completo, esse dinheiro era usado para financiar campanhas eleitorais e comprar votos de deputados no Congresso, o caso Mensalão. Assim se construiu uma organizada máquina financeira para a perpetuação no poder.

Até o Chile, cuja elite política achava que estava imune da corrupção e outras doenças tropicais da região, parece ter sido contagiada. Ao financiamento irregular dos partidos e seus dirigentes, deve-se agregar o escândalo que envolveu a nora da própria presidente. Sua relação com a então presidente eleita permitiu que tivesse acesso a informações privilegiadas sobre iminentes mudanças na regulamentação do uso do solo e a um crédito bancário para uma empresa sem trajetória nem garantias. O negócio especulativo de compra-venda de terras teve um lucro de mais de 3 milhões de dólares. Em sua primeira reação, Bachelet cometeu o erro de considerar um negócio entre privados, o que afetou severamente seu índice de aprovação.

Curiosamente, na academia, uma primeira geração de estudos minimizava o problema da corrupção, considerando-a um mecanismo benigno que servia para modernizar a burocracia, uma tarefa essencial de construção estatal sempre inconclusa no mundo em desenvolvimento. Uma segunda geração, no entanto, destacou as perdas de eficiência em sociedades com alta corrupção, postergando o desenvolvimento econômico e social, e criando, além disso, no longo prazo, uma dinâmica especialmente tóxica para o capital social e a credibilidade das instituições democráticas.

A América Latina se encontra neste último cenário, mas também precisa de uma terceira geração de estudos. Ela deverá dar conta da constituição de um novo tipo de regime político, no qual a corrupção é, justamente, o componente central da dominação. Em países onde os partidos políticos se debilitaram e se fragmentaram, além de ter perdido a confiança da sociedade, estão sendo substituídos pela corrupção. A corrupção cumpre as funções básicas da política: selecionar dirigentes, organizar a concorrência eleitoral e exercer a representação – e o controle essencial – territorial. Esta é a nova forma da política na pós-democracia.

Claro que este novo regime é de partido único, já que se baseia na perpetuação. Isso não é por ideologia, mas por sobrevivência. Fora do poder, os riscos são muito altos para os líderes do partido da corrupção. Até agora, os recursos e a retórica funcionaram e continuam no poder, mas isso não será eterno. Então, o grande desafio da América Latina será tirar a corrupção da política para poder reconstruir a democracia".

(Publicado no blog do Caio Blinder)

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Magna Carta (do blog do Setti, em Veja)




"Escrita em latim em um pergaminho de couro nos arredores de Londres há 800 anos, a Magna Carta é mais avançada em termos de direitos humanos e progresso social do que essas toscas experiências políticas em voga atualmente no mundo. Se aplicada na Venezuela de Nicolás Maduro, na Argentina de Cristina Kirchner ou na Rússia de Vladimir Putin, a Magna Carta de 1215 seria um choque de democracia.

“Nenhum homem será aprisionado ou privado de sua propriedade, ou tornado fora da lei, ou exilado, ou de maneira alguma destruído, nem agiremos contra ele ou mandaremos alguém contra ele, a não ser por julgamento legal dos seus pares, ou pela lei da terra. A ninguém recusaremos ou postergaremos direito ou justiça”, lê-se no trecho de influência mais perene.

A essência do documento, que em 15 de junho completará oito séculos, foi, pela primeira vez na história, impor limites a um monarca, no caso o rei João. O acerto inicial beneficiou apenas os barões do reino. Mas seu escopo foi ampliado com o tempo para todos os habitantes da Inglaterra. A Magna Carta serviu de base para as democracias modernas ao dar vida ao que hoje se conhece por “estado de direito”. Nenhum monarca, czar ou caudilho pode colocar-se acima das leis dos homens.

O rei que se viu obrigado a deixar esse legado democrático foi um símbolo máximo do autoritarismo. Em 1199, com a morte de seu irmão Ricardo Coração de Leão, João herdou o trono. Como Ricardo havia indicado seu sobrinho Artur para a cadeira, João o matou. Segundo um cronista daquele tempo, antes Artur foi mutilado. Outro diz que João esmagou a cabeça do sobrinho com uma pedra e jogou o corpo no rio. O ano era 1203 e Artur tinha 16 anos.

João também tomava para si as mulheres e filhas dos senhores feudais, que eram obrigados a se sujeitar à humilhação como prova de lealdade. Matilda de Briouze, a mulher de um barão que ousou dizer não, foi presa com o filho em um castelo, sem comida. Foi encontrada morta depois de cravar os dentes na bochecha do garoto, que sucumbira de fome.

Na Baixa Idade Média (séculos XI ao XV), o reconhecimento da autoridade de um rei, acima dos senhores feudais, foi um enorme avanço social e econômico. Um monarca com poder incontrastável sobre determinado território tornou o comércio mais seguro e diminuiu a violência das insurreições populares.

João, porém, abusou de sua autoridade, cobrando impostos extorsivos para financiar suas guerras e punindo cruelmente quem se recusasse a pagar. Revoltados, os barões tomaram Londres. Acuado, o rei aceitou todas as demandas. Cópias do pergaminho, com o selo do monarca, foram enviadas para ser lidas nos púlpitos das igrejas.

Entre as determinações da Magna Carta consta que os impostos não poderiam mais ser criados sem o consentimento dos pagadores de impostos. Além disso, as viúvas dos barões não poderiam mais ser obrigadas a se casar com quem o rei determinasse. Prisões arbitrárias não seriam mais toleradas, e todos teriam direito a um julgamento correto. Um conselho de 25 homens foi formado para supervisionar as atitudes do monarca.

Um mês depois de aceitar os termos da Magna Carta, o rei João voltou atrás e recorreu ao papa para que a cancelasse. João morreu de disenteria na guerra interna contra os barões do reino.
As ideias centrais do documento foram um marco na evolução das sociedades e inspiraram muitos outros eventos libertários. A Revolução Gloriosa, de 1688, foi um exemplo. Os ingleses, 473 anos depois da Magna Carta, rebelaram-se contra Jaime II, que foi afastado pacificamente, sem o banho de sangue que se viu na Revolução Francesa.

Em Paris, o objetivo era destruir o sistema para construir outro, novo e perfeito. Para os franceses, só isso caracterizaria uma revolução. O político irlandês Edmund Burke (1729-1797), o primeiro e talvez o maior crítico da Revolução Francesa, desmontou facilmente o argumento. Para Burke, que previu com anos de antecedência a degeneração para o terror do experimento parisiense, a superioridade da Revolução Gloriosa não estava em ter ocorrido mais de 100 anos antes nem em ter sido incruenta, mas em ter respeitado as “complexidades da natureza humana e da vida em sociedade”.

No século seguinte, a independência americana foi herdeira da Magna Carta, ecoada na Quinta Emenda da Constituição: “Ninguém pode ser privado de sua vida, liberdade ou propriedade sem o devido processo legal”. Em 2008, um juiz americano citou o texto medieval em sua defesa de que os detidos em Guantánamo tivessem direito a julgamento em tribunal, e não pela Justiça Militar.
Uma cópia da Magna Carta vai ser exposta em Brasília em julho. Findas as celebrações, ela volta a Londres. Perfeito seria se seus princípios ficassem".

terça-feira, 17 de março de 2015

À beira do abismo (Mario Vargas Llosa)


Quando o Governo venezuelano de Nicolás Maduro autorizou sua guarda pretoriana a usar armas de fogo contra as manifestações de rua dos estudantes sabia muito bem o que fazia: seis jovens já foram assassinados nas últimas semanas pela polícia ao tentar calar os protestos de uma sociedade cada vez mais enfurecida com os atropelos desenfreados da ditadura chavista, a corrupção generalizada do regime, o desabastecimento, o colapso da legalidade e a situação crescente de caos que se estendem por todo o país.
Esse contexto explica a escalada repressora do regime nos últimos dias: a detenção do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, um dos mais destacados líderes da oposição, quando se completava um ano da prisão de Leopoldo López, outro dos grandes resistentes, e meses depois de haver privado de modo abusivo da condição de parlamentar –e ter submetido a um assédio judicial sistemático– María Corina Machado, figura relevante entre os adversários do chavismo. O regime se sente encurralado pela crítica situação econômica à qual sua demagogia e inépcia conduziu o país, sabe que sua popularidade está caindo e que, ao menos que dizime e intimide a oposição, sua derrota nas próximas eleições será cataclísmica (as pesquisas mostram que tem apenas 20% de popularidade).
Por isso desatou o terror de maneira descarada e cínica, dando a desculpa habitual: uma conspiração internacional dirigida pelos Estados Unidos, da qual os opositores democráticos do chavismo seriam cúmplices. Conseguirá calar os protestos mediante os crimes, torturas e batidas policiais maciços? Há um ano conseguiu, quando, encabeçados pelos estudantes universitários, milhares de venezuelanos se lançaram às ruas em toda a Venezuela pedindo liberdade (eu estive lá e vi com os próprios olhos a formidável mobilização libertária dos jovens de todas as condições sociais contra o regime ditatorial). Para isso foi necessário o assassinato de 43 manifestantes, muitas centenas de feridos e de torturados nos presídios políticos e milhares de detidos. Mas no ano que transcorreu a oposição ao regime se multiplicou e a situação de desmando, desabastecimento, opróbrio e violência só serviu para encolerizar cada vez mais as massas venezuelanas. Para tolher e submeter esse povo desesperado e heroico será preciso uma repressão infinitamente mais sanguinária do que a do ano passado.
Maduro, o pobre homem que sucedeu Chávez na cabeça do regime, demonstrou que sua mão não treme na hora de fazer correr o sangue dos compatriotas que lutam pela volta da democracia à Venezuela. Quantos mortos mais e quantas prisões repletas de presos políticos serão necessários para que a OEA e os Governos democráticos da América Latina abandonem seu silêncio e ajam, exigindo que o Governo chavista renuncie à sua política repressora contra a liberdade de expressão e a seus crimes políticos, e facilitem uma transição política da Venezuela a um regime de legalidade democrática?
No excelente artigo Um estentóreo silêncio, como costumam ser os que escreve, Julio María Sanguinetti (EL PAÍS, 25 de fevereiro de 2015) censurava severamente esses Governos latino-americanos que, com a tépida exceção da Colômbia – cujo presidente se ofereceu para mediar entre o Governo de Maduro e a oposição –, observam impassíveis os horrores que o povo venezuelano padece sob um Governo que perdeu todo o sentido dos limites e age como as piores ditaduras sofridas pelo continente das oportunidades perdidas. Podemos estar certos de que o emotivo chamado do ex-presidente uruguaio à decência, feito aos dirigentes latino-americanos, não será escutado. Que outra coisa se poderia esperar dessa lastimável coleção em que abundam os demagogos, os corruptos, os ignorantes, os políticos rasteiros? Para não falar da Organização dos Estados Americanos, a instituição mais inútil que a América Latina produziu em toda a sua história: a tal ponto que, se poderia dizer, cada vez que um político latino-americano é eleito para o cargo de secretário-geral parece abrandar-se e sucumbir a uma espécie de catatonia civil e moral.
Sanguinetti contrapõe, com muita razão, a atitude desses Governos “democráticos” que olham para o outro lado quando na Venezuela os direitos humanos são violados e canais, emissoras de rádio e jornais são fechados com a celeridade com que esses mesmos Governos “suspenderam” o Paraguai da OEA quando esse país, seguindo os mais estritos procedimentos constitucionais e legais, destituiu o presidente Fernando Lugo, uma medida que a imensa maioria dos paraguaios aceitou como democrática e legítima. A que se deve o uso de dois pesos e duas medidas? A que o senhor Maduro, que compareceu à transferência do comando presidencial no Uruguai e foi recebido com honras por seus colegas latino-americanos, seja de “esquerda” e os que destituíram Lugo fossem supostamente de “direita”.
Embora muitas coisas tenham mudado para melhor na América Latina nas últimas décadas – há menos ditaduras do que no passado, uma política econômica mais livre e moderna, uma redução importante da extrema pobreza e um crescimento notável das classes médias –, seu subdesenvolvimento cultural e cívico é ainda muito profundo e isso se torna patente no caso da Venezuela: para não serem acusados de reacionários e “fascistas’”, os governantes latino-americanos que chegaram ao poder graças à democracia estão dispostos a cruzar os braços e olhar para o outro lado enquanto um bando de demagogos assessorado por Cuba na arte da repressão vai empurrando a Venezuela até o totalitarismo. Não se dão conta de que sua traição aos ideais democráticos abre as portas a que no dia de amanhã seus países sejam também vítimas desse processo de destruição das instituições e das leis que está levando a Venezuela à beira do abismo, ou seja, a se transformar em uma segunda Cuba e a aguentar, como a ilha do Caribe, uma longa noite de mais de meio século de ignomínia.
O presidente Rómulo Betancourt, da Venezuela, que era de um calibre diferente dos atuais, pretendeu, nos anos sessenta, convencer os Governos democráticos da América Latina de então (eram poucos) a chegar a um acordo sobre uma política comum contra os Governos que – com o de Nicolás Maduro– violentassem a legalidade e se convertessem em ditaduras: romper relações diplomáticas e comerciais com eles e denunciá-los no plano internacional, a fim de que a comunidade democrática ajudasse desse modo quem, no próprio país, defendesse a liberdade. Não é preciso dizer que Betancourt não obteve apoio nem sequer de um único país latino-americano.
A luta contra o subdesenvolvimento sempre estará ameaçada de fracasso e retrocesso enquanto os dirigentes políticos da América Latina não superarem esse estúpido complexo de inferioridade que nutrem contra uma esquerda à qual, apesar das catastróficas credenciais que possa exibir em temas econômicos, políticos e de direitos humanos (não bastam os exemplos dos Castro, Maduro, Morales, Kirchner, Dilma Rousseff, o comandante Ortega e companhia?), concedem ainda uma espécie de superioridade moral em temas de justiça e solidariedade social.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Burka






A burka é uma das indumentárias típicas de mulheres muçulmanas. Seria perfeita, principalmente para as petistas de Brasília. Afinal, seu uso democratiza (de maneira um tanto bárbara), as possibilidades amorosas de todas. No mercado erótico as mais belas levam inegáveis vantagens com os homens. No entanto, com a espantosa disseminação da feiura pelo planalto afora, as bruacosas madames acabariam com as mesmas chances das bonitonas, isto é, caso todas as mulheres andassem cobertas pela burka. O que está escondido ali debaixo? Pernas tortas ou bem torneadas? Um torso amável como o da Sulamita? Terá um buço de volumosa dimensão, qual o habitual das damas portuguesas? Surpresa atrás de surpresa é o que seria. A imagem acima dá uma ideia dos desafios e das dificuldades para os eventuais felizardos.

Para os homens sobraria alguma emoção somente quando descortinassem aquilo que se apresentasse escondido desembrulhando o pacote. Pode ser que alguma restrição venha a ser feita (que Alá nos inspire), protegendo os direitos dos consumidores, ou algo parecido. Erros essenciais, por exemplo, admitiriam algum tipo de correção. Este ponto é importante. Por não se resguardar de forma adequada, Jacob acabou se casando primeiro com Lia - a dos olhos remelosos - logo ele, que se submetera tão fielmente  às sorrateiras exigências de Labão para obter Raquel, a serrana bela do inesquecível verso camoniano. 

Se as regras, porém, proibissem o veto à noiva (com a devolução do bagulho), os homens estariam lascados. 
Na loteria do amor tanto se poderia ser brindado por uma deliciosa Giselle Bundchen como, ao contrário, ver saltar de dentro de panos impregnados de morrinha, uma Ideli, uma Dilma ou outras similares. Tal radicalização democrática - o uso obrigatório da burka pelas mulheres - passível de ser invocada em nome dos valores da igualdade, deixaria a maior parte dos homens muito mal humorada, produzindo um clima favorável à proliferação de terroristas. Também, pudera, quem não o seria ou ficaria tentado a sê-lo?

Uma boa causa, assim, como pretendem os críticos da liberdade de escolha, em vez de gerar os efeitos desejados, acabaria em mais conflito e mais desconforto para todos.    

terça-feira, 5 de abril de 2011

"O FASCISMO DO BEM"

Publicado por Ricardo Noblat no jornal O GLOBO, em 04-04-2011

"Imaginem a seguinte cena: em campanha eleitoral, o deputado Jair Bolsonaro está no estúdio de uma emissora de televisão na cidade de Pelotas. Enquanto espera a vez de entrar no ar, ajeita a gravata de um amigo. Eles não sabem que estão sendo filmados. Bolsonaro diz: “Pelotas é um pólo exportador, não é? Pólo exportador de veados…” E ri.

A cena existiu, mas com outros personagens. O autor da piada boçal foi Lula, e o amigo da gravata torta, Fernando Marroni, ex-prefeito de Pelotas. Agora, imaginem a gritaria dos linchadores “do bem”, da patrulha dos “progressistas”, da turma dos que recortam a liberdade em nome de outro mundo possível… Mas era Lula!"

(Vejam o filme: http://www.youtube.com/watch?v=c_2csPaWL4s)

"Então muita gente o defendeu para negar munição à direita. Assim estamos: não importa o que se pensa, o que se diz e o que se faz, mas quem pensa, quem diz e quem faz. Décadas de ditaduras e governos autoritários atrasaram o enraizamento de uma genuína cultura de liberdade e democracia entre nós.

Nosso apego à liberdade e à democracia e nosso entendimento sobre o que significam liberdade e democracia são duramente postos à prova quando nos deparamos com a intolerância. Nossa capacidade de tolerar os intolerantes é que dá a medida do nosso comprometimento para valer com a liberdade e a democracia.

Linchar Bolsonaro é fácil. Ele é um símbolo, uma síntese do mal e do feio. É um Judas para ser malhado. Difícil é, discordando radicalmente de cada palavra dele, defender seu direito de pensar e de dizer as maiores barbaridades.

A patrulha estridente do politicamente correto é opressiva, autoritária, antidemocrática. Em nome da liberdade, da igualdade e da tolerância, recorta a liberdade, afirma a desigualdade e incita a intolerância. Bolsonaro é contra cotas raciais, o projeto de lei da homofobia, a união civil de homossexuais e a adoção de crianças por casais gays.

Ora, sou a favor de tudo isso – e para defender meu direito de ser a favor é que defendo o direito dele de ser contra. Porque se o direito de ser contra for negado a Bolsonaro hoje, o direito de ser a favor pode ser negado a mim amanhã de acordo com a ideologia dos que estiverem no poder.

Se minha reação a Bolsonaro for igual e contrária à dele me torno igual a ele – eu, um intolerante “do bem”; ele, um intolerante “do mal”. Dois intolerantes, no fim das contas. Quanto mais intolerante for Bolsonaro, mais tolerante devo ser, porque penso o contrário dele, mas também quero ser o contrário dele.

O mais curioso é que muitos dos líderes do “Cassa e cala Bolsonaro” se insurgiram contra a censura, a falta de liberdade e de democracia durante o regime militar. Nós que sentimos na pele a mão pesada da opressão não deveríamos ser os mais convictamente libertários? Ou processar, cassar, calar em nome do “bem” pode?

Quando Lula apontou os “louros de olhos azuis” como responsáveis pela crise econômica mundial não estava manifestando um preconceito? Sempre que se associam malfeitorias a um grupo a partir de suas características físicas, de cor ou de origem, é claro que se está disseminando preconceito, racismo, xenofobia.

Bolsonaro deve ser criticado tanto quanto qualquer um que pense e diga o contrário dele. Se alguém ou algum grupo sentir-se ofendido, que o processe por injúria, calúnia, difamação. E que peça na justiça indenização por danos morais. Foi o que fizeram contra mim o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Mas daí a querer cassar o mandato de Bolsonaro vai uma grande distância.

Se a questão for de falta de decoro, sugiro revermos nossa capacidade seletiva de tolerância. Falta de decoro maior é roubar, corromper ou dilapidar o patrimônio público. No entanto, somos um dos povos mais tolerantes com ladrões e corruptos. Preferimos exercitar nossa intolerância contra quem pensa e diz coisas execráveis.

E tudo em nome da liberdade e da democracia…"

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Manifesto em Defesa da Democracia - 2010

Manifesto em Defesa da Democracia

Numa democracia, nenhum dos Poderes é soberano. Soberana é a Constituição, pois é ela quem dá corpo e alma à soberania do povo. Acima dos políticos estão as instituições, pilares do regime democrático. Hoje, no Brasil, inconformados com a democracia representativa se organizam no governo para solapar o regime democrático.

É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político, máquina de violação de sigilos e de agressão a direitos individuais.

É inaceitável que militantes partidários tenham convertido órgãos da administração direta, empresas estatais e fundos de pensão em centros de produção de dossiês contra adversários políticos.

É lamentável que o Presidente esconda no governo que vemos o governo que não vemos, no qual as relações de compadrio e da fisiologia, quando não escandalosamente familiares, arbitram os altos interesses do país, negando-se a qualquer controle.

É inconcebível que uma das mais importantes democracias do mundo seja assombrada por uma forma de autoritarismo hipócrita, que, na certeza da impunidade, já não se preocupa mais em valorizar a honestidade.

É constrangedor que o Presidente não entenda que o seu cargo deve ser exercido em sua plenitude nas vinte e quatro horas do dia. Não há “depois do expediente” para um Chefe de Estado. É constrangedor também que ele não tenha a compostura de separar o homem de Estado do homem de partido, pondo-se a aviltar os seus adversários políticos com linguagem inaceitável, incompatível com o decoro do cargo, numa manifestação escancarada de abuso de poder político e de uso da máquina oficial em favor de uma candidatura. Ele não vê no “outro” um adversário que deve ser vencido segundo regras, mas um inimigo que tem de ser eliminado.

É aviltante que o governo estimule e financie a ação de grupos que pedem abertamente restrições à liberdade de imprensa, propondo mecanismos autoritários de submissão de jornalistas e de empresas de comunicação às determinações de um partido político e de seus interesses.

É repugnante que essa mesma máquina oficial de publicidade tenha sido mobilizada para reescrever a História, procurando desmerecer o trabalho de brasileiros e brasileiras que construíram as bases da estabilidade econômica e política, que tantos benefícios trouxeram ao nosso povo.

É um insulto à República que o Poder Legislativo seja tratado como mera extensão do Executivo, explicitando o intento de encabrestar o Senado. É deplorável que o mesmo Presidente lamente publicamente o fato de ter de se submeter às decisões do Poder Judiciário.

Cumpre-nos, pois, combater essa visão regressiva do processo político, que supõe que o poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder lhe conferem licença para ignorar a Constituição e as leis. Propomos uma firme mobilização em favor de sua preservação, repudiando a ação daqueles que hoje usam de subterfúgios para solapá-las. É preciso brecar essa marcha para o autoritarismo.

Brasileiros erguem sua voz em defesa da Constituição, das instituições e da legalidade.

Não precisamos de soberanos com pretensões paternas, mas de democratas convictos.
(Este documento já foi assinado por mais de 100 mil democratas)

MARILENA CHAUÍ REPETE GOEBBELS

(Transcrição de artigo de Reinaldo Azevedo publicado em 25 de outubro de 2010)


Uma esquerdista vive o auge do seu delírio imoralista. Ou: Marilena Chaui repete Goebbels 77 anos depois; ela só trocou de “judeus”

"Abaixo, escrevo um post sobre as quase 100 mil assinaturas do Manifesto em Defesa da Democracia e lembro a manifestação ilegal havida na Faculdade de Direito do Largo São Francisco em defesa da candidatura de Dilma Rousseff. Eu não havia visto ainda o vídeo em que Marilena Chaui põe toda a sua ignorância a serviço da causa. Uma ignorância que chega a ser quase comovente, embora essencialmente perigosa. Ela fala suas bobagens de modo muito convicto, escandindo as sílabas com especial ênfase, como se isso conferisse seriedade ao que diz. Ah, Marilena, Marilena…

Vejam este filme (no YouTube, com a manifestação de dona Marilena). Enquanto o vídeo em que Hélio Bicudo lê o Manifesto em Defesa da Democracia já foi acessado quase 210 mil vezes no YouTube, o de Dona Doida não foi visto nem por 3 mil pessoas. Eu ajudo os carentes de bilheteria, embora eu ache que Marilena precisa caprichar na marquiagem e não pode esquecer o nariz vermelho na próxima intervenção. O cabelo tá bom — emula com o do Bozo.
Viram? Então vamos lá. É impressionante! É possível a esquerdistas argumentar falando só a verdade? Estou convencido de que não. E é por isso, Olavo de Carvalho tem razão, que é inútil debater com eles. Vocês ouviram Marilena afirmar que Serra começou a campanha criticando os programas sociais e agora diz que vai dar continuidade a eles. É mentira! Nunca criticou! Nem na campanha nem antes. Não que não possam ser criticados ou não tenham aspectos criticáveis. Ocorre que ele não fez isso...

...A tese do latifúndio. Na sua alastrante ignorância, Marilena diz que Serra ganhou nos estados do agronegócio, que, diz ela, no seu tempo, era chamado de “latifúndio”, todos com severos problemas ambientais. Uma besteira tripla. Em primeiro luar, acreditar no latifúndio como uma categoria econômica, política ou de economia política já é sinal de atraso mental. Em segundo lugar, mesmo aqueles que acreditam não tratam o “latifúndio” como sinônimo de agronegócio. A afirmação revela ignorância de Marilena até sobre as teses de esquerda. Em terceiro lugar, Serra ganhou em oito estados: Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Acre, Roraima e Rondônia. Vamos ver.

Santa Catarina é o estado por excelência da pequena propriedade, até pelo tipo de colonização que ali se deu. Paraná e São Paulo já não têm mais fronteiras agrícolas — este último, no que concerne ao meio ambiente, tem as leis mais avançadas do país. Mais da metade de Roraima está nas mãos do governo federal ou dos índios. O Acre, que caminha para 16 anos de governo petista, e Rondônia não têm os problemas ditos do “latifúndio” — tanto é que a turma de João Pedro Stedile nem está por lá. O Mato Grosso do Sul simplesmente não tem estoque de terra para abrigar latifundiários por causa de sua geografia. No Mato Grosso, há sim, um conflito entre produtores rurais e ambientalistas — mas a questão nada tem a ver com reforma agrária. De todo modo, ainda que ela falasse a verdade, qual é a suposição? Serão, então, tantos assim os latifundiários a ponto de dar a vitória a Serra? Mas essa categoria, por definição, não deveria ser minoritária? Pobre Marilena! Chegar aos 69 nessa penúria intelectual… Coisa melancólica!

Qual é o estado em que mais há conflitos de terra no país, em que mais se mata e mais se morre por causa da terra? O Pará, governado pela petista Ana Júlia Carepa — parece que o estado será libertado no dia 31 de dezembro… Quem ganhou no Pará? Dilma! Qual é o estado em que o MST é mais forte e, diga-se, mais violento? Pernambuco! Foi onde Dilma deve a sua vitória mais expressiva. Terá finalmente desaparecido do Nordeste, onde a petista venceu, o que as esquerdas chamavam, de fato, latifúndio — e que nunca foi sinônimo de “agronegócio”? Marilena conta uma mentira a seu distinto público — que, eu sei, não estava ali nem para ouvir verdades nem para aplaudir a legalidade, já que a manifestação era ilegal.

Autoritária mas vamos lá.

Digamos que esses estados fossem mesmo caracterizados pelo “latifúndio” ou estivessem nas mãos do agronegócio — São Paulo, Jesus Cristo!, é o estado mais industrializado do país!!! Marilena, como vemos, considera que isso é um defeito, que é algo a ser superado, certo? Para ela, uma reforma agrária tem de dar conta desse grave problema. Feito isso, depreende-se de seu “raciossímio” que a oposição, então, não ganharia eleição mais em lugar nenhum!

Entenderam? No dia em que o Brasil for como ela sonha, a democracia e a alternância de poder serão desnecessárias porque, então, o PT seria o governo natural do Brasil. Pensem bem: se a oposição só ganha onde há latifúndio, sem o latifúndio, não ganharia mais nada. Esse é o horizonte mental e moral de uma esquerdista como Marilena Chaui. Se o seu partido não vence a disputa, é porque a sociedade está doente.

Liberdade de expressãoMarilena foi a autora intelectual da tese do “golpe da mídia” durante o mensalão. É por isso que digo que ela é a “pensadora” que fundiu Spinoza (que ela chama “Espinosa”) com Delúbio Soares. Sua tese poderia se chamar “A Ética de Espinosa na Nervura do Real dos Recursos Não-Contabilizados”. Prestem atenção a esta fala da valente:

“O que caracteriza a democracia e distingue a democracia de todos os outros regimes políticos são duas coisas: em primeiro lugar, a defesa da liberdade de pensamento e de expressão, isto é, a defesa do direito à opinião pública.”

Epa! Notem no vídeo que ela fala a palavra “pública” numa espécie de explosão. Uma ova! A liberdade de pensamento e expressão sempre será a liberdade do indivíduo, minha senhora, já que a vontade do público é vária e inconstante. Eis aí: esse é o Spinoza filtrado pelo marxismo bocó. O que é a “opinião pública” senão a multiplicidade de opiniões dos homens? Essas coisas, na boca de um esquerdista, nunca são inocentes. Por que eles se organizam em ONGs e observatórios disso e daquilo e querem criar conselhos para monitorar a “mídia!”? Porque se consideram mais do que a representação do público — o que já não são! Eles se consideram a sua encarnação. Uma banana para esses macacos autoritários! Voltemos à moça:

"Ora, para isso, é preciso que você tenha acesso aos meios pelos quais você exprime essa opinião. Ora, quando esses meios são um monopólio, quem vem falar pra mim de democracia? É a ausência dela".

Cadê o monopólio? Onde está a lei que o determina? Fiquemos com a prata da casa primeiro. A VEJA não monopoliza as revistas, por exemplo. Ela só tem muito mais leitores dos que as concorrentes por uma decisão dos… leitores! A TV Globo tem mais telespectadores porque essa é uma decisão dos… telespectadores! Deram quase R$ 700 milhões por ano para Franklin Martins brincar de TV com Tereza Cruvinel. Conseguiram fazer algo com o humor e a picardia dele e o charme intelectual dela. Resultado: é o traço mais caro da TV mundial. Vamos seguir:

"Porque, para que ela exista, sei que é preciso que, em igualdade de condições, duas ou três ou quatro opiniões pudessem se exprimir no mesmo tempo e no mesmo espaço. O que nós temos é o controle da opinião e a impossibilidade da contestação."

Besteira! Por que Marilena não faz essa proposta aos jornais da CUT, por exemplo? Ora vejam: os que lançaram o Manifesto em Defesa da Democracia, suprapartidário, numa puderam ocupar a cadeira em que esta senhora senta. Porque, em nome da liberdade de pensamento e de expressão, só se admitiu na Sala dos Estudantes, um prédio público, uma manifestação pró-Dilma. Na pluralidade “deles”, só o PT fala. Marilena está pouco se lixando para a diversidade de opiniões. Ela não gosta mesmo é de uma reportagens que evidenciem as falcatruas de seu partido. Acha que são sabotagem. Já as que atingem os adversários, e são muitas, são virtudes.

"Então não venham me falar em democracia. Eu costumo dizer que a defesa da liberdade de pensamento e de expressão, que é aquilo pelo que o filósofo que (sic) eu trabalho desde a juventude,ele deu a vida - vocês sabem que ele foi banido da sinagoga, impedido pelo templo e pela Igreja, ele foi escorraçado como um subversivo perigoso para ordem, porque ele escreveu em defesa da liberdade de pensamento e de expressão, como característica da República e da democracia, Spinoza. Então a última coisa que passaria pela cabeça de alguém como seu seria a recusa da liberdade de pensamento e de expressão”.

Entenderam? Como Marilena estuda Spinoza desde a juventude e como ele deu a vida pela liberdade, então ninguém estaria habilitado a debater o assunto com ela. E pensar que esta senhora escreveu um livro chamado “Cultura e Democracia” — é verdade que ela copiou alguns trechos de Claude Lefort, seu amigo do peito — em que ela ataca justamente esse expediente que emprega: recorrer ao “discurso competente” para tentar silenciar os adversários. Vou confessar: eu li Marilena Chaui. E posso dizer: Marilena Chaui é uma fraude intelectual. Vocês não precisam acreditar em mim. O filme acima a expõe de modo completo no amor pela verdade e no rigor conceitual.

Para encerrarMarilena começa a sua fala atacando as tais “três famílias” que dominariam a mídia. Quais seriam? Posso imaginar. Essas três, como se nota, conspirariam contra a “opinião pública”, impedindo o exercício do contraditório. Essa defesa prática da censura e essa truculência fingindo-se defesa da democracia não são novas. Alguém mais sinistramente capaz do que Marilena já fez isso antes.

Publiquei aqui no dia 20 de setembro o texto Somos os “judeus insolentes” do petismo. Ou: “Um dia a gente cala vocês!”. Traduzi, então, um discurso feito por Goebbels no dia 10 de fevereiro de 1933, 11 dias depois de Hitler ter sido nomeado chanceler da Alemanha. Marilena ataca as “três famílias”; Goebbels atacava os “judeus que mandavam na imprensa”. Marilena, como vimos, acredita que a vitória de Serra em oito estados é tisnada pelo “latifúndio” (!); Goebbels já enxerga a conspiração dos “vermelhos”. Marilena acha que as “três famílias” impedem o livre exercício da opinião; Goebbels acreditava que os judeus conspiravam contra o nacional-socialismo. Vocês já viram o discurso da companheira. Seguem alguns trechos da fala do “companheiro” (íntegra da tradução naquele link). O que vocês acham desse meu exercício de história comparada?

Discurso de Goebbels: "Companheiros, antes de o encontro começar, gostaria de chamar a atenção para alguns artigos da imprensa de Berlim que asseguram que eu não deveria merecer a atenção das rádios alemãs, uma vez que sou insignificante demais, pequeno demais e mentiroso demais para poder me dirigir ao mundo inteiro.
Nesta noite, vocês testemunharão um evento de massa como nunca aconteceu antes na história da Alemanha e, provavelmente, do mundo.(…)Quando a imprensa judaica reclama que o movimento Nacional Socialista tem a permissão de falar em todas as rádios alemãs por causa de seu chanceler, podemos responder que só estamos fazendo o que vocês sempre fizeram no passado. Há alguns anos, não falávamos da boca pra fora quando dizíamos que vocês, judeus, são nossos professores e que só queremos ser seus alunos e aprender com vocês. Além disso, é preciso esclarecer que aquilo que esses senhores conseguiram no terreno da política de propaganda durante os últimos 14 anos foi realmente uma porcaria. Apesar de eles controlarem os meios de comunicação, tudo o que conseguiram fazer foi encobrir os escândalos parlamentares, que eram inúteis para formar uma nova base política.(…)Se hoje a imprensa judaica acredita que pode fazer ameaças veladas contra o movimento Nacional-Socialista e acredita que pode burlar nossos meios de defesa, então, não deve continuar mentindo. Um dia nossa paciência vai acabar e calaremos esses judeus insolentes, bocas mentirosas! E se outros jornais judeus acham que podem, agora, mudar para o nosso lado com as suas bandeiras, então só podemos dar uma resposta: “Por favor, não se dêem ao trabalho!”
Ademais, os nossos homens da SA e os companheiros de partido podem se acalmar: a hora do fim do terror vermelho chegará mais cedo do que pensamos. Quem pode negar que a imprensa bolchevique mente quando o [jornal] Die Rote Fahne, este exemplo da insolência judaica, se atreve a afirmar que o nosso camarada Maikowski e o policial Zauritz foram fuzilados por nossos próprios companheiros?
Esta insolência judaica tem mais passado do que terá futuro. Em pouco tempo, ensinaremos os senhores da Karl Liebnecht Haus [sede do Partido Comunista] o que é a morte, como nunca aprenderam antes. Eu só queria acertar as contas com os [nossos] inimigos na imprensa e com os partidos inimigos e dizer-lhes pessoalmente o que quero dizer em todas as rádios alemãs para milhões de pessoas."


Encerro. É isto: somos os “judeus insolentes” do petismo! E está na cara que eles querem nos pegar e acham que estamos com os dias contados."

Por Reinaldo Azevedo