Mostrando postagens com marcador Venezuela. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Venezuela. Mostrar todas as postagens

sábado, 20 de junho de 2015

Felipe González na Venezuela (Mario Vargas Llosa)


“Engana-se quem diz que a visita do ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González à Venezuela foi um fracasso. Eu diria, ao invés disso, que constituiu em sucesso total e que nos dois escassos dias em que ele permaneceu em Caracas prestou um grande serviço à causa da liberdade.

É verdade que não conseguiu visitar o líder oposicionista Leopoldo López, preso na penitenciária militar de Ramo Verde, nem mesmo comparecer à audiência de seu julgamento nem àquela em que seria decidido se o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma (preso desde fevereiro), seria indiciado, pois ambas as convocatórias foram adiadas pelos juízes precisamente para impedir que González estivesse presente. Mas isso serviu para mostrar, de modo flagrante, a falta de independência da Justiça na Venezuela, cujos tribunais e magistrados são meros instrumentos de Maduro, a quem servem e obedecem como cãezinhos de colo.

Por outro lado, o que resultou, sim, em absoluto fracasso foram as tentativas do Governo e dos hierarcas do regime de mobilizar a opinião pública contra González. Em um ato tão ridículo como ilegal, o Parlamento, presidido por Diosdado Cabello – acusado por desertores do chavismo nos Estados Unidos de dirigir a máfia do narcotráfico na Venezuela –, declarou o líder socialista persona non grata, mas todas as manifestações de rua convocadas contra ele foram minúsculas, integradas apenas por grupos de asseclas do Governo, tanto que, em todos os lugares públicos onde González se apresentou, foi objeto de aplausos entusiasmados e de uma calorosa acolhida de um público que agradecia o apoio que sua presença significava para quem luta por salvar a Venezuela da ditadura.

Seu comportamento, nesses dois dias, foi impecável, isento de toda demagogia ou provocação. Ele se reuniu com a Mesa da Unidade Democrática, que agrupa as principais forças da oposição, às quais exortou a esquecer suas pequenas desavenças e diferenças e a permanecerem unidas perante o grande objetivo comum de ganhar as próximas eleições e ressuscitar a democracia na Venezuela, que o chavismo foi triturando sistematicamente até reduzir a escombros.

Embora todas as pesquisas digam agora que o apoio a Maduro não ultrapassa 20% da população e que os 80% restantes estão contra o regime, o triunfo da oposição não está garantido, em absoluto, devido às possibilidades de fraude e de que, em seu desespero por aferrar-se ao poder, Maduro e seus seguidores possam recorrer ao banho de sangue coletivo, do qual houve já diversos sinais desde a matança de estudantes no ano passado.

Por isso é indispensável, como disse González, que todas as forças da oposição estejam solidárias no próximo confronto eleitoral que o regime, em razão da pressão popular, prometeu para antes do fim do ano.

Mas, talvez, o efeito mais importante da visita de Felipe González à Venezuela, à parte a coragem pessoal que significou ir ali se solidarizar com a oposição democrática sabendo que seria injuriado pela imprensa e os gazetistas do regime, é o exemplo que deu à esquerda latino-americana e europeia.

Por que há nela, ainda – e não só entre os grupos e grupelhos mais radicais e antissistema–, setores que, apesar de tudo o que ocorreu nos anos que a terra de Bolívar padece sob o chavismo, alentam simpatias por esse regime e resistem a criticá-lo e a reconhecer o que é: uma crescente ditadura cuja política econômica e corrupção generalizada empobreceram terrivelmente o país, que tem hoje a inflação mais alta do mundo, índices tenebrosos de criminalidade e insegurança nas ruas, e onde praticamente desapareceu a liberdade de expressão e a cada dia se multiplicam os atropelos contra os direitos humanos.

É verdade que alguns dos defensores do regime de Maduro, como os presidentes Rafael Correa, do Equador, Evo Morales, da Bolívia, o comandante Ortega, da Nicarágua, Cristina Kirchner, da Argentina, e Dilma Rousseff, do Brasil, o fazem com hipocrisia e duplicidade, elogiando-o em discursos demagógicos, defendendo-o em organismos internacionais, mas evitando sistematicamente imitá-lo em sua própria política econômica e social, muito conscientes de que estas últimas, se seguissem o modelo chavista, precipitariam seus países em uma catástrofe semelhante à que se abate sobre a Venezuela.

Enquanto na Europa o socialismo está cada vez mais se transformando em uma social-democracia, assumindo como seus os valores liberais tradicionais de tolerância, coexistência na diversidade, respeito à liberdade de opinião e de crítica, eleições livres e uma justiça independente, e compreendendo que as nacionalizações e o dirigismo econômico são incompatíveis com o desenvolvimento e o progresso –como se vê nos esforços que a França socialista de Hollande e Valls faz para incentivar o livre mercado, estimular a empresa privada e abrir cada vez mais sua economia–, na América Latina ainda persistem os mitos coletivistas e estatizantes.

O que Hayek chamava, criticamente, de “o construtivismo” - a ideia de que um planejamento racionalmente formulado podia ser imposto a uma sociedade para fazer valer uma justiça e um progresso material que teriam no Estado seu instrumento central - apesar de a história recente mostrar o fracasso desse modelo nos casos da derrocada da URSS e da transformação da China Popular em um país capitalista (autoritário), ainda continua sendo na América Latina a ideologia de muitas forças de esquerda, um dos maiores obstáculos para que o continente, em seu conjunto, prospere e se modernize, como tem ocorrido por exemplo no continente asiático.

Felipe González prestou um enorme serviço à Espanha contribuindo para a modernização do socialismo espanhol, que, antes dele e sua equipe, estava ainda impregnado de marxismo, de “construtivismo” econômico, e não havia assumido resolutamente a cultura democrática. Curiosamente, seu adversário de sempre, José María Aznar, fez algo parecido com a direita espanhola, à qual deu impulso para se democratizar e se modernizar.

Graças a essa convergência de ambas as forças em direção ao centro, a Espanha, a uma velocidade que ninguém teria imaginado, passou de uma ditadura anacrônica a uma democracia moderna e funcional, um país cuja prosperidade, não muitos anos atrás, o mundo inteiro via com assombro. Convém recordar isso agora quando, por causa da crise, se propagou esse parricídio cívico que pretende atribuir tudo o que anda mal no país àquela transição graças à qual a Espanha se salvou de viver o horror que a Venezuela está vivendo”.

terça-feira, 17 de março de 2015

À beira do abismo (Mario Vargas Llosa)


Quando o Governo venezuelano de Nicolás Maduro autorizou sua guarda pretoriana a usar armas de fogo contra as manifestações de rua dos estudantes sabia muito bem o que fazia: seis jovens já foram assassinados nas últimas semanas pela polícia ao tentar calar os protestos de uma sociedade cada vez mais enfurecida com os atropelos desenfreados da ditadura chavista, a corrupção generalizada do regime, o desabastecimento, o colapso da legalidade e a situação crescente de caos que se estendem por todo o país.
Esse contexto explica a escalada repressora do regime nos últimos dias: a detenção do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, um dos mais destacados líderes da oposição, quando se completava um ano da prisão de Leopoldo López, outro dos grandes resistentes, e meses depois de haver privado de modo abusivo da condição de parlamentar –e ter submetido a um assédio judicial sistemático– María Corina Machado, figura relevante entre os adversários do chavismo. O regime se sente encurralado pela crítica situação econômica à qual sua demagogia e inépcia conduziu o país, sabe que sua popularidade está caindo e que, ao menos que dizime e intimide a oposição, sua derrota nas próximas eleições será cataclísmica (as pesquisas mostram que tem apenas 20% de popularidade).
Por isso desatou o terror de maneira descarada e cínica, dando a desculpa habitual: uma conspiração internacional dirigida pelos Estados Unidos, da qual os opositores democráticos do chavismo seriam cúmplices. Conseguirá calar os protestos mediante os crimes, torturas e batidas policiais maciços? Há um ano conseguiu, quando, encabeçados pelos estudantes universitários, milhares de venezuelanos se lançaram às ruas em toda a Venezuela pedindo liberdade (eu estive lá e vi com os próprios olhos a formidável mobilização libertária dos jovens de todas as condições sociais contra o regime ditatorial). Para isso foi necessário o assassinato de 43 manifestantes, muitas centenas de feridos e de torturados nos presídios políticos e milhares de detidos. Mas no ano que transcorreu a oposição ao regime se multiplicou e a situação de desmando, desabastecimento, opróbrio e violência só serviu para encolerizar cada vez mais as massas venezuelanas. Para tolher e submeter esse povo desesperado e heroico será preciso uma repressão infinitamente mais sanguinária do que a do ano passado.
Maduro, o pobre homem que sucedeu Chávez na cabeça do regime, demonstrou que sua mão não treme na hora de fazer correr o sangue dos compatriotas que lutam pela volta da democracia à Venezuela. Quantos mortos mais e quantas prisões repletas de presos políticos serão necessários para que a OEA e os Governos democráticos da América Latina abandonem seu silêncio e ajam, exigindo que o Governo chavista renuncie à sua política repressora contra a liberdade de expressão e a seus crimes políticos, e facilitem uma transição política da Venezuela a um regime de legalidade democrática?
No excelente artigo Um estentóreo silêncio, como costumam ser os que escreve, Julio María Sanguinetti (EL PAÍS, 25 de fevereiro de 2015) censurava severamente esses Governos latino-americanos que, com a tépida exceção da Colômbia – cujo presidente se ofereceu para mediar entre o Governo de Maduro e a oposição –, observam impassíveis os horrores que o povo venezuelano padece sob um Governo que perdeu todo o sentido dos limites e age como as piores ditaduras sofridas pelo continente das oportunidades perdidas. Podemos estar certos de que o emotivo chamado do ex-presidente uruguaio à decência, feito aos dirigentes latino-americanos, não será escutado. Que outra coisa se poderia esperar dessa lastimável coleção em que abundam os demagogos, os corruptos, os ignorantes, os políticos rasteiros? Para não falar da Organização dos Estados Americanos, a instituição mais inútil que a América Latina produziu em toda a sua história: a tal ponto que, se poderia dizer, cada vez que um político latino-americano é eleito para o cargo de secretário-geral parece abrandar-se e sucumbir a uma espécie de catatonia civil e moral.
Sanguinetti contrapõe, com muita razão, a atitude desses Governos “democráticos” que olham para o outro lado quando na Venezuela os direitos humanos são violados e canais, emissoras de rádio e jornais são fechados com a celeridade com que esses mesmos Governos “suspenderam” o Paraguai da OEA quando esse país, seguindo os mais estritos procedimentos constitucionais e legais, destituiu o presidente Fernando Lugo, uma medida que a imensa maioria dos paraguaios aceitou como democrática e legítima. A que se deve o uso de dois pesos e duas medidas? A que o senhor Maduro, que compareceu à transferência do comando presidencial no Uruguai e foi recebido com honras por seus colegas latino-americanos, seja de “esquerda” e os que destituíram Lugo fossem supostamente de “direita”.
Embora muitas coisas tenham mudado para melhor na América Latina nas últimas décadas – há menos ditaduras do que no passado, uma política econômica mais livre e moderna, uma redução importante da extrema pobreza e um crescimento notável das classes médias –, seu subdesenvolvimento cultural e cívico é ainda muito profundo e isso se torna patente no caso da Venezuela: para não serem acusados de reacionários e “fascistas’”, os governantes latino-americanos que chegaram ao poder graças à democracia estão dispostos a cruzar os braços e olhar para o outro lado enquanto um bando de demagogos assessorado por Cuba na arte da repressão vai empurrando a Venezuela até o totalitarismo. Não se dão conta de que sua traição aos ideais democráticos abre as portas a que no dia de amanhã seus países sejam também vítimas desse processo de destruição das instituições e das leis que está levando a Venezuela à beira do abismo, ou seja, a se transformar em uma segunda Cuba e a aguentar, como a ilha do Caribe, uma longa noite de mais de meio século de ignomínia.
O presidente Rómulo Betancourt, da Venezuela, que era de um calibre diferente dos atuais, pretendeu, nos anos sessenta, convencer os Governos democráticos da América Latina de então (eram poucos) a chegar a um acordo sobre uma política comum contra os Governos que – com o de Nicolás Maduro– violentassem a legalidade e se convertessem em ditaduras: romper relações diplomáticas e comerciais com eles e denunciá-los no plano internacional, a fim de que a comunidade democrática ajudasse desse modo quem, no próprio país, defendesse a liberdade. Não é preciso dizer que Betancourt não obteve apoio nem sequer de um único país latino-americano.
A luta contra o subdesenvolvimento sempre estará ameaçada de fracasso e retrocesso enquanto os dirigentes políticos da América Latina não superarem esse estúpido complexo de inferioridade que nutrem contra uma esquerda à qual, apesar das catastróficas credenciais que possa exibir em temas econômicos, políticos e de direitos humanos (não bastam os exemplos dos Castro, Maduro, Morales, Kirchner, Dilma Rousseff, o comandante Ortega e companhia?), concedem ainda uma espécie de superioridade moral em temas de justiça e solidariedade social.