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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Suruba em Belo Horizonte


Para alegria dos incautos, há formidável suruba em curso na capital mineira. Mas não é aquela saudável esbórnia dionisíaca quando todos se apresentam nus no grande salão festivo. A síntese é: ninguém é de ninguém e cada um é de todo mundo. Tem homens magros e mulheres gordas, bem como o contrário; anões bem dotados, pederastas machões uns, afeminados, outros; velhos desdentados e mulheres lascivas além de cabritas, jumentas, nabos e cenouras; todos os tipos, enfim, de criaturas do mundo animal e vegetal passíveis de usos alternativos. Pasolini morreria de inveja de tal sordidez burguesa.

Em Belo Horizonte, ao contrário da depravação original, a suruba possui outra natureza. Agora, ela é política e eleitoral. Anões, quando aparecem no cenário, somente os de baixa estatura moral. Empreiteiros, sim, têm posições e ações destacadas frente à maioria dos presentes. Corruptos encanecidos, desmascarados pelas investigações da operação Lava-Jato, postam-se como guardiões do mais lídimo interesse público. Partidários de Marina Silva, arauta da nova política, ambientalistas decrépitos, e esquerdistas analfabetos, à procura de alguém que lhes dê as palavras de ordem a serem seguidas, no mais puro centralismo democrático à moda de Stálin, se irmanam na expectativa de obtenção de uma boquinha na máquina administrativa da prefeitura em disputa. 

Somente o fascínio pelo grotesco pode explicar o apoio eleitoral que Kalil vem obtendo. Dado a calotes e outras velhacarias, o pretendente a prefeito desfila em seu anacrônico triunfo, qual Heliogábulo, mostrando a bunda ao populacho, não numa biga, mas em fálicas motocicletas cinematográficas, que fazem reluzir sua potência ou, melhor dizendo, a real e oculta impotência. 

Kalil representa a parte doentia de Belo Horizonte, a oposição fake comandada pelo empreiteiro falido, similar a todos os outros empreiteiros congêneres. Quebrar qualquer sentido de eventual confiança do eleitorado nele é a missão do candidato verdadeiramente de oposição.   

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Para onde vão os votos dos petistas?

O PT e o petismo sempre tiveram ao menos uma terça parte do eleitorado de Belo Horizonte. É necessário fazer referência ao petismo (sem vínculo exclusivo com o PT) por uma simples razão. Em outras eleições o partido se revestiu do manto de outras siglas, como é o caso do PSB, mera linha auxiliar histórica do PT, que era reforçado, ainda, pela sopa de letrinhas de outros grupos partidários, como o PC do B, velho serviçal sempre disponível para o que desse e viesse, além de dissidentes fanáticos gerados no mesmo ventre perverso (PSOL, PSTU, Rede etc.).

As últimas pesquisas de opinião na capital mineira apontam que a chapa de candidatos a prefeito e vice - formada respectivamente por dois deputados federais do PT e do PC do B - mal alcança 5% das intenções de voto.  

Ora, onde estão os eleitores petistas que não se dariam a aparecer? Mergulhados em algum  limbo político? Ou estão se encaminhando para alguma candidatura de perfil gelatinoso e pronto para aceitar escolhas de variadas origens políticas e ideológicas, verdadeiro voto útil, capaz de, menos que vencer, infligir uma derrota aos principais e tradicionais adversários, os tucanos?

Kalil, sem dúvida, é o nome do "tapado" como dizem os mexicanos para o verdadeiro candidato oculto do centro de poder. Dentre os demais pretendentes que, talvez, até buscassem criar um cenário que lhes fosse mais favorável, o que parece não ter se configurado até o momento (a quinze dias da eleição), Kalil, o empreiteiro parvenu, corre por fora da raia verbalizando o popular discurso da anti-política, atraindo cada vez mais os votos ressentidos do petismo, agora desamparado de opções orgânicas. 

Assim como Collor fez com as elites políticas brasileiras em outro momento, Kalil se impôs ao governador Pimentel, que ao estilo de Pilatos, lavou as mãos, liberando seus adeptos para fazerem suas escolhas eleitorais. Fragilizado por sua participação nas escandalosas roubalheiras da companheirada, Pimentel sabe, no entanto, que um empreiteiro como prefeito de Belo Horizonte não será obstáculo a um entendimento e a acertos de natureza política e administrativa com o governo estadual. Para o governador, o importante agora é reduzir os danos, optar pelo mal menor. Pimentel circula bem, muito bem, aliás, no ambiente empresarial. Kalil seria um interlocutor bastante satisfatório, caso venha a vencer a disputa, credenciando-se para enfrentar no segundo turno o deputado João Leite, desta feita o real preferido de Aécio, coisa que não o fora nas eleições municipais de 2004. Mas esta é outra história. Os ventos mudam de direção e o secretamente rejeitado de ontem torna-se o desejado de hoje.  


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A antipolítica de Kalil


A disputa neste ano pelo cargo de prefeito de Belo Horizonte apresenta aos eleitores uma ampla gama de candidatos. Há para todos os gostos e preferências políticas e ideológicas. Entre eles o que mais se vem destacando é o candidato Kalil, empreiteiro e ex-presidente do clube Atlético Mineiro, o famoso Galo vingador. De fala direta e desbocada faz uso intenso do bordão: "chega de políticos; agora é Kalil". Surfa, assim, no alargado sentimento popular contra a classe política, apresentando-se como o estranho no ninho capaz de fazer e acontecer na prefeitura da capital das alterosas. Soa, também, muito parecido com o discurso de Fernando Pimentel - "o bom de serviço" - quando este disputou, e venceu, em 2004, a eleição para prefeito de Belo Horizonte. Kalil, de fato, tem inumeráveis modelos para imitar.  

É uma estratégia que já deu resultados, uns bons, outros ruins, em outros lugares e eleições (bons para os aventureiros, maus para a sociedade). O nome mais recente que vem à memória, destes profanadores da democracia, é o de Dilma Rousseff, recentemente chutada da presidência da república. A madame sempre se apresentou como aquela que detestava política e não se envolvia nos meandros das negociações na vida parlamentar. Uma gerentona, enfim, que rosnando suas ordens botava ordem no país. Com ela não tinha ti-ti-ti nem conversa fiada. Dona Dilma se queria a encarnação da administradora devotada a zelar por seus pimpolhos, qual uma galinha choca e mal humorada cuida de seus pintainhos. 

Kalil poderia, sem violentar a realidade, se apresentar aos eleitores de BH como o herdeiro espiritual de Dilma Rousseff. Ambos fazem, e fizeram, política com um discurso da antipolítica. Até nos maus modos, na truculência e na língua suja ambos se assemelham. 

Outro companheiro de Kalil que a ele se assemelha, em sua abominável forma de ser, é o ex-presidente Collor de Mello. Histriônicos e fanfarrões, os dois são movidos a golpes da mais desabrida marquetagem. Os dois modelos ideológicos de Kalil (aliás, cassados pelo parlamento em, 1992 e 2016), deram no que deram, conforme se pode aferir das suas trajetórias tão nefastas para a população que os elegeu em algum momento da história.

Na crise de representação vivida pelo Brasil, aventureiros costumam aparecer. É algo esperado e, até, normal. Em bem da verdade, não só aqui mas, também, em todos os lugares onde as pessoas ficaram reduzidas à condição de massas desamparadas. Donald Trump, nos Estados Unidos, é o exemplo mais eloquente dos últimos tempos. Em 1933, na Alemanha, as massas escolheram Hitler, pelo voto, levando o mundo ao terror e à barbárie nazista. Kalil é um dos herdeiros dessa perversa tradição a que estão sujeitas democracias em crise. 

Os demais candidatos a prefeito parecem não ter a coragem de espicaçar Kalil, denunciando sua vocação autoritária. Talvez pelo desejo de fugir à politização da campanha. Aceitam, dessa maneira, que um aventureiro qualquer paute a disputa eleitoral com um discurso centrado na antipolítica, paradoxalmente o mais político dos discursos. 

Quando a máscara de Kalil for retirada, se é que o será, surgirão as imagens ocultas de seus mentores: Dilma, Collor e outros, tão ou mais abomináveis que ele. Na singular disputa de BH, o candidato secreto, in pectore, do ainda governador Pimentel, e do petismo mais nefasto, chama-se Elias Kalil. 

O ponto fraco da tramoia é a rejeição ao PT pela classe média da capital mineira. Dilma ganhou em Minas, em 2014, mas não ganhou em Belo Horizonte. As multidões que foram às ruas pedir o impeachment presidencial dificilmente engolirão o passa moleque que estão a armar com a candidatura Kalil.