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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Boas notícias

Notícia da grande imprensa informa que o STF, ao que parece, vai mesmo dispensar o aval da Assembleia Legislativa de Minas Gerais para que seja feito, no STJ, o julgamento e condenação do ainda governador Pimentel. O petista, fiel à sua estirpe, não está sendo acusado de crime político. Muito antes pelo contrário. As acusações são de crimes comuns infamantes: corrupção, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro etc. Ele ainda teve a coragem de envolver a própria esposa em suas jogadas. É coisa que nem tipos suspeitos, como o ex-governador Newtão Cardoso, ousaram fazer. A propósito, atenção a Paulo Maluf que, pelo visto, se tornou modelo a ser seguido na administração pública.  

Outras trapaças ainda virão à tona. Vale relembrar casos como as relações com a Andrade Gutierrez (cognominada de "Ambiente Gostoso", nos círculos políticos de BH), bem como os recebíveis pagos ao notório BMG, sem falar do estranhamente paralisado processo do mensalão mineiro do qual Valfrido se safou, graças a uma liberalidade processual (tem idade superior a 70 anos). Pimentel não conseguirá empurrar o enrosco em que se encontra com a barriga para também se beneficiar. 

O lulopetismo é, realmente, um espanto!    


sábado, 13 de agosto de 2016

Da mesma laia (publicado em O Tempo, de 28 de novembro de 2009)

"Os outros presidentes são todos da mesma laia!" O autor da frase é ele mesmo. Sim, é ele, o atual presidente da República, Lula da Silva, que assim se referiu aos seus antecessores em evento recente na capital mineira. Nem é preciso ir a um dicionário para saber que laia é uma palavra depreciativa sobre alguma característica comum a um grupo de pessoas. Mais do que um arroubo eventual em linguagem de sarjeta, no entanto, a assertiva presidencial mostra ao grande público a forma habitual de pensar de um homem carente de qualquer estofo espiritual. Carência, aliás, não só dele, como, também, daqueles que o cercam e o seguem caninamente.

Não é de se estranhar, então, que a vulgaridade esteja mais presente em sua língua do que a própria saliva. A coleção de desatinos daria para fazer um dicionário político-pornográfico. Do ponto de vista político, a forma lulesca de conceber o mundo (dividido, segundo seus acólitos, entre "nós" e "eles"), mostra a incrível persistência de uma concepção de origem stalinista, mesmo após aquela sangrenta ditadura comunista ter-se dissolvido no tempo.

Pois não é que Lula, Zé Dirceu e Dilma (para ficar apenas nos nomes mais notórios) desenterraram do museu das perversões históricas a teoria de Jdanov? Esse tal de Jdanov, ex-ministro da Cultura do regime soviético, dizia que o ambiente político se dividia em dois campos: os que estão conosco e os outros que, certamente, não estando conosco, estão contra nós.

Assim, quem estiver "conosco" pode ser o maior patife, o maior gângster ou o maior canalha que, apesar disso, será acolhido no ninho (deixam de ser piratas para virarem corsários do rei). Estão aí os nomes emblemáticos de Sarney, Maluf, Calheiros, Jáder Barbalho e toda a turma do mensalão.

Essa gente primitiva reduz o mundo, portanto, a duas possibilidades antagônicas: se não é preto, é branco; se não é amigo, é inimigo; se não é crente, é descrente. A rigidez mental os leva a praticar, ao longo da vida, os maiores desatinos, inclusive a tortura e o assassinato em massa. Não possuem qualquer limite. Estão aí para o demonstrar os exemplos do dia a dia. A própria corrupção do governo Lula, com sua frondosa cleptocracia, é uma herança ideológica do stalinismo, conforme se observa na estrutura similar da Rússia atual, ainda marcada pelos hábitos de Stalin.

Não é algo fortuito: é parte de um sistema, de um modo bárbaro de ver e de viver. Nada diferente de Hitler e similares que povoaram a história humana. Quem duvidar se ponha a ler as manifestações de Zé Dirceu, Dilma e de outros asseclas conhecidos que os seguem e defendem.

O propósito deliberado desses liberticidas é implantar nos trópicos uma imitação barata e tardia dos regimes totalitários de outrora. O culto à personalidade, ao estilo stalinista, é apenas a parte visível do processo. Tem o resto.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Por que não um plebiscito?


Um dia após Cunha dar início ao processo de impeachment de Dilma, Carlos Lupi disse ao G1 que o presidente da Câmara não tem legitimidade, por ser investigado na Operação Lava Jato. Lupi fez tais considerações acompanhado por ninguém menos que Ciro Gomes, o trânsfuga habitual, que reproduziu a mesma cantilena mentirosa contra Eduardo Cunha, atribuindo a este um poder que ele não tem. 

Tratar do impeachment da madame como se fora um repeteco da luta do Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro é pura empulhação. Até pela singela razão de que se há um dragão nessa história, não é Cunha sua encarnação. 

O presidente da Câmara não é o autor do pedido de impeachment de Dilma. Em nome da verdade política, ao menos, o autor de fato é o Povo Brasileiro. As pesquisas assim o demonstram. Por qual razão nenhum governista defendeu um plebiscito, ou um referendum, para pacificar a crise? Ah se deixassem o povo falar! 

Cunha, tão somente, cumpriu o papel ritual preconizado para o eventual presidente da Câmara de Deputados pela Constituição, de decidir sobre a admissibilidade inicial do pedido; em seguida, transferiu para o corpo parlamentar a responsabilidade da apreciação final, antes do julgamento definitivo, encargo constitucional do Senado da República, sob a regência do presidente do STF.


Se denúncias envolvendo corrupção fossem critério para deslegitimar a participação política de quem quer que seja, Lupi já estaria fora da política e do PDT há muito tempo. O próprio Ciro Gomes não escaparia. Afinal, não recebeu ele dinheiro do mensalão para financiar sua campanha? A lista elaborada por Marcos Valério, referente a pagamentos e doações para a campanha presidencial de 2002, nunca foi desmentida por Ciro. Seu tesoureiro, é bom lembrar, era Márcio Lacerda, atual prefeito de Belo Horizonte. As informações são públicas e estão disponíveis na internet. Quem quiser conferir não terá maiores dificuldades em fazê-lo. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O que Lula é (Noblat)


Choca ver Lula cobrar de Dilma e do ministro da Justiça que a Polícia Federal o deixe em paz e aos seus filhos, suspeitos de envolvimento com negócios mal explicados?
Se choca é porque você definitivamente não conhece Lula.
Quando completou 18 anos e foi alistar-se para servir ao Exército, ele declarou ser dois centímetros mais alto do que era. Por quê? Simples: porque nunca gostou de ser baixinho.
Em um sábado de 2005, ameaçado por Marcos Valério, o operador do mensalão, que prometia contar o que escondia se não fosse socorrido, Lula falou em renunciar à presidência da República.
Convocado para apagar o incêndio, o então ministro José Dirceu, que passava o fim de semana em São Paulo, lá se foi convencer Valério a permanecer calado. Conseguiu.
Diante de pesquisas que mostravam a queda de sua popularidade, Lula ocupou uma cadeia de televisão e de rádio para pedir desculpas ao país pelo mensalão.
Nervoso, leu folha por folha do discurso olhando com frequência para o alto, sinal convincente de que mentia, segundo estudiosos de linguagem corporal. Jurou inocência. Disse que fora traído. Mas não apontou os traidores.
Às vésperas do julgamento dos mensaleiros, voou à Brasília para pedir a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que os absolvessem.
A um deles, Gilmar Mendes, antecipou como alguns dos seus colegas prometiam votar. E se ofereceu para interceder por Gilmar que estava sendo alvo dentro do Congresso de histórias inventadas para macular sua honra.
Gilmar sabia com quem lidava. Em visita ao Palácio do Planalto, tão logo Lula começara a governar, o ministro soube que um procurador da Fazenda, no Rio, criava dificuldades para a construção de uma obra da Petrobras.
Gilmar ouviu o conselho dado por Lula a José Sérgio Gabrielli, presidente da empresa: “Grampeie esse cara”.  Grampo é crime. Só não é se autorizado pela Justiça.
Para escapar do mensalão, Lula entregou a cabeça de José Dirceu, o coordenador de sua campanha vitoriosa de 2002. Apesar do lobby que fez por eles, os mensaleiros acabaram condenados.
Desde então, Lula insiste em afirmar que o mensalão jamais existiu. Coisa de maluco? De excêntrico? De esperto? Coisa de gente sem compromisso com o que disse, diz ou dirá um dia.
Não cobrem coerência de Lula. Tampouco que diga a verdade. A vida inteira ele só pensou em se dar bem.
Carismático, talentoso manipulador de palavras e de pessoas, sempre encontrou quem lhe fizesse as vontades. E se esbarrava em alguém disposto a contrariá-lo, dava um jeito e se livrava dele.
Sabe falar grosso com quem pretenda intimidar. Ou miar se for o caso. Na campanha de 2002, quando enfrentou José Serra, miou.
Correu a informação de que o PSDB exibiria no seu programa de TV um vídeo onde Lula se divertia numa boate em Manaus.
José Dirceu telefonou ao presidente Fernando Henrique duas vezes, perguntando se era verdade. Despachou de Brasília o ex-deputado Sigmaringa Seixas ao encontro de Serra, em São Paulo. Era lenda.
Pelas costas de Dilma, Lula tem falado mal dela. Culpa-a pelo cerco que sofre da Polícia. Na frente de Dilma, mia. Suplica por ajuda.
Ele não vê nada demais no enriquecimento de parentes enquanto governava o país. Nem vê nada demais em ter-se tornado um milionário à custa de empresas que beneficiou como presidente.
Lula não é imoral, longe disso. É amoral – nem contrário nem conforme à moral.


domingo, 26 de abril de 2015

Eu voltei, aqui é o meu lugar


















Pizzolato era o diretor mais importante do Banco do Brasil durante o governo Lula. Mandava e desmandava, punha e dispunha. Elegante qual um lorde inglês, dizia em alto e bom som que os tempos em que pastava - ou comia untuosos torresmos com cabelo - haviam passado. Fugiu para a Europa quando descobriram suas falcatruas no mensalão. Sentou praça na Itália dos antepassados. Imaginou que a mafia ainda mandava na velha bota. 

Agora, como o boêmio da canção, ele voltou. A Papuda está em festa.


Os companheiros comemoram 

terça-feira, 14 de abril de 2015

A inocência dos roedores (Guilherme Fiuza)









"Se Dilma fosse uma ópera, ela se chamaria “Erenice”. Uma ópera em dois atos: 2010, a ascensão; 2015, a queda. A presidente ainda não caiu, mas o Brasil já está caindo. Ainda não se sabe se no abismo ou na real.
Dilma Rousseff declarou que sua campanha não recebeu “dinheiro de suborno”. Já o Lobo Mau declarou que não comeu a vovozinha. Cada um com a sua tática. Se os caçadores da floresta não tivessem aberto a barriga do Lobo, ele teria devorado também a Chapeuzinho. Os caçadores da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça estão abrindo a barriga do PT e tirando um mundo lá de dentro. Mas a cabeça falante do partido continua jurando inocência pela boca da presidente da República. E a Chapeuzinho verde-amarela, coitada, continua na dúvida se acredita.
Antes de voltarmos à ópera, uma última contribuição à fábula. Querida Chapeuzinho: se o seu plano é ser devorada, fique à vontade. Continue acreditando em Dilma quando ela diz, por exemplo, que vai salvar a Petrobras. O humorista inglês John Oliver já caiu na gargalhada diante da presunção de inocência da presidente brasileira — e riu não por ser humorista, mas por ser inglês. Se bem que já há estrangeiros em vários países não achando a menor graça nessa novela. São investidores lesados pelo petrolão e, ao contrário da cordial Chapeuzinho, resolveram chamar a polícia. E lá a chantagem emocional dos guerreiros do povo não protege ninguém. Bandido é bandido.
As delações premiadas de ex-diretores da Petrobras e de empreiteiras convergiram com a do doleiro Alberto Youssef e cravaram: o PT transformou propinas do petrolão em doação legal ao partido. Em mais uma contribuição progressista para a História, os companheiros inventaram a propina oficial. Nada dos arcaicos recursos não contabilizados do mensalão: tudo certinho, tudo declarado, enfim, um roubo absolutamente dentro da legalidade. E as delações indicaram que algumas centenas de milhões de reais escoaram do esquema para a campanha presidencial de Dilma — aquela que não recebeu “dinheiro de suborno”. O acusado de operar esse milagre é o tesoureiro do PT, João Vaccari, que por essas e outras acaba de virar réu no processo da Operação Lava-Jato.
Vejam como Dilma Rousseff realmente é uma ópera. Toda essa engenhosa sucção nacionalista foi montada sob a presidência dela no Conselho de Administração da Petrobras. Está gravado e filmado para quem quiser ver: o ex-diretor da estatal e protagonista do escândalo, Paulo Roberto Costa, acha “estranho” que Dilma não soubesse do esquema. Mais estranho ainda sabendo-se que a montagem do esquema é atribuída a figuras-chave do partido dela, às quais a presidente jamais negou solidariedade — inclusive àquelas condenadas pelo mensalão. O que a inocência de Dilma foi fazer no meio dessa podridão?
Melhor reler o libreto. Está lá, no primeiro ato. Ano de 2010, eleição presidencial (na qual, maldita coincidência, outro delator aponta “dinheiro de suborno” na campanha de Dilma). Ali, nasce uma estrela: Erenice Guerra, braço-direito da candidata à Presidência, entra para a História ao levar a Casa Civil para as páginas policiais, demitida e investigada por tráfico de influência. Erenice era a mulher de confiança de Dilma, preparada por ela para ser sua superministra. Claro que os métodos de Erenice Guerra e a inocência de Dilma Rousseff jamais se cruzaram nos corredores do palácio. É estranho à beça, como diria Paulo Roberto Costa, mas a vida é assim mesmo. Estranha.
Saltando para 2015, o libreto da ópera faz ressurgir a grande personagem. Na Operação Zelotes da Polícia Federal, quem surge no seio de um escândalo bilionário envolvendo a Receita Federal? Erenice Guerra, agindo como principal assessora da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Mas Chapeuzinho verde-amarela continua chupando o dedo e ouvindo Dilma dizer que vai limpar tudo e nunca viu dinheiro de suborno. Adivinhem o que vai acontecer com essa menina distraída em mais quatro anos de ópera?
Quando Vaccari entrou na CPI da Petrobras, ratos foram soltos no recinto. Mas logo se deixaram capturar. Amadores. Vaccari admitiu que esteve no escritório do doleiro Alberto Youssef, mas disse que não sabia por que foi parar lá. Questão de ginga.
Ficar assistindo a esse show de inocência não é para qualquer estômago. O Brasil já desceu da arquibancada uma vez, e vai descer de novo. Os roedores não estão nem aí — continuarão ostensivamente oprimidos, anunciando que o petróleo salvará a educação, e roendo em nome da lei. Até que os brasileiros se cansem dessa cândida obscenidade e os enxote da sala".

(Guilherme Fiuza é jornalista)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Alguns sinais de existência do mundo (Fernando Gabeira)

(Artigo publicado no jornal ESTADO DE SÃO PAULO, em 19 de dezembro de 2014)


“O mundo e o Brasil mudaram com a globalização. Tanto discutimos isso, todavia não prevíamos como as mudanças no mundo iriam influenciar a trajetória da corrupção no Brasil. Tratados internacionais novas leis domésticas, o panorama mudou.

De duas empresas europeias, Siemens e SBM, vieram dados sobre a corrupção na venda de trens e plataformas marinhas; de uma empresa americana, Dallas Airmotive, dados sobre a corrupção de oficiais da FAB e do governo de Roraima. A Suíça recebeu procuradores brasileiros que rastreiam parte da grana do petrolão. Colabora muito mais do que antes, nos tempos em que se fechava em copas para tranquilizar as grandes fortunas estrangeiras. Nos EUA investigam-se a Petrobrás e a compra de Pasadena, que não passa e não passará incólume às lentes americanas.

O Brasil mudou. Ampliaram-se as ferramentas de investigação, e-mails são recuperados, câmeras estão por toda parte, ampliou-se a troca de informações com o mundo, tudo isso é um sinal de que a corrupção endêmica no País não é eterna, como pensam alguns. O universo petista parece ignorar essas mudanças: embora sempre afirme que as investigações cresceram com o governo, o que cresceu foi a autonomia da Polícia Federal, muitas vezes esquecida.

Lembro-me de uma demonstração de policiais federais em Brasília. Estavam nas ruas porque queriam produzir mais e havia uma queda nas investigações. Isso foi no fim de 2013.

Uma prova de que o PT não compreendeu essas mudanças foi o relatório do deputado Marco Maia afirmando que Pasadena foi um bom negócio.
"Vocês querem bacalhau?", perguntava o Chacrinha. Tome macarrão, responde o governo, instituindo o Dia do Macarrão.

Como é possível afirmar que Pasadena foi um bom negócio? Ainda mais num momento em que a Operação Lavo Jato rastreia propinas recebidas por intermediários brasileiros. Diante dessas evidências, só restaria aos defensores da compra de Pasadena, que nos deu um prejuízo de cerca de US$ 700 milhões, afirmar: foi um negócio tão bom que até nossos corruptos ganharam algum dinheiro.

Não há o que argumentar diante de tanto cinismo. O governo arruinou a Petrobrás, reduzindo em R$ 600 bilhões o seu valor, de 2008 até agora.
Vi pátios de equipamentos ociosos no Sul e leio agora que unidade de nafta, de R$ 32 milhões, será perdida no Rio. É superfaturada e antieconômica.

Quando é que Dilma vai sentar à mesa e dar o balanço desse vendaval? Revelações de uma alta funcionária mostram que o esquema de corrupção era antigo e os diretores foram dele informados. O governo pretende atravessar essa tormenta com o mesmo time que permitiu o processo de saque na Petrobrás. E diante de uma conjuntura internacional com baixos preços do óleo, o que reduz a competitividade do pré-sal.

Apesar da dimensão gigantesca do escândalo na Petrobrás, o que vazou até agora indica irregularidades em vários campos: dos fundos de pensão às hidrelétricas, de aeroportos ao BNDES. O contexto é de crise econômica, mas esses fatores morais não se limitam à política. A própria credibilidade internacional do Brasil está em jogo. O que devem pensar os americanos diante de um deputado que disse que Pasadena foi um bom negócio? O próprio barão belga que nos vendeu a refinaria deve ter reagido com uma gargalhada.

O governo conta historinhas aqui e ignora o mundo. Pena que a oposição também ignore. Numa articulação com parlamentares europeus e americanos poderia saber mais, perguntar mais.

O esquecimento do mundo é daqueles fatores que entristecem no Brasil de hoje. Dilma aniquilou a diplomacia presidencial e parece querer aniquilar a própria diplomacia, subestimando um núcleo de profissionais competentes.

Talvez nosso papel não seja tão importante como se supôs. Entre superestimar o próprio papel e simplesmente sair de cena há uma diferença, que não tem peso eleitoral, mas vai produzir suas consequências.

Não importa que governo e oposição ignorem o mundo. Ele sempre nos vai chegar, sobretudo nesse movimento que força as grandes empresas a se reconciliarem com a lei e a sociedade. Os dados vêm de fora, brotam aqui dentro, nada mais vai deter o processo de transparência que a própria tecnologia potencializa.

O PT e seus aliados deveriam ler Fim de Jogo, de Samuel Beckett, no trecho em que o personagem diz: "Acabou, Clov, acabamos". Não é possível assaltar as estatais para financiar campanhas e enriquecer. Um ramo sofisticado caiu por terra na Petrobrás. Outros cairão.

Não sei o que virá adiante. Suspeito que criem o dia da maionese. Lula elaborou a palavra de ordem ao PT: cabeça erguida. Melhor seria bunda na parede. Não vão soterrar esse turbilhão de dados com historinhas como a de Marco Maia e sua CPI. Se depois de arruinar a Petrobrás o PT escolheu a cabeça erguida, confirma um pouco minhas suspeitas: depois dos punhos erguidos no mensalão, cabeça erguida no petrolão.

Quanta autoestima! Enrolam-se na Bandeira do Brasil, arrasam a maior empresa pública, comprometem a credibilidade internacional e acham que está tudo bem, exceto para uma elite mal-humorada e articulistas de direita.

O governo vive um bloqueio do tamanho do petrolão. Não tem outro caminho futuro exceto explicar suas responsabilidades. Até o momento, está dando velhas respostas para novas perguntas.

Com o braço numa tipoia azul, Marco Maia parecia vir de um combate físico com as próprias evidências da corrupção. Pasadena foi um bom negócio, parecia dizer, sofremos algumas escoriações, mas está tudo bem. Boa imagem de fim de ano para quem acredita em Papai Noel. Ou para quem desconfia que os combatentes estão chegando à exaustão ante os fatos.

P.S.: Este artigo estava pronto quando Marco Maia voltou atrás sobre Pasadena”

domingo, 19 de outubro de 2014

Petrolão: mais além que um assalto

O famoso professor de matemática, Delúbio Soares, podia não dominar bem todas as quatro operações, mas tinha estranha capacidade profética. Segundo ele, após alguns anos, o caso do mensalão ainda viraria piada de salão. E não é que o professor estava certo? Perto do petrolão, a gatunagem em que ele, Marcos Valério, Zé Dirceu, Genoíno e dezenas de outros se envolveram, parece coisa de pivete principiante. Pode-se até vê-los com a mesma complacência creditada a Santo Agostinho, também ele afeito, na juventude, a alguns reprováveis malfeitos. Furtar frutas dos quintais dos vizinhos, porém, era o máximo a que se permitia o futuro santo, bispo de Hipona. 

As roubalheiras patrocinadas no regime de Lula e Dilma, após o treino com a mensalão, adquiriram escala industrial. Mais que roubar, no entanto, o projeto buscava destruir a ordem institucional, um pré-requisito para a revolução política que a turma almejava. 

Os petistas já o declararam inúmeras vezes: não se constituíram para administrar as crises de uma sociedade capitalista. Sua missão seria, isso sim, construir as bases de um mundo socialista, tal qual eles o entendiam e persistem em entender. Caberia, então, fazer tudo para apodrecer as bases normativas que organizam o povo brasileiro. Somente nesta perspectiva se pode compreender o assalto sistemático aos valores (inclusive os monetários), aos costumes, às instituições, às leis e, sobretudo, à Constituição, violações estas em que os petistas e associados foram autores, e o Brasil a grande vítima. 

O enfrentamento dessa gente deveria começar com emenda à Constituição que colocasse fora da lei todas as organizações cujos membros, velada ou explicitamente, atentem contra a democracia constitucional. Os crimes políticos cometidos pelo petismo nos últimos doze anos (curiosamente o mesmo período de duração do regime nazista), precisam ser enfrentados na sua raiz. Assim como se fez no pós guerra o julgamento de Nuremberg, há que se julgar agora os atos dessa gangue proto-fascista encabeçada por Lula. A Papuda, Deus o queira, os espera.  

sábado, 4 de outubro de 2014

OAB e Joaquim Barbosa

A grande imprensa divulgou que o ministro Joaquim Barbosa teve questionada sua inscrição como advogado, na seção da OAB do Distrito Federal. Se fosse Zé Dirceu o postulante ao registro, certamente estariam fazendo festas para comemorar tão brilhante aquisição para os quadros da vetusta entidade que congrega os profissionais do Direito. 

Joaquim Barbosa, no entanto, homem íntegro que dignificou a mais alta magistratura do Brasil em todos os tempos, é afrontado por algum borra-botas qualquer à procura de vingança contra o magistrado negro. Aliás, nenhum dos inumeráveis grupos que se querem representantes dos ditos afrodescendentes pátrios, deu um pio sequer a respeito. 

Em vista do ocorrido, Joaquim Barbosa deve se sentir, antes, homenageado, que vilipendiado. Afinal, já dizia Grouxo Marx, não se deve entrar para clube que nos aceita como sócios. E a sociedade configurada no Distrito Federal não parece ser das mais recomendáveis a um homem de vida honrada, como é o caso do ex-ministro do STF.

O ódio a Joaquim Barbosa tem explicação. Joaquim Barbosa, de uma certa maneira, validou as condenações que os mensaleiros receberam em tempos idos, pelos generais de outrora. Vistos os fatos, agora, de uma posição mais distante e mais serena, somos obrigados a reconhecer: os milicos tinham razão quando puniram aquele bando de assaltantes de bancos, terroristas e assassinos que queriam tomar o poder à força no Brasil. 

Joaquim Barbosa desvendou a mistificação que ainda hoje busca se implantar, como se pode ver na atuação da dita Comissão da Verdade. Essa gente quer, tão somente, criar nova versão sobre a história do país, dando foros de heroísmo aos atos dos mesmos criminosos condenados no processo do mensalão. 

Os generais, se não fossem tão truculentos, teriam submetido os mensaleiros de hoje, terroristas de ontem, a um processo judicial que dispensasse abusos de poder e perseguições indecorosas. Somente os instrumentos jurídicos disponíveis à época, já bastariam para por a nu as condutas e os atores que buscavam, há mais de quarenta anos, destruir as bases da democracia brasileira, ainda então incipientes.

Joaquim Barbosa, então, desmistificou, sem que o tenha querido propositalmente, o miolo dos argumentos dos guerrilheiros de festim, gente como Zé Dirceu, Dilma e Genoíno, supostos heróis da nacionalidade. Dona Dilma, aliás, vem sendo tratada como a mulher do "coração valente", em explícita alusão aos seus tempos de terrorista, como se fora uma espécie de Joana D'Arc a conduzir o povo. Joaquim Barbosa, felizmente, demonstrou que o rei, e a rainha, estão nus. 

Os generais tinham razão quando condenaram tais malfeitores. Por isso o ódio dos reescrevedores da história; ficaram com a bunda de fora. Barbosa sofrerá por isso pelo resto de sua vida. Cúmplices da quadrilha do mensalão tudo farão, sempre que isso for possível, para atingir o ministro. No mínimo, babarão na escada para que Joaquim Barbosa escorregue e quebre o pescoço.     

sábado, 13 de setembro de 2014

Abençoado por Deus e roubado com naturalidade (Fernando Gabeira)


"Tá lá o corpo estendido no chão. Acabou uma época imprensada entre a crise econômica e uma profunda desconfiança da política. Não quero dizer com isso que o atual governo federal, com sua gigantesca capacidade, milhões de reais e a máquina do Estado, perderá a eleição. Não o subestimo. Quando digo que acabou uma época quero dizer que algo dentro de nós se está rompendo mais decisivamente, com as denúncias sobre o assalto à Petrobrás.

De um ponto de vista externo, você continua respeitando as leis e as decisões majoritárias. Mas internamente sabe que vive uma cisão. A contrapartida do respeito à maioria é negada quando o bloco do governo se transforma num grupo de assaltantes dos cofres públicos.

Uma fantástica máquina publicitária vai jogar fumaça nos nossos olhos. Intelectuais amigos vão dizer que sempre houve corrupção. Não se trata de um esquema de dominação. Ele tem seus métodos para confundir e argumentar.

O elenco escolhido pelo diretor da Petrobrás para encenar o grande assalto na política não chega a surpreender-me. O presidente do Senado, Renan Calheiros, e o presidente da Câmara, Henrique Alves, são atores experimentados. A diferença agora é que decidiram racionalizar. Renan e Alves viveram inúmeros escândalos separadamente. Agora estão juntos na mesma peça. Quem escreve sobre escândalos deve ser grato a eles. Com a presença num mesmo caso, Renan e Alves nos economizam um parágrafo. Partimos daí: os presidentes do Senado e da Câmara brasileira são acusados de assaltar a Petrobrás.

Deixamos para trás um Congresso em ruínas e vamos analisar o governo. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, foi acusado, o tesoureiro do PT também foi denunciado. As declarações deixam claro que Lula levou o diretor para o posto e elogiava seu trabalho na Petrobrás.

Em termos íntimos, não há governo nem Congresso para respeitar. Ambos já mudaram de qualidade. Os que se defendem afirmando que sempre houve corrupção não percebem a fragilidade do argumento. É como se estivessem diante do incêndio do Rio e alguém sussurrasse: "O Nero, lembra-se? O Nero também incendiou Roma".

Grande parte dos analistas se interessa pela repercussão do escândalo na corrida presidencial. Meu foco é outro: a repercussão na sensação de ser brasileiro. Quem talvez conheça melhor essa sensação são as pessoas que vivem em favelas, dominadas pelo tráfico ou pela milícia.

Existem diferenças entre as favelas e o Brasil que as envolve. Diante de escândalos políticos somos livres para protestar, o que não é possível nos becos e vielas. E contamos com a Justiça. No caso do mensalão, o processo foi conduzido por um juiz obstinado e com dor nas costas, pouco tolerante a artifícios jurídicos. Neste caso da Petrobrás há indícios de que o juiz Sérgio Moro, competente em analisar crimes de lavagem de dinheiro, pretende avançar nas investigações. E avançar por um território que não é virgem, mas extremamente inexplorado: o universo das empreiteiras que subornam os políticos.

Lembro-me, no Parlamento, dos esforços do velho Pedro Simon para que se investigassem também as empreiteiras nos escândalos de suborno. Falar disso no Congresso é falar de corda em casa de enforcado. Ele não conseguiu. Mas Simon queria mostrar também que os políticos não se corrompem sozinhos. Desgastados, polarizam tanto a rejeição que poucos se interessam por quem deu dinheiro e com que objetivo.

Leio nos jornais que as empreiteiras fizeram um pool de excelentes advogados e, pela primeira vez na história, vão se defender de forma coordenada. Vão passar por um momento crucial. Ainda no Congresso, apresentei projeto regulando suas atividades no exterior. A presunção era de que mesmo no exterior o suborno era ilegal para uma empresa brasileira. Alguns países já adotam essa política.

Sinceramente, não sei se o caso das empreiteiras é apenas de bons advogados. Em muitos lugares do mundo, algumas empresas assumem seus erros e se comprometem com um novo tipo de relação com as leis. Isso no Brasil seria uma decisão audaciosa. Sem o suborno, devem pensar, não há chance de ter contratos com o governo.

Se, como no mensalão, a justiça for aplicada com severidade, também as empreiteiras serão punidas. Mais uma razão para pensar numa mudança de comportamento para a qual o País já está maduro. Todo esse processo de corrupção pode ser combatido, parcialmente, a partir de nova cultura empresarial. Os outros caminhos são transparência, Polícia Federal, Justiça, liberdade de imprensa e internet.

Quando afirmo que uma época acabou, repito, não excluo a vitória eleitoral das forças que assaltam a Petrobrás. Mas, neste caso, o governo sobreviverá como um fósforo frio. Maduro, na Venezuela, vê Chávez transfigurado em passarinho. Esse truque não vale aqui, pois Lula está vivo. E no meio da confusão.

Não creio que o Congresso será melhor nem que a oposição, que não soube combinar a crítica econômica com a rejeição moral, possa realizar algo radicalmente novo. O próprio Supremo não é mais o mesmo. Modestamente, podemos esperar apenas alguma melhoras e elas vão depender de como o povo interpretará o saque à Petrobrás. Na minha idade já não me posso enganar: Senado, Câmara, governo, tudo continua sendo formalmente o que é; no juízo pessoal, são um sistema que nos assalta.

O PT, via Gilberto Carvalho, acha que a corrupção é incontrolável e propõe financiamento público de campanha. Bela manobra, como se o dinheiro da Petrobrás não fosse público. Os adversários têm tudo para desconfiar da tese. Ficariam proibidos de arrecadar com empresas, enquanto dinheiro a rodo é canalizado das estatais para o PT, que se enrola na Bandeira Nacional e grita: "O petróleo é nosso!".

Na medida em que tudo fique mais claro, talvez possamos até economizar palavras, como Renan e Alves nos economizaram um parágrafo participando do mesmo escândalo. Poderíamos usar a frase do mendigo em Esperando Godot, ao ser questionado sobre quem o espancou: os mesmos de sempre".

(Publicado no Estadão, em 12/09/2014)

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sindicatos de caras de pau

A pelegada do PT e Cia começa a botar as asinhas de fora. Estão homiziados principalmente na CUT mas, também, em outras centrais amigas. O bando de cafajestes passou agora a se devotar a ataques injustos a Marina Silva. Parasitas profissionais a serviço do petismo - recebem sem trabalhar para ficar de plantão na defesa de suas boquinhas - não se envergonham de nenhuma indignidade. São capazes de tudo. 

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) teve a coragem de questionar Marina a respeito dos seus posicionamentos sobre a atuação da Petrobrás, a mãe de todas as corrupções. Dos canos da empresa jorra petróleo, é verdade, mas o maior volume que ela expele, de fato, é de lama fétida, a lama do petrolão. Quando os inumeráveis casos de roubalheira envolvendo a cúpula petroleira vieram à luz, não se viu qualquer manifestação dos pelegos da FUP contra o saqueio efetuado. Silêncio. Silêncio absoluto. Silêncio cúmplice e vergonhoso coonestando a bandidagem dos companheiros amigos. 

De um certo ponto de vista essa gente que defende a ladroagem governista tem razão. A Petrobrás é deles; engana-se quem julgar o contrário, pois ela já foi privatizada há muito tempo: A Petrobrás é uma empresa dos funcionários da Petrobrás. Sabem os pelegos petroleiros que ao se repartir o butim, uma parte substanciosa do numerário fica nos seus bolsos. O povo brasileiro que se dane. E pague a conta, logicamente, sem mugir nem tugir. 

Até uma criatura tosca como Severino Cavalcanti - aquele vulgar achacador de dono de lanchonete que presidiu a Câmara dos Deputados - percebeu o tamanho da bocada. O ex-deputado queria, porque queria, indicar alguém de sua confiança para "aquela diretoria que fura poço". Gatuno primitivo, Severino percebeu no entanto, por onde passava o trilho que o levaria à independência e riqueza futuras. A mãe de todas as corrupções lá estava, pronta para se deixar esquartejar, a um comando de Lula ou Dilma.

Severino, por bronco essencial, não desconfiou que a tal diretoria que fura poço (e as outras também), já tinham donos. Dona Dilma estava a postos - na presidência do Conselho de Administração da Petrobrás -  para garantir o bom andamento dos negócios e, claro, das negociatas, conforme a imprensa vem constatando e divulgando. Feroz como Cérbero, o cão de guarda do inferno, dona Dilma rosnava, no tom de costume, para espantar qualquer outro aventureiro que tentasse meter a mão no soutien da comadre. A preferência no enricar, lógico, era de Lula, o senhor e controlador dos caminhos. 

Alguém ouviu o mais leve muxoxo da pelegada em defesa da Petrobrás? Nada de nada, nadica mesmo! A matilha de cães vai, no entanto, fiel ao espírito cínico, latir para Marina Silva, que ameaça acabar com a farra da corja, caso ganhe as eleições presidenciais. 

Outro caso de pelegagem explícita se dá com os sindicatos de bancários afiliados à CUT. Em Belo Horizonte, a pretexto de campanha salarial, afixaram nas paredes externas do Banco Itaú, e somente nele, ofensas aos acionistas majoritários - a família Setúbal - que teriam demitido alguns funcionários. Pretendem, de fato, com tal referência explícita, atingir politicamente Marina Silva, pelos vínculos de amizade desta com Neca Setúbal. Os garbosos defensores dos eventuais demitidos, entretanto, não se manifestaram, em nenhum momento, quando o Banco Santander mandou para a rua, por solicitação de ninguém mais, ninguém menos, que Lula da Silva, gente que criticou a política econômica do governo. Inacreditável que Lula - de todos os pelegos e picaretas, o mais pelego e picareta de todos - teve a ousadia de pedir a um patrão que demitisse um trabalhador, violência inominável agravada pela torpeza da motivação.

Pois, então, é gente desse tipo descrito acima que está questionando Marina Silva. Por ocasião do saqueio do Banco do Brasil (de onde a turma petista se locupletava junto com Marcos Valério), e da Caixa Econômica Federal, a pelegada parasitária da CUT também ficou no mais obsequioso dos silêncios. Para refrescar a memória, o mensalão que levou a cúpula do PT para a prisão, e a compra pela Caixa do falido banco de Silvio Santos - o Panamericano - não mereceram a mais leve censura por parte dos parasitas profissionais da CUT. Mas eles se querem juízes das propostas de governo de Marina Silva. 

A esperança dos que anseiam por uma limpeza, em regra, dessas estruturas sindicais carcomidas, começa com a obrigatoriedade da pelegada fazer prestação de contas dos recursos que recebem do governo. Esse é o temor que os anima a defender dona Dilma com unhas e dentes. Temor de que seus indefensáveis privilégios - principalmente o de não terem seus gastos auditados pelo Tribunal de Contas da União - venham a ser extintos.

Com dona Dilma no governo, a gatunagem sindical continuará, igualmente, assim como se dá com todas as outras empresas públicas, em especial com a Petrobrás, a mãe de todas as corrupções. Mais que cúmplices, eles são sócios que compreendem muito bem a natureza dos seus negócios pecuniários. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Padre Vieira, o profeta

Padre Antonio Vieira descreveu com mais de trezentos anos de antecedência o modus operandi da turma do mensalão e do petrolão:

(...) porque há príncipes que correm com os ladrões e concorrem com eles. Correm com eles, porque os admitem à sua familiaridade e graça, e concorrem com eles, porque, dando-lhes autoridade e jurisdições, concorrem para o que eles furtam. E a maior circunstância desta gravíssima culpa consiste no Si videbas. 

Se estes ladrões foram ocultos, e o que corre e concorre com eles não os conhecera, alguma desculpa tinha; mas se eles são ladrões públicos e conhecidos, se roubam sem rebuço e à cara descoberta, se todos os vêem roubar, e o mesmo que os consente e apóia o está vendo: Si videbas furem, que desculpa pode ter diante de Deus e do mundo?”

Algemas para os gatunos

Paulo Roberto Costa demonstrou ser mais sagaz que Marcos Valério. Este confiou demais na turma lulo-petista que lhe acenara com a absolvição ou, ao menos, uma expressiva redução de eventuais penas, caso condenado. Uns dias em cana e, logo logo, estaria livre como um passarinho para desfrutar pacificamente dos cabedais amealhados. O grande azar dele foi trombar com um Joaquinzão no meio do caminho. Duro, áspero, inflexível, corajoso e justo, o ex-ministro Joaquim Barbosa conduziu-se da maneira que todos os brasileiros gostariam de ver operando nos tribunais. Juízes e, não, mamulengos venais comerciando sentenças e favores.

Antes do início do julgamento, Marcos Valério poderia ter lançado mão do instituto da delação premiada. Vacilou, como se diz. Levado na maciota pelos espertos petistas, ficou mudo como um frade de pedra. Quando acordou e vislumbrou que o pau de bosta ficaria na sua mão, tentou delatar a turma e os fatos mas, aí, já era tarde. Resultado: 40 anos de cana, destruição da família e sangria patrimonial que resultaram no fim de sua vida como homem e como cidadão.

Paulo Roberto Costa desconfiou que o destino que lhe estava reservado pela companheirada repetiria a trajetória de Marcos Valério. Os chefões escapariam como sempre fazem (Lula é o exemplo mais notório). O rabo de foguete sobraria mesmo é para ele e sua família. Ninguém viria em seu auxílio, concluiu. Os petistas são animais políticos em seu sentido mais amplo. Solidariedade para eles significa uma relação onde um entra com as costas e o outro com o chicote (e ainda deve pedir desculpas por estar ajoelhado). Na hora do pega pra capar, eles pulam fora e só tentam salvar os seus, e olhe lá. Zé Dirceu, João Paulo e Genoíno que o digam.

Em vista disso, Paulo Roberto Costa resolveu abrir o bico, e contar tudo que sabe sobre as roubalheiras na Petrobrás, na esperança de merecer os favores da legislação. Dados os riscos que corre, dificilmente relataria algo que não pudesse provar. As denúncias publicadas pela revista VEJA, na semana que passou, devem ser complementadas na próxima edição, seguindo velha técnica jornalística de sempre deixar reservado um pouco do material, para ser divulgado depois de armado o fuzuê. Por isso o silêncio ou despiste dos envolvidos. Eles não podem dar explicação ou negar fatos sem saber o que a revista publicará no próximo final de semana. 

O tal Alberto Youssef, doleiro que operava para a turma, que fique velhaco também. É outro candidato a ser vizinho do Marcos Valério, enquanto as lideranças petistas buscarão abrigo com os gentis ministros dos tribunais superiores, conforme todo mundo viu no julgamento do mensalão. Pelo divulgado até o momento, essa gente fez muita merda. O destampar do pinico causará uma comoção nacional, principalmente se o material em estoque naquele for jogado no ventilador. Haverá, no mínimo, se não um dilúvio, ao menos um tsunami de bom tamanho.

Os candidatos adversários do PT e associados deveriam enfeitar o estúdio, onde gravam seus programas eleitorais, com inúmeras algemas e correntes, daquelas que os presidiários americanos usam nos filmes policiais sujeitando as canelas. Peados e algemados, tal é o quadro que o Brasil que presta gostaria de testemunhar. Esse é o pano de fundo da decoração: algemas em todos os lugares; penduradas nas paredes, no teto e em cima das mesas, bem ao alcance das mãos. O povo entenderia perfeitamente a simbologia.     

Objetivo final: a Casa da Moeda

A turma do PT sempre mordeu os cofres públicos. Isso é velho como a Sé de Braga. Mesmo quando seus dirigentes exalavam o ar de santarrões, a plêiade de devotos e sacristãos fazia vistas grossas ao que se passava nos porões palacianos. Os homens são o estilo, parafraseando Buffon. Mas, continuando, não se chega ao governo sem algum treinamento prévio. Claro, ninguém se torna gatuno de um dia para outro, como num passe de mágica. É preciso - é fundamental - que o aprimoramento se dê, passo a passo, para que se tenha garantia de resultados no futuro. 

O inevitável começo se dá nas entidades estudantis e em associações voluntárias. Tal situação primordial opera como se fora um jogo de Banco Imobiliário: compra, venda, troca e aluguel de ativos, com a mediação de dinheiro de pouco ou nenhum valor real.

Em seguida passa-se aos sindicatos e outras organizações de natureza trabalhista e profissional. Agora a coisa esquenta. Numerário do gordo, e garantido, começa a fluir para os ávidos cofres de tais entidades. Articulados nos chamados coletivos, a turma passa a desviar a grana para financiar campanhas eleitorais da companheirada: vereador, prefeito, deputado, senador e presidente da república. Tudo perfeitamente justificável; pois, sindicato não é para lutar? 

Passada essa fase, inicia-se o período de colher o que se plantou anteriormente. A partir do controle de fatias do poder executivo, as tetas da gigantesca e sagrada vaca passam a ser sugadas implacavelmente. Há, agora, uma transformação importante. Não é mais o coletivo o destinatário das propinas inumeráveis, qualquer que seja sua forma ou aparência. 

O fluxo financeiro dirige-se então para o patrimônio privado dos antigos revolucionários e lutadores sociais: apartamentos de luxo, fazendas e boiadas, carros exóticos, lanchas, iates, hotéis e contas secretas no exterior, enfim, tudo que o bom e velho dinheiro pode comprar.

A arraia miúda, no entanto, não é esquecida. Ela necessita ser alimentada para funcionar como massa de manobra na defesa do eficiente modelo. Discursos e palavras de ordem carecem de vozes que os enunciem. Retira-se, então, alguma mixaria das poderosas empresas públicas, a fim de dar um capilé para a turma famélica de militantes de todas as causas, turma que cresce aos borbotões escorada em ONG's multifacetadas.      

Em esquemáticas  palavras, está apresentada a anatomia do fantástico universo de larápios do modelo lulo-petista. As roubalheiras na Petrobrás são apenas um detalhe, assim como o foi a gatunagem no Banco do Brasil, por ocasião do famoso mensalão. Aliás, a bem da verdade, consta que o mensalão desviou algo em torno de R$170 milhões de reais. Um troco, se comparado com os bilhões do petrolão. Há quem fique surpreso com a complexidade operacional do esquema. Seria muito mais eficiente se a turma saqueasse diretamente a Casa da Moeda. Lá eles poderiam imprimir até euros e dólares. É tudo papel colorido mesmo. E ainda contribuiria para sacanear Obama e seus pérfidos aliados neoliberais.


terça-feira, 2 de setembro de 2014

Dona Dilma, a nona passageira

Fernando Pimentel não é o verdadeiro candidato da oposição ao governo de Minas Gerais, tal qual muitos podem imaginar. A suposta novidade, apresentada em melífluas propagandas televisivas, é só uma ilusão, que cabe desvendar, pois pode levar os eleitores mineiros a se comportar como estão fazendo, segundo indicam pesquisas de opinião que apontam Pimentel à frente da disputa estadual. Pimentel é, na realidade o candidato da pior forma de continuidade; a continuidade da corrupção, da incompetência e da mistificação que tão bem caracterizam os governos petistas. 

Pimentel saiu direto dos porões onde foram gestadas as pretensões dele, de Marcelo Crivela, de Alexandre Padilha e de Gleisi Hoffman aos governos estaduais de Minas, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, respectivamente. O palácio do Planalto operou, assim, tal como se conta naquele filme de ficção - Alien, o oitavo passageiro - onde um monstro pavoroso expele seus ovos que, após chocados, geram outros Aliens que vão se alimentar de outros seres vivos, em perpétua multiplicação. 

Dona Dilma - a nona passageira - encastelada na chocadeira palaciana, tenta reproduzir, em alguns dos principais estados da federação, as mesmas estruturas nefastas que caracterizam o lulo-petismo nacional. Não são ovos de uma simples serpente, mas de uma criatura teratológica com assombrosa capacidade para o mal.

Enviou, pois, suas crias para locais onde o petismo nunca houvera antes obtido qualquer vitória. No caso do Rio de Janeiro, fez uma inovação: terceirizou a monstruosidade através de um notório personagem - ex-ministro da Pesca - bispo de conhecida igreja neo-pentecostal, famosa pela devoção, menos ao Divino Mestre que a Anás e Caifás (oh! Senhor, onde estás com Seu chicote purificador?). 

Já em relação a Minas Gerais, Paraná e São Paulo, os escolhidos para comandar a pérfida operação foram os também ex-ministros da Indústria e Desenvolvimento (Fernando Pimentel), da Casa Civil (Gleisi Hofman) e da Saúde (Alexandre Padilha), todos eles filiados ao PT e todos, também, bem alimentados por repulsiva gosma, pois que, afinal, são os favoritos da mamãe Alien. 

Até agora, felizmente, o tenebroso projeto de dona Dilma (em estreita parceria com Lula), deu com os burros n'água no Rio, no Paraná e em São Paulo. Apenas em Minas Gerais, talvez pela soberba dos tucanos mineiros, um dos filhotes da horrenda ET trabalha com alguma perspectiva de vitória.

Caso Fernando Pimentel efetivamente ganhe as eleições para governador, este resultado será muito mais grave para o PSDB local que a derrota de Aécio no plano nacional. Aécio simplesmente não ganharia a presidência, enquanto Pimenta da Veiga perderia o governo que os tucanos controlam há mais de uma década. Não ganhar o que não se tem é uma coisa; perder aquilo que se possui é outra completamente diferente.

Os marqueteiros tucanos, ao que parece, ainda não conseguiram desenhar um novo mapa para responder à mudança do cenário eleitoral, conjuntura que se constituiu com a candidatura Marina Silva, alçada à condição de favorita, quase que incontinenti ao seu lançamento após a morte de Eduardo Campos. 

Se é difícil desconstruir Marina Silva para, então, ocupar o seu lugar (ou o lugar de dona Dilma), não seria difícil fazê-lo com Fernando Pimentel. Para o Brasil, paradoxalmente, seria um desastre se dona Dilma fosse alijada da disputa no segundo turno. Uma aliança dos petistas com Marina daria a ela uma vitória quase que certa. Produziria, no entanto, e esse é o aspecto terrível de não impossível circunstância, uma sobrevida ao PT, frustrando assim, logo no início da nova gestão, o desejo majoritário da nação de se ver livre dessa gente perniciosa que controla o Brasil há doze anos.

Para o bem do povo brasileiro, o ideal seria uma vitória de Marina no primeiro turno. Vitória indiscutível, acachapante, que afastasse possíveis veleidades dos derrotados, em especial da turma de dona Dilma, sempre ávida por uma boquinha.

A tragédia maior ficaria para os mineiros, caso tenham que suportar Fernando Pimentel e a famélica companheirada que, derrotada nos estados mais importantes, mudar-se-ia de mala e cuia para Minas Gerais atrás de alguma sinecura na CEMIG, COPASA e outras empresas controladas pelo governo mineiro. É de interesse público, portanto, que Fernando Pimentel seja derrotado mais uma vez em eleição majoritária.

Para o Brasil ficar livre da metástase emanada do Planalto (com a introdução, em Minas Gerais, dos costumes muito pouco republicanos dos petistas), algumas decisões devem ser tomadas. A primeira é mostrar, sem enrolação, os vínculos de Pimentel com as estripulias típicas de Brasília, demonstrando que Pimentel não representa nenhuma novidade, antes pelo contrário. Sua presença na disputa pelo governo mineiro significa, aí sim, a ameaçadora transfusão, para o corpo político das Alterosas, das mais antigas e detestáveis práticas em que se especializou o petismo. 

Pimentel, como se disso precisasse para ser o craque que é, saiu de Minas Gerais para se aperfeiçoar nas artes em que o lulismo é profissional. Como exemplos, basta conferir os escândalos nas empresas públicas e de economia mista controladas pelo governo federal. 

Pimentel foi o responsável, enquanto ministro da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior, por situações cuja divulgação irão deixá-lo na defensiva. A progressiva desativação da indústria brasileira é denunciada pelos próprios órgãos oficiais, sem falar na perda de parques produtivos (a Fiat, levada a se instalar em Pernambuco, e o polo de acrilatos, antes prometido para Minas e depois transferido para a Bahia), caracterizando uma inequívoca postura anti-Minas Gerais da parte do governo federal. Como ele justificaria, então, para os mineiros, sua candidatura ao governo do estado?  

Acordos e negócios do governo petista com ditaduras africanas - envolvendo recursos do povo brasileiro (BNDES) - estão gravados com o selo de confidencialidade (suas cláusulas secretas só serão conhecidas daqui a décadas, quando todos nós provavelmente já estaremos mortos); tal deliberado ocultamento viola, de cara, preceito constitucional que exige da Administração Pública a obediência a princípios como o da publicidade. 

Qual a razão de esconder do público os termos de negócios financiados com dinheiro da sociedade? Quem ficaria comprometido se o que é secreto for levado à luz? Francamente, segredo em acordos com ditaduras só podem estar a esconder situações suspeitas e, certamente, tisnadas pela corrupção.

As ditaduras africanas não esgotam o festival de explicações que caberia a Fernando Pimentel dar ao povo mineiro. As negociatas com Fidel Castro, o mais longevo ditador da face da Terra, sem falar das tratativas com o chavismo, deveriam também ser postas em debate. 

Enquanto o Brasil sofre com a falta de investimentos em infraestrutura, Cuba mereceu de Pimentel e sua turma os mais generosos recursos para a construção de moderno porto (em Mariel). Não se sabe, aliás, para que serviria tal obra, pois que Cuba nada tem para exportar, a não ser cubanos reduzidos a situação similar à de escravos. 

Ao magnífico porto segue a construção de moderníssimo aeroporto, como igual não há no Brasil. Ora, não haveria em Minas Gerais ninguém capaz de questionar, e indagar, sobre os feitos pouco heroicos do antigo guerrilheiro de festim, companheiro de armas de dona Dilma e Zé Dirceu, que preferiu beneficiar Cuba em vez de favorecer o Brasil? 

Pimentel, caso eleito governador, trará para Minas Gerais o DNA aperfeiçoado do mensalão. O candidato petista é legítimo herdeiro das práticas políticas que estão sendo renegadas em todo o país. De todos os emissários enviados por dona Dilma, para tomar de assalto os governos estaduais mais importantes, Pimentel é o único que representa uma ameaça real aos desejos, compartilhados por todos os brasileiros, de bloquear o acesso aos cofres públicos dos egressos do lulo-petismo. Padilha patina na faixa de 5% de preferência, em São Paulo; Hofman fica nos 12% a 15%, no Paraná; Crivela oscila nos mesmos patamares de Gleisi, no Rio de Janeiro, e Pimentel tem um pouco mais que um terço das intenções de voto, conforme as últimas pesquisas.

A rejeição a dona Dilma e seus cúmplices cresce a cada dia por todos os rincões do Brasil. Seria inconcebível que os mineiros, na contra-mão do sentimento nacional, passassem as mãos na cabeça dessa gente de má fama, quase que lhes dando uma absolvição pelos desatinos políticos que cometeram. A justa e generalizada repulsa provocada pela degradação dos costumes políticos brasileiros (que já não são lá essas coisas), mostram que aqueles que têm o mínimo senso de cidadania devem reagir às pretensões de Dilma e Pimentel. Para o bem do povo, ambos precisam ser derrotados. Minas não pode responder ao repto de Tancredo -  o primeiro dever de Minas é com a liberdade - elegendo um personagem de perfil tão nefasto, em nítida contraposição às gloriosas tradições da mineiridade. A eleição de Newton Cardoso para governador, tempos atrás, já bastou como ilustração, mais que suficiente, das consequências de uma escolha irrefletida.         
      

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Fantasma de Celso Daniel assombra companheiros (publicado no Estadão de 27/08/2014)

"Quem poderia imaginar que na quarta campanha presidencial posterior ao aparecimento do cadáver do prefeito de Santo André licenciado para coordenar o programa de governo da candidatura vitoriosa de Luiz Inácio da Silva, do PT, o fantasma de Celso Daniel deixaria o limbo para assombrar seus companheiros? E, pelo visto, o espírito vindo do além não se limitou a puxar o dedão do pé de uns e outros em sono solto, mas deixou-os a descoberto em pleno inverno. Para sorte deles, este inverno não tem sido tão gélido assim. Mas a alma é fria que só. E como é!

Sábado, em reportagem assinada por Andreza Matais, de Brasília, e Fausto Macedo, este jornal noticiou que a Polícia Federal (PF) apreendeu no escritório da contadora Meire Poza, que prestou serviços ao famigerado doleiro Alberto Youssef, contrato de empréstimo de R$ 6 milhões. O documento, assinado em outubro de 2004, reconhece dívida de tal valor, a ser paga em prestações em 2004 e 2005 pelas empresas Expresso Nova Santo André e Remar Agenciamento e Assessoria à credora, a 2S Participações Ltda. A primeira pertence a Ronan Maria Pinto, empresário do ABC e personagem do sequestro e morte de Celso Daniel, cujo cadáver foi encontrado no mato em Itapecerica da Serra em janeiro de 2002. A 2S pertencia ao publicitário mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por formação de quadrilha, corrupção ativa, lavagem de dinheiro, peculato e evasão de divisas a pena de 37 anos, quatro meses e seis dias e multa de R$ 3,062 milhões.

O elo encontrado pelos federais entre o assassinato do principal assessor de Lula na campanha presidencial de 2002, o escândalo de corrupção do mensalão e as denúncias apuradas na Operação Lava Jato, protagonizadas pelo doleiro acusado de lavar R$ 10 bilhões de dinheiro sujo, estava numa pasta identificada como "Enivaldo" e "Confidencial". A PF supõe que este seja Enivaldo Quadrado, condenado no mensalão.

A investigação em que o juiz federal Sérgio Moro encontrou provas suficientes para mandar prender o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, que substituiu Sérgio Gabrielli na presidência da empresa 24 vezes, apurou que a corretora Bônus Banval não era de Enivaldo Quadrado, mas, sim, de Alberto Youssef. Costa, que o ex-presidente Lula, conforme testemunhos citados no noticiário do escândalo, chamava de Paulinho e teria oferecido ajuda nas investigações em troca de alívio na pena (pelo visto, ele conta até com a eventual liberdade), tem sido motivo de aflição de gente poderosa na República, temendo que suas revelações cheguem a comprometer a realização das eleições gerais de outubro.

O que já se sabe sem sua ajuda é grave. E a entrada em cena do espectro de Celso Daniel - que não é Hamlet, mas já expôs parte considerável da podridão que reina nestes tristes trópicos -, se não alterar o calendário eleitoral, abalará significativamente a imagem de vários figurões que disputam o posto mais poderoso de nossa velha e combalida República.

Em depoimento ao Ministério Público (MP) em dezembro de 2012, também revelado pelo Estado, Valério, chamado pejorativamente de "carequinha" pelo delator Roberto Jefferson, seu colega no banco dos réus do mensalão, contou que dirigentes do PT lhe pediram R$ 6 milhões a serem destinados ao empresário Ronan Maria Pinto. Conforme o depoente, o dinheiro serviria para calar Ronan, que estaria chantageando Lula, o secretário da Presidência, Gilberto Carvalho, e o então chefe da Casa Civil de Lula, José Dirceu. Gilberto Carvalho, conforme se há de lembrar quem ainda não perdeu a memória, tinha sido secretário de Celso Daniel e foi acusado pelos irmãos deste de transportar malas com as propinas cobradas de empresários de ônibus em Santo André para Dirceu, à época presidente do PT.

De acordo com a reportagem do Estado no sábado, há 20 meses "o PT não se manifestou oficialmente, mas dirigentes declararam que ele não merecia crédito". Com a descoberta do documento, contudo, parte da versão de Valério - a que se refere à "dívida", embora não se possa afirmar o mesmo em relação ao motivo desta - deve ter passado a merecer crédito, se não do PT, ao menos da PF. Crédito similar, por exemplo, ao dado pelo partido no poder federal ao chamado "operador do mensalão" quando o mineirinho emergiu como o gênio do esquema de distribuição de dinheiro, que o relator do processo no STF, Joaquim Barbosa, desvendou de maneira lógica e implacável.

O documento assinado por Valério nos papéis da contadora do doleiro acaba com qualquer dúvida, se é que alguém isento e de boa-fé possa ter tido alguma, de que nada há a imputar de político ou fictício à condenação de Dirceu, Valério, José Genoino e outros petistas de escol a viverem parte de sua vida no presídio da Papuda, em Brasília. Isso bastaria para lhe garantir a condição de histórico no combate à corrupção. Mais valor terá se inspirar o MP estadual a exigir da Polícia Civil paulista uma investigação mais atenta e competente sobre a morte de Daniel.

Ao expor a conexão entre o assassinato do prefeito, a compra de apoio ao governo Lula e a roubalheira desavergonhada na Petrobrás, a dívida contraída por Ronan põe em xeque todos quantos, entre os quais ministros do Supremo, retiraram a "formação de quadrilha" da lista de crimes cometidos por vários réus do mensalão. Negar a prática continuada por mais de dez anos de um delito em bando formado pelos mesmos personagens conotaria cinismo e até cumplicidade.

A delação de Paulo Roberto merecerá um prêmio, sim, se ele for capaz de informar quem são os verdadeiros chefões nos três delitos. Acreditar que possam ser um menor da favela, um publicitário obscuro e um doleiro emergente seria como nomear Papai Noel ministro dos Transportes."


(José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor)