terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Raqqa, aqui (Demétrio Magnoli)

(Publicado em 12/12/2015 em O Globo)

"Enquanto, na França, dezenas de milhares saíam às ruas para dizer “Eu sou Charlie”, professores universitários brasileiros saíam de suas tocas para celebrar o terror. Não começou agora: é uma reedição das sentenças asquerosas pronunciadas na esteira do 11 de setembro de 2001. São sinais notáveis da contaminação tóxica de nossa vida intelectual e, especificamente, da célere conversão de departamentos universitários em latas de lixo do pensamento.

A mensagem dos franceses foi um tributo à vida e à civilização. “Eu sou Charlie” não significa que concordo com qualquer uma das sátiras do Charlie Hebdo.

Significa que concordo com a premissa nuclear das sociedades abertas: a liberdade de expressão é, sempre, a liberdade daquele com quem não concordo. Isso, porém, nunca entrará na cabeça de nossos mensageiros da morte.

Seu discurso padrão começa com uma condenação ritual do ato terrorista: “É claro que não estou defendendo os ataques”, esclareceu de antemão uma dessas tristes figuras, antes de entregar-se à defesa, na forma previsível da condenação das vítimas “justiçadas”.

“Não se deve fazer humor com o outro”, sentenciou pateticamente Arlene Clemesha, que ostenta o título de professora de História Árabe na USP, para concluir com uma adesão irrestrita à lógica do terror jihadista. É preciso, disse, “tentar entender” o significado do ataque: “um atentado contra um jornal que publicou charges retratando o profeta Maomé, coisa que é considerada muito ofensiva para qualquer muçulmano”.

Clemesha é só uma, numa pequena multidão acadêmica consagrada à delinquência intelectual. No mesmo dia trágico, Williams Gonçalves, professor de Relações Internacionais na Uerj, esqueceu-se do cínico aceno prévio para expor logo sua aguda visão sobre o “controle social da mídia” e, de passagem, candidatar-se a porta-voz oficial do Estado Islâmico: “Quem faz uma provocação dessas”, explicou, referindo-se aos cartunistas assassinados, “não poderia esperar coisa muito diferente”.

O curioso, nas Clemeshas e nos Gonçalves, é que eles rezam pela mesma cartilha que Marine Le Pen, apenas com sinal invertido. O nome dessa cartilha é “choque de civilizações”.

Na onda de islamofobia que varre a França, surfam dois lançamentos recentes. O livro “Le suicide français”, do jornalista ultraconservador Éric Zemmour, alerta contra a destruição da cultura francesa por vagas sucessivas de imigração muçulmana.

O romance “Soumission”, de Michel Houellebecq, imagina a França governada por um partido islâmico no ano agourento de 2022. Segundo a gramática do “choque de civilizações”, o Islã não cabe na França: um muçulmano só pode ser um francês se, antes, renunciar à sua fé.

Os nossos Gonçalves e Clemeshas estão de acordo com isso –mas preferem que, para acolher os muçulmanos, a França renuncie a suas leis e a seus valores, entre os quais a laicidade do Estado. E, no entanto, apesar de Zemmour, Houellebecq, Clemesha, Gonçalves e Le Pen, milhares de muçulmanos franceses exibiram nas ruas os cartazes com a inscrição “Eu sou Charlie”…

Karl Marx escreveu cartas elogiosas a Abraham Lincoln. Leon Trostsky contou com a colaboração inestimável do filósofo liberal John Dewey para demolir as falsificações dos Processos de Moscou. Entre um evento e outro, o socialista August Bebel qualificou o antissemitismo como “o socialismo dos idiotas”.

Em outros lugares e outros tempos, o pensamento de esquerda confundiu-se com o cosmopolitismo e produziu as mais comoventes defesas das liberdades civis. No Brasil de hoje, com honoráveis exceções, reduziu-se a um pátio fétido habitado por “black blocs” iletrados, mas fanaticamente antiamericanos e antissemitas.

“Não se deve fazer humor com o outro”, está escrito na lápide definitiva que cobre o túmulo do humor. Raqqa, a sede do califado, é aqui. “Eu sou Charlie”.


domingo, 11 de janeiro de 2015

Perguntas para Maha Abdelaziz, professora do Centro Islâmico de Brasília

O jornalista Gabriel Garcia fez quatro perguntas para Maha Abdelaziz, professora do Centro Islâmico de Brasília. Quem se espantar, deve ler novamente as respostas dadas. A dama merece ganhar uma burka.
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1)    Como a comunidade muçulmana avalia os ataques radicais, como o ocorrido na França?
Claro que eu não sou favorável ao terrorismo, à matança, ao derramamento de sangue, mas morrem nove pessoas e o mundo vira de ponta a cabeça. Morreu um milhão de pessoas no Egito, na Síria, na Palestina, em Borno (Nigéria), mas ninguém fala nada. Um dia antes do acontecimento na França, morreram milhares de muçulmanos em Borno. Os muçulmanos estão sendo perseguidos.
2)    Qual a orientação a respeito das críticas feitas à religião?
Não pode haver agressão, não aceitamos que se agrida moralmente ninguém. Isso é uma agressão. Eles (jornalistas do Charlie Hebdo) tiveram um ato violento moralmente. Foi uma crítica moral ao nosso profeta.
3)    Ataques radicais não comprometem a credibilidade muçulmana?
Claro. A religião muçulmana é uma religião da paz. Quando respondi a primeira pergunta, demonstrei indignação com a opinião do mundo. Quando morre meia dúzia de não muçulmanos, o mundo vira de ponta a cabeça, sendo que estão morrendo milhares de muçulmanos e o mundo fica olhando de camarote.
4)    Como separar os muçulmanos fieis, aqueles pacíficos, dos radicais?

Tais termos são plantados para denegrir a imagem dos muçulmanos. Não existe terrorista, radical. Todo mundo tem o sangue quente. Como massacram os muçulmanos no mundo inteiro e não querem uma reação? Cada ação tem uma ação do mesmo tamanho e no sentido contrário. Seria tolo e idiota tanta violência, tanto massacre e ficarmos olhando. Esses ataques que vocês chamam de terrorista é uma resposta a tanta barbaridade que acontece contra os muçulmanos. Nossa religião não incentiva violência, jamais incentiva derramamento de sangue, só que infelizmente essa é a resposta à crueldade. Vocês podem esperar coisa pior.
(Publicado no blog do Noblat, em 11/01/2015)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Imprensa é oposição (em homenagem a Millôr)

Dona Dilma e o PT resolveram provar que possuem algum senso de humor: criaram o dia do humorista (por sugestão, não podia ser outra, de deputado petista do Ceará). A partir de agora, todo 12 de abril será comemorado efusivamente. Todo mundo terá que dar gargalhadas, ao estilo do que se faz na Coréia do Norte. Ai de quem ficar triste... A decisão mostra o tamanho do latifúndio da estupidez reinante. Ponto a favor de Patrus Ananias que vem defendendo a tese da continuidade do latifúndio no Brasil. Patrus tem razão. Ele mesmo é um dos maiores latifundiários da pátria.

Essa gente esquisita não sabe que humor é sempre do contra, não tem como ser enquadrado numa moldura oficial. Só na antiga União Soviética havia humor a favor, A revista Crocodilus era o veículo que, junto com "A Verdade", informavam e divertiam o grande público, com bons modos e respeito, evidentemente. "A Verdade" é a tradução da palavra russa Pravda. A bem da real verdade, nem precisaria haver a tal revista. O jornal porta voz de Stalin já cumpria sua missão duplamente, a começar do título.

Em sua obra "Os órfãos de Jânio", Millôr Fernandes cunhou uma de suas frases definitivas: "Imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados". A formidável ironia do grande pensador brasileiro carece de ser sempre, lembrada. Os tempos de hoje estão carregados de obscurantismo. Só a ironia, a formidável arma de toda a história humana, permite apontar o bunda exposta do rei.

A ironia, afinal, “foi, em todos os tempos, o caráter do gênio filosófico e liberal, o selo do espírito humano, o instrumento irresistível do progresso. Os povos estagnados são todos sérios: o homem do povo que ri está mil vezes mais perto da razão e da liberdade que o anacoreta que reza ou o filósofo que argumenta. Ironia, verdadeira liberdade, és tu que me livras da ambição de poder, da servidão dos partidos, do respeito pela rotina, do pedantismo da ciência, da admiração pelos grandes personagens, das mistificações da política, do fanatismo dos reformadores, da superstição desse grande universo e da adoração de mim mesmo”. 

Nestas “Confissões de um Revolucionário”, Proudhon nos ensina um dos caminhos possíveis para a libertação espiritual. A história humana está recheada dos mais acabados exemplos do uso da ironia: Diógenes, Rabelais, Padre Vieira, Marx e Darcy Ribeiro, para ficar tão somente em alguns ícones do pensamento mundial. Isto para não se referir a Borges e ao maior de todos eles, Jonathan Swift. Em sua Proposta Modesta ele garante que “uma criancinha sadia e bem amamentada é, com um ano de idade, um alimento dos mais deliciosos, nutritivos e saudáveis, quer ensopada, assada ou cozida e, não tenho dúvidas, que ela poderá também ser preparada como fricassé ou ragout”.  Os latifundiários da estupidez não precisam se preocupar. Swift não era canibal, apesar da tentadora sugestão.

Blogueiro saudita açoitado

Jornalistas e opositores devem se cuidar. 

Vai que o governo brasileiro resolve importar a tecnologia saudita?
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DUBAI - Um blogueiro saudita foi sentenciado a 10 anos de prisão 

e mil chibatadas por insultar ao Islã. Raif Badawi será açoitado 

publicamente na sexta-feira na cidade de Jidá, 

na costa do Mar Vermelho, informou uma fonte 

da Associated Press (AP). “Ele está sendo usado como exemplo 

para outros”, disse a fonte. A pessoa, que conversou com a AP 

por telefone nesta quinta-feira sob a condição de 

anonimato, disse que Badawi já informou a sua família sobre 

o açoite. O blogueiro tem três  filhos, de acordo com a fonte.

Segundo a Anistia Internacional, Badawi receberá 50 chibatadas 

por semana, durante 20  semanas. O blogueiro foi sentenciado 

em maio a 10 anos de prisão e mil chibatadas por 

insultar o Islã em um fórum online criado por ele.



(Publicado no jornal O Globo de 08/01/2015)

A mentira como política de estado: lá e cá! (ex-blog do Cesar Maia)


"(Editorial - La Nación, 03) 

1.  A Argentina completará em 2015 três mandatos constitucionais consecutivos dominados pela falsificação, pela fraude e pelo abuso de poder. O dia em que a história decidir descrever o governo, haverá um par de características que as evidências não deixarão margem para diferentes interpretações: a corrupção e a mentira.

2.  Em relação à primeira, será a Justiça que vai finalmente trazer à tona os fatos que permitiram que um governante tivesse um descarado enriquecimento a partir do poder. Vale a pena parar na mentira, que devido a seus extremos de torpeza e falta de cuidado já é evidente aos olhos dos nossos cidadãos e do mundo. Em qualquer caso, a mentira oficial não é algo que requer mais provas do que as que já existem, só que há muitas pessoas que as ignoram, seja por apoio ideológico, interesse ou cooptação populista. Três mandatos constitucionais serão cumpridos sob o império da mentira, o que praticamente permitirá que seja qualificada como uma política de Estado.

3.  Talvez não haja palavras mais apropriadas para caracterizar esta situação, do que as ditas por Václav Havel quando se referia ao regime de seu país: "Levando em consideração que o regime é cativo de suas próprias mentiras, deve forjar absolutamente tudo. Falsifica o passado, falsifica o presente e futuro. Falsifica estatísticas. Finge respeitar os direitos humanos e finge não processar ninguém. Finge não temer nada. Finge não fingir nada”.  A mentira não pode ser apresentada com uma linguagem rocambolesca e incompreensível. Dessa forma cai no ridículo. Deve ser feita de forma agressiva e antecipando o desprezo por aqueles que a contradigam. O governo mentiu e continua mentindo a respeito da inflação, do crescimento e da pobreza. Os resultados fiscais são deformados. O governo mentiu sobre a situação energética escondendo relatórios internos que mostravam a situação de emergência elétrica.

4.  O problema de mentir sistematicamente é que, eventualmente, deixam de acreditar. Quando é feito por um governo intervencionista nada é previsível nem crível para aqueles que precisam de regras claras. Tal é o caso de investidores e qualquer pessoa com uma iniciativa criativa. A mentira oficial não é apenas imoral, mas também é um fator de retrocesso."

Irmãos siameses

Os terroristas que têm agido em diferentes partes do mundo ocidental (especialmente na Europa e na América do Norte), vão dando, a cada momento, provas do que são capazes de lançar mão para saírem vitoriosos. São capazes de tudo, assim como outra antiga e conhecida terrorista, aquela que afirmou recentemente, em alto e bom som, que seria capaz de fazer qualquer negócio para vencer determinada disputa. Esse tipo de gente não possui, de fato, quaisquer limites civilizatórios. Nenhuma interdição os constrange. Faltou-lhes o pai, o castrador que reprime, educa e amansa. São bastardos incuráveis. 

O que se vê agora nos incidentes franceses, assim como ocorre no Brasil, é a operação de um mesmo mecanismo, próprio de mentalidades totalitárias. Partindo de uma presumida representação de interesses - eles, os terroristas, que se imaginam representando o povo, os eleitos, os escolhidos ou que outro nome tenha - partem para as ações mais extravagantes e mais delirantes, sem jamais perguntarem aos representados se estes os identificam e os reconhecem como representantes. Se são rechaçados em suas pretensões, como foi o caso da experiência brasileira ao tempo do regime militar, os terroristas ainda se colocam como vítimas inocentes da repressão sofrida. A pretensão salvacionista só não é maior que a cara de pau da turma. 

Imagine-se certa distopia em momento não muito distante. Os terroristas do Estado Islâmico que barbarizam Paris, após terem assaltado, roubado, sequestrado, assassinado e aterrorizado um sem número de cidadãos ordeiros, passam a exigir do governo uma indenização pelas punições que receberam em função de seus atos reprováveis. Piada macabra se contada na França. No Brasil, entretanto, isso é fato da realidade. Aqui, os terroristas nativos ainda querem ser tratados como heróis e guerreiros do povo brasileiro. Lá, o califa que comanda o Estado Islâmico aplaudiu também, ainda ontem, os facinorosos que mataram os jornalistas do Charlie Hebdo. Não se sabe, ainda, qual lista de jornalistas condenados é maior: a do EI ou a do PT, esses irmãos siameses.   

Terrorismo e totalitarismo: a necessidade de Hannah Arendt

Os últimos acontecimentos em Paris trazem de novo à luz o debate sobre o totalitarismo e suas diferentes manifestações, como é o caso dos atos terroristas contra a liberdade de pensamento. O Brasil não está fora do escopo de tal análise. As forças políticas hegemônicas no país, capitaneadas pelo PT e PC do B e secundadas por miríade de outras organizações de igual ideário identificadas, tão somente, por uma verdadeira sopa de letrinhas (PSOL, PCO, PSTU etc.), buscam implantar obstinada e disciplinadamente um mundo material, político e espiritual que pouco diferiria do existente nos grotões da América, da Ásia e da África.

Talvez estejamos num daqueles momentos cruciais da história onde uma mudança de rumos é claramente observada. Pior que os atos concretos que resultaram no ataque ao jornal parisiense, é possível observar lideranças e intelectuais, de quem se esperaria o mínimo de lucidez, compactuando com o terrorismo e a barbárie, na luta civilizatória entre lápis e canetas contra granadas e fuzis automáticos.

É necessário voltar a ler Hannah Arendt. A serpente já chocou inumeráveis ovos. Faz lembrar o filme Aliens.