sexta-feira, 13 de março de 2015

Domingo é dia (Fernando Gabeira, em 13/03/2015)

Se em três meses de governo Dilma já enfrenta uma crise de credibilidade, com vaias e panelaços, o que imaginar para quatro anos de governo? Em outras palavras: é possível perguntar pela saída num túnel tão longo e agitado?
Se fosse cirurgião político e a crise fosse um corpo humano, minha proposta seria desconectar alguns nervos que entrelaçam economia e política. Isso é quase impossível. Mas não deixa de ser a tarefa correta. Se a crise política continuar interferindo na frágil situação econômica, será mais longo o caminho da retomada, todos sofreremos mais.
O cenário ideal seria aquele em que o Congresso Nacional discutisse as medidas econômicas de manhã e, ao longo do dia e da noite, quebrasse o pau em torno da política, sobretudo da corrupção. Esse idealismo esbarra em obstáculos intransponíveis, como a divergência entre quem manda no Congresso e quem manda no governo.
Na discussão econômica, não seriam escamoteadas as questões políticas. Estamos cortando os gastos de forma adequada? Quais são as correções necessárias no movimento da tesoura?
Quem apenas torce pela recuperação econômica tem medo de que as teses do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, sejam contestadas e prefere não apontar correções. Mas elas podem enriquecer o estreito caminho.
Os cortes terão de ser feitos por um governo de esquerda, é o que temos no momento. Na Grécia, a esquerda chegou ao poder com um projeto de rever o plano de austeridade. Aqui, ela ainda precisa reverter a gastança. É uma etapa anterior, para a qual está pouco preparada.
Mesmo se conseguirmos isolar, parcialmente, a economia, é impossível acreditar que Dilma iria muito longe. O desgaste cotidiano acabará reduzindo seu horizonte.
A conjugação das crises política, econômica e social é uma das mais sérias que conheci nos últimos anos. Dilma acha que não, que estamos exagerando.

Ela afirma que o aumento no preço da energia se deve à seca e omite seus equívocos. Ela diz que a Petrobrás foi assaltada, mas não consegue vislumbrar, pelo menos no seu discurso, como se produziu esse assalto.

Dilma não reconhece as mentiras da campanha. E acredita que as pessoas vão esquecer-se delas com um pouco de manipulação marqueteira.

O PT não reconhece o direito legítimo de protestar contra o governo. Prefere atacar os que protestam: são ricos, são da classe média, burgueses manipulados pela imprensa golpista.

A tática da negação e do confronto alimenta os protestos. É possível que alguém deles saiba disso. Saber alguma coisa dentro do PT é extremamente perigoso. Seguir a cartilha é mais seguro.
Nesse quadro, não vejo outro caminho a não ser uma crise prolongada. Sem capacidade de autocrítica e conciliação, Dilma marcha para uma rejeição mais ampla nas pesquisas.
A manifestação de domingo, com o tema “Fora Dilma”, é uma tentativa de desatar um dos grandes nós da crise: a incapacidade da presidente mais despreparada do período democrático para liderar o processo mais difícil que o Brasil enfrentou nesses 30 anos.
Os teóricos do PT afirmam que a saída de Dilma é um golpe, pois foi eleita para governar até 2018. Nem toda saída é um golpe. Collor, com a ajuda do próprio PT, sofreu impeachment. No período anterior à democratização, Jânio simplesmente renunciou.
Os tucanos rejeitam a tese do impeachment. Não gostam de conflito. Nem os previstos na lei. Argumentam que a sustentação política do governo sofreu um colapso. E mencionam vagamente uma abertura para a sociedade.
Impeachment e renúncia são diferentes de golpe. Intelectuais ligados ao governo têm falado de um ódio contra o PT. De fato, os ânimos se exaltaram. Fala-se de um ódio contra o PT, como se o partido fosse de anjos imaculados. Ninguém analisa o comportamento dos seus quadros no governo ou tenta entender as causas da rejeição.
Segundo alguns deles, o ódio dos ricos existe porque os pobres consomem mais, vão às universidades e viajam de avião. Em outras palavras, a razão do ódio é a nossa virtude solidária.
O máximo que conseguem é isto: circunscrever o processo à oposição ricos e pobres. Se os ricos estão protestando, os pobres deveriam celebrar.

As lentes da ideologia queimam muitos neurônios. Eles supõem que os pobres são ressentidos e darão razão a qualquer governo ao qual os ricos se oponham.

São incapazes de reconhecer a importância do ajuste econômico e apresentar, dentro dele, um viés que realmente atenue o impacto negativo nos setores menos favorecidos. Um programa de cortes teria mais credibilidade se envolvesse alguns gastos do governo, passando pela publicidade, pelas viagens irracionais, pela demissão em massa dos companheiros agregados à máquina do Estado.

Dilma não tem condições de enfrentar a crise. Os intelectuais perderam-se na defesa do governo, foram atropelados, como tantos na História, pelo fascínio da chapa branca.
Não há dentro do PT a energia suficiente para pensar uma saída. Apenas reflexos defensivos, baseados nos instintos mais básicos da esquerda autoritária. Essa estrutura mental, que projeta nos outros a causa do próprio fracasso, é um dos pontos que me deixam pessimista em torno de um diálogo quando a crise for sentida como insuportável.
O PT acredita que está sofrendo uma conspiração dos ricos e da classe média. Mas poucos movimentos na História fizeram tantos líderes ricos e elevaram tantos militantes à classe média.
O problema do momento não é o choque de ricos contra pobres. Gostaria de ver seu espanto quando descobrirem isso. Ou, pelo menos, constatarem que existem milhões de ricos no Brasil.
Domingo ainda não vai revelar tudo. Mas será uma espécie de passagem de ano, um réveillon político de 2015.

Rebelião no MST

Burgueses infiltrados sabotam o MST insuflando as massas à rebelião. A palavra de ordem agora é: chega de marmita. BigMac para todos!




Kit passeata do PT (camiseta vermelha, grana preta e marmitex)
















Transporte gratuito, distribuição de marmita, camiseta e boné, além de um "vale" que variou de 35 reais a 50 reais. Nem a distribuição do "kit protesto" pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), pelo Movimento dos Trabalhadores (MST) e pelos movimentos de sem-teto foi capaz de atrair o público que os aliados do PT esperavam no ato desta sexta-feira na Avenida Paulista, no centro de São Paulo. A passeata foi convocada para tentar se contrapor às manifestações contra a presidente Dilma Rousseff, agendadas para domingo, em 200 cidades do país.

Segundo a Polícia Militar, o auge da marcha reuniu 12 000 pessoas, número bastante inferior aos 100 000 manifestantes que a CUT alardeava que reuniria na capital paulista. O quórum, aliás, só cresceu porque a marcha que partiu da sede administrativa da Petrobras seguiu em direção ao Masp, onde estavam reunidos professores da rede estadual para deliberar sobre o início de uma greve. Como a Apeoesp (sindicato da categoria) é ligada ao PT, muitos professores se juntaram ao grupo. Mas a adesão não foi unânime: a presidente da Apeoesp, Izabel Noronha, conhecida como Bebel no meio sindical, foi vaiada pelos professores ao discursar em defesa da presidente Dilma Rousseff.


A defesa da presidente justamente foi um dos pontos em questão: os grupos que organizaram o ato tentaram emplacar o absurdo lema de "defesa da Petrobras e da reforma política", quando visivelmente os integrantes da marcha foram convocados - alguns pagos - para elogiar Dilma. Outros, sequer sabiam o que faziam no local: há apenas três meses no Brasil, o africano Muhamed Dukurek, de 44 anos, aceitou vestir a camiseta da CUT e carregar um dos balões da central sindical pelo dinheiro. "Disseram que eu ia receber um pagamento de 40 reais a 50 reais", afirmou ao site de VEJA. Falando poucas palavras em português, ele disse que um ônibus foi buscá-lo em sua casa no bairro do Brás, pela manhã. Foi liberado às 17 horas do trabalho na Paulista quando a CUT recolheu os balões.

(Publicado na VEJA eletrônica)

Mulher com bigode, nem o diabo pode...
















Cruz credo!

quinta-feira, 12 de março de 2015

Dias difíceis para Dilma e o PT (editorial do Estadão)



"Dilma e o PT vivem seu inferno astral. Enquanto em Brasília, em depoimento à CPI da Petrobrás, o delator Pedro Barusco desarmava a artimanha petista de transferir a responsabilidade pela corrupção na estatal para o governo de Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo funcionários dos estandes do 21.º Salão da Construção, no Anhembi - faxineiros, marceneiros, recepcionistas, assistentes administrativos, etc. - recebiam com estrepitosa vaia a presidente Dilma Rousseff, que antes da abertura do pavilhão de exposições ao público tentava percorrer os estandes da mostra e viu-se constrangida a mudar de ideia.

O episódio na Câmara frustrou as expectativas petistas de trazer a oposição tucana para o centro do escândalo da Petrobrás e revelou a medida do isolamento a que os companheiros de Lula no Congresso Nacional foram relegados pelos próprios "aliados". Quando vazou o depoimento do ex-gerente da petroleira, prestado à força-tarefa da Operação Lava Jato, em que admitiu que desde 1997 - durante o governo FHC, portanto - recebera propina das empreiteiras, o PT animou-se com a oportunidade de colocar em prática a velha tática: quando não se consegue sair do buraco, atrai-se o inimigo para dentro dele. Barusco manteve-se coerente com seu depoimento anterior, garantindo que em 1997 agiu por conta própria e que o amplo esquema do propinoduto só foi criado a partir do início do governo Lula, "em 2003 ou 2004".

Ninguém da "base aliada" se deu ao trabalho de dar uma ajuda aos petistas, que chegaram quase à histeria na patética tentativa de convencer Barusco a incriminar o governo FHC. Foi mais uma demonstração do alto preço que o governo Dilma e o PT estão pagando por terem imaginado que, respaldados pelo resultado das eleições presidenciais, poderiam tratar os partidos aliados como subalternos a seu serviço.

As vaias do Anhembi, por sua vez, desmontaram o argumento petista de que a oposição a Dilma Rousseff se restringe à "burguesia" e à "classe média alta" - aos brasileiros ricos, enfim. A visita de Dilma ao Salão da Construção foi planejada com cuidado, exatamente para evitar a exposição da presidente a um público hostil em território francamente antipetista. Para evitar contato com os visitantes, agendou-se a visita presidencial para antes da abertura do pavilhão ao público.



Mas não contavam os especialistas do Planalto com a reação das centenas de funcionários das empresas expositoras que já se encontravam no recinto. O resultado foi que Dilma permaneceu apenas cerca de cinco minutos no local e foi levada rapidamente de volta ao carro oficial, que a levou para o auditório onde se realizaria, apenas para convidados, a solenidade de abertura oficial do evento.

E depois de ter sido vaiada pelos empregados no pavilhão, a presidente foi elogiada no auditório pelos patrões que se dispuseram a fazer declarações aos jornalistas.

No discurso de meia hora que fez diante de um público que ocupava apenas metade da plateia, Dilma fez uma pequena concessão à vida real, ao admitir que "é verdade que o Brasil passa por um momento difícil", mas voltou rapidamente a sua visão onírica do País para garantir que "nem de longe vivemos uma crise das dimensões que alguns estão dizendo". E não se estendeu sobre a gênese da crise, preferindo atribuí-la, como de hábito, a circunstâncias "conjunturais".

O episódio do Anhembi deixou alarmada a equipe que acompanhava Dilma. O ministro Thomas Traumann, chefe da Secretaria de Comunicação Social, não disfarçou a irritação ao afirmar que Dilma tinha caído "numa armadilha".

Se armadilha houve, a culpa é dos estrategistas do governo e do PT, entre eles Lula e o marqueteiro João Santana, que recomendaram à presidente que ativasse a agenda de compromissos fora do palácio e de Brasília, para "entrar em contato" com o povo. Pelo jeito esse contato não voltará a ser feito tão cedo em São Paulo.


Na reunião convocada às pressas para aquela noite em Brasília, com a presença de Lula, chegou-se à conclusão de que o episódio do Anhembi foi um fenômeno "paulista". É o novo rótulo inventado para desqualificar as manifestações antigoverno e antipetistas, já que "burgueses" e "classe média alta" não combinam com as fotos do Anhembi fartamente estampadas na mídia".

(Publicado pelo Estadão, em 12/03/2015)

Cagando e andando

João Leão, vice governador da Bahia, num intervalo do agradável e habitual passeio pela orla de Salvador, fez a seguinte declaração, a propósito de sua participação no escândalo do petrolão:

"Não sei por que meu nome saiu. Nem conhecia esse povo. Acredito que pode ter sido por ter recebido recursos em 2010 das empresas que estão envolvidas na operação. Mas, botar meu nome numa zorra dessas? Estou cagando e andando, no bom português, na cabeça desses cornos todos. Sou um cara sério, bato no meu peito e não tenho culpa." 























Após os devidos esclarecimentos continuou o passeio, cagando e andando, como sempre.

terça-feira, 10 de março de 2015

Mãe é mãe (Celso Arnaldo, apud Augusto Nunes)



“Aliás, uma vez uma companheira me disse que essa questão de homem e mulher não tinha problema algum, porque as mulheres eram a maioria, mas a outra parte, a outra parte da maioria, era integrada por homens, todos eles provenientes de uma mulher, e, por isso, ficava tudo em casa: mulher com mulher. Porque os homens podem ter filhas e mulheres, esposas, mas tem necessariamente – aí não é pode, tem, necessariamente – uma mãe”.

Dilma Rousseff, capturada por Celso Arnaldo na cerimônia de tipificação do feminicídio, cometendo um impiedoso matricídio contra a mulher brasileira.