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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Pai dos pobres, mãe dos ricos, amante dos banqueiros

Muita gente se espantava com os críticos que diziam ser o governo Lula um governo do capital financeiro (aí incluídos os fundos de pensão), em aliança com a oligarquia nordestina e a nova classe dirigente nascida no movimento sindical pelego. Os dados abaixo (transcritos parcialmente no que interessa), mostram uma das razões que levaram os "companheiros da pecúnia" a votar gostosamente na continuidade do lulalato. É o dinheiro, estúpido! Sigam-no e chegarão às arcas do destino final. Migalhas restarão, ainda, para o cocho dos bate-paus. As recentes façanhas do PC do B no Ministério dos Esportes, denunciadas nos últimos dias, comprovam isso fartamente.

Ou, como disse o ministro Guido Mantega, tentando esconder a realidade: "Esse é o sucesso do nosso governo. Conseguimos beneficiar a população como um todo. Mais os pobres e menos os banqueiros. Mas nós beneficiamos pobres e banqueiros. Não é uma beleza?”

O cinismo de sua declaração pode ser aferido numa comparação entre o quanto o governo federal transfere de "bolsa-família" para os pobres (algo não superior a R$15 bilhões de reais por ano), e o que ele transfere para os rentistas e banqueiros. Só para estes últimos, nos últimos 8 anos o valor esteve na casa de R$200 bilhões (seria uma espécie de bolsa-agiota?). Quantos são os banqueiros e quantos são os miseráveis que vegetam pelo Brasil afora? Qual seria o valor da grana per capita? Realmente, "é uma beleza". Guido Mantega tem razão. Os críticos têm uma grande má-vontade com o sucesso dos nossos governantes.

"Na Era Lula, lucro recorde dos bancos: R$ 199 bilhões
(Aguinaldo Novo, O Globo)

A era Lula chega ao fim com um recorde na área financeira. O lucro líquido de uma amostra de nove bancos (entre eles, Banco do Brasil, Itaú e Bradesco) somou R$ 174,075 bilhões entre 2003 e 2010, em valores nominais.
Corrigida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), essa cifra pula para R$ 199,455 bilhões, batendo de longe os resultados registrados durante a gestão do tucano Fernando Henrique Cardoso.
As mesmas nove instituições, entre 1995 e 2002, acumularam um ganho nominal de R$ 19,113 bilhões e R$ 30,798 bilhões em valores atuais. A diferença entre os lucros corrigidos pela inflação nos dois períodos é de 550%.
Os números foram compilados pela consultoria Economática, que usou na sua amostra as instituições que já divulgaram os resultados fechados de 2010. A consultoria também mediu a rentabilidade dos bancos.
Durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique, o retorno sobre o patrimônio líquido oscilou entre a mínima de 8,41% (em 2000) e a máxima de 13,98% (1996). Com Luiz Inácio Lula da Silva à frente do Planalto, a rentabilidade mediana nunca foi inferior a 13,08% (2008) e o teto para a amostra estudada chegou a 17,66% (em 2006)."

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Os lucros dos banqueiros

(Deu no Correio Braziliense, em 19/04/2010)

Com Lula, bancos lucram R$ 127, 8 bi


"Sempre que questionado sobre os ganhos espetaculares acumulados pelo sistema financeiro ao longo de seu governo, o presidente Lula sai-se com essa: “Quero mais é que os bancos deem lucro”.

Pois dados consolidados pelo Banco Central, referentes aos sete anos da administração do petista, mostram que as 100 maiores instituições financeiras do país não se fizeram de rogadas. Acumularam, no período, R$ 127,8 bilhões em lucros, o equivalente a 2,3 vezes os R$ 55,2 bilhões gastos pelo Ministério do Desenvolvimento Social por meio do Bolsa Família, programa que ajuda a melhorar as condições de vida de 46 milhões de brasileiros.

Nem mesmo o estrago provocado pela crise mundial foi suficiente para inibir o apetite dos bancos. No ano passado, também segundo o BC, as 100 maiores instituições engordaram o seus cofres com ganhos de R$ 23,2 bilhões, resultado que superou em 26% os retornos de 2008 (R$ 18,4 bilhões). Isso, apesar de o Produto Interno Bruto (PIB), o total de riquezas produzidas pelo Brasil, ter encolhido 0,2% na mesma comparação.

Quem acompanha o mercado de perto avisa: o último ano da gestão Lula será fechado com pompa pelo sistema bancário: os lucros serão os maiores da história, o que poderá ser comprovado quando saírem os números do primeiro trimestre."
OBSERVAÇÃO:
Fernando Pessoa escreveu "O banqueiro anarquista". Está nas suas Obras Complestas (Contos de Aprendiz). Genial e profético, como sempre, o grande poeta português.

terça-feira, 6 de abril de 2010

"Dilma Roussef - entrevistas e comentários"

Os impagáveis comentários do jornalista Celso Arnaldo a partir de entrevista dada pela ex-ministra Dilma Roussef à rádio Jovem Pan - de São Paulo - em 5 de abril de 2010 (publicado no blog do Augusto Nunes).

"Hoje saiu entrevista de Dilma Rousseff no Estadão e, às primeiras horas da manhã, a candidata abriu o verbo para a Jovem Pan ─ foram 56 minutos de conversa. Nenhuma surpresa: emerge dessas entrevistas a mais despreparada candidatura à Presidência da história da República ─ não só por sua notória e desesperadora desarticulação verbal como pela crença inabalável, que a esta altura parece sincera, e portanto psicótica, de que o Brasil moderno mal existia antes de Lula e de que, durante os oito anos do governo FHC, retornou à época das cavernas. Dos 56 minutos, ouvi os primeiros 15 ─ o suficiente para matar a saudade. A resposta de Dilma para uma pergunta sobre o racionamento de energia no governo anterior:

“Olha, eu acredito que houve um problema genuíno naquelas circunstâncias do passado. Entre 2000, 2001 e 2002, o Brasil visivelmente ficou sem energia…O racionamento de oito meses, ele ocorreu.”

Três anos às escuras ─ tão escuro que dava para ver. Perto disso, os oito meses de racionamento foram bastante suportáveis. Indo fundo às causas desse Brasil às escuras do governo FHC, antes de Lula criar a luz, Dilma pergunta e já vai respondendo:

“A questão é a seguinte: cumé que um racionamento, a falta de energia que um racionamento implica, ele acontece? Não acontece de um dia para outro, ele acontece porque você não planejou”.

A esta altura, cada ouvinte da rádio perguntou-se perplexo: “Eu? O que é que eu tenho com isso?” Não, o “você”, no caso, é José Serra ─ ministro do Planejamento de FHC por quase dois anos, mas o cargo era apenas honorífico, segundo Dilma:

“Achava-se que planejar era algo ultrapassado, velho, que não se fazia. É inequívoco que a questão de planejar era um ponto fora totalmente da curva e das expectativas do governo de então”.

Ou seja: Serra, segundo Dilma, achava que planejamento, um ato para o futuro, era uma coisa do passado e, ainda por cima, desgovernado, derrapando na curva. Mas Dilma não quer culpar diretamente ninguém ─ a disputa eleitoral deve ser travada em alto nível:

“Num houve propriamente uma falha ─ houve uma falha, porque tem isso também… Houve uma falha de 8 meses, sistemática”.

Mais um mês e a falha dava luz. Mas, para Dilma, a coisa foi feia:

“Não existia energia… por isso teve de botá cidades às escuras, você não podia ter empresas abrindo novas filiais.”

Então uma comentarista da Pan dá um apertão na candidata sobre o atraso nas obras do PAC 1. Dilma admite alguns problemas ─ em termos.

“Nós tivemos vários problemas na execução do PAC. Primeiro porque não existiam projetos no Brasil, né? Nós tivemo que fazê os projetos. Muitas vezes a imprensa até me perguntava assim: vocês não conseguem tirá o PAC do papel! Eu falei não, o problema não é esse, nós temo de botá o PAC no papel pra ele podê saí do papel, porque botá no papel é fazê o planejamento dele, né?”

Perfeito, ficou claro que pra tirá tem de botá ─ isso vale para quase tudo na vida. Mas Dilma dá exemplos práticos de que o PAC saiu, sim, do papel. E ancorou em porto seguro:

“Acabamo com aquela história de a cada ano ocê licita e aí dá uma arrumadinha no porto… Nós fizemos contratos de dragagem mais ou menos em quase todos os grandes portos do país… isso significa também que agora ocê tem dagagem (sic), primero cê draga e depois cê contrata a manutenção de quem dragou”.

Mas não importa o PAC. O governo Lula investiu em todos os setores da economia mais do que todos os governos desde Deodoro da Fonseca. E a menina dos olhos de Dilma são os projetos de urbanização dos morros cariocas:

“Voltamo a investi em urbanização de favelas, que é condição procê pacificá áreas em que antes ninguém entrava, nem a polícia, só o tráfigo (sic).“

O domínio do tráfigo, hoje extinto no Rio, era dramático: antes de Lula investir no Morro do Alemão, por exemplo, havia congestionamento de traficantes.

Welcome back, Dilma!!!"

CELSO ARNALDO

Um leitor acrescentou os seguintes comentários ao texto de Celso Arnaldo (após denominar o estranho discurso de Dilma Roussef de “dilmês”):

“A sintaxe do dilmês continua, digamos, peculiar: a idéia central (ou coisa que o valha) de cada frase depende da repetição de duas, três e até quatro vezes da palavra que a descreve. Exemplos:

FALHA: “Num houve propriamente uma falha ─ houve uma falha, porque tem isso também… Houve uma falha de 8 meses, sistemática”.

PAPEL:“Nós tivemos vários problemas na execução do PAC. Primeiro porque não existiam projetos no Brasil, né? Nós tivemo que fazê os projetos. Muitas vezes a imprensa até me perguntava assim: vocês não conseguem tirá o PAC do papel! Eu falei não, o problema não é esse, nós temo de botá o PAC no papel pra ele podê saí do papel, porque botá no papel é fazê o planejamento dele, né?”

DRAGAGEM/DRAGAR:“Acabamo com aquela história de a cada ano ocê licita e aí dá uma arrumadinha no porto… Nós fizemos contratos de dragagem mais ou menos em quase todos os grandes portos do país… isso significa também que agora ocê tem dagagem (sic), primero cê draga e depois cê contrata a manutenção de quem dragou”.

Para o leitor/ouvinte desprevenido como eu, passa a sensação de alguém que tenta colocar um raciocínio em movimento da mesma forma que faz um carro pegar no tranco. Com a desvantagem de não conseguir dosar a embreagem.

Na falta perene de conteúdo, o dilmês se socorre nesta forma de transformar palavras simples (falha, papel, dragagem) em bordões. O tom monocórdico também não ajuda e me faz lembrar a versão dublada de “E.T”, quando o alienígena pede ao Elliot: “E.T… telefonar… casa”. Pensando bem, talvez a semelhança entre os dois personagens não seja coincidência.

Dado o curta capacidade discursiva da bichinha alienígena, perdão, palanqueira, tenho curiosidade em saber qual será o inexorável recurso baixo que os ideólogos do partido irão utilizar em breve para manter viva a chama eleitoreira dos cumpanhêros: dossiês aloprados, boatos de privatização, pesquisas manipuladas, etc. O arsenal deles infelizmente é grande.”

segunda-feira, 22 de março de 2010

"Se ouvisse Arias em vez de Lula, Obama não teria quebrado a cara"

(Tanscrito do blog do Augusto Nunes, de 21/03/2010)

"Barack Obama precisou de uma crise política em Honduras, reincidências atômicas no Irã, um pedido de socorro formulado por presos políticos cubanos e aparições da comitiva brancaleônica no Oriente Médio para descobrir o tamanho do engano cometido em abril de 2009, na Cúpula das Américas de Trinidad-Tobago. O presidente americano desembarcou para a apresentação de estreia no clube dos cucarachas com pouca informação e muita pressa. Fez uma escolha errada ainda no primeiro dia e retornou a Washington sem corrigir o equívoco tremendo.

Se conhecesse a cabeça de Lula, teria evitado dizer qualquer coisa que permitisse ao intérprete do Itamaraty jurar ao presidente brasileiro que, segundo o novo inquilino da Casa Branca, ele era o cara. Se tivesse tempo para ouvir com a merecida atenção o discurso de Oscar Arias em Trinidad-Tobago, Obama talvez entendesse de imediato que o cara era aquele. Para tanto, bastaria pinçar alguns trechos e confrontar o que disse o presidente da Costa Rica com o falatório de Lula. Como atestam os pontos de vista abaixo resumidos, cinco temas seriam suficientes para uma comparação muito reveladora:

EDUCAÇÃO

ARIAS : A escolaridade na América Latina ─ 7 anos, em média ─ é inferior ao da maioria dos países asiáticos, dos Estados Unidos ou do Canadá, que têm o melhor sistema educacional do mundo, similar ao dos europeus. Esse tempo é insuficiente. De cada 10 estudantes latino-americanos que chegam ao curso secundário, só um consegue concluí-lo. Não estamos educando corretamente nossos filhos.
LULA: Ninguém melhor que o Amador Aguiar, que virou dono do Bradesco sem ter estudado, para provar que a inteligência é uma coisa à parte, e a universidade é apenas o aumento do conhecimento que as pessoas precisam ter sobre determinadas coisas específicas. No Brasil se adquiriu o hábito de confundir título universitário com sabedoria, título universitário com inteligência, o que é uma coisa descabida.

UNIVERSIDADE E DESENVOLVIMENTO

ARIAS: A América Latina já tinha universidades quanto surgiram as primeiras dos Estados Unidos. Mas nossas universidades parecem estacionadas nos anos 60, 70. Parecemos ter esquecido que o Muro de Berlim caiu em 9 de novembro de 1989 e que o mundo mudou. Continuamos a discutir sobre todos os “ismos”. Ainda discutimos se o melhor é capitalismo, socialismo, comunismo, liberalismo, neoliberalismo, socialismo-cristâo. Os asiáticos encontraram no fim do século passado um “ismo” muito mais realista para o século XXI: pragmatismo. Desde 1979, os chineses crescem a 11%, 12% ou 13%, e livraram da pobreza 300 milhões de pessoas. Enquanto isso, continuamos a discutir ideologias que devíamos ter enterrado há muito tempo.
LULA: Ninguém criou mais universidades que o torneiro-mecanico analfabeto que foi eleito presidente. (…) É importante que os universitários tenham sua ideologia, seus ideais. Isso é uma coisa muito pura. (…) O neoliberalismo quase acabou com o Brasil. (…) Nossa economia vai continuar crescendo porque isso é coisa do destino.

CARGA TRIBUTÁRIA

ARIAS: Nós temos países cuja carga tributária é de 12% do Produto Interno Bruto. É um índice absurdo, e não sabemos cobrar das classes realmente mais ricas o dinheiro devido.
LULA: Tem gente que vive reclamando da nossa carga tributária de 34% do PIB. Não imaginem um país com carga tributária fraca. Não tem país no mundo em que o Estado possa fazer alguma coisa que não tenha uma carga tributária razoável. Todos nós queremos pagar menos impostos e todos nós queremos melhores serviços, e é incompatível essa dádiva de Deus de menos impostos e mais serviços.

ORÇAMENTO/INVESTIMENTOS

ARIAS: Não é possível que a América Latina esteja gastando 50 bilhões de dólares com armas e soldados. Não faz sentido países desperdiçarem tanto dinheiro com despesas militares. Nossos inimigos reais são as carências do sistema educacional, o analfabetismo, a má saúde dos nossos povos, a falta de cuidados com a preservação ambiental, a falta de investimentos em infra-estrutura, a escassez de rodovias, portos e aeroportos, a desigualdade social vergonhosa.
LULA: Durante vinte anos, as Forças Armadas foram sucateadas, os equipamentos envelheceram. Isso precisa ser substituído, modernizado. (…) E se alguém resolver, por exemplo, invadir o pré-sal? (…) O Brasil, na década de 70, tinha empresas modernas, que produziam tanques, um monte de armas para as Forças Armadas. Isso foi desmontado, e nós queremos recuperar. (…) O que falta fazer de obra será feito pelo PAC. É o programa administrativo mais perfeito que já existiu neste país.

AMÉRICA LATINA E EUA

ARIAS: Não podemos culpar os Estados Unidos pelos nossos males passados, presentes e futuros. Alguma coisa os latino-americanos fizeram e continuam fazendo de errado.
LULA: Os Estados Unidos deveriam ter uma política mais pró-ativa para a América Latina. (…) Nunca antes neste país um presidente fez as coisas tão certas como eu estou fazendo.


Obama demorou quase um ano para descobrir que Lula era só mais um asterisco na História ─ e que Oscar Arias é um dos raros sinais de vida inteligente na América Latina. O noviço americano errou de cara. Quebrou a cara."

sábado, 20 de março de 2010

"A VERDADE COLETIVA DE LULA" - Estadão, em 20-03-2010


"No episódio que abalou a imagem do presidente - o símile entre presos cubanos em greve de fome e bandidos - não sigo os revoltados pelas suas frases. Agradeço por ele usar uma verdade insofismável sobre a sua atitude mental. Desconfio dos que, na tentativa de manter aparências, dizem ter Luiz Inácio da Silva cometido um "escorregão". Se falam de escândalo, talvez acertem. O termo "escândalo" vem do grego "skadzein", cujo significado é "mancar". Ninguém nega que o presidente tenha "mancado" ao perder o freio decoroso na língua. Ele, no entanto, abriu sua alma, exibindo diante do Brasil e do mundo a ideologia que de fato o move.

O público já testemunhou outras distrações do hoje presidente. Em histórica fala a um jornal paulista, ele proclamou que "a liberdade individual está subordinada à liberdade coletiva. Na medida em que você cria parâmetros aceitos pela coletividade, o individualismo desaparece. Ou seja, não há razão para a defesa da liberdade individual. O que você precisa é criar mecanismos para que a grande maioria da comunidade possa participar das decisões" (Lula, 4/1/1986). E acrescentou: "A capacidade de você atender aos desejos individuais sem que isso prejudique os interesses coletivos é uma questão sobre a qual tenho dúvidas. Precisamos promover esta discussão dentro do PT."

Segundo os debates partidários, amigos transformam-se em inimigos do coletivo ideado pelos petistas. "Você pode excluir o grande empresário, a multinacional, mas você precisa discutir se vai excluir o pequeno e médio proprietário do campo e da cidade."

"Eu não quero", disse o sindicalista, "ser o dono da verdade, o senhor da razão". A tolice torna-se ameaçadora no complemento da frase: "Eu tenho uma verdade que está subordinada à verdade coletiva." Treblinka, Auschwitz, o Gulag e Cuba resultam de tais "verdades coletivas". Segundo aquela doutrina, um preso político cubano só pode ser bandido, pois vai contra a verdade, propriedade do Estado.

A exclusão dos inimigos (todos os que não se encontram no partido) se enraíza na cultura petista. Mas após derrotas acachapantes, aconselhado por especialistas em marketing político, Lula maquiou a fala dogmática. Chegaram as alianças eleitorais, a persuasão dirigida aos setores médios e, last but not least, o elo com setores da imprensa. Assustar o grande empresário, a multinacional, além do pequeno e médio proprietário do campo e da cidade, perceberam os petistas, era receita de fracasso. Surgia o esboço do "Lulinha paz e amor" e da Carta ao Povo Brasileiro.

Líderes como Antônio Palocci ensaiaram privatizações "neoliberais" em seus domínios. O aço totalitário se cobria com o chantilly propagandístico. Era superada a era das pizzarias e padarias para o PT. Começava o tempo dos bons restaurantes, das garrafas de Romanée Conti. Oligarcas passaram a ser convidados de honra no convescote: Antonio Carlos Magalhães, José Sarney e outros receberam novos títulos, pois garantiam a governabilidade...

A encenação convenceu. Grandes empresas, multinacionais, pequenos e médios proprietários, boa parte da imprensa, todos azeitados pelos dividendos de uma política econômica antes execrada no petismo, aplaudiram o "novo PT". Com as loas ao suposto bom senso, carisma e quejandos de Luiz Inácio da Silva, entoadas no Congresso pela oposição, veio o apoio às iniciativas governamentais na economia e adjacências. Quanto maior o sucesso entre os antigos inimigos, maior o cinismo dos petistas em relação a si mesmos. Discutir a divida externa, romper com o Fundo Monetário Internacional (FMI), controlar o capital estrangeiro? Bravatas. Política radical e socialista? "Nunca fui de esquerda", asseverou o líder, aplaudido em delírio.

Passaram os dias e, arrogantes, seguros de manter o mando, os petistas começaram a soltar os demônios reprimidos. Já no episódio do "mensalão" sobraram raios e trovões contra a "imprensa burguesa", os empresários, os promotores públicos. Mas o presidente foi à TV e pediu desculpas, dizendo não saber a causa de suas escusas. Agora confessa: sabia. Chegaram os aloprados, os projetos de mordaça na mídia, a defesa de Sarney a todo custo (inclusive ao preço da censura, como no caso deste jornal) e as unhas ideológicas apareceram, somadas aos caninos.

Lenta e inexorável, ressurge a busca de uma hegemonia ditatorial mantida pelos escravos voluntários, os militantes. Estes tudo fazem para garantir o poder aos donos do partido. Quanto mais seguros de que ficarão no Planalto por mil anos, maior a grosseria dos ataques contra quem não dobra espinha e ouvido às ordens palacianas.

Os cosméticos tombam da face governamental. A lógica de Luiz Inácio da Silva é a mesma, desde 1986. Naquela época importava defender os direitos humanos (nunca incluídos os presos de Cuba) para manter a coesão interna do PT, no qual ombreavam stalinistas e católicos, trotskistas e adeptos da ecologia. Os religiosos defenderam os direitos humanos contra a ditadura, foram adversários das violações em todos os países e sob qualquer ideologia. Quem defende direitos não escolhe ideologia a ser protegida. Mas, com a chegada do PT ao poder, os católicos desembarcam do navio. Ficam os adeptos da razão cabocla de Estado.

A fala do presidente contra os presos cubanos, assimilando-os a bandidos, tem uma gênese mais ampla do que o PT. Ela se enraíza nas purgas nauseantes, como nos Processos de Moscou, em 1936. Ali não existiam dissidentes, mas terroristas. Só possui direito quem se abriga à sombra do partido. O resto é inimigo e... bandido.

Obrigado, Lula, por desvelar o que sempre esteve em seu íntimo. E por nos advertir sobre o que virá nos próximos dias."

ROBERTO ROMANO

"FILÓSOFO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA NA UNICAMP, É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE "O CALDEIRÃO DE MEDEIA" (Ed. Perspectiva)"

domingo, 14 de março de 2010

"A colisão entre um político sem grandeza e um estadista"

"Traídos pela indiferença ultrajante do Itamaraty, afrontados pela infame hostilidade do presidente da República, presos políticos cubanos e dissidentes em liberdade vigiada endereçaram ao presidente da Costa Rica o mesmo pedido de socorro que Lula rechaçou. Fiel à biografia admirável, Oscar Arias nem esperara pela chegada do apelo (que o colega brasileiro ainda não leu) para colocar-se ao lado das vítimas do arbítrio. Já estava em ação ─ e em ação continua.

Neste sábado, Arias escreveu sobre o tema no jornal espanhol El País. O confronto entre o falatório de Lula e trechos do artigo permite uma pedagógica comparação entre os dois chefes de governo:

LULA: “Lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer por fazer uma greve de fome. Vocês sabem que sou contra greve de fome porque já fiz greve de fome”.

ARIAS: “Uma greve de fome de 85 dias não foi suficiente para convencer o governo cubano de que era necessário preservar a vida de uma pessoa, acima de qualquer diferença ideológica. Não foi suficiente para induzir à compaixão um regime que se vangloria da solidariedade que, na prática, só aplica a seus simpatizantes. Nada podemos fazer agora para salvar Orlando Zapata, mas podemos erguer a voz em nome de Guillermo Fariñas Hernández, que há 17 dias está em greve de fome em Santa Clara, reivindicando a libertação de outros presos políticos, especialmente aqueles em precário estado de saúde”.

LULA: “Eu acho que a greve de fome não pode ser utilizada como pretexto para libertar pessoas em nome dos direitos humanos. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade”.

ARIAS: “Seria perigoso se um Estado de Direito se visse obrigado a libertar todos os presos que decidirem deixar de alimentar-se. Mas esses presos cubanos não são como os outros, nem há em Cuba um Estado de Direiro. São presos políticos ou de consciência, que não cometeram nenhum delito além de opor-se a um regime”.

LULA: “Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos”.

ARIAS: “Não existem presos políticos nas democracias. Em nenhum país verdadeiramente livre alguém vai para a prisão por pensar de modo diferente. Cuba pode fazer todos os esforços retóricos para vender a ideia de que é uma “democracia especial”. Cada preso político nega essa afirmação. Cada preso político é uma prova irrefutável de autoritarismo. Todos foram julgados por um sistema de independência questionável e sofreram punições excessivas sem terem causado danos a qualquer pessoa”.

LULA: “Cada país tem o direito de decidir o que é melhor para ele”.

ARIAS: “Sempre lutei para que Cuba faça a transição para a democracia. (…) O governo de Raúl Castro tem outra oportunidade para mostrar que pode aprender a respeitar os direitos humanos, sobretudo os direitos dos opositores. Se o governo cubano libertasse os presos políticos, teria mais autoridade para reclamar respeito a seu sistema político e à sua forma de fazer as coisas”.

LULA: “Não vou dar palpites nos assuntos de outros países, principalmente um país amigo”.

ARIAS: “Estou consciente de que, ao fazer estas afirmações, eu me exponho a todo tipo de acusação. O regime cubano me acusará de imiscuir-me em assuntos internos, de violar sua soberania e, quase com certeza, de ser um lacaio do império. Sem dúvida, sou un lacaio do império: do império da razão, da compaixão e da liberdade. Não me calo quando os direitos humanos são desrespeitados. Não posso calar-me se a simples existência de un regime como o de Cuba é uma afronta à democracia. Não me calo quando está em jogo a vida de seres humanos só por terem contestado uma causa ideológica que prescreveu há anos. Vivi o suficiente para saber que não há nada pior que ter medo de dizer a verdade”.

Oscar Arias é um chefe de Estado. Lula é chefe de uma seita com cara de bando. Arias é um pensador, conhece a História e tenta moldar um futuro mais luminoso. Lula nunca leu um livro, não sabe o que aconteceu e só pensa na próxima eleição. Arias é justo e generoso. Lula é mesquinho e oportunista. Arias se guia por princípios e valores. Lula menospreza irrelevâncias como direitos humanos, liberdade ou democracia.

O artigo do presidente da Costa Rica, um homem digno, honra o Nobel da Paz que recebeu. A discurseira do presidente brasileiro, um falastrão sem compromisso com valores morais, tornou-o tão candidato ao prêmio quanto Fidel, Chávez ou Ahmadinejad. A colisão frontal entre o que Lula disse e o que Arias escreveu escancarou a distância abissal que separa um político sem grandeza de um estadista."

(Publicado no blog do Augusto Nunes em 14-03-2010).

quinta-feira, 11 de março de 2010

"Passou do limite" - Editorial FSP de 11-03-2010

NÃO PARECE demais, em nome do registro histórico, reproduzir mais uma vez as palavras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista à Associated Press:

"Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba. A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade".

A declaração é escandalosa -mesmo para os padrões de Lula, que habituou os brasileiros a seus disparates. Lembre-se, por exemplo, quando disse, ainda em 2003:

"Quem chega a Windhoek [capital da Namíbia], não parece que está num país africano. Poucas cidades do mundo são tão limpas e bonitas arquitetonicamente quanto esta".

Desta vez, porém, a manifestação não se reveste de nenhuma graça, tosca que seja. E não pode ser atribuída a mais um entre tantos deslizes de quem abusa dos improvisos, não esconde o orgulho por falar errado e se diverte com as gafes que comete. Não. Lula, este personagem satisfeito com as suas próprias precariedades, desta vez passou dos limites na agressão aos valores democráticos.

Vejamos mais de perto a escalada de impropriedades: Lula endossa uma ditadura que reprime a divergência de opinião. Prega "respeito" pela legislação cubana, que autoriza a prisão de pessoas cujo crime é dar sinais de "conduta manifestamente em contradição com as normas da moralidade socialista".

A seguir, avança outra casa ao qualificar os direitos humanos de "pretexto" dos presos políticos que fazem greve de fome. Pretexto? Em 2003, o governo cubano fuzilou três dissidentes que tentaram fugir do país. Outros 75 opositores foram presos, entre os quais Orlando Zapata. Condenado inicialmente a três, ele teve sua pena ampliada para mais de 25 anos de prisão. Morreu após uma greve de fome, no dia em que Lula chegou à ilha, semanas atrás, para visitar Fidel Castro pela quarta vez.

Surpreendido por jornalistas, primeiro alegou desconhecer o apelo que entidades defensoras dos direitos humanos haviam feito para que intercedesse por Zapata. Limitou-se, a seguir, a lamentar que "um preso se deixe morrer por greve de fome".

Como disse ontem à Folha o jornalista e dissidente cubano Guillermo Fariñas, também em greve de fome: "Lula demonstra seu comprometimento com a ditadura dos Castro e seu desprezo com os presos políticos".

Nada supera, porém, o escárnio da conclusão presidencial: os presos políticos da ditadura cubana são equiparáveis aos presos comuns de um país democrático, no caso o Brasil. "Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade."Imaginemos, nós, com mais razão, que tal aberração a serviço da defesa de um regime homicida não seja apenas um tropeço, mas, antes, a revelação do real apreço de Lula pela democracia.

quinta-feira, 4 de março de 2010

"FOTOGRAFIAS DE HAVANA" - Demétrio Magnoli

"David Nicholl, um neurologista britânico, coordenou em 2006 a campanha internacional da comunidade médica contra a alimentação forçada de prisioneiros na base americana de Guantánamo. Ele explicou que, nos EUA e na Grã-Bretanha, as regras de ética médica proíbem tal prática. Em Cuba, a ética médica, como tudo mais, oscila ao sabor da vontade do Partido-Estado e ninguém inseriu tubos alimentares em Orlando Zapata, o preso político que morreu após 85 dias de greve de fome. Um artigo do Granma, o jornal oficial castrista, responsabilizou os EUA e os dissidentes cubanos pelo desfecho. Lula, em visita a Cuba, lamentou que “uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome”, algo equivalente a culpar a própria vítima. Marco Aurélio Garcia preferiu banalizar o mal, explicando com sua peculiar cupidez que “há problemas de direitos humanos no mundo inteiro”.

Essa gente não tem vergonha na cara?

A linguagem da ditadura militar no Brasil era idêntica à do regime cubano e de seus bonecos de ventríloquo brasileiros. Vladimir Herzog morreu em virtude de seus atos subversivos e, no fundo, por responsabilidade do “comunismo internacional”. Herzog era qualificado como um “terrorista”, mesmo se nunca cometeu um ato de violência, tanto quanto Zapata era qualificado como um “mercenário”. Lula et caterva estão ecoando as vozes dos tiranos “de direita”, quando reverberam as sentenças dos seus amigos tiranos “de esquerda”. As coisas que disseram em Havana constituem uma desgraça nacional. Eles falam sobre nós: nossa história e nosso passado recente. O inefável Marco Aurélio Garcia mencionou Guantánamo, como Dilma Rousseff mencionara Abu Ghraib para “normalizar” a selvagem repressão em curso no Irã. Anos atrás, nos tempos de George Bush, o governo Lula esquivava-se de tocar nesses temas melindrosos. O silêncio, agora se sabe, não derivava da covardia, mas de uma forma obscena de esperteza: eles guardavam Guantánamo e Abu Ghraib num cofre, como uma apólice de seguro para o futuro. Os parasitas da tortura de Bush usam hoje aquela apólice para desculpar as violações de direitos humanos de seus aliados ideológicos ou circunstanciais.

Essa gente não tem nenhum princípio?

Meses atrás, o ex-senador Abdias do Nascimento, dirigente histórico do movimento negro no Brasil, enviou uma carta de protesto contra o encarceramento do médico cubano e ativista de direitos humanos Darsi Ferrer, que iniciara greve de fome pelo reconhecimento de sua condição de preso político. A carta tinha como destinatários Raúl Castro, Lula e o próprio Ferrer, a quem Abdias suplicava que desistisse da greve de fome. Cuba continuou a recusar o estatuto de preso político ao ativista e não se conhece nenhuma manifestação de Lula a respeito. Ferrer, contudo, atendeu à súplica de Abdias. Agora, no caso de Zapata, Lula criticou a opção do prisioneiro pela greve de fome, mas esqueceu-se de mencionar a reivindicação que o movia, igual à de Ferrer.

Nosso presidente não atina para o que acontece em Cuba?

Fidel Castro alcançou notoriedade no dia 26 de julho de 1953, quando comandou um ataque frustrado ao quartel Moncada, em Santiago de Cuba, numa tentativa insurrecional contra a ditadura de Fulgêncio Batista. O jovem Castro foi sentenciado a 15 anos de prisão e enviado ao cárcere da Isla de Pinos, reservada a presos políticos, onde permaneceu menos de dois anos, até ser beneficiado por uma anistia geral. Na Cuba dos Castro, Ferrer, Zapata e duas centenas de outros presos políticos que jamais participaram de levantes armados são declarados criminosos comuns. Zapata morreu para não ser obrigado a usar um uniforme de criminoso. Ele foi assassinado por uma ditadura pior que a de Batista, avessa aos princípios elementares de respeito à dignidade humana.

Lula não é capaz nem ao menos de pedir que os irmãos Castro, seus amigos do peito, concedam aos dissidentes encarcerados o direito ao rótulo de presos políticos?

Laura Pollán entregou a Fidel Castro, dois anos atrás, o livro Enterrados Vivos, escrito por seu marido Héctor Maseda, um dos 75 dissidentes sentenciados na Primavera Negra de 2003. O gesto lhe custou o emprego, mas assinalou a criação da organização Damas de Branco, formada por parentes de presos políticos. Enquanto Lula divertia os irmãos Castro, fotografando-os e rindo como uma hiena, Laura carregava uma alça do caixão de Zapata e abraçava em silêncio a mãe do dissidente morto. Dias antes, ela ajudara a encaminhar uma mensagem de presos políticos cubanos solicitando uma palavra do presidente brasileiro em favor da vida do prisioneiro que jogava sua cartada final. O pedido ficou sem resposta, mas não faltou uma ofensa equilibrada sobre os pilares simétricos da covardia e do cinismo: “As pessoas precisam parar com o hábito de fazer carta, guardar para si e depois dizer que mandaram.”


A ditadura castrista não matou Zapata quando decidiu não alimentá-lo à força, mas bem antes, ao recusar-lhe o estatuto de preso político, um santuário simbólico da dignidade dos que sacrificam a liberdade pessoal em nome de poderosas convicções. Os assassinos estão cercados de cúmplices, que são os líderes políticos e os intelectuais “amigos de Cuba”. No passado ainda recente da guerra fria, nenhuma voz poderia demover o regime de Havana da decisão de fuzilar ou enterrar vivos aqueles que ousavam denunciar o totalitarismo. Hoje, a clique anacrônica aferrada ao poder absoluto num sistema social em decomposição só pode matar na redoma fabricada pela cumplicidade dos “companheiros de viagem”.

Zapata morreu não porque Lula não disse nada. Ele morreu porque os intelectuais disponíveis para firmarem um abaixo-assinado contra o editorial equivocado de um jornal brasileiro não estão disponíveis para contrariar a “linha justa” do Partido.

Com que direito todos eles ainda usam o nome dos direitos humanos?"

sábado, 28 de novembro de 2009

DA MESMA LAIA (publicado no jornal "O Tempo", de Belo Horizonte, em 28/11/2009)

"Os outros presidentes são todos da mesma laia!" O autor da frase é ele mesmo. Sim, é ele, o atual presidente da República, Lula da Silva, que assim se referiu aos seus antecessores em evento recente na capital mineira. Nem é preciso ir a um dicionário para saber que laia é uma palavra depreciativa sobre alguma característica comum a um grupo de pessoas. Mais do que um arroubo eventual em linguagem de sarjeta, no entanto, a assertiva presidencial mostra ao grande público a forma habitual de pensar de um homem carente de qualquer estofo espiritual. Carência, aliás, não só dele, como, também, daqueles que o cercam e o seguem caninamente.

Não é de se estranhar, então, que a vulgaridade esteja mais presente em sua língua do que a própria saliva. A coleção de desatinos daria para fazer um dicionário político-pornográfico. Do ponto de vista político, a forma lulesca de conceber o mundo (dividido, segundo seus acólitos, entre "nós" e "eles") mostra a incrível persistência de uma concepção de origem stalinista, mesmo após aquela sangrenta ditadura comunista ter-se dissolvido no tempo.

Pois não é que Lula, Zé Dirceu e Dilma (para ficar apenas nos nomes mais notórios) desenterraram do museu das perversões históricas a teoria de Jdanov? Esse tal de Jdanov, ex-ministro da Cultura do regime soviético, dizia que o ambiente político se dividia em dois campos: os que estão conosco e os outros que, certamente, não estando conosco, estão contra nós.

Assim, quem estiver "conosco" pode ser o maior patife, o maior gângster ou o maior canalha que, apesar disso, será acolhido no ninho (deixam de ser piratas para virarem corsários do rei). Estão aí os nomes emblemáticos de Sarney, Maluf, Calheiros, Jáder Barbalho e toda a turma do mensalão.

Essa gente primitiva reduz o mundo, portanto, a duas possibilidades antagônicas: se não é preto, é branco; se não é amigo, é inimigo; se não é crente, é descrente. A rigidez mental os leva a praticar, ao longo da vida, os maiores desatinos, inclusive a tortura e o assassinato em massa. Não possuem qualquer limite. Estão aí para o demonstrar os exemplos do dia a dia. A própria corrupção do governo Lula, com sua frondosa cleptocracia, é uma herança ideológica do stalinismo, conforme se observa na estrutura similar da Rússia atual, ainda marcada pelos hábitos de Stalin.

Não é algo fortuito: é parte de um sistema, de um modo bárbaro de ver e de viver. Nada diferente de Hitler e similares que povoaram a história humana. Quem duvidar se ponha a ler as manifestações de Zé Dirceu, Dilma e de outros asseclas conhecidos que os seguem e defendem.

O propósito deliberado desses liberticidas é implantar nos trópicos uma imitação barata e tardia dos regimes totalitários de outrora. O culto à personalidade, ao estilo stalinista, é apenas a parte visível do processo. Tem o resto.