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segunda-feira, 11 de junho de 2018

Bolsonaro e Fernando Pessoa


Bolsonaro gosta de comparar o Brasil a países como Israel dizendo: veja o que eles não têm e o que eles são; veja agora o quê nós temos e poderíamos ser.

Num poema sem título, de 1924, Pessoa arrisca: 

"Aqui, agora, rememoro
Quando de mim deixei de ser
E, inutilmente, ...choro 
O que sou e não pude ser". 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O banqueiro anarquista (Fernando Pessoa)

(Em homenagem a Joaquim Levy, o banqueiro do PT)


“Tínhamos acabado de jantar. Defronte de mim o meu 
amigo, o banqueiro, grande comerciante e açambarcador
notável, fumava como quem não pensa. A conversa, que
fora amortecendo, jazia morta entra nós. Procurei reanimá-la, 
ao acaso, servindo-me de uma ideia que me passou pela
meditação. Voltei-me para ele, sorrindo.
- É verdade: disseram-me há dias que V. em tempos 
foi anarquista...
- Fui, não: fui e sou. Não mudei a esse respeito. Sou anarquista.
- Essa é boa! V. anarquista! Em que é que V. é anarquista?... 
Só se V. dá à palavra qualquer sentido diferente...
- Do vulgar? Não; não dou. Emprego a palavra 
no sentido vulgar.
- Quer V. dizer, então, que é anarquista exatamente no
 mesmo sentido em que são anarquistas esses tipos das 
organizações operárias? Então entre V. e esses tipos da
bomba e dos sindicatos não há diferença nenhuma?
- Diferença, diferença, há... Evidentemente que há 
diferença. Mas não é a que V. julga. V. duvida talvez que 
as minhas teorias sociais sejam iguais às deles?...
- Ah, já percebo! V., quanto às teorias, é anarquista; 
quanto à prática...
- Quanto à prática sou tão anarquista como quanto 
às teorias. E quanto à prática sou mais, sou muito mais, 
anarquista que esses tipos que V. citou. Toda a minha vida o mostra.
- Hein?!
- Toda a minha vida o mostra, filho. V. é que nunca deu 
a esta cousas uma atenção lúcida. Por isso lhe parece que 
estou dizendo uma asneira, ou então estou brincando consigo.
- Ó homem, eu não percebo nada!... A não ser..., a não ser
que V. julgue a sua vida dissolvente e anti-social e 
dê esse sentido ao anarquismo...
- Já lhe disse que não - isto é, já lhe disse que 
não dou à palavra anarquismo um sentido diferente do vulgar.
- Está bem... Continuo sem perceber... Ó homem, 
V. quer-me dizer que não há diferença entre as suas 
teorias verdadeiramente anarquistas e a prática da sua 
vida - a prática da sua vida como ela é agora? V. quer 
que eu acredite que V. tem uma vida exatamente igual à 
dos tipos que vulgarmente são anarquistas?
- Não; não é isso. O que eu quero dizer é que entre as minhas 
teorias e a prática da minha vida não há divergência nenhuma, 
mas uma conformidade absoluta. Lá que não tenho uma vida 
como a dos tipo dos sindicatos e das bombas - isso é verdade. 
Mas é a vida deles que está fora do anarquismo, fora dos 
ideais deles. A minha não. Em mim - sim, em mim, banqueiro, 
grande comerciante, açambarcador se V. quiser -, em mim
a teoria e a prática do anarquismo estão conjuntas e 
ambas certas. V. comparou-me a esses parvos dos sindicatos e 
das bombas para indicar que sou diferente deles. Sou, mas a 
diferença é esta: eles (sim, eles e não eu) são anarquistas 
só na teoria; eu sou-o na teoria e na prática. Eles são anarquistas 
e estúpidos, eu anarquista e inteligente. Isto é, meu velho, eu 
é que sou o verdadeiro anarquista. Eles - os dos sindicatos e 
das bombas (eu também lá estive e saí de lá exatamente 
pelo meu verdadeiro anarquismo) - eles são o lixo do 
anarquismo, os fêmeas da grande doutrina libertária.
- Essa nem ao diabo a ouviram! Isso é espantoso! Mas como 
concilia V. a sua vida - quero dizer a sua vida bancária e 
comercial - com as teorias anarquistas? Como o concilia V., 
se diz que por teoria anarquista entende exatamente o que 
os anarquistas vulgares entendem? E V., ainda por cima, 
me diz que é diferente deles por ser mais anarquista do 
que eles - não é verdade?
- Exatamente.
- Não percebo nada.
- Mas V. tem empenho em perceber?
- Todo o empenho.
 Ele tirou da boca o charuto, que se apagara; reacendeu-o 
lentamente; tirou o fósforo que se extinguia; depô-lo ao 
de leve no cinzeiro; depois, erguendo a cabeça, 
um momento abaixada, disse:
- ....”


(O texto genial de Pessoa continua no mesmo ritmo. A obra está disponível na internet em http://www.cfh.ufsc.br/~magno/bancanarco.htm)

segunda-feira, 26 de março de 2012

NÃO BASTA ABRIR A JANELA - Alberto Caeiro

"Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela."

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A antiga canção - F. Pessoa

A antiga canção,
Amor, renova agora.
Na noite, olhos fechados, tua voz
Dói-me no coração
Por tudo quanto chora.
Cantas ao pé de mim, e eu ‘stou a sós.

Não, a voz não é tua
Que se ergue e acorda em mim
Murmúrios de saudade e de inconstância,
O luar não vem da lua
Mas do meu ser afim
Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância.

Não, não é teu o canto
Que como um astro ao fundo
Da noite imensa do meu coração
Chama em vão, chama tanto...
Quem sou não sei... e o mundo?...
Renova, amor, a lembrada canção.

Cantas mais que por ti,
Tua voz é uma ponte
Por onde passa, inúmero, um segredo
Que nunca recebi —
Murmúrio do horizonte,
Água na noite, morte que vem cedo.

Assim, cantas sem que existas.
Ao fim do luar pressinto
Melhores sonhos que estes da ilusão.



(Fernando Antônio Nogueira Pessoa)

domingo, 13 de novembro de 2011

Colhe todas as rosas que encontrares - F. Pessoa

Colhe todas as rosas que encontrares!
Colhe até as que sonhas; com um laço
De erva comprida prende-as regulares,
E assim, em feixe, traze-as no regaço!

Vem até mim com essas rosas plenas
E eu saberei, entre elas, distinguir
As que são reais, porque são mais pequenas,
E, maiores, as fora de existir.

Mas é com realidade e ilusão,
Com um feixe de flores vindo e dado,
Que conseguimos dar ao coração
O prémio inútil que lhe nega o fado.


(Fernando Antônio Nogueira Pessoa)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Não quero pedir nada ao fado e à vida - F. Pessoa

Não quero pedir nada ao fado e à vida.
Nada vale pedir—lhes, porque são
Dependentes de uma outra coisa ida
Que não lhes deixou forma nem razão.

Para que hei eu de pedir glória ou esmola
A quem não tem licença para ser?
O ar suficientemente me consola
Por existir, e o campo com’ o ver.

Não, nada peço. Quando a prece é inútil
Ë prolixo o mais curto do rezar.
Se a natureza é assim tão falsa e fútil
De que serve sentir, crer ou pensar?

Há ramos altos cuja sombra espalha
Um sossego de fresco sobre nós,
E há um som de água, que ao cair da calha,
Nos faz mais sonolentos e mais sós.

Isso sim, isso... O resto é o que o mundo
Tem por glória ou amor ou isenção.



Fernando Antônio Nogueira Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 - Lisboa, 30 de novembro de 1935).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Os lucros dos banqueiros no Brasil

(Deu no Correio Braziliense, em 19/04/2010)

Com Lula, bancos lucram R$ 127, 8 bi


"Sempre que questionado sobre os ganhos espetaculares acumulados pelo sistema financeiro ao longo de seu governo, o presidente Lula sai-se com essa: “Quero mais é que os bancos deem lucro”.

Pois dados consolidados pelo Banco Central, referentes aos sete anos da administração do petista, mostram que as 100 maiores instituições financeiras do país não se fizeram de rogadas. Acumularam, no período, R$ 127,8 bilhões em lucros, o equivalente a 2,3 vezes os R$ 55,2 bilhões gastos pelo Ministério do Desenvolvimento Social por meio do Bolsa Família, programa que ajuda a melhorar as condições de vida de 46 milhões de brasileiros.

Nem mesmo o estrago provocado pela crise mundial foi suficiente para inibir o apetite dos bancos. No ano passado, também segundo o BC, as 100 maiores instituições engordaram o seus cofres com ganhos de R$ 23,2 bilhões, resultado que superou em 26% os retornos de 2008 (R$ 18,4 bilhões). Isso, apesar de o Produto Interno Bruto (PIB), o total de riquezas produzidas pelo Brasil, ter encolhido 0,2% na mesma comparação.

Quem acompanha o mercado de perto avisa: o último ano da gestão Lula será fechado com pompa pelo sistema bancário: os lucros serão os maiores da história, o que poderá ser comprovado quando saírem os números do primeiro trimestre."
OBSERVAÇÃO:
Fernando Pessoa escreveu "O banqueiro anarquista". Está nas suas Obras Complestas (Contos de Aprendiz). Genial e profético, como sempre, o grande poeta português.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Os lucros dos banqueiros

(Deu no Correio Braziliense, em 19/04/2010)

Com Lula, bancos lucram R$ 127, 8 bi


"Sempre que questionado sobre os ganhos espetaculares acumulados pelo sistema financeiro ao longo de seu governo, o presidente Lula sai-se com essa: “Quero mais é que os bancos deem lucro”.

Pois dados consolidados pelo Banco Central, referentes aos sete anos da administração do petista, mostram que as 100 maiores instituições financeiras do país não se fizeram de rogadas. Acumularam, no período, R$ 127,8 bilhões em lucros, o equivalente a 2,3 vezes os R$ 55,2 bilhões gastos pelo Ministério do Desenvolvimento Social por meio do Bolsa Família, programa que ajuda a melhorar as condições de vida de 46 milhões de brasileiros.

Nem mesmo o estrago provocado pela crise mundial foi suficiente para inibir o apetite dos bancos. No ano passado, também segundo o BC, as 100 maiores instituições engordaram o seus cofres com ganhos de R$ 23,2 bilhões, resultado que superou em 26% os retornos de 2008 (R$ 18,4 bilhões). Isso, apesar de o Produto Interno Bruto (PIB), o total de riquezas produzidas pelo Brasil, ter encolhido 0,2% na mesma comparação.

Quem acompanha o mercado de perto avisa: o último ano da gestão Lula será fechado com pompa pelo sistema bancário: os lucros serão os maiores da história, o que poderá ser comprovado quando saírem os números do primeiro trimestre."
OBSERVAÇÃO:
Fernando Pessoa escreveu "O banqueiro anarquista". Está nas suas Obras Complestas (Contos de Aprendiz). Genial e profético, como sempre, o grande poeta português.