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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Por que a esquerda não luta por menos impostos? (Leandro Narloch)

"Vejo poucos brasileiros de esquerda defendendo menos impostos no Brasil. Alguns até acham que a carga tributária é alta, mas dizem que é ainda maior nos países escandinavos nos quais deveríamos nos espelhar. Geralmente concordam com intelectuais que distorcem números e afirmam que o brasileiro, comparado a cidadãos de outros países, paga em média poucos impostos.
Para os mais radicais, a esquerda precisa lutar pelo fortalecimento do estado (o que envolveria mais impostos, principalmente dos mais ricos), enquanto a direita, a burguesia, os conservadores e as elites, que não ligam para as necessidades do povo, torcem por menos tributação.
O curioso é que muitos dos heróis e ídolos da esquerda são líderes e revolucionários que lutaram, eles próprios, por menos impostos.
É difícil, por exemplo, chamar de conservadores ou aliados às elites tradicionais os rebeldes que, durante a Revolução Francesa, destruíram alfândegas, queimaram documentos de dívidas fiscais e se recusaram a pagar impostos tanto à monarquia quanto aos governos republicados que a sucederam.
Deveriam os brasileiros de esquerda deixar de ler Karl Marx, que foi processado pela Alemanha por defender a sonegação de impostos? “A partir de hoje, impostos estão abolidos! É alta traição pagar impostos! Recusar pagar imposto é a primeira obrigação de um cidadão!”, escreveu Marx em 1848, depois de considerar ilegítimo o governo alemão.
Será que deveríamos chamar de burguês ou aliado às das elites o Mahatma Gandhi, que em 1930 percorreu 390 quilômetros a pé só para chegar ao litoral da Índia e desafiar o Império Britânico produzindo sal sem pagar imposto?
Ou o anarquista Henry David Thoreau, pai da Desobediência Civil e um dos inspiradores de Gandhi, preso por recusar a pagar qualquer tipo de taxa ao governo americano?
Há ainda os zulus da África do Sul, que no começo do século 20 travaram diversas guerras contra o imposto de 3 libras per capita imposto pelo Império Britânico. O Movimento Zapatista de Libertação Nacional, que depois de criar governos locais parou de pagar imposto ao governo central do México. E as sufragistas dos EUA que resgataram o lema da Revolução Americana (no taxation without representation) e se recusaram a pagar impostos enquanto não pudessem votar.
Dá pra chamar de representante da direita britânica o cantor George Harrison, dos Beatles, autor da música Taxman, um protesto contra as alíquotas do imposto de renda de até 95% para os ingleses mais ricos?
Mais difícil ainda é rotular como elitistas ou insensíveis às necessidades do povo os rebeldes da Revolução Farroupilha, movimento contrário ao imposto sobre o charque, o couro, o sal e a erva-mate pago pelos gaúchos à corte. Ou os pernambucanos que, no começo do século 19, tentaram se separar do Brasil por não verem retorno nos tributos que pagaram ao Rio de Janeiro. Muitos dos meus amigos de esquerda rejeitariam como um lugar-comum neoliberal e egoísta a frase “nenhuma pessoa pode ser privada da menor porção da sua propriedade sem seu consentimento”. Sem ligar para o fato de que essa frase era repetida com frequência por Frei Caneca, líder da Confederação do Equador e um dos grandes heróis pernambucanos.
O que motivou tanta gente a lutar contra impostos – e o que escapa da esquerda atual – é um desejo de autonomia, de defender o direito de serem donos do que produzem, e a certeza de que o dinheiro arrecadado pelos impostos raramente volta aos contribuintes ou é destinado aos mais pobres. Acaba bancando gastanças, sistemas ineficientes, privilégios dos amigos do rei e gordas aposentadorias de burocratas.
É uma pena que a esquerda traia sua própria tradição e defenda mais impostos no Brasil. A luta contra a apropriação do dinheiro dos cidadãos foi por muito tempo (e ainda deveria ser) uma bandeira de quem se importa com os mais pobres e oprimidos".
(Publicado no portal da VEJA, em 22/01/2015)

sábado, 30 de agosto de 2014

Minha vida é minha mensagem (Gandhi)

Trotando em direção à derrota que se avizinha, a bojuda dama que ainda preside o país (ou seria melhor dizer púcara dama?), resolveu destravar a língua para dar lições ao Brasil, como se ela as tivesse para dar a quem quer que fosse. Em encontro do PMDB paulista, na cidade de Jales, de maneira dissimulada e velhaca (como convém a uma pícara), dona Dilma tachou as propostas da adversária como “fundamentalistas, obscurantistas e retrógradas”. Marina bem poderia responder dizendo, como Gandhi: minha vida é minha mensagem! Mas isso seria conceder à repolhuda dama uma reverência que ela não merece.

Não que concepções e programas políticos não possam merecer tal ou qualquer outra adjetivação. A questão aqui é da ausência de legitimidade da autora dos reparos para fazê-los. Dona Dilma não tem autoridade moral para censurar ninguém. Rigorosamente, ninguém. Forjada num ambiente que pregou e praticou o mais rombudo terrorismo, quem a madame pensa que é, para questionar eventuais propostas consideradas por ela como “fundamentalistas, obscurantistas e retrógradas”? 

Pôs e dispôs, fez e desfez, conduziu o Brasil como se fora senhora de baraço e cutelo, sem nunca se dignar a prestar contas e a responder quaisquer das críticas que lhe foram dirigidas. A leviana condução da Petrobrás é o exemplo mais contundente da conduta deletéria, sob todos os aspectos, da arrogante madame. Fantasiada de gerentona houve-se da forma mais irresponsável possível que um dirigente pode se haver. 

Nunca é demais relembrar que a esquisita criatura, quando presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, assinou SEM LER, é bom que fique frisado, a justificativa e ordem de aquisição do monte de ferro velho conhecido como refinaria de Pasadena, por um preço centenas de milhões de dólares acima do seu valor real. Nenhum acionista de empresa séria, em qualquer lugar do mundo, aceitaria pacificamente tal situação. Aqui, no entanto, onde a Petrobrás é uma casa da mãe joana, pode-se furtar à vontade que nada irá acontecer com os responsáveis, ou irresponsáveis, melhor seria dizer. O povo é rico e não se incomoda de arcar com o infame prejuízo. 

Com a mesma leveza de alma, a pícara dona também se conduziu em outros setores do governo. A vasta e aberrante corrupção, que contaminou a tudo e a todos, é fruto da semente plantada no governo Lula e cultivada com esmero por sua sucessora. Não é casual que a cúpula dirigente do PT mofe na Papuda. E que outros companheiros de armas  se preparem para ocupar, em breve, o lugar que lhes está reservado. Merecidamente.       

O Brasil está em recessão, conforme o atestam os próprios números oficiais sobre o setor industrial, em particular, e a economia, em geral. Só há alguma melhora no setor agrícola, onde o governo, felizmente, não teve como botar a mão. A culpa pelos fracassos é sempre dos outros, talvez de Pedro Álvares Cabral. Os maiores culpados, no entanto, - dona Dilma e o ex-ministro da Indústria e Desenvolvimento, Fernando Pimentel, à frente - quedam-se em obsequioso silêncio, ou declamam platitudes como se nada tivessem a ver com o assunto. Ou, então, põem-se a atacar os adversários na esperança de, acuando os outros, ficarem desobrigados de dar as explicações que o povo brasileiro espera e merece.