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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

As pavorosas: última oportunidade


A oportunidade de ver as pavorosas reunidas é similar à daqueles cometas que passam pela Terra de mil em mil anos. Aproveitem. Os modelitos em vermelho estão sensacionais.



Curioso, não tem nenhuma preta, nem preto. Isso é racismo, madames, racismo. As louras estão super-representadas.  

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Tribalismo americano (Caio Blinder)



A chacina de nove negros em uma igreja de Charleston, no estado da Carolina do Sul, há uma semana, por um assumido supremacista branco, gerou algo que acontece em situações extraordinárias hoje nos EUA: espírito bipartidário.

Por pressão dos fatos e bom senso, a Carolina do Sul se movimenta para remover a bandeira de batalha da Confederação do terreno de sua assembleia legislativa estadual. Nostalgia do “estilo de vida” do velho sul não deve ser desfraldada. Bandeira dos estados sulistas na guerra civil americana do século 19 é artefato de museu. Vamos esperar que o mesmo aconteça no Mississippi, onde o símbolo heráldico faz parte da bandeira estadual, único estado com esta afronta. Empresas também anunciaram que não mais venderão a mercadoria confederada.

Existe uma reação em cadeia no país contra penduricalhos e estátuas da era confederada. Motivo para orgulho da herança? Como reconheceu na terça-feira o senador estadual republicano na Carolina do Sul, Paul Thurmond, “nossos ancestrais estavam literalmente lutando para manter seres humanos como escravos. Eu não me orgulho desta herança”.

A bandeira hoje é uma declaração de resistência contra avanços raciais. A Carolina do Sul foi o primeiro estado a deixar a União em 1860. A população do estado nos últimos dias se rebelou contra o racismo e deu um comovente exemplo de solidariedade às vítimas do massacre. O rapaz supremacista queria gerar desunião. Matou nove pessoas, mas, sorry pelo trocadilho, em termos de impacto o tiro saiu pela culatra. O gesto das famílias das vítimas de oferecer perdão ao assassino foi simplesmente pungente.


Nas franjas da sociedade americana, ainda existe racismo acintoso e violento.  É verdade que tem crescido nos últimos 15 anos com a mobilização do movimento supremacista branco, mas agora foi esta reação de um país unido no luto e na indignação. E para onde vamos? Espírito bipartidário e solidariedade nacional são bandeiras raramente desfraldadas nos Estados Unidos da América, país também conhecido como Tribos Desunidas da América.

É a polarização familiar dentro da nação. Claro que se cutuca de um lado para o outro. Gente mais conservadora é rápida no gatilho para salientar que o garoto assassino é uma exceção. Gente mais liberal rebate que existe alarde com o terrorismo islâmico, mas e o terrorista racista? Conservadores batem na tecla de que não existe apenas o racismo dos brancos. A réplica é que nada se compara ao fardo do racismo dos brancos. Ele está no DNA da nação, como lembrou o presidente Obama.

E neste caso da Carolina do Sul impressiona a polarização na questão de armas, a outra bandeira nos debates, além de raça. Existe tribalismo no debate. É verdade que, na sua maioria, os americanos se revelam mais hostis ao controle de armas, embora aceitem algumas medidas tímidas como mais checagem de antecedentes criminais. Há mais disposição para a posse de armas para a autodefesa, numa ansiedade que mistura raça e classe em um país com queda significativa do crime violento desde os anos 90, mas com concentração expressiva de criminalidade na minoria negra, cuja renda está abaixo da média nacional.

É interessante ver o tribalismo quando os americanos são perguntados se manter uma arma de fogo em casa resulta em mais segurança ou mais perigo. O Gallup tem feito as mesmas perguntas por anos. No ano 2000, por uma margem de 44% a 28% em relação aos democratas, os republicanos diziam que arma em casa dava mais segurança.

Em 2008, antes da eleição de Obama, as coisas se equilibraram um pouco (53% a 41%). Mas, agora, o fosso é imenso. Os democratas continuam na cifra de 41%, enquanto ela disparou para 81% entre os republicanos.

Outros sinais de tribalismo estão na pesquisa Pew. O dobro de brancos em relação a negros e latinos dizem ser mais importante proteger o direito às armas do que o controle ao acesso. Geografia também é fator. Americanos sulistas e de áreas rurais são mais chegados a armas do que moradores de áreas urbanas no nordeste. Quanto maior a escolaridade, menor a simpatia por armas.

Será difícil desarmar este espírito tribal, mas pelo menos a bandeira está indo abaixo.

sábado, 20 de junho de 2015

Entre os muros sagrados da Igreja de Deus (Caio Blinder)

Charleston: orando pelas vítimas










“Na quinta-feira cedo, ao vivo na rádio Jovem Pan, com a minha cautela habitual, eu não quis precipitar conclusões sobre a chacina na histórica igreja metodista episcopal Emanuel em Charleston, na Carolina do Sul. Os sinais eram de motivação racista, mas nunca me esqueço de Oklahoma City, em 19 de abril de 1995, quando a primeira especulação era de um atentado do terror islâmico e se revelou que fora obra de Timothy McVeigh, um extremista de direita.


O suspeito preso é o jovem Dylann Roof, de 21 anos, dado a exibir emblemas de supremacistas brancos. De um lado, acompanhei a história ao longo de quinta-feira com incredulidade. Qual é a desse garoto? Por que ele matou uma senhora de 87 anos em uma igreja? E por que o pai lhe deu uma arma de presente no seu aniversário de 21 anos em abril?  Não vou nem listar aqui os suspeitos habituais (os motivos) que podem ter levado este garoto a fazer o que fez. Como ele chegou a tal estágio de matar pessoas meramente por elas serem negras?

De outro lado, não há tantas surpresas em Charleston. A chacina de nove pessoas se insere no histórico de violência racista contra igrejas negras nos EUA. Americanos aprendem na escola sobre 15 de setembro de 1963, a tragédia na igreja da rua 16 em Birmingham, no estado de Alabama quando a bomba dos terroristas da Ku Klux Klan matou quatro meninas. Martin Luther King disse: “Elas morreram entre os muros sagrados da Igreja de Deus e elas estavam discutindo o significado eterno do amor”. Na quinta-feira, o presidente Barack Obama disse que a igreja Emanuel tem um “lugar sagrado” na história de Charleston.

As vítimas na igreja morreram enquanto estudavam a Bíblia. Martin Luther King falou na igreja Emanuel em 1962 em uma exortação para que os fiéis votassem. E desde então, negros votam nos EUA, como não podiam, especialmente no sul do país, e um negro está na presidência. No entanto, temos ainda este racismo residual no país. O ataque contra a igreja Emanuel mostra como locais de orações para gerações são alvos preferenciais de racistas.

Igrejas negras sofreram ao longo do movimento dos direitos civis nos anos 50 e 60, como acontecera um século antes. A própria igreja Emanuel foi incendiada por supremacistas brancos depois que um negro alforriado, Denmark Vesey, um dos seus fundadores, liderou uma revolta contra a escravidão em 1822. Vesey e mais 34 amotinados foram sumariamente julgados e enforcados.

A igreja Emanuel foi destruída e banida ao longo de sua história. Nestes dias, a nação americana expressa solidariedade a seus fiéis com o que aconteceu na noite de quarta-feira. A Carolina do Sul tem um prontuário racista e a bandeira da Confederação (dos estados do sul na guerra civil) ainda tremula na sua assembleia legislativa, mas sua governadora, a republicana Nikki Haley, é de família originária da Índia. Há 50 anos, seria inconcebível que ela liderasse o estado. Há esta tragédia em Charleston, mas avanços; há Barack Obama e Nikki Haley, mas há os números.

Nas estatísticas mais recentes, o FBI identificou 3.563 vítimas de crimes de ódio racialmente motivados em 2013. Negros representaram 66% das vítimas do total, enquanto 21% eram brancos, 4,6% asiáticos e 4.5% índios. Vale lembrar que a maioria destes crimes de ódio não foram fatais. E ataques contra igrejas negras, especialmente na Carolina do Sul, não fazem parte do passado remoto. Nos anos 90, foi uma onda de bombas incendiárias. Obviamente o que aconteceu em Charleston vai além e tem similaridade com o ataque de 2012, quando um supremacista branco matou seis pessoas em um templo sikh no estado de Wisconsin.

Em templos, igrejas, mesquitas e sinagogas é hora de preces pelas vítimas de Charleston. E para quem não acredita em Deus nem segue religião, é hora de solidariedade”.



sábado, 13 de junho de 2015

Os jovens matam porque foram esquecidos pelo Estado? (Leandro Narloch)

Enterro de jovem estuprada no Piauí













O naturalista suíço Louis Agassiz tinha uma obsessão pelo racismo científico. Acreditava que as etnias eram espécies humanas separadas e que misturá-las transformava os homens em delinquentes e degenerados. Ao visitar o Brasil, em 1865, Agassiz deu uma olhadela pelas ruas do Rio de Janeiro e achou ter entendido a causa da pobreza e da criminalidade do país. “Quem duvida dos males da mistura de raças que venha ao Brasil, pois não poderá negar uma deterioração decorrente da amálgama de raças”, escreveu ele.

Agassiz foi vítima de dois erros. O primeiro é a falácia de relação e causa. Ele observou dois fenômenos acompanhados (mestiçagem e pobreza) e acreditou que um era a causa do outro. Também usou suas próprias bandeiras políticas para explicar o mundo –  uma armadilha mais ou menos assim: “eu defendo X; se algo acontece de errado no mundo, eu vou logo acreditar que é por falta de X e que não há outra solução senão X”.

Tem muita gente cometendo os mesmos erros hoje. De forma tão descuidada quanto o naturalista suíço, estão usando suas bandeiras políticas – a educação pública, a luta contra a miséria e a desigualdade – para explicar por que os jovens que cometem crimes.

Por exemplo, quando o ciclista foi esfaqueado na Lagoa Rodrigo de Freitas por menores de idade, o jornal Extra sugeriu que os garotos se tornaram assassinos porque não tinham ido para a escola.

Já a jornalista Claudia Collucci, ao falar sobre o silêncio ao redor do terrível estupro de quatro jovens no Piauí, parece ter esclarecido o que motivou os quatro menores envolvidos no crime:

Quem são esses menores? Semianalfabetos, usuários de drogas, miseráveis, com famílias desestruturadas e com histórias de loucuras, abusos e abandono.

É o caso de perguntar: o analfabetismo e a pobreza, que atingem dezenas de milhões de brasileiros, levam mesmo os homens jovens a raptar, torturar, estuprar, furar os olhos, apedrejar e jogar do penhasco meninas indefesas?

É verdade que, em muitos casos, a baixa educação e alguns fatores econômicos acompanham a violência. Mas daí há um bom caminho para provar que um é a causa do outro. É bem provável, por exemplo, que as centenas de piauienses que foram ao enterro de uma das vítimas e se consternaram com o caso tinham o mesmo perfil de escolaridade e renda dos agressores.

O próprio Piauí contraria a tese de que a miséria causa violência. Depois do Maranhão, é o estado mais pobre do Brasil. E um dos menos violentos – a taxa de homicídios só é menor em São Paulo e Santa Catarina. Agora imagine se multiplicássemos a população do Piauí por cinquenta e cortássemos 40% do seu território. Chegaríamos a um país como Bangladesh, onde 150 milhões de miseráveis convivem com uma das menores taxas de homicídio do mundo – apenas 2,5 homicídios por 100 mil habitantes, um décimo da taxa brasileira.

O perfil de internos de prisões para menores de idade também contraria a crença de que agressores são vítimas da miséria. Uma pesquisa da Fundação Casa de Campinas de 2013 mostra que, de 277 internos, 80% vêm de famílias com casa própria, e metade têm renda superior a 2 mil reais. As taxas de escolaridade dos menores presos eram similares às de fora da cadeia.

Se não é a pobreza, seria então a desigualdade o motor da pobreza? Essa eu deixo com o psicólogo americano Steven Pinker, autor de um excelente compêndio sobre violência humana, o livro Os Bons Anjos da Nossa Natureza. Pinker aponta uma falácia de relação e causa: países mais desiguais geralmente são mais violentos, mas isso não quer dizer que desigualdade cause violência:

O problema de invocar a desigualdade para explicar mudanças na violência é que, embora ela se correlacione com a violência se compararmos estados e países, não se correlaciona com a violência ao longo do tempo em um estado ou país, possivelmente porque a verdadeira causa das diferenças não é a desigualdade em si, mas características estáveis como a governança do estado ou a cultura, que afetam tanto a desigualdade como a violência.

Um exemplo que Pinker fornece é o dos Estados Unidos: a desigualdade atingiu um mínimo em 1968, quando a criminalidade estava no auge, e subiu entre 1990 e 2000, enquanto a violência despencou.

Outra razão sempre citada são as famílias desestruturadas. Crescer sem o pai ou a mãe leva os jovens ao crime? Difícil saber. Segundo o IBGE, em 16% das famílias brasileiras, a mãe cuida sozinha dos filhos (famílias só com o pai e os filhos são 2% do total). Mas somente 0,01% dos adolescentes comete crimes (a confiar na estatística de quem é contra a redução da maioridade penal).

O mais provável, nesse caso, é a relação inversa: em ambientes com maior criminalidade, é mais comum haver mães solteiras. Os filhos delas acabam virando criminosos não por falta do pai, mas porque crescem num ambiente criminoso. Pinker tem um raciocínio parecido:

Embora filhos indesejados possam vir a cometer crimes ao crescer, é mais provável que as mulheres em ambientes propensos ao crime tenham mais filhos indesejados do que a indesejabilidade cause diretamente o comportamento criminoso.


A ideia de que a ausência do Estado causa todos os problemas do mundo é sedutora. Mas na hora de estudar as origens da violência é melhor deixar ideologias de lado.

domingo, 4 de janeiro de 2015

A posse de dona Dilma

A posse de dona Dilma mostrou aspectos singulares. O primeiro deles foi a ausência de povo na solenidade. Visíveis, apenas os gatos pingados dispersos na imensidão do planalto. Nem mobilizando sua vasta e dócil clientela (tangida a tubaína e a pão com salame, além de uns trocados para ajuda de custo), o governismo conseguiu ocupar a Esplanada dos Ministérios. A comemoração mostrada pelas TV's parecia, antes, o fim de um périplo, que a marca do início de novo mandato. As festas universais comemoram o nascimento, o casamento e a morte. A do último dia primeiro de janeiro de 2015 tinha inegável cheiro de velório.

No multitudinário ministério dilmista - mais de três dúzias - duas ausências de faziam notar: negros e mulheres. Entre os primeiros, apenas dois - vá lá que sejam três - poderiam ser assim classificados: a ministra das questões raciais, o ministro do Esporte e a ministra dos direitos humanos (aceitando-se os pardos e mulatos como parte da comunidade negra). 

Nem dá para se discutir o padrão de competência dos escolhidos, posto que o centralismo patológico de dona Dilma afasta antecipadamente qualquer um que tenha luz própria. Um grupo bisonho como o dos auxiliares da madame dificilmente se verá outro igual. Chama a atenção a presença da Democracia Socialista no coração do governo. A DS é a tendência petista pelas mãos da qual dona Dilma entrou no PT, logo após sair do PDT para manter a boquinha no secretariado gaúcho, nos já distantes tempos do governo Olívio Dutra. Brizola, aliás, se equivocou mais uma vez por considerar a trairagem de Dilma equivalente ao ganho de um simples prato de lentilhas. A troca de partido gerou, de fato, resultados muito mais substanciais.  

Mulheres, apenas meia dúzia, a maioria em cargos mais decorativos e simbólicos, servindo tão somente para dar uma pitada de feminismo naquele antro de machos truculentos e bigodudos. 

A velha fábula a respeito da roupa do rei foi invocada, involuntariamente, por uma criança que acompanhava, atenta, os festejos oficiais. No momento em que dona Dilma era homenageada, com os salamaleques de praxe, pelos dirigentes estrangeiros (a maioria cucarachas latinos e africanos), somente os brancos recebiam uma ou duas bicotas da madame. As africanas e os africanos eram mantidos à distância, parecendo não merecer assim o dar e o receber o ósculo presidencial. Com relação aos poucos xeques anônimos - com seus esfuziantes mantos salpicados de dourado - representantes das realezas misóginas do oriente, ainda dá para entender; esse negócio de beijo só vale se for entre machos, na mais pura tradição muçulmana. Quem tiver dúvidas a respeito dos fatos acima relatados, basta recorrer às imagens disponíveis da cerimônia oficial.  



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

POR QUE NÃO REESCREVEM TUDO? por João Ubaldo Ribeiro

Ainda bem que João Ubado existe. Bendito sejas Tu, Eterno, que o fizeste neste mundo. Apesar de inúmeros exemplos contrários, é possível que a inteligência prevaleça contra o fanatismo. O artigo abaixo é um tributo à civilização.
(Publicado em O Globo, de 7 de novembro de 2010)

"De uns tempos para cá, não sei se me engano, começaram a proliferar normas destinadas a controlar nossa conduta individual. Falei em algumas aqui e cheguei a aventar a hipótese de que uma agência governamental, ou qualquer outra das muitas autoridades a que vivemos subordinados sem saber, venha a estabelecer normas para o uso do papel higiênico e garantir sua observação através da instalação de câmeras nos banheiros de uso público. Nos banheiros domésticos, imagino que seriam suficientes umas visitas incertas de inspetores com gazuas, para tentar flagrar os que se asseassem ilegalmente. Não se trata somente de passatempo para burocratas entediados e sem mais o que fazer. Trata-se da convicção, que parece grassar truculentamente em toda parte, de que existe algo "certo", cientificamente certo e, portanto, todos devem comportar-se dentro do certo.

Se nas ciências físicas esse negócio de "certo" já é olhado com um pé atrás, nas ciências humanas, que nunca puderam aspirar ao nível de objetividade daquelas, a existência do "certo" é muito discutível, envolve necessariamente valores, valores que permeiam toda ação do homem e não são território da ciência e da objetividade.

Agora leio aqui nos jornais que a compulsão pelo certo acaba de atingir novo limite. Desta vez, por um parecer do Conselho Nacional de Educação, que opinou que o livro "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, deve ser proibido nas escolas públicas, por se tratar de obra racista. Sei que, entre vocês, há leitores de Monteiro Lobato que acharam que não entenderam o que acabaram de ler. Mas é isso mesmo: não pode "Caçadas de Pedrinho", porque é racista. Ou, por outra, pode, mas somente "quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil".

Eu não vou nem falar nos milhões de brasileiros de todas as idades e todas as gerações que viveram no mundo mágico criado por um dos maiores escritores universais, um gênio naquilo que fez melhor, motivo de orgulho para todos nós, Monteiro Lobato. Nem vou dedicar tempo a entender como é que foi que todos esses milhões, lendo, despreparados, livros racistas, não vieram mais tarde a abrigar preconceitos e ideias nocivas, instilados solertemente na consciência indefesa de crianças. Monteiro Lobato, com toda a certeza, tem tantos defensores quanto leitores, não precisa de mais uma defesa.

E que diabo é "compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil". A compreensão "certa"? Qual é a compreensão certa de um fenômeno que gera até brigas ferozes entre seus estudiosos e participantes? Estará correta a visão que vê no racismo um fenômeno causado exatamente pela diferença de raças? Terá mais razão o que vê na escravidão um fenômeno basicamente econômico e só secundariamente racial? Quem resolveu isso? Qual a posição oficial do governo? O professor que orientar a leitura de "Caçadas de Pedrinho" terá que saber.

Deus ajude as pobres crianças, torturadas com o que era antigamente somente um livro que as transportava para a fantasia, a aventura e o encantamento inocentes. Agora, ao que parece, o correto é a leitura tutelada, orientada. Antigamente, a literatura infantil era liberdade, escape, território autônomo em que a imaginação do jovem, ainda não embotada pela experiência, o levava a uma felicidade mais tarde irreproduzível. Agora talvez se diga "você gostou disso, por aquilo; e não gostou disso, porque não é para gostar, está errado". A boa literatura dá lições como consequência, não como objetivo.

Deve-se ensinar a ler por prazer, de maneira desarmada e aberta - e não há como desconfiar dos clássicos como Lobato, os clássicos são clássicos porque são clássicos. A literatura, como a vida, não é certinha. A ficção até que arruma os acontecimentos, lhes empresta enredos e sentidos que na vida real não têm. Mas, como a vida, a ficção mostra contradições, reflete dilemas, exibe defeitos, ilumina a existência humana. Quem entra num romance deve entrar sozinho, a viagem é individual e intransmissível.

E até mesmo essa conversa de necessidade de contextualizar o livro é bem discutível. No meu tempo de menino, ninguém precisou contextualizar os livros de Tarzan para aceitar a África dele, assim como não se contextualizava Robin Hood, D'Artagnan, Jorge Amado, Érico Veríssimo ou quem lá fosse que aparecesse num romance, a contextualização era automática, vinha do bom texto.

Finalmente, em que medida os defeitos não são subjetivos, ou seja, não estão apenas na mente e na percepção de quem os aponta? Existirá um racismômetro? E, mais ainda, não haverá outras áreas sensíveis? Acho que a adoção de mais controles é decorrência lógica e questão de justiça. Temos por exemplo a antropologia ultrapassada de Euclides da Cunha, o tal que falou no "mestiço neurastênico do litoral". É tão presente nele essa visão antropológica superada (além de ofensiva a grupos raciais; eu mesmo sou mestiço neurastênico do litoral e as mulheres sempre me discriminaram), que o melhor seria mandar um antropólogo correto e moderno reescrever "Os Sertões', para quê o velho? Esperemos também alegações de violência contra mulheres (Barba-Azul), machismo (Bolinha), ódio a uma espécie em extinção (o lobo de Chapeuzinho Vermelho), exploração de deficientes verticais (os anões de Branca de Neve), apologia da bruxaria (a Bela Adormecida) e assim por diante. Olhando para trás, chego a ter um arrepio, em ver como escapamos por pouco de termos as personalidades deformadas pela leitura irresponsável dos clássicos, esses repositórios de traições, assassinatos, incestos, preconceitos, guerras, adultérios e tudo mais que o planejamento científico logo eliminará. Melhor por enquanto ficar longe deles e aguardar instruções das autoridades."

"Monteiro Lobato no tribunal literário" - Aldo Rebelo


(Fonte: Folha de São Paulo de 07/11/2010)

"O parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) de que o livro "Caçadas de Pedrinho" deve ser proibido nas escolas públicas, ou ao menos estigmatizado com o ferrão do racismo, instala no Brasil um tribunal literário. A obra de Monteiro Lobato, publicada em 1933, virou ré por denúncia -é esta a palavra do processo legal-de um cidadão de Brasília, e a Câmara de Educação Básica do Conselho opinou por sua exclusão do Programa Nacional Biblioteca na Escola.

Na melhor das hipóteses, a editora deverá incluir uma "nota explicativa" nas passagens incriminadas de "preconceitos, estereótipos ou doutrinações". O Conselho recomenda que entrem no índex "todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante". Se o disparate prosperar, nenhuma grande obra será lida por nossos estudantes, a não ser que aguilhoada pela restrição da "nota explicativa" -a começar da Bíblia, com suas numerosas passagens acerca da "submissão da mulher", e dos livros de José de Alencar, Machado de Assis e Graciliano Ramos; dos de Nelson Rodrigues, nem se fale. Em todos cintilam trechos politicamente incorretos.

Incapaz de perceber a camada imaginária que se interpõe entre autor e personagem, o Conselho vê em "Caçadas de Pedrinho" preconceito de cor na passagem em que Tia Nastácia, construída por Lobato como topo da bondade humana e da sabedoria popular, é supostamente discriminada pela desbocada boneca Emília, "torneirinha de asneiras", nas palavras do próprio autor: "É guerra, e guerra das boas. Não vai escapar ninguém -nem Tia Nastácia, que tem carne negra". Escapou aos censores que, ao final do livro, exatamente no fecho de ouro, Tia Nastácia se adianta e impede Dona Benta de se alojar no carrinho puxado pelo rinoceronte: "Tenha paciência -dizia a boa criatura. Agora chegou minha vez. Negro também é gente, sinhá...".

Não seria difícil a um intérprete minimamente atento observar que a personagem projeta a igualdade do ser humano a partir da consciência de sua cor. A maior extravagância literária de Monteiro Lobato foi o Jeca Tatu, pincelado no livro "Urupês", de 1918, como infamante retrato do brasileiro. Mereceria uma "nota explicativa"?

Disso encarregou-se, já em 1919, o jurista Rui Barbosa, na plataforma eleitoral "A Questão Social e Política no Brasil", ao interpretar o Jeca de Lobato, "símbolo de preguiça e fatalismo", como a visão que a oligarquia tinha do povo, "a síntese da concepção que têm, da nossa nacionalidade, os homens que a exploram". Ou seja, é assim que se faz uma "nota explicativa": iluminando o texto com estudo, reflexão, debate, confronto de ideias, não com censuras de rodapé.

O caráter pernicioso dessas iniciativas não se esgota no campo literário. Decorre do erro do multiculturalismo, que reivindica a intervenção do Estado para autonomizar culturas, como se fossem minorias oprimidas em pé de guerra com a sociedade nacional.

Não tem sequer a graça da originalidade, pois é imitação servil dos Estados Unidos, país por séculos institucionalmente racista que hoje procura maquiar sua bipolaridade étnica com ações ditas afirmativas. A distorção vem de lá, onde a obra de Mark Twain, abolicionista e anti-imperialista, é vítima dessas revisões ditas politicamente corretas. País mestiço por excelência, o Brasil dispensa a patacoada a que recorrem os que renunciam às lutas transformadoras da sociedade para tomar atalhos retóricos.

Com conselheiros desse nível, não admira que a educação esteja em situação tão difícil. Ressalvado o heroísmo dos professores, a escola pública se degrada e corre o risco de se tornar uma fonte de obscurantismo sob a orientação desses "guardiões" da cultura."
ALDO REBELO, 54, jornalista, é deputado federal pelo PC do B de São Paulo.