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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Tribalismo americano (Caio Blinder)



A chacina de nove negros em uma igreja de Charleston, no estado da Carolina do Sul, há uma semana, por um assumido supremacista branco, gerou algo que acontece em situações extraordinárias hoje nos EUA: espírito bipartidário.

Por pressão dos fatos e bom senso, a Carolina do Sul se movimenta para remover a bandeira de batalha da Confederação do terreno de sua assembleia legislativa estadual. Nostalgia do “estilo de vida” do velho sul não deve ser desfraldada. Bandeira dos estados sulistas na guerra civil americana do século 19 é artefato de museu. Vamos esperar que o mesmo aconteça no Mississippi, onde o símbolo heráldico faz parte da bandeira estadual, único estado com esta afronta. Empresas também anunciaram que não mais venderão a mercadoria confederada.

Existe uma reação em cadeia no país contra penduricalhos e estátuas da era confederada. Motivo para orgulho da herança? Como reconheceu na terça-feira o senador estadual republicano na Carolina do Sul, Paul Thurmond, “nossos ancestrais estavam literalmente lutando para manter seres humanos como escravos. Eu não me orgulho desta herança”.

A bandeira hoje é uma declaração de resistência contra avanços raciais. A Carolina do Sul foi o primeiro estado a deixar a União em 1860. A população do estado nos últimos dias se rebelou contra o racismo e deu um comovente exemplo de solidariedade às vítimas do massacre. O rapaz supremacista queria gerar desunião. Matou nove pessoas, mas, sorry pelo trocadilho, em termos de impacto o tiro saiu pela culatra. O gesto das famílias das vítimas de oferecer perdão ao assassino foi simplesmente pungente.


Nas franjas da sociedade americana, ainda existe racismo acintoso e violento.  É verdade que tem crescido nos últimos 15 anos com a mobilização do movimento supremacista branco, mas agora foi esta reação de um país unido no luto e na indignação. E para onde vamos? Espírito bipartidário e solidariedade nacional são bandeiras raramente desfraldadas nos Estados Unidos da América, país também conhecido como Tribos Desunidas da América.

É a polarização familiar dentro da nação. Claro que se cutuca de um lado para o outro. Gente mais conservadora é rápida no gatilho para salientar que o garoto assassino é uma exceção. Gente mais liberal rebate que existe alarde com o terrorismo islâmico, mas e o terrorista racista? Conservadores batem na tecla de que não existe apenas o racismo dos brancos. A réplica é que nada se compara ao fardo do racismo dos brancos. Ele está no DNA da nação, como lembrou o presidente Obama.

E neste caso da Carolina do Sul impressiona a polarização na questão de armas, a outra bandeira nos debates, além de raça. Existe tribalismo no debate. É verdade que, na sua maioria, os americanos se revelam mais hostis ao controle de armas, embora aceitem algumas medidas tímidas como mais checagem de antecedentes criminais. Há mais disposição para a posse de armas para a autodefesa, numa ansiedade que mistura raça e classe em um país com queda significativa do crime violento desde os anos 90, mas com concentração expressiva de criminalidade na minoria negra, cuja renda está abaixo da média nacional.

É interessante ver o tribalismo quando os americanos são perguntados se manter uma arma de fogo em casa resulta em mais segurança ou mais perigo. O Gallup tem feito as mesmas perguntas por anos. No ano 2000, por uma margem de 44% a 28% em relação aos democratas, os republicanos diziam que arma em casa dava mais segurança.

Em 2008, antes da eleição de Obama, as coisas se equilibraram um pouco (53% a 41%). Mas, agora, o fosso é imenso. Os democratas continuam na cifra de 41%, enquanto ela disparou para 81% entre os republicanos.

Outros sinais de tribalismo estão na pesquisa Pew. O dobro de brancos em relação a negros e latinos dizem ser mais importante proteger o direito às armas do que o controle ao acesso. Geografia também é fator. Americanos sulistas e de áreas rurais são mais chegados a armas do que moradores de áreas urbanas no nordeste. Quanto maior a escolaridade, menor a simpatia por armas.

Será difícil desarmar este espírito tribal, mas pelo menos a bandeira está indo abaixo.

sábado, 20 de junho de 2015

Entre os muros sagrados da Igreja de Deus (Caio Blinder)

Charleston: orando pelas vítimas










“Na quinta-feira cedo, ao vivo na rádio Jovem Pan, com a minha cautela habitual, eu não quis precipitar conclusões sobre a chacina na histórica igreja metodista episcopal Emanuel em Charleston, na Carolina do Sul. Os sinais eram de motivação racista, mas nunca me esqueço de Oklahoma City, em 19 de abril de 1995, quando a primeira especulação era de um atentado do terror islâmico e se revelou que fora obra de Timothy McVeigh, um extremista de direita.


O suspeito preso é o jovem Dylann Roof, de 21 anos, dado a exibir emblemas de supremacistas brancos. De um lado, acompanhei a história ao longo de quinta-feira com incredulidade. Qual é a desse garoto? Por que ele matou uma senhora de 87 anos em uma igreja? E por que o pai lhe deu uma arma de presente no seu aniversário de 21 anos em abril?  Não vou nem listar aqui os suspeitos habituais (os motivos) que podem ter levado este garoto a fazer o que fez. Como ele chegou a tal estágio de matar pessoas meramente por elas serem negras?

De outro lado, não há tantas surpresas em Charleston. A chacina de nove pessoas se insere no histórico de violência racista contra igrejas negras nos EUA. Americanos aprendem na escola sobre 15 de setembro de 1963, a tragédia na igreja da rua 16 em Birmingham, no estado de Alabama quando a bomba dos terroristas da Ku Klux Klan matou quatro meninas. Martin Luther King disse: “Elas morreram entre os muros sagrados da Igreja de Deus e elas estavam discutindo o significado eterno do amor”. Na quinta-feira, o presidente Barack Obama disse que a igreja Emanuel tem um “lugar sagrado” na história de Charleston.

As vítimas na igreja morreram enquanto estudavam a Bíblia. Martin Luther King falou na igreja Emanuel em 1962 em uma exortação para que os fiéis votassem. E desde então, negros votam nos EUA, como não podiam, especialmente no sul do país, e um negro está na presidência. No entanto, temos ainda este racismo residual no país. O ataque contra a igreja Emanuel mostra como locais de orações para gerações são alvos preferenciais de racistas.

Igrejas negras sofreram ao longo do movimento dos direitos civis nos anos 50 e 60, como acontecera um século antes. A própria igreja Emanuel foi incendiada por supremacistas brancos depois que um negro alforriado, Denmark Vesey, um dos seus fundadores, liderou uma revolta contra a escravidão em 1822. Vesey e mais 34 amotinados foram sumariamente julgados e enforcados.

A igreja Emanuel foi destruída e banida ao longo de sua história. Nestes dias, a nação americana expressa solidariedade a seus fiéis com o que aconteceu na noite de quarta-feira. A Carolina do Sul tem um prontuário racista e a bandeira da Confederação (dos estados do sul na guerra civil) ainda tremula na sua assembleia legislativa, mas sua governadora, a republicana Nikki Haley, é de família originária da Índia. Há 50 anos, seria inconcebível que ela liderasse o estado. Há esta tragédia em Charleston, mas avanços; há Barack Obama e Nikki Haley, mas há os números.

Nas estatísticas mais recentes, o FBI identificou 3.563 vítimas de crimes de ódio racialmente motivados em 2013. Negros representaram 66% das vítimas do total, enquanto 21% eram brancos, 4,6% asiáticos e 4.5% índios. Vale lembrar que a maioria destes crimes de ódio não foram fatais. E ataques contra igrejas negras, especialmente na Carolina do Sul, não fazem parte do passado remoto. Nos anos 90, foi uma onda de bombas incendiárias. Obviamente o que aconteceu em Charleston vai além e tem similaridade com o ataque de 2012, quando um supremacista branco matou seis pessoas em um templo sikh no estado de Wisconsin.

Em templos, igrejas, mesquitas e sinagogas é hora de preces pelas vítimas de Charleston. E para quem não acredita em Deus nem segue religião, é hora de solidariedade”.