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sábado, 20 de junho de 2015

Entre os muros sagrados da Igreja de Deus (Caio Blinder)

Charleston: orando pelas vítimas










“Na quinta-feira cedo, ao vivo na rádio Jovem Pan, com a minha cautela habitual, eu não quis precipitar conclusões sobre a chacina na histórica igreja metodista episcopal Emanuel em Charleston, na Carolina do Sul. Os sinais eram de motivação racista, mas nunca me esqueço de Oklahoma City, em 19 de abril de 1995, quando a primeira especulação era de um atentado do terror islâmico e se revelou que fora obra de Timothy McVeigh, um extremista de direita.


O suspeito preso é o jovem Dylann Roof, de 21 anos, dado a exibir emblemas de supremacistas brancos. De um lado, acompanhei a história ao longo de quinta-feira com incredulidade. Qual é a desse garoto? Por que ele matou uma senhora de 87 anos em uma igreja? E por que o pai lhe deu uma arma de presente no seu aniversário de 21 anos em abril?  Não vou nem listar aqui os suspeitos habituais (os motivos) que podem ter levado este garoto a fazer o que fez. Como ele chegou a tal estágio de matar pessoas meramente por elas serem negras?

De outro lado, não há tantas surpresas em Charleston. A chacina de nove pessoas se insere no histórico de violência racista contra igrejas negras nos EUA. Americanos aprendem na escola sobre 15 de setembro de 1963, a tragédia na igreja da rua 16 em Birmingham, no estado de Alabama quando a bomba dos terroristas da Ku Klux Klan matou quatro meninas. Martin Luther King disse: “Elas morreram entre os muros sagrados da Igreja de Deus e elas estavam discutindo o significado eterno do amor”. Na quinta-feira, o presidente Barack Obama disse que a igreja Emanuel tem um “lugar sagrado” na história de Charleston.

As vítimas na igreja morreram enquanto estudavam a Bíblia. Martin Luther King falou na igreja Emanuel em 1962 em uma exortação para que os fiéis votassem. E desde então, negros votam nos EUA, como não podiam, especialmente no sul do país, e um negro está na presidência. No entanto, temos ainda este racismo residual no país. O ataque contra a igreja Emanuel mostra como locais de orações para gerações são alvos preferenciais de racistas.

Igrejas negras sofreram ao longo do movimento dos direitos civis nos anos 50 e 60, como acontecera um século antes. A própria igreja Emanuel foi incendiada por supremacistas brancos depois que um negro alforriado, Denmark Vesey, um dos seus fundadores, liderou uma revolta contra a escravidão em 1822. Vesey e mais 34 amotinados foram sumariamente julgados e enforcados.

A igreja Emanuel foi destruída e banida ao longo de sua história. Nestes dias, a nação americana expressa solidariedade a seus fiéis com o que aconteceu na noite de quarta-feira. A Carolina do Sul tem um prontuário racista e a bandeira da Confederação (dos estados do sul na guerra civil) ainda tremula na sua assembleia legislativa, mas sua governadora, a republicana Nikki Haley, é de família originária da Índia. Há 50 anos, seria inconcebível que ela liderasse o estado. Há esta tragédia em Charleston, mas avanços; há Barack Obama e Nikki Haley, mas há os números.

Nas estatísticas mais recentes, o FBI identificou 3.563 vítimas de crimes de ódio racialmente motivados em 2013. Negros representaram 66% das vítimas do total, enquanto 21% eram brancos, 4,6% asiáticos e 4.5% índios. Vale lembrar que a maioria destes crimes de ódio não foram fatais. E ataques contra igrejas negras, especialmente na Carolina do Sul, não fazem parte do passado remoto. Nos anos 90, foi uma onda de bombas incendiárias. Obviamente o que aconteceu em Charleston vai além e tem similaridade com o ataque de 2012, quando um supremacista branco matou seis pessoas em um templo sikh no estado de Wisconsin.

Em templos, igrejas, mesquitas e sinagogas é hora de preces pelas vítimas de Charleston. E para quem não acredita em Deus nem segue religião, é hora de solidariedade”.



sábado, 28 de março de 2015

Vergonha afegã (Caio Blinder)

Enterro de Farkhunda










“Mulheres afegãs marcharam em protesto, e romperam a tradição, ao carregar o caixão no funeral em Cabul, da mulher espancada e apedrejada até a morte na semana passada por uma multidão, composta em sua maioria por homens. Depois do linchamento, a multidão ateou fogo ao corpo de Farkhunda diante dos olhos da polícia. Ela foi falsamente acusada de queimar o Corão. As mulheres afegãs protestam em nome das Farkhundas.

Acabei de ler o depoimento de um homem, Karim Haidari, que trabalha na BBC . Ele fala de sua vergonha de ser afegão, da vergonha da natureza feia e misógina de boa parte da sociedade do seu país. Karim Haidari escreve sobre a dificuldade para dormir. Ele permanece acordado devido ao barulho e às imagens de uma multidão enfurecida, linchando uma mulher até a morte.

Karim diz que talvez se sinta culpado por ser homem. Afinal, os homens são os autores de todas as guerras. Talvez culpado por ser afegão. Afinal, os homens no país dele são capazes de inflingir tal horror às mulheres  uma vez depois de outra, em um canto do país a outro.

Farkhunda, de 27 anos, estudava teologia e ensinava o Corão para crianças. Ironicamente, em nome da ortodoxia religiosa, ela confrontava os mulás ignorantes e misóginos que vendem amuletos para mulheres sem filhos ou que querem resolver qualquer problema. Durante uma das discussões perto de uma mesquita a uma curta caminhada do palácio presidencial, Farkhunda foi acusada de queimar o Corão.

Karim Haidari escreve que talvez ela tenha subestimado o que alguns homens são capazes de fazer, como matar uma mulher diante dos olhos da polícia corrupta e incompetente. Durante o ato de barbárie, espectadores tiravam fotos com seus celulares. Cerca de 20 pessoas foram presas até agora em conexão ao assassinato de Farkhunda. Muitos são jovens e urbanizados. Muitos com página no Facebook, onde assumiram responsabiliidade pelo ataque.

Uma das mais persistentes e comoventes razões para justificar a invasão do Afeganistão em 2001 pela coalizão liderada pelos EUA era garantir o direito das mulheres. A derrubada do Talibã era uma causa justa, a invasão era uma guerra justa.  A situação continua injusta, confirmada mais uma vez com uma morte como a de Farkhunda.

Karim Haidari, o homem que morre de vergonha, escreve que no Afeganistão o fim do sofrimento das mulheres é ainda um sonho distante.”


(Publicado em 28/03/2015, na edição eletrônica da revista VEJA)