quinta-feira, 18 de novembro de 2010

ENEM - Comentários (1)

(Publicado no blog do Reinaldo Azevedo em 18/11/2010)

A PROVA CRIMINOSA DO ENEM - ANATOMIA DE UMA EMPULHAÇÃO A SERVIÇO DA IGNORÂNCIA

Prometi escrever sobre a prova do Enem. A indignação quase me paralisa. O MEC, deste incrível Fernando Haddad, comete um crime contra a educação brasileira. É isto: trata-se de um exame intelectualmente criminoso, que soma inépcia e pretensão, patrulha ideológica e proselitismo libertário, simplismo e pernosticismo. Como o Enem quer ser “o” vestibular nacional, ele concorre é para desorganizar o que eventualmente pode haver de sólido no ensino médio. Deveria ser o principal elemento a forçar a definição de um currículo mínimo nacional se desse ao menos pistas do que pretende. Mas é impossível saber. As 45 questões desse cretinismo chamado “Linguagens e Códigos e Suas Tecnologias”, cinco delas de língua estrangeira, testam uma única coisa: interpretação de texto. As outras 45 de “Ciências Humanas e Suas Tecnologias” são uma peneira para testar o “cidadão consciente” — desde que ele entenda minimamente o que lê. A prova do Enem seleciona os estudantes que, não sendo analfabetos funcionais, estão cheios de boas intenções e sentimentos de cidadania. Não busca os mais aptos, os mais sabidos ou os mais informados, mas os menos energúmenos de bom coração.

As 40 questões sobre o que um dia já foi “Língua Portuguesa e Literatura” —disciplina rebaixada a “Comunicação e Expressão” antes de ganhar aquele nome que Paulo Francis chamaria “pseudo” — nada cobram: leitura de livros, conhecimento de gramática, repertório… O governo brasileiro, que estatizou o vestibular, não pede que a escola seja mais eficiente ao ensinar literatura e gramática: ele simplesmente as tornou dispensáveis. O texto é longo, sim. Tomou uma boa parte da minha madrugada. Apelo à paciência de vocês. É preciso expor a miséria a que chegamos. Deixarei as tais ciências humanas para outro dia.

Comecemos pela questão 96 (prova azul). Um avô está com seu neto num museu de arqueologia no ano de 2059, na Amazônia. Mostra uma árvore ao garoto. Há o seguinte diálogo:
— Árvore era assim, desse jeito, Juquinha, tá vendo?
— Que barato, vovô! (Vamos ver o que o Enem quer saber, em maiúsculas):

AS DIFERENTES ESFERAS SOCIAIS DE USO DA LÍNGUA OBRIGAM O FALANTE A ADAPTÁ-LA ÀS VARIADAS SITUAÇÕES DE COMUNICAÇÃO. UMA DAS MARCAS LINGUÍSTICAS QUE CONFIGURAM A LINGUAGEM ORAL INFORMAL USADA ENTRE AVÔ E NETO NESTE TEXTO É

A - A OPÇÃO PELO EMPREGO DA FORMA VERBAL “ERA” EM LUGAR DE “FOI”.
B - A AUSÊNCIA DE ARTIGO ANTES DA PALAVRA “ÁRVORE”.
C - O EMPREGO DA REDUÇÃO “TÁ” EM LUGAR DA FORMA VERBAL “ESTÁ”.
D - O USO DA CONTRAÇÃO “DESSE” EM LUGAR DA EXPRESSÃO “DE ESSE”.
E - A UTILIZAÇÃO DO PRONOME “QUE” EM INÍCIO DE FRASE EXCLAMATIVA.

Eu já tenho vontade de pegar o chicote quando leio “as diferentes esferas sociais do uso da linguagem”. Por quê? Para perguntar uma besteira, uma banalidade, o examinador recorre a esse jargão pernóstico, de mau redator. Não existem “diferentes esferas sociais do uso da linguagem”. Alguém poderia definir o que é isso, onde fica, em que lugar se aloja? É complicômetro de cretinos. Existem linguagens distintas nas diferentes esferas sociais (se é para usar esse vocabulário pomposo). Há entre uma coisa e outra a distância que vai da abstração bucéfala ao fato concreto. A alternativa correta é a C, claro…

A questão 97 é aquela da falsa dificuldade e que apenas aparentemente cobra repertório . Notem que é uma variação daquela brincadeira infantil: “De que cor era o cabalo branco de Napoleão?”

A BIOSFERA, QUE REÚNE TODOS OS AMBIENTES ONDE SE DESENVOLVEM OS SERES VIVOS, SE DIVIDE EM UNIDADES MENORES CHAMADAS ECOSSISTEMAS, QUE PODEM SER UMA FLORESTA, UM DESERTO E ATÉ UM LAGO. UM ECOSSISTEMA TEM MÚLTIPLOS MECANISMOS QUE REGULAM O NÚMERO DE ORGANISMOS DENTRO DELE, CONTROLANDO SUA REPRODUÇÃO, CRESCIMENTO E MIGRAÇÕES.”
PREDOMINA NO TEXTO A FUNÇÃO DA LINGUAGEM

A - EMOTIVA, PORQUE O AUTOR EXPRESSA SEU SENTIMENTO EM RELAÇÃO À ECOLOGIA.
B - FÁTICA, PORQUE O TEXTO TESTA O FUNCIONAMENTO DO CANAL DE COMUNICAÇÃO.
C - POÉTICA, PORQUE O TEXTO CHAMA A ATENÇÃO PARA OS RECURSOS DE LINGUAGEM.
D - CONATIVA, PORQUE O TEXTO PROCURA ORIENTAR COMPORTAMENTOS DO LEITOR.
E - REFERENCIAL, PORQUE O TEXTO TRATA DE NOÇÕES E INFORMAÇÕES CONCEITUAIS.

Ainda que o estudante ignore as “funções da linguagem”, confunda “canal da comunicação” com tratamento de canal e pense em sacanagem (os de vocabulário mais amplo) ao ler a palavra “conativa”, não deve ter grande dificuldade para perceber que o texto trata de “noções e informações conceituais” — mesmo que não saiba o que significa “conceitual”. A questão é exemplar da falta de eixo da prova porque só aparentemente cobra um repertório.

A de nº 98 traz um texto de horóscopo — as características do signo de Câncer e como devem se comportar as pessoas desse signo na família, no trabalho, nos cuidados com a saúde… E qual a curiosidade do examinador? Isto:

O RECONHECIMENTO DOS DIFERENTES GÊNEROS TEXTUAIS, SEU COMUNICATIVO E SEU CONTEXTO DE USO, SUA FUNÇÃO SOCIAL ESPECÍFICA, SEU OBJETIVO COMUNICATIVO E SEU FORMATO MAIS COMUM RELACIONAM-SE AOS CONHECIMENTOS CONSTRUÍDOS SOCIOCULTURALMENTE. A ANÁLISE DOS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DESSE TEXTO DEMONSTRA QUE SUA FUNÇÃO É
A - VENDER UM PRODUTO ANUNCIADO.
B - INFORMAR SOBRE ASTRONOMIA.
C - ENSINAR OS CUIDADOS COM A SAÚDE.
D - EXPOR A OPINIÃO DE LEITORES EM UM JORNAL.
E - ACONSELHAR SOBRE AMOR, FAMÍLIA, SAÚDE, TRABALHO.

Eu não estou brincando, não. Essa questão é exemplar de uma prática comum na prova. O enunciado é pomposo, quase incompreensível, cheio de macumbarias conceituais para indagar, no fim das contas, se está claro que um texto de horóscopo dá conselhos…

Da 100 à 104, tudo segue nesse ritmo, cobrando do candidato o óbvio; indagando, no fundo, se ele sabe ler. Do nada, de inopino, aparece na prova, na questão 105, uma reprodução de “Mulher com Sombrinha”, de Monet. Esta:

Atenção para a questão:

EM BUSCA DE MAIOR NATURALISMO EM SUAS OBRAS E FUNDAMENTANDO-SE EM NOVO CONCEITO ESTÉTICO, MONET, DEGAS, RENOIR E OUTROS ARTISTAS PASSARAM A EXPLORAR NOVAS FORMAS DE COMPOSIÇÃO ARTÍSTICA, QUE RESULTARAM NO ESTILO DENOMINADO IMPRESSIONISMO. OBSERVADORES ATENTOS DA NATUREZA, ESSES ARTISTAS PASSARAM A

A - RETRATAR, EM SUAS OBRAS, AS CORES QUE IDEALIZAVAM DE ACORDO COM O REFLEXO DA LUZ SOLAR NOS OBJETOS;
B - USAR MAIS A COR PRETA, FAZENDO CONTORNOS NÍTIDOS, QUE MELHOR DEFINIAM AS IMAGENS E AS CORES DOS OBJETOS REPRESENTADOS;
C - RETRATAR PAISAGENS EM DIFERENTES HORAS DO DIA, RECRIANDO, EM SUAS TELAS, AS IMAGENS POR ELES IDEALIZADAS;
D - USAR PINCELADAS RÁPIDAS DE CORES PURAS E DISSOCIADAS DIRETAMENTE NA TELA, SEM MISTURÁ-LAS ANTES NA PALETA;
E - USAR AS SOMBRAS EM TONS DE CINZA E PRETO E COM EFEITOS ESFUMAÇADOS, TAL COMO ERAM REALIZADAS NO RENASCIMENTO.

Vamos ver. Afirmar que o impressionismo surgiu da busca de maior “naturalismo” nas obras é só evidência de conceitos mal digeridos em alguma consulta rápida na Internet. É uma besteira. Quanto às alternativas… Quem souber o que é um “contorno” e o significado das palavras “preto” e “cinza” já descarta as alternativas B e E. Sobram a A, a C e a D, a mais correta sem dúvida. Assim como desafio o formulador da questão a provar o “naturalismo” do impressionismo, gostaria que ele provasse que a A e a C podem ser descartadas. Pergunta: a reprodução da imagem era colorida? Se estava em preto e branco, o examinar tem de ir para a cafua.

A questão 106 existe para verificar se o aluno sabe que o balé não pertence ao folclore brasileiro. A 107 pergunta indaga se a palavra “corasamborim”, de uma música de Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, é um estrangeirismo, uma gíria, um neologismo, um regionalismo ou um termo técnico. A 108 mostra um livro digital e um mapa com áreas imensas do país que ainda não têm conexão sem fio. É preciso concluir que a democratização da leitura esbarra na insuficiência do acesso à Internet.

A 109 diz respeito a chat. Reproduzo alguns trechos:

O SIGNIFICADO DA PALAVRA CHAT VEM DO INGLÊS E QUER DIZER “CONVERSA”. ESSA CONVERSA ACONTECE EM TEMPO REAL (…) PARA ENTRAR, É NECESSÁRIO ESCOLHER UM NICK, UMA ESPÉCIE DE APELIDO QUE IDENTIFICARÁ O PARTICIPANTE DURANTE A CONVERSA. (…) MAS NÃO EXISTE NENHUM CONTROLE PARA VERIFICAR SE A IDADE INFORMADA É REALMENTE A IDADE DE QUEM ESTÁ ACESSANDO (…)

Muito bem. O examinador pretende saber o que o aluno acabou de ler. Entre as hipóteses , há esta, que quase repete o texto motivador da pergunta:

POSSIBILITA QUE OCORRA DIÁLOGO SEM A EXPOSIÇÃO DA IDENTIDADE REAL DOS INDIVÍDUOS, QUE PODEM RECORRER A APELIDOS FICTÍCIOS SEM COMPROMETER O FLUXO DA COMUNICAÇÃO EM TEMPO REAL.

A questão 110 é ilustrada com a imagem de uma bailarina fazendo alongamento e indaga se seu exercício é de velocidade, resistência, flexibilidade, agilidade ou equilíbrio. Eu juro! Estão anotando aí: Monet, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Chat, flexibilidade… A questão 111 pergunta obviedades sobre um texto que trata do Twitter. A 112 reproduz o trecho de uma reportagem e tem a intenção de saber se está claro que se trata de um texto informativo…

Há literatura na prova? A 113 vem com um fragmento de “Laços de Família”, de Clarice Lispector. Vejam o que fizeram os gênios de Fernando Haddad:

OS FILHOS DE ANA ERAM BONS, UMA COISA VERDADEIRA E SUMARENTA. CRESCIAM, TOMAVAM BANHO, EXIGIAM PARA SI, MALCRIADOS, INSTANTES CADA VEZ MAIS COMPLETOS. A COZINHA ERA ENFIM ESPAÇOSA, O FOGÃO ENGUIÇADO DAVA ESTOUROS. O CALOR ERA FORTE NO APARTAMENTO QUE ESTAVAM AOS POUCOS PAGANDO. MAS O VENTO BATENDO NAS CORTINAS QUE ELA MESMA CORTARA LEMBRAVA-LHE QUE SE QUISESSE PODIA PARAR E ENXUGAR A TESTA, OLHANDO O CALMO HORIZONTE. COMO UM LAVRADOR. ELA PLANTARA AS SEMENTES QUE TINHA NA MÃO, NÃO OUTRAS, MAS ESSAS APENAS.A AUTORA EMPREGA POR DUAS VEZES O CONECTIVO MAS NO FRAGMENTO APRESENTADO. OBSERVANDO ASPECTOS DA ORGANIZAÇÃO, ESTRUTURAÇÃO E FUNCIONALIDADE DOS ELEMENTOS QUE ARTICULAM O TEXTO, O CONECTIVO MAS

A - EXPRESSA O MESMO CONTEÚDO NAS DUAS SITUAÇÕES EM QUE APARECE NO TEXTO;
B - QUEBRA A FLUIDEZ E PREJUDICA A COMPREENSÃO SE USADO NO INÍCIO DA FRASE;
C - OCUPA POSIÇÃO FIXA, SENDO INADEQUADO SEU USO NO ABERTURA DA FRASE;
D - CONTÉM UMA IDEIA DE SEQUÊNCIA TEMPORAL QUE DIRECIONA A CONCLUSÃO DO LEITOR;
E - ASSUME FUNÇÕES DISCURSIVAS DISTINTAS NOS DOIS CONTEXTOS DE USO.

É preciso marcar a “E”, embora tudo aí esteja errado. Quem foi que elaborou essa miséria? Quero que me provem que o “conteúdo” do primeiro “mas” é diferente do “conteúdo” do segundo “mas” — e favor não confundir o “conteúdo do mas” com o contexto em que é empregado. Não só isso: exijo que definam “função discursiva distinta nos contextos de uso”. Que borra é essa?

A questão 114 pede que se interprete um texto sobre inquisição; a 115, não menos óbvia, quer que o aluno responda se entendeu que uma língua, mesmo extinta, deixa sinais em outras línguas. A 116 reproduz uma pequena biografia de Machado de Assis: teria o estudante percebido tratar-se da “apresentação da vida de uma personalidade organizada sobretudo pela ordem tipológica da narração, com um estilo marcado pela linguagem objetiva”. Escrever “Ordem tipológica da narração” numa prova vestibular deveria estar entre os crimes previstos no Código Penal.

A 117 também pretende ser de literatura: um soneto do grande Álvares de Azevedo, poeta da segunda geração do Romantismo.

JÁ DA MORTE O PALOR ME COBRE O ROSTO,
NOS LÁBIOS MEUS O ALENTO DESFALECE,
SURDA AGONIA O CORAÇÃO FENECE,
E DEVORA MEU SER MORTAL DESGOSTO!

DO LEITO EMBALDE NO MACIO ENCOSTO
TENTO O SONO RETER!… JÁ ESMORECE
O CORPO EXAUSTO QUE O REPOUSO ESQUECE…
EIS O ESTADO EM QUE A MÁGOA ME TEM POSTO!

O ADEUS, O TEU ADEUS, MINHA SAUDADE,
FAZEM QUE INSANO DO VIVER ME PRIVE
E TENHA OS OLHOS MEUS NA ESCURIDADE.

DÁ-ME A ESPERANÇA COM QUE O SER MANTIVE!
VOLVE AO AMANTE OS OLHOS POR PIEDADE,
OLHOS POR QUEM VIVEU QUEM JÁ NÃO VIVE!

Trata-se de mais uma questão de interpretação, a única da prova inteira a trazer certa dificuldade. O problema aqui, para não variar, está na questão propriamente. Diz o examinador:“O NÚCLEO TEMÁTICO DO SONETO CITADO É TÍPICO DA SEGUNDA GERAÇÃO ROMÂNTICA, PORÉM CONFIGURA UM LIRISMO QUE O PROJETA PARA ALÉM DESSE MOMENTO ESPECÍFICO. O FUNDAMENTO DESSE LIRISMO É”

Deve-se responder “A MELANCOLIA QUE FRUSTRA A POSSIBILIDADE DA REAÇÃO DIANTE DA PERDA”. Certo! Mas por que isso estaria “além” das características da segunda geração romântica? Não está. Trata-se apenas de uma bobagem!

A 118 reproduz um fragmento de Capitães de Areia, de Jorge Amado, e outro de um conto de Dalton Trevisan. Ambos retratam pessoas vivendo em dificuldades. Segundo o examinador, os dois textos, sob diferentes perspectivas, são exemplos de uma abordagem recorrente na literatura do século 20: “O ESPAÇO ONDE VIVEM AS PERSONAGENS É UMA DAS MARCAS DE SUA EXCLUSÃO”. Qualquer um que tente associar Trevisan ao Jorge Amado da fase realista-socialista, como é o caso, é só um iletrado. Aquele troço que vai entre aspas não significa absolutamente nada!
A questão 119 volta com uma obviedade sobre a Internet. A 120, é sério!, mostra três fotos com jogadores de vôlei. O primeiro se prepara para sacar, o segundo defende uma bola, e os dois outros da terceira foto fazem um bloqueio. A prova pergunta que diabo eles estão fazendo. As alternativas são estas:

A - SACAR E COLOCAR A BOLA EM JOGO, DEFENDER A BOLA E REALIZAR A CORTADA COMO FORMA DE ATAQUE.
B - ARREMESSAR A BOLA, TOCAR PARA PASSAR A BOLA AO LEVANTADOR E BLOQUEAR COMO FORMA DE ATAQUE.
C - TOCAR E COLOCAR A BOLA EM JOGO, CORTAR PARA DEFENDER E LEVANTAR A BOLA PARA ATACAR.
D - PASSAR A BOLA E INICIAR A PARTIDA, LANÇAR A BOLA AO LEVANTADOR E REALIZAR A MANCHETE PARA DEFENDER.
E - CORTAR COMO FORMA DE ATAQUE, PASSAR A BOLA PARA DEFENDER E BLOQUEAR COMO FORMA DE ATAQUE.

Eu não sabia que Educação Física pertencia à categoria “Linguagens e Códigos e Suas Tecnologias… O que faz uma questão sobre vôlei depois de uma sobre literatura e antes de outra (121) sobre o acordo ortográfico? Perguntem a Fernando Haddad. A seguinte, a 122, traz um texto sobre os males de que padece o fumante passivo e uma imagem de um não-fumante sendo sufocado pela fumaça do cigarro do vizinho. O Enem pergunta o que os “textos” querem dizem.

Bem, a resposta é esta: “OS NÃO FUMANTES PRECISAM SER RESPEITADOS E POUPADOS, POIS ESTES TAMBÉM ESTÃO SUJEITOS ÀS DOENÇAS CAUSADAS PELO TABAGISMO”. Não é piada! Ou melhor: é, mas não minha!

Deixem-me ver: horóscopo, Carlinhos Brown, Clarice Lispector, vôlei, Álvares de Azevedo, Monet, tabagismo… Então é chegada a hora de cair de boca no surrealismo, não é? Por que não um pouco de Salvador Dali? É o que encontramos na questão 123, que abre com uma frase deliciosamente provocativa do artista:

“TODAS AS MANHÃS, QUANDO ACORDO, EXPERIMENTO UM PRAZER SUPREMO: O DE SER SALVADOR DALÍ.”

Aí vem o examinador, na sua sapiência:

ASSIM ESCREVEU O PINTOR DOS “RELÓGIOS MOLES” E DAS “GIRAFAS EM CHAMAS” EM 1931. ESSE ARTISTA EXCÊNTRICO DEU APOIO AO GENERAL FRANCO DURANTE A GUERRA CIVIL ESPANHOLA E, POR ESSE MOTIVO, FOI AFASTADO DO MOVIMENTO SURREALISTA POR SEU LÍDER, ANDRÉ BRETON. DESSA FORMA, DALÍ CRIOU SEU PRÓPRIO ESTILO, BASEADO NA INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS E NOS ESTUDOS DE SIGMUND FREUD, DENOMINADO “MÉTODO DE INTERPRETAÇÃO PARANOICO”. ESSE MÉTODO ERA CONSTITUÍDO POR TEXTOS VISUAIS QUE DEMONSTRAM IMAGENS…
O certo é “DO ONÍRICO, QUE MISTURAVA SONHO COM REALIDADE E INTERAGIA REFLETINDO A UNIDADE ENTRE O CONSCIENTE E O INCONSCIENTE COMO UM UNIVERSO ÚNICO E PESSOAL”. Sei…

Problemas: Voltem à questão. É MENTIRA QUE DALÍ TENHA DADO APOIO A FRANCO DURANTE A GUERRA CIVIL ESPANHOLA. Ele se mudou para os EUA. Voltou à Espanha em meados da década de 50. Aproximou-se do ditador depois — e é bem possível que essa tenha sido outra manifestação de suas excentricidades. O “movimento surrealista” não era um clube, do qual pudesse ser afastado. Prestem atenção ao “dessa forma” em negrito do texto. Parece que o pintor só “criou o seu próprio estilo” porque André Breton, que era comuna, o hostilizara. Ah, sim: a alternativa dada como correta é uma salada conceitual. Quer dizer… NADA!

As questões 124, 125, 126 e 127 voltam à interpretação de texto mais rasteira. A 128 retoma a literatura, com Machado de Assis. E, Deus meu!, estamos realmente no pior dos mundos. O estudante é convidado a ler um trecho do romance “Quincas Borba”, em que Rubião, que recebera a herança de Quincas Borba, é obrigado a conviver com os hábitos que lhe impõe Palha, o pilantra que acaba roubando todo o seu dinheiro. Pois bem. Para quem elaborou a prova, a “PECULIARIDADE DO TEXTO QUE GARANTE A UNIVERSALIZAÇÃO DE SUA ABORDAGEM (!) RESIDE” “NO CONFLITO ENTRE O PASSADO POBRE (DE RUBIÃO) E O PRESENTE RICO, QUE SIMBOLIZA O TRIUNFO DA APARÊNCIA SOBRE A ESSÊNCIA”.

Talvez seja a coisa mais estúpida de toda a prova, até porque envolve Machado de Assis, o único escritor verdadeiramente universal da literatura brasileira. Afirmar que Machado estabeleceria uma oposição entre “aparência” e “essência” é insultar não apenas esse livro, mas toda a obra do autor. Talvez se pudesse dizer que, para ele, na essência, o que há é só uma aparência ainda não revelada. É de uma tolice estupenda, assustadora.

A questão 129 reproduz um trecho de “Negrinha”, de Monteiro Lobato, o autor que a turma de Haddad tentou censurar. Limita-se, mais uma vez, à mera interpretação óbvia do texto. Entendeu o candidato que a personagem citada não aceitava o fim da escravidão? Huuummm… Assim escreve Lobato sobe Dona Inácia: “NUNCA SE AFIZERA AO REGIME NOVO - ESSA INDECÊNCIA DE NEGRO IGUAL”.

De Monteiro Lobato para um jogo do Flamengo! O objetivo da questão 130 é saber se o aluno entendeu que, no trecho “MESMO COM MAIS POSSE DE BOLA, O TIME DIRIGIDO POR CUCA TINHA GRANDE DIFICULDADE DE CHEGAR À ÁREA ALVINEGRA (…)”, há uma idéia de “concessão”…

A 131 trata da pintura de Anita Malfatti, que remete mais uma vez a Lobato, que continua a ser maltratado pelo Ministério da Educação. A questão é esta:

APÓS ESTUDAR NA EUROPA, ANITA MALFATTI RETORNOU AO BRASIL COM UMA MOSTRA QUE ABALOU A CULTURA NACIONAL DO INÍCIO DO SÉCULO XX. ELOGIADA POR SEUS MESTRES NA EUROPA, ANITA SE CONSIDERAVA PRONTA PARA MOSTRAR SEU TRABALHO NO BRASIL, MAS ENFRENTOU AS DURAS CRÍTICAS DE MONTEIRO LOBATO. COM A INTENÇÃO DE CRIAR UMA ARTE QUE VALORIZASSE A CULTURA BRASILEIRA, ANITA MALFATTI E OUTROS ARTISTAS MODERNISTAS…
A resposta certa é esta: “BUSCARAM LIBERTAR A ARTE BRASILEIRA DAS NORMAS ACADÊMICAS EUROPEIAS, VALORIZANDO AS CORES, A ORIGINALIDADE E OS TEMAS NACIONAIS.”

Vamos ver. De fato, Lobato desceu o sarrafo na exposição de Anita. Mas isso nada tinha a ver com a “libertação das normas acadêmicas européias”. A acusação era outra: apego às vanguardas da Europa — ele cita especificamente Picasso. Da forma como vai a coisa, tem-se a impressão de que Lobato se opunha à valorização da cultura brasileira…

A questão 132 publica um gráfico indicando que as mulheres escolhem mais as carreiras ligadas às pessoas, como “psicologia”, “humanas-artes”, “educação” e “medicina”. Já os homens preferem as carreiras ligadas às “coisas”, como matemática, engenharia, mineração e física. Se que faz a prova não entendeu o gráfico, não tem problema. Há duas legendas explicando: “ELA TÊM MAIS HABILIDADES EM COMPREENDER PESSOAS E EMOÇÕES. ENTÃO DOMINAM AS CARREIRAS QUE TÊM A VER COM ISSO” e “ELES TENDEM A USAR A CABEÇA PARA LIDAR COM COISAS INANIMADAS E ABSTRAÇÕES. POR ISSO SÃO MAIORIA NOS CURSOS DE EXATAS”.

Vocês podem ver com os próprios olhos. Depois disso tudo, constata e indaga o Enem:

SEGUNDO PESQUISAS RECENTES, É IRRELEVANTE A DIFERENÇA ENTRE SEXOS PARA SE AVALIAR A INTELIGÊNCIA. COM RELAÇÃO ÀS TENDÊNCIAS PARA ÁREAS DO CONHECIMENTO, POR SEXO, LEVANDO EM CONTA A MATRÍCULA EM CURSOS UNIVERSITÁRIOS BRASILEIROS, AS INFORMAÇÕES DO GRÁFICO ASSEGURAM QUE:

A - OS HOMENS ESTÃO MATRICULADOS EM MENOR PROPORÇÃO EM CURSOS DE MATEMÁTICA QUE EM MEDICINA POR LIDAREM MELHOR COM PESSOAS.
B - AS MULHERES ESTÃO MATRICULADAS EM MAIOR PERCENTUAL EM CURSOS QUE EXIGEM CAPACIDADE DE COMPREENSÃO DOS SERES HUMANOS.
C - AS MULHERES ESTÃO MATRICULADAS EM PERCENTUAL MAIOR EM FÍSICA QUE EM MINERAÇÃO POR TENDEREM A TRABALHAR MELHOR COM ABSTRAÇÕES.
D - AS HOMENS E AS MULHERES ESTÃO MATRICULADOS NA MESMA PROPORÇÃO EM CURSOS QUE EXIGEM HABILIDADES SEMELHANTES NA MESMA ÁREA.
E - AS MULHERES ESTÃO MATRICULADAS EM MENOR NÚMERO EM PSICOLOGIA POR SUA HABILIDADE DE LIDAREM MELHOR COM COISAS QUE COM SUJEITOS.

As questões 133, 134 e 135 voltam à interpretação rasteira de texto. É o fundo do poço!
Não comentei neste longo texto as cinco questões de língua estrangeira e a prova de redação, que merecem artigo à parte. Essa prova é um crime contra o bom senso, contra a cultura, contra o próprio sentido de escola. Não é que ela precise mudar aqui e ali. Simplesmente não tem conserto. A história de que o Enem inova porque não exige decoreba, mas raciocínio, é uma empulhação. Não bastasse o fato de que a quase totalidade dessas 40 questões se limita à interpretação de texto mais estupidamente óbvia, estamos diante de uma impressionante penca de tolices e de imprecisões.

Haddad não veio para melhorar a escola. Ele está aí para torná-la inútil. O abismo nos espreita.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

SIM, EU TENHO PRECONCEITO (transcrito da FSP, de 11/11/2010

"Logo depois de anunciada a vitória de Dilma Rousseff, pingaram comentários preconceituosos na internet contra os nordestinos, grupo que garantiu a vitória da candidata petista nas eleições.A devida reação veio no dia seguinte: a expressão "orgulho de ser nordestino" passou a segunda-feira como uma das mais escritas no microblog Twitter.

O racismo das primeiras mensagens é, obviamente, estúpido e reprovável. Não se pode dizer o mesmo de outro tipo de preconceito -aquele relacionado não à origem ou aos traços físicos dos cidadãos, mas ao modo como as pessoas pensam e votam. Nesse caso, eu preciso admitir: sim, eu tenho preconceito.

Eu tenho preconceito contra os cidadãos que nem sequer sabiam, dois meses antes da eleição, quem eram os candidatos a presidente. No fim de julho, antes de o horário eleitoral começar, as pesquisas espontâneas (aquela em que o entrevistador não mostra o nome dos candidatos) tinham percentual de acerto de 45%. Os outros 55% não sabiam dizer o nome dos concorrentes. Isso depois de jornais e canais de TV divulgarem diariamente a agenda dos presidenciáveis.

É interessante imaginar a postura desse cidadão diante dos entrevistadores. Vem à mente uma espécie de Homer Simpson verde e amarelo, soltando monossílabos enquanto coça a barriga: "Eu... hum... não sei... hum... o que você... hum... está falando". Foi gente assim, de todas as regiões do país, que decidiu a eleição.

Tampouco simpatizo com quem tem graves deficiências educacionais e se mostra contente com isso e apto a decidir os rumos do país. São sujeitos que não se dão conta de contradições básicas de raciocínio: são a favor do corte de impostos e do aumento dos gastos do Estado; reprovam o aborto, mas acham que as mulheres que tentam interromper a gravidez não devem ser presas; são contra a privatização, mas não largam o terceiro celular dos últimos dois anos. "Olha, hum... tem até câmera!".

Para gente assim, a vergonha é uma característica redentora; o orgulho é patético. Abster-se do voto, como fizeram cerca de 20% de brasileiros, é, nesse caso, um requisito ético. Também seria ótimo não precisar conviver com os 30% de eleitores que, segundo o Datafolha, não se lembravam, duas semanas depois da eleição, em quem tinham votado para deputado. Não estou disposto a adotar uma postura relativista e entender esses indivíduos. Prefiro discriminá-los.

Eu tenho preconceito contra quem adere ao "rouba, mas faz", sejam esses feitos grandes obras urbanas ou conquistas econômicas. Contra quem se vale de um marketing da pobreza e culpa os outros (geralmente as potências mundiais, os "coronéis", os grandes empresários) por seus problemas. Como é preciso conviver com opiniões diferentes, eu faço um tremendo esforço para não prejulgar quem ainda defende Cuba e acredita em mitos marxistas que tornariam possível a existência de um "candidato dos pobres" contra um "candidato dos ricos".

Afinal, se há alguma receita testada e aprovada contra a pobreza, uma feliz receita que salvou milhões de pessoas da miséria nas últimas décadas, é aquela que considera a melhor ajuda aos pobres a atitude de facilitar a vida dos criadores de riqueza. É o caso do Chile e de Cingapura, onde a abertura da economia e a extinção de taxas e impostos fizeram bem tanto aos ricos quanto aos pobres. Não é o caso da Venezuela e da Bolívia.

Por fim, eu nutro um declarado e saboroso preconceito contra quem insiste em pregar o orgulho de sua origem. Uma das atitudes mais nobres que alguém pode tomar é negar suas próprias raízes e reavaliá-las com equilíbrio, percebendo o que há nelas de louvável e perverso. Quem precisa de raiz é árvore".

LEANDRO NARLOCH, jornalista, é autor do livro "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil" (LeYa). Foi repórter do "Jornal da Tarde" e da revista "Veja" e editor das revistas "Aventuras na História" e "Superinteressante".

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

POR QUE NÃO REESCREVEM TUDO? por João Ubaldo Ribeiro

Ainda bem que João Ubado existe. Bendito sejas Tu, Eterno, que o fizeste neste mundo. Apesar de inúmeros exemplos contrários, é possível que a inteligência prevaleça contra o fanatismo. O artigo abaixo é um tributo à civilização.
(Publicado em O Globo, de 7 de novembro de 2010)

"De uns tempos para cá, não sei se me engano, começaram a proliferar normas destinadas a controlar nossa conduta individual. Falei em algumas aqui e cheguei a aventar a hipótese de que uma agência governamental, ou qualquer outra das muitas autoridades a que vivemos subordinados sem saber, venha a estabelecer normas para o uso do papel higiênico e garantir sua observação através da instalação de câmeras nos banheiros de uso público. Nos banheiros domésticos, imagino que seriam suficientes umas visitas incertas de inspetores com gazuas, para tentar flagrar os que se asseassem ilegalmente. Não se trata somente de passatempo para burocratas entediados e sem mais o que fazer. Trata-se da convicção, que parece grassar truculentamente em toda parte, de que existe algo "certo", cientificamente certo e, portanto, todos devem comportar-se dentro do certo.

Se nas ciências físicas esse negócio de "certo" já é olhado com um pé atrás, nas ciências humanas, que nunca puderam aspirar ao nível de objetividade daquelas, a existência do "certo" é muito discutível, envolve necessariamente valores, valores que permeiam toda ação do homem e não são território da ciência e da objetividade.

Agora leio aqui nos jornais que a compulsão pelo certo acaba de atingir novo limite. Desta vez, por um parecer do Conselho Nacional de Educação, que opinou que o livro "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, deve ser proibido nas escolas públicas, por se tratar de obra racista. Sei que, entre vocês, há leitores de Monteiro Lobato que acharam que não entenderam o que acabaram de ler. Mas é isso mesmo: não pode "Caçadas de Pedrinho", porque é racista. Ou, por outra, pode, mas somente "quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil".

Eu não vou nem falar nos milhões de brasileiros de todas as idades e todas as gerações que viveram no mundo mágico criado por um dos maiores escritores universais, um gênio naquilo que fez melhor, motivo de orgulho para todos nós, Monteiro Lobato. Nem vou dedicar tempo a entender como é que foi que todos esses milhões, lendo, despreparados, livros racistas, não vieram mais tarde a abrigar preconceitos e ideias nocivas, instilados solertemente na consciência indefesa de crianças. Monteiro Lobato, com toda a certeza, tem tantos defensores quanto leitores, não precisa de mais uma defesa.

E que diabo é "compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil". A compreensão "certa"? Qual é a compreensão certa de um fenômeno que gera até brigas ferozes entre seus estudiosos e participantes? Estará correta a visão que vê no racismo um fenômeno causado exatamente pela diferença de raças? Terá mais razão o que vê na escravidão um fenômeno basicamente econômico e só secundariamente racial? Quem resolveu isso? Qual a posição oficial do governo? O professor que orientar a leitura de "Caçadas de Pedrinho" terá que saber.

Deus ajude as pobres crianças, torturadas com o que era antigamente somente um livro que as transportava para a fantasia, a aventura e o encantamento inocentes. Agora, ao que parece, o correto é a leitura tutelada, orientada. Antigamente, a literatura infantil era liberdade, escape, território autônomo em que a imaginação do jovem, ainda não embotada pela experiência, o levava a uma felicidade mais tarde irreproduzível. Agora talvez se diga "você gostou disso, por aquilo; e não gostou disso, porque não é para gostar, está errado". A boa literatura dá lições como consequência, não como objetivo.

Deve-se ensinar a ler por prazer, de maneira desarmada e aberta - e não há como desconfiar dos clássicos como Lobato, os clássicos são clássicos porque são clássicos. A literatura, como a vida, não é certinha. A ficção até que arruma os acontecimentos, lhes empresta enredos e sentidos que na vida real não têm. Mas, como a vida, a ficção mostra contradições, reflete dilemas, exibe defeitos, ilumina a existência humana. Quem entra num romance deve entrar sozinho, a viagem é individual e intransmissível.

E até mesmo essa conversa de necessidade de contextualizar o livro é bem discutível. No meu tempo de menino, ninguém precisou contextualizar os livros de Tarzan para aceitar a África dele, assim como não se contextualizava Robin Hood, D'Artagnan, Jorge Amado, Érico Veríssimo ou quem lá fosse que aparecesse num romance, a contextualização era automática, vinha do bom texto.

Finalmente, em que medida os defeitos não são subjetivos, ou seja, não estão apenas na mente e na percepção de quem os aponta? Existirá um racismômetro? E, mais ainda, não haverá outras áreas sensíveis? Acho que a adoção de mais controles é decorrência lógica e questão de justiça. Temos por exemplo a antropologia ultrapassada de Euclides da Cunha, o tal que falou no "mestiço neurastênico do litoral". É tão presente nele essa visão antropológica superada (além de ofensiva a grupos raciais; eu mesmo sou mestiço neurastênico do litoral e as mulheres sempre me discriminaram), que o melhor seria mandar um antropólogo correto e moderno reescrever "Os Sertões', para quê o velho? Esperemos também alegações de violência contra mulheres (Barba-Azul), machismo (Bolinha), ódio a uma espécie em extinção (o lobo de Chapeuzinho Vermelho), exploração de deficientes verticais (os anões de Branca de Neve), apologia da bruxaria (a Bela Adormecida) e assim por diante. Olhando para trás, chego a ter um arrepio, em ver como escapamos por pouco de termos as personalidades deformadas pela leitura irresponsável dos clássicos, esses repositórios de traições, assassinatos, incestos, preconceitos, guerras, adultérios e tudo mais que o planejamento científico logo eliminará. Melhor por enquanto ficar longe deles e aguardar instruções das autoridades."

"Monteiro Lobato no tribunal literário" - Aldo Rebelo


(Fonte: Folha de São Paulo de 07/11/2010)

"O parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) de que o livro "Caçadas de Pedrinho" deve ser proibido nas escolas públicas, ou ao menos estigmatizado com o ferrão do racismo, instala no Brasil um tribunal literário. A obra de Monteiro Lobato, publicada em 1933, virou ré por denúncia -é esta a palavra do processo legal-de um cidadão de Brasília, e a Câmara de Educação Básica do Conselho opinou por sua exclusão do Programa Nacional Biblioteca na Escola.

Na melhor das hipóteses, a editora deverá incluir uma "nota explicativa" nas passagens incriminadas de "preconceitos, estereótipos ou doutrinações". O Conselho recomenda que entrem no índex "todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante". Se o disparate prosperar, nenhuma grande obra será lida por nossos estudantes, a não ser que aguilhoada pela restrição da "nota explicativa" -a começar da Bíblia, com suas numerosas passagens acerca da "submissão da mulher", e dos livros de José de Alencar, Machado de Assis e Graciliano Ramos; dos de Nelson Rodrigues, nem se fale. Em todos cintilam trechos politicamente incorretos.

Incapaz de perceber a camada imaginária que se interpõe entre autor e personagem, o Conselho vê em "Caçadas de Pedrinho" preconceito de cor na passagem em que Tia Nastácia, construída por Lobato como topo da bondade humana e da sabedoria popular, é supostamente discriminada pela desbocada boneca Emília, "torneirinha de asneiras", nas palavras do próprio autor: "É guerra, e guerra das boas. Não vai escapar ninguém -nem Tia Nastácia, que tem carne negra". Escapou aos censores que, ao final do livro, exatamente no fecho de ouro, Tia Nastácia se adianta e impede Dona Benta de se alojar no carrinho puxado pelo rinoceronte: "Tenha paciência -dizia a boa criatura. Agora chegou minha vez. Negro também é gente, sinhá...".

Não seria difícil a um intérprete minimamente atento observar que a personagem projeta a igualdade do ser humano a partir da consciência de sua cor. A maior extravagância literária de Monteiro Lobato foi o Jeca Tatu, pincelado no livro "Urupês", de 1918, como infamante retrato do brasileiro. Mereceria uma "nota explicativa"?

Disso encarregou-se, já em 1919, o jurista Rui Barbosa, na plataforma eleitoral "A Questão Social e Política no Brasil", ao interpretar o Jeca de Lobato, "símbolo de preguiça e fatalismo", como a visão que a oligarquia tinha do povo, "a síntese da concepção que têm, da nossa nacionalidade, os homens que a exploram". Ou seja, é assim que se faz uma "nota explicativa": iluminando o texto com estudo, reflexão, debate, confronto de ideias, não com censuras de rodapé.

O caráter pernicioso dessas iniciativas não se esgota no campo literário. Decorre do erro do multiculturalismo, que reivindica a intervenção do Estado para autonomizar culturas, como se fossem minorias oprimidas em pé de guerra com a sociedade nacional.

Não tem sequer a graça da originalidade, pois é imitação servil dos Estados Unidos, país por séculos institucionalmente racista que hoje procura maquiar sua bipolaridade étnica com ações ditas afirmativas. A distorção vem de lá, onde a obra de Mark Twain, abolicionista e anti-imperialista, é vítima dessas revisões ditas politicamente corretas. País mestiço por excelência, o Brasil dispensa a patacoada a que recorrem os que renunciam às lutas transformadoras da sociedade para tomar atalhos retóricos.

Com conselheiros desse nível, não admira que a educação esteja em situação tão difícil. Ressalvado o heroísmo dos professores, a escola pública se degrada e corre o risco de se tornar uma fonte de obscurantismo sob a orientação desses "guardiões" da cultura."
ALDO REBELO, 54, jornalista, é deputado federal pelo PC do B de São Paulo.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

De que lado você está, Melissa?

(Artigo do grande antropólogo Roberto da Mata, publicado em 27/10/2010)

"Quando trabalhava num museu cheio de ossos e de artefatos indígenas cheirando a naftalina e mofo, eu — recém-chegado de Harvard e contrariamente ao meu projeto de ser apenas um pesquisador — fui galgado à posição de coordenador de um programa de ensino e pesquisa. A saída de seu fundador promoveu a minha entrada na “burro-cracia” federal da universidade e, de repente, eu me vi na posição de liderar um grupo de pessoas que mal conhecia. Éramos todos contra a ditadura militar que então governava um Brasil administrado pelo arbítrio e sem a regra de lei que entre nós, humanos, sempre instáveis e interessados, ajuda a manter a coerência; e, eventualmente, mas nem sempre, garante o uso de um só peso e medida.
Um dia, graças a circunstâncias que espero contar com mais detalhes em outro lugar, surgiu a oportunidade de contratar o grupo de professores do programa (de fato, a sua esmagadora maioria), integrando-os aos quadros da universidade. Digo integrar porque, àquela época, eles eram pagos por uma fundação americana que, por meio de sua filantropia, dirimia a nobre culpa ianque por ter criado um colar de ditaduras militares que coroavam com seus diversos tipos de despotismo o nosso continente. O tal “cone sul” ou “América latina” que só agora os americanos estão deixando de ver como um bloco instável, único e atrasado. Algo que, sem nenhum exagero, ainda se situa na sua lata de lixo por contraste com uma certa Europa e Ásia que estão na sua sala de visita.

Pois bem. Quando um todo-poderoso burocrata da universidade dignou-se a entrar em contato comigo, solicitando os nomes dos professores a serem finalmente integrados no nosso programa, não tive dúvida ou neutralidade. Eu sabia de que lado estava, muito embora alguns desses colegas não comungassem comigo das mesmas convicções liberais que, aos 20 anos, eu havia consolidado na minha experiência com a América de Jefferson, Lincoln, Luther King, Thornton, Wilder, Capra, John Ford, Kubrick e muitos outros; mais do que com a vivência com os Estados Unidos de Joseph McCarthy, Nixon, da Ku-Klux-Klan e da dinastia Bush. E assim eu confirmei os seus nomes, muito embora na nossa convivência eu sempre fosse direta ou marginalmente tachado como sendo de “direita” ou de “liberal” com tudo o que essa palavra contém de execrável, de indigno e de desprezível no Brasil (e mais ainda no Brasil daquela época). O mesmo ocorrendo com a minha mal começada obra. Uma vez me disseram que em vez de falar de carnaval ou de renunciantes, como Augusto Matraga, de comida e de dona Flor como metáfora do Brasi, eu deveria estudar camponeses e operários.

Em alguns projetos e publicações produzidos naquele museu eu, apesar de coordenador, era excluído porque certamente não ficava bem mencionar o nome de um semifascista nos resultados de pesquisas de “esquerda” que iriam transformar o Brasil.

Lembro essas passagens não para ativar ressentimentos que já encontraram seu lugar num velho e machucado coração, mas para insistir num ponto: jamais assumi uma posição de neutralidade que — como o limbo — seria mais do que justificado por um coordenador acidental e marcado por um preconceito político tão distorcido pela inútil, mas sempre ressuscitada dualidade entre direita e esquerda.

Por causa disso, e mesmo ouvindo com mágoa a suspeita de um colega que expressou dúvida se o seu nome constaria da lista que enviei à universidade, não fiquei em cima de um doce muro do qual, como fizeram dona Marina e os verdes, muita gente pensa que se pode descortinar os dois lados.

Faço estas confidências porque elas têm muito a ver com o clima eleitoral brasileiro. Você fica neutro quando um presidente da República e um partido que se recusou a assinar a Constituição e foi contra o Plano Real usam de todos os recursos do Estado que não lhe pertencem para ganhar o jogo? Você diz que o jogo não interessa porque você queria que os adversários fossem do mais alto nível e isso não existe em nenhum país e muito menos no Brasil? Será que você não enxerga que o exemplo da neutralidade é fatal quando há uma óbvia ressurgência do velho autoritarismo personalista por meio do lulismo que diz ser a “opinião pública”? O que você esperava de uma disputa eleitoral no contexto do governo de um partido dito ideológico, mas marcado por escândalos, aloprados e nepotismo? Você deixaria de tomar partido mesmo quando o magistrado supremo do Estado vira um mero cabo eleitoral de uma candidata por ele inventada? É válido ser neutro quando o presidente vira dono de uma facção, como disse com precisão habitual FHC? Se o time do governo deve sempre vencer porque tem certeza absoluta de que faz o melhor, pra que eleição? A dúvida, o debate, os momentos de ansiedade e de tédio são parte do fardo grandioso da democracia que tanto queríamos. Só os fascistas e os de máfé, só os ignorantes desse processo podem achar que tudo é péssimo, inclusive os candidatos. Você pode não gostar de um ou do outro, mas a disputa que o Lula e o PT querem anular usando o pessimismo burro do brasileiro para com a “política” é crítica para liquidar as convergências liberais que alcançamos.

Pense nisso, não enverdeça.

Não esconda o seu medo de decidir com argumentos bacharelescos. Diga de que lado você está. Lembre-se que neste mundo não há deuses ou superheróis.

Há apenas pessoas comuns que são candidatos temporários a cargos que têm uma enorme e decisiva influência no nosso destino!"

Fonte: Jornal “O Globo” – 27/10/10

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

POLÍTICA E UNIVERSIDADE

"Três antigos dirigentes da UFMG (capitaneados por seu ex-reitor, professor Ronaldo Pena) utilizaram-se de veículo institucional da universidade ("Boletim" de 18.10) para acintosa campanha em favor da candidata oficial a presidente da República. Causou espécie, com repercussão na imprensa nacional, a forma como se deu o apoio, pois há explícita vedação legal para isso, conforme entendimento de juristas especializados em legislação eleitoral. Abrir espaço para artigos de defensores de outra candidatura - como alguns chegaram a defender - só iria ampliar a violação praticada, democratizando-a perversamente.

Qualquer jornal local certamente acolheria tais manifestações pessoais nas suas páginas de opinião, até por causa da alta posição acadêmica dos autores. Além do mais, um público mais universal estaria sendo brindado, assim, com as avaliações políticas dos referidos e magníficos docentes. A sociedade seria grandemente beneficiada. Ganharia mais elementos de informação no julgamento do governo Lula, não só no tocante às questões orçamentárias educacionais como, também, em outros aspectos infelizmente negligenciados pelos mestres.

Em linguagem sectária, similar à utilizada pela candidatura chapa-branca, argumentam os ex-dirigentes que "o momento é de comparação de dois projetos para o Brasil. De um lado, Dilma Rousseff, representando a continuidade do projeto desenvolvido nos últimos anos, e de outro, José Serra, a oposição a esse projeto". Ouvem-se aí ecos de um totalitarismo tardio, emanados da "teoria dos dois campos" de Jdanov - ideólogo do stalinismo: quem não está comigo está contra mim; quem não é amigo, é inimigo; quem não é socialista, é capitalista e assim sucessivamente. José Dirceu, o chefe da quadrilha do mensalão, assinaria sem tergiversar a espantosa simplificação da realidade contida nesse diagnóstico.

Não consideraram os ilustres professores que uma parcela do eleitorado pode fazer, simplesmente, uma escolha baseada na teoria do mal menor, indissociável do sistema de voto em dois turnos, tal como existe em outros países.

Uma concepção severina da educação - não a que tem como referência a visão do grande poeta João Cabral de Melo Neto, mas aquela inspirada no ex-deputado Severino Cavalcanti, o achacador de lanchonetes - considera o dinheiro como norte a ser seguido, bem como unidade de medida de ações governamentais. Desde que os governantes abram sua vasta cornucópia para suculentas bolsas isentas de imposto de renda, tudo estará bem. Não importa que seus adeptos e acólitos patrocinem, por exemplo, a queima de livros em praça pública (tal como se deu em março do corrente, em São Paulo), numa repetição dos atos dos nazistas, em 1933, às portas de uma universidade alemã. Em nossa universidade severina, bolsos e bolsas recheados falarão mais alto. Valores civilizatórios ficarão severinamente distantes. Vale relembrar o poeta alemão Heine, que assim disse, em 1843: num lugar onde se queimam livros, depois se começa a queimar pessoas."

(Publicado no jornal O TEMPO, de Belo Horizonte, em 23/11/2010)

OS MANIQUEUS (Editorial do jornal O TEMPO, de 23/11/2010)

"A opinião pública discute, nestes dias, se houve ou não agressão a Serra numa passeata no Rio, na última quarta-feira. Discute-se se foi uma bolinha de papel ou um rolo de fita adesiva que atingiu o candidato, ferindo-o levemente.
O próprio presidente Lula entrou no debate, acusando Serra de montar uma farsa. Anteontem, o "Jornal Nacional" demorou-se em provar que houve dois gestos, um com bolinha de papel e, 15 minutos depois, outro com a fita adesiva.
Não importa o que tenha sido atirado no candidato Serra. Importa mais o gesto agressivo. Ontem, atiraram uma inofensiva bolinha de papel, amanhã pode ser uma pedra ou um tiro de revólver, como já aconteceu aqui e alhures.
É inevitável que os candidatos, Dilma inclusive, sofram hostilidades. Mas o presidente não devia se meter numa briga de correligionários, instigando mais agressões. Em última instância, toda a responsabilidade é só sua.
Ele não pode esquecer que tudo de bom e de mau que ocorrer na campanha eleitoral será creditado ou debitado a seu governo. A segurança de que gozam os candidatos é um crédito de seu governo ao preservar a democracia.
Governos reconhecidamente fascistas sempre consideraram farsa quando políticos de oposição sofreram atentados. A história mostrou que a farsa frequentemente foi montada não pelas vítimas, mas pelos acusados.
O país está dividido entre Dilma e Serra. Com relação ao eleitorado de Dilma, talvez não haja dúvidas no seu meio. Mas, com relação ao de Serra, não há essa certeza. Ele repudia o maniqueísmo a que está sendo obrigado.
Como diz o professor Antônio Machado de Carvalho, aqui ao lado, uma parte do eleitorado está fazendo a opção pelo mal menor. Não está nem com um nem com outro candidato, mas com o menos ruim.
Isso precisa ser respeitado. Seja quem for que ganhar o segundo turno, terá de governar com praticamente a metade do eleitorado contra. Portanto, é melhor ir se acostumando."