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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Dilma, a estarrecida (Leonel Kaz)

"É estarrecedor que a presidente Dilma não fique estarrecida" (LK)


Leonel Kaz publicou em seu blog o que segue abaixo:


"Jack Lang foi ministro da Cultura da França e hoje preside o Instituto do Mundo Árabe, em Paris. Eu o conheci, na década de 80, quando ele veio ao Rio para o projeto da Casa França-Brasil, do qual participei com Darcy Ribeiro e Italo Campofiorito.
Lang criticou esta semana o fracasso da educação francesa por não saber lidar com o tema da intolerância religiosa: “É inútil acrescentar mais horas de instrução cívica, já há muita, e é muito mal feita. É preciso retornar ao essencial. Se eliminou o ensino das artes e da cultura na escola francesa, e este é um dos melhores remédios contra a violência.”

Lá se eliminam aulas; aqui se eliminam museus. É estarrecedor que a presidente não se sinta estarrecida com o fechamento do museu mais visitado por escolas, o Museu Nacional do Rio, por falta de verbas que dependem dela mesma.




1. Que a presidente fique estarrecida com a morte de um brasileiro, traficante de drogas, após esgotada uma década de defesa judicial, faz parte de um ato diplomático.

2. Mas é estarrecedor que a mesma presidente não fique estarrecida com os outros brasileiros que foram executados, em 2013, à razão de um a cada 10 minutos, na violência cotidiana aqui dentro de nosso território.

3. Vento que venta lá, venta cá. Imaginar que uma charge pode causar a destruição de vida é de um simplismo estarrecedor. Ora, o ataque ao Charlie Hebdo foi muito “bem bolado” visando contrapor, na superficialidade e asneiras do mundo eletrônico, o velho maniqueísmo de uns contra outros. O alvo foi “bem” escolhido para promover exatamente esta polêmica inútil e sem fim que dê razão à retrógrada assertiva: ”Ah, alguma coisa de errado eles fizeram para merecer morrer.”
4. Ninguém merece morrer. Nem a dúzia de seres então vivos do Charlie Hebdo nem os seis milhões de judeus que também foram executados pelos alemães do período hitlerista (que voltam a colocar suas manguinhas de fora…) sem publicar charge alguma.

5. O que há na cabeça de quem faz terrorismo, aqui ou acolá, é a ideia de que a vida do outro não vale nada. Isto serve para o Jihad Islâmico, isto serve para os traficantes que comandam batalhões de exércitos de malfeitores nas grandes cidades brasileiras. Lá atacaram uma revista; aqui, 200 deles atacaram o Depósito Público de motos roubadas, no Rio, e com metralhadoras em punho levaram 193 delas, periguetes na garupa.

6. O que tem havido é indiferença e incompetência. Daí, lá, a frase de Jack Lang sobre “os sucessivos governos que fizeram muito mal à escola nos últimos anos”; daí, aqui, o estarrecedor de que os alunos abandonem o ensino médio, frequentem a sala de aula por mero protocolo e passem de ano, literalmente, no grito, impondo medo aos professores. Repetimos um modelo anacrônico de ensino que faz a escola se transformar em cárcere, destituído da realidade da sociedade, salvo boas e raras exceções.

7. Não por acaso, mais de meio milhão de inscritos na prova do ENEM tiraram zero. O que não tem se ensinado – num esforço que una professores, pais e alunos –é a comezinha habilidade humana de elaborar um pensamento próprio. Nisto, as artes e a cultura fazem uma grande, uma imensa diferença. Elas permitem ao aluno não a decoreba, mas o mergulho em si mesmo, em sua própria liberdade de criação.

8. Não é o óbvio que está em jogo. É a perspectiva de acrescentar algo de novo ao mundo. E ao próprio mundo interior, tão vasto embora tão amordaçado de cada criança.

9. Mais do que mais armamentos, o que precisamos é de mais arte e cultura na escola, de tal sorte a dar à criança os instrumentos necessários – vá lá, as armas do saber – para que ela por si mesma possa se defender e avançar, não numa linha reta ou superficial, mas avançar para dentro de si mesma, procurando em si mesma horizontes amplos, para que exerça na plenitude o ATO DE PENSAR.


10. Pensar por sua própria cabeça. E não com a cabeça dos outros que moldam o terror. Sejam eles os marginalizados da periferia francesa, que são atraído pelo Jihad, sejam os marginalizados das periferias brasileiras, que são atraídos pelas lideranças da criminalidade".

terça-feira, 20 de setembro de 2011

DISCIPLINA VENCE IDEOLOGIA - José Maria e Silva

O artigo abaixo, de autoria do sociólogo e jornalista José Maria Silva, de Goiânia, analisa os dados do ENEM. Os resultados comprovariam que aluno disciplinado consegue vencer até a "imbecilizante ideologia do MEC e das universidades". O provocativo texto é uma recomendação do professor Miguel Nagib, organizador do site Escolas sem Partido (www.escolasempartido.org).

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"Criado em 1998, durante a gestão do tucano Paulo Re¬nato de Souza no Ministério da Educação, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi e continua sendo objeto de muitas críticas. A exemplo dos demais indicadores da educação, ele também não é visto como um metro confiável. Questiona-se sobretudo a sua capacidade de medir a qualidade das escolas, uma vez que seu objetivo é avaliar alunos. Mas, agora que saiu o resultado das médias obtidas pelas escolas brasileiras nas provas do Enem de 2010, a imprensa repete a mesma pauta de sempre – transforma o Enem numa listagem de escolas, em que as particulares sempre ganham das públicas. Obviamente.

Em Goiás, entre as 40 melhores escolas com participação de mais de 75% no Enem, apenas uma é pública – o Colégio Municipal Castro Alves, de Posse, que ficou em 11º lugar, com a média de 654,79 pontos. No Enem de 2009, segundo reportagem do jornal “O Popular” (edição de segunda-feira, 12), nenhuma escola pública goiana ficou entre as 20 melhores. E, a se crer em reportagem do Portal G1 (do mesmo dia), o feito da escola de Posse é quase um milagre. A escola, segundo seu diretor, não recebe os devidos investimentos do poder público e — que não nos ouça o Ministério Público — é salva pela ajuda financeira de sua associação de pais e mestres.

Diz a reportagem do G1, assinada por Humberta Carvalho, que a Escola Castro Alves tem 510 alunos e 30 alunos por sala. O laboratório de ciências está sucateado e o de informática só tem dez computadores. A área de lazer, segundo o diretor Luiz Bezerra da Costa Neto, “também deixa muito a desejar”. E, para completar as carências, os alunos do ensino médio, que fizeram a prova do Enem, têm aulas à noite. Mesmo assim, a escola municipal de Posse – que honra o nome de Castro Alves – obteve 591,33 pontos em linguagens; 613 em matemática; 635,72 em ciências humanas e 570,65 em ciências da natureza. Ficou com 602,67 pontos nas provas objetivas e 709 na redação, o que deu a média total de 654,79.
Abençoada carência

A universidade brasileira, em vez de ficar dizendo que não se pode comparar escolas com base no Enem, devia analisar casos do gênero com mais profundidade, pois é temerário para um indivíduo sozinho tentar fazê-lo. Isso é sempre trabalho para instituições. Mas arrisco-me a propor alguns pontos de reflexão, começando pela suposta carência dessa escola. Não está aí parte do segredo de seu sucesso? Se ela tivesse mais área de lazer não teria também mais vadiagem? Aposto que sim. Quadra de esporte em escola, por exemplo, além de local para o aluno fugir do estudo sério, costuma ser um celeiro de brigas por causa do futebol. A área de lazer, dependendo da localização da escola, pode virar boca de fumo.

E o que dizer do laboratório de informática com seus dez computadores para 510 alunos? Uma benção! – eu diria, parodiando os evangélicos pentecostais que transformam até terremoto em graça divina. Torço para que a Escola Municipal Castro Alves continue com esses dez computadores e, sobretudo, faço votos para que eles não tenham banda larga. Hoje, nas empresas, vejo mães e pais de família arriscando o próprio pão dos filhos por não conseguirem ficar longe das redes sociais nem no seu horário de trabalho. Mesmo assim, as nossas universidades panglossianas insistem em defender que o computador seja introduzido na vida das crianças desde o berço.

Pretendo escrever um artigo exclusivamente sobre este assunto, mas adianto que sou contra computador em escola. E digo isso com a autoridade de quem foi um dos primeiros jornalistas goianos a usar computador. Eu me informatizei antes mesmo que as próprias redações dos jornais goianos se informatizassem. Sou do tempo do paquidérmico PC-XT e da pré-histórica BBS (Bulletin Board System), avó da banda larga e mãe da internet discada. Passo boa parte do tempo em que estou acordado na frente da tela do computador, mas vejo os estragos que essa ferramenta pode causar na vida das pessoas. O computador é meu servo, mas, para a maioria das pessoas, tornou-se amo. E estou falando de adultos; o que dizer, então, de crianças e adolescentes?

Se a Escola Municipal Castro Alves tivesse um grande laboratório de informática, com mais computadores, é quase certo que professores e pais perderiam o controle dos alunos e o resultado da escola no Enem seria outro. Nas entrevistas concedidas pelo diretor da escola municipal de Posse, ele enfatizou que a participação das famílias foi fundamental para o sucesso do estabelecimento. Duvido que isso fosse possível caso a escola tivesse o perfil idealizado pelas universidades, em que o computador é ferramenta central no ensino. Computador em escola serve quase tão somente para o aluno viciar-se em Facebook, Orkut, MSN e outras famigeradas redes sociais, afastando-se de pais e mestres e isolando-se no mundo das fofocas e transgressões de suas tribos físicas e virtuais.
Disciplina

Essa afirmação pode causar estranhamento, mas uma leitura mais rigorosa dos resultados do Enem mostra que minha hipótese é plausível. Em recente artigo sobre o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), escrevi que um fator determinante para o aprendizado do aluno é a disciplina. Nos resultados do Enem, isso fica evidente. Em Goiás, depois da escola municipal de Posse e do Colégio de Aplicação da UFG (hoje Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada ao Ensino), os quatro melhores estabelecimentos públicos que vêm a seguir são todos colégios militares. E sabe-se que, nesses colégios, a disciplina é bem mais rígida do que nas demais escolas da rede pública de ensino.

Quando se analisa nacionalmente o resultado do Enem, a tendência se repete, mostrando que a disciplina é a base da educação. De acordo com a listagem elaborada pelo Centro Paula Souza (rede de 200 Escolas Técnicas e 51 Faculdades de Tecnologia do Estado de São Paulo), a segunda melhor escola pública do país, é o Colégio Militar de Belo Horizonte, que obteve 715,80 pontos na média do exame. Ele só perde para o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa, também em Minas Gerais, que ficou com média 726,42. E outros três colégios militares aparecem entre as dez melhores escolas públicas do país: o Colégio Militar de Campo Grande, com 700,99, em 7º lugar; o Colégio Militar de Juiz de Fora, com 695,87, em 8º lugar; e o Colégio Militar de Porto Alegre, com 693,69, em 10º lugar.
Entre as outras seis escolas públicas que ficaram entre as dez melhores, não há nenhuma da rede comum de ensino — ou são escolas técnicas ou são colégios de aplicação universitários. A terceira melhor escola é o Instituto de Aplicação Fernando da Silveira, com 714,51; a quarta é o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco, com 707,26; a quinta é a Escola Técnica de São Paulo, com 706,66; a sexta, é a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, do Rio de Janeiro, com 704,93; a nona é a Escola do Recife, da Universidade de Pernambuco (estadual), com 693,84 na média.

Quando se estende a análise para as 50 melhores escolas públicas, as escolas militares, juntamente com os colégios de aplicação e as escolas técnicas, voltam a monopolizar as melhores notas. Além das quatro escolas militares que se classificaram entre as dez melhores do país, o Colégio Militar do Rio de Janeiro aparece em 14º lugar, com 685,93; o Colégio Militar do Recife ficou em 22º lugar, com 677,42; o Colégio Militar de Curitiba é o 31º lugar com 667,36 e o Colégio Militar de Fortaleza ocupa 32ª posição com 665,41 na média. Ao todo são oito escolas militares entre as 50 melhores escolas públicas do país.
Discriminação
Pode parecer pouco, mas não é. Os colégios militares praticamente representam as redes públicas estaduais de ensino entre as melhores escolas do país. Por incrível que pareça a única escola pública comum — que não é técnica, nem militar, nem federal — a aparecer entre as 50 melhores do país é justamente a Escola Municipal Castro Alves, de Posse. Essa escola goiana merece um estudo de caso por parte de pesquisadores e autoridades, pois se trata de uma incrível exceção à regra. Todas as outras 49 melhores escolas públicas do País ou pertencem às universidades, ou são escolas técnicas, ou são escolas militares. Não há lugar para escolas estaduais e municipais comuns quando o assunto é a qualidade do ensino.

Mesmo quando se analisa o resultado do Enem apenas no Estado de São Paulo (o Estado mais rico da Federação, com municípios também muito ricos), essa realidade salta aos olhos, até com mais força. Na lista das 50 melhores escolas públicas paulistas, não há uma só escola da rede pública comum: 43 são escolas técnicas estaduais, duas são escolas técnicas municipais, uma é escola técnica federal e as outras quatro são escolas técnicas de universidades (USP, Unicamp e Unesp). Parece que o ensino só tem futuro quando se alia à disciplina da farda, representada pelas escolas militares, ou à disciplina do trabalho, representada pelo ensino profissionalizante das escolas técnicas.

Se há uma conclusão que se pode extrair do Enem é que a rede pública comum de ensino não tem conserto caso continue no ritmo em que se encontra hoje — obrigada a engolir todos os tipos de aluno e a não exigir nada deles. Ou se resgata ao menos a disciplina nas escolas públicas comuns, ou não há a menor chance de que elas venham a se destacar em avaliações como Ideb ou Enem. E não basta exigir do diretor que salve a escola com sua gestão (novo modismo criado pelas autoridades pedagógicas); é preciso resgatar valores como mérito e disciplina, que não foram apenas esquecidos nas escolas públicas – foram simplesmente proibidos.

Para a pedagogia paulo-freiriana que infesta as universidades brasileiras, meritocracia é discriminação e disciplina é autoritarismo. Mas não há dúvida que as melhores notas no Enem decorrem desses dois fatores. As melhores escolas são justamente as que selecionam seus alunos (o que que significa valorizar o mérito) e cobram deles responsabilidade com o próprio aprendizado (o que exige disciplina). O que coloca as escolas públicas comuns em desvantagem, reconheço, pois elas não podem selecionar alunos – como fazem a maioria dos colégios de aplicação, das escolas técnicas e das escolas militares do país.
Insanidade acadêmica

Nas reportagens sobre o Enem que saíram na imprensa brasileira, inclusive na imprensa goiana, os especialistas limitam-se a afirmar que não se pode comparar o desempenho das escolas públicas com as escolas privadas, porque nas escolas públicas, dada a universalidade do ensino determinada por lei, não é possível fazer seleção de aluno. Com isso, a desvantagem da escola pública já começa no ponto de partida, quando ela forma seu corpo discente e, depois, também não pode dispensar os piores. E, para completar, dizem os especialistas, as escolas privadas falseiam os resultados do Enem, mandando fazer o exame apenas os seus melhores alunos, com o objetivo de garantir médias altas.

Entre os especialistas ouvidos pela citada reportagem do jornal “O Popular” está o pedagogo João Ferreira de Oliveira, professor associado da Faculdade de Educação da UFG e doutor em educação pela USP, com pós-doutorado na mesma instituição. Ele critica a comparação entre escolas públicas e privadas com uma procedente argumentação sociológica: “Estamos falando de 85% de alunos do ensino médio com faixa de rendimento e outros indicadores muito abaixo dos outros 15% que estão matriculados nas escolas privadas. Este contingente estuda em escolas que não oferecem as mesmas estruturas que a particular oferece; tem pais com baixa escolarização e não tem acesso a bens culturais nem a atividades extracurriculares e ainda trabalham no contraturno. Portanto, é um equívoco pensar em comparar os desempenhos de uma e outra”.

O que fazer, então, diante desse quadro? O professor não diz. E sua colega de Faculdade de Educação, a professora Geovana Reis, mestre em educação pela própria UFG, também não diz. Ela reitera as diferenças socioculturais entre os alunos das redes privada e pública, lembra que a escola pública não pode selecionar aluno no seu ingresso e aponta o estratagema das escolas privadas para se saírem bem no exame: “Algumas situações, como a seleção de alunos com desempenho acima da média para responder as provas, podem falsear os resultados e oferecer um diagnóstico equivocado deste ensino”. E, taxativamente, sustenta: “É uma insanidade comparar essas realidades”.

Ora, se é uma insanidade comparar escola pública com escola privada (e, em parte, é), também é insano cobrar do professor da rede pública que ele faça milagre, ensinando com eficácia alunos muitas vezes incapazes de aprender. Mas é justamente essa cobrança insana o que as universidades mais sabem fazer. Em praticamente todas as suas pesquisas acadêmicas, elas cobram o impossível da rede básica de ensino. No artigo “Escola pública: vítima indefesa das universidades” (publicado no Jornal Opção de 21 de agosto), em que analiso a proposta de se colocar o Ideb na porta das escolas, demonstro que a universidade joga toda a responsabilidade pelo aprendizado do aluno sobre os ombros do mestre do ensino básico, defendendo uma tresloucada “escola inclusiva” em que o vilipendiado professor da rede pública é obrigado a transformar trombadinhas em sacristãos e deficientes mentais em cidadãos autônomos.
Currículo excessivo

E, quando se trata do ensino médio, o fosso entre escolas públicas e privadas tende a ser ainda maior. Se no ensino básico, como o próprio nome diz, trata-se de ensinar o que é comum para todos, no ensino médio a escola já se defronta com exigências sociais mais complexas, como preparar o adolescente para a universidade ou para uma profissão. Nesse caso, disciplina é fundamental, mas não basta. A escola precisa de estrutura, sobretudo para o ensino de ciências, que tende a ser improdutivo se ficar no cuspe-e-giz. Talvez por isso, as piores notas do Enem são justamente nas provas de ciências da natureza, especialmente nas escolas públicas comuns (nem técnicas, nem de universidades), onde os laboratórios são quase inexistentes.

E a escola pública fica ainda mais prejudicada porque o ensino médio brasileiro é enciclopédico, com uma profusão de disciplinas complexas e inúteis. É o que reconhece a socióloga Maria Helena Guimarães de Castro, com a autoridade de quem foi responsável pela criação do Enem, quando presidiu o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Inep) de janeiro de 1995 a abril de 2002, durante o governo Fernando Henrique. Numa entrevista concedida a Alexandre Machado, no programa “Começando o Dia”, da Rádio Cultura FM de São Paulo, na terça-feira, 13, ela defendeu uma reforma do ensino médio, afirmando que seu currículo é “pesado”, “muito fragmentado” e “sem sentido”.

Maria Helena Guimarães criticou acertadamente a utopia de um ensino médio igual para todos e lembrou que, durante a gestão de Paulo Renato de Souza no Ministério da Educação, havia a perspectiva de se reformular radicalmente o ensino médio, interrompida com a eleição de Lula em 2002. A meta era reduzir o número excessivo de disciplinas do secundário e criar uma grade básica para todos os alunos, mas permitindo que eles escolhem as demais disciplinas com base nos objetivos que tivessem em mente, como uma faculdade ou o mercado de trabalho. Segundo a ex-presidente do Inep, a maioria dos sistemas de ensino do mundo tem cerca de metade de disciplinas existentes no ensino médio brasileiro.

Na entrevista, a ex-presidente do Inep afirmou, textualmente, que “as próprias universidades não têm participado ativamente desse debate e são mais ou menos distantes”. Foi seu grave erro de avaliação na entrevista. As universidades jamais foram omissas nessa questão. Até por uma questão legal, tudo o que ocorre no ensino básico e no ensino médio – eu disse: tudo – está sob a influência direta da universidade. É ela que forma professores e gestores; que elabora as leis educacionais; que implanta as políticas públicas de educação; que define as Diretrizes Curriculares Nacionais. E, como se não bastasse, ainda produz uma profusão de pesquisas sobre temas prementes do ensino básico, inclusive sobre o Enem, Ideb, Prova Brasil e outros indicadores de qualidade do ensino.
Mito da escola única

O problema (e isso a ex-presidente do Inep não diz claramente) é que a ciência produzida nas universidades brasileiras é fortemente contaminada por um viés ideológico de esquerda. É essa contaminação ideológica, com origem na universidade, que impede a educação brasileira de se desvencilhar do mito da “escola única”, preconizada por Lenin e ainda hoje cultivada por pedagogos como Moacyr Gadotti, principal discípulo de Paulo Freire. Se essa gente pudesse, acabaria, por decreto, com todo o ensino privado, em que pese o próprio Paulo Freire ter sido professor de universidade privada no Brasil, onde sua relação com os alunos era obviamente uma educação bancária – o alunos pagando mensalidades, o pedagogo vendendo utopia.

Se os especialistas não admitem que a escola pública seja comparada com a escola privada, devido às abissais diferenças entre o perfil econômico, cultural e social de seus alunos, qual seria a consequência lógica desta constatação? No mínimo, admitir que, enquanto persistirem essas diferenças, é impossível garantir ao aluno da escola pública o mesmo nível de ensino da escola privada. Era o que os velhos marxistas pensavam. Por isso, eles defendiam a revolução social antes da revolução pedagógica. Em sua tacanha visão mecanicista (ainda assim, menos tola do que a visão holística do marxismo atual, que se reflete no construtivismo pedagógico), os marxistas do passado viam a educação como uma corrida, em que os mais ricos saíam muito na frente e, por consequência, dificilmente eram alcançados pelos mais pobres.

Hoje, depois que a pedagogia brasileira tornou-se obcecada pela estranha mistura de Paulo Freire com Michel Foucault, a universidade resolveu começar a revolução socialista pelas próprias escolas e, para isso, ela precisa “empoderar” crianças, adolescentes e jovens – isto é, “dar poder” ao seu novo proletariado. Admitir que muitos alunos não aprendem por deficiência própria seria não apenas desperdiçar a chance de culpar por todas as mazelas sociais “o sistema que está aí”, mas, sobretudo, implicaria comprometer a possível flama revolucionária desse proletariado vicário. Para que o aluno possa ser transformado em massa de manobra da revolução socialista, é preciso dar a ele a ilusão de que é autônomo e que age movido por própria vontade e não pela canga ideológica que lhe impõem.

É o que se vê no próprio Enem, que não parece um exame para avaliar a qualidade do ensino e, sim, uma ficha de filiação partidária. O Enem é flagrantemente ideológico e obriga o aluno a ver o Brasil com os olhos da esquerda. Essa afirmação exige uma análise detalhada de suas provas – papel que caberia às universidades. Mas como elas não têm isenção ideológica para tanto, essa análise acaba recaindo sobre os ombros de uns poucos indivíduos independentes e não vou me furtar a essa tarefa num próximo artigo.

Já adianto que as provas de ciências humanas do Enem – complexas no método e na forma, mas vazias no conteúdo – praticamente obrigam o aluno a pensar como o MST, a acreditar que a mais grave doença atual é a homofobia e a reduzir a história do Brasil à luta de classes, em que uma burguesia sádica explora por prazer um proletariado idílico. Felizmente, a disciplina cognitiva e moral de muitos alunos conseguiu vencer uma ideologia disfarçada de ciência, que, mais do que atrapalhar o aprendizado, inviabiliza o próprio aprendiz".

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O colapso do ENEM não é acidental

(Publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO de 19 de fevereiro de 2011)


"O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi criado pelo Ministério da Educação (MEC) há pouco mais de uma década para avaliação anual de desempenho de alunos e escolas do País, a exemplo do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, do Exame Nacional de Desempenho do Estudante e das avaliações trienais dos cursos de pós-graduação conduzidas pela Capes. Sob esse aspecto, estamos ajustados à atual tendência internacional em que governos de países ricos (como os EUA) ou emergentes (como o Brasil) lutam para reverter o declínio da qualidade da educação dos seus sistemas públicos e fazem uso intensivo de avaliações nacionais para subsidiar políticas no setor.
O que os resultados do Enem têm revelado sobre o nosso ensino médio? Basicamente, o de sempre. Excelente desempenho dos alunos das escolas privadas mais caras e níveis muito baixos de qualidade do sistema público, com as exceções de praxe, casos de alguns estabelecimentos tradicionais de prestígio, escolas militares e escolas técnicas. Em suma, um instrumento de avaliação que se tem limitado a apontar a cada ano os males de um sistema que padece de grave crise e sobre o qual o governo federal tem reduzido poder de interferência, pois o ensino médio do País é basicamente da responsabilidade dos governos estaduais. Além do mais, está demonstrado que a prioridade do governo federal nos últimos anos tem sido a ampliação da oferta de vagas no ensino superior, expressa nos pesados investimentos nas universidades federais e no programa de bolsas em instituições privadas.
Há dois anos o MEC decidiu introduzir ajustes no Enem e, na prática, acoplou o ensino médio ao ensino superior - este sob seu controle -, transformando-o em exame nacional unificado com a ambição de substituir os vestibulares até então descentralizados das universidades públicas federais. Um argumento então utilizado e exposto em documento na ocasião é que esse novo sistema, baseado na aplicação de uma única prova, propiciaria uma "racionalização da disputa por essas vagas, de forma a democratizar a participação nos processos de seleção para vagas em diferentes regiões do País". Outro argumento defende a adoção de exame nacional que seja ao mesmo tempo unificado, sofisticado e inovador e que tivesse o poder de reduzir a "influência dos vestibulares tradicionais nos conteúdos ministrados no ensino médio". Por essa estratégia, tratava-se ao cabo de delegar às universidades federais o papel de "protagonistas no processo de repensar o ensino médio" do País. E é sob a batuta do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC que ali se intitula detentor de "absoluto know how para conduzir com sucesso esse processo", que nossos milhões de jovens vestibulandos são instados a participar desse novo e grandioso sistema de seleção.
O que nos ensinam as experiências de 2009 e 2010 com esse Enem renovado? Primeiro, que a adesão das universidades federais não correspondeu às expectativas iniciais e, apesar da sua reduzida autonomia (administrativa e financeira) e do esforço de convencimento do MEC, parte delas reluta em substituir integralmente seus vestibulares pelo exame unificado. Segundo, a análise das duas provas aplicadas revela que, apesar da metodologia expressa nos seus cinco complexos "eixos cognitivos", há dúvidas sobre sua propalada inovação para aferir conhecimentos, e colegas da academia as veem como convencionais. Há até os que avaliam que elas têm qualidade geral inferior à dos exames vestibulares das melhores universidades do País. Terceiro, que inexistem indicadores seguros de que tenha ocorrido de fato a almejada "migração interna" de candidatos das regiões pobres para as ricas, ou vice-versa. Afinal, apesar do vistoso programa de assistência estudantil criado às pressas no ano passado, as universidades federais em sua maioria não dispõem de moradias e sistemas de apoio suficientes e, portanto, é remota a possibilidade de que estudantes carentes de regiões distantes tenham condições, por exemplo, de estudar em instituições das grandes metrópoles do Sudeste.
Por último, e mais grave, a sucessão de desastres na sua execução. Em 2009 o País assistiu perplexo à descoberta da escandalosa fraude com o vazamento e a tentativa de venda da prova, o que levou à anulação do certame. Concluído o novo exame, milhares de estudantes não conseguiram acessar o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) para fazer as suas inscrições nos cursos de sua preferência e para os quais foram aprovados. Na edição de 2010, cerca de 20 mil alunos foram eliminados porque havia discrepâncias entre provas e gabaritos e, após batalha judicial, foi oferecido às vítimas aplicação de nova prova. Apurados os resultados finais, novamente o sistema eletrônico central entrou em colapso, naufragou diante dos mais de 4 milhões de inscritos e, mais uma vez, muitos dos aprovados não conseguiram efetivar suas inscrições e matrículas. Existem ainda hoje milhares de vagas não preenchidas e é incerto o desfecho de toda essa confusão.Em síntese, está comprovado que ambições excessivas nessa área, ainda que ancoradas em concepções e premissas inovadoras, pecam no mais das vezes por ignorar o que é evidente para a maioria dos cidadãos, e esse é o caso do atual Enem. Veja-se a logística precária. Apenas 1/3 das famílias do País dispõem de computadores, as infovias são limitadas e sempre congestionadas e os servidores centrais de modo geral são incapazes de suportar demandas concentradas. Além disso, como assegurar a lisura de grandes exames nacionais num país em que concursos públicos são sistematicamente fraudados, como os da Polícia Federal, Abin, Receita Federal, Polícia Rodoviária e os da OAB?"
Wanderley Messias da Costa
(PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA DA USP, AUTOR DE CINCO LIVROS, É UM DOS IDEALIZADORES DO CENTRO DE BIOTECNOLOGIA DA AMAZÔNIA E-MAIL: WANDER@USP.BR)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

ENEM - Comentários (1)

(Publicado no blog do Reinaldo Azevedo em 18/11/2010)

A PROVA CRIMINOSA DO ENEM - ANATOMIA DE UMA EMPULHAÇÃO A SERVIÇO DA IGNORÂNCIA

Prometi escrever sobre a prova do Enem. A indignação quase me paralisa. O MEC, deste incrível Fernando Haddad, comete um crime contra a educação brasileira. É isto: trata-se de um exame intelectualmente criminoso, que soma inépcia e pretensão, patrulha ideológica e proselitismo libertário, simplismo e pernosticismo. Como o Enem quer ser “o” vestibular nacional, ele concorre é para desorganizar o que eventualmente pode haver de sólido no ensino médio. Deveria ser o principal elemento a forçar a definição de um currículo mínimo nacional se desse ao menos pistas do que pretende. Mas é impossível saber. As 45 questões desse cretinismo chamado “Linguagens e Códigos e Suas Tecnologias”, cinco delas de língua estrangeira, testam uma única coisa: interpretação de texto. As outras 45 de “Ciências Humanas e Suas Tecnologias” são uma peneira para testar o “cidadão consciente” — desde que ele entenda minimamente o que lê. A prova do Enem seleciona os estudantes que, não sendo analfabetos funcionais, estão cheios de boas intenções e sentimentos de cidadania. Não busca os mais aptos, os mais sabidos ou os mais informados, mas os menos energúmenos de bom coração.

As 40 questões sobre o que um dia já foi “Língua Portuguesa e Literatura” —disciplina rebaixada a “Comunicação e Expressão” antes de ganhar aquele nome que Paulo Francis chamaria “pseudo” — nada cobram: leitura de livros, conhecimento de gramática, repertório… O governo brasileiro, que estatizou o vestibular, não pede que a escola seja mais eficiente ao ensinar literatura e gramática: ele simplesmente as tornou dispensáveis. O texto é longo, sim. Tomou uma boa parte da minha madrugada. Apelo à paciência de vocês. É preciso expor a miséria a que chegamos. Deixarei as tais ciências humanas para outro dia.

Comecemos pela questão 96 (prova azul). Um avô está com seu neto num museu de arqueologia no ano de 2059, na Amazônia. Mostra uma árvore ao garoto. Há o seguinte diálogo:
— Árvore era assim, desse jeito, Juquinha, tá vendo?
— Que barato, vovô! (Vamos ver o que o Enem quer saber, em maiúsculas):

AS DIFERENTES ESFERAS SOCIAIS DE USO DA LÍNGUA OBRIGAM O FALANTE A ADAPTÁ-LA ÀS VARIADAS SITUAÇÕES DE COMUNICAÇÃO. UMA DAS MARCAS LINGUÍSTICAS QUE CONFIGURAM A LINGUAGEM ORAL INFORMAL USADA ENTRE AVÔ E NETO NESTE TEXTO É

A - A OPÇÃO PELO EMPREGO DA FORMA VERBAL “ERA” EM LUGAR DE “FOI”.
B - A AUSÊNCIA DE ARTIGO ANTES DA PALAVRA “ÁRVORE”.
C - O EMPREGO DA REDUÇÃO “TÁ” EM LUGAR DA FORMA VERBAL “ESTÁ”.
D - O USO DA CONTRAÇÃO “DESSE” EM LUGAR DA EXPRESSÃO “DE ESSE”.
E - A UTILIZAÇÃO DO PRONOME “QUE” EM INÍCIO DE FRASE EXCLAMATIVA.

Eu já tenho vontade de pegar o chicote quando leio “as diferentes esferas sociais do uso da linguagem”. Por quê? Para perguntar uma besteira, uma banalidade, o examinador recorre a esse jargão pernóstico, de mau redator. Não existem “diferentes esferas sociais do uso da linguagem”. Alguém poderia definir o que é isso, onde fica, em que lugar se aloja? É complicômetro de cretinos. Existem linguagens distintas nas diferentes esferas sociais (se é para usar esse vocabulário pomposo). Há entre uma coisa e outra a distância que vai da abstração bucéfala ao fato concreto. A alternativa correta é a C, claro…

A questão 97 é aquela da falsa dificuldade e que apenas aparentemente cobra repertório . Notem que é uma variação daquela brincadeira infantil: “De que cor era o cabalo branco de Napoleão?”

A BIOSFERA, QUE REÚNE TODOS OS AMBIENTES ONDE SE DESENVOLVEM OS SERES VIVOS, SE DIVIDE EM UNIDADES MENORES CHAMADAS ECOSSISTEMAS, QUE PODEM SER UMA FLORESTA, UM DESERTO E ATÉ UM LAGO. UM ECOSSISTEMA TEM MÚLTIPLOS MECANISMOS QUE REGULAM O NÚMERO DE ORGANISMOS DENTRO DELE, CONTROLANDO SUA REPRODUÇÃO, CRESCIMENTO E MIGRAÇÕES.”
PREDOMINA NO TEXTO A FUNÇÃO DA LINGUAGEM

A - EMOTIVA, PORQUE O AUTOR EXPRESSA SEU SENTIMENTO EM RELAÇÃO À ECOLOGIA.
B - FÁTICA, PORQUE O TEXTO TESTA O FUNCIONAMENTO DO CANAL DE COMUNICAÇÃO.
C - POÉTICA, PORQUE O TEXTO CHAMA A ATENÇÃO PARA OS RECURSOS DE LINGUAGEM.
D - CONATIVA, PORQUE O TEXTO PROCURA ORIENTAR COMPORTAMENTOS DO LEITOR.
E - REFERENCIAL, PORQUE O TEXTO TRATA DE NOÇÕES E INFORMAÇÕES CONCEITUAIS.

Ainda que o estudante ignore as “funções da linguagem”, confunda “canal da comunicação” com tratamento de canal e pense em sacanagem (os de vocabulário mais amplo) ao ler a palavra “conativa”, não deve ter grande dificuldade para perceber que o texto trata de “noções e informações conceituais” — mesmo que não saiba o que significa “conceitual”. A questão é exemplar da falta de eixo da prova porque só aparentemente cobra um repertório.

A de nº 98 traz um texto de horóscopo — as características do signo de Câncer e como devem se comportar as pessoas desse signo na família, no trabalho, nos cuidados com a saúde… E qual a curiosidade do examinador? Isto:

O RECONHECIMENTO DOS DIFERENTES GÊNEROS TEXTUAIS, SEU COMUNICATIVO E SEU CONTEXTO DE USO, SUA FUNÇÃO SOCIAL ESPECÍFICA, SEU OBJETIVO COMUNICATIVO E SEU FORMATO MAIS COMUM RELACIONAM-SE AOS CONHECIMENTOS CONSTRUÍDOS SOCIOCULTURALMENTE. A ANÁLISE DOS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DESSE TEXTO DEMONSTRA QUE SUA FUNÇÃO É
A - VENDER UM PRODUTO ANUNCIADO.
B - INFORMAR SOBRE ASTRONOMIA.
C - ENSINAR OS CUIDADOS COM A SAÚDE.
D - EXPOR A OPINIÃO DE LEITORES EM UM JORNAL.
E - ACONSELHAR SOBRE AMOR, FAMÍLIA, SAÚDE, TRABALHO.

Eu não estou brincando, não. Essa questão é exemplar de uma prática comum na prova. O enunciado é pomposo, quase incompreensível, cheio de macumbarias conceituais para indagar, no fim das contas, se está claro que um texto de horóscopo dá conselhos…

Da 100 à 104, tudo segue nesse ritmo, cobrando do candidato o óbvio; indagando, no fundo, se ele sabe ler. Do nada, de inopino, aparece na prova, na questão 105, uma reprodução de “Mulher com Sombrinha”, de Monet. Esta:

Atenção para a questão:

EM BUSCA DE MAIOR NATURALISMO EM SUAS OBRAS E FUNDAMENTANDO-SE EM NOVO CONCEITO ESTÉTICO, MONET, DEGAS, RENOIR E OUTROS ARTISTAS PASSARAM A EXPLORAR NOVAS FORMAS DE COMPOSIÇÃO ARTÍSTICA, QUE RESULTARAM NO ESTILO DENOMINADO IMPRESSIONISMO. OBSERVADORES ATENTOS DA NATUREZA, ESSES ARTISTAS PASSARAM A

A - RETRATAR, EM SUAS OBRAS, AS CORES QUE IDEALIZAVAM DE ACORDO COM O REFLEXO DA LUZ SOLAR NOS OBJETOS;
B - USAR MAIS A COR PRETA, FAZENDO CONTORNOS NÍTIDOS, QUE MELHOR DEFINIAM AS IMAGENS E AS CORES DOS OBJETOS REPRESENTADOS;
C - RETRATAR PAISAGENS EM DIFERENTES HORAS DO DIA, RECRIANDO, EM SUAS TELAS, AS IMAGENS POR ELES IDEALIZADAS;
D - USAR PINCELADAS RÁPIDAS DE CORES PURAS E DISSOCIADAS DIRETAMENTE NA TELA, SEM MISTURÁ-LAS ANTES NA PALETA;
E - USAR AS SOMBRAS EM TONS DE CINZA E PRETO E COM EFEITOS ESFUMAÇADOS, TAL COMO ERAM REALIZADAS NO RENASCIMENTO.

Vamos ver. Afirmar que o impressionismo surgiu da busca de maior “naturalismo” nas obras é só evidência de conceitos mal digeridos em alguma consulta rápida na Internet. É uma besteira. Quanto às alternativas… Quem souber o que é um “contorno” e o significado das palavras “preto” e “cinza” já descarta as alternativas B e E. Sobram a A, a C e a D, a mais correta sem dúvida. Assim como desafio o formulador da questão a provar o “naturalismo” do impressionismo, gostaria que ele provasse que a A e a C podem ser descartadas. Pergunta: a reprodução da imagem era colorida? Se estava em preto e branco, o examinar tem de ir para a cafua.

A questão 106 existe para verificar se o aluno sabe que o balé não pertence ao folclore brasileiro. A 107 pergunta indaga se a palavra “corasamborim”, de uma música de Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, é um estrangeirismo, uma gíria, um neologismo, um regionalismo ou um termo técnico. A 108 mostra um livro digital e um mapa com áreas imensas do país que ainda não têm conexão sem fio. É preciso concluir que a democratização da leitura esbarra na insuficiência do acesso à Internet.

A 109 diz respeito a chat. Reproduzo alguns trechos:

O SIGNIFICADO DA PALAVRA CHAT VEM DO INGLÊS E QUER DIZER “CONVERSA”. ESSA CONVERSA ACONTECE EM TEMPO REAL (…) PARA ENTRAR, É NECESSÁRIO ESCOLHER UM NICK, UMA ESPÉCIE DE APELIDO QUE IDENTIFICARÁ O PARTICIPANTE DURANTE A CONVERSA. (…) MAS NÃO EXISTE NENHUM CONTROLE PARA VERIFICAR SE A IDADE INFORMADA É REALMENTE A IDADE DE QUEM ESTÁ ACESSANDO (…)

Muito bem. O examinador pretende saber o que o aluno acabou de ler. Entre as hipóteses , há esta, que quase repete o texto motivador da pergunta:

POSSIBILITA QUE OCORRA DIÁLOGO SEM A EXPOSIÇÃO DA IDENTIDADE REAL DOS INDIVÍDUOS, QUE PODEM RECORRER A APELIDOS FICTÍCIOS SEM COMPROMETER O FLUXO DA COMUNICAÇÃO EM TEMPO REAL.

A questão 110 é ilustrada com a imagem de uma bailarina fazendo alongamento e indaga se seu exercício é de velocidade, resistência, flexibilidade, agilidade ou equilíbrio. Eu juro! Estão anotando aí: Monet, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Chat, flexibilidade… A questão 111 pergunta obviedades sobre um texto que trata do Twitter. A 112 reproduz o trecho de uma reportagem e tem a intenção de saber se está claro que se trata de um texto informativo…

Há literatura na prova? A 113 vem com um fragmento de “Laços de Família”, de Clarice Lispector. Vejam o que fizeram os gênios de Fernando Haddad:

OS FILHOS DE ANA ERAM BONS, UMA COISA VERDADEIRA E SUMARENTA. CRESCIAM, TOMAVAM BANHO, EXIGIAM PARA SI, MALCRIADOS, INSTANTES CADA VEZ MAIS COMPLETOS. A COZINHA ERA ENFIM ESPAÇOSA, O FOGÃO ENGUIÇADO DAVA ESTOUROS. O CALOR ERA FORTE NO APARTAMENTO QUE ESTAVAM AOS POUCOS PAGANDO. MAS O VENTO BATENDO NAS CORTINAS QUE ELA MESMA CORTARA LEMBRAVA-LHE QUE SE QUISESSE PODIA PARAR E ENXUGAR A TESTA, OLHANDO O CALMO HORIZONTE. COMO UM LAVRADOR. ELA PLANTARA AS SEMENTES QUE TINHA NA MÃO, NÃO OUTRAS, MAS ESSAS APENAS.A AUTORA EMPREGA POR DUAS VEZES O CONECTIVO MAS NO FRAGMENTO APRESENTADO. OBSERVANDO ASPECTOS DA ORGANIZAÇÃO, ESTRUTURAÇÃO E FUNCIONALIDADE DOS ELEMENTOS QUE ARTICULAM O TEXTO, O CONECTIVO MAS

A - EXPRESSA O MESMO CONTEÚDO NAS DUAS SITUAÇÕES EM QUE APARECE NO TEXTO;
B - QUEBRA A FLUIDEZ E PREJUDICA A COMPREENSÃO SE USADO NO INÍCIO DA FRASE;
C - OCUPA POSIÇÃO FIXA, SENDO INADEQUADO SEU USO NO ABERTURA DA FRASE;
D - CONTÉM UMA IDEIA DE SEQUÊNCIA TEMPORAL QUE DIRECIONA A CONCLUSÃO DO LEITOR;
E - ASSUME FUNÇÕES DISCURSIVAS DISTINTAS NOS DOIS CONTEXTOS DE USO.

É preciso marcar a “E”, embora tudo aí esteja errado. Quem foi que elaborou essa miséria? Quero que me provem que o “conteúdo” do primeiro “mas” é diferente do “conteúdo” do segundo “mas” — e favor não confundir o “conteúdo do mas” com o contexto em que é empregado. Não só isso: exijo que definam “função discursiva distinta nos contextos de uso”. Que borra é essa?

A questão 114 pede que se interprete um texto sobre inquisição; a 115, não menos óbvia, quer que o aluno responda se entendeu que uma língua, mesmo extinta, deixa sinais em outras línguas. A 116 reproduz uma pequena biografia de Machado de Assis: teria o estudante percebido tratar-se da “apresentação da vida de uma personalidade organizada sobretudo pela ordem tipológica da narração, com um estilo marcado pela linguagem objetiva”. Escrever “Ordem tipológica da narração” numa prova vestibular deveria estar entre os crimes previstos no Código Penal.

A 117 também pretende ser de literatura: um soneto do grande Álvares de Azevedo, poeta da segunda geração do Romantismo.

JÁ DA MORTE O PALOR ME COBRE O ROSTO,
NOS LÁBIOS MEUS O ALENTO DESFALECE,
SURDA AGONIA O CORAÇÃO FENECE,
E DEVORA MEU SER MORTAL DESGOSTO!

DO LEITO EMBALDE NO MACIO ENCOSTO
TENTO O SONO RETER!… JÁ ESMORECE
O CORPO EXAUSTO QUE O REPOUSO ESQUECE…
EIS O ESTADO EM QUE A MÁGOA ME TEM POSTO!

O ADEUS, O TEU ADEUS, MINHA SAUDADE,
FAZEM QUE INSANO DO VIVER ME PRIVE
E TENHA OS OLHOS MEUS NA ESCURIDADE.

DÁ-ME A ESPERANÇA COM QUE O SER MANTIVE!
VOLVE AO AMANTE OS OLHOS POR PIEDADE,
OLHOS POR QUEM VIVEU QUEM JÁ NÃO VIVE!

Trata-se de mais uma questão de interpretação, a única da prova inteira a trazer certa dificuldade. O problema aqui, para não variar, está na questão propriamente. Diz o examinador:“O NÚCLEO TEMÁTICO DO SONETO CITADO É TÍPICO DA SEGUNDA GERAÇÃO ROMÂNTICA, PORÉM CONFIGURA UM LIRISMO QUE O PROJETA PARA ALÉM DESSE MOMENTO ESPECÍFICO. O FUNDAMENTO DESSE LIRISMO É”

Deve-se responder “A MELANCOLIA QUE FRUSTRA A POSSIBILIDADE DA REAÇÃO DIANTE DA PERDA”. Certo! Mas por que isso estaria “além” das características da segunda geração romântica? Não está. Trata-se apenas de uma bobagem!

A 118 reproduz um fragmento de Capitães de Areia, de Jorge Amado, e outro de um conto de Dalton Trevisan. Ambos retratam pessoas vivendo em dificuldades. Segundo o examinador, os dois textos, sob diferentes perspectivas, são exemplos de uma abordagem recorrente na literatura do século 20: “O ESPAÇO ONDE VIVEM AS PERSONAGENS É UMA DAS MARCAS DE SUA EXCLUSÃO”. Qualquer um que tente associar Trevisan ao Jorge Amado da fase realista-socialista, como é o caso, é só um iletrado. Aquele troço que vai entre aspas não significa absolutamente nada!
A questão 119 volta com uma obviedade sobre a Internet. A 120, é sério!, mostra três fotos com jogadores de vôlei. O primeiro se prepara para sacar, o segundo defende uma bola, e os dois outros da terceira foto fazem um bloqueio. A prova pergunta que diabo eles estão fazendo. As alternativas são estas:

A - SACAR E COLOCAR A BOLA EM JOGO, DEFENDER A BOLA E REALIZAR A CORTADA COMO FORMA DE ATAQUE.
B - ARREMESSAR A BOLA, TOCAR PARA PASSAR A BOLA AO LEVANTADOR E BLOQUEAR COMO FORMA DE ATAQUE.
C - TOCAR E COLOCAR A BOLA EM JOGO, CORTAR PARA DEFENDER E LEVANTAR A BOLA PARA ATACAR.
D - PASSAR A BOLA E INICIAR A PARTIDA, LANÇAR A BOLA AO LEVANTADOR E REALIZAR A MANCHETE PARA DEFENDER.
E - CORTAR COMO FORMA DE ATAQUE, PASSAR A BOLA PARA DEFENDER E BLOQUEAR COMO FORMA DE ATAQUE.

Eu não sabia que Educação Física pertencia à categoria “Linguagens e Códigos e Suas Tecnologias… O que faz uma questão sobre vôlei depois de uma sobre literatura e antes de outra (121) sobre o acordo ortográfico? Perguntem a Fernando Haddad. A seguinte, a 122, traz um texto sobre os males de que padece o fumante passivo e uma imagem de um não-fumante sendo sufocado pela fumaça do cigarro do vizinho. O Enem pergunta o que os “textos” querem dizem.

Bem, a resposta é esta: “OS NÃO FUMANTES PRECISAM SER RESPEITADOS E POUPADOS, POIS ESTES TAMBÉM ESTÃO SUJEITOS ÀS DOENÇAS CAUSADAS PELO TABAGISMO”. Não é piada! Ou melhor: é, mas não minha!

Deixem-me ver: horóscopo, Carlinhos Brown, Clarice Lispector, vôlei, Álvares de Azevedo, Monet, tabagismo… Então é chegada a hora de cair de boca no surrealismo, não é? Por que não um pouco de Salvador Dali? É o que encontramos na questão 123, que abre com uma frase deliciosamente provocativa do artista:

“TODAS AS MANHÃS, QUANDO ACORDO, EXPERIMENTO UM PRAZER SUPREMO: O DE SER SALVADOR DALÍ.”

Aí vem o examinador, na sua sapiência:

ASSIM ESCREVEU O PINTOR DOS “RELÓGIOS MOLES” E DAS “GIRAFAS EM CHAMAS” EM 1931. ESSE ARTISTA EXCÊNTRICO DEU APOIO AO GENERAL FRANCO DURANTE A GUERRA CIVIL ESPANHOLA E, POR ESSE MOTIVO, FOI AFASTADO DO MOVIMENTO SURREALISTA POR SEU LÍDER, ANDRÉ BRETON. DESSA FORMA, DALÍ CRIOU SEU PRÓPRIO ESTILO, BASEADO NA INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS E NOS ESTUDOS DE SIGMUND FREUD, DENOMINADO “MÉTODO DE INTERPRETAÇÃO PARANOICO”. ESSE MÉTODO ERA CONSTITUÍDO POR TEXTOS VISUAIS QUE DEMONSTRAM IMAGENS…
O certo é “DO ONÍRICO, QUE MISTURAVA SONHO COM REALIDADE E INTERAGIA REFLETINDO A UNIDADE ENTRE O CONSCIENTE E O INCONSCIENTE COMO UM UNIVERSO ÚNICO E PESSOAL”. Sei…

Problemas: Voltem à questão. É MENTIRA QUE DALÍ TENHA DADO APOIO A FRANCO DURANTE A GUERRA CIVIL ESPANHOLA. Ele se mudou para os EUA. Voltou à Espanha em meados da década de 50. Aproximou-se do ditador depois — e é bem possível que essa tenha sido outra manifestação de suas excentricidades. O “movimento surrealista” não era um clube, do qual pudesse ser afastado. Prestem atenção ao “dessa forma” em negrito do texto. Parece que o pintor só “criou o seu próprio estilo” porque André Breton, que era comuna, o hostilizara. Ah, sim: a alternativa dada como correta é uma salada conceitual. Quer dizer… NADA!

As questões 124, 125, 126 e 127 voltam à interpretação de texto mais rasteira. A 128 retoma a literatura, com Machado de Assis. E, Deus meu!, estamos realmente no pior dos mundos. O estudante é convidado a ler um trecho do romance “Quincas Borba”, em que Rubião, que recebera a herança de Quincas Borba, é obrigado a conviver com os hábitos que lhe impõe Palha, o pilantra que acaba roubando todo o seu dinheiro. Pois bem. Para quem elaborou a prova, a “PECULIARIDADE DO TEXTO QUE GARANTE A UNIVERSALIZAÇÃO DE SUA ABORDAGEM (!) RESIDE” “NO CONFLITO ENTRE O PASSADO POBRE (DE RUBIÃO) E O PRESENTE RICO, QUE SIMBOLIZA O TRIUNFO DA APARÊNCIA SOBRE A ESSÊNCIA”.

Talvez seja a coisa mais estúpida de toda a prova, até porque envolve Machado de Assis, o único escritor verdadeiramente universal da literatura brasileira. Afirmar que Machado estabeleceria uma oposição entre “aparência” e “essência” é insultar não apenas esse livro, mas toda a obra do autor. Talvez se pudesse dizer que, para ele, na essência, o que há é só uma aparência ainda não revelada. É de uma tolice estupenda, assustadora.

A questão 129 reproduz um trecho de “Negrinha”, de Monteiro Lobato, o autor que a turma de Haddad tentou censurar. Limita-se, mais uma vez, à mera interpretação óbvia do texto. Entendeu o candidato que a personagem citada não aceitava o fim da escravidão? Huuummm… Assim escreve Lobato sobe Dona Inácia: “NUNCA SE AFIZERA AO REGIME NOVO - ESSA INDECÊNCIA DE NEGRO IGUAL”.

De Monteiro Lobato para um jogo do Flamengo! O objetivo da questão 130 é saber se o aluno entendeu que, no trecho “MESMO COM MAIS POSSE DE BOLA, O TIME DIRIGIDO POR CUCA TINHA GRANDE DIFICULDADE DE CHEGAR À ÁREA ALVINEGRA (…)”, há uma idéia de “concessão”…

A 131 trata da pintura de Anita Malfatti, que remete mais uma vez a Lobato, que continua a ser maltratado pelo Ministério da Educação. A questão é esta:

APÓS ESTUDAR NA EUROPA, ANITA MALFATTI RETORNOU AO BRASIL COM UMA MOSTRA QUE ABALOU A CULTURA NACIONAL DO INÍCIO DO SÉCULO XX. ELOGIADA POR SEUS MESTRES NA EUROPA, ANITA SE CONSIDERAVA PRONTA PARA MOSTRAR SEU TRABALHO NO BRASIL, MAS ENFRENTOU AS DURAS CRÍTICAS DE MONTEIRO LOBATO. COM A INTENÇÃO DE CRIAR UMA ARTE QUE VALORIZASSE A CULTURA BRASILEIRA, ANITA MALFATTI E OUTROS ARTISTAS MODERNISTAS…
A resposta certa é esta: “BUSCARAM LIBERTAR A ARTE BRASILEIRA DAS NORMAS ACADÊMICAS EUROPEIAS, VALORIZANDO AS CORES, A ORIGINALIDADE E OS TEMAS NACIONAIS.”

Vamos ver. De fato, Lobato desceu o sarrafo na exposição de Anita. Mas isso nada tinha a ver com a “libertação das normas acadêmicas européias”. A acusação era outra: apego às vanguardas da Europa — ele cita especificamente Picasso. Da forma como vai a coisa, tem-se a impressão de que Lobato se opunha à valorização da cultura brasileira…

A questão 132 publica um gráfico indicando que as mulheres escolhem mais as carreiras ligadas às pessoas, como “psicologia”, “humanas-artes”, “educação” e “medicina”. Já os homens preferem as carreiras ligadas às “coisas”, como matemática, engenharia, mineração e física. Se que faz a prova não entendeu o gráfico, não tem problema. Há duas legendas explicando: “ELA TÊM MAIS HABILIDADES EM COMPREENDER PESSOAS E EMOÇÕES. ENTÃO DOMINAM AS CARREIRAS QUE TÊM A VER COM ISSO” e “ELES TENDEM A USAR A CABEÇA PARA LIDAR COM COISAS INANIMADAS E ABSTRAÇÕES. POR ISSO SÃO MAIORIA NOS CURSOS DE EXATAS”.

Vocês podem ver com os próprios olhos. Depois disso tudo, constata e indaga o Enem:

SEGUNDO PESQUISAS RECENTES, É IRRELEVANTE A DIFERENÇA ENTRE SEXOS PARA SE AVALIAR A INTELIGÊNCIA. COM RELAÇÃO ÀS TENDÊNCIAS PARA ÁREAS DO CONHECIMENTO, POR SEXO, LEVANDO EM CONTA A MATRÍCULA EM CURSOS UNIVERSITÁRIOS BRASILEIROS, AS INFORMAÇÕES DO GRÁFICO ASSEGURAM QUE:

A - OS HOMENS ESTÃO MATRICULADOS EM MENOR PROPORÇÃO EM CURSOS DE MATEMÁTICA QUE EM MEDICINA POR LIDAREM MELHOR COM PESSOAS.
B - AS MULHERES ESTÃO MATRICULADAS EM MAIOR PERCENTUAL EM CURSOS QUE EXIGEM CAPACIDADE DE COMPREENSÃO DOS SERES HUMANOS.
C - AS MULHERES ESTÃO MATRICULADAS EM PERCENTUAL MAIOR EM FÍSICA QUE EM MINERAÇÃO POR TENDEREM A TRABALHAR MELHOR COM ABSTRAÇÕES.
D - AS HOMENS E AS MULHERES ESTÃO MATRICULADOS NA MESMA PROPORÇÃO EM CURSOS QUE EXIGEM HABILIDADES SEMELHANTES NA MESMA ÁREA.
E - AS MULHERES ESTÃO MATRICULADAS EM MENOR NÚMERO EM PSICOLOGIA POR SUA HABILIDADE DE LIDAREM MELHOR COM COISAS QUE COM SUJEITOS.

As questões 133, 134 e 135 voltam à interpretação rasteira de texto. É o fundo do poço!
Não comentei neste longo texto as cinco questões de língua estrangeira e a prova de redação, que merecem artigo à parte. Essa prova é um crime contra o bom senso, contra a cultura, contra o próprio sentido de escola. Não é que ela precise mudar aqui e ali. Simplesmente não tem conserto. A história de que o Enem inova porque não exige decoreba, mas raciocínio, é uma empulhação. Não bastasse o fato de que a quase totalidade dessas 40 questões se limita à interpretação de texto mais estupidamente óbvia, estamos diante de uma impressionante penca de tolices e de imprecisões.

Haddad não veio para melhorar a escola. Ele está aí para torná-la inútil. O abismo nos espreita.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

PRIVATIZAÇÃO DO VESTIBULAR

O estilo petista de privatizar o patrimônio coletivo é bem conhecido. Seus maiorais gostam de transferir para o controle de particulares aquelas atividades de governo situadas no âmbito dos chamados "serviços". Manobrando aqui e ali, com ou sem licitações (principalmente sem), sempre sobra uma bocada para os alegres companheiros, seus cúmplices ou testas de ferro. Lixo, por exemplo, é uma verdadeira festa. São notórias as relações da companheirada do PT com as empresas de limpeza - ligadas ou não a grandes empreiteiras - em diferentes cidades do Brasil. Contratos lesivos aos cofres públicos permitem, afinal de contas, as gordas contrapartidas nos períodos eleitorais por parte de empresários agradecidos.

A desfaçatez da turma chega a um ponto tal, que não se preocupam em lançar formalmente, nas prestações de contas aos tribunais eleitorais, as contribuições assim recebidas (que são ilegais, vindas de concessionários de serviços públicos, pois que proibidas por lei complementar). O ex-prefeito Fernando Pimentel (de Belo Horizonte) é um destes casos, que ficou e permanece impune, apesar de denúncia tempestiva efetivada junto à Justiça mineira, por ocasião de sua reeleição em 2004. Para quem tem qualquer dúvida basta conferir as vultosas doações feitas pela empresa de lixo CONSITA ao então candidato Pimentel. Lixo e varrição de ruas se juntam ao transporte coletivo, aos serviços de vigilância e outros mais no exercício costumeiro de morder o componente Custeio do orçamento público.

Como essa gente não faz obras ("isto é coisa da burguesia capitalista", dizem), fica impossibilitada de retirar as comissões de praxe creditadas pelos empreiteiros da construção pesada. Há nisto também um fator de natureza filosófica para as opções feitas pelo petismo. Saquear o Investimento é algo muito focado, que só beneficia um pequeno número de agentes. Prática de leões, para usar uma metáfora. Agora, saquear o Custeio implica a socialização dos benefícios, abrangendo toda uma ampla e gulosa companheirada. É um exercício concreto do que chamam de "inclusão" corrupta, ou seja, reparte-se o butim entre muitos, numa criação de mafiosa e efetiva solidariedade. Em metáfora similar à outra - saquear o Custeio - repita-se, é a prática de bandos de ratos ou de nuvens de gafanhotos. Simplificando: companheiros que roubam unidos, permanecem unidos!

Neste último escândalo protagonizado pelo governo Lula da Silva (sob a responsabilidade direta do ministro Fernando Haddad), os auto-proclamados "estatistas" do PT e satélites resolveram privatizar o vestibular, entregando de mão beijada a um consórcio de negocistas da Bahia, do Rio de Janeiro e de São Paulo a incumbência de executar o chamado ENEM. Tradicionalmente o processo seletivo era realizado de forma descentralizada pelas diferentes universidades do país. Com uma experiência acumulada de várias décadas estas instituições conseguiam realizar a triagem necessária com eficiência e segurança. Inovações pontuais acrescentadas ao longo do tempo não conseguiam, no entanto, superar a inescapável contradição de ser o cocho pequeno para uma manada tão grande. Ou seja, uma Universidade com 5.000 vagas, por exemplo, ao receber a inscrição de 50.000 candidatos teria, forçosamente, de eliminar 45.000 pretendentes. Em suma, nada muda no que diz respeito à elasticidade da demanda em relação à fixidez da oferta, como diriam os economistas.

Mas, os negócios, ah! os negócios, os bons negócios que poderiam ser feitos sob o patrocínio do Ministério da Educação não deixariam de ser percebidos pela quadrilha governante, como de fato não o foram. Resolveram, então, unificar ao máximo a seleção entregando para negociantes privados o encargo de viabilizá-la ao preço de dezenas e dezenas de milhões de reais (sem concorrência, é claro, para respeitar e manter o costume da turma).

A indústria privada de concursos ainda tinha outra vantagem. Estaria muito mais susceptível a adotar questões com claro viés ideológico pois, afinal, o cliente é quem manda. Cumpriria desta forma, sem maiores questionamentos, as exigências de natureza gramsciana que permeiam o pensamento hegemônico entre as autoridades educacionais. Produziria uma massa de candidatos ao ensino superior mais afinada ideologicamente com a concepção de "homem novo" buscado pelos nefelibatas ministeriais. Facilitaria a doutrinação política e partidária futura pela imposição de uma certa maneira de ver o mundo, que se tornaria compulsória no ensino médio, em vista dos resultados medidos pelo "vestibular do Haddad" a que todos estariam sujeitos no futuro. Esta reflexão pode estar incorrendo em equívoco mas será elucidativo avaliar as questões das provas que foram fraudadas.

Provavelmente serão similares àquelas que eram usuais nos concursos patrocinados pelos petistas do Rio Grande do Sul quando Olívio Dutra era o governador. Provas estas mais para selecionar militantes partidários que para selecionar professores, tal como o ocorrido nas plagas gaúchas e já devidamente conhecido. E o tal Haddad ainda quer ser governador de São Paulo... Imagine-se o risco que correriam os paulistas se isto se concretizasse!