segunda-feira, 20 de junho de 2011

Darcy Ribeiro

(Publicado em 26 de fevereiro de 2010)


Em 17 de fevereiro de 1997 o mundo ficou órfão de Darcy Ribeiro. São, portanto, longos treze anos sem a presença física do mais audacioso dos educadores brasileiros. Darcy pensava grande e estimulava os outros a fazerem o mesmo (nem sempre com sucesso, diga-se a bem da verdade). Ele, porém, insistia em seu quixotismo, ancorado na mais profunda convicção que os homens podem ser melhorados. Darcy tinha clareza quanto ao instrumento para tal: a educação, em todos os seus níveis, do elementar ao superior. Discípulo fiel de Anísio Teixeira – a quem considerava seu mestre – foi um crítico feroz da desonestidade da escola oferecida ao homem comum do povo – essa triste, ineficaz e caríssima escola de turnos. Escola esta que, segundo ele, produzia mais analfabetos que alfabetizados, num paradoxo inaceitável para os verdadeiros patriotas. As diferentes elites, claro, sempre tiveram o cuidado de construir escolas para os seus ou, como costumam dizer, os “nossos” filhos; para os filhos dos miseráveis, entretanto, bastava qualquer arremedo de projeto educacional, pois, afinal, era uma escola para “eles”, para os “outros”, onde os felizes bem nascidos nunca iriam comparecer. Algo do tipo: para quem é, bacalhau basta. Ou para plagiar o título de conhecida canção brega: tá ruim mas tá bom! Estão aí, para os que têm olhos para ver, as denominadas "escola plural", "escola inclusiva", "escola candanga" e outras mais com adjetivos exóticos.
Critica-se o analfabetismo. Ele, no entanto, não é um mal em si. Em épocas já passadas, onde a cultura rústica ajustava o homem aos desafios do viver, não havia maiores problemas em não dominar a cultura letrada. O camponês analfabeto, por exemplo, sabia e podia sobreviver à perfeição no seu ambiente social e cultural. Nos dias de hoje, porém, quando o estilo de vida predominante é urbano, o conhecimento escolar se torna uma categoria central na existência de todos. Não compartilhar dos benefícios civilizatórios trazidos pelo domínio da leitura e da escrita é condenar os que dessas habilidades se encontram privados a viverem à margem de tudo como verdadeiros párias. Pois bem, os resultados da má obra de mesquinhas e sucessivas gerações estão aí, à vista de todos: dez milhões de iletrados adultos e dezenas de milhões de analfabetos funcionais. Eles são agravados pelos desatinos do mandarinato caboclo (e seus acólitos intelectualizados), que preferem adotar políticas compensatórias demagógicas, a propor e executar políticas educacionais universais decentes, como se faz e se fez em todo lugar do mundo. Um dinheirinho aqui, um favorzinho acolá, uma vaga comprada na rede privada superior para beneficiar, mais os "traficantes do conhecimento" que os supostos beneficiários, e chega-se à imagem que vai perpetuar a passagem pelo governo dos responsáveis pelos destinos atuais do povo brasileiro: um presidente da república, do alto de sua majestade, inaugurando uma ou outra creche, ou máquina de cortar salame, nas vastas periferias urbanas do país. Darcy sonhou mais alto!

Os lucros dos banqueiros no Brasil

(Deu no Correio Braziliense, em 19/04/2010)

Com Lula, bancos lucram R$ 127, 8 bi


"Sempre que questionado sobre os ganhos espetaculares acumulados pelo sistema financeiro ao longo de seu governo, o presidente Lula sai-se com essa: “Quero mais é que os bancos deem lucro”.

Pois dados consolidados pelo Banco Central, referentes aos sete anos da administração do petista, mostram que as 100 maiores instituições financeiras do país não se fizeram de rogadas. Acumularam, no período, R$ 127,8 bilhões em lucros, o equivalente a 2,3 vezes os R$ 55,2 bilhões gastos pelo Ministério do Desenvolvimento Social por meio do Bolsa Família, programa que ajuda a melhorar as condições de vida de 46 milhões de brasileiros.

Nem mesmo o estrago provocado pela crise mundial foi suficiente para inibir o apetite dos bancos. No ano passado, também segundo o BC, as 100 maiores instituições engordaram o seus cofres com ganhos de R$ 23,2 bilhões, resultado que superou em 26% os retornos de 2008 (R$ 18,4 bilhões). Isso, apesar de o Produto Interno Bruto (PIB), o total de riquezas produzidas pelo Brasil, ter encolhido 0,2% na mesma comparação.

Quem acompanha o mercado de perto avisa: o último ano da gestão Lula será fechado com pompa pelo sistema bancário: os lucros serão os maiores da história, o que poderá ser comprovado quando saírem os números do primeiro trimestre."
OBSERVAÇÃO:
Fernando Pessoa escreveu "O banqueiro anarquista". Está nas suas Obras Complestas (Contos de Aprendiz). Genial e profético, como sempre, o grande poeta português.

Economia e educação

(Artigo do professor OSCAR SANTIAGO RODRIGUES)


1) Resumo

O texto aborda as relações da Economia e Educação na Sociedade Moderna, estabelecendo as relações dos gastos em educação com o investimento humano e o avanço tecnológico, econômico e os problemas sociais e políticos. As mudanças do conceito mais abstrato de capital humano para a sociedade do conhecimento e as peculiaridades da formação politécnica; os progressos técnicos e científicos que levam a uma mudança na formação profissional, trabalhando como base uma nova visão educacional. Finalmente, ressalva a importância das características profissionais na formação intelectual e profissional para o terceiro milênio.

2) Introdução

Poucos assuntos são mais intensamente discutidos do que o papel da Educação na Sociedade Moderna e em particular sua conexão com o propósito econômico. Todas as análises da posição competitiva dos países no mundo econômico focalizam a importância de uma força de trabalho instruída e ocupacionalmente qualificada. O ponto mais enfatizado nas referências é o dos gastos em educação com investimento humano (Teoria do Capital Humano). Os investimentos visam a um maior retorno econômico, e a educação passa a ser um aspecto ou, mais precisamente, um componente da política econômica global. Assim, não se tem dúvida de que a educação serve ao propósito econômico. Entretanto, é necessário observar que muitos setores funcionam com trabalhadores semi-analfabetos, porque têm disposição e disciplina resultantes da fuga da privação econômica. Como conseqüência, muitas indústrias mudaram para novos países industriais onde a força muscular e a tendência submissa são os principais requisitos do processo econômico. Nas nações industriais avançadas, a educação desempenha papel econômico fundamental, pois a economia moderna requer uma força de trabalho bem preparada e adaptável. A sociedade moderna baseada na sociedade do conhecimento não pode aceitar que a educação esteja basicamente a serviço da economia; ela tem um papel político e social maior, uma justificação mais profunda em si mesma.

Ela tem uma relação vital com a paz social e a tranqüilidade e traz esperança e significa uma saída para os estratos sociais e econômicos menos favorecidos. Em uma sociedade moderna e justa, um grau de estratificação social e econômica é inevitável e a eliminação completa de um sistema de classes é quase certamente impossível. A estabilidade política requer, porém, a existência de uma chance reconhecida e eficaz de movimento ascendente para os estamentos menos privilegiados. Caso isso não ocorra, haverá descontentamento social e até a possibilidade de uma revolta interna. O papel da educação é não só permitir as pessoas se autogovernarem inteligentemente, mas também desfrutarem plenamente da própria vida. No modelo passado, baseado na economia agrícola rudimentar, ocorria pouca exigência do Estado, necessitava-se de inteligência pouco sofisticada tanto do governo como dos governados. Hoje, o avanço tecnológico e econômico e as distorções sociais decorrentes, aumentam os problemas enfrentados pelos governos tanto em complexidade como em diversidade. Isso significa a necessidade de melhora da estrutura política com o estabelecimento de uma democracia plena.

A educação faz surgir uma população com a compreensão das tarefas públicas, e também faz com que esta exija ser ouvida, já que os homens e mulheres analfabetos, especialmente em nível de subordinação, são facilmente mantidos em silêncio e sob controle autoritário. No mundo moderno, não existe população bem educada que esteja sujeita a regime despótico ou autoritário; conclui-se, portanto, que a democracia é conseqüência material da educação e do desenvolvimento econômico devendo proporcionar ao indivíduo o engrandecimento e o desfrute da vida, confirmando que é óbvio o papel da educação na sociedade. Toda criança deve ter acesso a uma boa educação primária e secundária, e a sociedade deve exigir isso. Na educação superior, deve haver plena oportunidade de realização, contanto que atenda às aspirações de cada um e à habilidade de cada indivíduo. Portanto, os recursos públicos têm que estar disponíveis e bem alocados para que haja uma redução do processo de exclusão social sendo necessária a ampliação da estrutura pública em nível de formação primária, secundária e técnica.

Lester Thurow, no seu livro O Futuro do Capitalismo, mostra como o fim do comunismo, as mudanças tecnológicas com uma era dominada pela inteligência humana, uma demografia inédita e revolucionária, a globalização da economia e uma era multipolar que desconhece qualquer tipo de dominação econômica, política ou militar, por qualquer nação, estão provocando uma revolução que ameaça destruir o capitalismo como ideologia de orientação para o poder público e, sobretudo para as pessoas físicas individualmente. Thurow afirma que as empresas, para serem bem sucedidas, precisam tirar proveito da capacidade mental das pessoas. Esta capacidade, e não o capital, o equipamento, a mão-de-obra comum ou os recursos naturais é que permite às empresas a necessária vantagem competitiva. Mas isso requer vultosos investimentos em educação, o que a iniciativa privada não faria, ou pelo menos não fez como comprova a história. Assim, o estado tem que se encarregar de criar o capital humano necessário à formação individual e coletiva.

A mudança demográfica mostra as dificuldades existentes, face ao rápido crescimento populacional, com a crescente lacuna na distribuição de salários. Essas distorções não ocorrem apenas entre os grupos de trabalhadores, educados e não educados. Elas agora se manifestam dentro de cada grupo, já que existem operários que ganham bem mais que seus colegas com o mesmo nível educacional dentro do mesmo país. Outro fator relevante são as quedas consecutivas dos salários reais. Ninguém escapa desse dilema, não importa sua idade, o setor em que trabalha, o cargo que ocupa; isso atinge até o nível daqueles que têm pós-graduação.

Outro fator é o aumento populacional maior nos países mais pobres, o que provavelmente elevará o número dos excluídos, que poderão até morrer face às dificuldades de ajudas externas e internas das próprias organizações privadas ou estatais. Acresce a esse fato o envelhecimento da população mundial, o que implicará serviços sociais caros e, por conseguinte um aumento nas funções do governo. Thurow aposta na recuperação do capitalismo e afirma que, para sobreviver, este terá que mudar passando de uma ideologia de consumo para uma ideologia de construção. Logo, a ênfase sobre a gratificação instantânea precisa ser substituída por uma ênfase que vise ao futuro como seu alvo primordial. Com a estagnação do capitalismo a ênfase mudará para uma ideologia inteiramente diferente talvez anticonsumista, talvez fundamentalista ou sacerdotal. Na sua visão, acredita que a nova ideologia não seja uma reedição da ideologia atual, não importa se capitalista ou qualquer outra. Thurow tenta apontar para as possíveis causas da implosão do sistema capitalista, indicando como grande ameaça à perda da ideologia. O estado do Bem Estar Social desenvolvido sobre a Teoria do Capital Humano, ao produzir formas mais avançadas de reprodução da força de trabalho e de direitos sociais mediante fundo público, indica que o caminho não é a regressão em função da crise, mas uma mudança para novas formas sociais que vários autores denominam “socialismo com democracia”.

Os programas de formação, como indica Hobsbawn (1992), mostram um projeto educativo que desenvolve as múltiplas dimensões do humano-educação, sendo, portanto, politécnico. Assim, é possível entender que as mudanças dos conceitos mais abstratos de capital humano para a sociedade do conhecimento expressam a nova forma mediante a qual, ideologicamente, se apreende a crise e as contradições do desenvolvimento capitalista, que necessita de profunda reformulação. O núcleo de formação educacional futura será baseado na formação politécnica direcionada às múltiplas necessidades do ser humano, como alternativa democrática ao neoliberalismo, visando atenuar os processos de exclusão social. Atualmente, os conceitos tomaram uma forma mais qualitativa, como formação para a competitividade, qualificação e formação flexível, abstrata e polivalente, qualidade total, deixando em nível mais operacional a categoria sociedade de conhecimento. Especialmente, desde os anos 60, o papel das economias nacionais tem sido corroído ou mesmo colocado em questão pelas transformações na divisão internacional do trabalho, cujas unidades básicas são organizações de todos os tamanhos multinacionais ou transnacionais e redes de transações econômicas que estão, para fins práticos, fora do controle dos governos e estados. A reorganização econômica política e internacional desenvolve-se conjuntamente com um verdadeiro revolucionamento da base técnica do processo produtivo, resultando em grande parte do financiamento direto do capital privado e indireto pelo fundo público na reprodução da força de trabalho. Os progressos da microeletrônica associada à informatização, à microbiologia e à engenharia genética, e às novas fontes de energia são a base de substituição de uma tecnologia rígida por uma tecnologia flexível no processo produtivo.

Essa mudança qualitativa da base técnica do processo produtivo é classificada na literatura como uma nova revolução tecnológica industrial gerando um impacto crucial sobre o conteúdo do trabalho, a divisão do trabalho e a quantidade de trabalho. Ao mesmo tempo em que se demanda uma elevada qualificação e a capacidade de abstração para os trabalhadores estáveis, em número cada vez mais reduzido, cuja exigência é cada vez mais supervisionar o sistema de máquinas informatizadas e a capacidade de resolver rapidamente problemas para a grande massa de trabalhadores temporários ou excedentes de mão-de-obra a questão de qualificação de escolarização não se coloca como problema de mercado. Assim, na situação atual, busca-se uma nova reestruturação do sistema onde se incluem. reconversão tecnológica, organização empresarial, combinação das forças de trabalho e estruturas financeiras. Acresce a esse fato, que as empresas se deslocam de uma região para a outra buscando as melhores condições de produção. No atual contexto, poderíamos identificar a nova ordem estabelecida com a fase da globalização, da internacionalização, do colapso do socialismo real, da reestruturação econômica e da mudança da base técnica do trabalho.

A partir de 1980, surge uma literatura sobre sociedade pós-industrial, a sociedade de conhecimento e os conceitos ligados ao processo de qualificação e formação humana, qualidade total, trabalho participativo, formação flexível, abstrata e polivalente. Os conceitos de globalização, qualidade total, flexibilidade, integração, trabalho enriquecido, ciclos de controle de qualidade em termos reais concretizam-se em métodos que buscam atingir tempo, espaço, energia, materiais, trabalho vivo, aumento de produtividade, a qualidade dos produtos e, conseqüentemente, o aumento do nível de competitividade e da taxa de lucro. No campo da educação e formação, os novos conceitos que tentam dar conta desta nova materialidade são: formação para a qualidade total, formação abstrata, policognição e qualificação flexível e polivalente. Finalmente as receitas que são apresentadas de acordo com a nova teoria indicam que se espera como característica do profissional para o terceiro milênio o seguinte: flexibilidade, versatilidade, liderança, princípios de moral, orientação global, hora da decisão, comunicação, habilidade de discernir, e equilíbrio físico e emocional.

3) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DA SILVA, Luiz Heron. Século XXI Qual Conhecimento? Qual Currículo? Petrópolis: Vozes, 1999.
FRIGOTTO, Gaudêncio. Educação e a Crise do Capitalismo Real. 2. ed. São Paulo: Cortez Editora, 1996.
GALBRAITH, John Kenneth. Sociedade Justa. Uma Perspectiva Humana. 1. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1996.
GENTILI, Pablo A. A; SILVA, Tomaz Tadeu. Neoliberalismo, Qualidade Total e Educação em Visões Criticas. Petrópolis: Vozes, 1994.
PINHO, Carlos Marques. Economia da Educação e Desenvolvimento Econômico. 1. ed. São Paulo: Pioneira, 1970.
STEWART, Thomas A. Capital Intelectual. A Nova Vantagem Competitiva das Empresas. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1998.
THUROW, Lester C. O Futuro do Capitalismo. Como as Forças Econômicas de Hoje Moldam o Mundo de Amanhã. L.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
VAIZEI, John. Economia da Educação. São Paulo: Ibrasa, 1968.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A reforma política já chegou - João Ubaldo Ribeiro

(Publicado em O Globo, de 05/06/2011)

OBS: Segue abaixo um exemplo da inteligência bem humorada do genial baiano João Ubaldo Ribeiro. Aproxima-se ele da melhor ironia de outro texto, também impagável, de Eça de Queirós, o profético "O Conde de Abranhos". O Brasil parece ter recuperado, se João Ubaldo estiver correto em sua tese sobre o bipresidencialismo, o instituto romano do Consulado.

"A REFORMA POLÍTICA JÁ CHEGOU

Suspeita-se na ilha que a propalada operação de safena a que se submeteu recentemente Zecamunista foi na verdade um implante criado pela diabólica medicina da União Soviética, que, quando não mata, como foi o caso de Zeca, injeta tamanha dose de energia no indivíduo que ele sozinho vale por todo um Politburo, coisa braba mesmo, do tempo do camarada Stalin Marvadeza e da NKVD. Não sei se os rumores procedem, mas de fato Zeca, exibindo a cicatriz do peito por trás de uma correntinha com uma foice e um martelo e umas contas de Xangô (quando uma vez eu perguntei a ele que mistura era essa, ele me deu um sorriso de desdém e respondeu apenas que não era materialista vulgar), está mais elétrico do que nunca. Na hora em que o peguei, ele ainda recebia abraços e apertos de mão pela palestra que acabara de fazer no bar de Espanha, esclarecendo a todos sobre o sistema político brasileiro. Infelizmente, perdi a palestra, mas ele, muito modestamente, me disse que não tinha sido nada de mais.

- Foi o bê-á-bá – disse ele. – Comecei pela questão da soberania.

- Ah, sim, a soberania popular. Todo poder emana do povo, etc., isso é muito bonito.

- Bonito pode até ser, mas não é verdade. Foi isso que eu disse a eles. Expliquei que soberania é o direito de fazer qualquer coisa sem dar satisfação a ninguém. E quem é que aqui tem o direito de fazer o que quiser, sem dar satisfação a ninguém, é o povo? Claro que não. É, por exemplo, o deputado, que se cobre de todos os tipos de privilégios e mordomias, se trata melhor do que o coronel Lindauro tratava as mucamas e, quando alguém reclama, ele manda esse alguém se catar, isso quando dá ousadia de responder, porque geralmente não dá. Todos eles fazem o que querem e não têm que prestar contas, a não ser lá entre eles mesmos, para ver se algum não está levando mais do que outro, nisso eles são muito conscienciosos. Fiz que nem Marx, botei a história de cabeça para baixo. Não foi o rei Luís XIV que disse que o Estado era ele? Pois aqui não, aqui o Estado é o governo, é grana demais para um rei só, tem que dar para todos os governantes, cada um com seu quinhão. O Estado são eles e é deles, tem que meter isso na cabeça e parar de pensar besteira. Antes de qualquer postura abestalhada, vamos encarar a realidade objetivamente, não tem nada de povo, povo não é nada, tem mais é que botar o povo pra comprar bagulho sem entrada e sem juros e cuidar do que interessa ao País.

- E o que é que interessa ao País?

- Ô inteligência rara, o que interessa ao País é o que interessa a eles. Que todos eles continuem se locupletando numa boa, não tem nada que mexer em time que está ganhando. Você viu isso muito claramente no caso do Palocci, não viu? Não se mexe em time que está ganhando.

- Que caso do Palocci, o caso do caseiro?

- Que caso do caseiro, cara, deixe de ser leso, o caso do caseiro já entrou para as piadas de salão do PT. Estou falando no caso do dinheiro que dizem que ele ganhou por cultivar bons contatos. Você viu, pegou mal, ficou aquele mal-estar e aí o que é que aconteceu? Exatamente isso que você vai dizer, mas deixe que eu digo. Aconteceu que era mais um trabalho para o Super-Lula! Eu vou ter que dar a mão à palmatória, o bicho não é inteligente, não, ele é um gênio, gênio. Você viu como, com dois beliscões aqui e três cascudos ali, ele enquadrou todo mundo e tudo entrou nos eixos? Mas, ainda mais que isso, muito mais que isso, ele fez a reforma política! Ele fez a reforma política e, como se diz nas operações policiais, sem disparar um único tiro!

- Pode me chamar de leso outra vez, porque não entendi que reforma.

- O bipresidencialismo! Dois presidentes, em lugar de um só! E isso sem precisar mudar nada na Constituição, já está aí, já está em operação, não é preciso alterar lei nenhuma, esse cara é um gênio mesmo. É por isso que ela faz tanta questão de ser chamada de presidenta, eles já deviam ter combinado isso desde o comecinho da campanha eleitoral. Presidente é ele, presidenta é ela. Governante é ele, governanta é ela. O entrosamento é perfeito. Ele não suporta trabalhar e aí o trabalho todo de despachar, ler, discutir, assinar etc., ela faz. Das jogadas políticas, dos discursos, das viagens e das mensagens na TV ele cuida. E de mandar sancionar ou vetar o que for necessário, claro. Fica perfeito, como com o casal que não briga pelo pão porque um só gosta do miolo e o outro da casca. Ele criou – e ainda por cima com os votos do otariado todo – o bipresidencialismo, que já veio com ele de fábrica, ele é um gênio!

- E você acha que isso vai funcionar mesmo?

- Já está funcionando. Trouxa será aquele que, querendo coisa graúda do governo, não vá falar com ele primeiro. E mais trouxa será quem o contrariar. Caso perfeito para quem acha que não se mexe em time que está ganhando. Não mudou nada, tudo continua na mesma, só que agora o presidente não apenas conta com uma supergovernanta para cuidar do trabalho chato, como continua mandando, e ainda com a vantagem de ter alguém para levar a culpa, se alguma coisa der errado, pois, como diziam os antigos, a vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã, quem mais sabe disso é ele.

- Zeca, você realmente está muito inspirado hoje. Esse bipresencialismo que você sacou está muito bem pensado, ele continua mandando mesmo e deixando isso bem claro. Mas eu me lembro de você dizendo, antes da eleição, que, se ela ganhasse, em pouco tempo nem mais o cumprimentaria.

- Bem, eu subestimei a governantabilidade dela. E, além disso, beija-mão não é bem um cumprimento."

sexta-feira, 3 de junho de 2011

"SOMO TUDO PALACIANO" - Roberto daMatta

"Com o devido respeito, mas nessa era petista, quando misturamos o pior do mercado com o mais desonesto estatismo, o caso Palocci ultrapassa a trivial suspeita de enriquecimento indébito. Ele contempla aspectos típicos do lulopetismo, bem como o passado do suspeito, mas vai adiante. Mais uma vez ele nos põe diante de nós mesmos, já que todos somos palocianos ou palacianos e temos a certeza de que, uma vez na panelinha, a “ética da condescendência” que sustenta o nosso espírito ainda patronal-escravocrata salva qualquer um do inferno. Mesmo quando se fala errado e relativiza-se o moralismo da língua culta, vendendo (eis o que conta) milhares de livros ao Ministério da Educação. A questão, entretanto, é que esse aumento patrimonial comicamente extraordinário abre uma porta sequer ventilada pela teoria política nacional.

Refiro-me ao fato de que, no Brasil, o Estado não é um instrumento da burguesia, como manda o velho Marx. É, isso sim, um veículo de enriquecimento e de aristocratização de seus funcionários, na razão direta de sua importância dentro das suas burocracias. Basta tabular o aumento patrimonial dos seus membros situando o quanto possuíam e quanto eles amealharam depois que cumpriram os tremendos sacrifícios de fazer parte do poder para verificar o triunfo da mendacidade com o povo, pelo povo, e para cada um de deles!

Na relação até hoje mal estudada entre o Estado (com suas leis) e a sociedade (com seus costumes e tradições), esses casos revelam algo típico da tal América-Latina: o fato de que o Estado é hierarquicamente superior à sociedade. Ele traz à tona o mito segundo o qual, quando Deus nos inventou, Ele primeiro fez o Estado (com seus caudilhos, ministros, secretários, puxa-sacos e toda a malta que estamos fartos de conhecer), e depois fez uma desprezível sociedade com a sua miscigenação, os seus burgueses, sua abjeta classe média e a massa de miseráveis com escolas (mas sem professores respeitados e bem pagos); com hospitais (mas sem médicos); com delegacias (mas com policiais bandidos) e com essa esquerda autocomplacente que inventou a bolsa-ditadura, que anistia destruidores da floresta e que ama o atraso.

Quando surge a suspeita de um enriquecimento ridiculamente excepcional, como esse de Antonio Palocci — imagine, leitor, você em quatro anos ter mais 19 apartamentos, mesmo pequenos como o seu! —, batemos de frente com um aspecto pouco visto. Refiro-me ao fato de tanto a direita quanto o centro e a esquerda serem todos viciados em Estado! A estadofilia, estadomania e estadolatria é o cerne do nosso republicanismo, é ele — supomos! — que vai corrigir a sociedade. Por isso é centralizador, autoritário e perdulário. Ele usa leis para não mudar costumes.

Num país do tamanho do Brasil é impossível não desperdiçar recursos com a centralização. É impossível controlar de Brasília o que se passa no cu de judas! Mais: nada melhor para a ladroagem, para o tráfico de influência e para o furto cínico dos dinheiros do povo do que essa concepção de um Estado autista, com razões que só ele conhece. Um órgão engessado em si mesmo e avesso ao mercado e a qualquer tipo de controle, competição ou competência. Tudo isso que o lulopetismo endossou por ignorância e/ou malandragem, mas que ainda goza de um inigualável prestígio junto da nossa opinião pública dita mais esclarecida que tem horror ao mercado.

Por quê? Porque esse é o resultado da operação de um Estado feito de parentes e amigos que eram de sangue e hoje — eis a contribuição petista — são ideológicos. Um Estado autocomplacente e referido, como mostra esse vergonhoso governo de coalizão que serve primeiro e si próprio, depois a si mesmo e, em terceiro e último lugar, aos seus adoradores. Jamais lhe passa pela sua cachola, cheia de prêmios a serem distribuídos aos seus compadres, servir à sociedade que o sustenta.

Numa estadolatria, há alergia a competição e a seguir o básico das repúblicas: atribuir responsabilidade. Daí o “eu não sabia”, pois todos concordam com o descalabro, mas nada acontece. Como punir o ministro? Como sair de um viés aristocrático que foi justamente a matriz social dos republicanos que queriam ser presidentes, fiscais do consumo, embaixadores, ministros do Supremo e senadores? As mensagens não passam nessas redes administrativas em contradição cujos agentes sabem que enriquecer fácil significa criar dificuldade para vender facilidade. Algo simples de fazer nas sucessivas aristocracias que têm usado o liberalismo político como um disfarce para assaltar o Brasil. Em outras palavras: o governo dá para seus filhos; nós, os trabalhadores assalariados que não temos cláusulas secretas com quem nos paga, como é o caso do Palocci, pagamos a conta!

Será que ninguém sacou a burrice de aplicar marxismo burguês a um Brasil tocado a escravidão? Um país com uma burguesia contra máquinas e toda ela apadrinhada por si mesma? Eu fico com vergonha ao ler como a nossa burguesia é reacionária quando sei que a modernização política do Brasil foi feita por um avô fujão, por um filho mau-caráter e por um neto que não sabia o que acontecia em sua volta. A partir das repúblicas de 89, contam-se nos dedos os administradores e políticos que não multiplicaram por 20, 200 ou 2.000 seus patrimônios graças ao controle de um pedaço do Estado!

Palocci é juvenil perto dos outros que, se citados, tomariam todo o espaço de um jornal. Aguardo suas explicações que serão normas de ouro para o enriquecimento blitzkrieg."

Fonte: O Globo, 01/06/2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Bullying e Bulir , por Roberto Macedo

(Publicado pelo Estado de São Paulo, em 02/06/2011)


"Bullying' é bulir com a língua portuguesa


Na língua inglesa, bullying é o comportamento pelo qual uma pessoa amedronta outra, ou lhe causa dor, ferimento, constrangimento, ou outros sofrimentos, até no plano emocional.

Há tempos noto o crescente uso do termo no Brasil, em particular para descrever ocorrências nas escolas. Ele ganhou maior notoriedade depois que no Rio de Janeiro, no dia 7 de abril, houve o assassinato de 12 crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira. O criminoso, Wellington Menezes de Oliveira, teria sofrido o bullying quando aluno da mesma escola. Pela internet soube que, manco, era chamado de suingue pelos colegas.

Da minha janela vejo periquitos a bicar e ameaçar seus colegas e outras aves. Trata-se de comportamento típico de animais, herdado por seres humanos. E, nessa condição, também sob versões além da física, como agressões verbais, apelidos constrangedores, intrigas e fofocas. Já existe também o cyberbullying, via internet, celulares e outras tecnologias digitais.

Portanto, o bullying não é novidade histórica e alcança todo o espaço onde está o ser humano. Assim, seria surpreendente se a língua portuguesa não tivesse palavras próprias para descrevê-lo. E as tem. Surpreendentemente mesmo é o desconhecimento delas, conforme revelado pelo amplo uso de bullying. Pelo que vi na internet, outras pessoas também perceberam esse desconhecimento.

Pensando no referido comportamento, recordei-me de palavras que, quando criança, ouvia para descrevê-lo. Por exemplo, em casa, na escola e na rua alguém dizia "fulano buliu comigo". Aí está o bullying, e nessa e noutras formas em dicionários da nossa língua.

O meu (Houaiss) apresenta como significados de bulir: mexer com, tocar, causar incômodo ou apoquentar, produzir apreensão em, fazer caçoada, zombar e falar sobre, entre outros. E não consta como regionalismo. Neste caso, no Nordeste tem também o significado de tirar a virgindade. Acrescente-se que nas duas línguas as palavras começam da mesma forma, mas ignoro se têm etimologia comum.

O mesmo dicionário tem também bulimento, o ato ou efeito de bulir, e bulidor, aquele que o pratica. Ou seja, temos palavras para designar tanto o sujeito (bully), como o verbo (to bully) e o ato decorrente (bullying). Acrescente-se que no desnecessário uso deste último anglicismo se fica só na referência ao ato, dificultando ou desnecessariamente estendendo textos, o que é feito não apenas corriqueiramente pela imprensa, mas também por gente importante.

Por exemplo, o filósofo e educador Gabriel Chalita, hoje deputado federal, quando vereador da capital paulista apresentou projeto de lei que "dispõe sobre ... medidas de conscientização, prevenção e combate ao bullying... (nas)... escolas públicas do Município...". No trecho que trata dos objetivos, o projeto inclui o de "orientar os agressores, por meio da pesquisa dos fatores desencadeantes de seu comportamento". Por que não usar bulimento e bulidores? Quanto à conscientização destes, é indispensável, pois muitos não percebem o mal que praticam.

A propósito, em site do governo dos EUA (www.stopbullying.gov), voltado para combate ao bulimento, uma das orientações consiste em levar bulidores efetivos ou potenciais a fazer a si mesmos esta pergunta: "Se alguém lhe fizesse a mesma coisa, você se sentiria incomodado?" O termo bulidor também se revela conveniente ao dispensar referência prévia a bullying, ou mesmo a bulimento.

O mesmo anglicismo também está onipresente em cartilha sobre o assunto lançada pelo Conselho Nacional de Justiça, com o título Bullying: Cartilha 2010 - Justiça nas Escolas, escrita pela psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva. Aí bulidores são novamente chamados de agressores e, também, de opressores. Soube ainda que o ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal, escreveu um artigo intitulado Bullying - aspectos jurídicos.

Como se percebe desses exemplos e do noticiário em geral, há muita gente bulindo com o idioma português. Se este falasse certamente reclamaria do bulimento a que é submetido.

O deputado federal Aldo Rebelo, que pontificava como grande defensor da língua pátria - esse era o nome que tinha quando comecei a estudar -, esteve nos últimos meses muito ocupado como relator do Código Florestal, na Câmara. Gostaria de vê-lo de novo na ativa a defender o português no meio ambiente onde sofre a poluição de outras línguas.

E não só quanto ao assunto desse artigo, mas também para protestar contra algo mais grave, pois reconheço que bulir e seus derivativos não são muito conhecidos e, por isso mesmo, precisam ser difundidos. Trata-se da proliferação de anglicismos claramente desnecessários, como delivery, sale, off e muitos outros estrangeirismos.
Particularmente estranháveis são os nomes dados a edifícios nos anúncios de lançamentos de imóveis. Ainda no último fim de semana havia neste jornal nomes como Still, Grand Terrace e - inacreditável! - Tasty Panamby. Se traduzido das duas línguas de onde vem, o inglês e o tupi-guarani, este último significaria Borboleta Gostosa.

Já escrevi aqui sobre o mesmo assunto (Prédios com nomes de outro mundo, 6/5/2010) e, apesar do meu apelo, ninguém me explicou convincentemente os fundamentos desse fenômeno. Enquanto isso não vem, fico com as minhas versões. É gente que não dá valor à nossa língua. Ou talvez pense que morando em prédios assim denominados estaria a viver em outro país. Os nomes também podem ser cacoetes de arquitetos e marqueteiros, mas não inconsequentes no seu bulimento com a língua portuguesa.
Bilac, que a chamou de "última flor do Lácio", certamente lamentaria vê-la reproduzida com esses e muitos mais espinhos de outras espécies."

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ROBERTO MACEDO É ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP, É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR.

FORA HADDAD!

Segue, abaixo, um libelo contra a estupidez ou, como diria o velho Stanislau Ponte Preta, mais uma amostra do incrível Festival de Besteiras que Assola o País. Nem no período dos militares houve ministro tão medíocre como o atual. E pensar que Getúlio Vargas é tão vilipendiado por certos tipos. O velho caudilho, ao menos, tinha uma virtude: escolhia gente melhor que ele próprio para seu ministério, principalmente o da Educação; basta lembrar Capanema.

E o silêncio? E o espantoso silêncio dos intelectuais acadêmicos frente aos lamentáveis fatos divulgados na imprensa dia após dia?

Como insinuou um ex-reitor de importante universidade mineira, em surto argentário, para justificar o apoio político e eleitoral aos novos mandarins: pingando o capilé, apóia-se o freguês. O importante não é a rosa, é o dindim.

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"Ministro da Educação se comporta como um esteta do homicídio em massa. Passa a ser um imperativo moral e ético dos homens de bem gritar: “FORA, HADDAD!”

Até ontem, a presidente Dilma Rousseff mantinha no Ministério da Educação um ministro incompetente o bastante para desmoralizar o Enem; irresponsável o bastante para tentar entregar a alunos de 11 anos material que faz proselitismo sobre sexualidade; negligente o bastante para permitir que o MEC distribua a escolas livros didáticos que ou fazem a apologia do erro ou distorcem a história a favor de um partido; mistificador o bastante para maquiar dados referentes à sua pasta. A partir de hoje, se Dilma mantiver Fernando Haddad à frente da educação, não estará mantendo apenas o incompetente, o irresponsável, o negligente e o mistificador.
Aquele que deveria ser o executivo mais importante da Esplanada dos Ministérios revela-se também um esteta da morte; um teórico do homicídio em massa; um justificador da barbárie supostamente instruída. Haddad desmoraliza o decoro republicano, o humanismo, a ética, o escrúpulo e o bom senso. Revelou-se um monstro moral. Ao afirmar o que afirmou ontem numa comissão do Senado, o que lhe falta para justificar o assassínio em massa não é disposição subjetiva e coragem; faltam-lhe apenas as circunstâncias que fariam aflorar o ogro, mesmo com aquela sua aparência de janota inofensivo de pizzaria.

A partir de hoje, senhores leitores, passa a ser um imperativo moral gritar nas redes sociais: “FORA, HADDAD!” A partir de hoje, passa a ser um imperativo ético não deixar que passe um só dia sem que evidenciemos o repúdio que suas idéias nos causam, o desconforto que a sua simples presença física pode provocar em todos aqueles que prezam a vida humana, sua dignidade, sua grandeza possível. Haddad num cargo público escandaliza os direitos humanos, viola as regras da convivência democrática, rebaixa o poder público à sua expressão mais mesquinha. O que ele disse foi sério, foi grave, foi asqueroso. E seria indecente considerar que apenas recorria a uma metáfora, que forçava a mão num exemplo hiperbólico, que tentava encarecer uma idéia recorrendo a uma digressão infeliz.

Haddad explicava na Comissão de Educação do Senado por que o MEC não recolheria os livros didáticos que fazem o elogio do erro e que, sob o pretexto de discutir uma questão de natureza lingüística, rebaixam a norma culta da língua a uma simples alternativa entre outras, o que gerou a reação indignada de gramáticos, professores, escritores, jornalistas, políticos e, antes deles todos, dos próprios estudantes. Diferentemente do que pretende a boçalidade militante em certos nichos da vagabundagem ideológica, as críticas não partiram só “da direita”; partiram de “gente direita”. Segundo o ministro, essas pessoas não teriam lido o livro, o que é uma resposta intelectualmente pilantra. Neste blog, por exemplo, destaquei trechos em que há um quase incitamento à contestação da norma culta. E Haddad, então, chafurdou na lama do opróbrio (Emir Sader, outro “intelectual” petista, escreve “opróbio”), da torpeza, da abjeção.

Respondendo a uma observação do senador Álvaro Dias (PSDB-PR), que lembrou que até o ditador da URSS Josef Stálin defendia a norma culta da língua, Haddad decidiu ter uma grande idéia, filosofar, ser profundo. E atacou seus críticos com estas palavras, diante de uma comissão atônita:
“Há uma diferença entre o Hitler e o Stálin que precisa ser devidamente registrada. Ambos fuzilavam seus inimigos, mas o Stálin lia os livros antes de fuzilá-los. Essa é a grande diferença. Estamos vivendo, portanto, uma pequena involução, estamos saindo de uma situação stalinista e agora adotando uma postura mais de viés fascista, que é criticar um livro sem ler”.

Que estupidez!
Que vergonha!
Que desonra!

Haddad é do tipo que acredita que as diferenças entre Hitler e Stálin precisam ser “devidamente registradas” em benefício de um deles — no caso, o líder comunista, sem ignorar que ambos “fuzilavam seus inimigos”. Ler a obra dos autores antes de fuzilá-los — o que Hitler não fazia, segundo ele — estabeleceria o Bigodudo homicida num patamar superior ao do Bigodinho homicida. E como a gente sabe ser essa a opinião deste senhor? Porque ele vê a Postura B (matar sem ler) como uma “involução” em relação à Postura A — matar depois de ler. Não tivesse tal consideração nenhuma outra implicação, a fala já seria degradante o bastante. Afinal, que importância tem o nível de instrução ou o cuidado com a leitura do homicida em massa se homicida em massa?

O fato de Stálin eventualmente se interessar por história e — atenção! — lingüística (Heloísa Ramos certamente seria fuzilada!) faria dele um assassino mais respeitoso do que Hitler? Em número de vidas humanas, diga-se, o tirano soviético superou o outro largamente: os que lhe atribuem menos homicídios falam em 25 milhões; a cifra chega aos 40 milhões. Só perde para Mao Tse-Tung, outro fedorento, com seus estimados 70 milhões de cadáveres.

Mas, reitero, há outro conteúdo perverso na fala de Haddad, que se revela, como sempre, com o exercício cristalino da lógica, ainda a arma mais poderosa que há contra tiranos e “tiranófilos”. Se Haddad acha que a grande falha dos críticos do livro “Por Uma Vida Melhor” está em não terem lido o livro (segundo ele, claro…), admite implicitamente que a leitura, aí sim, conferia razão a Stálin para fuzilar seus inimigos. Haddad estabelece, assim, a diferença entre o fuzilador justo de inimigos e o fuzilador injusto. No fim das contas, Haddad está a nos dizer que a diferença entre Stálin e Hitler — e ele vê como uma “involução” a postura do segundo em relação à do primeiro — é que o líder soviético matava por bons motivos, e Hitler, por maus…

Eu, confesso, achei que Haddad não pudesse descer ainda mais, depois que se revelou que o material do MEC poderia ser caracterizado como uma forma derivada de pedofilia e molestamento. Mas o fato é que não devemos subestimá-lo. Seu amor ao stalinismo é antigo. Já lhes contei aqui. Ele é formado em direito e fez mestrado em economia. O nome de sua monografia, de 1990, é “O caráter sócio-econômico do sistema soviético”. Ele estudou aquilo e achou bom pra chuchu. Menos de dois anos depois, a URSS tinha desmoronado. Isso é que é analista! Em 2004, ele ainda não tinha se conformado com o fim dos camaradas e escreveu um livro intitulado Trabalho e Linguagem - Para a Renovação do Socialismo. Ali se encontra a seguinte afirmação: “O sistema soviético nada tinha de reacionário. Trata-se de uma manifestação absolutamente moderna frente à expansão do império do capital”. Uma pena que o povo soviético e todo o Leste Europeu pensassem o contrário, né? Como se vê, o apreço por Stálin é antigo.
Este mímico de intelectual, é capaz de escrever bobagens estupendas como esta:
“Sob o capital, os vermes do passado, por vezes prenhes de falsas promessas, e os germes de um futuro que não vinga concorrem para convalidar o presente, enredado numa eterna reprodução ampliada de si mesmo, e que, ao se tornar finalmente onipresente, pretende arrogantemente anular a própria história. Esse é o desafio que se põe aos socialistas. A tarefa, 150 anos atrás, parecia bem mais fácil”.

Sabem o que isso quer dizer? Nada! O janota de pizzaria, ao contemplar a própria obra, deve ter pensado: “Não entendi nada, mas adorei”.

Este senhor era dado a exorbitar, e já há muito tempo, no ridículo, como se vê. Ontem, no Senado, na Casa do Povo, ele foi muito além do que deve suportar uma elite política com um mínimo de vergonha na cara.

Se os integrantes do Legislativo permitirem que um ministro da Educação se manifeste naqueles termos no Senado sem o claro repúdio a suas palavras, então é este Poder da República que se degrada e que se cobre de desonra.

E tem mais uma coisa, ministro. Nas trevas da ignorância, o senhor se esqueceu de lembrar que Stálin era ainda “hábil” para fuzilar os amigos!

FORA, HADDAD!"

(Do blog do Reinaldo Azevedo)

Publicado em 01/06/2011.