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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Pasadena: a mentira e a piada (O Antagonista)


Em Paris, Dilma Rousseff repetiu que não indicou Nestor Cerveró para a diretoria da área internacional da Petrobras e que não estava inteiramente informada quando aprovou a compra da refinaria de Pasadena, o pior negócio da história do capitalismo mundial, pelo menos para a própria empresa, os seus acionistas e os contribuintes.
Disse Dilma, segundo o Estadão: "Ele (Cerveró) vem falando isso durante a CPI da Petrobras. Eu acredito que é uma forma de tentar confundir as coisas. Não só eu não sabia de tudo, como foi detectado - e isso todos os conselheiros que estavam comigo no Conselho da Petrobras podem atestar - que quando soubemos que ele não havia dado todos os elementos para nós, eu fui uma pessoa que insisti para ele sair". (OBS: para "punir" Cerveró dona Dilma nomeou-o, então, para a diretoria financeira da BR Distribuidora, subsidiária da Petrobrás).
Quem melhor desmascarou Dilma Rousseff foi o humorista inglês John Oliver, quando começaram os panelaços. Vale a pena ver de novo:
Dilma e a corrupção na Petrobrás

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Youssef em Cuba


Nos termos da delação premiada de Alberto Youssef consta que "o declarante (Youssef) foi a Cuba duas vezes realizar negócios". 

Que diabo de negócio um doleiro devotado ao tráfico de divisas, especulação financeira e outras ilicitudes foi fazer em Cuba? Ainda mais em Cuba, um dos poucos países do mundo remanescentes do socialismo stalinista. No caso, segundo ele, participando de comitiva oficial de "empresários" brasileiros, sob o patrocínio do governo Lula. 

Com sua expertise o notório doleiro (já participara do escândalo do Banestado), pode ter atuado para criar, em Cuba, uma rede de negócios que ficasse fora do escrutínio do sistema financeiro internacional. Em outras palavras, com a parceria do governo cubano transformar a ilha dos irmãos Castro num paraíso fiscal. Dinheiro da corrupção, do tráfico de drogas e de armas e outras malfeitorias (por exemplo, lavagem de ativos dos países párias, como Irã e Coréia do Norte, além dos déspotas corruptos da África e, mesmo, de terroristas do Exército Islâmico), teria uma porta de entrada e de saída livre de qualquer efetivo controle. Ligando tais interesses talvez se compreenda melhor o papel que cumpriria desempenhar a articulação Hugo Chavez, Fidel Castro e os petistas, na negociata em que se constituiu a compra da refinaria de Pasadena. Tal triangulação daria sentido às ações desenvolvidas pela Petrobrás para entrar no mercado americano.

Além disso, se roubaram tanto no petrolão, como vem mostrando a Operação Lava-Jato, onde está a grana? Alguém conhece o sistema bancário cubano? Estariam eles fazendo experiência com o suporte de gente como Youssef?

De qualquer forma, é muito estranho um doleiro, que vive no submundo do crime, participar não uma, mas duas vezes, de comitiva oficial de empresários brasileiros que foram a Cuba prospectar negócios (como gosta de dizer Zé Dirceu). Ele não foi ao Caribe em nome próprio: foi convidado. Quem é o pai da criança?   

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Crise é para os fracos (Carlos Brickmann)

1) Crise é para os fracos

Inflação em alta, PIB em baixa, desemprego em alta, popularidade da presidente em baixa, som das panelas em alta, vozes do governo em baixa ─ vozes que não se manifestaram nem para defender o companheiro de partido que sempre adularam, neste momento em que é recolhido à prisão. A coisa está tão séria que Aloizio Mercadante, em geral coerente em sua arrogância, comportou-se com modéstia no Congresso, dizendo que o PSDB age de modo elegante, e admitiu até que o Plano Real conteve a inflação ─ justo ele, que liderou a oposição do PT ao Real e garantiu que aquilo não ia dar certo. Tão grave que Michel Temer, sempre cauteloso, disse que alguém tem de unir de novo o país ─ alguém cujo nome, claro, comece com M, de Michel Miguel Elias Temer Lulia. Mas a crise não é o maior problema de Dilma. O maior problema é que ela deixou de ter importância política. Convocou 80 parlamentares para um churrasco noturno ─ algo inusitado no horário ─ e lhes fez uma série de exortações. Dali os parlamentares saíram direto para um jantar normal, com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para rir dos pedidos de Dilma e combinar as próximas derrotas que lhe imporiam. Combinaram e executaram: multiplicaram o salário de várias carreiras jurídicas, com 95,3% dos votos (até de petistas), arrombando o ajuste fiscal. No dia seguinte abriram caminho para examinar as contas de Dilma. Se as rejeitarem, fica a seu critério colocar o impeachment em votação.
O problema de Dilma não é a crise. É não ser mais levada a sério.


2) Como é o nome deles?

Michel Miguel Elias Temer Lulia faz anos em 23 de setembro. É casado com Marcela Tedeschi Araújo Temer, nascida em 16 de maio. 

É bom ir decorando.


3) Fuscão vermelho

Numa estranha reportagem, sob o título Intelectuais ligados ao PT criticam prisão, aparecem apenas cinco personalidades em todo o país que defendem José Dirceu: os atores José de Abreu e Paulo Betti, os escritores Luiz Fernando Veríssimo e Fernando Morais e o produtor cinematográfico Luiz Carlos Barreto. O editor e escritor Luiz Fernando Emediato associou-se depois ao grupo. Nada de Chico Buarque, Marilena Chauí, Antônio Cândido, Frei Betto, Leonardo Boff e outros intelectuais sempre ligados a José Dirceu.


Deixaram-no só.


4) Dez anos depois

Diziam os antigos que os poetas eram adivinhos; a palavra “vate”, poeta, gerou “vaticínio”, adivinhação. Pois não é que os antigos tinham razão? No Carnaval de 2004, o Bloco do Pacotão, formado por jornalistas de Brasília, cantou a marchinha Ô, Waldomiro!, sobre o vídeo em que Waldomiro Diniz, auxiliar próximo de José Dirceu, negociava propina com o bicheiro Carlinhos Cachoeira (
https://youtu.be/dmHAPk8RI6Y). 

Dizia a letra: Ô Waldomiro, ô Waldomiro, me responda, por favor/ Se neste rolo, o bicho pega, nosso Lulinha Paz e Amor. /Ô Waldomiro, ô Waldomiro, me diga o bicho que deu/ Se o Zé Dirceu, se o Zé Dirceu, se o Zé Dirceu também comeu. /Ô Zé Dirceu, que bicho deu? Ô Zé Dirceu, eu quero o meu./ Ô Waldomiro, Ô Waldomiro, me diga o bicho que deu/ Se quem comeu, foi só o Magela, ou Zé Dirceu também comeu. 

Magela era político do PT de Brasília. O presidente da República na época era Lulinha Paz e Amor.


5) Passa, passa, Pasadena

E, por falar em passado, já acabaram as investigações sobre a compra da Refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos? Em 2005, uma empresa belga, a Astra Oil, comprou a Refinaria de Pasadena, no Texas, por US$ 42,5 milhões. Um ano depois, em 2006, a Petrobras pagou à Astra Oil US$ 360 milhões por metade da refinaria (mais uma parte do estoque de petróleo para refinar). Em 2012, a Petrobras comprou a parte da Astra Oil, os 50% restantes, gastando US$ 812 milhões. No total, pagou US$ 1,18 bilhão pela refinaria que a Astra Oil tinha comprado cerca de sete anos antes por US$ 42,5 milhões. Foi o caso Pasadena que tornou conhecido um discretíssimo diretor da Petrobras chamado Nestor Cerveró.

Mas, escândalo encobre escândalo, faz tempo que ninguém fala de Pasadena. Mas a pouco usual operação certamente ainda dará o que falar.


6) O Brasil paulistano

Preste atenção em uma série de episódios da administração do prefeito paulistano Fernando Haddad que lembram casos federais protagonizados por seu partido, o PT. Há problemas germinando: a parceria público-privada para a iluminação de São Paulo foi suspensa pelo Tribunal de Contas do Município, por irregularidades. As ciclovias, orgulho maior do prefeito, foram feitas sem concorrência pública (a desculpa, por incrível que pareça, é que não se tratava de “obras”, mas de “readequações” ─ embora as placas se referissem às obras das ciclovias). A concorrência para implantação de faixas de ônibus foi suspensa, por indícios de superfaturamento, pelo Tribunal de Contas da União (que examina o caso, já que há verbas do PAC). Alguns dias antes, o Tribunal de Contas do Município também tinha mandado suspender as obras, pelo mesmo motivo. 

Marta Suplicy, prefeita pelo PT, fez inúmeras faixas de ônibus sem suspeita de superfaturamento. Ou seja, é possível. Haddad trabalhou com Marta, mas só na área de criar taxas.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Caixa Econômica Federal e a privatização

O uso desavergonhado das instituições públicas para a campanha de reeleição de dona Dilma continua a pleno vapor. Um dos temas favoritos que a candidata oficial vem explorando é quanto ao destino dos bancos públicos (CEF, BB e BNDES). Os petistas acusam as oposições de pretenderem privatizar aquelas instituições.

Seria engraçado se não fosse ridículo, principalmente quando se ouve e assiste, dia após dia, e mesmo agora no período eleitoral, propagandas vistosas como as que o BNDES realiza, sem qualquer restrição da justiça.

O caso da Caixa, então, deve ser colocado no campo do cinismo. Em conluio com o grupo Sílvio Santos, o Banco Panamericano foi adquirido pela CEF, em mais que suspeita operação. A compra de uma instituição bancária por outra do mesmo ramo poderia ser vista como normal no mercado financeiro. Acontece que o banco de Sílvio Santos estava literalmente quebrado, fato que a auditoria estranhamente não detectou. Um técnico de contabilidade afeito a cuidar das contas de botequins perceberia, sem maiores dificuldades, a patranha que foi armada.

Os dirigentes, auditores e especialistas do PT, no entanto, não conseguiram avaliar o tamanho do rombo (é o que disseram). Pagaram, então, alguns bilhões pela sucata financeira do Panamericano. Sílvio Santos agradeceu comovido. O fato, visto agora a uma certa distância, é muito parecido, aliás, ao método que orientou a aquisição do ferro velho de Pasadena. Não se sabe, ainda, quem foi o operador da negociata (o "Paulinho da Caixa", ou o equivalente ao operador "Paulinho da Petrobrás"), que conduziu o fraudulento negócio, e de quanto foi a propina, ou comissão auferida por quem de direito (João Vaccari estaria também envolvido?). Em suma, os petistas privatizaram a secular empresa pública e, no entanto, ficam a divulgar mentiras cabeludas sobre as intenções da oposição. 

Eles temem, isso sim, que uma verdadeira auditoria futura venha a colocá-los com o traseiro de fora. Certamente, a turma da Papuda será engrossada com novos e merecidos hóspedes. Sai um entra outro, como se fora um motel de alta rotatividade.  

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Petrobrás e dona Dilma: agenda para as oposições de verdade

O jornal Estado de São Paulo publicou (03/09/2014), a entrevista que segue abaixo, com o ex-diretor da Petrobrás, professor Ildo Sauer. É de se perguntar quais seriam as razões de tão graves denúncias não estarem presentes no horário eleitoral. Dona Dilma, evidentemente, nada responderia se indagada a respeito em algum debate televisivo. As oposições deveriam, então, colocá-las no horário da propaganda eleitoral, em vez de ficarem passando filmezinhos edulcorados (que todo mundo sabe que são fantasias e pura marquetagem), destinados antes de mais nada a enricar produtores de vídeo. Se as oposições pretendem ganhar, o primeiro passo é reforçar o sentimento de rejeição a dona Dilma e seus aloprados corruptos. Quem não vota em dona Dilma de jeito nenhum já deu o primeiro passo para fazer uma escolha mais sensata. Se os tucanos temem mexer no vespeiro do mensalão, exponham simplesmente a coleção de trapaças mais notórias, principalmente aquelas em que a deplorável madame está envolvida diretamente. O carro chefe para se iniciar o embate é a Petrobrás. É incrível que se fique a debater trivialidades sobre técnicas gerenciais e orçamentárias, ou então algum não-me-toques de interesse de alguma minoria, e se deixa passar a oportunidade de mostrar a extensão da nudez de dona Dilma e afilhados. Há indagações incríveis que não têm resposta. Exemplo banal: "Como dona Dilma justifica guardar R$150 mil reais debaixo do colchão? Ela não confia no Banco do Brasil ou na Caixa Econômica Federal? Por que não depositar em caderneta de poupança, como fazem as pessoas comuns? Aliás, falando em bancos, o presidente do Banco do Brasil, também guarda enormes somas de dinheiro em sapato velho dentro do armário. Dona Dilma não acha isso, no mínimo, meio esquisito?"

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O senhor teve acesso ao resumo executivo para compra da refinaria de Pasadena feito por Cerveró?

O sumário executivo serve como notícia de que há uma pauta. Os membros do conselho e mais ainda o presidente (do órgão) têm acesso a toda documentação. E o estatuto permite a ele pedir qualquer informação adicional à diretoria ou contratar consultoria externa. Ninguém decide com base em resumo. Isso é uma piada.

A presidente Dilma Rousseff diz que se baseou em um resumo executivo "falho" para aprovar a compra da refinaria. 

Eu conheço a senhora Rousseff  há pelo menos 14 anos. Ela se notabiliza por procurar um culpado sempre que aparece um problema. Essa é a competência dela. Ela deve ter visto que havia algum problema e chutou na canela do Nestor(Nestor Cerveró, ex-diretor da Área Internacional). Como presidente do conselho, ela dizer que o resumo executivo era falho é uma piada. O estatuto diz que é privativa do conselho a decisão sobre aquisição e participações em empresas. 

Como era a relação da presidente com o ex-diretor Nestor Cerveró?

O diretor é subalterno ao conselheiro. A presidente dizer que era tutelada pelo diretor, que lhe faltou informações completas, é uma inversão completa da lógica. Mas não me surpreende. Por que a conduta histórica dela é essa, muito errática. Quem impediu que a Petrobrás aceitasse o resultado da primeira arbitragem contra a Astra, quando os belgas fizeram a put option, foi o conselho (de administração).  Isso está nos autos.

Mas todo o conselho ou só a presidente?

O presidente do conselho representa o governo dentro da empresa. Os demais conselheiros são eleitos pelos votos do majoritário, o governo, e pelos minoritários. Há um ritual de aceitação da superioridade do governo. Quando há divergência de interesses entre a empresa e a política do governo gera conflito. 

Havia conflitos?

São notórias as divergências. Primeiro, as minhas com ela quanto à conduta do setor elétrico, que virou esse desastre. Também dela com o Gabrielli (José Sergio Gabrielli, ex-presidente da estatal). O ambiente ficava pesado. Não vou falar dos outros. Havia uma nítida situação de quem representava quem lá dentro. Eu e o Estrella tínhamos convicção de que éramos apenas representantes dos interesses da Petrobrás, seus acionistas e da população brasileira. Nenhum interesse estava atrás de nós.

E dos demais diretores?

À medida que foram sendo nomeados despachantes de interesses... É uma pequena ironia. Quando fui demitido, diz o folclore que o Lula (ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva) se queixou a um deputado que eu não ajudava e que ele estava muito impressionado com a ajuda de Paulo Roberto, que “ajudava” muito. Eu não ouvi dele, ouvi de intermediários.

Como assim despachante de interesses?

O governo de coalizão do presidente Lula passou a permitir que grupos de parlamentares e partidos se reunissem para indicar dirigentes.  Não sei por que eles estavam lá; se é para fazer gestão eficaz não precisa ter apoio de partido. Não me envolvia com isso por que não achava que era pertinente. Acabei demitido por que diziam que eu não ajudava. O que seria 'ajudar', até hoje eu não sei.

Quando esse processo começou?

O ambiente na Petrobrás começou a ficar envenenado, em primeiro lugar, nessa relação conflituosa com o TCU, na definição clara dos papeis de cada um para evitar a zona de sombra que envolve recursos. Depois, quando o petróleo explodiu de preço, a Petrobrás passou a investir US$ 30 bilhões, 40 bilhões, 50 bilhões por ano. Então ela virou foco de interesse da chamada base de apoio político. Leia-se partidos e políticos. Que passaram cada vez mais a querer indicar dirigentes. O governo de coalizão do Lula aprofundou aquilo que já vinha do governo Fernando Henrique.

Você percebia essa influencia no dia a dia da empresa?

Não só sentia como me manifestei publicamente. Em dezembro de 2006 dei uma entrevista e depois recebi uma ligação do então ministro de Minas e Energia (Silas Rondeau) dizendo que o presidente da República tinha ficado injuriado e que teria consequências. Era o período de auge de divergências. Eu disse (na entrevista) que quem criticava minha gestão é quem não entendia o papel do dirigente de uma empresa pública. Aqueles que me criticam, exigindo a venda gás pela metade do custo para fazer uma usina no Ceará, como era a pressão do governo na época, na verdade queriam converter o dirigente num despachante de interesses.

O que disseram após a entrevista?

Avisaram que isso não era tolerável. Fiz isso publicamente, pois internamente não tinha mais sentido manifestar a minha convicção. Ouvi da própria Rousseff: “O Ildo não é do governo, ele é um petroleiro”. Que lambança é essa? Não tem divergência nenhuma entre defender a Petrobrás, para que funcione como empresa, e ajudar o governo, desde que o governo queira fazer o que precisa ser feito.

O senhor tinha conhecimento de irregularidades?

Quando isso acontece, acontece com muita sutileza. O despachante é bom quando faz tudo e nada transparece. Parecia que aquilo de fato era o que precisava ser feito. Examinei Pasadena com todo rigor em termos técnicos e empresariais. Agora se havia alguma coisa escondida... Cabia ao conselho fiscalizar os diretores. Não os diretores olhar com desconfiança os colegas. É evidente que tendo em vista a história anterior dos gestores, tinha que olhar com todo o rigor.

As indicações políticas influenciaram o negócio de Pasadena?

Quem pode responder são os próprios gerentes que fizeram as negociações ou uma investigação policial em torno das negociações e, eu sugiro, lá fora. Se houve algo de errado, então o Ministério Público e a Polícia Federal tinham que investigar quem fez, e não generalizar.

Há politização das investigações de Pasadena?

O que não entendo é por que abrir uma questão sete anos depois do ocorrido? Esse procedimento abre um precedente extremamente grave na gestão de empresas públicas. Nenhum dirigente sério e competente vai querer assumir em um ambiente desse tipo e vão para lá os despachantes de aluguel, os que alugam crachá para fazer qualquer coisa, como aquele que está na cadeia hoje.

É um desafio diferenciar a sua conduta à do ex-diretor Paulo Roberto Costa?


Não há nenhuma dificuldade. Quem junta os diferentes em um lugar só é esse relatório do TCU, que não examinou individualmente a responsabilidade de cada um.  Eu e o Estrella (Guilherme Estrella, ex-diretor de Exploração e Produção) estamos muito mais distantes do assunto do que o Conselho de Administração (eximido de responsabilidade pelo Tribunal). 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Por uma futura Comissão da Verdade

O Tribunal de Contas da União e o Ministério Público refrescaram a vida de dona Dilma. Apesar de ela ser a presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, livraram-na da responsabilidade pelo espantoso escândalo da refinaria de Pasadena (localizada no estado americano do Texas), considerada uma montanha de ferro velho, com valor equivalente ao de um container de bananas maduras, porém adquirida e paga ao preço de um caminhão de lingotes do mais puro ouro. Dona Dilma, a cândida, segundo as supras referidas autoridades, teria recebido uma pernada de diretores da Petrobrás, gente safada que não a informou sobre detalhes importantes do negócio. Logo ela, conhecida por "espancar" projetos para deles extrair todas as significações (conforme didaticamente esclareceu há tempos o ministro Mercadante), logo ela, insista-se, foi ser vítima do trampo urdido pela cúpula da empresa, cujos diretores foram todos nomeados pela então poderosa ministra chefe da Casa Civil e por Lula da Silva, o amigão de Hugo Chavez, de Kadafi e dos aiatolás atômicos? Difícil de acreditar. Não custa relembrar o conhecido estilo centralizador da madame, estilo este que a leva a interferir até no plano de voo do avião presidencial, configurando um quadro onde subalternos eventuais jamais encontrariam espaço para o exercício da autonomia. Comigo não, violão, é o brado da tia velha onipotente, centralizadora e obsessiva. 

Ora, em primeiro lugar, se a madame tivesse o juízo político e gerencial que propagandeia, deveria ter questionado, preliminarmente, a legitimidade de se comprar uma refinaria de petróleo justo nos Estados Unidos - o grande satã, inimigo dos povos livres, do socialismo e dos oprimidos em geral. Investir dinheiro dos pobres brasileiros para beneficiar os estadunidenses (o petismo assim denomina os americanos), convenhamos, só pode ser coisa de traíras infiltrados no governo, para denegrir a boa imagem dos patriotas excelentes que nos dirigem. Não era mais simples construir uma refinaria no Brasil? Mais simples, mais barato, mais sensato  e mais patriótico?

Outro, no entanto, foi o entendimento de dona Dilma e seu bando. A surpreendente ideia de jerico da turma era simples na sua essência: sendo o petróleo extraído nas costas marítimas brasileiras de um tipo com baixo valor de mercado, em vez de refiná-lo aqui no país, imaginou-se que seria um excelente negócio comprar uma refinaria no golfo do México, levar para lá o tal petróleo pesado, processá-lo e revender seus subprodutos no mercado americano, aí então com gordos lucros para a multinacional brasileira. Imaginaram singelamente que o Brasil já estava auto suficiente em matéria de combustíveis, e o cenário era propício para consolidar empresarialmente a Petrobrás. Difícil encontrar outro exemplo, na suposição da boa fé, para concepção tão tacanha! E lá se foram pelo mundo nossos "especialistas" em perfurar poços, como diria o Severino, expandindo os negócios tal qual uma equivalente multinacional que se espraia aqui e ali, sempre à cata de uma boa oportunidade..

Claro que tão simplória engenharia esbarrava em questões técnicas óbvias para quem quisesse ver. A refinaria requerida para processar o tal petróleo (do campo de Marlin, por exemplo, situado ao largo do litoral do Rio de Janeiro), deveria ter a configuração adequada de sua planta industrial, vale dizer, capacidade operacional de processar o petróleo pesado típico do Brasil e, por estranha coincidência, também o mesmo petróleo que é encontrado na Venezuela. Nunca se deu a devida atenção a este vínculo potencial; mas se os investimentos em Pasadena se destinavam a gerar lucros para os acionistas, a aquisição de petróleo pesado em fonte mais próxima permitiria economizar ao menos no valor do frete. 
  
Deixando de lado ponderações do tipo, a refinaria de Pasadena foi comprada pela Petrobrás (50%, inicialmente, com a outra metade nas mãos de espertos negociantes belgas, seus antigos donos), mesmo não sendo ela apta a refinar o petróleo brasileiro (nem o da Venezuela, repita-se, para valorizar a coincidência). A pátria do bolivarianismo, afinal, está ali mesmo, pertinho das instalações de refino caribenhas, muito mais próxima, aliás, que os campos de petróleo brasileiro da Petrobrás e, na eventualidade de não se dispor da matéria prima do Brasil, Pasadena poderia perfeitamente atender aos interesses dos venezuelanos (sem falar dos de Cuba).

Qualquer pessoa medianamente informada já deduziria que algo errado estava em andamento. Num país como o Brasil, tão carente de investimentos industriais de base, ainda mais num setor estratégico como o da energia, como justificar a aquisição de uma refinaria de petróleo no Texas, tecnologicamente ultrapassada e, ainda por cima, inadequada para os fins perseguidos oficialmente, pois ajustada apenas ao petróleo leve, só extraído em regiões do mundo bem localizadas? Seria imaginável a hipótese que considerasse otários os norte-americanos e, nós, os brazucas, os mais sabidos do mundo?

Dona Dilma é mineira. Ser mineiro, além das prescrições roseanas, implica também estar sempre levando manta nos negócios e, ao descobrir o engodo, em vez de botar a viola no saco, sair denunciando que foi passado para trás. Mineiro é mesmo bocó! Deve ser algum carma, similar ao dos palestinos: nunca perder a oportunidade de perder a oportunidade.  No lusco fusco das vagas lembranças de dona Dilma pairava, certamente, o período em que os mineiros iam ao Rio de Janeiro e a São Paulo para comprar bondes. Será que ela resolveu inovar, adquirindo agora refinaria caindo aos pedaços? Os velhacos e trapaceiros do mundo - de tiranetes latinos até ferozes aiatolás, passando por ditadores africanos – mas não somente eles, todos agora andam a tirar uma casquinha nos brasileiros, estes seres angelicais, tão bonzinhos como os da anedota. Até os alemães não perdem a oportunidade de levar alguma vantagem, conforme se viu recentemente na Copa do Mundo.  

Pois bem, comprada a refinaria haveriam duas saídas: ou ela continuaria a processar o tipo de petróleo para o qual foi concebida, ou deveria sofrer uma custosa adaptação para trabalhar com o petróleo pesado brasileiro ou venezuelano (foi aqui que os sócios belgas pularam fora, cientes do volume dos novos investimentos para chegar ao ponto desejado pela Petrobrás, obrigando esta a adquirir a outra metade da companhia, conforme estabelecido em contrato). Com um vasto e experiente corpo técnico - ou não era, como sempre foi considerado? - os engenheiros e economistas da Petrobrás não mediram a água e o fubá para fazer o angu desejado. Ao que parece, esconderam os cálculos que lhes foram requisitados. A buliçosa Associação dos Engenheiros da Petrobrás quedou em obsequioso silêncio. Foi tudo, como se diz, realizado nas coxas. Nada mais, nada menos que mera "conta de padeiro", conforme a pitoresca definição de notório trambiqueiro envolvido com o assunto, ao se referir a outro escândalo mais garboso ainda para os padrões do petismo: o inacreditável caso da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco (as digitais de Hugo Chavez, outra espantosa coincidência, estão na gênese desse outro empreendimento). Este caso nem é da alçada de Tribunal de Contas: é caso de polícia comum, de delegacia de furtos e roubos.

Imagine-se um criador de porcos que precise comprar um meio que permita transportá-los. Aparece, então, um vendedor que lhe oferece um micro-ônibus escolar de segunda mão para fazer o serviço. O criador de porcos compra o veículo e só então percebe que há uma inadequação entre o ônibus e a carga. Terá, portanto, que fazer modificações, adaptando o que era adequado ao transporte de gente para uma carroçaria ajustada ao deslocamento dos animais. Melhor teria sido se a aquisição feita já fosse, antes, de um caminhão próprio às suas necessidades. O aparentemente barato, no início, acabaria ficando muito mais caro para o interessado. Claro que outras metáforas menos sujas podem ser utilizadas, porém, no caso, a suína, é uma justa homenagem aos participantes da negociata. 

Da mesma maneira que o ocorrido com o mensalão – quando o Ministério Público não teve coragem de imputar a Lula sua parte naquele latifúndio – repete-se o mesmo com dona Dilma, que mandava e desmandava nas decisões fundamentais da Petrobrás, porém escapou das acusações de improbidade administrativa que claramente lhe pertencem. O prejuízo foi debitado na conta da diretoria executiva, que não tinha competência jurídica para decidir sobre a compra de Pasadena, competência esta do Conselho de Administração, conforme o estatuto da Petrobrás. No futuro que se avizinha, uma comissão da verdade, aí sim, necessária, ainda trará a lume as tramas urdidas, e as responsabilidades de cada um pelas inumeráveis patifarias dos últimos doze anos. A sorte de Lula e de dona Dilma é a amizade de ambos com Fidel Castro. Poderão fugir e pedir asilo a Cuba. Eis aí uma função de relevância que poderia ser atribuída ao ministro Joaquim Barbosa. O povo aplaudiria em delírio.