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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Versos íntimos (Augusto dos Anjos)




Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

domingo, 8 de janeiro de 2017

Versos íntimos (Augusto dos Anjos)




Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Dilma lamenta ingratidão de Anastasia


Presidente teria dito que, durante sua gestão, o ex-governador mineiro teria recebido "muita ajuda do governo federal".
Usavam  até a mesma tintura dos cabelos


Dona Dilma não deixa de ter alguma razão. A campanha de ambos foi sustentada pela denominação de "Dilmasia", quase o mesmo bordão da campanha anterior de "Lulécio". Ambas são invenção de Walfrido Mares Guia, é o que se diz em Minas. A idéia foi gostosamente encampada pelo senador Aécio Neves, notório adepto de alianças com o petismo. Basta relembrar, entre tantos outros, o patrocínio compartilhado (entre Aécio e Pimentel), na indicação de Márcio Lacerda para disputar a prefeitura de Belo Horizonte, naquele já distante ano de 2008. Lacerda era um tipo anfíbio, meio carne, meio peixe, que servira a Lula, no primeiro escalão federal, como vice-ministro de Ciro Gomes. Aliás, não custa relembrar, Lacerda estava na lista dos bonificados pelo mensalão, conforme atestou documentadamente o carequinha Marcos Valério. O versátil prefeito de BH foi, igualmente, secretário de Estado do governador Aécio. Se é para amancebar, melhor que seja com dois parceiros e, não, com um deles somente. No escurinho das madrugadas ninguém poderia ver direito qual o gato que saltava pelos telhados e se aninhava na alcova dos conchavos. 

Para que dona Dilma não se atormente com a ingratidão, e veja-a como variável existencial, segue abaixo o soneto de Augusto dos Anjos, com o melhor diagnóstico dessa fissura moral que atravessa os tempos, lugares e partícipes. Dona Dilma, no entanto, não é iniciante no assunto. Quando traiu o PDT, que a indicara para ser secretária de Minas e Energia do governo gaúcho - o governador era Olívio Dutra - não titubeou. Para não perder a boquinha, largou seu antigo partido, que devolvera os cargos que possuía devido a aliança entre eles, e se filiou ao PT. Brizola bem que disse à época que ela se vendera por um prato de lentilhas. O velho caudilho às vezes dava uma dentro. 

VERSOS ÍNTIMOS
Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

sábado, 23 de janeiro de 2016

Dilma e a língua paralítica


O blog do Augusto Nunes (hospedado no portal da VEJA) publicava, com certa regularidade nos últimos anos, os deliciosos comentários do jornalista Celso Arnaldo a respeito do Dilmês, o idioleto exclusivo de dona Dilma, a  mulher sapiens. 

As descrições apresentadas ao público chocavam e divertiam ao mesmo tempo, desde as primeiras publicações. Pareciam uma rápida chuva de granizo a bater no rosto dos leitores. Incomodava, mas não feria. Dava tempo de retomar o fôlego, após cada pequeno trecho, sem maiores dificuldades. 

Agora, porém, com a publicação do livro "Dilmês, o idioma da mulher sapiens" editado pela Record, o impacto sobre os leitores, mesmo aqueles que já conheciam a maior parte de suas passagens, produz um efeito similar ao de um tsunami japonês. É de perder o fôlego. Quem começa, não consegue parar de ler, até seu final. Celso Arnaldo deveria ter recomendado um método qualquer de abordagem, para o leitor não ficar atordoado frente ao espantoso volume de disparates contidos em uma só obra. 

A estranhíssima forma de pensar e falar de dona Dilma faz lembrar um dos sonetos de Augusto dos Anjos. Dona Dilma, com toda justiça, é a representação viva do "mulambo da língua paralítica".


A Idéia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!
Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...
Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

A idéia

A idéia – Augusto dos Anjos


De onde ela vem? De que maneira bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas
Delibera, e, depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe.
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a amarra
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica!


Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Nasceu em Cruz do Espírito Santo-PB, em 20 de abril de 1884; morreu em Leopoldina-MG, em 12 de novembro de 1914).