domingo, 26 de junho de 2011

Joaninhas vermelhas e pintadas...

As Carícias e o Iluminado, por José Angelo Gaiarsa.


"Chega de viver entre o medo e a Raiva! Se não aprendermos a viver de outro modo, poderemos acabar com a nossa espécie. É preciso começar a trocar carícias, a proporcionar prazer, a fazer com o outro todas as coisas boas que a gente tem vontade de fazer e não faz, porque "não fica bem" mostrar bons sentimentos! No nosso mundo negociante e competitivo, mostrar amor é... um mau negócio. O outro vai aproveitar, explorar, cobrar...

Chega de negociar com sentimentos e sensações. Negócio é de coisas e de dinheiro- e pronto! O pesquisador B. Skinner mostrou por A mais B que só são estáveis os condicionamentos recompensados; aqueles baseado na dor precisam ser reforçados sempre senão desaparecem. Vamos nos reforçar positivamente. É o jeito - o único jeito - de começarmos um novo tipo de convívio social, uma nova estrutura, um mundo melhor. Freud ajudou a atrapalhar mostrando o quanto nós escondemos de ruim; mas é fácil ver que nós escondemos também tudo que é bom em nós, a ternura, o encantamento, o agrado em ver, em acariciar, em cooperar, a gentileza, a alegria, o romantismo, a poesia, sobretudo o brincar - com o outro. Tudo tem que ser sério, respeitável, comedido - fúnebre, chato, restritivo, contido... Há mais pontos sensíveis em nosso corpo do que as estrelas num céu invernal.


"Desejo", do latim de-sid-erio, provém da raiz "sid", da língua zenda, significando ESTRELA, como se vê em sideral, relativo às estrelas. Seguir o desejo é seguir a estrela - estar orientado, saber para onde vai, conhecer a direção... "Gente é para brilhar", diz mestre Caetano. Gente é, demonstravelmente, a maior maravilha, o maior playground e a mais complexa máquina neuromecânica do Universo conhecido. Diz o Psicanalista que todos nós sofremos de mania de grandeza, de onipotência. A mim parece que sofremos de mania de pequenez. Qual o homem que se assume em toda a sua grandeza natural? "Quem sou eu primo..."Em vez de admirar, nós invejamos - por não termos coragem de fazer o que a nossa estrela determina. O Medo - eis o inimigo. O medo, principalmente do outro, que observa atentamente tudo o que fazemos - sempre pronto a criticar, a condenar, a pôr restrições - porque fazemos diferente dele. Só por isso. Nossa diferença diz para ele que sua mesmice não é necessária. Que ele também pode tentar se livre - seguindo sua estrela. Que sua prisão não tem paredes de pedra, nem correntes de ferro. Como a de Branca de Neve, sua prisão é de cristal - invisível. Só existe na sua cabeça. Mas sua cabeça contém - é preciso que se diga - todos os outros que, de dentro dele, o observam, criticam, comentam - às vezes até elogiam! Por que vivemos fazendo isso uns com os outros - vigiando-nos e obrigando-nos - todos contra todos - a ficar bonzinhos dentro das regrinhas do bem-comportado - pequenos, pequenos. Sofremos de megalomania porque no palco social obrigamo-nos a ser, todos, anões. Ai de quem se sobressai, fazendo de repente o que lhe deu na cabeça. Fogueira para ele! Ou você pensa que a fogueira só existiu na Idade Média?

Nós nos obrigamos a ser - todos - pequenos, insignificantes, inaparentes, "normais"- normopatas diz melhor; oligopatas - apesar do grego- melhor ainda. Oligotímicos - sentimentos pequenos - é o ideal... Quem é o iluminado? No seu tempo, é sempre um louco delirante que faz tudo diferente de todos. Ele sofre, principalmente, de um alto senso de dignidade humana - o que o torna insuportável para todos os próximos, que são indignos. Ele sofre, depois, de uma completa cegueira em relação à "realidade"(convencional), que ele não respeita nem um pouco. Ama desbragadamente - o sem vergonha. Comporta-se como se as pessoas merecessem confiança, como se todos fossem bons, como se toda criatura fosse amável, linda, admirável. Assim ele vai deixando um rastro de luz por onde quer que passe. Porque se encanta, porque se apaixona, porque abraça com calor e com amor, porque sorri e é feliz. Como pode, esse louco? Como pode estar - e viver! - sempre tão fora da realidade - que é sombria, ameaçadora; como ignorar que os outros - sempre os outros - são desconfiados, desonestos, mesquinhos, exploradores, prepotentes, fingidos, traiçoeiros, hipócritas... Ah! Os outros... (Fossem todos como eu, tão bem-comportados, tão educados, tão finos de sentimentos...) O que não se compreende é como há tanta maldade num mundo feito somente de gente que se considera tão boa. Deveras, não se compreende. Menos ainda se compreende que de tantas famílias perfeitas - a família de cada um é sempre ótima - acabe acontecendo um mundo tão infernalmente péssimo. Ah! Os outros... Se eles não fossem tão maus - como seria bom...

Proponho um tema para meditação profunda; é a lição mais fundamental de toda a Psicologia Dinâmica: Só sabemos fazer o que foi feito conosco. Só conseguimos tratar bem os demais se fomos bem tratados. Só sabemos nos tratar bem se fomos bem tratados. Se só fomos ignorados, só sabemos ignorar. Se só fomos odiados, só sabemos odiar. Se fomos maltratados, só sabemos maltratar. Não há como fugir desta engrenagem de aço: ninguém é feliz sozinho. Ou o mundo melhora para todos ou ele acaba. Amar o próximo não é mais idealismo "místico"de alguns. Ou aprendemos a nos acariciar ou liquidaremos com a nossa espécie. Ou aprendemos a nos tratar bem - a nos acariciar - ou nos destruiremos. Carícias - a própria palavra é bonita. Carícias ... Olhar de encantamento descobrindo a divindade do outro - meu espelho! Carícias... Envolvência ( quem não se envolve não se desenvolve...), ondulações, admiração, felicidade, alegria em nós - eu e os outros. Energia poderosa na ação comum, na co-operação. Na co-munhão. Só a União faz a força - sinto muito, mas as verdades banais de todos os tempos são verdadeiras - e seria bom se a gente tentasse FAZER o que essas verdades nos sugerem, em vez de críticos e céticos e pessimistas, encolhermos os ombros e deixarmos que a espécie continue, cega, caminhando em velocidade uniformemente acelerada para o Buraco Negro da aniquilação. Nunca se pôde dizer, como hoje: ou nos salvamos - todos juntos - o nos danamos - todos juntos".

Desonestidade é cultura (João Ubaldo Ribeiro)

(Publicado em O Estado de São Paulo, em 26-06-2011)

Mais um impecável artigo de João Ubaldo Ribeiro.

"Sempre se tem cuidado com generalizações, para não atingir os que não se enquadram nelas. Às vezes o sujeito odeia indiscriminadamente toda uma categoria, mas, ao falar nela e, principalmente, ao escrever, abre lugar para as exceções, os “não-são-todos” e ressalvas hipócritas sortidas. Outros recorrem a gracinhas, como na frase do antigamente famoso escritor Pitigrilli, segundo a qual “as únicas mulheres sérias são minha mãe e a mãe do leitor”. No caso presente, decidi que as generalizações feitas hoje excluem todos os leitores, a não ser, evidentemente, os que desejem incluir-se – longe de mim contribuir para aumentar nossa tão falada legião de excluídos.

Antigamente, era muito comum ler ensaios e artigos escritos por brasileiros em que nós éramos tratados na terceira pessoa: o brasileiro é assim ou assado, gosta disso e não gosta daquilo. Em relação a maus hábitos então, a terceira pessoa era a única empregada. O autor do artigo escrevia como se ele mesmo não fizesse parte do povo cuja conduta lamentava. Até mesmo nas conversas de botequim, durante as habituais análises da conjuntura nacional, o comum era (ainda é um pouco, acho que o boteco é mais conservador que a academia) o brasileiro ser descrito como uma espécie de ser à parte, um fenômeno do qual éramos apenas espectadores ou vítimas. Eu não. Talvez, há muito tempo, eu tenha escrito dessa forma, mas devo ter logo compreendido sua falsidade e passei a me ver como parte da realidade criticada. Individualmente, posso não fazer muitas coisas que outros fazem, mas não serei arrogante ou pretensioso, vendo os brasileiros como “eles”. Não são “eles”, somos nós.

Creio que, feita a exceção dos leitores e esclarecido que estou falando em nós e não em inexistentes “eles”, posso expor a opinião de que fica cada vez mais difícil não reconhecer, vamos e venhamos, que somos um povo desonesto. Não conheço as estatísticas de países comparáveis ao nosso e, além disso, nossas estatísticas são muito pouco dignas de confiança. Mas não estou preparando uma tese de mestrado sobre o problema e não tenho obrigação metodológica nenhuma, a não ser a de não falsear intencionalmente os fatos a que aludo e que vem das informações e impressões a que praticamente todos nós estamos expostos.

Claro, choverão explicações para a desonestidade que vemos, principalmente nos tempos que atravessamos, em que a impressão que se tem é de que ninguém é mais culpado ou responsável por nada. Há sempre fatores exógenos que determinaram uma ação desonesta ou delituosa. E, de fato, se é assim, não se pode fazer nada quanto à má conduta, a não ser dedicar todo o tempo a combater suas “causas”. Essas causas são todas discutíveis e mais ainda o determinismo de quem as invoca, que praticamente exclui a responsabilidade individual. E, causa ou não causa, não se pode deixar de observar como, além de desonestos, ficamos cínicos e apáticos. Contanto que algo não nos atinja diretamente, pior para quem foi atingido.

Ninguém se espanta ou discute, quando se fala que determinado político é ladrão. Já nos acostumamos, faz parte de nossa realidade, não tem jeito. Alguns desses ladrões são até simpáticos e tratados de uma forma que não vemos como cúmplice, mas como, talvez, brasileiramente afetuosa. Votamos nele e perdoamos alegremente seus pecados, pois, afinal, ele rouba, mas tem suas qualidades. E quem não rouba? Por que todo mundo já se acostumou a que, depois de uma carreira política de uns dez anos, todos estão mais gordinhos e com o patrimônio às vezes consideravelmente ampliado? Como é que isso acontece rotineiramente com prefeitos, vereadores, deputados, senadores, governadores, ministros e quem mais ocupe cargo público?

Os políticos, já dissemos eu e outros, não são marcianos, não vieram de outra galáxia. São como nós, têm a mesma história comum, vieram, enfim, do mesmo lugar que os outros brasileiros. Por conseguinte, somos nós. Assim como o policial safado que toma dinheiro para não multar – safado ele que toma, safados nós, que damos. Assim como o parlamentar que, ao empossar-se, cobre-se de privilégios nababescos, sem comparação a país algum.

Em todos os órgãos públicos, ao que parece aos olhos já entorpecidos dos que leem ou assistem às notícias, se desencavam, todo dia, escândalos de corrupção, prevaricação, desvio de verbas, estelionato, tráfico de influência, negligência criminosa e o que mais se possa imaginar de trambique ou falcatrua. E em seguida assistimos à ridícula, com perdão da má palavra, microprisão até de “suspeitos” confessos ou flagrados. A esse ritual da microprisão (ou nanoprisão, talvez, considerando a duração de algumas delas) segue-se o ritual de soltura, até mesmo de “suspeitos” confessos ou flagrados. E que fim levam esses inquéritos e processos ninguém sabe, até porque tanto abundam que sufocam a memória e desafiam a enumeração.

Manda a experiência achar que não levam fim nenhum, fica tudo por isso mesmo, porque faz parte do padrão com que nos domesticaram (taí, povo domesticado, gostei, somos também um povo muito bem domesticado) saber que poderoso nenhum vai em cana. E é claro que, por mais que negue isso com lindas manifestações de intenção e garantias de sigilo (como se aqui, de contas bancárias de caseiros a declarações de imposto de renda, algo do interesse de quem pode ficasse mesmo sigiloso), essa ideia de esconder os preços das obras da Copa tem toda a pinta de que é mais uma armação para meter a mão em mais dinheiro, com mais tranquilidade. Ou seja, é para roubar mesmo e não há o que fazer, tanto assim que não fazemos. Acho que é uma questão cultural, nós somos desse jeito mesmo, ladravazes por formação e tradição".

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Cláudio Moura Castro - Entrevista ao Portal SESC-SP

“Carioca, nascido em 1938, Cláudio de Moura Castro é formado em economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e, embora entre seus muitos títulos acumule o de ph.D. em economia pela Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos, encontrou na educação seu maior interesse. Atualmente, com a autoridade de quem se dedicou por 30 anos ao assunto, Moura Castro é uma das contundentes vozes que se levantam contra as políticas públicas brasileiras na área e que têm perpassado os governos - a seu ver, sem mudanças - desde o final da ditadura militar. "A educação nunca foi agenda de ninguém no Brasil, nem da esquerda nem da direita", afirma, categórico, nesta entrevista que concedeu à Revista E em passagem por São Paulo. Autor de mais de 30 livros, entre eles Educação Brasileira (Editora Rocco, 1994), Crônicas de uma educação vacilante, (Editora Rocco, 2005) e 200 artigos para publicações científicas, o entrevistado deste mês já foi chefe da Divisão de Políticas de Formação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, na Suíça, economista sênior de recursos humanos do Banco Mundial, e chefe da Divisão de Programas Sociais no Banco Internacional do Desenvolvimento (BID). Atualmente é presidente do Conselho Consultivo das Faculdades Integradas Pitágoras, em Montes Claros, Minas Gerais, e articulista da revista Veja.

1) Pode-se dizer que a educação no Brasil deixou de ser uma "agenda da esquerda" e hoje é um bem da sociedade?
Nunca foi agenda da esquerda, muito menos agora, quando nós temos um governo cuja única popularidade é com os pouco educados. Então, de uma perspectiva totalmente cínica, este governo é o que menos tem interesse em educação básica de qualidade. Na verdade, educação nunca foi agenda de ninguém no Brasil, nem da esquerda nem da direita. A educação no Brasil é herdeira da de Portugal. E Portugal é um país cronicamente atrasado em termos de educação. Ao contrário, por exemplo, de como é na África do Sul, na Austrália, nos Estados Unidos e na Nova Zelândia, que são herdeiros da educação da Inglaterra e da Holanda. Em 1900, dois terços da população lusitana eram analfabetos e mais de 80% da brasileira também eram. Até recentemente, as taxas de analfabetismo de Portugal eram muito parecidas com as do Brasil e continuam parecidas. Para ter uma idéia, inaugurou-se em Santo Domingo [capital da República Dominicana], na primeira metade do século 16, a primeira universidade do continente. Só em 1808, quando dom João 6º veio para a colônia, é que foi aberto o primeiro curso superior do Brasil, e a educação vem se arrastando até hoje. O que os argentinos e os uruguaios fizeram, a partir de meados do século 19, nós começamos fazer na segunda metade do século 20. Quer dizer, temos um atraso histórico de 100 anos em relação a nossos vizinhos. Portanto, educação sempre é assunto de discurso. E, em geral, se faz discurso sobre o que não se quer fazer.

2) No entanto, políticos conservadores viam a educação mais como um instrumento de revolução que de formação, não?
Paulo Freire, por exemplo, durante a ditadura militar, era considerado um perigoso agitador político por causa de seu método de alfabetização. Porque ele fazia, ao mesmo tempo, agitação política e alfabetização. O problema não era a alfabetização, eram os discursos de temas políticos. E seus seguidores usavam os motivos políticos para alfabetizar e para criar núcleos de resistência ao governo. Paulo Freire estava interessado na alfabetização de adultos. Nosso grande problema é a alfabetização de crianças - nem ele nem a esquerda se interessavam por isso. O governo militar criou, brilhantemente, uma grande rede de universidades federais, dando continuidade ao que havia sido começado da década de 50. Isso foi fundamental para a pesquisa e para a pós-graduação, que são as únicas enormes realizações do Brasil, da perspectiva internacional. Portanto, a primeira grande conquista na área foi consolidada no governo militar. A esquerda não tem o menor interesse pela educação básica de qualidade, ela nunca se mobilizou para isso. Agora, nós vemos que, com mais de três anos de governo do PT, nenhum ministro, com a possível exceção do Fernando Haddad [ministro da Educação], disse que a educação de qualidade para todos é prioridade.

3) De onde vem esse descompromisso?
De Portugal. A gente herda a cultura do país colonizador. Nos Estados Unidos, por exemplo, se come mal porque na Inglaterra se comia mal - e veja que a independência norte-americana foi em 1776. Ou seja, esses traços culturais ficam. Na biografia do Roberto Marinho, feita por Pedro Bial [Roberto Marinho, Jorge Zahar Editor, 2004], é mostrado que nos melhores jornais brasileiros, nas décadas de 10 e 20, os redatores eram portugueses e os assuntos tratavam mais de Portugal do que do Brasil. Isso mostra nossa ausência da educação, que se arrasta pelos séculos afora. É só na segunda metade do século 20 que se tem um salto. As raízes estão no passado, não no presente. De certa forma, os brasileiros introjetaram a idéia de que podemos ser o país que mais cresce no mundo, apesar de termos uma educação muito ruim. Isso se deve ao enorme crescimento do Brasil a partir de 1950, quando fomos o país de maior crescimento, mesmo sem investimentos em educação. Mas hoje isso não é mais possível, porque a tecnologia mudou. O crescimento do país é medíocre e mortiço, mas no inconsciente da população ainda está a imagem de um país que cresceu sem educação.

4) O que é preciso fazer para a gente mudar essa proporção? Porque, pelo que parece, a pirâmide está errada.
A pirâmide esteve errada por muito tempo, agora está quase certa. Por muito tempo havia muita gente no ensino superior, em relação ao fundamental e ao médio. Ou seja, havia uma hipertrofia da cabeça. Isso, de certa maneira, foi eliminado na década de 90. O grande problema é que por trás da pirâmide se esconde uma educação muito ruim. O Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Alunos] mostrou uma coisa que ninguém esperava: que nossa elite, quando lê um texto prático, entende menos o conteúdo do que a classe operária da Europa. Vou responder indiretamente o que tem de errado em nossa educação e, portanto, onde estão os pontos de mudança. Em 2001, nesse teste de compreensão de leitura e matemática, a Alemanha ficou em 21º lugar, um pouco abaixo da média. A crise na educação alemã, provocada por esse resultado, está longe de ter sido superada. Os alemães estão brigando, mudando leis e fazendo coisas de 2001 para cá. No Brasil, que ficou em último lugar na avaliação, ninguém se preocupou. Tem alguma coisa errada com isso, como pode ninguém se importar? O grande problema da educação brasileira é medido pelo fato de que o último lugar no Pisa não chamou a atenção, não criou uma revolução nem uma CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito]. Por que não se fez uma CPI? É muito mais grave do que o mensalão, é o futuro do país! A sociedade brasileira não se convenceu de que precisamos de uma educação de qualidade.

5) E no momento o senhor acha que educação não é algo prioritário para a sociedade?
Não, de jeito nenhum! A sociedade está achando a educação boa, vemos isso na pesquisa de opinião. Alguma vez já se ouviu que ar e água são prioritários? Só é prioritário o que está para acabar. Quer dizer, em uma sociedade tranqüila, segurança não é prioridade. Porém, principalmente em cidades grandes, a segurança é prioridade, pois não se tem ou se tem pouca. Quando você viu uma greve de pais reclamando contra a qualidade da educação? Então, significa que não é prioridade. Eu até escrevi um ensaio comentando que as avós coreanas vão para a janela da escola ver se os netos estão prestando atenção na aula. O resultado é que esses países asiáticos estão entre os melhores no Pisa, o Brasil está em último. Qual pai brasileiro desliga a televisão para o filho estudar, e vigia a criança para ver se fez o dever? Isso é essencial. A educação reflete a expectativa da sociedade. E a expectativa de nossa sociedade é em relação à existência de vaga na escola para o filho. Agora, o que acontece dentro e depois da escola é uma caixa-preta que ninguém quer saber.

6) Os próprios pais não têm parâmetros para poder cobrar ações na área?
Exatamente, não percebem que a educação é ruim. Eles próprios não têm bom nível de leitura, falta-lhes padrão do que seja uma boa educação, não dão conta de que uma das funções da escola é disciplinar o aluno. Eles acabam não cobrando e também não ajudam, tanto que é pequeno o envolvimento dos pais na vida educativa dos estudantes. Por exemplo, nos países do sudoeste da Ásia, que são excepcionais em educação, os pais têm uma presença enorme na educação dos filhos. Nesses países, a pressão sobre as crianças é gigantesca. No Japão, os pais vão para a escola para poder ajudar os filhos. Os imigrantes asiáticos analfabetos, de países como o Laos e o Vietnã, que vão para os Estados Unidos ficam reunidos com os filhos quando chegam do trabalho e as crianças da escola. Mesmo que não saibam ler, ficam vigiando os filhos.

7) Como o senhor acha que a gente pode mudar esse quadro?
Eu digo sempre que a nossa educação não está em crise, que nós precisamos criar uma crise na nossa educação. É uma frase de efeito, mas no fundo é verdade. Ou seja, todo mundo quer vaga e todos têm, ninguém quer qualidade e ninguém tem. A educação está em perfeito equilíbrio. Então, precisamos de uma crise na educação, na qual todos fiquem descontentes e insatisfeitos, e rejeitem o que a escola está oferecendo, porque sem isso a educação não vai melhorar.

8) Existem exemplos famosos de que, quando o poder público se mobiliza, o país consegue sobressair em determinadas áreas. Um desses exemplos é a Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), uma das maiores do mundo. Como isso poderia servir de exemplo para a educação?
Nós sempre relemos a história de acordo com a manchete do dia, com a visão que temos hoje. A primeira conclusão interessante é que os dois grandes experimentos de educação superior no Brasil tiveram uma participação gigantesca de estrangeiros. A USP é uma iniciativa brasileira, de um grupo paulista, entre a década de 20 e 30, mas que se encheu de franceses e alemães. E o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), que é uma criação do [marechal Casimiro] Montenegro, um oficial da aeronáutica que era idealista, fazedor e que arrostou todo mundo, ficou abarrotado de norte-americanos - tanto que as reuniões de congregação do ITA eram em inglês, porque os professores não falavam português. Ou seja, não se pode ser xenófobo. Os chineses recebem todos os ph.D.s [sigla do latim Philophiae Doctor, ou doutor em filosofia, mas hoje é usada para designar os que têm alta graduação acadêmica, como um doutorado] que querem ir para lá. Entre 1930 e 1940, a Inglaterra era o país da Europa mais atrasado em matéria de design. Aí, foi um bando de gente da Bauhaus [famosa escola artística fundada na Alemanha em 1919], um bando de alemães, franceses e belgas, e fizeram a revolução do design inglês. Por isso, hoje a Inglaterra é considerada o primeiro país em design do mundo. Portanto, a primeira lição: precisamos dos estrangeiros. Dizer que nosso povo é ótimo e que nós não precisamos dos outros é conversa de medíocre. Se não somos bons, buscamos os que são. Se formos mais ou menos ou quase bons, buscamos os melhores. Depois disso vem a liderança, como foi o caso do Montenegro, que ficava lá batalhando para fazer as coisas funcionarem. A terceira coisa é o tempo de maturação, as instituições levam tempo para se desenvolver. Zeferino Vaz [médico, foi presidente da Comissão Organizadora da Universidade Estadual de Campinas, e posteriormente reitor da Unicamp, de 1966 a 1978] me contou que quando fez a Unicamp não tinha um tostão. Ele ia às 8 horas da manhã ao gabinete do governador, sem hora marcada, sentava na sala de espera e dizia que sabia que o governador estava muito ocupado, mas que esperaria ele ter uma folguinha. E Vaz ficava ali. Passava o dia inteiro sentado na sala de espera, sem reclamar e sem dar uma palavra. Com poucos dias o governador não agüentou, a secretária sempre dizia que o Zeferino estava lá. O resultado foi que o governador não resistiu e Zeferino Vaz ganhou a Unicamp. Os líderes são insistentes e obsessivos.

9) Em relação ao ensino fundamental, a universalização está quase completa. E o próximo passo é melhorar a qualidade da educação. Como fazer isso, já que, na hora dos testes, o quadro de professores mostra uma enorme deficiência?
Nós temos uma casa para ser construída, e em vez de construí-la, estamos soltando foguete para comemorar. A educação básica não precisa de computador, não precisa de grandes teorias pedagógicas. Nenhum país de primeiro mundo tem nos primeiros quatro anos, que são os mais críticos, nada além de um quadro-negro, giz, um bom professor que saiba ensinar, um livro didático que seja utilizado todos os dias em aula e disciplina rígida em sala. É assim que todos os países do mundo conseguiram resultados excelentes. Já, no Brasil, ficamos discutindo teoria pedagógica, discutindo a teoria do defunto, o defunto que escreveu tal livro e que contradiz o outro defunto, que escreveu outra coisa. Tudo são grandes teorias. Os países que deram certo não usaram grandes teorias e até hoje não usam. Usam o que se aprendeu. Há uma cartilha para aprender a ler "vovô viu a uva", depois o conteúdo começa a fazer sentido etc. Por volta de dez anos atrás, a Inglaterra, que navegava nessa geléia geral de construtivismos e métodos globais, disse chega. Agora tem programas e alternativas de livros, e o Ministério da Educação Central de Londres diz como o tempo dos alunos é usado durante cada aula e o que vai ser ensinado. Com isso, a educação na Inglaterra deu um grande salto. Deve-se fazer o arroz-com-feijão, os alunos devem, primeiramente, aprender a tabuada e o alfabeto. Nas escolas da Finlândia, que é o país que ficou em primeiro lugar no Pisa, não existem teorias mirabolantes. Lá eles têm professores que aprenderam a ensinar e que seguem um bom livro. Minha filha estudou em uma escola francesa, na Suíça, em que os alunos não podiam conversar durante a aula e também não podiam se mexer na cadeira. Nenhum país de primeira linha no Pisa perde tempo discutindo sobre os fogos de artifício das teorias, nem oferece na sala de aula esse grau de liberdade que os educadores brasileiros acham que se deve oferecer.

10) O senhor acha benéfica a quantidade de faculdades e universidades particulares? A qualidade não será comprometida?
Vamos distinguir três tipos de escola. Existem aquelas em que o mau desempenho do aluno tem conseqüências sobre o usuário, por exemplo, o curso de medicina. Quer dizer, se a escola de medicina for ruim, será formado um tanto de açougueiros que vão matar as pessoas. O segundo tipo de escola são aquelas que têm dois produtos: a educação geral e a educação profissional. Esse tipo corresponde à maioria das escolas. No caso do direito, existe um controle de qualidade que é o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Ou seja, o exame assegura que o advogado tem o mínimo de competência profissional, isso é totalmente diferente de formar bacharéis em direito. O que eu costumo dizer é que o curso de direito também forma advogados. Porque é um curso de cultura geral, grande parte dos deputados norte-americanos, de ex-presidentes norte-americanos e de políticos franceses são, ou foram, advogados. É uma boa disciplina mental. Mas nós não estamos falando de advogados e médicos, estamos falando de pessoas que têm quatro anos a mais de educação do que quem apenas fez até o ensino médio. Qualquer pessoa que passa esse tempo estudando, em vez de ver novela e ficar tomando chope, só pode ganhar com isso. E nós temos dados claros disso. Essas pessoas amadurecem intelectualmente, aprendem a pensar, trabalhar, ler e escrever melhor. Nós sempre devemos perguntar o que podemos fazer para estimular a qualidade do ensino que está por aí. Não podemos abrir mão dessa questão. Temos de deixar a demanda expandir, com algumas exigências de qualidade. Essas escolas superiores que estão abrindo por aí se beneficiam porque o Brasil está cheio de mestres e doutores. O Provão [Exame Nacional de Cursos, ENC] mostrou que os cursos novos, que já esperam uma competição maior, ficam acima da média. É falsa a idéia de degradação do ensino. Se todo ano se coloca gente melhor, como a média pode estar caindo? O que deve existir são filtros para as profissões que são críticas, como enfermagem, medicina. O direito já tem a OAB. Eu penso que quem quiser abrir uma escola de medicina pode, mas os critérios de abertura e o controle do produto no fim da linha devem ser muito mais rígidos. Nos Estados Unidos, por exemplo, quando alguém se forma em medicina, tem de fazer um exame para praticar. Como o número de médicos não é tão grande, pode-se ter um exame muito mais profundo e exigente. Quanto aos outros cursos, o melhor é deixar crescer e tentar criar estímulos para a qualidade, como o Provão.

11) Como o senhor vê essa questão das cotas sociais do governo atual?
A cota só incide sobre o sobrevivente e incide com o mecanismo errado. Quer dizer, dois terços dos que entram no 1º ano do ensino básico são da classe baixa, desse total apenas 10% entram na universidade. Então, de cada quatro ou cinco alunos pobres que entraram no 1º ano do primário, só um chega ao final do ensino médio. Por isso, essa cota afeta um entre quatro pobres, ela não é democrática. Seria mais democrático se melhorassem a qualidade do ensino inicial, assim aumentaria o número de estudantes que chegam à universidade. Os pobres estão naufragando a partir da 4ª série, eles param de estudar, não porque tenham de trabalhar, mas porque sentem que não estão aprendendo nada. A cota só entra em cena depois que a grande poda foi feita. Mais ainda, ela pega sobreviventes que tendem a ser mais fracos pelo fato de ter cursado escolas piores. Há duas opções: uma é facilitar o ingresso do estudante no ensino superior, a outra é treiná-lo para entrar com seus próprios méritos. Portanto, essa segunda opção é muito melhor. O ensino superior não é obrigatório em nenhum lugar do mundo. Dois terços dos alunos da Universidade de Santa Maria [no Rio Grande do Sul], que é federal, estudaram em escolas públicas. Isso porque eles ajudam as escolas a melhorar a qualidade, esse é o papel da universidade. Facilitar o ingresso é sempre ruim, mas mesmo assim há maneiras melhores e piores de fazer isso. A Unicamp fez do melhor jeito, deu bônus de pontuação no vestibular. Isso significa que, se o vestibular tem um máximo de 800 pontos e eles dão 30 pontos de bônus, o aluno de escola pública, que quase passou, entrará na universidade. Devido a isso, o número de alunos de escolas públicas aumentará muito, sem ser sacrificada a qualidade do ensino. Como ele é de classe baixa e conseguiu obter um resultado regular no vestibular, já é um herói, um vencedor. Então, na faculdade ele renderá, pelo menos, o mesmo tanto que o que ele expulsou.”

Darcy Ribeiro

(Publicado em 26 de fevereiro de 2010)


Em 17 de fevereiro de 1997 o mundo ficou órfão de Darcy Ribeiro. São, portanto, longos treze anos sem a presença física do mais audacioso dos educadores brasileiros. Darcy pensava grande e estimulava os outros a fazerem o mesmo (nem sempre com sucesso, diga-se a bem da verdade). Ele, porém, insistia em seu quixotismo, ancorado na mais profunda convicção que os homens podem ser melhorados. Darcy tinha clareza quanto ao instrumento para tal: a educação, em todos os seus níveis, do elementar ao superior. Discípulo fiel de Anísio Teixeira – a quem considerava seu mestre – foi um crítico feroz da desonestidade da escola oferecida ao homem comum do povo – essa triste, ineficaz e caríssima escola de turnos. Escola esta que, segundo ele, produzia mais analfabetos que alfabetizados, num paradoxo inaceitável para os verdadeiros patriotas. As diferentes elites, claro, sempre tiveram o cuidado de construir escolas para os seus ou, como costumam dizer, os “nossos” filhos; para os filhos dos miseráveis, entretanto, bastava qualquer arremedo de projeto educacional, pois, afinal, era uma escola para “eles”, para os “outros”, onde os felizes bem nascidos nunca iriam comparecer. Algo do tipo: para quem é, bacalhau basta. Ou para plagiar o título de conhecida canção brega: tá ruim mas tá bom! Estão aí, para os que têm olhos para ver, as denominadas "escola plural", "escola inclusiva", "escola candanga" e outras mais com adjetivos exóticos.
Critica-se o analfabetismo. Ele, no entanto, não é um mal em si. Em épocas já passadas, onde a cultura rústica ajustava o homem aos desafios do viver, não havia maiores problemas em não dominar a cultura letrada. O camponês analfabeto, por exemplo, sabia e podia sobreviver à perfeição no seu ambiente social e cultural. Nos dias de hoje, porém, quando o estilo de vida predominante é urbano, o conhecimento escolar se torna uma categoria central na existência de todos. Não compartilhar dos benefícios civilizatórios trazidos pelo domínio da leitura e da escrita é condenar os que dessas habilidades se encontram privados a viverem à margem de tudo como verdadeiros párias. Pois bem, os resultados da má obra de mesquinhas e sucessivas gerações estão aí, à vista de todos: dez milhões de iletrados adultos e dezenas de milhões de analfabetos funcionais. Eles são agravados pelos desatinos do mandarinato caboclo (e seus acólitos intelectualizados), que preferem adotar políticas compensatórias demagógicas, a propor e executar políticas educacionais universais decentes, como se faz e se fez em todo lugar do mundo. Um dinheirinho aqui, um favorzinho acolá, uma vaga comprada na rede privada superior para beneficiar, mais os "traficantes do conhecimento" que os supostos beneficiários, e chega-se à imagem que vai perpetuar a passagem pelo governo dos responsáveis pelos destinos atuais do povo brasileiro: um presidente da república, do alto de sua majestade, inaugurando uma ou outra creche, ou máquina de cortar salame, nas vastas periferias urbanas do país. Darcy sonhou mais alto!

Os lucros dos banqueiros no Brasil

(Deu no Correio Braziliense, em 19/04/2010)

Com Lula, bancos lucram R$ 127, 8 bi


"Sempre que questionado sobre os ganhos espetaculares acumulados pelo sistema financeiro ao longo de seu governo, o presidente Lula sai-se com essa: “Quero mais é que os bancos deem lucro”.

Pois dados consolidados pelo Banco Central, referentes aos sete anos da administração do petista, mostram que as 100 maiores instituições financeiras do país não se fizeram de rogadas. Acumularam, no período, R$ 127,8 bilhões em lucros, o equivalente a 2,3 vezes os R$ 55,2 bilhões gastos pelo Ministério do Desenvolvimento Social por meio do Bolsa Família, programa que ajuda a melhorar as condições de vida de 46 milhões de brasileiros.

Nem mesmo o estrago provocado pela crise mundial foi suficiente para inibir o apetite dos bancos. No ano passado, também segundo o BC, as 100 maiores instituições engordaram o seus cofres com ganhos de R$ 23,2 bilhões, resultado que superou em 26% os retornos de 2008 (R$ 18,4 bilhões). Isso, apesar de o Produto Interno Bruto (PIB), o total de riquezas produzidas pelo Brasil, ter encolhido 0,2% na mesma comparação.

Quem acompanha o mercado de perto avisa: o último ano da gestão Lula será fechado com pompa pelo sistema bancário: os lucros serão os maiores da história, o que poderá ser comprovado quando saírem os números do primeiro trimestre."
OBSERVAÇÃO:
Fernando Pessoa escreveu "O banqueiro anarquista". Está nas suas Obras Complestas (Contos de Aprendiz). Genial e profético, como sempre, o grande poeta português.

Economia e educação

(Artigo do professor OSCAR SANTIAGO RODRIGUES)


1) Resumo

O texto aborda as relações da Economia e Educação na Sociedade Moderna, estabelecendo as relações dos gastos em educação com o investimento humano e o avanço tecnológico, econômico e os problemas sociais e políticos. As mudanças do conceito mais abstrato de capital humano para a sociedade do conhecimento e as peculiaridades da formação politécnica; os progressos técnicos e científicos que levam a uma mudança na formação profissional, trabalhando como base uma nova visão educacional. Finalmente, ressalva a importância das características profissionais na formação intelectual e profissional para o terceiro milênio.

2) Introdução

Poucos assuntos são mais intensamente discutidos do que o papel da Educação na Sociedade Moderna e em particular sua conexão com o propósito econômico. Todas as análises da posição competitiva dos países no mundo econômico focalizam a importância de uma força de trabalho instruída e ocupacionalmente qualificada. O ponto mais enfatizado nas referências é o dos gastos em educação com investimento humano (Teoria do Capital Humano). Os investimentos visam a um maior retorno econômico, e a educação passa a ser um aspecto ou, mais precisamente, um componente da política econômica global. Assim, não se tem dúvida de que a educação serve ao propósito econômico. Entretanto, é necessário observar que muitos setores funcionam com trabalhadores semi-analfabetos, porque têm disposição e disciplina resultantes da fuga da privação econômica. Como conseqüência, muitas indústrias mudaram para novos países industriais onde a força muscular e a tendência submissa são os principais requisitos do processo econômico. Nas nações industriais avançadas, a educação desempenha papel econômico fundamental, pois a economia moderna requer uma força de trabalho bem preparada e adaptável. A sociedade moderna baseada na sociedade do conhecimento não pode aceitar que a educação esteja basicamente a serviço da economia; ela tem um papel político e social maior, uma justificação mais profunda em si mesma.

Ela tem uma relação vital com a paz social e a tranqüilidade e traz esperança e significa uma saída para os estratos sociais e econômicos menos favorecidos. Em uma sociedade moderna e justa, um grau de estratificação social e econômica é inevitável e a eliminação completa de um sistema de classes é quase certamente impossível. A estabilidade política requer, porém, a existência de uma chance reconhecida e eficaz de movimento ascendente para os estamentos menos privilegiados. Caso isso não ocorra, haverá descontentamento social e até a possibilidade de uma revolta interna. O papel da educação é não só permitir as pessoas se autogovernarem inteligentemente, mas também desfrutarem plenamente da própria vida. No modelo passado, baseado na economia agrícola rudimentar, ocorria pouca exigência do Estado, necessitava-se de inteligência pouco sofisticada tanto do governo como dos governados. Hoje, o avanço tecnológico e econômico e as distorções sociais decorrentes, aumentam os problemas enfrentados pelos governos tanto em complexidade como em diversidade. Isso significa a necessidade de melhora da estrutura política com o estabelecimento de uma democracia plena.

A educação faz surgir uma população com a compreensão das tarefas públicas, e também faz com que esta exija ser ouvida, já que os homens e mulheres analfabetos, especialmente em nível de subordinação, são facilmente mantidos em silêncio e sob controle autoritário. No mundo moderno, não existe população bem educada que esteja sujeita a regime despótico ou autoritário; conclui-se, portanto, que a democracia é conseqüência material da educação e do desenvolvimento econômico devendo proporcionar ao indivíduo o engrandecimento e o desfrute da vida, confirmando que é óbvio o papel da educação na sociedade. Toda criança deve ter acesso a uma boa educação primária e secundária, e a sociedade deve exigir isso. Na educação superior, deve haver plena oportunidade de realização, contanto que atenda às aspirações de cada um e à habilidade de cada indivíduo. Portanto, os recursos públicos têm que estar disponíveis e bem alocados para que haja uma redução do processo de exclusão social sendo necessária a ampliação da estrutura pública em nível de formação primária, secundária e técnica.

Lester Thurow, no seu livro O Futuro do Capitalismo, mostra como o fim do comunismo, as mudanças tecnológicas com uma era dominada pela inteligência humana, uma demografia inédita e revolucionária, a globalização da economia e uma era multipolar que desconhece qualquer tipo de dominação econômica, política ou militar, por qualquer nação, estão provocando uma revolução que ameaça destruir o capitalismo como ideologia de orientação para o poder público e, sobretudo para as pessoas físicas individualmente. Thurow afirma que as empresas, para serem bem sucedidas, precisam tirar proveito da capacidade mental das pessoas. Esta capacidade, e não o capital, o equipamento, a mão-de-obra comum ou os recursos naturais é que permite às empresas a necessária vantagem competitiva. Mas isso requer vultosos investimentos em educação, o que a iniciativa privada não faria, ou pelo menos não fez como comprova a história. Assim, o estado tem que se encarregar de criar o capital humano necessário à formação individual e coletiva.

A mudança demográfica mostra as dificuldades existentes, face ao rápido crescimento populacional, com a crescente lacuna na distribuição de salários. Essas distorções não ocorrem apenas entre os grupos de trabalhadores, educados e não educados. Elas agora se manifestam dentro de cada grupo, já que existem operários que ganham bem mais que seus colegas com o mesmo nível educacional dentro do mesmo país. Outro fator relevante são as quedas consecutivas dos salários reais. Ninguém escapa desse dilema, não importa sua idade, o setor em que trabalha, o cargo que ocupa; isso atinge até o nível daqueles que têm pós-graduação.

Outro fator é o aumento populacional maior nos países mais pobres, o que provavelmente elevará o número dos excluídos, que poderão até morrer face às dificuldades de ajudas externas e internas das próprias organizações privadas ou estatais. Acresce a esse fato o envelhecimento da população mundial, o que implicará serviços sociais caros e, por conseguinte um aumento nas funções do governo. Thurow aposta na recuperação do capitalismo e afirma que, para sobreviver, este terá que mudar passando de uma ideologia de consumo para uma ideologia de construção. Logo, a ênfase sobre a gratificação instantânea precisa ser substituída por uma ênfase que vise ao futuro como seu alvo primordial. Com a estagnação do capitalismo a ênfase mudará para uma ideologia inteiramente diferente talvez anticonsumista, talvez fundamentalista ou sacerdotal. Na sua visão, acredita que a nova ideologia não seja uma reedição da ideologia atual, não importa se capitalista ou qualquer outra. Thurow tenta apontar para as possíveis causas da implosão do sistema capitalista, indicando como grande ameaça à perda da ideologia. O estado do Bem Estar Social desenvolvido sobre a Teoria do Capital Humano, ao produzir formas mais avançadas de reprodução da força de trabalho e de direitos sociais mediante fundo público, indica que o caminho não é a regressão em função da crise, mas uma mudança para novas formas sociais que vários autores denominam “socialismo com democracia”.

Os programas de formação, como indica Hobsbawn (1992), mostram um projeto educativo que desenvolve as múltiplas dimensões do humano-educação, sendo, portanto, politécnico. Assim, é possível entender que as mudanças dos conceitos mais abstratos de capital humano para a sociedade do conhecimento expressam a nova forma mediante a qual, ideologicamente, se apreende a crise e as contradições do desenvolvimento capitalista, que necessita de profunda reformulação. O núcleo de formação educacional futura será baseado na formação politécnica direcionada às múltiplas necessidades do ser humano, como alternativa democrática ao neoliberalismo, visando atenuar os processos de exclusão social. Atualmente, os conceitos tomaram uma forma mais qualitativa, como formação para a competitividade, qualificação e formação flexível, abstrata e polivalente, qualidade total, deixando em nível mais operacional a categoria sociedade de conhecimento. Especialmente, desde os anos 60, o papel das economias nacionais tem sido corroído ou mesmo colocado em questão pelas transformações na divisão internacional do trabalho, cujas unidades básicas são organizações de todos os tamanhos multinacionais ou transnacionais e redes de transações econômicas que estão, para fins práticos, fora do controle dos governos e estados. A reorganização econômica política e internacional desenvolve-se conjuntamente com um verdadeiro revolucionamento da base técnica do processo produtivo, resultando em grande parte do financiamento direto do capital privado e indireto pelo fundo público na reprodução da força de trabalho. Os progressos da microeletrônica associada à informatização, à microbiologia e à engenharia genética, e às novas fontes de energia são a base de substituição de uma tecnologia rígida por uma tecnologia flexível no processo produtivo.

Essa mudança qualitativa da base técnica do processo produtivo é classificada na literatura como uma nova revolução tecnológica industrial gerando um impacto crucial sobre o conteúdo do trabalho, a divisão do trabalho e a quantidade de trabalho. Ao mesmo tempo em que se demanda uma elevada qualificação e a capacidade de abstração para os trabalhadores estáveis, em número cada vez mais reduzido, cuja exigência é cada vez mais supervisionar o sistema de máquinas informatizadas e a capacidade de resolver rapidamente problemas para a grande massa de trabalhadores temporários ou excedentes de mão-de-obra a questão de qualificação de escolarização não se coloca como problema de mercado. Assim, na situação atual, busca-se uma nova reestruturação do sistema onde se incluem. reconversão tecnológica, organização empresarial, combinação das forças de trabalho e estruturas financeiras. Acresce a esse fato, que as empresas se deslocam de uma região para a outra buscando as melhores condições de produção. No atual contexto, poderíamos identificar a nova ordem estabelecida com a fase da globalização, da internacionalização, do colapso do socialismo real, da reestruturação econômica e da mudança da base técnica do trabalho.

A partir de 1980, surge uma literatura sobre sociedade pós-industrial, a sociedade de conhecimento e os conceitos ligados ao processo de qualificação e formação humana, qualidade total, trabalho participativo, formação flexível, abstrata e polivalente. Os conceitos de globalização, qualidade total, flexibilidade, integração, trabalho enriquecido, ciclos de controle de qualidade em termos reais concretizam-se em métodos que buscam atingir tempo, espaço, energia, materiais, trabalho vivo, aumento de produtividade, a qualidade dos produtos e, conseqüentemente, o aumento do nível de competitividade e da taxa de lucro. No campo da educação e formação, os novos conceitos que tentam dar conta desta nova materialidade são: formação para a qualidade total, formação abstrata, policognição e qualificação flexível e polivalente. Finalmente as receitas que são apresentadas de acordo com a nova teoria indicam que se espera como característica do profissional para o terceiro milênio o seguinte: flexibilidade, versatilidade, liderança, princípios de moral, orientação global, hora da decisão, comunicação, habilidade de discernir, e equilíbrio físico e emocional.

3) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DA SILVA, Luiz Heron. Século XXI Qual Conhecimento? Qual Currículo? Petrópolis: Vozes, 1999.
FRIGOTTO, Gaudêncio. Educação e a Crise do Capitalismo Real. 2. ed. São Paulo: Cortez Editora, 1996.
GALBRAITH, John Kenneth. Sociedade Justa. Uma Perspectiva Humana. 1. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1996.
GENTILI, Pablo A. A; SILVA, Tomaz Tadeu. Neoliberalismo, Qualidade Total e Educação em Visões Criticas. Petrópolis: Vozes, 1994.
PINHO, Carlos Marques. Economia da Educação e Desenvolvimento Econômico. 1. ed. São Paulo: Pioneira, 1970.
STEWART, Thomas A. Capital Intelectual. A Nova Vantagem Competitiva das Empresas. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1998.
THUROW, Lester C. O Futuro do Capitalismo. Como as Forças Econômicas de Hoje Moldam o Mundo de Amanhã. L.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
VAIZEI, John. Economia da Educação. São Paulo: Ibrasa, 1968.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A reforma política já chegou - João Ubaldo Ribeiro

(Publicado em O Globo, de 05/06/2011)

OBS: Segue abaixo um exemplo da inteligência bem humorada do genial baiano João Ubaldo Ribeiro. Aproxima-se ele da melhor ironia de outro texto, também impagável, de Eça de Queirós, o profético "O Conde de Abranhos". O Brasil parece ter recuperado, se João Ubaldo estiver correto em sua tese sobre o bipresidencialismo, o instituto romano do Consulado.

"A REFORMA POLÍTICA JÁ CHEGOU

Suspeita-se na ilha que a propalada operação de safena a que se submeteu recentemente Zecamunista foi na verdade um implante criado pela diabólica medicina da União Soviética, que, quando não mata, como foi o caso de Zeca, injeta tamanha dose de energia no indivíduo que ele sozinho vale por todo um Politburo, coisa braba mesmo, do tempo do camarada Stalin Marvadeza e da NKVD. Não sei se os rumores procedem, mas de fato Zeca, exibindo a cicatriz do peito por trás de uma correntinha com uma foice e um martelo e umas contas de Xangô (quando uma vez eu perguntei a ele que mistura era essa, ele me deu um sorriso de desdém e respondeu apenas que não era materialista vulgar), está mais elétrico do que nunca. Na hora em que o peguei, ele ainda recebia abraços e apertos de mão pela palestra que acabara de fazer no bar de Espanha, esclarecendo a todos sobre o sistema político brasileiro. Infelizmente, perdi a palestra, mas ele, muito modestamente, me disse que não tinha sido nada de mais.

- Foi o bê-á-bá – disse ele. – Comecei pela questão da soberania.

- Ah, sim, a soberania popular. Todo poder emana do povo, etc., isso é muito bonito.

- Bonito pode até ser, mas não é verdade. Foi isso que eu disse a eles. Expliquei que soberania é o direito de fazer qualquer coisa sem dar satisfação a ninguém. E quem é que aqui tem o direito de fazer o que quiser, sem dar satisfação a ninguém, é o povo? Claro que não. É, por exemplo, o deputado, que se cobre de todos os tipos de privilégios e mordomias, se trata melhor do que o coronel Lindauro tratava as mucamas e, quando alguém reclama, ele manda esse alguém se catar, isso quando dá ousadia de responder, porque geralmente não dá. Todos eles fazem o que querem e não têm que prestar contas, a não ser lá entre eles mesmos, para ver se algum não está levando mais do que outro, nisso eles são muito conscienciosos. Fiz que nem Marx, botei a história de cabeça para baixo. Não foi o rei Luís XIV que disse que o Estado era ele? Pois aqui não, aqui o Estado é o governo, é grana demais para um rei só, tem que dar para todos os governantes, cada um com seu quinhão. O Estado são eles e é deles, tem que meter isso na cabeça e parar de pensar besteira. Antes de qualquer postura abestalhada, vamos encarar a realidade objetivamente, não tem nada de povo, povo não é nada, tem mais é que botar o povo pra comprar bagulho sem entrada e sem juros e cuidar do que interessa ao País.

- E o que é que interessa ao País?

- Ô inteligência rara, o que interessa ao País é o que interessa a eles. Que todos eles continuem se locupletando numa boa, não tem nada que mexer em time que está ganhando. Você viu isso muito claramente no caso do Palocci, não viu? Não se mexe em time que está ganhando.

- Que caso do Palocci, o caso do caseiro?

- Que caso do caseiro, cara, deixe de ser leso, o caso do caseiro já entrou para as piadas de salão do PT. Estou falando no caso do dinheiro que dizem que ele ganhou por cultivar bons contatos. Você viu, pegou mal, ficou aquele mal-estar e aí o que é que aconteceu? Exatamente isso que você vai dizer, mas deixe que eu digo. Aconteceu que era mais um trabalho para o Super-Lula! Eu vou ter que dar a mão à palmatória, o bicho não é inteligente, não, ele é um gênio, gênio. Você viu como, com dois beliscões aqui e três cascudos ali, ele enquadrou todo mundo e tudo entrou nos eixos? Mas, ainda mais que isso, muito mais que isso, ele fez a reforma política! Ele fez a reforma política e, como se diz nas operações policiais, sem disparar um único tiro!

- Pode me chamar de leso outra vez, porque não entendi que reforma.

- O bipresidencialismo! Dois presidentes, em lugar de um só! E isso sem precisar mudar nada na Constituição, já está aí, já está em operação, não é preciso alterar lei nenhuma, esse cara é um gênio mesmo. É por isso que ela faz tanta questão de ser chamada de presidenta, eles já deviam ter combinado isso desde o comecinho da campanha eleitoral. Presidente é ele, presidenta é ela. Governante é ele, governanta é ela. O entrosamento é perfeito. Ele não suporta trabalhar e aí o trabalho todo de despachar, ler, discutir, assinar etc., ela faz. Das jogadas políticas, dos discursos, das viagens e das mensagens na TV ele cuida. E de mandar sancionar ou vetar o que for necessário, claro. Fica perfeito, como com o casal que não briga pelo pão porque um só gosta do miolo e o outro da casca. Ele criou – e ainda por cima com os votos do otariado todo – o bipresidencialismo, que já veio com ele de fábrica, ele é um gênio!

- E você acha que isso vai funcionar mesmo?

- Já está funcionando. Trouxa será aquele que, querendo coisa graúda do governo, não vá falar com ele primeiro. E mais trouxa será quem o contrariar. Caso perfeito para quem acha que não se mexe em time que está ganhando. Não mudou nada, tudo continua na mesma, só que agora o presidente não apenas conta com uma supergovernanta para cuidar do trabalho chato, como continua mandando, e ainda com a vantagem de ter alguém para levar a culpa, se alguma coisa der errado, pois, como diziam os antigos, a vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã, quem mais sabe disso é ele.

- Zeca, você realmente está muito inspirado hoje. Esse bipresencialismo que você sacou está muito bem pensado, ele continua mandando mesmo e deixando isso bem claro. Mas eu me lembro de você dizendo, antes da eleição, que, se ela ganhasse, em pouco tempo nem mais o cumprimentaria.

- Bem, eu subestimei a governantabilidade dela. E, além disso, beija-mão não é bem um cumprimento."