quarta-feira, 1 de maio de 2019

Universidades e rinocerontes


Em curiosa passagem de sua autobiografia, Paulo Duarte dizia que as universidades haviam sido invadidas pelos rinocerontes, ali pelos idos de 1970. Homem refinado e profundamente envolvido com a política e a educação, Paulo Duarte, um dos fundadores da USP, tinha credenciais suficientes para julgar os acontecimentos derivados daqueles, dos quais participara ou testemunhara. Sua atuação foi decisiva - junto com os Mesquita e seu prestigioso jornal - para a vinda das missões estrangeiras que ajudaram a instalar a jovem e pioneira universidade paulista. Outro relato a respeito desses tempos, agora sob a perspectiva de um dos mestres franceses (Claude Lévi-Strauss em seu monumental ensaio Tristes Trópicos), permite enriquecer a visão sobre a dinâmica e o ambiente da época.  

Sim, os rinocerontes invadiram as universidades. Problema maior decorrente de tal fato é a fecundidade das bestas. Multiplicaram-se prodigiosamente, ao estilo de Ionescu (felizes, quase deuses), passando a fazer parte indissociável da paisagem onde se instalaram. Agora, transitam não só pelos campi universitários mas, também, desfilam altaneiros por outros espaços das cidades. 

O governo Bolsonaro terá enormes dificuldades com essas alimárias. Qualquer ameaça, por menor que seja, de esvaziar o cocho habitual, provocará imensa resistência, em especial dos docentes, alunos e técnicos administrativos. As reações ao contingenciamento anunciado pelo Ministério da Educação servirão de alerta para o governo federal. Este poderá ter na manga alguns trunfos. Por que, não, reduzir drasticamente os gastos com os chamados Serviços de Terceiros? Limpeza, vigilância, conservação e outros, como manutenção e alimentação, bem poderiam ser executados pelos alunos das instituições públicas, em escala de rodízio. Tais atividades estariam inclusas no plano de ensino das diferentes unidades acadêmicas. Uma multidão de gente terceirizada ficaria disponível para trabalhar em outros ramos e entidades existentes na sociedade. Seria uma forma de combater parte da herança senhorial e escravocrata que nos avassala. 

Um passeio pelos campi permite construir uma imagem desse anacronismo. Enquanto milhares de alunos dessas madraçais estudam os textos sagrados do gramscismo, inumeráveis e opacas figuras, como sombras vivas, manejam suas vassouras e baldes d'água pelas salas, banheiros e corredores para que os sinhozinhos e sinhazinhas se sintam alegres e confortáveis ao longo de estafante dia de trabalho e estudo (ufa!).     

segunda-feira, 22 de abril de 2019

O STF recrudesceu

Em tempos já idos e vividos, quando um general das antigas se incomodava por qualquer dá cá esta palha do dia a dia, ele ameaçava recrudescer. Este curioso verbo é dicionarizado como "transformar em algo ou alguém mais intenso: tornar-se mais forte, exacerbar. Reviver os sintomas mais intensos e alarmantes da doença; agravar-se". 

Dois ilustres ministros do STF passaram, então, do cogitado ao executado: recrudesceram, e saíram a prender qualquer cidadão no qual enxergassem alguma conduta delitiva, principalmente, se se referisse a algum reparo às inumeráveis presepadas com as quais os onze sábios do supremo sinédrio nos brinda quase que diariamente. 

No período pascal ficaria bem lembrado o julgamento do Divino Mestre pela gangue comandada por Anás e Caifás. Pai e filho se preocupavam sobremaneira com o rumo dos negócios praticados à sombra das arcadas do templo. Pela primeira e única vez, o filho do Eterno se enfureceu e saiu a chicotear o bando de traficantes que contavam, certamente, com o apoio decisivo dos empreiteiros de então.  

A hipótese não é absurda. Naqueles tempos, palácios, estradas, termas, diques, canais, fortalezas e similares eram construídas por gente especialmente devotada a tais empreendimentos. 

A narrativa maçônica sugere a relevância dos construtores para a vida humana em termos de segurança, conforto e prática devota. Centra-se, para isso, na trajetória do arquiteto Hiran Abif, um empreiteiro dos bons e do bem, assassinado por concorrentes, ao que parece, invejosos do seu poder e competência.  

Nada mais corriqueiro, portanto, que os vínculos orgânicos que empreiteiros de todos os tipos e calibre estabeleciam com os donos do poder secular e temporal. Afinal, se obras precisam ser realizadas, é necessário que alguém as encomende e, principalmente, pague por elas. 

É claro que havia riscos no negócio. Calígula, por exemplo, que foi um grande realizador de obras monumentais durante seu curto reinado (segundo Suetônio), costumava mandar decapitar os empreiteiros que não fossem eficientes. Esse costume um tanto bárbaro, bem poderia ser recuperado em nome do interesse público. Seria um estímulo irresistível. É tentador pensar, igualmente, nos juízes escorchados por  desídia ou venalidade.

Voltando ao começo. É possível que os arroubos de virilidade, vistos no recrudescimento de dois juízes fakes do STF, sejam prenúncio de novos e arejados tempos. Quem sabe tudo não seja mais que insidiosa manobra para permitir por linhas transversas um efetivo questionamento sobre o anacronismo do próprio Supremo e de suas inconveniências?

DiasTóffoli e Alexandre Moraes estão se autoimolando em benefício da morigeração do judiciário. A incompreensão a respeito deles é a mesma que cerca Judas Iscariote, único da troupe do Divino Mestre a perceber que alguém deveria traí-Lo, para que se cumprisse a profecia. Os demais apóstolos queriam, primeiramente, obter as glórias do Paraíso. Não iriam por em risco a oportunidade ímpar de se ajeitarem entre os eleitos. Deixaram para o ecônomo o triste encargo da renúncia pessoal em prol dos demais.  

Fantasia? Talvez não... Longa vida a Tóffoli e Moraes pela notável garantia que estão dando às liberdades públicas. Mesmo que por linhas tortas, aliás, tortíssimas. Pela traição que cometeram contra a Constituição estão  contribuindo com a democracia, tal qual o Iscariote com os mistérios da Salvação. Que a dupla continue a recrudescer.


sábado, 20 de abril de 2019

Dias Tóffoli e Monteiro Lobato



Não há como não se espantar com situações onde a vida imita a arte. Monteiro Lobato, tão censurado por energúmenos esquerdistas, tinha tal peculiar capacidade de escrever, ao contrário de romancistas tradicionais. Sua prosa parece antecipar os fatos históricos e, não, o sucedê-los. Veja-se, por exemplo, o incrível e profético “O presidente negro ou o choque das raças”, publicado décadas antes da posse do presidente Obama, nos Estados Unidos.

O caso, agora, do enrolado ministro, e presidente do STF, faz lembrar, e muito, o delicioso “causo” do marido da professora, do conto O Chupim, obra prima de sátira aos costumes do engenhoso paulista, conterrâneo por acaso do espertíssimo ministro, teúdo e manteúdo da diligente patroa.

A revista digital Crusoé afirmou que o ministro Dias Tóffoli recebe uma mesada de R$ 100 mil de sua mulher, a advogada Roberta Maria Rangel. Os repasses, segundo a reportagem, saem de uma conta de Roberta no banco Itaú com destino a outra mantida em nome do casal no banco Mercantil do Brasil.

Os repasses, de acordo com a publicação, foram realizados ao menos desde 2015 e somam R$ 4,5 milhões. Dos R$ 100 mil mensais depositados pela mulher de Toffoli, diz a revista, metade (R$ 50 mil) é transferida para a ex-mulher do ministro, Mônica Ortega, e o restante é utilizado para custear suas despesas pessoais. Nada de comparável com a avareza de dona Zenóbia, que controlava até os míseros ceitis com os quais o maridão do conto de Lobato comprava um eventual maço de cigarros, vício deplorável, segundo a professora. Ainda de acordo com a reportagem, a conta é operada por um funcionário do gabinete de Tóffoli.

A revista revela que, em 2015, a área técnica do Mercantil encontrou indícios de lavagem de dinheiro nas transações efetuadas na conta do ministro, mas a diretoria do banco ordenou que as informações não fossem encaminhadas para o Coaf, órgão de inteligência financeira do Brasil. Todos os bancos são obrigados a comunicar ao Coaf transações suspeitas de lavagem de dinheiro. O ministro Dias Tóffoli,no entanto, não se manifestou sobre o caso. Essa é a parte do mundo real. A parte artística, imaginosa, se for possível assim dizer, vem no relato abaixo




O romance do chupim

Monteiro Lobato



Ouvíamos no cine a música precursora da primeira fita, quando entrou na sala um curioso casal. Ela, feiarona, na idade em que a natureza começa a recolher uma a uma todas as graças da mocidade, como a lavadeira recolhe as roupas do varal. Tirara-lhe já a frescura da pele e o viço da cor, deixando-lhe em troca as sardas e os primeiros pés de galinha. Tirara-lhe também os flexuosos meneios de corpo, a garridice amável, os tiques todos que, somados, formam essa teia de sedução feminina onde se enreda o homem para proveito multiplicativo da espécie. Quase gorda, as linhas do rosto entravam a perder-se num empaste balofo. Certa pinta da face, mimo que aos dezoito anos inspiraria sonetos, virara verruga, com um sórdido fio de cabelo no píncaro. No nariz amarelecido o pince-nez clássico da professora que se preza. Em matéria de vestuário, suas roupas escuriças, mais atentas à comodidade do que à elegância, denunciavam a transição do “moda” para “fora da moda”.

Ele, bem mais moço, tinha um ar vexado e submisso de “coisa humana”, em singular contraste com o ar mandão da companheira. O estranho do casal residia sobretudo nisso, no ar de cada um, senhoril do lado fraco, servil do lado forte. Inquilino e senhorio; quem manda e quem obedece; quem dá e quem recebe. Ela falava do alto; ele ouvia de baixo e mansinho; caso evidente em que cantava a galinha e o galo chocava os pintos.

Meu amigo apontou o homem com o beiço e murmurou:

— Um chupim.

— Chupim? — repeti interrogativamente, estranhando a palavra que ouvia pela primeira vez.

— Quer dizer, marido de professora. O povo alcunha-os desse modo por analogia com o passarinho-preto que vive à custa do tico-tico. Conheces?

Lembrei-me da cena tão comum em nossos campos do tico-tico a pajear um graúdo filho de chupim, e pus-me a observar o casal com maior interesse, mormente depois de começada a fita, relíssima salgalhada francesa. Já eles não tiravam os olhos da tela, salvo o marido, que para melhor ouvir algum comentário da esposa não se limitava a dar-lhe ouvidos, dava-lhe olhos também.

— Os chupins — prosseguiu o meu cicerone — são homens falhos, ratés da virilidade — a moral, está claro, que a outra lhes é indispensável para o bom desempenho do cargo.

— Cargo?

— Cargo, sim. Eles desempenham o cargo importantíssimo de maridos. Em troca as esposas ganham-lhes a vida e dirigem os negócios do casal, desempenhando todos os papéis normalmente atribuídos aos machos. Tais mulheres apenas fazem aos maridos a concessão suprema de engravidarem por obra e graça deles, já que é impossível a revogação de certas leis naturais.

“Quando a mulher vai à escola, fica o chupim em casa cocando os filhos, arrumando a sala ou mexendo a marmelada. Há sempre para eles uma recomendaçãozinha à hora da saída para a aula.

“— As vidraças da frente estão muito feias. Você hoje, quando as Moreiras saírem, passe um pano com gesso. (As Moreiras são as vizinhas da frente.)

“O chupim acostuma-se à submissão e acaba usando em casa as saias velhas da mulher, para economia de calças.”

— Para aí, homem de Deus! Do contrário acabas contando a história de um que chegou a dar à luz um crianço!...

A fita chegara ao fim. Surgiu o galo vermelho da Pathé, que boleou o pescoço num coricocó mudo e sumiu-se para dar lugar ao reacender das lâmpadas.

A mulher ergueu-se, espanejou-se e saiu, seguida do chupim solícito. Acompanhamo-los de perto, estudando o caso, e na rua, depois que os perdemos de vista, o meu amigo retomou o assunto.

— Em matéria de chupins conheço um caso interessante. Que segui desde os primórdios.

“Eduardinho Tavares, filho de tio e sobrinha, nascera sem tara aparente, a não ser extrema dubiedade de caráter, uma timidez de menina do tempo em que a timidez nas meninas era moda. Espécie de criatura intermediária entre os dois sexos.

“Em criança brincava de boneca, de preferência às nossas touradas, ao jogo dos ‘caviúnas’, ao ‘pegador’. Em meninote, enquanto os da sua idade descadeiravam gatos pela rua, lia Paulo e Virgínia à sombra das mangueiras, chorando sentidas lágrimas nos lances lacrimogêneos.

Fomos colegas de escola, e lembro-me que um dia lá nos apareceu Eduardo com um pagagaio de miçanga verde, obra sua. Eu, estouvado de marca, ri-me daquilo e escangalhei com a prenda, enquanto o maricas, abrindo uma bocarra de urutau, rompia num choro descompassado, como choram mulheres. Irritado, dei-lhe valentes cachações. Eduardo não reagiu; acovardou-se, humilhou-se, feito o meu carneirinho. Só procurava a mim dentre cem companheiros. Acamaradamo-nos daí por diante, o que não me impediu de o fazer armazém de pancadas. Por qualquer coisinha, uma cacholeta. Ele ria-se, meigo, e cada vez mais me rentava. Pus-lhe o apelido de Maricota. Não se zangou, gostou até, confessando achar mais graça nesse nome do que no seu.

“Hoje eu estudaria esse tipo à luz de Freud, como caso deveras notável; naquele tempo feliz de sadia ingenuidade limitava-me a tirar partido da sua submissão, transformando-o em peteca, em escravo, em coisa de que a gente põe e dispõe.

“Saídos do colégio continuamos camaradas, de modo que pude acompanhá-lo por um bom pedaço da vida afora. Nunca perdeu a timidez donzelesca. Fugia às meninas, sobretudo se eram românticas, ou acentuadamente mulheris — o meu gênero.

“Fez-se misógino.

“Por essas alturas casei-me — casei-me com a moça mais feminina da época, uma romântica escapulida a Escrich, dessas que têm medo às baratas e caem de fanico se um rato lhes corre pela sala — o meu gênero, enfim.

“Eduardo permaneceu solteiro, sempre às sopas do pai, até que este morreu e lhe deixou de herança uns prédios, mais uns títulos. Sem tino comercial, passaram-lhe a perna, comeram-lhe casas e apólices; quando o pobre rapaz abriu os olhos estava a nenhum. Recorrendo a mim para um bom conselho de arrumação de vida, vi que não dava para coisa nenhuma — e receitei-lhe a professora.

“— Casa-te. Incapaz de ação como és, tua saída única se resume em tirar partido da tua qualidade de macho. Casa com moça rica, ou, então, com mulher trabalhadeira.

“Nada valeu o conselho. Eduardo não tinha jeito para requestar mãos femininas, quer bem aneladas, quer muito calejadas. Embaraçava-o a irredutível timidez.

“Mas o diabo as arma.

“Um belo dia apareceu na terra uma professora nova, mais ou menos ao molde desta de há pouco. Tipo de mulheraça máscula, angulosa, ar enérgico, autoritária. Gostava de discutir política, entendia de cavalos, lia jornais, tinha ideias sobre a seca do Ceará e o saneamento dos sertões. Apesar de bem conservada, andava perto dos quarenta, não fazendo nenhum mistério disso. Se não se casara até então, não é que fosse infensa ao matrimônio: não achara ainda o seu tipo de homem, dizia.

“Pois não é que o raio da pedagoga vê Eduardo e se engraça dele? Examina-o fulminantemente, como quem examina um cavalo; mira-o de alto a baixo, interpela-o, dá-lhe balanço às ideias e aos sentimentos, pesa-lhe o valor monetário, pede-lhe, ou, antes, toma-lhe a mão, leva-o à igreja e casa-o consigo.

“Foi um relâmpago tudo aquilo. Em três tempos namorado, noivado, casado e metido no gineceu, o pobre moço, quando abriu os olhos, estava chupim para todo o sempre.

“Dona Zenóbia sabia avir-se com a vida. Ganhava-a folgadamente. Além da escola particular que dirigia, tinha a juros um pequeno capital que não cessava de crescer, colocado a quatro ou cinco por cento ao mês, sob garantias de toda ordem. Casada, continuou à testa dos negócios; o marido, se aparecia nominalmente nalguma transação, era proforma.

“Encaramujado em casa da professora, Eduardinho foi sonegado ao mundo e o mundo acabou esquecendo Eduardinho. Nunca mais o viram na rua, ou nas festas, sem ser pelo braço da mulher, na atitude encolhida daquele chupim do cinema.

“Um filho nasceu-lhes nesse entretempo, e começa aqui o mais engraçado da comédia.

“A tantas, dona Zenóbia deu de gabar as qualidades artísticas do esposo.

Eduardo era um grande talento literário, capaz de obras deveras notáveis.

“— Vocês — dizia ela às professoras do colégio — não sabem que tesouro perderam. Eduardo saiu-me uma verdadeira revelação. É dessas criaturas privilegiadas que possuem o dom divino da arte, mas que às vezes passam a vida inteira sem se revelarem a si próprias. Aqueles seus modos, aquela timidez: gênio puro, minhas amigas! Vocês hão de vê-lo um dia aparecer qual meteoro, alcançar a glória e cair como um bólide dentro da Academia. Está escrevendo um romance que é um suquinho! Lindo, lindo!...

“Esse romance levou meses a compor-se. Todos os dias, no quarto de hora de folga que juntava as professoras na saleta de espera, dona Zenóbia vinha com notícias da obra.

“— Está ficando que dá gosto! O capítulo acabado esta manhã parece uma coisa do outro mundo!

“E desfiava o enredo. Era o caso dum moço loucamente apaixonado por uma donzela de cabelos loiros e olhos azuis. A primeira parte do romance ia toda na pintura desse amor, lindo como não havia outro, puro poema em prosa. E dona Zenóbia revirava os olhos, em êxtase.

“As outras professoras acabaram por interessar-se a fundo pelo romance de Eduardo — Núpcias fatais —, o qual virara folhetim vocalizado aos pedacinhos, dia a dia, pela pitoresca dona Zenóbia.

“A notícia correu pela cidade e isso acabou reabilitando Eduardo da sua fama de Zé-faz-formas, pax-vóbis e mais apelidos deprimentes de que é fértil o povo.

“— Como a gente se engana! — diziam; — Parecia uma lesma de pernas, ninguém dava nada por ele e no entanto é um romancista!...

“As professoras davam à trela e o enredo das Núpcias fatais corria de boca em boca pela cidade, os lances de efeito gabados, com citação das melhores tiradas. O Popular, noticiando o aniversário do moço, consagrou-o — ‘festejado homem de letras’.

“Dona Zenóbia sabia dosar a narração de modo a manter as professoras suspensas nos lances mais comoventes. Houve um trecho que as pôs pálidas de espanto. Era assim: Lúcia fora pedida pelo rival de Lauro, o galã infeliz. O pai de Lúcia e toda a família queriam o casamento, porque o monstro era riquíssimo, tinha casa em Paris, iate de recreio e um título de conde prometido pelo papa. Já o triste do Lauro, coitado, para cúmulo de desgraça, perdera uma demanda e estava mais pobre que Jó. As cartas em que ele contava isso a Lúcia eram de chorar! Todos contra o mísero e tudo a favor do monstro...

“O pai fizera uma cena horrível.

“— Antes ver-te morta do que ligada a esse miserável... poeta!

“E a coitadinha, alanceada no mais dolorido do coração, doida de amor, chorava noite e dia, encerrada no fundo de escura cela.

“— Pobre mártir! — exclamavam com um nó na garganta as compassivas professoras. — Por que não há de sair a sorte grande para um desditoso destes? Peça ao seu marido, dona Zenóbia, que lhe faça sair a sorte, sim?

“— Não pode. Prejudicaria o desfecho e, ademais, não é estético — respondeu preciosamente dona Zenóbia.

“E assim corria o tempo.

“O romance era à moda antiga, em vários volumes, sistema Rocambole. Já tinha acontecido o diabo. A moça fugira de casa, raptada em noite de tempestade pelo cavaleiro gentil; mas o dinheiro do monstro vencia tudo: foram presos e encarcerados, ela num convento, ele num calabouço infecto.

“Mas quem pode vencer o amor? O cavaleiro conseguira, iludindo os guardas, abrir um subterrâneo que ia ter ao convento. Que tarefa ingente! Como as professoras deliraram acompanhando a obra desesperada do homem - toupeira, a escavar com as unhas em sangue a terra fria!

“Venceu, porém; alcançou o pavimento da cela onde Lúcia chorava de amor e conseguiu falar-lhe. Que lance este, quando Lúcia percebe o estranho murmúrio da voz subterrânea que a chamava! Era a redenção, afinal!

“Entendem-se e combinam a fuga. Um barqueiro esperá-los-ia em tal lugar, à meia-noite etc. etc.

“Dona Zenóbia parava nos trechos mais empolgantes, deixando a assembleia ora em lágrimas, ora em arroubos de indizível êxtase. Às vezes, quando estava de saia preta, em seus dias de azedume, não adiantava a novela um passo sequer.

“— Hoje, descanso. Eduardo está com um pouco de dor de cabeça e não escreveu uma linha...

“As professoras ficavam pensativas...

“Chegou por fim o dia da fuga, ponto culminante da obra. Dona Zenóbia, perita na arte de armar efeitos, anunciou-o de véspera.

“— É amanhã o grande dia!

“— Mas escapam, dona Zenóbia? — indagou uma torturada do romantismo, com a mão no seio palpitante.

“— Não sei...

“— Pelo amor de Deus, dona Zenóbia! Eu não posso mais! Se o monstro ganha a partida ainda esta vez, diga logo, porque eu tiro umas férias e vou para a roça esquecer este maldito romance que já me está deixando histérica.

“— Paciência, filha! Como posso saber o que lá se passa na imaginação do artista?

“— Mas peça a ele, peça por nós todas, que desta vez não deixe os espiões do monstro descobrirem os fugitivos. Pelo menos agora. Mais tarde vá, mas agora eles precisam de uns meses de recompensa. Arre, que também é demais!...

“No dia seguinte dona Zenóbia apareceu sorridente. As professoras em ânsias, ao vê-la assim, criaram alma nova.

“— Então? — exclamaram palpitantes.

“Dona Zenóbia fez um muxoxo.

“— Esperem lá. A coisa não vai a matar. Eduardo neste momento atinge o ponto culminante da obra. Deixei-o com o olhar em fogo — o fogo da inspiração! —, os cabelos revoltos, a cabeça febril. É o momento supremo do fiat! Toda obra depende deste fecho de abóbada. Como a solução do caso vem das profundas do subconsciente estético, e ainda não viera até a hora de eu sair, pedi-lhe que me comunicasse o resultado pelo telefone. Esperemos...

“As moças puseram os olhos no céu e as mãos no peito.

“— Meu Deus! — disse uma. — Estou com o coração aos pinotes! Se Lauro é preso, se os emboscados o matam... O monstro é capaz de tudo!

“Nisto vibrou a campainha do telefone. Dona Zenóbia piscou para as amigas estarrecidas e foi atender.

“Ficaram todas no ar, imóveis, trocando olhares de interrogação, enquanto no compartimento vizinho dona Zenóbia conversava com o grande artista.

“— Ele não para de chorar, Zenóbia. A meu ver é cólica o que ele tem. Desde que você saiu que é um berro só. Já fiz tudo, dei chá de erva-doce, dei banho quente — nada! Berra que nem um bezerro!

“— Você já cantou o Guarani?

“— Cantei tudo, o Guarani, o ‘Tutu já lá vem’, o ‘Somos da pátria a guarda’... Mas é pior.

“— Deu camomila?

“— A camomila acabou. Quis mandar a negrinha buscar um pacote na botica, mas não achei o dinheiro...

“— Lerdo! E aqueles dois mil-réis de ontem? Não sobrou metade? “— É que... é que comprei um maço de cigarros...

“— Sempre o maldito vício! Olhe, atrás do espelho, perto da saboneteira azul, está uma pratinha de quinhentos. Mande buscar a camomila, mas no Ferreira, que a do Brandão não presta, é falsificada. Ferva uma pitada numa xícara d’água e dê às colherinhas. Dê também um clister de polvilho. Mudou os paninhos?

“— Três vezes, já.

“— Verde?

“— Verde carregado, como espinafre.

“— Bem. Eu hoje volto mais cedo. Faça o que eu disse, e fique com ele na rede. Cante a ária da Mignon, mas não berre como daquela vez, que assusta o menino. Em surdina ouviu? Olhe: ponha já as fraldas sujas na barrela. Escute: veja se tem água no bebedouro dos pintos. A marmelada? Ora bolas! Deixe isso para amanhã. Bom, até logo!

“Dona Zenóbia largou o fone e voltou às companheiras, que continuavam suspensas.

“— Estes artistas!... — começou ela. — Que é que vocês pensam que Lauro fez?

“— Fugiu! — disse uma.

“— Deixou-se prender! — aventou outra.

“— Suicidou-se! — declarou a terceira.

“— Ninguém adivinha. Lauro rompeu o pavimento, entrou na cela e depois de uma grande cena resolveu fazer-se frade!...

“Foi um oh! geral de desapontamento. Aquele fim imprevisto decepcionara a todas. Protestaram, e dona Zenóbia, condoída, voltou atrás.

“— Estou brincando. Eduardo está hoje com uma dor de cabeça danada e eu o aconselhei a descansar um bocadinho. Ficou para outro dia o fim. Esperemos.

“O romance do chupim tem hoje onze anos. Já é menino de escola. Chama-se Lauro e, para reabilitação do sexo barbado, puxou o caráter da mãe.”

(Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes)

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O novo ministro da Educação e sua equipe

Com a nomeação de novo ministro da Educação - professor Abraham Weintraub - o presidente Bolsonaro indica que vai conseguir botar alguma ordem no caos ministerial onde chafurdam os burocratas ideologizados e cevados no lulopetismo nos últimos 16 anos. Parafraseando o Mestre Darcy, cuidado, ministro, com a nuvem, não de gafanhotos, mas de "supervisores, orientadores, psicólogos, sociólogos, fonoaudiólogos, logopedistas, nutrólogos, curricólogos, audivisiólogos, comunicólogos" e outros que tais que infestam seu ministério. São capazes de babar nas escadas para que outros caiam e quebrem o pescoço. A escolha de sua equipe, como primeira sinalização para se estabelecer os melhores rumos da nossa educação, já enche de esperanças aqueles que pretendem acabar com a desonestidade orgânica do multitudinário sistema escolar do Brasil. 

Chama a atenção o fato do novo ministro não se cercar, nos cargos estratégicos, de nenhuma pedagoga desmiolada, conforme era comum, por exemplo, no Conselho Nacional de Educação, nos tempos do lulismo, onde já tiveram assento figuras como aquela dama protonazista que reeditou,  em plena Avenida Paulista, formidável queima de livros (similar à ocorrida em Berlim, em 1933), e uma outra, especialista em penteados afros e crítica feroz de Monteiro Lobato, considerado racista por causa de personagens, frutos de ingênua fabulação, contidas em sua obra literária infantil. Seria uma piada se não fosse digno de choro envergonhado e convulsivo.  
  
Não é preciso fazer longas elucubrações para se perceber a gravidade e a extensão dos problemas educacionais do país. Em seu livro seminal - Nossa escola é uma calamidade - editado naquele distante 1984, pela editora Salamandra - o professor Darcy Ribeiro fez uma crítica devastadora às pedagogias desvairadas que até então se praticavam nesse portentoso, ineficiente e, sobretudo, caro sistema escolar em todos os seus níveis: da educação fundamental, conforme se diz hoje, à pós graduação, das redes públicas municipal à federal, passando pelas redes estadual e particular. Ao que parece, os velhos vícios tão finamente percebidos por 
Darcy Ribeiro, em linha de continuidade com o pensamento de Anísio Teixeira, ainda continuam em vigor. Talvez, até piorados, se feita uma comparação justa. 

Com o novo ministro e sua nova equipe ficam a expectativas de sucesso. Somente uma advertência final: reitere-se o necessário cuidado com os que se definem como pedagogos, educadores ou consultores que não ajuntam pedras, somente palavras; a eles, nenhuma função relevante. Dar-lhes espaço é o caminho mais curto para a inexorável ruína.


quinta-feira, 14 de março de 2019

Tiburi, a escatológica



Paris, o cu do mundo, é famosa pela sujeira e pela fedentina de suas ruas. Não é um conceito novo sobre a cidade. Montaigne já havia apontado, em seus Ensaios, tais peculiaridades urbanas, bem compartilhadas, aliás, com a italianíssima Veneza e seus canais parecidos com cloacas.

Correm vagas notícias que fescenina filósofa petista (uma dita Tiburi), vai se mudar de mala e cuia para a tradicionalíssima capital francesa.

Neste ambiente sempre houve clima para todo tipo de extravagância, como eleger o cu para objeto de devoção e reflexão (vá lá a concessão). Talvez possa ela, pela afinidade temática, se aproximar do pensamento de Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut, autor de popular obra - L'art de péter ou A arte de peidar - publicada originalmente em 1751, há quase três séculos, portanto.

Peidar, disse Hurtaut, pode se transformar em verdadeira "arme sociale". Maior afinidade que essa entre o francês e a brasileira, dificilmente será encontrada. Alguém pode alegar que Barbarícia, o demônio peidorreiro de Dante, tem precedência histórica no tocante aos usos do cu. Fica o registro para posterior investigação. O fato é que Tiburi fez a coisa certa. De Paris para Firenze o trajeto é rápido. Durante o percurso dá para afinar a própria trompa. Em homenagem à ex-candidata ao governo do Rio de Janeiro pelo PT, segue abaixo o soneto ao olho do cu, de coautoria entre Verlaine e Rimbaud.

Sonnet du Trou du Cul

Arthur Rimbaud et Paul Verlaine


Obscur et froncé comme un oeillet violet

Il respire, humblement tapi parmi la mousse

Humide encor d’amour qui suit la fuite douce

Des Fesses blanches jusqu’au coeur de son ourlet.


Des filaments pareils à des larmes de lait

Ont pleuré, sous le vent cruel qui les repousse,

À travers de petits caillots de marne rousse

Pour s’aller perdre où la pente les appelait.


Mon Rêve s’aboucha souvent à sa ventouse ;

Mon âme, du coït matériel jalouse,

En fit son larmier fauve et son nid de sanglots.


C’est l’olive pâmée, et la flûte caline,

C’est le tube où descend la céleste praline :

Chanaan féminin dans les moiteurs enclos !





sexta-feira, 8 de março de 2019

Mulheres e política


Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Presume-se que nesta data sejam rememoradas situações, e épocas, que permitam refletir a respeito do modo de viver das mulheres em todo o planeta. Um dos efeitos perseguidos diz respeito à construção de práticas solidárias frente à barbárie e o preconceito que atingem mais as mulheres que quaisquer outros setores da sociedade. 

A participação feminina na vida política da comunidade é um dos pontos que mais merece a atenção de todos. Nas casas congressuais de qualquer nível, bem como no âmbito dos poderes executivo e judiciário, a presença das mulheres é desproporcionalmente menor que sua força demográfica. Uma das teses mais debatidas, aliás, é a que postula uma suposta melhoria do ambiente político, em decorrência da maior presença de mulheres como executivas, senadoras, deputadas ou vereadoras. 

Focando o olhar na experiência brasileira recente, no entanto, uma nuvem de dúvidas pairaria sobre nossas cabeças. Mulheres como Dilma Rousseff, Ideli Salvati, Gleisi Hoffman, Jandira, Maria do Socorro, Vanessa Graziotim, Marta Suplicy e outras damas da mesma estirpe, se ocupassem majoritariamente o Congresso, ou as demais funções do governo, levariam o Brasil à destruição e à sua inviabilidade como nação. Nem Lula, chefe da quadrilha que assaltou os cofres públicos da nação, foi tão nefasto ao país. 

Verdade que o mundo político abriga mulheres do maior valor. Elas são, entretanto, minoria dentro de uma minoria. 
Boa parte das autoproclamadas lideranças das mulheres estão mais preocupadas com quotas que as beneficiem do que exercer o genuíno papel que se espera de lideres autênticos. Exemplo dramático está no silêncio constrangedor, das supostas lideranças feministas, quanto à mutilação genital feminina, que já atingiu mais de 120 milhões de crianças e jovens africanas.

Talvez - quem sabe? - tenhamos que esperar o presidente Bolsonaro tuitar as pavorosas imagens das mutiladas,  para tornar pública e visível a nefanda prática e aí, então, lutar contra o desprezo pela integridade das mulheres, onde quer que estas se encontrem.

Este dia 8 de março seria um bom dia para sinalizar, mais uma vez, a exigência da defesa daquelas pobres mulheres africanas; vale relembrar que o dia 6 de fevereiro é a data internacional de repúdio à MGF, data que passou em branco na sociedade brasileira. Alguma, das madames acima referidas, deu um pio sequer a respeito do assunto? Nem elas, que são brancas, nem as supostas lideranças negras mergulhadas em seus estéreis solilóquios raciais.
 

quinta-feira, 7 de março de 2019

Alemães e o Brasil: a vocação mercenária


Um jornalista alemão, dias atrás, publicou matéria em que criticava o atual governo brasileiro. Pela forma adotada por ele parece que o fez a soldo. Recebeu pronta resposta do ministro Ricardo Sales, do Meio Ambiente. Aqui, agora, apenas um pequeno comentário lateral.

A vocação mercenária alemã é antiga. Pode ser rastreada em episódios que se perdem na história brasileira. O pitoresco caso de Hans Staden - arcabuzeiro a serviço das tropas portuguesas em luta contra os Tupinambá, em meados do século XVI - produziu famoso livro que foi lido até por Montaigne, conforme se depreende dos seus Ensaios.

No início do século XIX, no bojo dos conflitos vinculados ao processo de independência do Brasil, Dom Pedro I usava, para se proteger, de um fornido magote de soldados oriundos de Hamburgo, mercenários, por suposto. 

Não deve, pois, causar maior espanto encontrar na atualidade figuras, como o tal jornalista, retomando o papel de novo arcabuzeiro ou de novo pretoriano da guarda pessoal dos autoritários de sua devoção. 

É, tão somente, uma vocação esparramada ao longo dos tempos.