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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Quem tem pena do cidadão comum? (José Nêumanne)


Desde que a reputação de herói começou a forjar a armadura com a qual a opinião pública nacional protege a condição incólume da ação do juiz federal paranaense Sergio Moro, a inveja, o ciúme e o instinto de sobrevivência de alguns colegas de ofício dele passaram a maldizê-la com fervor. A primeira arma dessa luta vã é retórica: o comandante da Operação Lava Jato “não é nem pode ser o único juiz honesto do Brasil”. 

Isso não basta para convencer o cidadão comum a abrir mão da “república de Curitiba”, amada pelos representados e temida pelos representantes de nossa democracia cabocla, pois esta preserva um raro resquício do conceito basilar do Estado Democrático de Direito, até segunda ordem vigente entre nós: a igualdade de todos perante a lei. Em seguida a esse desafio, a esperança de mantê-la, ressurgida nos dois mensalões, o tucano e o petista, começou a plantar êmulos de Moro pelo País afora. Colegas menos expostos à luz dos holofotes se dispuseram a mostrar que há juízes em Berlim. E até mesmo fora do Paraná.

Na semana passada, emergiu do noticiário outro desses exemplos de que nem tudo é procrastinação no Judiciário pátrio. Chama-se Pedro Bueno de Azevedo, tem 38 anos e chefia a 6.ª Vara Criminal em São Paulo. De suas decisões emergiu a Operação Custo Brasil, que revela uma das maiores ignomínias perpetradas por criminosos de colarinho branco na História de nossa República: o pagamento de propinas ao partido político que capitaneia o time que governou o Brasil durante 13 anos, quatro meses e 12 dias, até o impeachment de Dilma Rousseff. 

Não é o maior no volume de furto. Mas o mais indecente na natureza do butim: o pagamento de propina para políticos fiéis a esse desgoverno e a seu partido, o PT, tungando sem anuência da folha de pagamento de um ministério, o do Planejamento, a cada mês e em taxas módicas, o suficiente para passar em brancas nuvens e “sair na urina”. Paulo Bernardo, duas vezes ex-ministro, despontou no alto da ponta desse iceberg.

O fio da meada da devassa, feita pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF) sob a égide de um juiz isento e insuspeito, foi puxado do depoimento do vereador Alexandre Romano, de Americana, na Operação Lava Jato. Não há, contudo, como estabelecer conexão com um laivo de perseguição do implacável Moro e seus intocáveis. Tornada notória na mesma ocasião em que o coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, cunhou o lema do caráter devastador do roubo generalizado do dinheiro público no Brasil – “a corrupção é um serial killer sorrateiro” –, a operação jurídico-policial carrega a denominação mais exata do que qualquer outra antes empreendida. Custo Brasil diz tudo.

Os funcionários que tomaram empréstimos consignados de 2010 a 2015 pagaram R$ 1,25 pelos serviços da consultoria Consist, que, na verdade, custaram R$ 0,30, ou seja, um quarto. Do restante foram originados os R$ 100 milhões entregues aos ex-tesoureiros do Partido dos Trabalhadores João Vaccari Neto e Paulo Ferreira. Ex-deputado federal pelo PT do Paraná, o ministro do Planejamento de Lula e de Comunicações de Dilma ficou, segundo os investigadores, com R$ 7 milhões. Isso parece lana-caprina se comparado com os bilhões furtados de Petrobrás, BNDES e fundos de pensão.

Mas o procurador Andrey Borges de Mendonça, ao descrever o furto, lembrou que “a corrupção não é um privilégio da Petrobrás”, ela “está espraiada como um câncer”, e “o coração do governo estava agindo por esse mal”. Esse vício maligno, descrito por Dallagnol como “uma assassina sorrateira, invisível e de massa... que se disfarça de buracos de estradas, de falta de medicamentos, de crimes de rua e de pobreza”, acabou flagrado ao sair do bolso dos contribuintes para rechear contas bancárias de bandidos, passando pela folha de pagamento de servidores enganados de forma fria e cruel.

A Custo Brasil desnuda ainda uma expressão funesta da representatividade de nossa democracia: o corporativismo nefasto de “representantes” dos cidadãos, que mimam parceiros da corporação política e esquecem os representados. O PT, fundado para pôr fim à politicagem e à corrupção, não se solidarizou com os servidores, dos quais 46% dos sindicatos são filiados à CUT, nem com os mutuários de “sua” Bancoop ou os acionistas de “nossa” Petrobrás. Mas, sim, com ex-tesoureiros e mandatários vassalos do desgoverno afastado.

O Senado, por decisão do presidente, Renan Calheiros (PMDB-AL), exigiu do Supremo Tribunal Federal (STF) a anulação da busca e apreensão na casa de Bernardo, pedida pelos promotores, autorizada pelo juiz e efetuada pelos policiais. Motivo: o preso é casado com uma ex-chefe da Casa Civil de Dilma, Gleisi Hoffmann, que, senadora, tem direito a impunidade seletiva, vulgo foro privilegiado. Assim, o “direito alagoano” reescreve o romano e o anglo-saxônico ao instituir o puxadinho do privilégio, garantido no foro de Murici, em que os dois gozam o benefício de um pelo tálamo de ambos.

Essa comiseração corporativista inspirou a desfaçatez dos maganões. Com o tom exaltado com que execra Dilma, mas sem mais autoridade para manter a exaltação ao impeachment, o líder tucano na Casa, Cássio Cunha Lima, vociferou contra a violência de juiz, promotores e policiais, que “humilharam” a coleguinha casada com o indigitado. Sem levar em conta que o juiz tinha vedado na busca a coleta de quaisquer pertences ou documentos da esposa do procurado. O insigne líder do partido, que jura fazer oposição, não fez justiça aos funcionários furtados, mas aderiu ao coro mudo dos omissos, em que petroleiros calam quanto à bancarrota da Petrobrás, bancários ignoram o uso desavergonhado do BNDES e sindicalistas, o arrombamento dos fundos de pensão.

Na algaravia geral brasileira não se ouve uma só voz que se apiade do cidadão comum ou zele pela Pátria, mãe gentil.


Todos são solidários a Gleisi, mas ninguém o é às vítimas do furto de que o marido é acusado


domingo, 21 de março de 2010

E o professor Delúbio, hein?

(Transcrito do blog do Reinaldo Azevedo, em 21-03-2010)

"APEOESP – PROFESSORES, A CORRENTE DE BEBEL E O PROFESSOR DELÚBIO SOARES

A VEJA desta semana publica uma reportagem que evidencia que o limite de um petista pode ser a falta de vergonha na cara de um outro petista. Delúbio Soares, acreditem, foi chamado para ser o patrono de 22 formandos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de Goiatuba, no interior de Goiás. Ou melhor: ele foi mais ou menos convidado. Os estudantes confeririam a honraria a quem desse grana para a festa. Fizeram a oferta para Delúbio, ele aceitou, depositou R$ 6 mil na conta da moçada e apareceu para dar a sua palestra. Sabem sobre o que ele falou? SOBRE ÉTICA NA POLÍTICA.

Isso não é uma piada. Aconteceu assim mesmo. Faz sentido, né? Se é para Delúbio falar sobre ética, isso tem de ter um preço. Se você ainda não o fez, leia oi post ”ACREDITEM! ISTO ACONTECEU! EU JURO!!!” . E não é que o companheiro já andou deixando seus rastros na Apeoep, o sindicato de professores da rede oficial de ensino de São Paulo. Isto mesmo: aquele presidido pela notória Bebel, que comanda uma greve política da categoria. O sindicato, como sabem, é filiado à CUT e não passa de uma aparelho sindical do PT. Sigamos.

Leiam esta maravilha publicada no site do próprio Delúbio, no dia 1º de setembro do ano passado. Controlem o estômago e leiam até o fim:

"Os movimentos sindical e estudantil, através da juventude da APEOESP e do Movimento ParaTodos, ambos referenciados na corrente Artsind e CNB do Partido dos Trabalhadores, realizou nos dias 29 e 30 de agosto o “I Seminário Juventude: Desafios e Perspectivas na construção de um novo modelo de Educação”.Através desse seminário foi possível articular os movimentos estudantil e sindical na formulação e ação em defesa de um projeto educacional a serviço da construção de um país mais justo, solidário e socialmente sustentável.Com isso, a certeza de que a educação é estratégica para alcançar um projeto de desenvolvimento nacional que vise à emancipação do povo, bem como a construção de um mundo melhor foram os norteadores de toda a discussão do seminário.Essa atividade contou com a presença de várias lideranças do Partido dos Trabalhadores e do movimento sindical e popular, presentes em diversas regiões do Estado de São Paulo.Ao final do primeiro dia de debate, houve o lançamento da revista do nosso companheiro Delúbio Soares, que além de contar sua trajetória política na militância social e partidária, também discutiu conosco conjuntura e a história do Partido dos Trabalhadores.O convite feito ao nosso companheiro Delúbio Soares parte do entendimento do seu papel, não só na construção da história vitoriosa que o PT possui, mas também na sua contribuição para a trajetória da esquerda brasileira. É fundamental que a juventude resgate a todo o momento aqueles e aquelas que foram e são fundamentais na história do PT, como reconhecimento de que ninguém começa a História, senão contribui para mover a história de coletivos que fazem, por sua vez, girar a roda maior da luta por transformações radicais.Sendo assim, o debate com nosso Delúbio é central para uma juventude militante, combativa e que não se cala frente a ataques constantes à nossa história de lutas e nas idéias pelas quais acreditamos e defendemos.É preciso que o conjunto do Partido dos Trabalhadores não só compreenda, mas também defenda a história de Delúbio Soares que, cumpriu e cumpre um papel fundamental na luta pelo outro mundo possível.Nós da Juventude da APEOESP - Artsind - e da Juventude do PT - Construindo um Novo Brasil - apoiamos a reintegração do companheiro Delubio Soares ao Partido dos Trabalhadores.Por fim, reiteramos: Delúbio Soares, a juventude está presente na defesa de sua trajetória e se orgulha de poder chamá-lo de companheiro na luta da esquerda brasileira!Juventude da Artsind / APEOESP e Movimento PARATODOS / Juventude do PT".

Voltei. Adivinhem a qual corrente pertence a ínclita Bebel, que comanda a greve política da Apeoesp? Acertaram! Justamente à “Artsind”, ou Articulação Sindical, aquela empenhada em resgatar a biografia do nobre Delúbio Soares, que, com viram, foi chamado a dividir com seus pares a sua notável experiência.

Não basta dizer que a greve da Apeoesp (e não dos professores) — com a sua pauta obscurantista e contrária à qualidade na educação — é tocada pelo PT. É preciso que fique claro que ela é comandada pelo pior do PT, se é que se pode falar assim. Os vínculos da direção do sindicato com o partido são óbvios, e os de Bebel são escancarados. Sua militância lhe rendeu até uma cadeira no Conselho Nacional de Educação. Uma pesquisa rápida na Internet evidenciará as vezes em que esta senhora deixou claro que sua luta é contra o governo do PSDB, contra “a educação tucana”. Vale dizer: trata-se de uma ação político-partidária. A reivindicação salarial não passa de cortina de fumaça para uma tarefa que, parece-me, é de alcance puramente eleitoral.

Ora, Serra será o candidato do PSDB à Presidência da República. É um candidato que se opõe ao nome escolhido pelo PT e apoiado pela CUT, pela Apeoesp e pela Artsind — aquela corrente que recebe lições de educação, moral e civismo de Delúbio Soares. Para tanto, Bebel usa os professores como massa de manobra, os estudantes pobres como bucha de canhão e Delúbio Soares como mestre."

ABSOLUTAMENTE PEDAGÓGICO!