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domingo, 24 de janeiro de 2016

Nem ouriço, nem raposa (Estadão)





É muito grave que o Banco Central tenha renunciado ao pouco que restava de sua autonomia e de sua credibilidade, submetendo-se de vez aos desígnios da presidente Dilma Rousseff. Mais grave ainda, porém, é a conclusão óbvia de que Dilma, agora definitivamente a senhora absoluta da política econômica, seja incapaz de dizer o que pretende – e não apenas em razão de sua notória limitação para expressar suas ideias, mas sim porque a petista não sabe o que quer.

Dessa maneira, não se pode condenar os empresários e investidores que hesitam na hora de apostar na recuperação do Brasil, prometida por Dilma. Afinal, é preciso ser muito cândido para se arriscar a fazer investimentos de longo prazo num país cuja presidente perambula às tontas entre a necessidade evidente de ajustar a economia e a destrambelhada ideologia estatista gravada em sua alma.

O episódio envolvendo o Banco Central, que criou enorme incerteza a respeito do controle da inflação, é revelador do que vai por este governo, que trocou o planejamento pela esquizofrenia. Não há nenhuma maneira de prever se Dilma Rousseff está realmente disposta, como diz, a enfrentar o desafio de realizar um verdadeiro ajuste fiscal, de manter os índices de preços dentro da meta estabelecida e de promover as reformas que são urgentes para desafogar o Estado e restabelecer a confiança do setor produtivo.

A presidente não consegue convencer nem mesmo seu partido, o PT, da necessidade de apertar o cinto, talvez porque ela mesma não esteja certa disso. Todas as medidas de corte de gastos prometidas por Dilma foram apenas parcialmente adotadas, e a muito custo. Diante dessa gritante falta de convicção, não surpreende que o Congresso lhe seja terreno pedregoso, e que lá ninguém tenha ânimo para defender medidas cuja eventual impopularidade a própria presidente tem pavor de enfrentar. Assim, o único labor ao qual a tropa de choque do Planalto tem se dedicado com afinco é o toma lá da cá com os partidos aliados para evitar o impeachment.

Essa não é uma situação circunstancial. As agruras do País se devem à incapacidade de Dilma de exercer o cargo que ocupa. A presidente não conseguiu construir, ao longo de cinco anos, o proverbial patrimônio de credibilidade ao qual os estadistas recorrem em momentos de crise. Falta-lhe o conjunto de qualidades que assegurariam à Nação a certeza de que, por pior que fosse a tormenta, sempre haveria uma liderança competente para conduzir o Brasil a bom porto.

Ao contrário: o imenso edifício da crise atual, como já sabe a maioria dos brasileiros, foi construído, tijolo por tijolo, por Dilma em pessoa. Logo, como nada tem a oferecer para provar que é capaz de fazer o que tem de ser feito, resta-lhe bradar que é “honesta”, como se não fosse essa uma obrigação e como se apenas honestidade fosse bastante e suficiente neste momento.
O Brasil está paralisado porque ninguém sabe o que se passa na cabeça da pessoa que tem a responsabilidade de tomar as decisões que terão impacto na vida de todos. Antes de sua reeleição, Dilma prometia manter firmes os fundamentos da economia; durante a campanha, atacou todos aqueles que apontavam a necessidade do ajuste fiscal ante o crescente descalabro das contas; reeleita, a petista voltou a garantir que controlaria a inflação e enxugaria gastos. Agora, fala em ajuste, mas à base de mais impostos e de estímulos que já se provaram aziagos.

Esse zigue-zague de Dilma resultou numa disparada da inflação, no descontrole dos gastos e na alta do desemprego. Sua falta de credibilidade contaminou todo o governo – a última vítima foi o Banco Central.


A passagem de Dilma pela Presidência, de tão insensata, poderia inspirar a lembrança de um aforismo grego recuperado pelo filósofo Isaiah Berlin: “A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante”. Dilma não é nem a raposa, que sabe muitas coisas, nem o ouriço, que sabe uma coisa muito importante. Ela não sabe nada.