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domingo, 15 de maio de 2016

Biodiversidade (Vittorio Medioli)


Um crítico das ações e posicionamentos adotados por Vittorio Medioli, fundador do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, afirmou a seu respeito:

“Enquanto portador de um método de análise sistêmico da complexidade, observa-se em Medioli sua indiferença e completo distanciamento, quando não hostilidade, sobre a fundamental questão da sobrevivência dos ecossistemas integrados como base da vida na Terra, da economia e da política. O escritor, pela sua capacidade e posição, poderia ajudar a construir essa ponte tão necessária à superação dos desequilíbrios socioecológicos atuais, que nada têm a ver com a recente conferência de Paris baseada no comércio de créditos de carbono e monoculturas com exportação de commodities”.

Respondendo à atrevida formulação, o ex-deputado do PV, assim escreveu o que segue abaixo.


"O estímulo para entrar no assunto de hoje está aí acima" (ponderou o ilustre empresário e genuíno praticantes das artes ambientais, na sua costumeira coluna publicada no jornal O Tempo, todos os domingos).


"Ecologia e preservação são uma religião que pratico em silêncio, com gestos e exemplos práticos, atendendo o chamado da minha consciência e do ensinamento que recebi por mestres que me educaram. O ambientalismo no Brasil está sendo monopolizado por fariseus na porta do templo.

A natureza é o encantador presente de Deus, Sua Manifestação. Assim a sinto e a respeito.

Ensinei as minhas filhas, já com quatro anos de idade, a considerar os passeios na praia e os mergulhos ao fundo do mar como um dever de recolher resíduos que os incultos despejam na natureza e nas águas.

Passamos férias inteiramente dedicadas a catar lixo. Minhas filhas tiveram a alegria de devolver prazer aos olhos de pessoas sensíveis e vida melhor aos animais. Sentimos juntos um prazer suficiente a si mesmo, importante como qualquer dever cumprido. Em silêncio, em comunhão com a natureza, tão rica de forças incalculáveis.

Aos domingos, quando caminho à beira da lagoa da Pampulha com minhas cadelas, recolho descartes que as pessoas deixam cair, os coloco nas lixeiras com muita alegria. Sou um gari por prazer, sem me sentir bobo. Em 1993, quando a lagoa, por omissão da prefeitura, foi tomada de aguapés, coloquei, pagando do meu bolso, máquinas e barcos para a retirada de 24 mil caminhões dessa manta verde desafiadora, degradante e geradora de pernilongos. O exemplo levou os prefeitos de BH a tomar vergonha, e a cuidar da lagoa. Mais que lamúrias e denúncias, o exemplo gerou soluções duradouras.

Eu sinto na alma a obrigação de deixar o lugar que frequento melhor de quanto o encontrei, mesmo sem fiscais ameaçadores. Se toda a humanidade deixasse o local que frequenta mais agradável, não haveria muitas preocupações ou necessidade de defensores da natureza.

Eu guardo o lixo no bolso ou no carro e o deposito em recolhedores seletivos. Descartes orgânicos, como cascas de banana e de frutas, uso nos canteiros do meu jardim de adubação. Colho sementes nas minhas viagens e tenho em meu jardim árvores frutíferas e jacarandás que trouxe no bolso da Ásia e da Itália, onde nasci.

Já plantei 12 mil hectares de terras degradadas, 22 milhões de árvores, quase uma árvore por habitante de Minas. Ainda, as empresas que administro plantam cana e produzem 100 milhões de litros de bioetanol por ano de fonte renovável. Um litro para cada litro de diesel que os caminhões que usamos na empresa consomem. Produzimos ainda energia de biomassa para atender o consumo inteiro de nossas atividades produtivas e para o uso doméstico de mais de 400 mil pessoas.

Essas compensações, entre emissões e sequestros de CO², se dão não por imposição ou por lei. Decisão espontânea, ditada pela consciência.

O Estado, entretanto, apenas atrapalha, não orienta, cobra injustamente e velhacamente a pretexto da natureza. Cria dificuldades que atrasam o progresso, usa hipocrisia desavergonhada para cobrar o que não pode e não deve.

Cada árvore na natureza é sagrada, mas mais sagrado ainda é o ser humano. O uso das árvores deve ser feito para um fim nobre, para proveito humano. Pessoalmente me dedico com prazer ao repovoamento das margens de lagoas, de curso de água, de beiras de rios. Sinto as forças que me chegam dessas atitudes na natureza.

Como o Mestre, que não tinha apreço dos fariseus (falsos e interesseiros), o mesmo não consigo ter dos modernos fariseus ambientalistas. Não há amor e nem interesse outro que seja o dinheiro.

Já participei de um partido eminentemente ambientalista, achando que nesse encontraria um ambiente limpo e voltado à sustentabilidade, mas encontrei a aridez do deserto.

O ambientalismo brasileiro é desqualificado e mal-intencionado. A delinquência anda solta; apenas aqui em Minas, nos últimos anos, a PF flagrou um presidente da Feam e um secretário de Estado em grave desvio de conduta. Aqui ruiu a barragem de Mariana, licenciada a toque de caixa, e denunciada como obra criminosa antes mesmo de ruir.

Devo confessar que tentei entrar nos círculos do ambientalismo para somar, só que encontrei a ganância ditando insolentemente discursos. Nem todos são assim, desprovidos de genuíno interesse. Tem caçadores de bruxas, fabricantes de dificuldades para, assim, parentes e laranjas cobrar caras facilidades. É um ambiente que produz desastres e deixou Minas uma colcha de retalhos.

O que se enxerga sem lupa é a existência de esquemas que olham o proveito exclusivamente próprio. Raposas em galinheiro, como a PF flagrou.

Autorização de um replantio de floresta de eucalipto no Jequitinhonha pode ficar oito anos (sem um santo forte) para ser liberado. No Norte de Minas, para poder utilizar a lenha de um desmate, se paga uma taxa ambiental três vezes superior ao valor da lenha que já pagou compensação ambiental. Absurdos e anacronismos emparedando quem trabalha.

Nas entrevistas em off, corrupção e máfia são os problemas mais lembrados, o caso de Mariana dá uma confirmação.

Dormem nas gavetas do ambientalismo de Estado mais de 80 mil empreendimentos ou 1,5 milhão de empregos. Aguardam render ganhos aos esquemas, enquanto o próprio Estado se priva de uma arrecadação de alguns bilhões a cada ano e o povo amarga o desemprego. Esses são os produtos de um ambientalismo perverso e que impera.

A mortalidade de empresas e o desânimo para montar outras são a realidade.

Para responder ao leitor, confesso que minha vida já foi vivida, faço o que posso.

Mantenho minha consciência ligada e tento expandi-la, já que, depois de acesa, não mais se apagará. Procuro nos exemplos, distribuindo mudas nativas a cada ano, replantando florestas que atendem a humanidade em suas necessidades. Compenso o que emito. Tenho, contudo, pena dos jovens que deverão erguer um novo sistema depois de demolir o atual.

O resto a Deus pertence e Dele aguardo o prêmio e o castigo por minhas ações. Peço apenas e sempre misericórdia".

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Francisco: LAUDATO SI'


LAUDATO SI’


DO SANTO PADRE

FRANCISCO

SOBRE O CUIDADO DA CASA COMUM



1. «LAUDATO SI’, mi’ Signore – Louvado sejas, meu Senhor», cantava São Francisco de Assis. Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços: «Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras».

2. Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que «geme e sofre as dores do parto» (Rm 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos.


Nada deste mundo nos é indiferente.

(Primeiros parágrafos)

Papa Francisco e a ecologia (editorial do Estadão - 21/06/2015)


Encíclicas papais não são objeto de grande expectativa por parte do mundo científico. No entanto, a nova carta do papa Francisco a respeito do meio ambiente – Laudato Si’ – estava sendo aguardada ansiosamente por muitos cientistas, ao perceberem que poderiam ter no Sumo Pontífice um importante aliado na defesa do planeta. E Francisco não se fez de rogado – pôs, com clareza, as cartas na mesa. O planeta é a casa comum de todos os homens, está sendo mal tratado e mudar essa situação exige, também de todos, uma nova atitude, pessoal e política.

Prudentemente, a encíclica não entra nas polêmicas científicas envolvendo as mudanças climáticas e a atuação humana. Francisco diz que, “sobre muitas questões concretas, a Igreja não tem motivo para propor uma palavra definitiva e entende que deve escutar e promover o debate honesto entre os cientistas, respeitando a diversidade de opiniões”. O papa explica que a Igreja Católica não está assumindo como própria uma determinada solução científica, “porque não existe só um caminho de solução”.

A prudência do texto, no entanto, não significa que Francisco evite adotar posições firmes. Em linguagem franca, o papa alerta para a gravidade do desafio ambiental, em suas inúmeras frentes: a poluição e as mudanças climáticas, a questão da água, a perda da biodiversidade, a deterioração da qualidade da vida humana e a degradação social, a desigualdade no planeta e – muito especialmente – a fraqueza, até o momento, da reação política internacional para enfrentar todos esses desafios. É sobre esse ponto que o papa deseja despertar a consciência de todos, não apenas dos católicos. “Torna-se indispensável criar um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas”, escreve Francisco, para logo adiante continuar: “A submissão da política à tecnologia e à finança demonstra-se na falência das cúpulas mundiais sobre o meio ambiente. Há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a informação para não ver afetados os seus projetos”.

O texto papal vincula o problema ambiental à questão moral. Francisco faz questão de mostrar que não são campos estanques. E aqui reside o sentido profundo da proposta do papa. Sua visão a respeito da ecologia engloba as questões humanas. Utiliza, por exemplo, o termo “ecologia integral” para incluir nas preocupações ambientais as questões sociais, tais como a pobreza, a miséria, o déficit habitacional. A sua defesa do meio ambiente inclui necessariamente o desenvolvimento humano.

Ao mesmo tempo, Francisco refere-se à “raiz humana da crise ecológica”, lembrando que os problemas ambientais se originam na ação dos homens. Tal afirmação não parte das descobertas científicas. Ele argumenta em termos morais, o que poucos homens públicos no mundo podem fazer com igual alcance e autoridade.

Ainda que por outras vias, Francisco chega à mesma conclusão a que o mundo científico chegou há tempos – o homem precisa instaurar um novo modo de relacionar-se com o planeta. Francisco faz isso utilizando-se de referências bíblicas para dialogar com todos, não apenas com os que creem nos dogmas católicos. E usa especialmente o relato da criação do mundo do Gênesis, que não poucas vezes foi utilizado para justificar uma atuação irresponsável do homem, em razão de sua suposta supremacia sobre o restante da natureza, para mostrar exatamente o oposto. O ser humano não é o dono da criação – é apenas o jardineiro. Cabe a ele “cultivar e zelar pelo jardim do mundo”. Com o seu trabalho, o homem deve preservar o meio ambiente, sabendo transmiti-lo integralmente às futuras gerações.

Ao criticar o antropocentrismo moderno – que faz prevalecer a “razão técnica” e, em última análise, o egoísmo e a ganância –, o papa Francisco propõe um reequilíbrio entre homem e meio ambiente. Deseja um mundo mais sustentável, mais responsável, mais solidário – e isso certamente não afeta apenas o mundo católico.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A FALTA QUE O RESPEITO FAZ - Leonardo Boff

Publicado no blog do Noblat, em 29-08-2011)

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A FALTA QUE O RESPEITO FAZ

A cultura moderna, desde os seus albores no século XVI, está assentada sobre uma brutal falta de respeito.

Primeiro, para com a natureza, tratada como um torturador trata a sua vítima com o propósito de arrancar-lhe todos os segredos (Bacon). Depois, para com as populações originárias da América Latina.

Em sua “Brevíssima Relação da Destruição das Indias”(1562) conta Bartolomé de las Casas, como testemunho ocular, que os espanhóis “em apenas 48 anos ocuparam uma extensão maior que o comprimento e a largura de toda a Europa, e uma parte da Ásia, roubando e usurpando tudo com crueldade, injustiça e tirania, havendo sido mortas e destruídas vinte milhões de almas de um país que tínhamos visto cheio de gente e de gente tão humana” (Décima Réplica).

Em seguida, escravizou milhões de africanos trazidos para as Américas e negociados como “peças” no mercado e consumidos como carvão na produção.

Seria longa a ladainha dos desrespeitos de nossa cultura, culminando nos campos de extermínio nazista de milhões de judeus, de ciganos e de outros considerados inferiores.

Sabemos que uma sociedade só se constrói e dá um salto para relações minimamente humanas quando instaura o respeito de uns para com os outros. O respeito, como o mostrou bem Winnicott, nasce no seio da família, especialmente da figura do pai, responsável pela passagem do mundo do eu para o mundo dos outros que emergem como o primeiro limite a ser respeitado.

Um dos critérios de uma cultura é o grau de respeito e de autolimitação que seus membros se impõem e observam. Surge, então, a justa medida, sinônimo de justiça. Rompidos os limites, vigora o desrespeito e a imposição sobre os demais. Respeito supõe reconhecer o outro como outro e seu valor intrínseco seja pessoas ou qualquer outro ser.

Dentre as muitas crises atuais, a falta generalizada de respeito é seguramente uma das mais graves. O desrespeito campeia em todas as instâncias da vida individual, familiar, social e internacional. Por esta razão, o pensador búlgaro-francês Tzvetan Todorov em seu recente livro “O medo dos bárbaros” (Vozes 2010) adverte que se não superarmos o medo e o ressentimento e não assumirmos a responsabilidade coletiva e o respeito universal não teremos como proteger nosso frágil planeta e a vida na Terra já ameaçada.

O tema do respeito nos remete a Albert Schweitzer (1875-1965), prêmio Nobel da Paz de 1952. Da Alsácia, era um dos mais eminentes teólogos de seu tempo. Seu livro “A história da pesquisa sobre a vida de Jesus” é um clássico por mostrar que não se pode escrever cientificamente uma biografia de Jesus.

Os evangelhos contém história mas não são livros históricos. São teologias que usam fatos históricos e narrativas com o objetivo de mostrar a significação de Jesus para a salvação do mundo. Por isso, sabemos pouco do real Jesus de Nazaré.

Schweitzer comprendeu: histórico mesmo é o Sermão da Montanha e importa vivê-lo. Abandonou a cátedra de teologia, deixou de dar concertos de Bach (era um de seus melhores intérpretes) e se inscreveu na faculdade de medicina. Formado, foi a Lambarene no Gabão, na África, para fundar um hospital e servir a hansenianos. E ai trabalhou, dentro das maiores limitações, por todo o resto de sua vida.

Confessa explicitamente: ”o que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum sentido. O que importa mesmo é tornar-se um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma coisa, por pequena que seja”.

No meio de seus afazares de médico, encontrou tempo para escrever. Seu principal livro é: ”Respeito diante da vida” que ele colocou como o eixo articulador de toda ética. “O bem”, diz ele, “consiste em respeitar, conservar e elevar a vida até o seu máximo valor; o mal, em desrespeitar, destruir e impedir a vida de se desenvolver”.

E conclui: ”quando o ser humano aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante; a grande tragédia da vida é o que morre dentro do homem enquanto ele vive”.

Como é urgente ouvir e viver esta mensagem nos dias sombrios que a humanidade está atravessando.



(Leonardo Boff é autor de “Convivência, Respeito, Tolerância”,Vozes 2006).