quinta-feira, 19 de maio de 2011

Ministério da Desigualdade Social

"O nome oficial é Ministério da Educação, mas podem chamá-lo Ministério da Desigualdade. Ministério da Incompetência também serve: a palavra tanto se aplica à atuação de seus dirigentes quanto se aplicará à condição das vítimas do padrão educacional proposto no livro “Por Uma Vida Melhor”, comprado e distribuído pelo governo. A presidente Dilma Rousseff prometeu trabalhar pela redução da miséria. Se quiser fazê-lo, terá de cuidar da qualificação de milhões de brasileiros para o trabalho. Mais que isso, terá de promover sua preparação para trabalhar numa economia cada vez mais complexa e exposta à competição internacional. Tratar os pobres como coitadinhos e incapazes conduzirá ao resultado oposto. Se há preconceito, não é de quem considera errada a violação da gramática. Preconceituoso e elitista é quem condena o pobre a uma instrução de baixa qualidade e ainda o aconselha a contentar-se com isso.

Os problemas de formação profissional e o mau desempenho dos alunos brasileiros em testes de avaliação foram apontados com suficiente clareza em artigo de Carlos Alberto Sardenberg, publicado anteontem neste caderno. Concorrentes do Brasil, incluída a China, estão empenhados em oferecer uma educação muito melhor a seus estudantes. Em vez de tratar os pobres como inferiores, autoridades educacionais desses países cuidam de prepará-los para se igualar aos melhores do mundo.

Não é preciso insistir nesse ponto. Mas é indispensável chamar a atenção para a concorrência em outro nível. No Brasil, quem tem bom senso e condição econômica tenta oferecer aos filhos a melhor educação possível. Pais instruídos procuram boas escolas e valorizam aquelas conhecidas pelo alto padrão de exigência. Rejeitam a ideia do diploma conquistado pelo caminho fácil. Além disso, estimulam os filhos a frequentar cursos de línguas e a envolver-se em atividades intelectualmente estimulantes. Nas melhores escolas, crianças pré-adolescentes são treinadas para combinar criatividade e rigor. Assim como as autoridades dos países mais dinâmicos e competitivos, as famílias brasileiras mais atentas aos desafios do mundo real continuarão em busca dos padrões educacionais mais altos.

Famílias saídas há pouco tempo da pobreza também reconhecem a importância de oferecer uma boa formação a seus filhos e por isso procuram escolas particulares. “Meu filho só tem 5 aninhos e já está aprendendo a ler e a escrever. Nessa idade, na escola pública, ninguém sabe nada ainda”, disse uma agente de saúde citada em reportagem publicada no Estado de domingo.

Outra personagem da história explicou: “Não é metideza, é necessidade. Eu trabalho como empregada doméstica o dia todo. Meu marido é coletor de lixo e também passa o dia fora. Pagar a escola para a Gecielle foi a melhor opção”. Mas ela descobriu também outra vantagem: “Com meus outros dois filhos não pude (pagar). A situação era muito pior. Na escola pública onde eles estudam já teve tiroteio. Na da Gecielle não tem nada disso e ela ainda aprende mais, tem lição de casa e tudo”. Pois é: ela aprende, tem lição de casa e a mãe se mostra convencida de ter feito um bom negócio. As duas entrevistadas apostam nos filhos, apertam o cinto para pagar a escola e têm uma clara visão dos problemas: crianças pobres aprendem, como quaisquer outras, quando têm oportunidade.

Tratar os pobres com paternalismo, como pessoas incapazes de aprender a língua oficial e de aguentar os padrões de uma escola séria, é condená-los a ficar para trás, marginalizados e limitados às piores escolhas. Apoiar essa política é agir como se o mundo fosse esperar os mais lentos. Em países com políticas sociais decentes a solução é dar um impulso extra às pessoas em posição inicial desvantajosa.

O paternalismo é muito mais vantajoso para quem concede benefícios do que para quem recebe. Massas protegidas por Pais ou Mães do Povo tendem a ser dominadas com facilidade e nunca exercem plenamente a cidadania. Tratá-las como pessoas irremediavelmente inferiores é condená-las a ser politicamente subdesenvolvidas. Ensiná-las a conformar-se com “nóis vai” e “os menino joga bola” é vedar-lhes o acesso a aprendizados mais complexos e à possibilidade de pensar livremente. As oportunidades serão cada vez mais limitadas para os monoglotas. Muito piores serão as condições dos semiglotas, embora alguns, muito raramente, possam até presidir um país.

A presidente Dilma Rousseff parece haver renunciado ao papel de Mãe do Brasil, planejado por seu antecessor e grande eleitor. Ao anunciar a intenção de oferecer aos pobres a porta de saída dos programas assistenciais, ela mostrou preferir um caminho mais democrático. Mas, para segui-lo, precisará livrar-se do entulho do paternalismo e da demagogia. Uma faxina no Ministério da Educação ajudaria muito."

Fonte: Rolf Kuntz, in O Estado de S. Paulo, 18/05/2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

VALORES REAIS E VALORES PROCLAMADOS

"VALORES PROCLAMADOS E VALORES REAIS NAS INSTITUIÇÕES ESCOLARES BRASILEIRAS -
(Anísio Teixeira)


1) Duplicidade da aventura colonizadora na América

A descoberta da América pelos europeus, nos fins do século quinze, deu lugar a uma transplantação da cultura européia para este Continente. Tal empreendimento constituiu, porém, uma aventura impregnada de duplicidade. Proclamavam os europeus aqui chegarem para expandir nestas plagas o cristianismo, mas, na realidade, movia-os o propósito de exploração e fortuna. A história do período colonial é a história desses dois objetivos a se ajudarem mùtuamente na tarefa real e não confessada da espoliação continental.A vida do recém-descoberto Continente foi, assim, desde o começo, marcada por essa duplicidade fundamental: jesuítas e bandeirantes; "fé e império"; religião e ouro. O português e o espanhol que aqui aportavam não eram cristãos, mas, quando muito, "cruzados". Não vinham organizar nem criar nações mas prear... Esta obra destruidora e predatória nunca se confessava como tal, revestindo-se, nas proclamações oficiais, com o falso espírito de cruzada cristã.De mistura com ansiosa indagação sobre ouro e minas, o primeiro ato público dos portugueses no Brasil foi a celebração da Santa Missa, e o nome que deram à Terra, o de Santa-Cruz e Vera-Cruz, pouco depois vencido pelo "de um pau de tingir panos", mas que produzia ouro.Nascemos, assim, divididos entre propósitos reais e propósitos proclamados. A essa duplicidade dos conquistadores seguiu-se a duplicidade da própria sociedade nascente, dividida entre senhores e escravos, dando assim ao contexto social do continente recém-descoberto o caráter de um anacronismo, mesmo em relação à Europa, na época, em plena renovação social e espiritual.

Quatro séculos e meio após a descoberta, essa obscura e desabusada colonização oferece-nos o quadro seguinte: parte do hemisfério norte foi definitivamente conquistada e organicamente integrada em duas nações, de origem anglo-saxônica. Estas duas nações lideram, nesta parte do planeta, a revolução democrática e a revolução científica.Para isto, os Estados Unidos (o Canadá é caso à parte) tiveram de destruir o índio "pagão", travar uma guerra de independência contra a Metrópole e, nos meados do século passado, se esvaírem numa das mais tremendas guerras civis que, até aquele momento, registrara a história. Os mortos se elevaram a mais de um milhão só do lado do Norte, enquanto a população total da nação não excedia trinta milhões.

Se dualidade e duplicidade houve, pois, nessa parte norte continente, como de fato houve, entre colonizados e colonizadores, primeiro, e, depois, entre escravistas e capitalistas ou, mais exatamente, entre fazendeiros-patriarcas (Sul), ianques (Norte) e pioneiros (Oeste), tais divisões e conflitos se fizeram suficientemente claros e abertos, para se decidirem no campo de batalha.

A observação vale para mostrar que a sociedade em busca de sua orgânica integração, se não consegue superar pacìficamente as força que a dissociam, cai, ao que parece, inelutavelmente, na revolução e na guerra civil.Abaixo do Rio Grande, desde o México até a Argentina e o Chile, somos, depois de rápidas lutas pela independência, no século dezenove, um grupo de nações mergulhadas nesse processo de organização e integração, com maiores ou menores regressos, todas lutando para efetivar as indispensáveis incorporações e assimilações sem a tragédia da guerra civil que marcou a sociedade americana. Nem sempre há completa percepção da dificuldade da tarefa.

O velho vício da duplicidade mantém-nos, por vezes, no estado de descuidado enleio, com que escamoteamos a nós próprios a verdadeira realidade. Chegamos, em nossos hábitos, sob alguns aspectos, esquizofrênicos, a criar um tipo específico de revolução, misto de teatro e de espasmo de violência, a revolução insincera, a "revolução sul-americana"... É que a sociedade, ainda constituída na base de divisões e estratificações sociais até ontem toleradas, mas hoje, com os novos processos de comunicação e a "revolução das expectativas montantes", em ponto de perigo e de explosão, não ganhou completa consciência dos sinais que prenunciam as convulsões integradoras.

Para analisar essa situação sul-americana não é possível deixar de repetir observações que já se tornaram cediças. Nem o espanhol nem o português que aqui apartaram traziam propósitos de criar, deste lado do Atlântico, um mundo novo. Encontraram um mundo novo, que planejaram explorar, saquear e, assim enriquecidos, voltar à Europa. Viana Moog comentou, em páginas definitivas, o "sentido predatório" da aventura sul-americana em contraste com o "sentido orgânico" da formação norte-americana. Mundo novo "vinham fundar aqui" os peregrinos do Mayflower. Novo mundo encontraram aqui espanhóis e portugueses. O mundo novo dos americanos ia ser criado. O novo mundo dos espanhóis e portugueses iria ser saqueado. O saque prolongou-se, porém, e o regresso se retardou. Com o tempo, surgiram os espanhóis e portugueses nascidos no novo continente, filhos de espanhóis e portugueses das metrópoles.

Chamaram-se "criollos", entre os espanhóis e "mazombos", entre os brasileiros. Brasileiros é modo de dizer, pois "o termo brasileiro, como expressão e afirmação de uma nacionalidade", não chegara a existir até começos do século XVIII, conforme nos diz Viana Moog, que assim define o "mazombismo", expressão cultural, dominante, no Brasil, até fins do século passado, pouco importando que o nome tivesse desaparecido: "consiste (o mazombismo) na ausência de determinação e satisfação de ser brasileiro, na ausência de gosto por qualquer tipo de atividade orgânica, na carência de iniciativa e inventividade, na falta de crença na possibilidade do aperfeiçoamento moral do homem, em descaso por tudo quanto não fosse fortuna rápida, e, sobretudo, na falta de um ideal coletivo, na quase total ausência de sentimento de pertencer o indivíduo ao lugar e à comunidade em que vivia".

O radicalismo da formulação pode ser contestado, mas a afirmação é fundamentalmente verdadeira. Os "brasileiros" eram "europeus" nostálgicos, transviados nestas paragens tropicais. E como sucede em tais casos, nem eram aceitos pelos europeus, como europeus, nem pelos brasileiros mestiços, ou seja os primeiros brasileiros autênticos, como brasileiros. Esse tipo cultural, dúbio, ambivalente, nem peixe nem carne, acabou por criar nestas terras novas da América algo de congenitamente inautêntico, de congenitamente caduco, na cultura americana.

Não se tratava, com efeito, de reprodução das condições européias do momento, mas de um recuo, de uma restauração contraditória e anacrônica. O mazombo, dividido entre o desejo de regressar, o propósito de reproduzir a cultura da metrópole e as novas condições, o novo meio, a nova dinâmica da conquista, ignorava o próprio fato da transplantação cultural e a necessidade inevitável de adaptação e se perdia em impulsos ridículos de imitação e contrafação. Incapaz, pela sua irremediável duplicidade, de aceitar as modificações que o meio impunha, suprimia delas a possível força criadora, desnaturando o que havia de melhor no nascente esforço nacional.

Os "mazombos", com os "criollos", não eram europeus, nem sul-americanos... E assim hostis à sua própria terra acabaram por se constituírem objeto de um risonho desdém até do próprio mundo europeu, de que não se queriam desligar. A verdade é que resistiam às forças de formação nestas paragens de uma cultura autêntica, com o arraigado sentimento de estrangeiros em sua própria terra. Em vez de se voltarem para as possíveis deficiências ou diversificações da cultura européia em nosso meio e nelas buscar o sentido novo da adaptação local dos padrões transplantados, envergonhavam-se de tais modificações e chegavam até a procurar elidi-las ou escondê-las.

Mais do que isto. Chegaram à engenhosidade de pretender suprir as deficiências de nossa realidade humana e social por meio de revalidações legais. Já observei alhures que, em nosso mazombismo, com os olhos voltados para um sistema de valores europeus, que não conseguíamos ou não podíamos atingir, buscávamos, num esforço de compensação, "declarar", por ato oficiai ou legal, a situação existente como idêntica à ambicionada. Por meio desses "atos declaratórios" fazíamos, sem metáfora, de preto e branco, pois nada menos do que isso foram decretos declaratórios até de "branquidade", nos tempos coloniais, com os quais visávamos tornar "convencional" a própria biologia.

Bem sei que podemos olhar para tais fatos sob a luz das dificuldades de implantar nos trópicos uma civilização de tipo europeu e considerar tal duplicidade como esforço patético de assimilação pelo menos externa dos valores da metrópole.A realidade, porém, é que nos acostumamos a viver em dois planos, o "real", com as suas particularidades e originalidades, e o "oficial" com os seus reconhecimentos convencionais de padrões inexistentes. Enquanto fomos colônia, tal duplicidade seria explicável, à luz de proveitos que daí advinham para o prestígio do nativo, perante a sociedade metropolitana e colonizadora. A independência não nos curou, porém, do velho vício. Continuamos a ser, com a autonomia, nações de dupla personalidade, a oficial e a real. A lei e o governo não consistiam em esforços da sociedade para disciplinar uma realidade concreta e que lentamente se iria modificar. A lei era algo de mágico, capaz de subitamente mudar a face das coisas. Na realidade, cada uma de nossas leis representava um plano ideal de perfeição à maneira da utopia platônica. Chegamos, neste ponto, a extremos inacreditáveis. Leis perfeitas, formulações e definições ideais das instituições, e, como ponto entre a realidade, por vezes, mesquinha e abjeta, e essas definições ideais da lei, os atos oficiais declaratórios, revestidos do poder mágico de transfundir aquela realidade concreta em uma realidade oficial similar à prevista na lei.

Tudo podíamos metamorfosear por atos do governo! Não havendo correspondência entre o "oficial" e o "real", podíamos transformar toda a vida por atos oficiais. Como já acentuei, tudo isto era possível, graças, primeiro, ao dualismo de colônia e metrópole e, depois, ao dualismo de "elite" e povo, aquela diminuta e aristocrática, este numeroso, analfabeto e mudo. Reproduzíamos com esse dualismo nacional a situação colonial, mantendo a nação no mesmo estado de duplicidade institucional.

2) Dificuldade da "transplantação" dos sistemas escolares

Desejamos examinar, neste trabalho, quanto esse dualismo, dir-se-ia congênito, da sociedade sul-americana, veio agravar no Brasil, pois só a respeito do Brasil podemos dar testemunho, o dualismo das instituições escolares, que buscamos transplantar, dando origem a paradoxal processo de expansão, pelo qual exaltamos o aspecto mais velho e destinado a desaparecer dos sistemas escolares que procurávamos copiar.

Entre as instituições sociais, sabemos que a escola, mais do que qualquer outra, oferece, ao ser transplantada, o perigo de se deformar ou mesmo de perder os objetivos. A escola já é de si uma instituição artificial e incompleta, destinada apenas a suplementar a ação educativa muito mais extensa e profunda que exercem outras instituições e a própria vida. Deve, portanto, não só ajustar-se, mas inserir-se no contexto das demais instituições e do meio social e mesmo físico. A verdade é que a escola, como instituição, não pode verdadeiramente ser transplantada. Tem de ser recriada em cada cultura, mesmo quando essa cultura seja polìticamente o prolongamento de uma cultura matriz. No Brasil, a Universidade não chegou a ser transplantada. Motivos políticos levaram os colonizadores portugueses, ao contrário do que fez a Espanha, a esse ato de prudência pedagógica. Chegamos à independência sem imprensa e sem escolas superiores, com a maior parte de nossa elite formada nos colégios da Companhia de Jesus (cuja influência nunca poderá ser exagerada quanto a certos traços da tradição intelectual brasileira) e, a seguir, para a graduação superior, na Universidade de Coimbra, em Portugal, e assim continuamos, durante parte do império. Como que se percebia obscuramente o perigo de se transplantarem instituições delicadas e complexas como as da educação, sobretudo em seus níveis mais altos e, por isto mesmo, mais difíceis e complexos.

Durante toda a monarquia, já independentes, continuamos, quanto à expansão do sistema escolar, sumamente cautelosos e lentos. A classe dominante, pequena e homogênea, dotada de viva consciência dos padrões europeus e extremamente vigilante quanto à sua própria perpetuação, parece ter tido o propósito de manter restritas as facilidades de ensino, sobretudo de nível superior.Com a abolição e a república, entramos, porém, em período de mudanças sociais, que a escola teria de acompanhar. O modesto equilíbrio dos períodos monárquicos, obtido em grande parte à custa da lentidão de nossos progressos e de número reduzido de escolas, com que se procurava manter a todo transe a imobilidade social, rompe-se afinal e tem início a expansão do sistema escolar.

3)Evolução de sistemas escolares europeus

Antes de examiná-la, cabe, porém, uma digressão para se fixarem as linhas de evolução das instituições escolares nos países de onde recebíamos as influências maiores. É indispensável, preliminarmente, recordar que somente no século dezenove o Estado entrou a interferir, maciçamente, na educação escolar. E, a princípio, apenas para criar uma escola diversa das existentes, destinada a ministrar um mínimo de educação, considerado necessário para a vida em comum, democrática e dinâmica, da emergente civilização industrial.

Tal escola, ou seja, a escola primária, que logo se faz compulsória, não tem os objetivos da educação escolar tradicional, a que sempre existira, antes de o Estado se fazer educador, e que visava manter o alto status social do grupo dominante. A nova escola popular visa, tão-somente, e nunca é demais repetir, dar a todos aquele treino mínimo, considerado indispensável para a vida comum do novo cidadão no Estado democrático e industrial. A seu lado, continuava a existir a outra educação, a de "classe", com os seus alunos selecionados, não em virtude de seus talentos, mas de sua posição social e de seus recursos econômicos, ministrada em escolas que, de modo geral, se achavam sob controle particular ou autônomo. Na Europa e, sobretudo, na França, os sistemas escolares correspondentes a esses dois tipos de escolas coexistiam, lado a lado, separados e estanques, mesmo quando vieram a ser mantidos pelo Estado. A escola primária, a primária superior, as escolas normais e as escolas de artes e ofícios constituíam o sistema popular de educação destinado a ensinar a trabalhar e a perpetuar o modesto status social dos que o freqüentavam. As classes "preparatórias" (primárias), o liceu, as grandes escolas profissionais, a escola normal superior e a universidade constituíam o outro sistema, destinado às classes abastadas e à conservação do seu alto status social. Está claro que ingressar em tais escolas seria um dos meios de participar dos privilégios dessas classes e, deste modo, ascender socialmente.

Como o critério da matrícula, nos dois sistemas, não era o de mérito ou demérito individual do aluno, isto é, de sua capacidade e suas aptidões, mas o das condições sociais, ou econômicas, herdadas ou ocasionalmente existentes, a distinção real entre os sistemas não era de nível intelectual mas de nível social. A longa associação da educação escolar com as classes mais abastadas da sociedade determinou que, só em mínima parte, a escola se fizesse realmente selecionadora de valores. Devendo receber todos os alunos cujos pais estivessem em condições de arcar com o ônus de uma educação prolongada dos filhos, independente da capacidade individual desses mesmos alunos e de seu nível intelectual, a escola desenvolveu filosofia da educação toda especial.

Tal filosofia era a de que quanto mais supérfluos fossem os estudos escolares, mais formadores seriam eles da chamada elite que às escolas fora confiada. Não se sabia o que seus alunos iriam fazer, salvo que deveriam continuar a integrar as classes abastadas a que pertenciam. Logo, se se devotassem os alunos a estudos inúteis, "desinteressados", mas, segundo uma falsa psicologia, "formadores da mente", deveriam depois ficar aptos a fazer qualquer coisa que tivessem de fazer, na sua função de componentes do chamado escol social...E assim se afastou da escola qualquer premência do fator "eficiência", chegando-se a considerar tudo que se pudesse chamar de "prático" ou "utilitário" como de pouco educativo. A escola "acadêmica", isto é, supostamente treinadora do espírito e da inteligência, passou a ser algo de vago, senão de misterioso, educando por uma série de "exercícios", reputados de ginástica mental, ou pelo ensino de "matérias" tidas especialmente como dotadas de "poderes educativos", estas para o treino da memória, aquelas, da imaginação, outras, da observação, e, deste modo, capazes de produzir peritos do intelecto ou da sensibilidade. Por isto mesmo que buscava resultados tão abstratos e tão alusivos, não podia desenvolver critérios severos de eficiência. Os resultados só viriam a ser conhecidos mais tarde, na vida, quando os respectivos ex-alunos, vinte ou trinta anos depois, vitoriosos em suas carreiras, por motivos absolutamente diversos, apontassem para o latim distante ou os incríveis exercícios de memória e dissessem que tudo deviam àquela escola, aparentemente tão absurda e, no entanto, tão miraculosa!

Essa escola tradicional, tipicamente de "classe", destinada aos grupos mais altos da sociedade, e eficaz para eles, pois não ministrava senão educação para a fruição, para o lazer, não era e nunca foi uma escola seletiva de inteligência. Pelo contrário, constituía uma forma especial de educação, destinada a qualquer inteligência, desde que o aluno pertencesse aos grupos finos e abastados da sociedade.Tal escola tradicional acabou por se fazer um anacronismo nos grandes sistemas escolares europeus. As força sociais e o desenvolvimento científico, que haviam compelido o Estado a criar a educação mínima compulsória e as escolas pós-primárias de educação prática e utilitária, renovaram as condições de preparo até mesmo para as velhas profissões liberais e impuseram várias outras profissões técnicas que também demandavam outro tipo de educação. Tais forças vêm transformando e unificando toda a educação escolar, que passou a objetivar o preparo dos homens (de todos os homens), de acordo com suas aptidões, a fim de redistribuí-los pelas múltiplas e diversas ocupações de uma sociedade industrial, científica e extremamente complexa. Educação assim, com tais propósitos definidos e claros, já não visa a nenhum fictício "treino da mente", mas à especialização adequada para ocupações específicas, inclusive a ocupação acadêmica, no sentido de formação do professor, do estudioso ou do cientista.

A educação para o lazer continuou e continua sem dúvida a existir, mas como parte integrante da educação de qualquer um, desde o cidadão comum até o de nível mais alto, em escolas que a todos visa a formar para o trabalho, segundo a sua inteligência, e para o consumo, segundo as suas posses ou as posses da sociedade de abundância em vias de surgimento.O importante a notar é, porém, que esta nova educação já não é uma educação para "certa classe superior", mas educação para a inteligência: quanto mais inteligente o aluno, mais longe poderá ele ir. Por isto mesmo, não gozou daquela sedução da antiga escola acadêmica, a qual "classificava" o aluno e lhe permitia a ascensão automática à chamada "elite". A nova escola só facilitava a ascensão dos mais inteligentes e capazes.A fusão ou integração dos dois sistemas escolares – o prático e especializado e o das elites – acabou por se processar, em todos os países desenvolvidos, desaparecendo, de certo modo, a antiga educação puramente de "classe".

Na América do Norte, pela organização de um único sistema público de educação, com extrema flexibilidade de programas e a livre transferência entre eles. Na Inglaterra, pela "escada contínua" de educação, pela qual se permite que o aluno, seja lá qual for a escola que freqüente, ou a classe a que pertença, possa ascender a todos os graus e variedades de ensino. Na França, pela transferibilidade do aluno de um sistema para outro, com o que, de certo modo, se unificaram os dois sistemas, seguido de um regime de bolsas-de-estudo, destinado a permitir aos alunos desprovidos de recursos, mas capazes, o acesso às altas escolas seletivas.Além dessa interfusão dos alunos, pela qual se quebrou o dualismo do sistema, do ponto-de-vista das classes que abasteciam os dois tipos diversos de escolas, processou-se verdadeira revisão de métodos e programas, graças à qual as escolas chamadas utilitárias se vêm fazendo, cada vez mais, escolas de cultura geral, sem perda dos seus aspectos práticos, e as escolas chamadas "clássicas" ou "acadêmicas" se vêm transformando, cada vez mais, em escolas de cultura moderna, preocupadas com os problemas de seu tempo, sem perda dos aspectos de cultura geral, hoje mais inteligentemente compreendidas.

Em todos os países democráticos, os sistemas escolares tendem assim a constituir um único sistema de educação, para todas as classes, ou melhor, para uma sociedade verdadeiramente democrática, isto é, sem classes fechadas, em que todos os cidadãos tenham oportunidades iguais para se educar e, se distribuir, depois, pelas ocupações e profissões, de acordo com a capacidade e aptidões individuais demonstradas e confirmadas.

No novo sistema educacional, a classificação social posterior do aluno é resultado da redistribuição operada pelo processo educativo e não algo que decorra automaticamente de haver freqüentado certas escolas destinadas a grupos privilegiados de alunos de recursos. O aluno terá as oportunidades que sua capacidade e o preparo realmente obtido determinarem.

Está claro que nenhum país atingiu ainda esta perfeição. Mas, nos Estados mais desenvolvidos, já se estende aquela educação mínima oferecida pelo Estado até os 16 e os 18 ou 19 anos com ampla diversificação de currículos e programas para as diferentes aptidões, seguidas de um sistema de bolsas para os estudos superiores, a fim de facilitar o ingresso dos capazes sem recursos – uma vez que o ensino superior, de modo geral, ou depende dos recursos da família ou impõe sacrifícios pessoais consideráveis.

4) Evolução dos sistemas escolares brasileiros

Em nossos países, embora insista que me refiro especialmente ao Brasil, devia repetir-se evolução ao longo das linhas acima referidas. Ao iniciar-se, com efeito, a nossa expansão escolar, e a fim de obstar a que tal expansão gerasse perturbadores deslocamentos sociais, não faltou o cuidado de se desenvolver, como na Europa, dois sistemas educacionais: um pequeno, reduzido, acadêmico, destinado à classe dominante; e outro, primário, seguido de escolas normais e profissionais, destinado ao povo, com a amplitude que fosse possível. Os dois sistemas, paralelos e independentes, ainda mais afastados ficariam, se o primeiro fosse dominantemente particular.

E assim se fez, evitando-se, desse modo, qualquer perigo de ascensão social mais acelerada.Tivemos, pois, expansão, mas a imobilidade social, como na Europa, ficou assegurada, do modo acima exposto, ou seja, retirando-se qualquer atrativo ao sistema popular de educação, destinada a manter cada um dentro de seu status social, e transferindo à órbita privada o sistema acadêmico, pela sua escola secundária de elite, a fim de que não fosse acessível senão aos que tivessem recursos.

Graças a tais circunstâncias, conseguimos manter reduzidas as oportunidades educacionais destinadas a permitir efetivamente a ascensão social, limitando a escola secundária – propedêutica ao ensino superior - aos alunos que já se encontrassem em certas camadas da sociedade, não podendo os demais freqüentá-la, por falta de recursos econômicos ou por falta de condições prévias de educação doméstica e social. Como organizávamos as nossas escolas segundo os padrões europeus e como tais padrões presumiam níveis de educação coletiva e doméstica relativamente altos, comparados aos existentes em nossa população mais baixa, a escola, mesmo a que se designava de popular, não era popular, mas tìpicamente de classe média. Não era só a roupa, e sapato, que afastavam o povo da escola, mas o próprio tipo de educação que ali ministrávamos e de que não podia aproveitar-se, em virtude da penúria do seu ambiente cultural doméstico. O "padrão europeu", cuidadosamente mantido, servia assim para limitar a participação popular à própria escola popular.

A escola primária e a escola normal prosperavam, mas como escolas de classe média; a escola acadêmica e o ensino superior ficavam ainda mais restritos, destinando-se dominantemente a grupos da classe superior alta. Abaixo dessas classes, média e superior, dormitava, esquecido, o povo.Toda expansão de educação, é preciso que se leve em conta, determina a alteração das condições existentes de estabilidade social e, também, importa em alteração dos tipos de educação anteriormente dominantes. É fácil compreender que, salvo casos de estados sociais regressivos, toda sociedade produz a educação necessária à sua perpetuação.

A sociedade de tipo estagnado que se produzira, afinal, na América do Sul, tinha, em suas reduzidas oportunidades educativas, as condições apropriadas à perpetuação do estado social vigente.Quando a aspiração da educação compulsória para todos surge, representa este fato um desejo de mudança social. Trata-se de ampliar a participação dos membros da sociedade na sua comunidade moral e política; trata-se de ampliar os direitos dos membros da sociedade; trata-se de melhorar suas condições de trabalho; trata-se de facilitar oportunidades, não só de participação, mas de ascensão social. E esta foi a situação em toda a Europa.Entre nós, entretanto, proclamava-se o ideal da educação compulsória, mas, na realidade, a sociedade, pelas suas força conservadoras, a ela se opunha. Mil e um meios são utilizados para se restringirem as facilidades de educação compulsória. Como já não seriam legítimos tais movimentos de defesa do status quo, fazem-se eles, tortuosos, sutis e obscuros. A dualidade social já não pode ser proclamada. Proclamá-la agora é a aspiração à participação integradora.

Como então evitá-la?

Dificultam-se os recursos para o empreendimento; ministra-se educação do tipo inútil e que desencoraje a maioria em prossegui-la; e se a teimosia popular insistir pela freqüência à escola, abrevia-se o período escolar, oferece-se o mínimo possível de educação, alega-se que tal se faz por princípios democráticos, a fim de atender a todos ... Contanto que o processo educativo perca os seus característicos perturbadores, ou seja, a sua capacidade de facilitar o deslocamento e a reordenação social, em virtude da expansão escolar a todos. Depois de assim degradar a educação popular compulsória, as nossas sociedades, em sua duplicidade proverbial, entram a manobrar para impedir a ampliação das oportunidades de educação de nível médio e superior. No período de estagnação social, nenhuma dificuldade havia para isto. Bastava manter a educação, propriamente de elite, confiada à iniciativa privada, ou então, com currículos suficientemente "desinteressantes", em rigor inúteis, para desencorajar possíveis veleidades desconcertantes ...O fracasso desses recursos habituais para o controle da expansão educacional, é a surpresa dos últimos trinta anos da vida brasileira e, acredito, de grande parte das nações sul-americanas.

A nascente classe média da década dos vinte, numa sociedade sem tradição de classe média, porque realmente constituída da casta semi-aristocrática e semifeudal dominante e do povo propriamente dito, entrou a exigir para si exatamente a educação acadêmica e semi-inútil da classe alta. Se passasse a exigi-la e tivesse a liberdade de tentar praticá-la experimentalmente, talvez acabasse criando uma escola que conviesse aos seus interesses e não prejudicasse a sociedade como um todo. Mas aí é que surgiu o obstáculo: mantiveram-se as leis antigas, elaboradas para impedir a expansão por meio de padrões de estudo, altos e complicados. Mantidos que foram tais padrões e currículos, abriu-se o caminho à falsificação, saída única para a expansão desejada. A alternativa deveria ser a de experimentação, de ensaio, de escolas com professores despreparados, mas livres de tentar ensinar o que soubessem, em progresso gradual com reconhecimento e classificação a posteriori. Negada tal alternativa, a saída única foi a ousada simulação do cumprimento dos "padrões" fixados a priori, altos e impostos pelo centro, fossem lá quais fossem as condições. Já não se tratava de tateios de ensaios, de esforços modestos, mas sérios, a serem apreciados a posteriori, repito, por meio de exames de Estado, ou processos semelhantes de verificação.

Tratava-se de pura e simples burla; burla de currículos, burla de professores, burla de alunos. A educação fez-se um ritual, um processo de formalidades, como se tratasse de algo convencional, que se fizesse legal pelo cumprimento das formas prescritas. O ideal professado da expansão das oportunidades educativas, ao invés de promover a educação real de um número maior de indivíduos, determinou a degradação das próprias formas destinadas à perpetuação da elite tradicional. Se um grupo social não tivesse criado para si condições especiais de privilégio, fundadas nos seus títulos formais de educação, não seria provável que o grupo ascendente da sociedade quisesse para si uma educação tão pouco eficiente e muito menos tornada inútil pela simulação e degradação dos seus próprios padrões. Se a burla ou engano traz vantagens, é que a sociedade era ainda aquela sociedade impregnada de duplicidade do tempo da colônia. Trata-se, com efeito, de algo particular, e somente possível, porque o processo educativo de preparação da "elite" não se fazia com os recursos culturais reais e locais da vida brasileira, mas constituía processo especial de incorporação de aspectos de "cultura estrangeira" ou ainda estrangeira ...

A burla cultural, ou seja, o charlatanismo, é logo descoberta em qualquer cultura, seja lá qual for o seu nível. Jamais algum país poderia estabelecer, conscientemente, um regime de burla cultural. Se tal se dá, em algum país, é que este país está a burlar algo de estranho à sua própria cultura. Trata-se de incorporação de algo estrangeiro, cuja importância, não sendo compreendida nem sentida, parece poder ser burlada sem maiores conseqüências. É evidente que a educação chamada de "elite" se fazia com o propósito de formar pessoas para uma cultura alienada da cultura local ou da cultura de seu tempo. Sabemos, com efeito, que as veleidades de formação humanística dessas escolas semi-aristocráticas dos nossos países centro e sul-americanos pretendiam transmitir uma cultura literária clássica, "latina", e supostamente herdada pelas nossas culturas indígenas ou mestiças.

A elite colonial estrangeira, depois a elite monárquica nativa e, por último, a elite republicana, vinda da Monarquia, todas se enfeitavam com traços dessa cultura européia e veleidades até de cultura clássica. Somente no século XX, e mais acentuadamente a partir do fim da segunda guerra mundial, é que se inicia a desagregação dessa pseudocultura e surgem sinais de uma autêntica cultura nativa. Diante dessa ruptura dos quadros culturais, impunha-se, repetimos, a modificação dos "padrões" impostos e o início de, um regime de liberdade e experiência, com a fixação de padrões a serem gradualmente atingidos, em sucessivas verificações que, pouco a pouco, estabelecessem, a posteriori, padrões locais, padrões regionais e, enfim, padrões nacionais. O nacional não se imporia, mas seria o resultado desejado e buscado, o resultado a alcançar. Por que jamais estabelecemos essas condições? Por que preferimos os diktats legislativos, impondo uniformes, rígidos e perfeitos "padrões", para, a seguir, sob a pressão das força de expansão, conceder autorizações para o funcionamento de escolas no mais terrível desacordo com tais padrões? Não é fácil de explicar. Mas, é isto que estamos tentando fazer.

Mantendo o poder centralizado, dificultando a experimentação e o ensaio, impondo, artificialmente, "padrões uniformes", que copiávamos de "modelos" europeus, já na própria Europa, aliás, como antes observamos, em processo de transformação, tomou o governo central, rigorosamente, a posição de "metrópole" colonizadora, submetendo a educação a modelos impostos e alheios às condições sociais e locais. O desejo real seria o de "coarctar", o de "impedir" a expansão e assim manter o status quo. Ignorou-se, porém, aquele velho hábito de metamorfosear a realidade por meio de atos oficiais declaratórios. Logo que a pressão social se fez suficientemente forte para expandir de qualquer modo as oportunidades escolares, o grupo social ascendente procurou aproveitar-se daquela velha atitude de revalidação legal. O controle central, destinado aparentemente a assegurar a "qualidade" e a obstar a simplificação da escola, passou a ser, pelo contrário, o próprio instrumento da expansão, "revalidando" situações, apesar de seu desencontro com os padrões da lei, por meio de atos que equivaliam a considerá-las idênticas às daqueles padrões.

O governo central, "poder concedente", poderoso e distante, fez-se o instrumento da expansão, autorizando escolas, mediante um sistema de "formalidades" processuais, fiscalização "nominal" e "legalização" de papéis de exame, dando origem à criação originalíssima de verdadeiro "cartório educacional", por meio do qual se "certifica" a educação recebida e se declara não a sua eficiência, mas a sua legalidade. Educar, no Brasil, transformou-se numa questão de formalidades técnicas legais, da mesma natureza das que regem a compra e venda de um imóvel ...A situação não se iniciou com o desembaraço que hoje a caracteriza. No início houve rigores. Mas o fato de a escola ser definida em lei e dever ser autorizada a funcionar, dentro dos "padrões" previstos na lei – altos, perfeitos e rígidos padrões, a priori fixados – tal fato somente poderia ser compreendido como um processo de impedir a expansão educacional, ou de não permiti-la senão quando a escola fosse do tipo conveniente a certa classe, em condições de aproveitar-se dos padrões estipulados, mais ou menos estrangeiros e em completa desvinculação com a realidade temporal e local. Se, em contradição com estes propósitos, a pressão social acabou por obrigar a expansão de qualquer modo das escolas, havia que mudar a legislação.

Como não o fizemos, tivemos que manter apenas na aparência os tais "padrões", duplamente inexeqüíveis: primeiro, devido à falta de professores e, segundo – o que é mais importante ainda, se possível – devido a não estarem os alunos de origem social modesta, que buscavam as novas escolas, nas condições de classe ou de meio cultural necessárias para tirar real proveito do tipo de educação puramente acadêmica, previsto nas leis. Para a expansão imprudente faltavam, assim, professores e alunos do tipo exigido pelos "padrões" altos e estranhos à cultura local.

Recordemos, conforme já nos referimos, que também nós tivemos o cuidado de manter um sistema de ensino dual, embora sem a nitidez do paradigma francês. A escola primária, a escola normal e as chamadas escolas profissionais e agrícolas constituíam um dos sistemas; e a escola secundária, as escolas superiores e, mais recentemente, a universidade, o segundo sistema. Neste último, dominava a filosofia educacional dos estudos "desinteressados" ou inúteis, mas supostamente treinadores da mente, e no primeiro, a da formação prática e utilitária, para o magistério primário, as ocupações manuais ou os ofícios, as atividades comerciais e agrícolas.

No propósito de conservar tranqüilizadora imobilidade social, o Poder Público adotou a política de manter, de preferência, as escolas primárias, normais, técnicas e agrícolas – desinteressando-se pelo ensino secundário acadêmico. Estabelecimentos deste tipo, não manteria senão alguns poucos, considerados de demonstração ou modelos. A política educacional seria, assim, a de promover apenas o sistema público de educação, caracterizado por escolas populares e de trabalho. Com o objetivo disto assegurar é que o Estado conservou a legislação anterior de ensino, pela qual tinha o ensino secundário acadêmico o privilégio de constituir-se o meio de acesso ao ensino superior. Como tal ensino seria dominantemente particular e, portanto, pago, acreditou-se ser isto suficiente para limitar a sua matrícula às classes mais abastadas do país. O ensino primário, o normal e o técnico-profissional continuariam desse modo as vias normais de educação das classes populares, fechada, assim, a sua possibilidade de ascensão social. Pois o ensino secundário, destinado a tal ascensão, seria privado e pago. Tal duplicidade legislativa deu resultado oposto ao visado. A grande maioria dos alunos das classes modestas, mas ascendentes, precipitou-se em grande afluxo para as escolas secundárias. O Estado julgava que, não as criando nem mantendo, poderia conter a pressão social para o acesso a elas. Mas, não reparou que, embora quase não as mantivesse, reconhecia, pela equiparação, as escolas particulares, quantas aparecessem. E isto era o mesmo, ou era mais do que mantê-las, pois com isto retiraria à matrícula o caráter competitivo que as escolas públicas desse nível, não sendo para todos, haveria de adotar. Por outro lado, também não refletiu que, dada a organização da escola secundária e, sobretudo, a sua mantida filosofia de escolas apenas para um suposto "treino da mente", tal escola podia ser barata, enquanto as demais escolas – para "treino das mãos", digamos, a fim de acentuar o contraste – seriam sempre caras, pois requeriam oficinas, laboratórios e aparelhagem de alto custo.

E foi deste modo surpreendente e paradoxal que se abriu o caminho para a expansão escolar descompassada, que se processou em todo o país, nos últimos trinta anos... De um lado, passamos a ter a escola secundária, regulamentarmente uniforme e rígida, de caráter acadêmico, e, portanto, aparentemente fácil de fazer funcionar, com o privilégio de escola de passagem para o ensino superior (passagem naturalmente ambicionada por todos os alunos), de custo módico e entregue à iniciativa particular, mediante concessão pública; e do outro, um sistema público de educação – a escola primária, a escola normal, o ensino técnico-profissional, comercial e o agrícola – sem nenhum privilégio especial, valendo pelo que conseguisse ensinar e não assegurando nenhuma vantagem, nem mesmo a de passar para outras escolas. Está claro que o sistema público de escolas, via de regra, entrou em lento perecimento, enquanto a escola secundária, em sua mor parte, de propriedade privada, mas reconhecida oficialmente, com o privilégio máximo de ser a estrada real da educação, iniciou a sua carreira de expansão, multiplicando muitas vezes a sua matrícula nos últimos trinta anos. Operada essa expansão, passou-se à do ensino superior. A escola secundária propedêutica tem de se continuar na escola superior. Multiplicam-se então as faculdades de filosofia, de ciências econômicas, de direito e, de vez em quando, mais audaciosamente, até escolas de medicina e de engenharia. Tudo isto se fez possível, graças à manutenção de uma legislação anacrônica, destinada a conter a expansão do ensino e mantê-lo somente acessível às classes mais abastadas. Com efeito, a concessão desse ensino à iniciativa privada visava torná-lo um ensino caro. A falta de consciência, entretanto, da sociedade nascente, em relação às dificuldades de ensino desse tipo criou a oportunidade para que se multiplicassem exatamente as escolas desse molde acadêmico.

Sentido surpreendente dessa evolução. Dois conceitos anacrônicos.

Impossível não nos surpreendermos com tal resultado. Imagine-se que na Inglaterra alguém pensasse multiplicar Oxford e Cambridge, porque essas universidades eram, até o fim do século XIX, universidades clássicas, sem ciências nem tecnologia, puramente humanísticas e, portanto... fáceis de manter!Ao invés da fusão transformadora dos dois sistemas, que se deu em todas as nações desenvolvidas, tivemos, no Brasil, a expansão da educação de tipo dominantemente acadêmico, ou como tal considerada. A educação desse tipo, a mais difícil das educações, foi aqui tornada a mais fácil e a mais barata. Mas a população brasileira não está a buscar tais escolas em virtude dos ensinamentos que ministram, pois realmente pouco ensinam, mas pelas vantagens que oferecem e pelo menor custo de seus estudos, o que permite que sejam elas ainda escolas privadas. Como nem professores nem alunos lá estão seriamente a buscar a educação que a escola "proclama" oferecer, reduzem-se todos os seus pseudo-estudos a expedientes para passar nos exames.

Os sistemas escolares que visamos imitar transformaram-se e hoje são sistemas unificados de estudos acadêmicos, científicos e tecnológicos, de acesso baseado na competência e no mérito. Nós, pelo contrário, expandimos tudo que era, na Europa, resultado de anacronismo ou de errôneas teorias psicológicas, levando os nossos sistemas escolares ao incrível paradoxo de se transformarem em uma numerosa congérie de escolas de ensino para o lazer, em uma civilização dominantemente de trabalho e produção.

No esforço de explicar tal paradoxo, talvez se deva recordar que no século dezoito gozava grande voga a teoria da educação para a ilustração, de certo modo aparentada à da educação acadêmica para cultura geral. Tal educação seria sempre um bem em si mesma e que importaria distribuir a quantos se pudesse, mesmo em quantidades ínfimas. Não seria impróprio chamar-se tal concepção de concepção mágica de educação. Diante dela, a escola passa a ser um bem em si mesma e, como tal, sempre boa, seja pouca ou inadequada, ou mesmo totalmente ineficiente. Algo será sempre aprendido e o que for aprendido constituirá um bem.

É graças a concepções desse feitio que devemos poder racionalizar a nossa expansão irresponsável de escolas e justificar a nossa coragem de chamá-las de escolas acadêmicas ou intelectuais.Mas, se conservamos ainda a concepção perempta e mística dos séculos dezoito e dezenove, não conservamos as condições dominantes naquele tempo. Temos hoje as mesmas necessidades dos países desenvolvidos, precisando de nos educar para novas formas de trabalho e não apenas formas novas de compreender o nosso papel social e humano, como seria o caso nas tranqüilidades, a despeito de tudo, do século dezoito.

Daí, então, a educação – e quando falo em educação compreende-se sempre educação escolar – precisar ser, tanto num país subdesenvolvido, quanto nos países desenvolvidos, eficiente, adequada e bem distribuída, significando por estes atributos: que deve ser eficaz, isto é, ensine o que se proponha a ensinar e ensine bem: que ensine o que o indivíduo precisa aprender e mais, que seja devidamente distribuída, isto é, ensine às pessoas algo de suficientemente diversificado, nos seus objetivos, para poder cobrir as necessidades do trabalho diversificado e vário da vida moderna e dar a todos os educandos reais oportunidades de trabalho.

A educação faz-se, assim, necessidade perfeitamente relativa, sem nenhum caráter de bem absoluto, sendo boa quando, além de eficiente, for adequada e devidamente distribuída. Já não nos convém qualquer educação dada de qualquer modo. Deste tipo já é a que recebemos em casa e pelo rádio e pelo cinema. A educação escolar tem de ser uma determinada educação, dada em condições capazes de torná-la um êxito, e a serviço das necessidades individuais dos alunos em face das oportunidades do trabalho na sociedade.

A contradição entre estas novas necessidades educativas e o velho conceito místico e absoluto da escola-bem-em-si-mesma, juntamente com a expectativa de automática ascensão social pela escola que antes analisamos, deve ajudar-nos a identificar a gravidade da falsa expansão educacional brasileira.

5) Distância entre os valores proclamados e os valores reais

Estamos, com efeito, ao contrário do que fizeram os países desenvolvidos, a inspirar a nossa expansão educacional com os conceitos de educação-bem-em-si-mesma e de educação exclusivamente para fruição e lazer, há um século, pode-se dizer, superados. São estes os dois conceitos errôneos, que, a nosso ver, ainda dominam, na realidade prática, a política educacional brasileira, quiçá sul-americana:

a) a concepção mística ou mágica da escola, pela qual toda e qualquer educação tem valor absoluto e, por conseguinte, é útil e deve ser encorajada por todos os modos; b) a concepção de educação escolar como processo de passar, de qualquer modo, automàticamente, ao nível da classe média e ao exercício de ocupações leves ou de serviço e não de produção.

Respondem tais conceitos pelas racionalizações com que substituímos os valores que proclamamos pelos valores reais bem diversos, que praticamos, conforme se poderia facilmente exemplificar. Assim, ao mesmo tempo em que proclamamos a importância suprema do ensino primário, aceitamos a sua progressiva simplificação: pela redução de horários para alunos e professores e a tolerância cada vez maior de exercício de outras ocupações pelos mestres primários; pela redução do currículo a um corpo de noções e conhecimentos rudimentares, absorvidos por memorização, e a elementaríssima técnica de leitura e escrita; pela precariedade da formação do magistério primário; pela improvisação crescente de escolas primárias sem condições adequadas de funcionamento e sem assistência administrativa ou técnica; pela perda crescente de importância social da escola primária, em virtude de não concorrer especialmente para a classificação social dos seus alunos; pela substituição de sua última série pelo "curso de admissão" ao ginásio, buscado como processo mais apto àquela desejada "reclassificação social".

Ao mesmo tempo em que proclamamos o ensino médio como recurso para melhorar o nível de formação de nossa força de trabalho, admitimos a sua expansão por meio de escolas ineficientes, com programas livrescos, horários reduzidos e professores improvisados ou sobrecarregados, em virtude das expectativas que gera de determinar a passagem para as ocupações de tipo classe média que é o que realmente buscamos.

Proclamando a necessidade da formação dos quadros de nível superior, aceitamos, fundados na mesma duplicidade de objetivos, a improvisação crescente de escolas superiores, sobretudo aquelas em que a ausência de técnicas específicas permite a simulação do ensino, ou o ensino simplesmente expositivo, como as de economia, direito e filosofia e letras.

Nos demais campos, promovemos, cheios de complacência, campanhas educativas mais sentimentais do que eficientes, na área da educação de adultos, da educação rural e do chamado bem-estar social. Resistindo à idéia de planejamento econômico e financeiro, insinuamos, implicitamente, que se pode fazer educação sem dinheiro, animando campanhas de educandários improvisados e crenças ainda menos razoáveis de que toda a educação pode ser gratuita, para quem quiser, do nível primário, ao superior, sejam quais forem os recursos fiscais e em que pese a deficiência per capita da nossa "riqueza nacional".

Poderíamos continuar a alinhar outros fatos, ou desdobrar os apresentados em outros tantos, como, por exemplo, os relativos ao currículo secundário, reconhecidamente absurdo pela impossibilidade de ensinar tantas matérias, mesmo com professores ótimos, no tempo concedido, mas ainda assim tranqüilamente aceito em sua ineficiência, porque a educação sempre foi isto, uma espécie de atirar-no-que-viu-e-matar-o-que-não-viu, não se concebendo que haja exigência de tempo, espaço, equipamento, trabalho e dinheiro, acima de um minimum minimorum que torne a educação sempre possível e para toda a gente. Somente a concepção de educação como uma atividade de caráter vago e misterioso é que poderia levar-nos a aceitar essa total e generalizada inadequação entre meios e fins na escola. A isto é que chamo de concepção mágica da educação, que me parece a dominante em nosso meio como pressuposta inconsciente e base de nossa política educacional. Não podemos modificar por ato de força a mentalidade popular em educação, como não podemos modificar a crença de muitos no uso, por exemplo, da prece para chover; mas, já chegamos àquele estágio social em que não oficializamos, não legislamos sobre a obrigação de preces públicas contra flagelos climatéricos ...Em educação, há que fazer o mesmo. Toda essa educação de caráter mágico pode ser permitida, pode ser deixada livre; mas, não deve ser sancionada tendo conseqüências legais. Este, o primeiro passo para que tais tentativas sejam realmente tentativas e tenham caráter dinâmico, tornando possível o progresso gradual das escolas, desse estágio mágico até o estágio lógico ou científico, em que meios adequados produzam os fins desejados.

A escola primária entre nós encontra-se, aliás, nessa situação. Não se dá ao seu diploma nenhum valor especial e, por esse motivo, chegou a ser uma escola de razoável autenticidade. Se hoje está perdendo esse caráter é que as escolas de nível secundário não obedecem ao mesmo regime e, tendo como alto prêmio o seu diploma, estão atraindo os alunos antes de terminarem o curso primário, o qual assim se isola e se desvaloriza socialmente.

É indispensável que a escola secundária tenha a mesma finalidade geral educativa que possui a escola primária, sem outro fim senão o dela própria. Só assim, como a escola primária, ela será, quando tentativa, uma tentativa com as vantagens e incertezas de uma tentativa, e quando organizada e eficiente, uma escola realmente organizada e eficiente, dando os frutos de sua eficácia.

É felizmente para isto que marchamos, à medida que a mentalidade da nação, sob o impacto das mudanças sociais e da extrema difusão de conhecimentos da vida moderna, vem, gradualmente, substituindo seus conceitos educacionais, ainda difusos, pelos novos conceitos técnicos e científicos, e apoiando uma reconstrução escolar, por meio da qual se estabeleça para os brasileiros a oportunidade de uma educação contínua e flexível, visando prepará-los para a participação na democracia e para a participação nas formas novas de trabalho de uma sociedade economicamente estruturada, industrializada e progressiva. Grande passo neste sentido foi a lei, já em vigor, de equivalência relativa entre o curso acadêmico e os cursos vocacionais.

Essa educação, nas primeiras seis séries, comum e obrigatória para todos, prosseguirá em novos graus, no nível médio, para os mais capazes e segundo as suas aptidões, visando, como a de nível primário, à preparação para o trabalho nas suas múltiplas modalidades, inclusive a do trabalho intelectual, mas não somente para este.

A continuidade da escola – em seus diferentes níveis irá emprestar-lhe o caráter de escola para todos, sem propósito de classificação social, dando a cada um o de que mais necessitar e mais se ajustar à sua capacidade, com o que melhor se distribuirá ou redistribuirá a população pelas diferentes variedades e escalões do trabalho econômico e social, segundo as necessidades reais do país em geral e de suas regiões em particular.Tal sistema de educação popular, abrangendo de 11 a 12 séries ou graus, permitirá, quando completo ou integralmente organizado, que o aluno se candidate, após a última série ou grau, ao ensino superior, pelo regime de concurso. Não visa, entretanto, ao preparo para esse exame, pois terá finalidade própria, significando, nos termos mais amplos, a educação da criança, no período da escola primária, e a educação do adolescente, no da escola média.

O que será essa educação não será a lei que o vai dizer, mas a evolução natural do conhecimento dos brasileiros relativamente à criança e ao adolescente e à civilização moderna e industrial em que a escola, no primeiro nível, vai iniciar as crianças e, no segundo nível, habilitar economicamente os jovens adolescentes brasileiros. Tal escola mudará e transformar-se-á como muda e se transforma toda atividade humana baseada no conhecimento e no saber. Progrediremos em educação, como progrediremos em agricultura, em indústria, em medicina, em direito, em engenharia – pelo desenvolvimento do saber e pelo melhor preparo dos profissionais que o cultivam e o aplicam, entre os quais se colocam, e muito alto, os professores de todos os níveis e ramos."

(TEIXEIRA, Anísio. Valores proclamados e valores reais nas instituições escolares brasileiras. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v.37, n.86, abr./jun. 1962. p.59-79.)

A gramática é o "Direito" da língua

"É incrível como, nessa história do livro didático e do ensino da língua, os mistificadores se revelam. A educação, sem dúvida, é a área que mais padece com a ideologização das ciências humanas e das teorias da comunicação. Tenta-se fazer da escola uma espécie de plataforma da “grande virada” do oprimido… “Oh, o Reinaldo paranóico acha que os esquerdistas vão fazer revolução com as crianças!” Não! Eu não acho, não! Eu acho que essa gente está idiotizando as crianças. Não fazem nem educação nem revolução. Investe-se na ignorância e, obviamente, na formação de estudantes amestrados e adestrados aos valores de um partido. Isso está em curso e vitima principalmente os mais pobres. Os alunos com mais recursos, ainda que expostos às mesmas bobagens, dispõem de instrumentos para vencer as barreiras do cretinismo.
Os mais patéticos de quantos me escrevem furiosos com as críticas aos professores Heloísa Ramos e Marcos Bagno são aqueles que falam em nome da “sociolingüística”. Trata-se uma súcia de ignorantes enfatuados que não têm noção do que estão falando. Não me refiro a todos os especialistas dessa área, é evidente; só àqueles que justificam a violência que está sendo cometida contra os alunos.
Se os estudos da sociolingüística, que descrevem fenômenos da linguagem nos vários grupamentos sociais, fossem justificativa para convalidar o erro e a chamada “língua do povo”, como se essa porcaria existisse, as faculdades de direito, em vez de ensinar aos futuros advogados a legislação vigente e a Constituição, dedicar-se-iam apenas a estudar os mecanismos que formam as desigualdades, declarando a desnecessidade das leis e dos códigos.
“Mas não se poder estudar a sociologia das leis, Reinaldo?” Claro que sim! Mas imaginem qual seria o efeito se, em nome do que sabemos sobre a desigualdade, convalidássemos todas as agressões legais, de modo que cada indivíduo — ou grupo de indivíduos — pudesse fazer a “escolha” entre a norma e a transgressão. A gramática é um código coletivo, como é a Constituição, o Código Civil e o Código Penal. No dia-a-dia, é bem possível que todos nós, em vários momentos, cometamos pequenas transgressões — e há aqueles que cometem as grandes. Isso não quer dizer que possamos alegar ignorância da lei para fazer o que nos der na telha.
Um mundo sem leis, baseado apenas em noções abstratas de justiça e na sua prática cotidiana, seria melhor? Não! Voltaríamos à barbárie, ao estado da natureza. Assim como o desenvolvimento social e as necessidades vividas mudam, com o tempo, os códigos legais, também a prática cotidiana da língua acaba, um dia, alterando a norma, estabelecendo uma nova referência. A gramática é a ciência do direito da linguagem. Sem ela…
A analogia é conceitual e episodicamente cabível. Marcos Bagno fez da Universidade de Brasília o seu aparelho de luta. É a mesma instituição que abriga a turma do “Direito Achado na Rua”. Bagno é a “Gramática Achada na Rua”. Não por acaso, as duas correntes, de áreas diversas, pretendem jogar no lixo os códigos vigentes, reconhecidos pela sociedade democrática, em benefício da “verdade verdadeira” do povo. Não por acaso, as duas correntes entendem que a norma é resultado da luta de classes. Ora, se a “luta” existe e se o “oprimido” ainda não está no poder, então é porque gramática e leis reproduziriam a vontade do opressor. É um raciocínio bucéfalo!
Não custa lembrar: o MEC que põe esse lixo nas mãos das crianças — e que as incentivam a ser, mais do que ignorantes conformadas, ignorantes propositivas — é o mesmo que compra e distribui livros de história em que o Apedeuta aparece como o salvador da pátria, e seu antecessor, como o verdugo.
Faz sentido: no país em que a mentira vira história oficial, o Apedeuta só poderia ser um estilista da língua portuguesa."

(Do blog do Reinaldo Azevedo, em 18 de maio de 2011)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Leitura: obrigação ou prazer?

"A coisa só vai mudar mesmo, na prática, ano que vem. Mas já se pode dizer que o currículo das escolas inglesas passa hoje por uma grande revisão, especialmente no que toca ao ensino da língua.

É que o governo da Inglaterra está com os olhos voltados para o que as crianças andam lendo na escola. Na verdade, preocupa-se com o que os alunos estão deixando de ler nos primeiros anos de ensino formal.

O ministro da Educação inglês, Michael Gove, é quem lidera a revolução que está para acontecer. Ele, que se diz tradicional quando o assunto é ensino, acredita que as escolas afrouxaram o aprendizado e dá como exemplo os alunos de segundo grau, que leem cerca de dois romances por ano. Segundo Gove, o ideal era que fossem 50 livros, pelo menos.

Por isso, o Ministério da Educação quer implementar uma lista de leitura obrigatória, de livros e autores, para crianças entre 5 e 11 anos. O problema seria, então, corrigido ou evitado ainda no primeiro grau.

Vocês não imaginam o debate que a ideia está gerando no país. E olha que a medida ainda nem saiu do papel. Enquanto autores de livros infantis se pronunciam, e dizem que professores têm de ter a liberdade de indicar as obras que mais se adequam ao perfil de seus alunos, especialistas em educação afirmam que a medida vai fazer com que os alunos passem a detestar ler.

“Esse Michael Gove é um totalitário, um ditador da leitura!”, exageram.

Quase que inevitavelmente, a história me faz lembrar de outro ditador do ramo, só que brasileiro, um professor da Universidade de Brasília.

“Ditador” e “louco” eram provavelmente os adjetivos mais sutis dados pelos alunos a Gilson Sobral, do Departamento de Letras, um professor igualmente adorado e odiado pelos universitários. A semelhança entre Sobral e Gove? Uma infame lista de obras imposta aos alunos.

A ideia de Sobral era simples: apresentar aos jovens uma relação de clássicos da Literatura e obrigá-los a ler um por semana. Para certificar-se do cumprimento da tarefa, elaborava provas extremamente específicas, aplicadas todas as segundas-feiras. Não dava para enganar o ditador. Quem trocasse os livros por resumos tirados da Internet não conseguia fazer a prova. Era reprovação na certa.

Foi assim que eu, aos 18 anos, fui apresentada a Cervantes, Dante Alighieri, Platão, Camões, entre tantos outros gigantes da literatura mundial. Sobral foi o meu primeiro professor na UnB, e o mais importante deles.

Pode ser que eu tenha tendências totalitárias. Afinal de contas, apliquei o método “sobraliano” a meus alunos de literatura no segundo grau, à época em que me aventurei pelo magistério…

Testemunhei os protestos enfrentados por Sobral no Brasil. Já para Gove a situação é ainda mais difícil, pois sua sala de aula é infinitamente maior, um país inteiro. A eles, defensores da imposição de que os jovens devem ler os clássicos, opõem-se os que dizem não haver nada mais favorável à literatura… do que o prazer de ler, a deliciosa experiência de devorar um bom livro. O ideal, penso, é o meio termo entre as duas convicções. Belo desafio para os professores, de quem já fui colega um dia…"



Mariana Caminha é formada em Letras pela UnB e em jornalismo pelo UniCEUB. Fez mestrado em Televisão na Nottingham Trent University, Inglaterra.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A lição de 1974 - Sebastião Nery

(Publicado na Tribuna da Imprensa)


"RIO – Quando meu saudoso colega e amigo César Mesquita, diretor da Editora Francisco Alves, me telefonou, no dia 15 de outubro de 1974, intimando-me a escrever um livro sobre as eleições de 15 de novembro de 1974, tive medo de mim e do tempo. Ele me disse:

- Nery, temos exatamente sessenta dias para colocá-lo nas bancas. Um mês para você escrever até 15 de novembro e um mês para editarmos.

- Mas, Cesar, o Brasil é muito grande. São 22 Estados. E não o farei sem visitar, pesquisar, testemunhar um a um. E ainda publicar o resultado.

- Vire-se. É preciso guardar para a história a nitidez dos acontecimentos ainda não deformados pelo correr do tempo, nem ao sabor das interpretações. Precisamos dar ao país um livro-documento sobre as eleições de 15 de novembro. Tem que sair até 15 de dezembro.

LIDERES


Sai viajando e escrevendo. Conversando e escrevendo. Documentado e escrevendo. O governo, poderoso e soberbo, achava que a Arena ganharia tudo, porque, em 1970, quase havia eliminado a oposição, a ponto de muita gente do MDB achar que a oposição devia desistir e fechar o MDB.

Mas os povos só conquistam o amanhã quando têm líderes que os ensinam a pensar. Os profetas, os sábios do Oriente, os filósofos gregos, os enciclopedistas, os pais da Independência Americana, os estadistas ingleses e franceses, esses é que plantaram a história com as mãos.

Veneza passou sete séculos sem que os doges pudessem transferir o poder para um herdeiro. Foi a mais longa república democrática da história.

À medida que ia chegando aos maiores Estados fui percebendo que havia uma reação silenciosa na população e o governo podia levar um susto


16 DERROTAS

E levou.Mais do que um susto, o governo foi literalmente atropelado.

Perdeu em 16 Estados e só ganhou em 6, como contei e documentei no livro que fez tanto sucesso : “As 16 Derrotas Que Abalaram o Brasil”. Dos seis maiores Estados, perdeu em cinco: São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Paraná. E só ganhou em um : Bahia.

No pais, a votação do MDB, somada, foi maior do que a da Arena. Só as vitórias em dez dos onze maiores Estados (São Paulo, Rio Grande do Sul, Guanabara, Minas, Paraná, Pernambuco, Estado do Rio, Goiás, Santa Catarina, Paraíba, menos Bahia) mostraram que, se fosse para a presidência da Republica, a oposição teria feito o Presidente e 16 governadores.

ULYSSES E MONTORO

Qual o segredo da campanha e da vitoria? Era duplo. Um, orgulhosa cabeleira grisalha de galã de antigamente. O outro, modestos fiapos de cabelos inteiramente brancos na cabeça nua. Um, mestre da cátedra. O outro, catedrático da política. E aos dois, mais do que a quaisquer outros, o Brasil ficou devendo, em 1974, o reaprender da velha lição, eterna como a humanidade, do poder da palavra.

Ulysses Guimarães e Franco Montoro foram os generais da guerra que a oposição ganhou no país. E brigaram na garganta. Poucas vezes, na história do Brasil, dois homens falaram tanto a tanta gente em tão pouco tempo. Basta pesquisar jornais e revistas do segundo semestre de 74. Eles estavam lá, dia a dia, indormidos, no plantão da palavra.

A PALAVRA

Desde o magnífico discurso com que, em 1973, navegando com Fernando Pessoa, iniciou sua campanha de anticandidato à presidência da República, Ulysses Guimarães havia continuado o caminho aberto um ano antes pela bravura de Oscar Pedroso Horta, da volta do bom texto à política brasileira. Na sessão do Congresso que elegeu Geisel, Ulysses de novo despertou o país com um pronunciamento exemplarmente bem escrito.

E poderosamente forte. Não parou mais. Nas TVs ou na imprensa, o presidente da oposição fornecia aos candidatos do MDB uma dose maciça e permanente de idéias e frases que logo eram repetidas em milhares de palanques. E quando a vitória chegou, ele a recebeu lúcido como sempre.

O tom de Franco Montoro era mais ameno, didático. Ensinava:

- Na vida pública, como na ciência, os erros devem ser investigados e não escondidos. Só a crítica pode corrigir as falhas e promover o progresso.

Tudo simples, exato e evidente como a verdade. Por isso seus programas de TV, nos Estados, estouravam índices de audiência:

- Montoro chegou, falou, virou.

Era o poder da palavra que o Padre Vieira chamava de sagrado poder

LULA

A oposição, hoje, está perdida como o MDB de 1970. Falta-lhe um Ulysses, um Montoro, que mostre ao pais a verdade escondida embaixo dos lençóis dos Mensalões e da brutal corrupção governamental do PT-PMDB. Lula fala com a arrogância e a certeza da impunidade dos generais de 1974.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A INCIVILIDADE COMO BARÔMETRO DA DETERIORAÇÃO SOCIAL

A INCIVILIDADE COMO BARÔMETRO DA DETERIORAÇÃO SOCIAL

(Autor: Robert Muffat, Professor da Faculdade de Direito de Levin, Gainesville, Flórida)


Se julgarmos pelo atual número de livros tratando do assunto, o declínio da civilidade chegou para ser visto como um problema maior em nossa sociedade. Publicações atuais incluem livros de Deborah Tannen[1], Steven Carter[2], Dominique Colas[3], Mark Caldwell[4], e um grande número de outras publicações[5]. Mais do que isso, o assunto foi lançado para dentro dos veículos midiáticos.[6] Em conseqüência, os governos estão adotando políticas de civilidade[7]. Outras autoridades governamentais estão pedindo por civilidade nas reuniões de seus órgãos.[8]

O Procurador-Geral de Gainesville pede, apaixonadamente, por civilidade nos eventos públicos ocorridos nos tribunais.[9] A Corte da Flórida urge a seus advogados a aspirar por civilidade.[10] Alguns legislativos estão passando leis na tentativa de requerer às crianças para serem mais corteses quando na escola.[11] Até mesmo as universidades estão oferecendo sessões de treinamento para ajudar a restaurar a civilidade dentro das salas de aula.[12]

Estará a incivilidade crescendo? Se de fato está ou não, podemos ter certeza de que existe uma vasta percepção de que, sim, ela está. Daí que eu examino a extensão dessa percepção em variados cenários. Por necessidade, quase todas as evidências são anedóticas, em natureza. Igualmente inconclusa é a análise dessa evidência, uma vez que ela consiste quase que exclusivamente de interpretações. Entretanto, o leitor poderá ser persuadido de que a incivilidade aparenta ser um indicador de efeitos sociais e psicológicos deletérios. Mais especificamente, sugiro que a teoria da anomia de Emile Durkheim fornece insights para a relação – aparentemente superficial – entre incivilidade e patologias sociais mais profundamente assentadas. Torna-se, então, plausível ver o fenômeno da incivilidade como barômetro de uma destacada decadência social.

A incivilidade esparramada

Quão vasto é este – aparente – crescimento da incivilidade em nossa sociedade? Um exame mais atento revela que ele parece ser bastante extenso. Vemos a incivilidade aparecer quando podemos ver um crescimento das contendas entre as pessoas. Grosserias estão se tornando mais comum nos negócios e na indústria. O florescimento de decepções e falsidades políticas engendra um cinismo contagiante por toda a sociedade. Esse cinismo é nutrido, talvez mais do que por qualquer outra fonte, pela jornalisticamente bem documentada escalada da incivilidade em nosso seio social.

Litígios

O crescimento dos litígios tem sido largamente lamentado. Apesar dos esforços ocasionais no sentido de contê-las, as buscas por defesas jurídicas dos direitos continuam crescendo a passos largos. Tal crescimento tem sido ajudado por um fenômeno concomitante: o aparecimento de mais e mais direitos.[13] As fontes de tais direitos são tanto legislativas quanto judiciais, e cada uma dessas fontes está respondendo às demandas vindas de um público (ansioso por gritar mais alto) que quem mais sofre é quem mais consegue gritar. Não é de surpreender, então, que a possibilidade de um diálogo civilizado acerca de qualquer problema se torne improvável sob tais condições.

O destacado filósofo Martin Golding comenta o seguinte: “temos experimentado uma tamanha inflação de direitos que a cunhagem do discurso moral se tornou aviltada”.[14] A professora de Direito de Harvard, Mary Ann Glendon, também se preocupa com a redução do conceito de civilidade dentro dos discursos públicos: As conversas sobre direitos, em sua totalidade, promovem expectativas irrealistas, além de esquentar os conflitos sociais e inibir o diálogo – este sim, algo que poderia levar em direção a um consenso, ou, pelo menos, a um comum acordo. Em seu silêncio no que diz respeito às responsabilidades, essas conversas parecem desculpar a aceitação dos benefícios de se viver num Estado democrático de bem-estar social, sem a correspondente aceitação das obrigações cívicas e pessoais decorrentes desse fato.[15]

Essas preocupações não estão confinadas à arena da academia. Mesmo o colunista Molly Ivins, que normalmente se inclina em favor dos advogados de acusação, põe um limite na coisa, preocupado de que o argumento do Just win, baby! [16] possa refletir um “declínio social na decência e na civilidade”.[17]

Grosseria nos negócios

Mas o crescimento da nossa incivilidade não está restrito à arena legal. A grosseria nos negócios e na indústria tem sido identificada, cada vez mais, como um problema de monta. Dan Rather nos oferece suas mau-humoradas observações a respeito da grosseria dos caixas (especialmente dos caixas mais jovens) nos estabelecimentos comerciais de Nova York. E conclui: “Houve uma época em que os americanos sabiam como trabalhar, e também se importavam com o valor do trabalho duro e bem feito. Talvez tenhamos ficado mimados com os tempos de vacas gordas. Especialmente nossos filhos”.[18] Estudos recentes confirmam que este é um problema vasto, geral e irrestrito. Um dos estudos sobre o crescimento do “nível de afronta à etiqueta” descobriu que reações à incivilidade podem custar caro para as organizações em que essa venha a ocorrer.

Que fazem as vítimas? Doze por cento disseram que diminuem intencionalmente a qualidade de seu trabalho; 22% disseram que diminuem o esforço no trabalho; 28% disseram que perdem tempo de trabalho tentando evitar a pessoa; 52% disseram que perdem seu tempo se preocupando com a pessoa e com a interação; e 46% disseram que pensam em trocar de emprego. Doze por cento realmente chegam a trocar de emprego para escapar do agressor.[19] Outra pesquisa mostra que pessoas que sofreram grosserias reclamam de “ansiedade, insônia, dor de cabeça, síndrome de dor de barriga, problemas de pele, ataques de pânico e baixa auto-estima”.[20] De fato, o instituto de pesquisas Gallup indica que, geralmente, metade das pessoas que respondem ao questionário estão, pelo menos, um pouco irritadas no trabalho.[21] Outro estudo indica que “ridículas pequenas incivilidades” no ambiente de trabalho são as que custam mais caro para a empresa.

Uma grosseria “pode afetar a empresa ao reduzir a produtividade e, também, levar a custosas alterações no quadro de pessoal”.[22] Existem até mesmo alegações de que conflitos de escritório têm produzido resultados tão sérios quanto aqueles de quem sofre de stress pós-traumático.[23] Por exemplo, a grosseria derivada de uma falsa acusação de assédio sexual resulta em doenças, incapacidades e desemprego permanente.[24] A grosseria é um problema amplo, geral e irrestrito? “Três-quartos dos trabalhadores concordam que o ambiente de trabalho se tornou mais grosseiro na última década”.[25]

O barulho na política

Tais desdobramentos no local de trabalho não deveriam nos causar surpresa à luz dos acontecimentos de nossa vida política. Nós não podemos ignorar o fato de que o debate político nacional está se tornando muito caracterizado pelas, soi-disant, guerras culturais.[26] A direita religiosa ataca os acadêmicos de esquerda, e vice-versa.[27] E, mais ainda, uma vez que tantos dos participantes dessa guerra se vêem como os únicos detentores da verdade universal, todos e quaisquer meios que os levem a alcançar seus objetivos sagrados são freqüentemente adotados. Que enorme ironia existe no fato de que Richard Nixon usou o interesse nacional como desculpa por ter se utilizado de truques baixos para garantir que o “perigoso” McGovern não pudesse retirá-lo da presidência! Uma geração depois, Bill Clinton usou virtualmente a mesma desculpa da “busca sagrada”, dessa vez para justificar ilegalidades no financiamento de campanha e prevenir que o “perigoso” Bob Dole pudesse ocupar a Casa Branca.

Desgraçadamente, tais atitudes já não são eventos isolados. Aos olhos do público, as decepções e falsidades políticas têm se tornado a norma de ação esperada na vida pública do país. Quão profundamente prejudicial para nosso tecido social isso deve ser para que se percebam as funduras abissais atingidas pelo cinismo? Mesmo assim, continuamos como que a descer nessas profundidades. Os escândalos que obstinadamente atingiram Bill Clinton enojaram os cidadãos americanos e – se é que é possível – ainda erodiram sua confiança na política de um modo geral. Pessoas houve que pediram uma punição rigorosa do ex-presidente, numa tentativa de fazer com que os padrões morais fossem elevados ao definir-se um limite mínimo para comportamentos desabonadores.[28]

Ao mesmo tempo, a campanha dos deputados e senadores Republicanos para tirar Clinton da presidência foi bastante impopular, e seu esforço foi visto por observadores como “o que de pior pode haver no partidarismo político”.[29] A conclusão inexorável foi que a bagunça toda não melhorou a reputação de nenhum dos lados envolvidos.[30] O resultado líquido, porém, tem sido um cinismo ainda maior do que aquele com que já vínhamos convivendo na vida política.

Jornalismo negativo

O cinismo político terá realmente um salvo-conduto? Até certo ponto, sem dúvida. Entretanto, esse custoso cinismo é alimentado não apenas por uma instituição real, mas principalmente pela preocupação jornalística com escândalos – em particular – e com o “ângulo” negativo das coisas – em geral. Em seu livro The Argument Culture, [31] Deborah Tannen dedica um longo capítulo inteiramente para as faltas da mídia.[32] No decorrer do capítulo, ela documenta a obstinação burra da mídia em apresentar todos os assuntos como se esses fossem batalhas mortais entre duas forças opostas. [33] Nós agora estamos familiarizados com o slogan “If it bleeds, it leads”.[34] Em sua busca por um aumento de vendas, os jornalistas se esforçam por fazer dos assuntos os mais sangrentos possíveis.[35] Um dos resultados dessa manobra é que, na verdade, o fluxo de informações é reduzido.[36] Além do mais, a qualidade do discurso cívico civilizado é rebaixada. E, é claro, a incivilidade autoconstruída pela mídia produz um cinismo cada vez mais difundido entre o público, enquanto que o respeito desse mesmo público pela imprensa vai minguando com o passar do tempo.[37]
Então, deveríamos nós mesmos nos preocupar com o crescimento da incivilidade na sociedade?

Nossos crescentes níveis de litígio e grosseria nos negócios carregam escondidos custos substanciais. As decepções políticas fazem nascer o cinismo na sociedade. Esse cinismo é, por sua vez, alimentado por uma ampla e geral incivilidade jornalística. Mas isso não é tudo. Já existem pesquisas importantes mostrando que essas “meras” incivilidades geram não apenas malefícios como o stress, mas também outras patologias sociais mais graves, que podem chegar até o ponto de doenças mentais e assassinatos.

Incivilidade e Patologia Social

Para citar apenas um dos custos dessas incivilidades, existe atualmente um aumento significativo do stress e de outras patologias sociais. Judith Martin, por exemplo, nos indica em sua coluna de etiqueta, chamada Miss Manners[38], que os atos de violência estão ficando mais freqüentes em discussões sobre problemas que deveriam ser exclusivos das regras de etiqueta – e até mesmo em assuntos tão insignificantes que esses nunca mereceriam serem regulados por tais regras. Nesse último caso, o resultado do fenômeno é ilustrado pelo assassinato que pôs fim a uma discussão sobre a maneira “correta” de colocar os talheres na lavadora de pratos. Martin nos diz que a falta de cortesia no trânsito e a sensação de se estar sendo tratado com desrespeito também são, hoje em dia, motivos para crimes. Se essas pessoas estão cientes disso ou não, o fato é que motoristas agressivos e adolescentes melindrosos se importam tanto com etiqueta que são capazes de matar para preservá-la. Com efeito, esse não é o método ideal para que a sociedade se mantenha cortês.

A Senhorita Bons Modos nos chama a atenção para isso apenas para demonstrar que o anseio por ser tratado de maneira educada é tão fundamental que até mesmo os fora-da-lei sentem tal necessidade.[39]

Grosseria mata!

Notemos que a Senhorita Bons Modos menciona ataques de raiva no trânsito como um exemplo, sendo que tais ataques podem ser considerados simples grosseria. Entretanto, lemos quase todos os dias sobre brigas de trânsito que acabem em assassinatos.[40] Da mesma forma, relatos sobre “ataques de fúria no ar” ocorrem com freqüência, estando o pessoal das tripulações de companhias aéreas mais e mais preocupados com o aumento de discussões violentas. Ao mesmo tempo, a qualidade dos serviços continua se deteriorando, num cenário em que ninguém está disposto a assumir a responsabilidade pelos atrasos ocorridos.[41] Se estivermos dispostos a considerar tais ataques como estando associados, apenas, aos desconfortos da viagem, devemos notar que o uso de celulares tem se tornado um ponto de contendas cada vez mais acirradas. E, mais ainda, o desconforto causado em outros passageiros por quem faz uso de telefones celulares à bordo, tem levado a confrontações bastante violentas.[42]

Grosseria gratuita, então, pode ser mortal. Uma mulher da Flórida, que deixou de responder a um cumprimento de “Boa tarde” – dirigido a ela por uma jovem – foi interpelada por sua falta de modos. Mais tarde, a mulher morreu vítima de um ataque cardíaco causado pelo stress do incidente. A jovem que tinha feito o cumprimento enfrenta agora um processo, acusada de assassinato.[43]

Já se tornou comum, inclusive, ouvirmos relatos de incidentes nos quais homens, tentando agir como se fossem gentlemen, são repreendidos veementemente por seus comportamentos “condescendentes e inapropriados”. Mesmo com tais comportamentos interpretados, por alguns, como sendo protetores[44], A Senhorita Bons Modos lamenta que o tratamento de “gestos obviamente bem intencionados, convencionais e triviais de cortesia são encarados como se fossem insultos. Agir assim não é somente ainda mais grosseiro... como acarreta prejuízos bem maiores para a causa da civilidade”.[45] - (CONTINUA)

Notas e referências:

[1] Deborah Tannen, The Argument Culture: Moving From Debate to Dialogue (New York: Random House, 1998).
[2] Stephen L. Carter, Civility: Manners, Morals, and the Etiquette of Democracy (New York: Basic Books, 1998).
[3] Dominique Colas, Civil Society and Fanaticism: Conjoined Histories, trans. Amy Jacobs (Stanford: Stanford University Press, 1997).
[4] Mark Caldwell, A Short History of Rudeness: Manners, Morals, and Misbehavior in Modern America (New York: Picador, 1999).
[5] Bill Stumpf, The Ice Palace that Melted Away (New York: Pantheon, 1998); Donald McCullough, Say Please, Say Thank You (New York: Putnam, 1998); Digby Anderson, ed., Gentility Recalled: "Mere" Manners and the Making of Social Order (London: Social Affairs Unit, 1998); Robert Hughes, Culture of Complaint: The Graying of America (New York: Oxford University Press, 1993).
[6] For example, "How Rude! How Crude! How Socially Unacceptable!" USA Today, 5 June 2000: 5D.
[7] For example, "Seminole County OKs Civility Policy," Gainesville Sun 15 Apr. 1999:1B.
[8] For example, Pegeen Hanrahan (Gainesville City Commissioner), "Civility Please -- In Public and In Private," Gainesville Sun 22 May 1999: 9A. See also Jud Magrin, "Different Focuses: Newly Sworn-in Commissioners Speak Out," Gainesville Sun 7 May 1999:1B.
[9] Marion Radson, "Participate in 'Civility Month' by Treating Others with Respect," Gainesville Sun 15 May 2000: 6A.
[10] Paula Stephenson, "Aspirational Civility," The Professional 3 Sept. 1999: 3 (A publication of the Center for Professionalism of The Florida Bar).
[11] Robert Tanner, "'Yes, Ma'am,' 'No Ma'am' Enters into Political Debate," Gainesville Sun 29 May 2000: 9B. (An Associated Press follow-up story on the legislation adopted in Louisiana in 1999.)
[12] The University Center for Excellence in Teaching, "Faculty on the Front Lines: Reclaiming Civility in the Classroom," PBS Adults Learning Service, 8 Apr.1999.
[13] See, e.g., Robert A. Licht, introduction, The Framers and Fundamental Rights by Robert A. Licht ed. (Washington D.C.: American Enterprise Institute Press, 1991) 1; Benjamin R. Barber, Florida Philosophical Review Volume I, Issue 1, Summer 2001 72 "Constitutional Rights--Democratic Instrument or Democratic Obstacle?" in Ibid. 23, 24; Henry Shue, "Subsistence Rights: Shall we Secure These Rights?" Robert Goldwin and William Schambra, eds., How Does the Constitution Secure Rights? (Washington D.C.: American Enterprise Institute Press, 1985) 74, 77.
[14] Martin Golding, "The Significance of Rights Language," Philosophical Topics 18 (1990): 63. (This is a review article of A.I. Melden's Rights in Human Lives: An Historical-Philosophical Essay).
[15] Mary Ann Glendon, Rights Talk (New York: Free Press, 1991) 14.
[16] N. do. T: “Just win, baby!”, significa algo como “Apenas vença, meu chapa”. É o argumento do filonikos, o argumento da pessoa que não está preocupada com a busca da verdade, mas com a vitória pela vitória.
[17] Molly Ivins, "The Rambo Approach to Law," Gainesville Sun 29 Apr. 1999: 11A (Fort Worth Star-Telegram).
[18] Dan Rather, "It's Service in America with a Smirk," Gainesville Sun 7 June 1998: 1G, 4G (King Features).
[19] "Incivility in the Workplace Costs Companies Time, Money," Gainesville Sun 30 May 1998: 7B (Associated Press).
[20] Jessica Guynn, "Make Yourself Bullyproof at Work," Gainesville Sun 18 Jan. 1999: Worklife 3 (Knight Ridder Newspapers).
[21] "One in Six Employees Cite Anger at Work," Gainesville Sun 6 Sept. 1999: 9B (Associated Press). [22] "High Cost of Rudeness," Gainesville Sun 27 July 1998: WorkLife 13.
[23] Frances A. McMorris, "Can Post-Traumatic Stress Arise From Office Battles?" Wall Street Journal 5 Feb. 1996: B1.
[24] Bob Rosner, "A False Accusation of Sexual Harassment," Gainesville Sun 2 Oct. 2000: Worklife 15 (Working Wounded syndicated column).
[25] Bernice Kanner, "Politeness is Endangered," Gainesville Sun 20 Apr. 2000: 11A (Knight Ridder Newspapers).
[26] For one side of the debate, see, e.g., David Cantor, The Religious Right: The Assault on Tolerance & Pluralism in America (New York: The Anti-Defamation League, 1994)
[27] Hilton Kramer, "The Second Cold War: This One is Internal. Culture is the Battleground," Wall Street Journal 2 Apr. 1999: W13. Florida Philosophical Review Volume I, Issue 1, Summer 2001 73
[28] A.M. Rosenthal, "Define Deviancy Up, Senate," Gainesville Sun 31 Jan. 1999: 3G (New York Times). Rosenthal is referring to Senator Moynihan's 1993 adaptation of Durkheim's notion of the social definition of deviance.
[29] William Raspberry, "Political Partisanship at its Worst," Gainesville Sun 22 Dec. 1998: 15A (The Washington Post)
[30] Dennis Farney & Gerald Seib, "The Stature Debate: Monicagate Left Few Reputations Enhanced," Wall Street Journal 16 Feb.1999: 1A. The article is subtitled: "Is It a Sign of These Times, Or of the Saga Itself, That No Heroes Emerge?"
[31] N. do T.: Em livre tradução, A Cultura da Contenda: Saindo do Debate para o Diálogo.
[32] She titles chapter three: "From Lapdog to Attack Dog: the Aggression Culture and the Press." Deborah Tannen, The Argument Culture: Moving From Debate to Dialogue (1998) 54-94
[33] Tannen states: "Because of the belief that fights--and only fights--are interesting, any news or information item that is not adversarial is less likely to be reported." Tannen 30.
[34] Impossível de traduzir mantendo a rima, mas, em livre tradução, a expressão significa algo como “Se [a notícia] sangra, ela lidera”.
[35] Tannen is scornful of the media practice that "the best way to cover news is to find spokespeople who express the most extreme, polarized views and present them as 'both sides' . . ." Tannen 3.
[36] But, as Tannen observes, the overly critical posture of the media dries up the flow of information by discouraging potential sources from being more forthcoming. Tannen 68.
[37] See Robert Moffat, "Mustering the Moxie to Master the Media Mess: Some Introductory Comments in the Quest for Media Responsibility," University of Florida Journal of Law and Public Policy 9 (1998): 137-49.
[38] N. do T.: Em livre tradução, algo como Senhorita Bons Modos.
[39] Judith Martin, "Miss Manners: Yes, Etiquette Actually can Ward Off Violence," Gainesville Sun, 12 May 1997.
[40] "Man Shot, Killed During Apparent Road Rage Case," Gainesville Sun 5 Aug. 2000: 3B (The Associated Press); "Man Charged in Apparent Road Rage-Led Shooting," Gainesville Sun 7 Aug. 2000: 3B (The Associated Press).
[41] Laurence Zuckerman, "Rising Tide of Passengers Fumes Over Delays at Nation's Airports: Weather and Labor Tensions Worsen Troubles," New York Times 16 July 2000:1
[42] Dave Carpenter, "Etiquette Lost as Cell Phone Use Grows," Gainesville Sun 2 Aug. 2000: 1A (Associated Press Business Writer); as the subhead indicates, "Aggravation leads to scuffles," 8A; report includes "black eyes and even a cracked rib after eruptions of 'cell phone rage'," 8A. See also Gary T. Marx, "Manners in the Age of New Communications Technologies," The Communitarian Update 29 online, Communitarian Update Archives, 2 Aug. 2000: "Suddenly Florida Philosophical Review Volume I, Issue 1, Summer 2001 74 there are dozens of new ways to be rude. Do respect for privacy and other social norms stand a chance in the face of cell phones, beepers, and caller ID?"
[43] "Police: Greeting Turned Deadly," Gainesville Sun 29 May 1999: 6B (The Associated Press).
[44] N. do. T.: No original, patronizing behavior, que pode significar comportamento assistencialista, ou ainda, atitude de favorecimento para com os outros. Em uma palavra, paternalismo.
[45] Judith Martin, "Miss Manners: Don't Mistake Kindness for Insult," Gainesville Sun 17 July 2000: WorkLife 14 (The Washington Post).

(Segunda parte) A INCIVILIDADE COMO BARÔMETRO DA DETERIORAÇÃO SOCIAL

(Segunda parte)

A INCIVILIDADE COMO BARÔMETRO DA DETERIORAÇÃO SOCIAL

Os perigos da repudiação[41]

A convicção da Senhorita Bons Modos é percebida ainda mais intensamente nas palavras do colunista William Raspberry, que acredita devermos diminuir nosso pronto expediente de partir para a briga, qualquer que seja a arena da discordância, social ou política. Segundo ele "Ativistas sociais não apenas discordam de seus opositores. Eles falam e agem como se seus oponentes fossem a personificação do mal: racistas, machistas, escroques neo-liberais, tagarelas de psicosandices... Tais ativistas querem fazer crer que nosso mundo é dividido entre indiferentes assassinos de crianças e adoradores de fetos".

Teriam essas incivilidades custos profundos? Raspberry acredita que sim e diz:"Estarei sugerindo aqui que a incivilidade habitual deve levar parte da culpa pelas mortes de crianças nas escolas? Em uma palavra, sim. Eu estou afirmando que a atitude irrascível dos adultos – desde a intemperança entre políticos até os ataques de fúria no trânsito – podem envenenar nossa atmosfera cívica e social." Em outras palavras, ele vê a galopante incivilidade de nossa vida política e social como criadora de um ambiente no qual, ocasionalmente, um garoto de 8a série vai absorver o espírito violento da retórica que permeia a sociedade: "Em nossa vida política e social, temos nos comportado como se fosse um vale tudo, ou seja, desde que as coisas se encaixem a nosso favor, está tudo bem. E ficamos sempre surpresos quando nossos filhos demonstram ser, eles mesmos, gozadores desalmados, maus perdedores, maus vencedores, cretinos auto-centrados e, ocasionalmente, assassinos."[42]

Essa associação parece ser muito exagerada para que se acredite nela? Bem, nós não parecemos ter problemas para aceitar que crianças em idade escolar sejam capazes de aprender atos de violência com seus pais em outros lugares do mundo – lugares obviamente mais problemáticos do que os EUA: jovens nos exércitos da África, militantes muçulmanos em muitos locais, crianças recrutadas pelos Tâmeis do Sri Lanka, além de atividades terroristas na Irlanda do Norte, em Israel, na Argélia etc.[43] De fato, as Nações Unidas agora alegam que “mais de 300.000 meninos e meninas, abaixo de 18 anos, estão envolvidos em lutas armadas em mais de 30 países”.[44] Não parece existir uma razão óbvia do porquê deveríamos acreditar que nossos jovens estão imunes à cultura do ódio e da violência.

Egoísmo e Intitulação

O colunista Leonard Pitts oferece uma teoria um pouco diferente, mas complementar da questão. Ele conclui que jovens violentos são, simplesmente, pragas mimadas: “Mimadas no sentido de que eles vivem vidas de intitulação, seus pensamentos girando em torno de si mesmos – seus problemas, seus desejos, suas necessidades, suas gratificações”. Pitts acha que a raiz do problema é o umbigocentrismo: “Os jovens não conseguem enxergar, nem se comprometer, com nada que vá além das fronteiras de suas próprias vidas. Por isso, não podem nem começar a respeitar as necessidades, ou os sentimentos, dos outros”. E ele vê esse fenômeno como sendo de natureza social: “Ser mimado é a ânsia de todos os americanos. Nossa cultura celebra as aquisições e trata do auto-interesse como sendo o único assunto que realmente importa”.[45]
Pitts parece ter razão ao distinguir o isolamento social do galopante individualismo – aquele, o verdadeiro culpado pelo crescimento das patologias sociais que estamos vivenciando. Num recente e compreensivo estudo acerca dos padrões de violência nas escolas, o FBI mostrou que adolescentes problemáticos são “deixados de fora de grupos e pares”. Entre os traços de personalidade indicadores de alto risco estão: “poucas habilidades para competir, sinais de depressão, alienação, narcisismo”.[46] O problema do egoísmo não está restrito aos assassinos nos pátios escolares. Ele floresce em todo o caminho que vai até o alto da pirâmide social. William Raspberry pega como exemplos da falta de simpatia, o ex-técnico de basquete do Indiana Pacers, Bobby Knight, e as jogadoras de tênis Venus e Serena Williams.[47]Para ver em ação o egoísmo levado ao extremo, talvez não haja melhor exemplo do que as atividades extra-curriculares do ex-presidente Bill Clinton. A resposta que ele providenciou para as críticas sobre suas falhas em dizer a verdade, foi uma desculpa que pareceu muito mais enraivecida do que sincera. Nós nunca saberemos se alguma sanção mais apropriada – desde que fosse diferente de um impeachment – poderia ter sido aplicada devido ao egoísmo dos Republicanos do Congresso – que bloquearam inteiramente a possibilidade de qualquer acordo. A confusão ilustra bem uma observação de Alexis de Tocqueville sobre “as insidiosas maneiras pelas quais o egoísmo, o individualismo e o narcisismo destroem as condições que tornam possível uma vida compartilhada”.[48]

As ações descuidadas de Clinton foram produto de seu total auto-centrismo. Não seria razoável esperar que, de repente, ele se tornasse capaz de transcender seu comportamento umbigocêntrico. O mesmo pode ser dito em respeito da posição dos representantes Republicanos do Congresso. É comum ouvirmos dizer que uma sociedade tem os líderes que merece. Podemos presumir, então, que Clinton e o Congresso foram os líderes ideais de uma sociedade umbigocêntrica, os líderes de pessoas que estão tão envoltas e preocupadas com seus próprios interesses egoístas quanto se pode imaginar. Se estivermos todos querendo abandonar os laços sociais que regulam nossa auto-indulgência, deveremos aceitar a conseqüência desse ato, qual seja, a deterioração do tecido social.

Solidariedade em meio à adversidade

Através da História as pessoas têm sobrevivido, a maior parte do tempo, aos enormes desafios que são as guerras, a fome, as doenças e calamidades similares. Também pela maior parte do tempo, essas tragédias ajudaram as pessoas a descobrir um profundo senso de comunidade devido à sua mútua necessidade de ajuda. Nós temos uma idéia muito pequena desse senso de comunidade em face dos desastres advindos de experiências passadas – tal como as inundações de 1977 que destruíram a maior parte de Grand Forks, na Dakota do Norte, ou os terríveis incêndios florestais na Flórida, durante o verão de 1998.
Mas nos Estados Unidos, e também em outras nações industrializadas, nós não mais enfrentamos tais desafios numa ampla escala social. Apesar das temporárias flutuações nos níveis de assistência ao público, ao longo dos anos o "Estado do bem-estar social" fez com que a maior parte da população que ainda enfrenta os sérios desafios da sobrevivência, tanto econômica quanto física, ficasse ilhada nesses países – ao contrário da maioria da população mundial, pois que esta ainda lida com aqueles problemas. O "Estado provedor" fez mais do que isso: ele reduziu substancialmente o papel da caridade privada em nossas comunidades. Conseqüentemente, os cidadãos privados têm cada vez menos ocasiões para construir uma interação, com base na solidariedade, com os membros menos afortunados dessa mesma sociedade.[49] As atividades caritativas da minoria de cidadãos mais prósperos – praticadas como base de construção da comunidade – foram substituídas, pelo governo, por um isolamento impessoal e profissionalizado dessas pessoas do restante dos membros da sociedade. Esse distanciamento social torna mais fácil de se protestar contra os programas de assistência governamental. E mesmo os programas de benefícios das empresas têm se tornado alvo constante das resoluções dos acionistas.[50]

Alguns empresários têm, até mesmo, sentido a necessidade de pressionar seus empregados a doarem os bônus de Natal[51] para a caridade.[52] Com o advento da internet, porém, as doações ficaram ainda mais remotas – do objeto da caridade –, pois agora é possível doar dinheiro sem um custo pessoal direto, já que a loja de onde se faz a compra online vai pagar o pato por todos.[53]

Nós não devemos ignorar a possibilidade de que a perda para o outro lado envolvido na questão pode ser igualmente significante. Pessoas que recebem ajuda na forma de caridade são tipicamente agradecidas. Aqueles que recebem benefícios do governo começam, facilmente, a ver esse fato como um direito instituído. Porém, tais “benefícios” vêm de fontes várias além do governo. Daí que a atitude de “intitulação” se estende até mesmo para dentro das relações familiares. E, sem dúvida, de acordo com a Senhorita Bons Modos, hoje em dia a configuração mental das pessoas está tão voltada para o anti-social – tendo se tornada tão extensa – que em alguns casos os filhos, ingratos, se tornaram “topetudos, ignorantes, cruéis, egoístas e ambiciosos”.[54] Ao triunfar o egoísmo, tanto beneficiadores quanto beneficiados estão libertos dos fortes laços sociais da caridade e da gratidão.

Portanto, aqueles que certa vez buscaram dar um sentido para suas vidas na atividade beneficente, agora estarão livres para buscar gratificações advindas dos desejos mais caprichosos. No lugar das adversidades, hoje enfrentamos os múltiplos desafios da prosperidade. O que importa é saber que as evidências dão suporte à proposição de que a adversidade tende a encorajar a construção de comunidades, enquanto que a prosperidade parece descambar para a busca de gratificações egoístas. Essa busca é protagonizada por indivíduos isolados uns dos outros, justamente, devido aos seus egoísmos. Nossa riqueza, sempre em crescimento, combinada com a ausência de verdadeiros desafios, tem gerado um fenômeno social que as análises históricas do futuro poderão revelar como sendo, alarmantemente, parecidas com as condições sociais de outros impérios do passado. Mutatis mutandis, também eram impérios muito bem-sucedidos, mas, durante o começo de seus declínios, eram alienados e inconscientes de que marchavam em direção ao abismo.

Anomia em meio à riqueza

O século que ora finda tem sido caracterizado (nas nações industrializadas) por uma prosperidade enorme e sem precedentes, bem como pelo florescimento do individualismo que essa prosperidade alimenta. No começo do século XX esse panorama preocupava a Emile Durkheim, tendo ele previsto o desmantelamento da sociedade numa anomia, caso a solidariedade, que gera a coesão social, fosse perdida.[55] Ele percebia que a coesão social é baseada numa participação na consciência coletiva, e esta é a moralidade comum que une toda a sociedade. Traduzindo para os termos da nossa discussão, a consciência coletiva significa que a adesão aos laços sociais é refletida na civilidade da sociedade. Ao mesmo tempo, incivilidade é uma indicação de anomia. Indivíduos bem-sucedidos que tenham perdido os limites morais impostos pela sociedade – a fim de manterem sua força – não hesitam em demonstrar sua incivilidade para com os outros. Digby Anderson vê a ameaça à civilidade nascendo destes “outros bárbaros: relativizadores, autoreferentes, narcisistas e igualitários que agora queimam as cidades”.[56]

Na verdade, um estudo recente indica que pessoas excessivamente umbigocêntricas são as mais agressivas quando criticadas. O estudo conclui que “os narcisistas querem, principalmente, punir ou destruir alguém que tenha ameaçado suas altamente favoráveis impressões de si mesmos.”[57] Por que tais egoístas deveriam se importar com os outros no mínimo que fosse? Seu único motivo seria porque os outros poderiam ser usados para ajudá-los a atingir seus próprios objetivos egoístas. Portanto, a civilidade é um indicador importante da saúde de uma sociedade. A incivilidade pode, da mesma forma, indicar um declínio social. Levada às últimas conseqüências, ela não significa outra coisa se não a destruição da sociedade.

Numa perspectiva durkheimniana, agora é possível de se ver quão pálidos são os efeitos da incivilidade, apresentados na primeira seção, em comparação com os verdadeiros custos que ela pode acarretar: a perda da coesão social que é, também, a raiz da causa social de nossa burguesia incivilizada. Civilidade é a moralidade durkheimniana, ou seja, uma adesão aos laços sociais. Incivilidade é o seu oposto, a anomia, a perda dos limites daqueles laços sociais. Tal perda significa que a sociedade perdeu sua coesão. E, uma vez que a coesão é o cimento que mantém a sociedade unida, a presença dessa anomia é, em si mesma, um barômetro da deterioração social."

Notas e referências:

[41] N. do T.: Repudiação -repudiation - pode ser lido como o termo técnico que significa uma forma de ataque a um sistema informatizado. Basicamente, consiste no usuário dizer "Não fui eu!". A "versão web service" deste ataque é bem simples: você expõe um serviço da sua empresa via web service. O seu cliente chama o web service fazendo com que a sua empresa realize um trabalho em benefício dele, e na hora de apresentar a fatura, você ouve "Mas não fui eu!".
[42]) William Raspberry, "How to Handle These Toxins in America's Social Atmosphere?" Gainesville Sun.
[43] N. do T.: Nessa lista bem poderiam ser incluídos os meninos do tráfico de qualquer morro brasileiro.
[44] Dilshika Jayamaha, "Rebels Sell Belief that Pain Brings Liberation," Gainesville Sun 10 Sept. 2000: 6A (The Associated Press; the report is "Close-up: Child soldiers")
[45] Leonard Pitts, "What Is It That Drives Kids Today to Commit Such Violent Acts?" Gainesville Sun 16 July 1998.
[46] "FBI Releases Model of School Shooters," Gainesville Sun 7 Sept. 2000: 3A (The Associated Press).
[47] William Raspberry, "Graciousness Is a Quality Some of Us Surely Could Use," Gainesville Sun 15 Sept. 2000.
[48] See Rochelle Gurstein, "The Tender Democrat," New Republic, 5 Oct. 1998: 41 (reviewing Stephen Carter, n. 2).
[49] See, e.g., the dramatic statistics presented in Charles Murray, In Pursuit: Of Happiness and Good Government
[50] E.g., The Pfizer Corporation 1999 Annual Meeting Shareholder Proxy Solicitation Statements V-15-16: "Item 5 -- Shareholder Proposal Relating to Charitable Contributions."
[51] N. do T.: O que lá eles chamam de Christmas Gift Certificate seria chamado, aqui no Brasil, de 13º salário.
[52] "Dear Abby," Gainesville Sun 27 Jan. 2000: 2D.
[53] "Online Shoppers are Helping Charities with Purchases," Gainesville Sun 4 Jan. 2000: 5A (The Associated Press).
[54] Judith Martin, "Miss Manners: Children Never Learned to Express Gratitude," Gainesville Sun 3 Jan. 2000: WorkLife 12 (The Washington Post).
[55] Emile Durkheim, Suicide, ed. George Simpson, tr. John A. Spaulding and George Simpson (Glencoe, IL: Free Press, 1951) 241-76.
[56] Digby Anderson, "Civility Under Siege," Wall Street Journal 2 Oct. 1998: W14. Florida Philosophical Review.
[57] Brad Bushman and Roy Baumeister, "Threatened Egotism, Narcissism, Self-Esteem, and Direct and Displaced Aggression: Does Self-Love or Self-Hate Lead to Violence?" Journal of Personality and Social Psychology 75 (1998): 227. Florida Philosophical Review Volume I, Issue 1, Summer 2001 76

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(Traduzido por José Miguel Teixeira de Carvalho)