quinta-feira, 13 de agosto de 2009

LULA, COLLOR E SARNEY: UMA HIPÓTESE FANTÁSTICA

Em tempos tão delirantes um delírio a mais outro a menos não fará muita diferença. Explicações para a insólita aliança entre oligarcas do sindicalismo com herdeiros de capitanias hereditárias do norte e do nordeste já foram ensaiadas por muitos. Ao fixar-se no nome de Sarney como presidente do Senado, Lula da Silva estaria conduzindo uma operação preventiva de garantia do futuro. Do seu futuro, principalmente. Eis aí uma situação com incrível plausibilidade. Trata-se da possível candidatura de Lula da Silva a um mandato de senador. Isto implicaria no seu afastamento do cargo atual, conforme prevê a legislação, seis meses antes das eleições. Na hipótese da candidatura oficial ser bem sucedida, sinaliza-se para um mandato de oito anos (tal como ocorreu com Fernando Henrique e o próprio Lula da Silva). E este resistirá tanto tempo no sereno esperando que tenha novamente outra hora e outra vez? Sabe ele, ainda, que o Senado da república é um lugar tranquilo, ideal para gente afeita ao ócio, cheio de ex-presidentes e ex-governadores. Só faltam Lula da Silva, Itamar Franco e Fernando Henrique, para que o adorno das colunas senatoriais esteja completo (juntando-se a Sarney e Collor). Lá se trabalha pouco e se usufrui muito. Um lugar adequado para o repouso do guerreiro do "nunca dantes na história deste país"! Lugar para ser feliz, feliz qual um pintinho no lixo. Um lugar, enfim, melhor que o paraiso, conforme já dizia Darcy Ribeiro, pois não é necessário morrer para lá estar.

Pois bem, um presidente com eventual alta popularidade, sobraçando uma candidata obscura à sua sucessão, pode perfeitamente ser bem sucedido. E, ainda, de lambugem consegue se eleger senador em algum estado do norte ou do nordeste. Seria Lula da Silva, portanto, no futuro, o condestável da República, sem a obrigação detestável de ficar envolvido com as rotinas da administração. Para isto serviria a tal "mãe do PAC". Mas para implantar projeto tão incrível é importante que a presidência fosse ocupada por alguém confiável (em vista do precário estado de saúde do atual vice-presidente). E confiável, para Lula da Silva, é Sarney. Pois, na linha sucessória, o presidente da Câmara - deputado Michel Temer - dificilmente assumiria para não ficar inelegível no ano que vem. Se bem que não deixa de ser tentador para a biografia de qualquer político a ocupação do mais importante cargo do país durante nove meses. Ou seja, e se Temer não topar perder a precedência em prol de Sarney, terceiro na linha, logo após José Alencar e o ilustre deputado? A caneta presidencial em mãos erradas pode tumultuar tudo. E este governo tem muitos esqueletos que, se mostrados, tumultuariam o mais bem urdido e ousado dos planos. Num país onde o realismo fantástico é, simplesmente, realismo do bom, imaginar qualquer possibilidade não é obra vã. Essa gente é capaz de tudo. Aliás, os exemplos nos últimos seis anos e meio são uma prova definitiva desta capacidade.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Marina Silva e o efeito "Jô Morais"

O experimento eleitoral de Belo Horizonte pode se repetir em escala ampliada nas próximas eleições presidenciais. Vejamos as similitudes entre a situação local e a nacional. Inconformada com a escolha autocrática feita pelo então prefeito petista Fernando Pimentel (que impôs ao seu partido o nome de um estranho no ninho, o obscuro Márcio Lacerda), a chamada esquerda petista embarcou na candidatura de Jô Morais, medíocre deputada federal do PC do B. Márcio Lacerda era uma espécie de dona Dilma, a candidata chapa branca de Lula da Silva. Ambos sem luz própria e sem votos, verdadeiros bonecos de engonço nas mãos de seus patrocinadores. Com uma poderosa máquina administrativa nas mãos (após 16 anos de poder), o então prefeito Pimentel moveu céus e terras e, principalmente, vultosos recursos para alavancar seu candidato (vale à pena lembrar aqui o peso de empreiteiras como a Andrade Gutierrez na execução de obras na capital mineira bem como dos remanescentes ocultos do mensalão, não o mensalão mineiro, mas o mensalão mesmo, o suculento esquema federal cuja gênese está em Belo Horizonte).

Nos momentos iniciais da campanha a turma que apoiava Jô Morais chegou, até, a acreditar na possibilidade de vitória. Afinal, a deputada era mulher, de esquerda, estridente, nordestina e outros qualificativos usuais vistos como positivos pelos adeptos de seu denominado "campo político". Mais importante, a candidata apresentava índices expressivos de intenção de voto nas pesquisas publicadas na primeira fase do processo de disputa. Na medida que a campanha avançava, ela foi se desidratando e findou a jornada com pouco mais de 5% dos votos (vale lembrar aqui a advertência de César Maia no tocante ao desempenho eleitoral de candidatos monotemáticos). No segundo turno, claro, as bases sociais e operativas dos dissidentes do postulante oficial (que apoiavam Jô Morais), voltaram ao redil costumeiro, com exceção de uns gatos pingados sem qualquer expressão eleitoral (inclusive a própria deputada e os áulicos comensais da mesa do vice-presidente José Alencar). Por baixo do pano lideranças expressivas do PT histórico se moveram em envergonhado apoio à deputada, porém, nem o apoio de Patrus Ananias, nem o de Luiz Dulci, resultou em grandes benefícios à candidata que teve uma "entrada de leão e uma saída de cão".

Na hipótese de um eventual segundo turno eles se ajuntam tudo de novo, tal como fizeram para enfrentar o adversário de Márcio Lacerda em Belo Horizonte, à época o deputado federal Leonardo Quintão, do PMDB. Brandindo o velhíssimo discurso stalinista de "campo político", os grupos que apoiavam Jô Morais desencadearam a mais sórdida campanha contra o deputado Quintão e abraçaram - agora, docemente constrangidos - o obscuro e suspeitíssimo Márcio Lacerda, ponta de lança da parcela do mensalão destinado a Ciro Gomes e tocador de uma das obras mais nefastas do período Lula da Silva: a transposição do Rio São Francisco. A engenharia do projeto continuista para o próximo ano parece que seguirá o mesmo roteiro da experiência belorizontina. Afinal de contas, o sucesso da empreitada mostrou sua viabilidade além de indicar os pontos fracos da estratégia adotada. Ou alguém imagina que os malucos do MST, que devem apoiar uma eventual candidatura Marina Silva, iriam votar num nome do PSDB, do DEM ou do PMDB no segundo turno da eleição presidencial?

terça-feira, 11 de agosto de 2009

CARTA AO PT (Marcelo Tás)

Por não ser petista, sempre fui considerado "de direita" ou "tucano" pelos meus amigos do falecido Partido dos Trabalhadores.Vejam, nunca fui "contra" o PT. Antes dessa fase arrogante mercadântica-genoínica, tinha respeito pelo partido e até cheguei a votar nos "cumpanheiro". A produtora de televisão que ajudei a fundar no início da década de 80, a Olhar Eletrônico, fez o primeiro programa de TV do PT. Do qual aliás, eu não participei.Desde o início, sempre tive diferenças intransponíveis com o Partido dos Trabalhadores. Vou citar duas.Primeira: nunca engoli o comportamento homossexual dos petistas. Explico: assim como os viados, os petistas olham para quem não é petista com desdém e falam: deixa pra lá, um dia você assume e vira um dos nossos.Segunda: o nome do partido. Por que "dos Trabalhadores"? Nunca entendi. Qual a intenção?Quem é ou não é "trabalhador"? Se o PT defende os interesses "dos Trabalhadores", os demais partidos defendem o interesse de quem? Dos vagabundos?E o pior, em sua maioria, os dirigentes e fundadores do PT nunca trabalharam. Pelo menos, quando eu os conheci, na década de 80, ninguém trabalhava. Como não eram eleitos para nada, o trabalho dos caras era ser "dirigentes do partido". Isso mesmo, basta conferir o currículum vitae deles. Repare no choro do Zé Genoníno quando foi ejetado da presidência do partido. Depois de confessar seus pecadinhos, fez beicinho para a câmera e disse que no dia seguinte ia ter que descobrir quem era ele. Ia ter "que sobreviver" sem o partido. Isso é: procurar emprego. São palavras dele, não minhas. Lula é outro que se perdeu por não pegar no batente por mais de 20, talvez 30 anos... Digam-me, qual foi a última vez, antes de virar presidente, que Luis Ignácio teve rotina de trabalhador? Só quando metalúrgico em São Bernardo. Num breve mandato de deputado, ele fugiu da raia. E voltou pro salarinho de dirigente de partido. Pra rotina mole de atirar pedra em vidraça.Meus amigos petistas espumavam quando eu apontava esse pequeno detalhe no curriculum vitae do Lula. O herói-mor do Partido dos Trabalhadores não trabalhava!!! Peço muita calma nessa hora. Sem nenhum revanchismo, analisem a enrascada em que nosso presidente se meteu e me respondam. Isso não é sintoma de quem estava há muito tempo sem malhar, acordar cedo e ir para o trabalho. Ou mesmo sem formar equipes e administrar os rumos de um pequeno negócio, como uma padaria ou de um mísero botequim?Para mim, os vastos anos de férias na oposição, movidos a cachaça e conversa mole são a causa da presente crise. E não o cuecão cheio de dólares ou o Marcos Valério. A preguiça histórica é o que justifica o surto psicótico em que vive nosso presidente e seu partido. É o que justifica essa ilusão em Paris... misturando champanhe com churrasco ao lado do presidente da França... outro que tá mais enrolado que espaguete.Eu não torço pelo pior. Apesar de tudo, respeito e até apoio o esforço do Lula para passar isso tudo a limpo. Mesmo, de verdade. Mas pelamordedeus, não me venham com essa história de que todo mundo é bandido, todo mundo rouba, todo mundo sonega, todo mundo tem caixa 2... Vocês, do PT, foram escolhidos justamente porque um dia conseguiram convencer a maioria da população (eu sempre estive fora desse transe) de que vocês eram diferentes. Não me venham agora querer recomeçar o filme do início jogando todos na lama.Eu trabalho desde os 15 anos. Nunca carreguei dinheiro em mala. Nunca fui amigo dessa gente. Pra terminar uma sugestão para tirar o PT da crise. Juntem todos os "dirigentes", "conselheiros", "tesoureiros", "intelectuais" e demais cargos de palpiteiros da realidade numa grande plenária. Juntos, todos, tomem um banho gelado, olhem-se no espelho, comprem o jornal, peguem os classificados e vão procurar um emprego para sentir a realidade brasileira. Vai lhes fazer muito bem. E quem sabe depois de alguns anos pegando no batente, vocês possam finalmente, fundar de verdade um partido de trabalhadores.(*) Marcelo Tas, multimídia, atualmente chefia o programa da BAND, CQC, e esta carta é de 2007.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

FRITANDO O PMDB

O projeto político do PT é ocupar o espaço do PMDB. Caminhando cada vez mais rápido em direção aos grotões, os petistas sabem que precisam desalojar os que lá se encontram se quiserem ter um lugar ao sol. As regiões mais ricas e mais rebeldes já sinalizam o repúdio às práticas de Lula da Silva e sua quadrilha. Os recentes acontecimentos do Senado estão funcionando somente como catalisadores para um sentimento ainda difuso de insatisfação política e social. Uma nova onda de opinião pública parece estar em gestação. Para o PT é importante transferir a imagem de partido dos corruptos para o PMDB. Ou, ao menos, estabelecer alguma confusão a respeito, embaralhando a percepção popular.
Neste sentido, o foco em Sarney cabe como uma luva aos desígnios do governo. Emparedando o PMDB com promessas públicas de cargos, favores e outras benesses futuras, o PT cola na testa do velho partido de Ulisses o rótulo de chantagistas, ladrões e corruptos. A publicidade em torno das malfeitorias senatoriais serve para reforçar o visgo da imagem negativa. E o PT, em manobra suave, vai se afastando do lodaçal com cara de quem não tem nada a ver com isto. Lula da Silva lava as mãos e volta ao seu ofício favorito: viajar e falar abobrinhas. Causa espanto que cardeais experimentados, alguns com décadas de experiência, não percebam que Lula da Silva e o PT estão fritando o PMDB na própria gordura. A imprensa apenas divulga os fatos. Ela não os inventa. E todos os veículos de comunicação independentes convergem na mesma direção. Alegar, como o fez Sarney, que ele está sendo perseguido - um novo Bey de Tunis - é tampar o sol com a peneira. Ao PMDB só restaria uma saída, aquela ao estilo Roberto Jeferson: destampar o pinico e jogar a bomba no colo do dono.
A chamada fração ética do PT começa a ensaiar um caminho de fuga com a possível candidatura presidencial de Marina Silva (pelo Partido Verde). Disputando com candidatos envelhecidos (menos na idade cronológica que na idade espiritual), como o tribufu oficial, a senadora acreana poderá galvanizar aquela nova onda da opinião pública acima referida. Para o PMDB as coisas só piorarão se sair atrelado ao postulante governista (ocupando o lugar de vice-presidente na chapa), qualquer que seja o nome escolhido (pode nem ser a tal Dilma, figura grotesca incapaz de aglutinar apoios e galvanizar eleitores num processo cheio de nuances). Marina Silva se beneficiaria do imaginário cultivado pelo petismo muito mais que a dondoca que Lula da Silva quer impingir ao Brasil, e que vive se exibindo com bolsas de grife vendidas nas butiques por mais de cinco mil dólares. A senadora do Acre é preta, evangélica e, de uma certa forma, favelada. Uma espécie de Bené sem deslumbramento e sem envolvimento em velhacarias. Pode, até, nem dar certo mas que este seria, seria, um novo cenário, disto não resta a menor dúvida.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Collor e Lula: o diabo os juntou, finalmente

Agosto continua a manter sua sina aziaga na história política brasileira. Tem lá suas utilidades este destino reservado ao mês do antigo imperador romano. Os inumeráveis escândalos do Senado da República propiciam o desvelamento, aos olhos da opinião pública, de insuspeitadas alianças. Collor e Lula da Silva, por exemplo, outrora tidos como rivais, quem diria que se comportariam como "unha e carne" na trincheira dos que sempre gigolaram o povo brasileiro? Primitivos e brutais nos seus comportamentos e nas suas manifestações representam, ambos, facetas visíveis dentre as mais retrógradas da vida nacional. Os atos mais comezinhos, os gestos histriônicos, os discursos e as práticas nefastas de gestão da coisa pública denunciam, no entanto, a incrível, implausível porém verdadeira e orgânica afinidade. A muitos eles parecem estar, sempre, como que movidos pelo acicate de substâncias entorpecentes. Mas é um engano pensar em hipótese tão vulgar. Eles são, de fato, não mais que meros agentes de forças que os transcendem. São os dois, com efeito, luminares - duas cabeceiras - de alguns dos agrupamentos mais poderosos da chamada classe dominante.

Lula da Silva e seus sequazes pouco diferem, na substância, de Collor de Mello e seus acólitos. Coronéis que lideram, respectivamente, dois grandes blocos: o primeiro, composto pelo patriciado do funcionalismo público, personalidades, eminências e artistas, além da emergente fração dos controladores dos fundos de pensão e dos donos dos cartórios sindicais de todos os tipos, quer patronais quer de assalariados; o segundo, abrange oligarquias herdeiras de poderosas máquinas eleitorais regionais e locais, bem como expressivas parcelas do patriciado profissional tributário do emprego público. Disputam, nas eleições periódicas, com grande avidez, a preferência dos setores desorganizados das classes médias urbanas e do lumpesinato rural, que ainda existe em grande número pelo país afora manipulado pela Igreja Católica e pelos denominados movimentos sociais de natureza milenarista.

Parafraseando o ex-deputado Fernando Lyra pode-se dizer que a turma de Collor de Mello representa a "vanguarda do atraso", enquanto a turma de Lula da Silva abarca "o atraso da vanguarda". Os dois blocos se uniram hoje nesta interface sinistra. Sinistra para o povo, bem entendido, pois, para eles é o que de melhor poderia acontecer historicamente. Se Collor de Mello iniciou o processo de privatização das empresas públicas, os maiores beneficiários afinal de contas (pelo menos do filé mignon, como Vale do Rio Doce), foram os bilionários fundos de pensão controlados pela oligarquia sindical da qual Lula da Silva é a face mais notória.

Os dois blocos se unem, ainda, na compreensão do papel decisivo do Estado na manutenção dos velhos privilégios e na conquista de outros mais. Na sociedade de massas em que vivemos eles sabem que minorias políticas extremamente bem organizadas conseguem impor ao restante da população o ônus de bancar sua existência confortável, facilmente transferível a seus gulosos herdeiros de sangue e de fé por sucessivas gerações. É uma estrutura de poder tão forte que, mesmo aqueles que poderiam liderar uma alternativa mais moderna não têm forças nem coragem de arrostar este sofisticado sistema. Onde estão, digamos, as manifestações da CNBB, da OAB e outras sereníssimas Ordens, de personalidades que governam estados importantes (como Minas Gerais e São Paulo), artistas, professores, estudantes, profissionais liberais, intelectuais etc, frente a tudo isto que se passa à frente de todos? Esta nudez explícita de bandoleiros pornográficos que, quando ocorre em um campo de futebol, faz o atleta merecer um cartão vermelho? Que saudades dos tempos em que havia no Brasil homens como Tancredo, Brizola, Covas, Montoro, Teotônio Vilela, Raimundo Faoro e outros do mesmo barro... Nenhum deles ficaria em silêncio, neste silêncio cúmplice que todos testemunhamos agora de maneria tão generalizada. Nossa ínfima sorte é a presença pública de homens (com H maiúsculo), como os velhos e audaciosos senadores Jarbas Vasconcelos e Pedro Simon, entre outros, não tantos, que ainda existem, como gostaríamos. Estamos vivendo, para infelicidade e tristeza de muitos, sob o império dos Delúbios, dos Dirceus, dos Valdomiros, das Chauís, dos Lulas e mais outros 300 mil picaretas que não se cansam de se multiplicar como fungos ou outros tipos de parasitas.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

CARTA AO ÚLTIMO EXILADO

(Por sugestão do A. Faria)

"Depois de quase 40 anos vivendo na Suécia com identidade falsa, o ex-marinheiro Antônio Geraldo da Costa, 75, o Neguinho, desembarcou no Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro, no último dia 21. Em vez de agentes da Polícia Federal prontos para prendê-lo, encontrou um emissário enviado pelo Ministério da Justiça para lhe dar as boas-vindas. Neguinho foi o último exilado a voltar. Eu fui o primeiro, logo que o AI-5 acabou. Portanto, tenho 30 anos e meio a mais de experiência de Brasil do que o Neguinho, razão pela qual estou lhe encaminhando uma carta com algumas instruções básicas.

Companheiro Neguinho,

Em primeiro lugar, muita calma. Se você for convocado para um ato secreto em Brasília, não se apavore pensando que é uma sessão de porrada ou choque ou para ser pendurado no pau de arara, como nos velhos tempos. Ato secreto pode ser o meio pelo qual um senador, que pesquisou e descobriu ser teu parente, está tomando as providências para lhe arrumar um emprego de, por exemplo, “encarregado professor adjunto de Nós Náuticos e diretor das Embarcações do Senado no Lago Paranoá”, dada tua condição de marinheiro.

Outra palavra chave é “anistia”. Se algum advogado chegar falando baixinho que você tem de “pegar tua anistia”, não vá estranhar e responder, todo orgulhoso, que já está anistiado - embora isso seja tanto verdade que você está andando de um lado para o outro sem problemas. Não terá sido bem isso o que o doutor quis dizer. Essa expressão “pegar tua anistia” significa mesmo ganhar uma grana - e o doutor, claro, leva algum com isso. Tem jornalista que levantou 1 milhãozinho só porque, depois do golpe, perdeu um emprego que nem tinha nada a ver com o golpe.

Aliás, é pena que você tenha sido da Marinha, e não da Petrobras. Se você fosse da segunda, eu até iria sugerir que me convidasse para o churrasco em comemoração. Você nem imagina a grana que essa turma levantou. É bem mais preta do que o petróleo.

Mudou tudo, compadre.

Agora nós é que estamos por cima. Ou melhor, só alguns de nós, uma meia dúzia, se muito. Exagerando, talvez um pouco mais. O resto continua pastando, inclusive o povão. “Povão” é o que a gente chamava antigamente de “massa atrasada”. O presidente Lula é o primeiro da lista. Há uns 40 anos, era torneiro mecânico. Depois entrou no sindicato como sub do sub, foi subindo, subindo… e não quis mais saber de outra vida. Fala qualquer coisa, parece entender de tudo e todo mundo acha graça. É um talento.

Outro é o José Serra. Foi presidente da UNE quando você era vice-presidente da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, agora governa São Paulo e, de repente, pode ser eleito para a vaga do Lula. Tanto o Serra quanto o Lula têm o apoio daquela turma que queria ver a gente enforcado. Mas, em vez do Serra, o Lula prefere a Dilma, outra ex-companheira. Essa você não conheceu, veio depois de nós, mas é esperta, menino, você precisa ver. Tem currículo para tudo. Precisa de guerrilheira? Ela tem. Torturada? Tem. Doutora? Também tem currículo. Nem sei como conseguiu fazer tanta coisa e mais ainda o serviço de casa.

Outros que foram da pesada e estão se dando bem são o Carlos Minc, que tem a chave da Amazônia, e o Franklin Martins, que tem a chave do cofre da mídia. Falando em cofre, toda essa turma “fez” o cofre do Adhemar. Esse item é parte importante do currículo. Pega bem porque, afinal, o Adhemar era tido como ladrão. E, pelo número de companheiros que “fizeram” o cofre dele, parece que aquilo nem foi assalto, mas um show da Madonna.

É, companheiro, as coisas mudaram.

Quer um conselho: dá uma de Gabeira, faça como ele, que também veio da Suécia, e escreva um livro do tipo “O Que É Isso, Companheiros?” -”companheiros”, assim mesmo, no plural-, sobre o que você está vendo de diferente, de estranho, e espere um pouco. De repente, você até se dá bem. No ano passado, Gabeira quase se elegeu prefeito do Rio de Janeiro e agora já o convidam para tentar o governo do Estado.

Enquanto nada disso acontecer, venha me visitar em São Sebastião, onde moro atualmente. Aqui tem peixe, pinga, porto e mulher bonita. Tudo de que a gente precisa. Tenho um barco velho com motor de caminhão que vivo reformando, mas dá para pegar umas garoupas e sororocas.
Vamos fazer umas pescarias. E falar mal do governo, porque eu estou onde sempre estive: na oposição. Você sabe, Neguinho, o lugar de um homem que se preza é na oposição.

Aquele abraço,

DAVID LERER"

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A PETROBRÁS E SUAS MUTRETAS (1)

É uma das coisas mais engraçadas da vida ler o jornal "Classe Operária", porta-voz do PC do B. Sua última edição (conforme eles mesmos: "ano 83, sétima fase, número 15, julho de 2009), diz que a "CPI da Petrobrás esconde interesses das grandes empresas multinacionais do setor do petróleo e do imperialismo dos Estados Unidos, que querem controlar as riquezas do pré-sal". Esta referência ao "ano 83" é do balacobaco, para usar uma expressão compatível com a natureza fóssil do jornaleco. Só falta, ao se referir ao calendário usual, denominá-lo com o epíteto de "Era Vulgar". A mentalidade primitiva desta gente não lhes permite ver que a Petrobrás é uma das maiores multinacionais do planeta. Pensa e age como qualquer transnacional, principalmente, as devotadas ao negócio do petróleo. O apoio do PC do B e suas organizações satélites à empresa tem fundamentos mais pecuniários que ideológicos. A Petrobrás é uma tremenda boquinha da qual não se pode abrir mão, parece dizer a companheirada fossilizada, agarrada como uma craca no gigantesco casco do empreendimento. O PC do B é um sócio menor, porém, leal dos negócios da turma liderada pelo PT. Contenta-se com as migalhas (um adjutório ali, outro acolá, um pastel ou uma tapiocazinha numa barraca de feira pagos, evidentemente, com cartão corporativo de algum ministério devidamente aparelhado por enxames de gulosos assessores, uma mordida na verba publicitária da Petrobrás para financiar convescotes estudantis etc, etc), e eis aí o resultado da devoção: uma penca de entidades e de siglas vazias ou degeneradas se prestando ao papel de bate-paus e entoadores de palavras de ordem contra os "neo-liberais" e a favor dos atuais donos do poder pois, afinal de contas, "o petróleo é nosso"! Nosso? Nosso, quem, cara-pálida?

Alguém já questionou o fato da ANP (agência que controla a produção e distribuição de combustíveis automotivos no Brasil), ser um braço efetivo da Petrobrás? Os membros desta agência (que cuida, também, dos assuntos relativos aos combustíveis de origem agrícola), são mais prepostos desta multinacional que profissionais independentes dedicados a propor e a gerir políticas de interesse do povo brasileiro. Sua mentalidade é mais de mineradores que de agricultores. Mineradores, como se sabe, pouco ou nenhum apreço têm com a questão ambiental, por exemplo. São predadores da natureza. Como, portanto, gente com este perfil vai se preocupar com as complexas questões agronômicas e sociais subjacentes à produção de álcool ou biodiesel? Há, por acaso, na farta composição da ANP alguma representação do setor agrícola? Junto aos predadores da natureza assentam-se aqueles que aram, plantam, segam e colhem enfrentando os limites eventuais e os riscos inerentes a todo plantio (chuva, sol, enchentes, secas, pragas, doenças, calendário etc.)?

O pouco ou nenhum apreço da turma da Petrobrás com a questão ambiental pode ser visto no padrão do óleo diesel que a empresa vende aos brasileiros. Boa parte da formidável poluição urbana, que afeta a todos, ricos ou pobres, se deve à conhecida e pouco divulgada má qualidade deste combustível fóssil. No mundo civilizado o teor aceitável de enxofre no diesel não ultrapassa a proporção de 50 partes por milhão. O enxofre é um dos piores venenos entre todos que são lançados na atmosfera. O fenômeno conhecido como chuva ácida tem nele um dos seus fundamentos. Pois bem, a "patriota" Petrobrás impõe aos brasileiros que moram nas grandes cidades um diesel com o teor de 500 partes por milhão (dez vezes mais de concentração de enxofre que o aceitável nos paises capitalistas civilizados, repita-se). Para os caipiras que moram nos vastos sertões do país o teor é maior ainda: 2.000 partes por milhão! Isto sem falar na fuligem negra que pode ser constatada visualmente em qualquer rua onde ônibus e caminhões circulam diuturnamente. Esta brutal contaminação da atmosfera, agravada em tempos secos pela baixa umidade do ar, deve-se ao espírito sórdido que preside as ações comerciais da Petrobrás. Afecções bronco-pulmonares e outras moléstias devidas às emissões dos canos de descargas (além da sujeira permanente aderida a roupas, móveis e assoalhos de todas as casas), compõe o quadro nefasto pelo qual a Petrobrás é responsável. E não se diga que este é um problema criado pelos adversários políticos da empresa ou pelos "lacaios" do capitalismo. Os países capitalistas sérios exigem que suas multinacionais petrolíferas forneçam combustíveis com baixíssimo teor de contaminação. Mas, no Brasil, a dona do monopólio (está entre as dez maiores empresas do mundo), nem se lixa para estas questões "burguesas". Se ela se devotasse mais aos verdadeiros interesses do povo, teria investido mais em procedimentos de purificação do diesel. Traria benefícios a toda a coletividade. Isto, porém, iria diminuir seus espantosos lucros e, em decorrência, os dinheiros que alimentam a corrupção do PC do B, do PT e de outros comensais do mesmo cocho (os fundos de pensão e os próprios empregados através de suculentos nacos na forma de PLR - Participação nos Lucros e Resultados).