quinta-feira, 30 de julho de 2009

A PETROBRÁS E SUAS MUTRETAS (1)

É uma das coisas mais engraçadas da vida ler o jornal "Classe Operária", porta-voz do PC do B. Sua última edição (conforme eles mesmos: "ano 83, sétima fase, número 15, julho de 2009), diz que a "CPI da Petrobrás esconde interesses das grandes empresas multinacionais do setor do petróleo e do imperialismo dos Estados Unidos, que querem controlar as riquezas do pré-sal". Esta referência ao "ano 83" é do balacobaco, para usar uma expressão compatível com a natureza fóssil do jornaleco. Só falta, ao se referir ao calendário usual, denominá-lo com o epíteto de "Era Vulgar". A mentalidade primitiva desta gente não lhes permite ver que a Petrobrás é uma das maiores multinacionais do planeta. Pensa e age como qualquer transnacional, principalmente, as devotadas ao negócio do petróleo. O apoio do PC do B e suas organizações satélites à empresa tem fundamentos mais pecuniários que ideológicos. A Petrobrás é uma tremenda boquinha da qual não se pode abrir mão, parece dizer a companheirada fossilizada, agarrada como uma craca no gigantesco casco do empreendimento. O PC do B é um sócio menor, porém, leal dos negócios da turma liderada pelo PT. Contenta-se com as migalhas (um adjutório ali, outro acolá, um pastel ou uma tapiocazinha numa barraca de feira pagos, evidentemente, com cartão corporativo de algum ministério devidamente aparelhado por enxames de gulosos assessores, uma mordida na verba publicitária da Petrobrás para financiar convescotes estudantis etc, etc), e eis aí o resultado da devoção: uma penca de entidades e de siglas vazias ou degeneradas se prestando ao papel de bate-paus e entoadores de palavras de ordem contra os "neo-liberais" e a favor dos atuais donos do poder pois, afinal de contas, "o petróleo é nosso"! Nosso? Nosso, quem, cara-pálida?

Alguém já questionou o fato da ANP (agência que controla a produção e distribuição de combustíveis automotivos no Brasil), ser um braço efetivo da Petrobrás? Os membros desta agência (que cuida, também, dos assuntos relativos aos combustíveis de origem agrícola), são mais prepostos desta multinacional que profissionais independentes dedicados a propor e a gerir políticas de interesse do povo brasileiro. Sua mentalidade é mais de mineradores que de agricultores. Mineradores, como se sabe, pouco ou nenhum apreço têm com a questão ambiental, por exemplo. São predadores da natureza. Como, portanto, gente com este perfil vai se preocupar com as complexas questões agronômicas e sociais subjacentes à produção de álcool ou biodiesel? Há, por acaso, na farta composição da ANP alguma representação do setor agrícola? Junto aos predadores da natureza assentam-se aqueles que aram, plantam, segam e colhem enfrentando os limites eventuais e os riscos inerentes a todo plantio (chuva, sol, enchentes, secas, pragas, doenças, calendário etc.)?

O pouco ou nenhum apreço da turma da Petrobrás com a questão ambiental pode ser visto no padrão do óleo diesel que a empresa vende aos brasileiros. Boa parte da formidável poluição urbana, que afeta a todos, ricos ou pobres, se deve à conhecida e pouco divulgada má qualidade deste combustível fóssil. No mundo civilizado o teor aceitável de enxofre no diesel não ultrapassa a proporção de 50 partes por milhão. O enxofre é um dos piores venenos entre todos que são lançados na atmosfera. O fenômeno conhecido como chuva ácida tem nele um dos seus fundamentos. Pois bem, a "patriota" Petrobrás impõe aos brasileiros que moram nas grandes cidades um diesel com o teor de 500 partes por milhão (dez vezes mais de concentração de enxofre que o aceitável nos paises capitalistas civilizados, repita-se). Para os caipiras que moram nos vastos sertões do país o teor é maior ainda: 2.000 partes por milhão! Isto sem falar na fuligem negra que pode ser constatada visualmente em qualquer rua onde ônibus e caminhões circulam diuturnamente. Esta brutal contaminação da atmosfera, agravada em tempos secos pela baixa umidade do ar, deve-se ao espírito sórdido que preside as ações comerciais da Petrobrás. Afecções bronco-pulmonares e outras moléstias devidas às emissões dos canos de descargas (além da sujeira permanente aderida a roupas, móveis e assoalhos de todas as casas), compõe o quadro nefasto pelo qual a Petrobrás é responsável. E não se diga que este é um problema criado pelos adversários políticos da empresa ou pelos "lacaios" do capitalismo. Os países capitalistas sérios exigem que suas multinacionais petrolíferas forneçam combustíveis com baixíssimo teor de contaminação. Mas, no Brasil, a dona do monopólio (está entre as dez maiores empresas do mundo), nem se lixa para estas questões "burguesas". Se ela se devotasse mais aos verdadeiros interesses do povo, teria investido mais em procedimentos de purificação do diesel. Traria benefícios a toda a coletividade. Isto, porém, iria diminuir seus espantosos lucros e, em decorrência, os dinheiros que alimentam a corrupção do PC do B, do PT e de outros comensais do mesmo cocho (os fundos de pensão e os próprios empregados através de suculentos nacos na forma de PLR - Participação nos Lucros e Resultados).

domingo, 26 de julho de 2009

Eles nos devem tudo...(Texto de Augusto Nunes - 26-07-2009)

"Ainda bem que a gente não chegou ao poder: se isso acontecesse, teria de devolver no dia seguinte”, disse Vladimir Palmeira, em maio do ano passado, num debate entre veteranos de 1968. “A gente sabia muito pouco, não tinha preparo para governar país nenhum”. Certíssimo. “A gente não tinha nem mesmo um projeto de poder”. Errado. Os comandantes do movimento estudantil (e, sobretudo, seus mentores na clandestinidade) tinham um projeto, sim. Tão claro quanto perverso: substituir a ditadura militar pela ditadura do proletariado.
Quem não tinha projeto de poder era a “massa de manobra”, como se referiam os chefes à multidão de jovens ingênuos, generosos, anônimos, que repetiam palavras-de-ordem cujo real significado ignoravam e cumpriam ordens e instruções vindas de cima. Os soldados rasos lutavam pela liberdade. Os comandantes planejavam suprimi-la. O rebanho sonhava com a ressurreição da democracia. Os pastores queriam muito mais, confirma Daniel Aarão Reis, ex-militante do MR-8, ex-exilado e hoje professor de história da Universidade Federal Fluminense.
“As esquerdas radicais não queriam restaurar a democracia, considerada um conceito burguês, mas instaurar o socialismo por meio de uma ditadura revolucionária”, fala de cadeira Aarão Reis, principal ideólogo de uma dissidência do PCB que desembocou no MR-8. “Não compartilho da lenda segundo a qual fomos ­ o braço armado de uma resistência democrática. Não existe um só documento dessas organizações que optaram pela luta armada que as apresente como instrumento da resistência democrática”.
Recrutados na massa de manobra, os alunos dos cursinhos intensivos de revolução ainda estavam na terceira vírgula de O Capital e no quinto parágrafo de Engels quando descobriam que desistir das aulas semanais era crime sem perdão. “Ele desbundou”, desdenhavam os mestres de qualquer discípulo sumido. Meia dúzia de panfletos de Lenin depois, os aprendizes descobriam que se haviam tornado oficiais do exército mobilizado para sepultar o capitalismo e conduzir o povo ao paraíso comunista.
Muitos se diplomavam sem sequer desconfiar da grande missão. Mas gente como Vladimir Palmeira tinha idade e milhagem suficientes para saber que perseguia um regime ainda mais selvagem, brutal e infame que o imposto ao Brasil. Conviviam com tutores de larga milhagem. O sessentão Carlos Marighela, por exemplo, ensinava aos pupilos da ALN a beleza que há em “matar com naturalidade”, ou por que “ser terrorista é motivo de orgulho”. Deveriam todos orgulhar-se da escolha feita quando confrontados com a bifurcação escavada pelo AI-5.
A rota certa era a esquerda, avisavam os que nunca tinham dúvidas. Passava pela luta armada e levava à luz. A outra era a errada. Passava pela rendição vergonhosa e levava à cumplicidade ostensiva com os donos do poder. Ou, na menos lamentável das hipóteses, aos campos da omissão onde se amontoavam desertores da guerra justa. A falácia foi implodida pelos que se mantiveram lúcidos, recusaram a idiotia maniqueísta e percorreram o caminho da resistência democrática.
Estivemos certos desde sempre. Desarmados, prosseguimos o combate contra quem os derrotara em poucos meses. Enquanto lutávamos pela destruição dos porões da tortura, eles se distraíam em cursinhos de guerrilha ou no parto de manifestos delirantes. Estavam longe quando militares ultradireitistas tentaram trucidar a abertura política. Só se livraram do cárcere e do exílio porque conseguimos a anistia, restabelecemos as eleições diretas e restauramos a democracia. Nós vencemos. Eles perderam todas. Alguns enfim conseguiram tornar-se contemporâneos do mundo ao redor. Quase todos permaneceram com a cabeça estacionada em algum lugar do passado. E voltaram com a pose dos condenados ao triunfo.
Fantasiados de feridos de guerra, os sessentões de 68 se apropriaram de indenizações milionárias, empregos federais, mesadas de filho mimado. Com a velha arrogância, seguem convencidos de que quem está com eles tem razão. Passa a fazer parte da esquerda, formada por guerreiros a serviço das causas populares. Quem não se junta ao bando é inimigo do povo, lacaio dos patrões, reacionário, elitista, golpista vocacional. O comportamento e a discurseira dos dirceus, franklins, dilmas, genoínos, palmeiras, garcias, tarsos, vannuchis e o resto da turma confirmam: passados tantos anos, estão prontos para errar de novo. Infiltrados no governo de um presidente que não lê, não sabe escrever, merece zero em conhecimentos gerais e faz qualquer negócio para desfrutar do poder, eles aparelharam o Estado e vão forjando alianças com o que há de pior na vizinhança para eternizar-se no controle do país. Se não roubam , associam-se a ladrões. Se não matam, tornam-se comparsas de homicidas.
Sequestradores da liberdade e assassinos da democracia jamais deixam de sonhar com o pesadelo. Não têm cura. Nenhum democrata lhes deve nada. Eles é que nos devem tudo, a começar pela vida.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

DINHEIRO, CARINHO E REZA, NUNCA SE DESPREZA

"...não recusei, porque: dinheiro, carinho e reza, nunca se despreza".
Esta fascinante frase está no conto Corpo Fechado (em Sagarana). Muitas lições estão contidas nesta singela formulação do ilustre romancista mineiro. Sua sábia recomendação revela um apurado conhecimento da natureza e da alma das pessoas. É preciso cobrir-se de cautelas frente a situações críticas como as ligadas ao "dinheiro, carinho e reza". Desprezar os carinhos de uma mulher (além do desperdício de afeto), pode gerar uma das mais terríveis reações emocionais humanas: o ressentimento. Ai daqueles que assim procedem, ou dizem não! a uma mulher. Correrão o risco de sofrerem da repudiada a pior vingança (geralmente fria e tardia), se esta tiver ocasião de se concretizar. Há inesquecíveis manifestações deste fenômeno como, por exemplo, a bíblica "mulher de Putifar" (chamada Zuleika, na versão corânica). Fugindo do assédio que sofria, José do Egito frustrou os intentos fornicantes da fogosa patroa do castrado general de Faraó (em cuja casa José cumpria seu destino). Pagou um preço alto pela recusa ao ser denunciado por ela ao marido, como se ele - José - é quem estivesse com lúbricas intenções e, não, a pérfida e ressentida denunciante. Homens, ao contrário das mulheres, parecem ser mais tolerantes com o repúdio (se bem que não são incomuns reações brutais de cornos furiosos, das quais a crônica policial está abarrotada). Se acaso levarem um pontapé, porém, costumam reagir caninamente ao primeiro aceno amistoso da agressora. Botam o rabo entre as pernas e se re-aproximam humildemente de quem os escouceou a lamber-lhe as mãos com volúpia (basta, às vezes, a simples promessa de uma bicoquinha atrás da orelha, conforme se deleitava, e pedia, o Raposão à Adelinha).

Por via das dúvidas é bom, também, ter cautela com rezas. Adágio quase esquecido já dizia que mais vale a bênção de um tolo que o coice de um burro. Da mesma forma que o caso dos carinhos, não é recomendável zombar de religiões (por mais exóticas que sejam), nem de feiticeiros, de mandingueiros ou de qualquer outro tipo de gente bem relacionada com o sobrenatural. Melhor não correr riscos desnecessários, diz a boa prudência. Além do mais, havendo outros suplicando por nós ao Criador é possível que o caminho da salvação fique melhor pavimentado. Riobaldo, outro personagem roseano, declara rezar muito e ainda pagar a diferentes rezadeiras que fizessem isto por ele. Incluía no pacote de preces as do kardecista compadre Quelemén e as de uns metodistas cantadores que vagavam pelo mundo. O que abunda não prejudica, enfim.

Dinheiro, então, será bem vindo qualquer que seja sua origem. Aliás, dinheiro nem origem tem, de fato, para dizer a verdade. Não tem marca de procedência como uma vaca tem o ferro do dono. Todos o querem, como bem definiu o animador Sílvio Santos. Aceitá-lo, no entanto, não implica uma imediata, generalizada e correspondente gratidão do receptor com relação ao doador, diferentemente da atitude para com quem nos dá carinho ou, então, reza por nós: podemos e devemos ser gratos por isso. Mas há um problema difícil de ser superado quando o assunto é o vil metal, pois outro dos traços humanos mais marcantes - a ingratidão - costuma aqui aflorar. Versos imortais de Augusto dos Anjos já alertavam para "a ingratidão, esta pantera!". Aliás, nem Jesus recebeu por parte dos que ele curou o devido reconhecimento: apenas dois dos agraciados se deram ao trabalho de voltar para, simplesmente, agradecer a graça recebida. Dádivas, com efeito, estabelecem um vínculo de dominação/subordinação mesmo quando doadores não reclamam devolução por parte dos beneficiados.
Este tema de aparência metafísica tem, contudo, aplicações práticas. Precisaria ser melhor equacionado, conceitualmente, para lastrear um posicionamento correto das oposições brasileiras frente ao festival de doações que o atual governo patrocina. O repúdio a Sarney que está sendo observado no presente é uma das maiores manifestações de ingratidão que se tem notícia. Poucos presidentes foram tão generosos com o funcionalismo público, por exemplo. Patrimônios familiares foram construídos, ou iniciados, durante o seu governo (quando havia o tal "gatilho" para correção salarial quase que mensalmente), e casas e outros bens duráveis eram adquiridos com grande facilidade. Talvez se devesse voltar a Marcel Mauss e refletir mais sobre o assunto a partir de seu clássico "Ensaio sobre a dádiva". Talvez.

LULA, O FUTURO E A DEFESA PRÉVIA

Brasileiros comuns estão espantados com a desabrida defesa que Lula da Silva faz de notórios trapaceiros encastelados no Senado da República numa afinidade claramente eletiva. Buscam por acontecimentos e situações antigas e constatam as incoerências entre o que o atual presidente fala, hoje, com aquilo que ele proclamava, antes, aos quatro ventos quando desempenhava o papel de opositor. Poucos percebem, no entanto, que Lula da Silva olha mais para o futuro que para o passado. Ele não está defendendo Sarney, nem Calheiros, nem Jucá nem ninguém. Ele está defendendo a si próprio. Para tanto, está construindo uma linha estratégica de auto-defesa, provavelmente sob a supervisão de algum criminalista. Sabe ele que, mais cedo ou mais tarde, suas malfeitorias ainda não plenamente conhecidas serão questionadas e colocadas à luz do dia (sem falar do volumoso dossiê já existente e que daria para encher uma carreta de patifarias). Antes de sair do governo ele precisa se preparar para o enfrentamento político e judicial dos crimes pelos quais é o responsável direto ou indireto.

O projeto de Lula da Silva é construir uma teia de cumplicidades mais forte que a existente hoje e que o livre das mazelas futuras. Suas manobras para fazer dona Dilma sua sucessora se inscrevem nesta lógica. Ela seria a fiadora de sua impunidade. Por isso sua insistência em apoiar alguém sem luz própria (e desprovida das necessárias qualidades políticas), para ocupar o cargo de presidente da república. O modelo a ser seguido é o que aconteceu em Belo Horizonte nas últimas eleições. Para abafar as estripulias de uma década e meia conduzidas por Fernando Pimentel e sua turma na capital mineira, foi produzida uma candidatura fantoche personificada numa figura anódina e sem qualquer brilho. O plano deu certo. Foi eleito uma espécie de sub-Dilma local, ajustado às dimensões da política municipal, mostrando que o truque poderia ser repetido em escala nacional, desde que bem azeitado com o unto econômico e político.

Que os céticos não subestimem o papel de laboratório político e comportamental de Belo Horizonte. A gênese do mensalão (a jóia da Coroa no interminável rol dos escândalos do petismo), bem como das lucrativas relações partidárias com entidades financeiras dispostas a qualquer negócio está na capital mineira. Ou alguém acha que é por acaso que os bancos envolvidos naquele célebre episódio sejam todos, repita-se, todos, estabelecidos com suas sedes em Minas Gerais? Qual a razão de não haver nenhum banco sediado em São Paulo, ou outro lugar, participando daquela patifaria? Bancos não fazem caridade. Bancos, à exceção de bancos de sangue, não são organizações beneficentes nem vicentinas. Bancos fazem negócios, rendosos e grandes, preferencialmente, e com pouco ou nenhum risco para eles próprios. Ou alguém conhece algum banco que faz empréstimos sem que o tomador do mútuo precise liquidar a dívida, conforme ficou parecendo ocorrer com o tal Marcos Valério a quem o Banco Rural e o BMG emprestavam quantias crescentes sem qualquer garantia? Ora, se emprestavam sem garantias reais era porque a "dívida" não era para ser paga. Esta "generosidade" mostra, então, um paradoxo que precisa de explicação, dado que banqueiros são criaturas extremamente devotadas ao dinheiro. Eles não costumam dar nada para ninguém, nem bom dia segundo a lenda. Bancos tomam dinheiro dos outros, não o dão de graça. Se fizessem isto seriam criaturas degeneradas, clientes certos a hóspedes de algum hospício. Nem o banqueiro anarquista aludido por Fernando Pessoa cometia tal loucura.

O miolo do mensalão foi, pois, uma operação financeira bem urdida para tirar dinheiro dos cofres públicos visando atender interesses partidários infames do PT e, também, em menor medida ambições materiais dos parceiros. Essa é que foi a grande questão. Ela não se resumia à propalada Caixa 2 de campanhas eleitorais. Propinas dadas a políticos em geral são, com efeito, velhas práticas de todos os tempos. "Quem quer dinheiro?", já bradava Sílvio Santos em seu programa dominical. Se alguém andar pelas ruas e perguntar ao primeiro passante se ele quer uma nota de R$50 ou de R$100 certamente vai receber uma resposta positiva. Parafraseando, portanto, Silvio Santos, quem não quer dinheiro? Então, constatar que havia políticos recebendo, ou dispostos a receber, dinheiro sonante de montão não quer dizer nada. O problema era: onde conseguir a grana para distribuir para a moçada? Os engenhosos capitalistas do capital alheio (melhor definição possível para a empresa PT S/A), sabiam que a procedência teria que ser algum cofre público. A experiência no movimento sindical indicava que o dinheiro não pode ser inventado mas pode ser desviado para finalidades múltiplas e, até, contrárias àquelas para as quais ele estaria destinado. Os cofres sindicais representaram o treinamento no uso de patrimônio público para financiar campanhas partidárias petistas e de suas legendas subalternas (ou o dinheiro do imposto sindical não é público?) Veja-se, a propósito, que a lenga-lenga petista e de seus associados (como o PC do B) é sempre no sentido do "controle social" dos recursos coletivos. Quando, porém, se trata de prestar contas do uso e destino do imposto sindical a posição deles é de completo repúdio e desdém. Parecem dizer que no seu mandiocal ninguém (quer dizer, a sociedade), vai botar a mão. Os Tribunais de Contas não poderiam fiscalizar, através de uma Câmara específica, o destino daquele imposto? Mais: os Tribunais eleitorais não deveriam fiscalizar as eleições fraudulentas dos milhares de sindicatos existentes, tanto de trabalhadores quanto dos patrões?

Mas voltemos à engenharia financeira do mensalão. Retirar dinheiro do governo é um negócio difícil. Os controles burocráticos, mesmo que ineficientes e obscuros, costumam deixar alguma fresta inconveniente aos que agem de má fé. Sempre fica algum rastro, algum registro, algum documento que pode comprometer uma operação suspeita e botar os envolvidos com a bunda de fora. Fornecedores do poder público, no entanto, podem ser induzidos a tomar empréstimos na rede bancária amiga e a dar como garantia de pagamento as faturas que eles têm a receber do governo. Um acerto prévio com os bancos - que poderão fazer operações lucrativas e isentas de riscos - permitiria, por exemplo, imaginar uma divisão dos "lucros" entre os parceiros (entendidos aqui como os bancos e algum governo, ou empresa pública, ou empresa de capital misto, ou alguma entidade similar, tipo autarquia). Como induzir os fornecedores a fazerem isto, eis o problema. Resposta simples: basta reter os pagamentos devidos aos credores (por ausência de disponibilidade financeira real ou por deliberada decisão neste sentido). Uma empresa de lixo que tenha uma dívida a receber de R$10 milhões, digamos, leva a fatura ao banco amigo indicado pelo governante e recebe um empréstimo naquele valor (melhor será a pressão se o fornecedor estiver com a corda no pescoço). Só que o banco amigo cobra os juros "por dentro" ou antecipadamente e repassa ao tomador do empréstimo apenas R$8 milhões. Passados alguns meses o banco amigo vai ao governante e recebe a fatura. O banqueiro ganhou, portanto, R$2 milhões sem qualquer dificuldade. Nada mais justo que ele divida o "lucro", até rachando a bufunfa na base de metade para cada um. Alguém poderá perguntar: e o tomador do empréstimo, ficará no prejuízo? Não, não ficará. O governante usará um artifício da Lei de Licitações e fará "uma recomposição de preços e valores", dentro dos limites permitidos, e pagará os R$2 milhões restantes a quem de direito. Ora, de fato, quem pagou os juros? O devedor, ou seja, a prefeitura, ou o estado, ou a empresa pública ou similar, vale dizer, indiretamente o povo. E tudo de maneira subreptícia, sem qualquer publicidade.

A dificuldade seguinte será retirar dos cofres do banco amigo a parte que cabe ao parceiro governamental oculto. Não se pode chegar na boca do caixa de um estabelecimento bancário e pedir: "ô me dá meu dinheiro aí..." Nem pedir para fazer um depósito em conta pois ficarão as digitais e as auditorias e fiscalizações costumeiras irão detectar operações anômalas, além de deixar o rabo preso. A solução é recorrer a figuras como o tal Marcos Valério. Pode-se ligar para o banqueiro amigo e dizer: "faça um empréstimo correspondente à minha parte para fulano de tal". O banco faz, sem maiores questionamentos, pois o dinheiro não é dele mesmo. E ainda tem um ganho suplementar. O "empréstimo" fajuto" (que nunca será pago), poderá legalmente ser lançado em "créditos em liquidação" e permitir dedução do imposto de renda devido pelo banco. Evidentemente que os parceiros terão que ser "confiáveis" uns para os outros (se é que se pode abusar do uso desta expressão - confiável!) Com o dinheiro na mão passa-se ao segundo momento do plano, ou seja, a compra de votos e de consciência, além do financiamento de campanhas de aliados que comporão e reforçarão a quadrilha no futuro.

A continuidade operacional de tal esquema, além do não desvendamento dos mecanismos que o sustentam exige, para sua impunidade permanente, que os atores recebam a devida proteção no futuro. E é aqui que se fecha o raciocínio iniciado com Lula e seu aparentemente estranho e contraditório comportamento. Na capital mineira, para que fosse colocada uma pedra sobre os assuntos cabulosos da gestão petista, foi necessária uma operação política destinada a eleger um "poste", tal qual se pretende fazer no plano federal em 2010 com outro poste (a tal dona Dilma). Seria mera coincidência que vários dos personagens em questão sejam ativos operadores financeiros desde o tempo da guerrilha e dos assaltos a bancos e cofres alheios? Essa gente tem um vasto e comprovável currículo (aí, sim, sem precisar recorrer ao sistema Lattes), cuja matriz belorizontina está na velha POLOP de antanho dos já distantes anos 60 do século passado. Numa metáfora rudimentar pode-se chamar dona Dilma de o "Márcio Lacerda de Lula". As situações são similares e os barros de que são feitos muito mais parecidos ainda.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O GARÇON DE HAMBURGO

(Artigo de Maria Helena Rubinato, publicado no blog do Noblat)

"Nunca me esqueci de uma historinha contada por Jô Soares em seu programa de entrevistas. Digo historinha porque tem princípio, meio e fim e porque não é muito longa. Mas não é história, não é ficção, é fato verídico. Não sei precisar a data, mas creio que o fato se passou há bastante tempo. Também não posso garantir a exatidão das palavras, a memória não é um gravador, mas o miolo e o desfecho do diálogo são exatamente esses que passo a relatar:
Jô Soares estava em Hamburgo, Alemanha, com seu pai. Foram almoçar. O restaurante era elegante e o cardápio indicava preços salgados. Fluentes em várias línguas fizeram seus pedidos, não sei se em alemão ou francês. Feito isso, pai e filho começaram a bater papo. Se o pai do Jô era parecido com ele, imagino o papo animado. Se fosse mais calado, o filho com certeza falava pelos dois.
De repente o garçom para diante deles e pergunta:
_ Brrrasileirrras?
_ Somos, diz o senhor Soares.
_ Von wo? Ondchi?
_ Do Rio de Janeiro.
_ Rrrrioo de Janeirrro, shodadis...
_ O senhor conhece o Brasil?
_ Sim. Trrrabalhou lá, morrrou lá.
-- É mesmo? E gostou?
_ Adorrrrooou! Vai voltarrr.
O pai do Jô olhou para o filho, com quem acabara de comentar uma das sempiternas crises brasileiras, e disse para o garçom:
_ Talvez fosse melhor pensar bem. Aqui o senhor está em sua terra, tem a proteção do Estado, muita segurança, com certeza ganha bem e ainda recebe boas gorjetas.
_ Ganharrr bem, ganharr. Segurrro, é. Mas tem grosse shodadis, grosse.
_ Deixou alguma namorada lá?
_ Non, non, non, ich casada, vai com mulherrrr.
_ Mas do que é que tem tanta saudade então?
_ Do “esculhambaçom”.
Nada para mim, nem textos dos mais brilhantes escritores brasileiros, descreve melhor o Brasil do que esse breve diálogo.
O “esculhambaçom” é um de nossos traços marcantes. Há países que mudam, há países que se transformam, há países que sofrem reformas, pacíficas umas, outras frutos de revoluções e até de guerras. Mudam inteiramente, às vezes ficam quase irreconhecíveis. Para pior, para melhor, mas mudam.
Não foi o que aconteceu conosco. As mudanças aqui foram cosméticas: as cidades cresceram, temos mais automóveis nas ruas, mais viadutos e túneis, mais aeroportos, mais edifícios, mais estados e mais políticos. Mas foi só. De resto, nosso espírito é o mesmo.
Somos diferentes até nisso: como acontece com as pessoas, a idade só fez acentuar nossas características mais marcantes. E uma delas é “o esculhambaçom”. Nunca foi tão grande. Nunca foi tão viçosa, nunca foi tão desenfreada, nunca foi tão desabrida, nunca foi tão gloriosa.
E nunca exerceu o mando como agora. As rédeas estão em suas mãos. Tomara que o hamburguês tenha vindo. Ele há de estar no sétimo céu com tanta “esculhambaçom”!

domingo, 19 de julho de 2009

Senador Jarbas Vasconcelos - entrevista a Josias de Souza

(Entrevista dada pelo grande senador Jarbas Vasconcelos ao jornalista Josias de Souza, em 18/07/2009)

"- O recesso parlamentar vai atenuar a crise?
Não. A crise é muito grave. Não é coisa que arrefeça em duas semanas. Ao contrário. O azedume vai se acentuar. Quando recomeçarem os trabalhos, em 3 de agosto, a crise volta com toda a dureza.
- De onde vem essa convicção?
Vem dos fatos que ocorreram antes do início do recesso. Houve muito deboche. Esse deboche vai ser exasperado, atiçando os ânimos.
- A que deboche se refere?
Eu me refiro à representação governista, especialmente a do PMDB, no Conselho de Ética e à pessoa escolhida para presidir o colegiado [senador Paulo Duque].
- O que achou da escolha de Paulo Duque (PMDB-RJ) para presidir o conselho?
É parte do deboche. O fato de ele ser segundo suplente diz muito sobre o que se passa no Senado. É um homem limitado, figura inexpressiva. Não tinha atuação nenhuma no Senado. Demonstrou todo o seu despreparo na sessão de instalação da CPI da Petrobras. No Conselho de Ética será pior. Não há outra palavra para definir o quadro. É um deboche.
- Quem está por trás do deboche?
O Renan, mas não só ele. Essa composição do Conselho de Ética tem o beneplácito de Sarney. Se ele tivesse bom senso, teria evitado isso. Foge do razoável que o Sarney queira ser protegido dessa forma.
- Renan e Sarney debocham de quem?
Eles debocham do Senado e, por consequência, do país. Até onde vai esse deboche eu não sei.
- Em entrevista à Veja, o sr. dissera que Sarney transformaria o Senado num grande Maranhão. - Achava que chegaria a tanto?
Não. Nunca imaginei que as denúncias fossem se avolumar nessa proporção. Imaginava que não iríamos progredir na reforma do Senado. Achava que a estrutura permaneceria a mesma, que teríamos de continuar aturando o Agaciel [Maia]. As coisas que afloraram são mais espantosas do que eu imaginava.
- Mantém as ressalvas que fazia ao PMDB?
Minhas ressalvas se agravaram. Os atos praticados agora são muito mais debochados do que os que ocorreram na crise do Renan, há dois anos.
- A crise Sarney é pior do que a crise Renan?
Muito pior, mas muito mesmo.
- Por quê?
Os fatos agora envolvem o presidente da Casa de maneira mais avassaladora. E o exercício do deboche, há dois anos, era mais contido. Agora, passamos do deboche para o achincalhe. É como se eles quisessem pagar para ver. Estão esquecendo que a crise exerce efeitos sobre os senadores também durante o recesso.
- Que efeitos?
Não vai ser fácil percorrer as ruas ouvindo gracejos. Na antevéspera de uma eleição, isso obviamente terá efeitos.
- A crise contamina todos os senadores?
Sem dúvida. Todos pagam o pato. Mesmo os que não têm responsabilidade nenhuma. A aversão ao Senado e à classe política é transferida para todos.
- Quantos senadores vão às urnas?
Dois terços do Senado –54 senadores—estão na ante-sala da eleição. O desgaste pode não grudar em Lula, mas cola no PT e nos senadores governistas que defendem Sarney. O receio de todo mundo é o de que o eleitor decida não votar nos atuais detentores de mandato. Quanto maior o deboche, maiores as problemas dessa gente.
- Acha que há mesmo uma indignação popular?
Ela existe e é grande. Mas poderia ser muito maior. A mídia tem exercido um papel mais contundente do que qualquer partido ou parlamentar.
- Que desfecho prevê para a crise?
Não vejo disposição no Sarney para se afastar. Ele tenta atribuir normalidade a um quadro completamente anormal.
- Qual será o desfecho da crise?
A conjuntura aponta para o imponderável. Nada será favorável a Sarney. Ele esteve na bica de renunciar. Quem o segurou na cadeira foi o Lula.
- O apoio de Lula salvou a presidência de Sarney?
Não. Lula apenas deu uma sobrevida a Sarney. Não acredito na permanência de Sarney na presidência do Senado.
- Acha que a gestão Sarney não chega ao final?
Não. Ele se desconectou da realidade. Acha que as denúncias chovem no molhado. Acredita que, por ter sido presidente da República, está acima de tudo. Mas não há ambiente para a continuidade dele no comando da Casa. A presidência de Sarney não chega ao final.
- Como interromper a gestão de alguém que não se dispõe a renunciar?
Vamos chegar a uma situação de impasse total. Senadores independentes podem decidir não votar mais nenhuma matéria sob a presidência dele. Partidos como o DEM e o PSDB podem fazer o mesmo. Pode-se chegar a um impasse que tornará a saída de Sarney inevitável.
- É coisa para logo?
Não é possível dizer se ocorrerá logo. Mas vai acontecer. Dias atrás, o desfecho parecia uma questão de horas. O que ninguém esperava é que o Lula fosse fazer uma defesa tão contundente do Sarney. Adiou-se o problema. A presidência de Sarney será abreviada por estrangulamento, não por vontade dele.
- Não está exagerando?
Não creio. Vejo a perspectiva de chegarmos a um impasse tal que a saída dele será inevitável. Li no seu blog que Sarney deu graças a Deus pelo início do recesso. Imaginar que duas semanas vão amainar essa crise é de uma infantilidade inacreditável.
- Como avalia o papel do PT na crise?
O PT errou muito. Sua bancada convive com o incômodo de ter tomado a posição correta e depois ter mudado de rumo por conta da interferência de Lula.
- Continua achando que o PMDB quer mesmo é cavar negócios na máquina estatal?
Sem dúvida. Utilizam-se os mandatos para abrir caminho para negócios e safadezas no governo.
- Por que não deixa o partido?
Por falta de opção. Só posso pensar em mudar de partido se tivermos uma reforma política séria e decente. Até lá, prefiro ficar como dissidente no PMDB, sinalizando para a minha base e para a opinião pública do país que o meu PMDB não é esse. O meu PMDB é decente, correto, sem safadezas."

domingo, 12 de julho de 2009

ZÉ DIRCEU E HONDURAS ou O SAMBA DO CORRUPTO DOIDO

Zé Dirceu, o chefe da quadrilha do mensalão, cassado pelas roubalheiras e pelo comportamento indecoroso insiste em não sair do noticiário político. Um cadáver insepulto sempre rondando situações onde o mau combate requisita um voluntário. Pois não estava ele, ainda outro dia, articulando a defesa de Sarney em Brasília, a propósito dos últimos escândalos senatoriais? Com uma linguagem anacrônica pontilhada do mais rasteiro sub-marxismo dos anos 60, o ex-deputado pretende reviver os seus tempos épicos de liderança estudantil de quatro décadas atrás.
Artigo seu publicado recentemente sobre os acontecimentos de Honduras (onde vigora uma democracia constitucional que se recusou a ser violada por um aprendiz de ditador), apresenta pérolas da mais fina lavra. Por exemplo, a "ajuda militar ianque" ao exército hondurenho; "contraofensiva da CIA nas eleições na República Dominicana e Panamá"; "Golpe militar e de Estado em Honduras"; "junta militar e seu títere"; "apoio da comunidade internacional" etc. O texto de Zé Dirceu é uma paródia de Stanislau Ponte Preta, um perfeito "samba do corrupto doido". Consegue colocar no seu aranzel descabelado até a "aprovação da reeleição de Fernando Henrique Cardoso" que, segundo ele, teve apoio da imprensa (chamada "mídia" no seu pitoresco patuá caipira-leninista), num verdadeiro delírio ideológico que ajunta alhos e bugalhos. Pode ser, também, que Zé Dirceu tenha virado médium e passado a incorporar o espírito de porco do Che, ou outro fanático desencarnado qualquer. É, pode ser...

Vale à pena ler Zé Dirceu. Vale pela oportunidade de ver a que ponto pode chegar a loucura humana. Vale à pena, principalmente, para estudantes poderem constatar os mecanismos de sobrevivência de traços anacrônicos em estruturas mais modernas. Zé Dirceu é uma lição antropológica. Com certeza ainda vai acabar filiado ao PC do B, a mais primitiva manifestação do sub-marxismo que sobreviveu no país. Também é fascinante verificar que há jornais decentes (ah, sim! a mídia, como ele se refere), capazes de publicar a lenga lenga de um criminoso notório dando-lhe foros de respeitabilidade.