quarta-feira, 14 de maio de 2008

SOBRE O NEOLIBERALISMO E A DENGUE

A epidemia de dengue que assola o Brasil mostra, hoje, em maio de 2008, uma mortalidade superior à do período de Fernando Henrique Cardoso, que se encerrou em 2002. Àquela época o bravateiro e então eterno candidato a presidente – Lula da Silva – aproveitava a infelicidade popular para imputar ao ministro da Saúde (José Serra, atual governador paulista), a culpa pela doença. Os profissionais da mentira simplesmente diziam que dengue e outras moléstias eram derivadas da “perversa política neoliberal de FHC e do FMI”. À peculiar torpeza de raciocínio que sempre marcou o lulismo e suas linhas auxiliares junta-se, agora, o cinismo dos que não querem assumir as responsabilidades pelos próprios atos e omissões. Relembre-se que, quando alguém do PT ou do PC do B (principalmente este), abria a boca, de cada três palavras proferidas, uma era o fatídico vocábulo “neoliberalismo”. Alguém, nos dias que correm, ouve qualquer referência à “política neoliberal” por parte deles? Só por curiosidade, quais são as atuais imprecações desta turma de fâmulos, tão recheadas de críticas passadas ao neoliberalismo? Como o discurso da “herança maldita” de FHC já não cola mais (apesar de eventualmente aparecer aqui e ali), o lulismo passou a cultivar o “amor aos pobres” numa incrível despolitização, cuja manifestação mais evidente é a recente aliança de Pimentel e Aécio para tentar eleger o prefeito de Belo Horizonte. De fato, Pimentel e Aécio, como se fossem mandarins iluminados, já decidiram o que é melhor para os cidadãos da capital mineira. Escolheram um obscuro empresário aposentado com cara de Chuck (o boneco assassino), para ser o próximo prefeito belorizontino. Dispensaram-nos, assim, do trabalho ou de qualquer esforço no sentido de escolher o dirigente da cidade. Eles já escolheram, tal qual o faziam os generais de outrora, no período militar, quem iria nos governar. Só nos cabe dizer: “sim, bwana! Painho mandou, nós obedecemos! Perfeitamente, meu sinhôzinho!” E da mesma forma que os generais, quanto mais medíocre e mais sem luz própria for o escolhido, melhor. Os generais escolheram, é bom não esquecer, gente como Collor e Maluf, somente para ficar em dois exemplos notórios. Não é que o povo também não tenha votado neles em outros momentos, mas sua escolha pode sofrer alterações e, além de tudo, a soberania popular é inquestionável (até quando o povo opta por Barrabás, como aconteceu em priscas eras na primeira eleição direta da história,, quando o Justo foi preterido pelo bandido).
Para fins de informação geral, é bom saber que o cerne do ideário neoliberal tão malhado em outras épocas (o famoso “Consenso de Washington”), é o ajuste fiscal macro-econômico, com o objetivo de garantir o pagamento da dívida pública que alimenta os gigantescos ganhos dos banqueiros. A forma concreta de operar este ajuste se faz com a elevação do chamado “superavit primário”. Entenda-se este superavit como uma espécie de “poupança” para pagar os juros devidos pelo governo, ou seja, a parcela dos tributos arrecadados, ou do ganho das estatais, que irá encher o bolso dos banqueiros. Para se ter uma idéia do montante deste superavit, autoridades governamentais anunciam sua elevação para o equivalente a 5% do PIB, numa sangria inimaginável dos recursos do Povo brasileiro para abarrotar os cofres da banca. Não por acaso, o apoio político que o atual governo apresenta está ancorado entre os magnatas das finanças nacionais e internacionais. Lula e seus asseclas alardeiam ter pago a dívida do governo com o FMI. Contam isto como se fosse uma grande vantagem. A verdade, no entanto, é o contrário do que dizem. A dívida com o FMI, e outros, era uma dívida de longo prazo, a juros baixíssimos de 3% a 4% ao ano. Trocaram esta dívida externa, que seria extremamente vantajosa para o País (ainda mais com a desvalorização internacional do dólar), por uma dívida interna de centenas e centenas de bilhões de reais (que já ultrapassou em muito a caso do TRILHÃO de reais), e sobre a qual se pagam juros reais de quase 10% ao ano. Os banqueiros evidentemente agradeceram a generosidade. Passaram a, simplesmente, aplicar seus capitais em títulos do governo brasileiro e, assim, ganham o dobro do que ganhavam antes com empréstimos oficiais. E a cada entrada de mais dólares, o governo é obrigado a esterilizá-los pela emissão de mais e mais títulos da dívida pública (com o objetivo de evitar a subida da inflação). A internalização da antiga dívida externa obriga o governo a ampliar, crescentemente, a carga tributária para poder dar conta das obrigações financeiras contraídas pelo Banco Central. É um gigantesco processo de extração e acumulação de capital nas mãos dos banqueiros, em aliança com a “nova classe” de ex-sindicalistas gestores de fundos de pensão e outros negócios financeiros. Não satisfeitos com os ganhos em alta escala (com os títulos do governo), este bloco de poder (financistas nacionais e internacionais mais os sindicalistas travestidos de “banqueiros anarquistas”), passaram a operar com outra modalidade de expoliação – o crédito consignado – atingindo agora pequenos mutuários, aposentados e pensionistas. Quer dizer, além do elefante que é o Estado, implementaram um vasto processo de extração de sangue de pulgas. São necessárias milhões destas para encher um copo de sangue, com certeza. É um vampirismo na mais pura acepção do termo pois suga o sangue e a vitalidade dos mais débeis e mais fracos.
Paralelamente ao ajuste fiscal, o ideário neoliberal preconiza outras medidas (que foram adotadas, aliás, desde o governo Collor), como a abertura comercial para o exterior, a privatização das empresas estatais e a implantação de “políticas compensatórias” (traduzidas em ações como as famosas bolsas-esmolas), estas para amenizar os efeitos daquelas restrições fiscais e outras. De uma certa forma, Lula conseguiu tornar real o projeto político de Collor (a aliança entre os “descamisados” e as elites), incluindo agora o vasto aparelho sindical e sua miríade de organizações não governamentais, todos vivendo parasitariamente da inesgotável cornucópia de onde jorram os recursos públicos. Um marciano que, por acaso, observasse os acontecimentos no Brasil se espantaria com a vitalidade do processo de produção capitalista. É uma façanha notável, com efeito, fazer funcionar uma estrutura produtiva com tantos gigolôs mordendo uma parte do que foi produzido, por anos e anos sem fim. A sociedade brasileira é algo digno de merecer um estudo, mais antropológico que econômico, para entender o milagre de sua sobrevivência no tempo. Como explicar uma sociedade onde uma minoria trabalha, investe e produz para alimentar um exército parasitário de reserva incalculável, composto de banqueiros, burocratas, aparelho repressivo e judiciário, bem como políticos, ONG’s, sindicatos e toda uma vasta gama de comensais improdutivos devotados a um consumo cada vez mais desbragado?
Voltando à questão inicial sobre a presente epidemia de dengue, os homens de Lula querem atribuir a responsabilidade por sua eclosão ao próprio povo brasileiro. Ou, como declarou uma autoridade sanitária a respeito- o Dr. Temporão: “A sociedade como um todo falhou, pois não avaliou a possibilidade concreta do que poderia acontecer. Todas as instâncias do Sistema Único de Saúde negligenciaram o problema”. Chega-se ao requinte de dizer que a epidemia em causa é fruto da ampliação do consumo entre os pobres. Estes estariam produzindo mais lixo e viajando mais pelo mundo afora, possibilitando com isto a ampliação das oportunidades de contaminação das pessoas. O Conselheiro Acácio diria que o mal de Alzheimer se deve ao incremento do número de velhos. Maior número de idosos implicaria em maior número de dementes senis, claro. Portanto, para impedir isto bastaria não deixar o povo envelhecer, matando-o antes.
Quer dizer, os bilhões e bilhões de reais gastos anualmente na gigantesca estrutura destinada a cuidar das doenças da população – pois da Saúde é que não cuidam – não tem nada a ver com o problema. Luis Inácio, o que nunca sabe de nada, nunca viu nada e nunca se responsabiliza por nada, parece ter introduzido na vida nacional uma nova pauta. Se a população está doente, a culpa é dela. O Ministério da Doença (este verdadeiro cartório) tem como objetivo real criar oportunidades de negócios para os amigos e associados e, não, para ficar aí se preocupando com probleminhas do cotidiano das pessoas comuns. Pois não há aqueles que vivem do negócio da morte - funerárias, crematórios, cemitérios etc.? Porém, antes da despesa final do cliente (quando ele entrega a alma ao Criador), há que se extrair algum suco deste osso, e é para isto que serve a estrutura cartorial médica. Oh! Temporão! Oh! Costumes! Temos, hoje, um ministro da doença (ele diz que é da saúde), inepto e ressentido cujo único objetivo é fazer um acerto de contas com o prefeito do Rio de Janeiro, que o demitiu anos atrás por incompetência. Em revide à justa demissão sofrida, tenta jogar nas costas da prefeitura carioca os custos de uma política de saúde da qual ele e seus amigos são os grandes culpados, os grandes responsáveis. A ausência de uma oposição de verdade impede que a população perceba o buraco em que está enfiada e o logro a que está submetida. A única força política partidária que se posiciona como oposição é o DEM, mesmo assim com severas restrições. Os tucanos, estes falsos oposicionistas sempre de salto alto, no fundo, no fundo, não passam de petistas de fraque e punhos de renda. Ou o contrário, também se pode dizer: os petistas não passam de tucanos de macacão (para tomar emprestada a célebre comparação feita por Brizola entre o PT e a UDN de triste memória). Qual a diferença, por exemplo, entre Artur Virgílio (líder do PSDB no Senado), e a pavorosa Ideli Salvati (líder do PT) na mesma Casa? Talvez o ilustre senador amazonense seja mais delicado de trato que aquela horrenda senhora. Ambos são face da mesma moeda, versões contemporâneas do médico e do monstro. Um eventual cruzamento entre eles – num deliberado incesto de irmãos de fé – produziria o ser monstruoso que o futuro aguarda – um petecano de carne e osso.

A sucessão em Belo Horizonte: a novela continua

Pimentel e Aécio insistem. Querem por que querem recriar nos trópicos antiga tradição chinesa – a do mandarinato. Isto para não dizer que sua referência está mais próxima no tempo, vale dizer, o período negro do autoritarismo militar de triste memória. Pimentel e Aécio pretendem dispensar o povo da escolha do prefeito da capital mineira, tal como o fizeram os generais de antanho. Escolheram uma espécie de poste de rua, alguém sem luz própria e sem qualquer experiência eleitoral, para ser ungido como dirigente máximo da capitania belorizontina. Pretendem fazer uma experiência política passível de ser repetida mais à frente (quem sabe com um outro poste, agora federal, uma Dilma, por exemplo?). É aquela história: se der certo em Belo Horizonte, pode dar certo no Brasil. Conceitos como cidadania, fidelidade política e partidária, respeito às minorias etc., são jogados às traças pela atuação ousada do governador e do prefeito. Tiram do bolso do colete um nome de ocasião (para substituir o verdadeiramente preferido que era Walfrido dos Mares Guia, colocado fora de combate pelas próprias estripulias com o mensalão), e esperam a renúncia dos eleitores de Belo Horizonte ao seu direito de escolher uma liderança para a cidade.
Pimentel e Aécio subestimam os eleitores. Em 1996, o candidato situacionista à sucessão do então prefeito Patrus Ananias era o petista Virgílio Guimarães. E o candidato do Palácio da Liberdade era o tucano Amilcar Martins. Nenhum dos dois saiu vitorioso. Correndo por fora, ganhou a eleição daquele ano o Dr. Célio de Castro. É verdade que o Dr. BH, posteriormente, traiu seu eleitorado ao aderir ao esquema político do PT, mas isto é outra história. Pimentel, aliás, já convenceu à companheirada incrustrada na fabulosa máquina administrativa da Prefeitura que nada vai mudar para eles, com um cabeça de chapa vinculado a outro partido que não o PT. Numa eventual vitória do seu candidato – um tal de Márcio Lacerda - eles o engolem e, depois, vão digerindo aos poucos, como faz uma sucuri preguiçosa com sua presa, repetindo o que fizeram com o Dr. Célio. Apesar do esforço em inviabilizar alternativas para os eleitores da capital, Pimentel e Aécio podem ser surpreendidos pela rebeldia e senso de autonomia que marcam os mineiros.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Escolas feias, escolas boas? (Cláudio Moura Castro)

"Ao subir as escadas da escola primária, cresceu nossa surpresa. Que mensagem os funcionários
do Ministério da Educação estavam tentando nos passar? Por que diabos escolheram uma escola
tão mal-tratada para ser visitada? O edifício é de estilo “moderno” e lembra a arquitetura dos dos anos sessenta. Mas se foi construído de forma lambona, a manutenção foi pior ainda. Melhor
dizendo, nunca ocorreu. Os corredores estão imundos, as salas de aula quase em ruinas e o escritório do diretor em mau estado. Nem os professores e nem o diretor tinham um aspecto bem cuidado ou estavam bem vestidos. A escola secundária reflete um passado mais magestoso. Tinha sido uma escola de freiras, servindo à aristocracia local. A construção é espaçosa, os tetos são altos e, realmente, o prédio oferece tudo que uma escola séria deveria ter. Exceto manutenção. O chão perdeu todos os vestígios de cera. As carteiras e cadeiras estão em um estado lamentável, quebradas, arranhadas e implorando reparos. As janelas das salas de aula há muito tempo não existem, quando chove, também chove dentro das salas de aula. Os laboratórios realmente existem, para nossa surpresa. O laboratório de física é uma coleção de instrumentos da Polônia, Checoslováquia, Hungria, Rússia e Espanha. Estão operacionais, mas não causam muito entusiasmo. A biblioteca exibe, na sua maioria, livros velhos, alguns muito velhos. Têm também uma inesperada coleção de livros de literatura clássica brasileira, mas a da Rússia é maior ainda. De livros novos, somente algumas publicações da UNESCO. No geral, as escolas não estavam particularmente limpas, estão duramente maltratadas e não vêm recebendo nenhuma manutenção há muito tempo. Estes são os últimos lugares onde podíamos esperar ver uma boa educação. Faz sentido, má manutenção anda lado a lado com má instrução.

Como uma educação séria pode acontecer nesses lugares tão desleixados? Entretanto, a dedução acima está frontalmente errada. Estas são as escola cubanas que obtiveram pontuações muito acima das outras de todos os países da América Latina, na pesquisa da OREAL/UNESCO em dez países.2 Realmente, enquanto Brasil, Argentina e Chile empataram em segundo lugar, Cuba foi o país vencedor, por uma sólida margem. Em outras palavras, gostemos ou não, a educação de Cuba é a melhor da América Latina.

As duas escolas foram selecionadas, de última hora, para a nossa visita, porque eram as mais perto de onde nós estávamos na hora do almoço. Tudo indica serem amostras representativas das escolas cubanas. De acordo com os próprios professores, nem melhores, nem piores. Como é que os cubanos conseguem ter a melhor educação latino-americana? Nossa visita indicou que não há segredos, mas a simples aplicação de bom senso e, sobretudo, muita dedicação.

A Escola Primária (1a. à 6a. série)
Mais ou menos a metade de aproximadamente um milhão de crianças com até cinco anos de idade freqüenta algum tipo de pré-escola. Trata-se de uma taxa muito alta, sob qualquer ponto de vista. Segundo os professores entrevistados, as pré-escolas enfatizam sobretudo o brincar. No
entanto, os alunos aprendem também o alfabeto. Alguns aprendem a ler, sem pressões ou a presença de um currículo para ser seguido rigidamente. A escola primária tem 5 ou 6 horas de aula todos os dias. Quando incluimos os esportes, a presença na escola chega perto das 8 horas, em ano escolar que dura aproximadamente 200 dias. Este é o segredo número um da educação cubana: muitas horas na escola. Aqui está em vigência a teoria simples de que quanto mais se estuda, mais se aprende. Ao que parece, o total de horas escolares por dia é muito maior que em qualquer outro país da América Latina.
Há 20 ou 30 alunos por turma. Este é o padrão para as escolas ocidentais (contrastado com os 40
alunos por turma da Coréia e Japão). A escola visitada perde não mais que 1% de seus alunos nos primeiros seis anos. A evasão é residual e tem a ver com a mudança dos pais para outro lugar. Reprovações e repetência de ano simplesmente não acontecem (as estatísticas nacionais mostram proporções de 1.9%, 2,8% e 1.8% para as escolas primárias, médias e secundárias, respectivamente). No final do 4o ano, há um teste que todos os alunos tem que passar. Pelo que os professores dizem, todos que apresentam resultados normais em testes de QI não tem nenhuma razão para falhar. Se o interesse dos alunos está diminuindo (ou se são preguiçosos, uma expressão que os pedagogos não gostam muito), os professores procurarão alguma coisa que lhes interessem. As aulas estão sintonizadas com as necessidades individuais dos alunos. Mas além disso, os professores alegam que há uma forte pressão social para fazer as coisas bem feitas na escola, já que isso é o orgulho nacional, uma das áreas em que Cuba tem se apresentado melhor. De fato, através de conversas aqui e acolá, dá para acreditar na força da pressão social por educação em Cuba.

Ao terminar o primário, os alunos são automaticamente matriculado na escola secundaria mais próxima. É dado por certo que todos os alunos passarão para a escola secundária. Tentamos sondar os professores e os diretores sobre as modas pedagógicas. Que tal Vigotsky, perguntamos, para ver a que grau o grande guru da América Latina havia alcançado a ilha? De fato, havia desembarcado. Mas os professores não estavam cativados ou hipnotizados por ele, no mesmo paroxismo observado no território continental. Tais modas pedagógicas não haviam eletrizado os professores com que conversamos. Entenderam Vigotsky dizer aos professores que tentem fazer os alunos descobrir o mundo, que o explorem, que tentem encontrar suas próprias soluções para os problemas. Mas não virou religião. Os professores indicaram que a “leitura fluente” é o maior objetivo nos anos iniciais. Querem assegurar que as crianças possam dominar essa habilidade que é a mais central da educação. Nada a discordar.
A Escola Média (7a. à 9a. série)
A escola média é organizada com um único formato, com todos os alunos estudando as mesmas onze matérias. Esse número excessivo de disciplinas é claramente antiquado, já que a nova tendência mundial é oferecer menos disciplinas com mais profundidade. Esta tendência parece ser levada em conta no novo programa experimental que está sendo experimentado em 280 escolas médias cubanas. Nessas escolas, Espanhol, Matemática e História recebem muito mais atenção. As disciplinas restantes se tornam “subordinadas” às três. Pelo que entendemos, irão apoiar as três principais disciplinas, por via de uma cooperação interdisciplinar. Foi muito instrutivo ver como as aulas de ciências são ministradas. Os alunos tem três horas de física por semana e boa parte desse tempo é gasto no laboratório. Os alunos fazem experiências, utilizando equipamentos modestos. Por exemplo, aprendem a Lei de Ohm conectando uma fonte de força a um amperímetro e uma lâmpada. As medidas dos alunos devem confirmar o que a fórmula matemática teria previsto.

Todos os alunos têm duas horas de informática por semana. A terrível pobreza que se manifesta no mau estado de reparação dos edifícios mostra sua cara no laboratório de informática. Há meia dúzia de computadores. Quatro são MSX, uma tentativa falida da Microsoft para criar um sistema operacional para computadores escolares ou caseiros. Seu fracasso e abandono aconteceu em meados dos anos oitenta. Os computadores que vimos são programados por gravadores de fita e usam televisores velhos como monitores. Os outros dois computadores são os primeiras modelos MS-DOS. Não há impressoras operacionais. Os alunos aprendem a trabalhar no DOS e no WordStar. Não há nenhum esforço para ensinar a usar os dez dedos no teclado. Na realidade, os rapazes acham que datilografia é uma atividade feminina. No geral, os esforços com a educação informática são plenamente frustrados pelas deficiências de hardware.
Foi curioso ver o termo “aprendizagem frontal” sendo usado. Entendo que foi E. Schiefelbein quem o fez popular. E o termo foi igualmente usado em um tom crítico. O professor de física afirmou que alternava aprendizado frontal com experimentos de laboratório. Espera-se que todos os alunos tomem parte na “educação para o trabalho”. Isso soa como uma relíquia da influência soviética, ou talvez, uma relíquia ainda mais velha dos “trabalhos manuais” da educação ocidental. Todos os alunos, homens e mulheres, cursam um ano de desenho. No ano seguinte, há um pouco de talha em madeira, usando os modelos desenhados no primeiro ano. Este curso é também para ambos os sexos. No terceiro ano, os garotos vão trabalhar com madeira e as moças para a costura. Na realidade, as escolas russas de hoje já avançaram muito mais, tendo uma variedade muito maior de atividades e menos delimitação de gênero nas opções.
O dia escolar é ainda mais longo que no primário. Os alunos chegam na escola as 7:30, almoçam entre 12:30 e 2:00, e saem da escola as 5:30 da tarde. No geral, oito horas e meia na escola, dez meses por ano. As tardes são menos acadêmicas, com esportes, visitas ou outras atividades mais leves. Os estudantes devem passar mais ou menos uma hora adicional em casa fazendo pesquisas e projetos especiais. Isto chega perto das dez horas diárias de educação, durante um longo ano escolar.

A nota média dos alunos no final do 9o ano tem um papel forte na determinação do tipo de educação secundaria que os alunos cursarão. Notas altas significam um acesso mais fácil às carreiras pré universitárias, as mais desejáveis para pais ambiciosos. Aqueles que têm notas mais baixas serão matriculados em algum dos vários cursos técnicos, uma coisa que nem todos os pais gostam, mas parece que não lhes resta muito a fazer.
Escolas como Instituições Totais

Os cubanos seguem a tradição russa de fazer das escolas instituições totais. As escolas exercem muitas funções, incluindo educação, saúde e lazer. A educação cívica recebe muita atenção. É curioso notar que o “anti-imperialismo “ é listado como um dos valores cívicos a ser desenvolvido
pelas escolas. Há um médico e uma enfermeira responsáveis pela escola. Os alunos têm a sua saúde geral checada cada semestre e, cada semana, escovam seus dentes com flúor. Também nessa época verificam se têm piolho. Altura e peso são periodicamente medidos, para assegurar que os alunos estão bem nutridos e saudáveis. As vacinações são igualmente feitas na escola. O almoço oferecido pela escola parece ser objeto de muita preocupação, para assegurar que o menu esteja nutritivamente balanceado. Usa-se muito os derivados de soja, para equilibrar o conteúdo de proteína. A escola recebe comida do governo e a prepara de acordo com um menu semanal. A presença de leite e arroz é cuidadosamente balanceada para assegurar uma nutrição apropriada. Obviamente, o almoço é grátis.

Cada ano os alunos recebem um conjunto grátis de livros que devem ser retornados no final das aulas. Os professores fazem uma estatística aproximada de quatro anos de vida útil para os livros. No principio, os livros vinham da Rússia. Atualmente, Espanha e México são os principais fornecedores. É interessante contrastar os altos gastos na compra de livros, com extremo estado de deterioração em que se encontram os prédios e equipamentos. Em outros países, a maioria das administrações escolares presta mais atenção aos edifícios que aos livros. No começo das férias, os pais são convocados para uma reunião com os professores. A presença dos pais é considerada importante para assegurar que os alunos não faltem às aulas. Qualquer estudante que falte mais que dois dias provocará uma visita sua a casa. Os professores alegam que as relações com os pais são fáceis e cooperativas. Em outras palavras, o medo comum de que os pais se choquem com as doutrinas e orientações pedagógicas é negado por esses professores e diretores. Todos os dias, os primeiros dez minutos de aula são dedicados ao hino nacional, moral e cívica, diálogos e assuntos organizacionais. Os pais são convidados a participar.
Em um claro ato de fidelidade ao modelo escolar russo, as atividades do Programa Pioneiro ainda
podem ser vistas nos quadros de aviso. Isso indica que o programa sobreviveu à saída precipitada da assistência técnica russa, depois da desintegração da União Soviética. Seguindo a mesma tradição russa, os alunos passam um mês em acampamentos, colhendo laranjas ou trabalhando nas plantações de cana de açúcar ou tabaco (a participação na colheita da cana e tabaco não funcionou, devido às exigências de destrezas não possuídas pelos alunos). Os professores alegam que os alunos amam o acampamento, de resto, mais do que eles, já que se tornam babás e mães de trinta alunos durante um mês. Igualmente remanescente da influencia soviética são os mutirões de trabalho para limpar as escolas durante as férias ou consertar os seus móveis. Tudo isso vai muito na linha dos objetivos Marxistas-Leninistas de criar um novo ser humano e de combinar o trabalho físico com o intelectual. Minha própria observação é que na
Rússia os resultados não são muito impressionantes. Como um comentário à margem, lembrei-me dos meus dias de Brasil (no início dos anos oitenta) quando estava envolvido na política da merenda escolar e testemunhei a forte oposição da esquerda à todas as tentativas de usar alimentos enriquecidos e preocupar-se com nutrição. A principal razão é que a comida enriquecida era produzida por indústrias privadas, enquanto a comida natural podia ser comprada de pequenos produtores. O abandono da “vaca mecânica”, uma máquina para a preparação do leite de soja, foi comemorado pela esquerda como uma grande vitoria. A “vaca mecânica” foi morta pelo Presidente Figueiredo que estava inaugurando uma nova instalação e provou o leite de soja. Parece que a mistura não estava ainda pronta e Figueiredo fez uma careta à frente dos jornalistas presentes e da televisão. Todavia, quando Fidel Castro visitou Brasil um pouco depois, adorou a “vaca mecânica” e quis importar algumas para Cuba, criando um certo embaraço para a esquerda. Como reconciliar o descaso pelas refeições nutritivamente balanceadas e alimentos enriquecidos quando “El Comandante” os estava elogiando? Como ficavam todas as comemorações pelo sucateamento das “vacas mecânicas”, se Fidel queria levar de volta para Cuba as que soube estar abandonadas? Os alunos ganham larga experiência no trabalho manual, mas não necessariamente o respeitam, gostam dele, ou vêm uma clara conecção com o trabalho intelectual. Será que Cuba consegue melhores resultados?
Os Professores

Todos os professores tem um diploma de educação superior, obtido após cinco anos em uma instituição especializada na preparação de professores. Este alto nível de escolaridade contrasta fortemente com a maioria dos países Latino Americanos. No regime de trabalho do professor, é de se notar também algumas diferenças notáveis com relação às escolas Latino Americanas. Os professores cubanos são contratados por 40 a 44 horas por semana e espera-se que ensinem de 16 a 20. São reservadas, portanto, 20 horas para preparar as aulas e interagir com os alunos. As salas de professores estão disponíveis para estas atividades extra-classe. Espera-se que, de fato, os professores permaneçam as 40 horas na escola. E o que é mais importante para a qualidade do ensino, boa parte da preparação das aulas e materiais pedagógicos em regime feita em colegiado. Os professores discutem e debatem seu trabalho entre si, bem como suas estratégias e seus problemas.
Tendo tanto tempo a sua disposição, os professores têm excelentes possibilidades de aumentar o seu nível de educação. De fato, é permitido que dediquem um dia por semana para o seu aperfeiçoamento profissional. Na escola secundária visitada, todos os 59 professores tinham feito cursos de pós-graduação (embora nenhum tenha terminado o mestrado). Além da possibilidade de alocar parte das 40 horas para o estudo, os cursos de pós-graduação conduzem a um adicional de salários, criando um grande incentivo para continuar os estudos. Os salários dos professores são sempre uma dimensão crítica para explicar o êxito ou fracasso das escolas. Pelos padrões internacionais, os professores cubanos recebem salários miseráveis.
Eles começam com 235 Pesos, para professores primários, e alcançam um máximo de 600 para aqueles que se tornam diretores. Convertendo em dólar, o nível mais baixo corresponde a 10 dólares por mês. Entretanto essa conversão monetária tem que ser vista com muito cuidado, já que Cuba tem uma economia monetária dupla. Os professores, como a maioria das outras pessoas, permanecem no antigo sistema de economia soviética. Pagam de um a três dólares pelo aluguel, têm educação e seguro de saúde grátis. A comida é comprada através de uma caderneta que especifica as quotas permitidas para cada alimento. Em conversas informais com cubanos, o maior problema é a comida, já as quotas são realmente parcas e não há muita variedade. Todos concordam que aqueles cubanos vivendo na economia do Peso – a maioria - têm uma vida espartana, mas têm o básico para sobreviver. De fato, são menos propensos a reclamar publicamente do que os russos ao final da era soviética. Mas inevitavelmente, o drama começa quando essa economia cruza com a economia do dólar, hoje totalmente legalizada. Um professor tem que trabalhar mais que dois dias para comprar uma Coca-Cola. Comprar um sorvete para um filho no fim de semana já é uma extravagãncia. Um almoço simples em um restaurante de turistas, ou uma corrida de taxi, custam o equivalente ao salário mensal de um professor. Como a economia do dólar fica cada vez maior, a coabitação dos dois sistemas se tornará crescentemente tensa e desconfortável, já que pessoas com menos escolaridade e menos talento recebem de vinte a trinta vezes mais que um professor ou um médico.
Mas a questão relevante aqui é que exceto para os que operam na economia do dólar, todos ganham quase o mesmo. Um engenheiro receberá mais ou menos 300 a 400 Pesos. Um médico de família recebe 430 Pesos. O que significa que os professores não estão em desvantagem, em comparação com outros profissionais, alguns até com mais diplomas. Quando adicionamos essa relativa igualdade com a importância dada á educação, é razoável pensar que a educação consegue atrair um boa parcela dos jovens talentosos que se formam nas escolas secundárias. Não é um aspecto trivial, até mesmo em países industrializados. Isto é talvez uma das mais críticas vantagens das escolas cubanas.
Outro fator crítico é que o pagamento do professor está de alguma forma relacionado com o desempenho dos seus alunos. Aqueles professores cujos alunos fracassam, obtendo notas abaixo das normas, arriscam-se a perder os seus suplementos de salário. Diretores e um comitê de professores examinam a performance dos alunos, medida nas provas (que são as mesmas para toda a escola) e concedem os complementos salariais aos professores cujos alunos se saem bem. Isto é pagamento por mérito, um dos mais persistentes desafios para qualquer sistema educacional. De uma visita rápida pode ser imprudente tirar tantas conclusões. Entretanto, há um fato claro: Cuba tem um sistema de pagamento por mérito, enquanto outros países discutem,
brigam e terminam atolados em infidáveis discussões.
Os professores das escolas primárias ficam com a mesma turma durante os quatro graus iniciais.
Nas duas séries seguintes, a turma passa para um segundo professor. Isto significa que os professores podem melhor conhecer seus alunos, podem adaptar sua instrução a cada um, e podem reagir às necessidades emocionais e intelectuais de cada um deles. Um bom professor investirá quatro anos no desenvolvimento de cada aluno, podendo, portanto, apreciar o progresso e lidar com os problemas encontrados. O lado o negativo é que um mau professor terá efeitos devastadores nos seus alunos. Mas outra vez, o lado bom é que qualquer que seja o impacto, ele está bem documentado e somente pode ser atribuído ao professor. Na mendida em que haja mais que um aluno prejudicado pelo desempenho deficiente de algum professor, isto se torna dolorosamente claro para todos. Portanto, trata-se de um sistema onde os professores realmente têm que prestar conta do seu desempenho. Não surpreende que uma alta dedicação por parte dos professores seja um dos pontos fortes do sistema cubano. A combinação da necessidade de prestar contas com o prestígio social da educação é uma fórmula poderosa. Feia mas boa! Que as escolas cubanas são boas, já sabíamos, através dos resultados dos estudos da UNESCO/OREALC.

A pergunta que restava é por que elas são boas. Uma rápida visita a duas escolas não é certamente uma credencial confiável para alguém discutir por que as escolas cubanas são boas. Mas por que não especular?
O primeiro choque foi a aparência física. As escolas são feias. Estas visitas demonstraram que escolas feias podem ser boas, talvez uma surpresa. Até aí, nada que ajude a entender. Mas claramente, estas escolas devem estar fazendo alguma coisa certo. Passemos a rever algumas das explicações mais razoáveis:
1. Quanto mais se estuda, mais se aprende. Os estudantes cubanos passam uma extraordinária quantidade de tempo na escola. Realmente, pouco tempo sobra para fazer qualquer outra coisa. Ademais, há muita pressão social para atingir esses objetivos. Educação é um componente central da sociedade cubana.
2. As escolas são capazes de individualizar a instrução para cada aluno. Os professores tem uma hora adicional na escola, para cada hora em sala de aula, podendo, portanto, dedicar-se mais aos seus alunos. Eles podem usar esse tempo um atendimento individualizado e ensinarndo a cada aluno o que quer que seja mas apropriado a cada um (com uma relação de 1 professor para cada 11 alunos em Cuba, o professor tem bastante tempo para cada aluno).

3. Os professores são bem recrutados e bem treinados. A educação tem um alto reconhecimento social e paga o mesmo que outras carreira superiores. Os professores não estão em desvantagem comparados com outros profissionais. Portanto, o recrutamento de professores pesca bons candidatos. Além disso, em uma sociedade com altos níveis de escolaridade, os professores são treinados por um longo período de tempo.
4. Prestação de contas por parte dos professores. Os alunos são avaliados e o professor tem que prestar contas do desempenho deles. O pagamento depende da competência de cada um para impedir um desempenho insuficiente dos seus alunos. Em outras palavras, como um economista diria, a estrutura de incentivos está correta. Quem se sai mal, paga seus pecados no salário do fim do mês.
5. A escola é uma instituição total. É muito central na vida dos alunos. Captura o tempo e a imaginação deles. E lida, igualmente, com todas as suas necessidades. Em contraste com essas dimensões altamente positivas, as escolas cubanas são bastante convencionais nos seus modelos de ensino. Oferecem um ensino sólido, mas não inovador. E, como mencionado, o fato das instalações serem particularmente inadequadas não parece fazerqualquer diferença, em um país onde é deplorável o estado geral de manutenção dos edifícios. Uma forte preocupação é saber se Cuba pode continuar gastando 10% do seu PIB na educação, considerando o pouco que ela parece ajudar em economia travada por razões outras.
Quais são as lições que poderiam servir para os outros países Latino-americanos?

1. Mais horas de presença na escola é certamente uma lição fácil de deduzir. As crianças latinoamericanas não passam um tempo suficiente na escola. Entretanto, manter professores tempo integral é caro, muito caro mesmo. Neste momento, seria impossível para qualquer pais latino americano praticamente dobrar o número horas contratadas com seus professores, embora quaisquer esforços para aumentar a jornada de trabalho provavelmente dariam resultados significativos.

2. Recrutando melhores professores é uma outra área onde Cuba se destaca e onde os outros países latino americanos poderiam se sair melhor. Há um número de possíveis estratégias para fazer isso. Mas nem é possível diminuir os salários de outras profissões e nem aumentar os salários dos professores para níveis que fariam a profissão muito mais atraente. Algum aumento de salário faz sentido, quando nada, eles atenua as confrontações com sindicatos e reduz as perdas de tempo de estudo devidas às greves.
3. Aperfeiçor a preparação dos professores é certamente possível e desejável. No presente momento, ninguém na América Latina parece concordar com a melhor fórmula para formar professores. Mas quase todos concordam que é importante fazer alguma coisa e que as experiências mais bem sucedidas devem ser replicadas.
4. Tornar os professores responsáveis pela performance dos seus alunos é o sonho de muitos administradores educacionais. Os cubanos parecem fazer isso bem. Mas essa é uma área politicamente eletrizada. Os sindicatos de professores tem posições ferozes contra quaisquer dessas políticas. Experimentos aqui e acolá (por exemplo, no Chile) estão começando a acontecer, mas os resultados permanecem inconclusivos.
5. O uso de mais instrução individualizada é uma alternativa atraente. As novas modas pedagógicas vão nesta direção. Mas a sua implementação certamente requer mais tempo dos professores. Em muitos casos, isto até seria possível.
6. Finalmente, há a política de valorização social da educação, aumentando a consciência pública do que acontece na escolas e envolvendo a sociedade nesse apoio. Essas são medidas que podem ser adotadas e, de resto, tem tido sucesso em outros lugares (como por exemplo, o esforço de Minas Gerais de aumentar a participação dos pais na vida da escola).
Este trabalho não precisou mostrar que a educação de Cuba é boa. Os dados empíricos da OREALC sobre o rendimento superior dos seus alunos mostram isso de forma mais eloqüente e confiável. Apenas tentei especular sobre os porquês da boa educação em Cuba. Nas minhas visitas, o que vi foi uma dose salutar de bom senso e soluções convencionais aplicadas por professores sérios que têm muito tempo para dedicar aos seus alunos e muitos incentivos para fazê-lo. E tudo que acontece na escola, se dá durante uma jornada escolar muito longa. Este trabalho é o resultado de duas visitas a escolas e conversas alguns com poucos cubanos e com estrangeiros que conhecem o país. Obviamente, não fiz uma pesquisa acadêmica séria. Meus propósitos foram mais modestos e não visam mais do que convidar aos leitores a pensar na educação latino americana e especular acerca do que podemos aprender com Cuba."

quinta-feira, 24 de abril de 2008

SINDICALISMO E PELEGUISMO

Num dia muito antigo, na Judéia, aconteceu decisiva eleição (talvez a primeira dos novos tempos). Dois hebreus disputavam, segundo o costume da época, quem seria libertado e quem seria condenado. No tribunal, presidido por aparentemente severo magistrado romano, defrontavam-se o Divino Mestre e um conhecido canalha. Insuflado pelos pontífices (Anás e Caifás), o povo votou no criminoso em detrimento do Justo. No dizer de Marcos (15:15), "Então Pilatos, querendo contentar a multidão, soltou-lhe Barrabás; e, após mandar açoitar a Jesus, entregou-o para ser crucificado". O resto da história, todos conhecem. Estes velhos acontecimentos parecem se reproduzir no Brasil contemporâneo, como se o cenário bíblico fosse uma profecia que se atualizasse ao longo dos tempos. O Barrabás de hoje, reencarnado, foi eleito e reeleito. Aí estão ele e seus sequazes - a sofisticada quadrilha conforme a denominou o próprio Procurador da República - planejando a continuidade do saqueio aos cofres públicos. Não satisfeito com os atos que impingiu à nação Luiz Inãcio quer, agora, fazer seu sucessor (no caso, ao que parece, uma sucessora). Este parece ser seu único propósito de vida, infenso a qualquer coisa que remotamente lembre o conceito de trabalho. Viajar incansavelmente numa deambulação perpétua, pousando aqui e ali em qualquer coisa que lhe sirva de palanque ou que, por mais remotamente que seja, lembre algum. Um tablado (ou mesmo um caixote de querosene) numa cerimônia de inauguração de máquina de cortar salame numa vila perdida nos confins do Brasil; o lançamento de muito cascalho e alguma nata asfáltica em qualquer um dos milhões de buracos a que foram reduzidas as estradas federais; a oferta de repasses financeiros triviais a estados e prefeituras, pois que derivadas de obrigações constitucionais; a instalação de placas anunciando obras que serão iniciadas e terminadas em mandatos posteriores aos seus; as promessas, sempre muitas delas, de casa, comida, roupa lavada e passada (para alguns ainda garante que serão engomadas), tudo isto configura um quadro onde mais vale ajuntar palavras que ajuntar pedras.

Neste período que antecede as próximas eleições municipais o Tribunal Eleitoral parece imitar Pilatos: lava as mãos, e deixa o barco correr, como se nada de grave estivesse acontecendo no país (roubos, mentiras, campanhas antecipadas e outras malfeitorias), sob o comando do Palácio do Planalto. Também os herdeiros de Anás e Caifás, chefes dos vendilhões do templo, continuam a se enriquecer com seus múltiplos negócios, como o faziam naqueles velhos tempos. E insuflam as multidões para votarem nos candidatos de Lula, numa repetição grotesca daquela perversa aliança entre o poder temporal e o poder secular protagonizada pelos Pontífices hebreus e as autoridades romanas. Mas Lula, eventualmente, governa o Brasil "em retidão", para merecer esse apoio por parte de pessoas responsáveis?

Há líderes religiosos (publicamente solenes defensores da Palavra), que se mostram carentes da coragem dos sábios. Esqueceram-se, por acaso, do que diz o profeta: "ao louco nunca mais se chamará nobre, e do fraudulento jamais se dirá que é magnânimo"? (Isaías, 32:5) Sim, pois "o louco fala loucamente, e o seu coração obra o que é iníquo". Apesar de suas delinqüências, o Sr. Lula da Silva (este Barrabás renascido), parece caminhar para um destino exitoso em suas pretensões eleitorais, mesmo que de sua boca brotem mentiras e impiedades próprias de um louco. Os acólitos de Anás e Caifás negligenciam tais fatos, como se isso não tivesse a menor importância. Ainda muito recentemente, comparando polêmicas questões ambientais a um "exame de próstata", o Sr. Lula da Silva ministrou obscena lição à Ministra Marina Silva (recomendou-lhe pornográfico uso do dedo indicador – verdadeira inclusão digital - como forma de liquidar logo o assunto em debate).
Enfim, um costumeiro comportamento debochado e desrespeitador com autoridades e subalternos, segundo relatos do dia a dia palaciano. Essas, e outras pérolas, compõem o perfil presidencial, mostrando como a degradação interior se reflete nos atos e nas palavras. Jovens, principalmente, além de mulheres e idosos não merecem, contudo, testemunhar tantos crimes, grosserias e vulgaridades. Em jantar festivo oferecido a Luiz Inácio (após a campanha de 1998), por doutorandos brasileiros na Alemanha (onde estavam estudantes de biotecnologia, engenharia e teologia), o então candidatos derrotado do PT contou para este público uma piada sórdida de fundo "biotecnológico", como ele mesmo disse à época, após beber grande quantidade de bebida alcóolica: "Um cientista havia desenvolvido uma plantação de bucetas. Devido a seu feito, ele ganhou o prêmio Nobel e foi viajar pelo mundo a mostrar sua obra. Deixou um auxiliar tomando conta das tais plantas. Quando ele retornou, meses depois, encontrou o viveiro onde estavam os pés de bucetas totalmente destruído. Questionou o assistente – um português, evidentemente, que estava num canto segurando uma vareta – sobre a destruição da plantação, o qual respondeu de imediato: Que buceta, que nada, ó pá! Achei aqui um cuzinho transgênico que estou tentando espetar, e que vai fazer um sucesso muito maior que as bucetas!" Esta piadinha escrota não foi contada em um ambiente de estiva nem num botequim de periferia. Os ouvintes brindados com a pérola eram cientistas e teólogos brasileiros numa das mais famosas universidades alemãs. Ela representa, na sua torpeza, a imagem mais acabada do atual presidente.
Mas, apesar de sua biografia, o chefe do executivo brasileiro quer o voto da maioria dos cidadãos para seus amigos e apaniguados, nesta próxima, e em outras eleições que virão futuramente. O mais incrível, todavia, são as bênçãos com que Luiz Inácio é ungido por homens ditos religiosos, bem como por líderes de igrejas, em detrimento do postulado no Livro da Lei. Ora, o chefe dos quadrilheiros que assaltaram a República seria um nobre "que projeta cousas nobres e na sua nobreza perseverará"? Idólatra e "cheio de si", Luiz Inácio vive como alma penada vagando de palanque em palanque. Por que não trabalha em seu gabinete? Por que não estuda as graves questões sobre as quais deve tomar alguma decisão? Por que não lê os complexos documentos que transitariam por sua mesa? A que horas assina a montanha de despachos que fazem parte do cotidiano de um alto dirigente, seja de uma empresa privada ou de um repartição pública? Não, não faz isto. Alguém deve estar assinando por ele. Assinatura eletrônica, por suposto. Foge do trabalho como o diabo foge da cruz. Não trabalha porque não haveria espaço concomitante para ele e seu ego monumental numa sala comum. Nem muito menos para a presença do Eterno. Aí é que entra o papel destinado à Dona Dilma – a proto-mãe do PAC – pau mandada que tem saco para ler montanhas de papel, coisa que o "pai do PAC" não tem, ou não quer ter, e nunca teve (seu assunto é o gogó). E ainda é uma tática genial: se der rolo em alguma coisa, se vier a público alguma trapalhada (o que irá acontecer, pelo tamanho da quadrilha, pelo volume de "negócios", e pelo costume usual da troupe, refratária a qualquer controle externo), Luiz Inácio sempre poderá dizer que não sabia de nada, ou que foi traído, ou que a bicicleta nem é dele etc. e tal, tereré, caixinha de fósforo...

Em artigo recentemente publicado na grande imprensa, o professor Francisco Weffort (fundador e antigo secretário-geral do PT), relatou o que muitos já sabiam sobre as práticas e o caráter de Luiz Inácio. Fazendo mau uso do dinheiro sindical (inclusive de transferências financeiras oriundas de entidades sindicais de outros países), o atual presidente da República demonstra que a roubalheira e, também, a suposta proclamada ignorância sobre o destino dos recursos recebidos ("Eu não sabia", é o que sempre diz), teve sua gênese nas entranhas dos sindicatos. É lá que aprenderam a desviar recursos públicos. E por que são públicos? Simples. São públicos porque oriundos de prescrição legal que obriga todo trabalhador a destinar um dia de seu salário para suas entidades de classe. O trabalhador não pode querer não contribuir. A contribuição é obrigatória: ela é impositiva. Ela é, em suma, um tributo, ou imposto. Passa por cima, até da norma constitucional que garante ser livre a afiliação de quem quer que seja a qualquer tipo de associação. Mas não é livre de não pagar. Quer dizer, pode não ser associado mas tem que financiar a associação ou sindicato. Algo parecido com alguém que é obrigado a pagar a taxa de condomínio de um clube do qual não é freqüentador nem associado. E isto ocorre igualmente com as entidades patronais. Não por acaso os dois mais importantes dirigentes do País são oriundos do peleguismo sindical: Lula, do sindicalismo trabalhista, e José Alencar, do sindicalismo patronal. Ambos conhecedores e bem treinados no uso indevido de recursos de todos para atender seus fins partidários e de grupo. Quando de sua frustrada candidatura ao governo de Minas Gerais – no início dos anos 90 – muitos se lembram da farra com recursos da FIEMG, então dirigida pelo atual vice-presidente, em acintosa promoção pessoal do empresário José Alencar no período pré-eleitoral. A aparente contradição entre patrão e empregado (José Alencar e Lula), encobre uma afinidade profunda pela natureza comum de ambos, ou seja, o gosto pelo uso de recursos alheios para atender seus fins particulares.
No fundo, no fundo, Lula e sua gangue, bem como José Alencar e sua turma, são empresários. Empresários do mesmo tipo de negócio (o negócio sindical), marcado pela curiosa combinação de lero-lero com capital alheio. A obtenção deste capital depende dos favores da vasta cornucópia do dinheiro público, mascarado sob suas múltiplas facetas, quer se apresente sob o nome de "contribuição sindical", "sistema S", FAT, SUDENE, Fundos de Pensão, SUDAM, BNDES ou qualquer outra origem onde o poder público seja decisivo para determinar seu destino.
Há, ainda, um outro aspecto que cobre a apropriação de recursos coletivos sindicais para o uso a favor de um partido político, qualquer partido, frise-se. Partido é, por definição, parte. Uma categoria profissional possui entre seus membros simpatizantes e afiliados a múltiplos partidos. Isto apesar de estarem unidos pela pertinência comum a uma categoria profissional. Por exemplo, há professores com diferentes tendências políticas e ideológicas. No entanto, o sindicato ignora esta multiplicidade e aplica o dinheiro de todos em prol do partido a que pertencem seus eventuais dirigentes. Um caixa dois, na verdadeira acepção da palavra. Isto quando não usa o instrumento de liberação dos dirigentes para ficarem à disposição do sindicato e eles, de fato, vão desempenhar funções partidárias às custas da categoria. Um exemplo famoso, mas não o único, é do professor Delúbio Soares – aquele, aquele mesmo do mensalão – que, liberado de suas atormentadas funções docentes para servir como diretor do sindicato dos professores de Goiás, na realidade exercia mesmo o papel de tesoureiro do PT, em São Paulo. Atualmente, os principais bancos oficiais – Banco do Brasil e CEF – são pródigos fornecedores de quadros dirigentes para o PT (centenas deles estão liberados com ônus para os bancos), sob a capa protetora da anacrônica legislação. Se eles, dirigentes, são tão importantes para a categoria, como se diz, por que os sindicatos não bancam às suas custas esta liberação? O fato, entretanto, é que o principal ponto negociado pela CUT em qualquer transação com os bancos, é a liberação da turma. A "boquinha", em primeiro lugar, mesmo que sacrificando eventuais reivindicações de interesse dos bancários. O que prevalece é o interesse dos "empresários sindicais" na construção de uma rede de "parceiros" onde o Trabalho é um palavrão a ser evitado de qualquer maneira. Claro, a receita do "empreendimento" está garantida pelas contribuições compulsórias e, até mesmo, com pagamentos voluntários de associados (segundo estimativas oficiais, a pelegada sindical terá este ano uma receita de aproximadamente R$1,2 bilhões). Com isto, a teia de sanguessugas se esbalda na manutenção de seus privilégios e no aumento de seu poder e influência, quer política quer financeira, via poderosos fundos de pensão, num verdadeiro capitalismo sem capital próprio (as disponibilidades financeiras dos principais fundos estão na ordem de centenas de bilhões de reais). Para aferir seu poder de fogo basta citar o controle que estes fundos exercem nos conselhos de administração dos principais negócios do país: Vale do Rio Doce, empresas telefônicas, empresas siderúrgicas etc. em sociedade com bancos, empreiteiras, grupos multinacionais etc. Uma eventual sugestão de um desses sindico-capitalistas postados na diretoria de uma grande empresa de telefonia pode, digamos, permitir associações esdrúxulas como a ocorrida entre Lulinha da Silva, filho de Lulão da Silva, e a poderosa TELEMAR. De uma tacada só, alguns milhões desta empresa foram injetados na firma recém constituída por Lulinha da Silva. Ou o rapaz é um incompreendido gênio empreendedor (e os que questionaram o inusitado da operação estão apenas se coçando de inveja), ou o fato se constituiu no mais deslavado capilé repassado a um membro da família real ocupante do palácio do Planalto, como um cala-boca tão natural no mundo dos altos negócios. Evidentemente, os desdobramentos que estão sendo observados quanto a modificações na legislação sobre telefonia (de interesse concreto dos controladores da antiga TELEMAR), podem ser debitados na conta das extraordinárias coincidências). Tudo muito correto! Tudo muito justo e muito perfeito, como diriam os filhos da viúva, que acreditam e vivem na talvez vã, e anacrônica, ilusão de que o homem pode ser aperfeiçoado.

Há um teste singelo para comprovar a natureza empresarial do negócio sindical. Um sindicato existe para, supostamente, defender os interesses de uma categoria profissional. Assim, em princípio, um diretor ou presidente de um sindicato qualquer poderia voltar a exercer seu ofício, ou o emprego que ocupava, após o término eventual de seu mandato. Alguém, no entanto, imagina professores cevados no peleguismo retornando à sala de aula para o afã cotidiano do magistério? Eles não sabem mais nem dar bom dia aos alunos. Do que aprenderam, já se esqueceram de tudo, ou quase tudo. Provavelmente ignoram até o endereço da última escola onde trabalharam. E os dirigentes de sindicatos de bancários? Não saberiam nem ligar o computador, ferramenta básica numa instituição bancária. E metalúrgicos, então? Alguém imagina, nem que seja por exercício de imaginação, um pelego deste tipo numa fábrica moderna? Se o padrão do sindicalismo metalúrgico for Lula da Silva, ele já chegaria atrasado à fábrica e, provavelmente, bêbado. Arrumaria uma desculpa qualquer e fugiria para o banheiro, onde ficaria sentado no vaso a ler a parte esportiva dos jornais. Confira-se as mãos de gente como Stédile (do MST), à procura de algum calo. Mãos sedosas, rosto esticado por botox e cabelos e barbas bem aparados configuram o jeitão típico desta nova classe dominante, a seguir a avaliação de Milovan Djilas. Proíba-se a possibilidade de reeleição dos dirigentes sindicais e a pelegada é capaz de fazer uma revolução armada para resistir a isto. Não que não existam dirigentes – poucos, é verdade – que honram seus mandatos e seus compromissos sindicais. Mas dentre as dezenas de milhares de sindicatos existentes, eles poderão, certamente, ser contados nos dedos de uma mão. Que o Eterno tenha piedade de nós e proteja-nos todos, de Lula e dos seus insensatos apoiadores!

sexta-feira, 18 de abril de 2008

BAGUNÇA ORGANIZADA (Reinaldo Azevedo)

Lula, em Minas, estava no melhor da sua forma. No evento em que a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, chamou a solenidade do PAC de “comício”, o presidente afirmou que “rico não precisa de governo” e conclamou a massa pobre presente a não acreditar nas promessas dos políticos, que só estariam interessados no seu voto e nada mais. O presidente que, também ali, tratou a elevação dos juros como se fosse uma banalidade qualquer — a derrota de um jogo de futebol —, parecia introduzir no discurso o surrado jargão da luta de classes. Horas antes, a racionalidade econômica de sua gestão tinha sido cantada em prosa e verso pela Federação Brasileira dos Bancos. Há um aspecto aparentemente confortável em tudo isso: o “evento” Lula é irrepetível. Outro com suas características, cuja biografia mitificada incensa e perdoa qualquer coisa que diga, não mais haverá. Mas o conforto é rápdo. O Apedeuta não passará pelo poder sem deixar alguns efeitos colaterais.Enquanto o presidente protagonizava a sua pantomima eleitoreira, o MST ia passando por cima da lei em manifestações em vários pontos do país. Impedido por ordem judicial de voltar a atacar instalações da Vale do Rio Doce, os sem-terra assumiram a fachada de um tal Movimento dos Trabalhadores da Mineração e ocuparam as... instalações da Vale!!! Sem que a lei e o estado de direito movessem uma palha. Na Universidade de Brasília, o “intelectual” socialista Fernando Haddad, que vê no MST um modelo de movimento social, dava aos estudantes invasores o caminho das pedras para burlar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Isto mesmo: o representante do governo e, no caso, do estado brasileiro ensinava como tornar letra morta o texto legal.Da Lei Eleitoral à Constituição da República, o código legal foi sendo esbulhado de maneira que pode ser considerada metódica, determinada, sistemática. Lula só se lembrou de reagir quando ficou sabendo do teor da intervenção — legal e constitucional — do general Augusto Heleno, comandante da Amazônia, no Clube Militar. Recorrendo, aí sim, à sua autoridade, convocou o comandante do Exército e o ministro da Defesa para que dessem explicações. Ele não gostou de ver o militar falar o óbvio: a política indigenista brasileira é desastrada e despreza a história da colonização do país. No alvo. Em Brasília, índios já mobilizados por ONGs foram ao STF e protestaram em frente ao Ministério da Defesa.Que os deuses nos protejam mesmo, por um bom tempo, de uma crise, já que assistimos a essas manifestações de desconstituição da legalidade num momento em que a economia vai bem. Nas democracias do mundo inteiro, a divergência política é o motor da sociedade, mas não há quem aposte na divisão e, pois, no confronto entre classes, entre etnias (sinto-me até um tanto ridículo ao escrever isso), entre saberes, entre Poderes. No mais recente debate entre Hillary Clinton e Barack Obama, pré-candidatos democratas à Presidência dos EUA, ele foi obrigado a se desculpar por ter criado uma oposição entre o americano meio caipira e o cosmopolita. O país não aceita esse tipo de afronta.Por aqui, ao contrário, aproveita-se a estabilidade para investir ainda mais no confronto, já que o Demiurgo precisa manter a personagem do homem humilde que veio governar para os pobres, para os destituídos, para os humilhados. E a forma que tem de manter o mito, ao lado do assistencialismo do Bolsa Família, é sacar contra os mais comezinhos conceitos de nação. As divisões lhe serão sempre favoráveis.Lula vai passar — um dia passa. Mas vai deixar uma herança. Seus apologistas pretendem que tenha trazido para o cenário político “as massas”, antes supostamente ausentes do processo. Trata-se de uma bobagem mistificadora. O fato de permitir que os chamados “movimentos sociais” desrespeitem, de forma acintosa, a lei — o que ele próprio fez, em cima de palanque — está longe de ser um “avanço da democracia”. A “reforma agrária” do MST é o melhor exemplo de atraso.Todas as democracias do mundo têm seus limites permanentemente testados. Se os governantes se atêm ao que dizem as leis e as aplicam, então o modelo se revigora; se, no entanto, são os primeiros a burlá-las, vão-se instalado mecanismos paralelos — ilegais — de equacionamento de conflitos. E isso, claro, é do interesse tanto de alguns delinqüentes políticos que apostam na desconstituição do estado para fazer a “revolução” como dos oportunistas que usam os embates ideológicos apenas como pretexto para fazer negócios tão bons quanto ilegais.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

VALORES PROCLAMADOS E VALORES REAIS NAS INSTITUIÇÕES ESCOLARES BRASILEIRAS - Anísio Teixeira

1) Duplicidade da aventura colonizadora na América

A descoberta da América pelos europeus, nos fins do século quinze, deu lugar a uma transplantação da cultura européia para este Continente. Tal empreendimento constituiu, porém, uma aventura impregnada de duplicidade. Proclamavam os europeus aqui chegarem para expandir nestas plagas o cristianismo, mas, na realidade, movia-os o propósito de exploração e fortuna. A história do período colonial é a história desses dois objetivos a se ajudarem mùtuamente na tarefa real e não confessada da espoliação continental.
A vida do recém-descoberto Continente foi, assim, desde o começo, marcada por essa duplicidade fundamental: jesuítas e bandeirantes; "fé e império"; religião e ouro. O português e o espanhol que aqui aportavam não eram cristãos, mas, quando muito, "cruzados". Não vinham organizar nem criar nações mas prear... Esta obra destruidora e predatória nunca se confessava como tal, revestindo-se, nas proclamações oficiais, com o falso espírito de cruzada cristã.
De mistura com ansiosa indagação sobre ouro e minas, o primeiro ato público dos portugueses no Brasil foi a celebração da Santa Missa, e o nome que deram à Terra, o de Santa-Cruz e Vera-Cruz, pouco depois vencido pelo "de um pau de tingir panos", mas que produzia ouro.
Nascemos, assim, divididos entre propósitos reais e propósitos proclamados. A essa duplicidade dos conquistadores seguiu-se a duplicidade da própria sociedade nascente, dividida entre senhores e escravos, dando assim ao contexto social do continente recém-descoberto o caráter de um anacronismo, mesmo em relação à Europa, na época, em plena renovação social e espiritual.
Quatro séculos e meio após a descoberta, essa obscura e desabusada colonização oferece-nos o quadro seguinte: parte do hemisfério norte foi definitivamente conquistada e organicamente integrada em duas nações, de origem anglo-saxônia. Estas duas nações lideram, nesta parte do planeta, a revolução democrática e a revolução científica.
Para isto, os Estados Unidos (o Canadá é caso à parte) tiveram de destruir o índio "pagão", travar uma guerra de independência contra a Metrópole e, nos meados do século passado, se esvaírem numa das mais tremendas guerras civis que, até aquele momento, registrara a história. Os mortos se elevaram mais de um milhão só do lado do Norte, enquanto a população total da nação não excedia trinta milhões.
Se dualidade e duplicidade houve, pois, nessa parte norte continente, como de fato houve, entre colonizados e colonizadores, primeiro, e, depois, entre escravistas e capitalistas ou, mais exatamente, entre fazendeiros-patriarcas (Sul), ianques (Norte) e pioneiros (Oeste), tais divisões e conflitos se fizeram suficientemente claros e abertos, para se decidirem no campo de batalha.
A observação vale para mostrar que a sociedade em busca de sua orgânica integração, se não consegue superar pacìficamente as força que a dissociam, cai, ao que parece, inelutavelmente, na revolução e na guerra civil.
Abaixo do Rio Grande, desde o México até a Argentina e o Chile, somos, depois de rápidas lutas pela independência, no século dezenove, um grupo de nações mergulhadas nesse processo de organização e integração, com maiores ou menores regressos, todas lutando para efetivar as indispensáveis incorporações e assimilações sem a tragédia da guerra civil que marcou a sociedade americana. Nem sempre há completa percepção da dificuldade da tarefa. O velho vício da duplicidade mantém-nos, por vezes, no estado de descuidado enleio, com que escamoteamos a nós próprios a verdadeira realidade. Chegamos, em nossos hábitos, sob alguns aspectos, esquizofrênicos, a criar um tipo específico de revolução, misto de teatro e de espasmo de violência, a revolução insincera, a "revolução sul-americana"... É que a sociedade, ainda constituída na base de divisões e estratificações sociais até ontem toleradas, mas hoje, com os novos processos de comunicação e a "revolução das expectativas montantes", em ponto de perigo e de explosão, não ganhou completa consciência dos sinais que prenunciam as convulsões integradoras.
Para analisar essa situação sul-americana não é possível deixar de repetir observações que já se tornaram cediças. Nem o espanhol nem o português que aqui apartaram traziam propósitos de criar, deste lado do Atlântico, um mundo novo. Encontraram um mundo novo, que planejaram explorar, saquear e, assim enriquecidos, voltar à Europa. Viana Moog comentou, em páginas definitivas, o "sentido predatório" da aventura sul-americana em contraste com o "sentido orgânico" da formação norte-americana. Mundo novo "vinham fundar aqui" os peregrinos do Mayflower. Novo mundo encontraram aqui espanhóis e portugueses. O mundo novo dos americanos ia ser criado. O novo mundo dos espanhóis e portugueses iria ser saqueado. O saque prolongou-se, porém, e o regresso se retardou. Com o tempo, surgiram os espanhóis e portugueses nascidos no novo continente, filhos de espanhóis e portugueses das metrópoles. Chamaram-se "criollos", entre os espanhóis e "mazombos", entre os brasileiros. Brasileiros é modo de dizer, pois "o termo brasileiro, como expressão e afirmação de uma nacionalidade", não chegara a existir até começos do século XVIII, conforme nos diz Viana Moog, que assim define o "mazombismo", expressão cultural, dominante, no Brasil, até fins do século passado, pouco importando que o nome tivesse desaparecido: "consiste (o mazombismo) na ausência de determinação e satisfação de ser brasileiro, na ausência de gosto por qualquer tipo de atividade orgânica, na carência de iniciativa e inventividade, na falta de crença na possibilidade do aperfeiçoamento moral do homem, em descaso por tudo quanto não fosse fortuna rápida, e, sobretudo, na falta de um ideal coletivo, na quase total ausência de sentimento de pertencer o indivíduo ao lugar e à comunidade em que vivia".
O radicalismo da formulação pode ser contestado, mas a afirmação é fundamentalmente verdadeira. Os "brasileiros" eram "europeus" nostálgicos, transviados nestas paragens tropicais. E como sucede em tais casos, nem eram aceitos pelos europeus, como europeus, nem pelos brasileiros mestiços, ou seja os primeiros brasileiros autênticos, como brasileiros. Esse tipo cultural, dúbio, ambivalente, nem peixe nem carne, acabou por criar nestas terras novas da América algo de congenitamente inautêntico, do congenitamente caduco, na cultura americana.
Não se tratava, com efeito, de reprodução das condições européias do momento, mas de um recuo, de uma restauração contraditória e anacrônica. O mazombo, dividido entre o desejo de regressar, o propósito de reproduzir a cultura da metrópole e as novas condições, o novo meio, a nova dinâmica da conquista, ignorava o próprio fato da transplantação cultural e a necessidade inevitável de adaptação e se perdia em impulsos ridículos e imitação e contrafação. Incapaz, pela sua irremediável duplicidade, de aceitar as modificações que o meio impunha, suprimia delas a possível força criadora, desnaturado o que havia de melhor no nascente esforço nacional.
Os "mazombos", com os "criollos", não eram europeus, nem sul-americanos... E assim hostis à sua própria terra acabaram por se constituírem objeto de um risonho desdém até do próprio mundo europeu, de que não se queriam desligar.
A verdade é que resistiam às força de formação nestas paragens de uma cultura autêntica, com o arraigado sentimento de estrangeiros em sua própria terra. Em vez de se voltarem para as possíveis deficiências ou diversificações da cultura européia em nosso meio e nelas buscar o sentido novo da adaptação local dos padrões transplantados, envergonhavam-se de tais modificações e chegavam até a procurar elidi-las ou escondê-las.
Mais do que isto. Chegaram à engenhosidade de pretender suprir as deficiências de nossa realidade humana e social por meio de revalidações legais. Já observei alhures que, em nosso mazombismo, com os olhos voltados para um sistema de valores europeus, que não conseguíamos ou não podíamos atingir, buscávamos, num esforço de compensação, "declarar", por ato oficiai ou legal, a situação existente como idêntica à ambicionada. Por meio desses "atos declaratórios" fazíamos, sem metáfora, de preto e branco, pois nada menos do que isso foram decretos declaratórios até de "branquidade", nos tempos coloniais, com quais visávamos tornar "convencional" a própria biologia.
Bem sei que podemos olhar para tais fatos sob a luz das dificuldades de implantar nos trópicos uma civilização de tipo europeu e considerar tal duplicidade como esforço patético de assimilação pelo menos externa dos valores da metrópole.
A realidade, porém, é que nos acostumamos a viver em dois planos, o "real", com as suas particularidades e originalidades, e o "oficial" com os seus reconhecimentos convencionais de padrões inexistentes. Enquanto fomos colônia, tal duplicidade seria explicável, à luz de proveitos que daí advinham para o prestígio do nativo, perante a sociedade metropolitana e colonizadora. A independência não nos curou, porém, do velho vício. Continuamos a ser, com a autonomia, nações de dupla personalidade, a oficial e a real.
A lei e o governo não consistiam em esforços da sociedade para disciplinar uma realidade concreta e que lentamente se iria modificar. A lei era algo de mágico, capaz de subitamente mudar a face das coisas. Na realidade, cada uma de nossas leis representava um plano ideal de perfeição à maneira da utopia platônica. Chegamos, neste ponto, a extremos inacreditáveis. Leis perfeitas, formulações e definições ideais das instituições, e, como ponto entre a realidade, por vezes, mesquinha e abjeta, e essas definições ideais da lei, os atos oficiais declaratórios, revestidos do poder mágico de transfundir aquela realidade concreta em uma realidade oficial similar à prevista na lei.
Tudo podíamos metamorfosear por atos do governo! Não havendo correspondência entre o "oficial" e o "real", podíamos transformar toda a vida por atos oficiais. Como já acentuei, tudo isto era possível, graças, primeiro, ao dualismo de colônia e metrópole e, depois, ao dualismo de "elite" e povo, aquela diminuta e aristocrática, este numeroso, analfabeto e mudo. Reproduzíamos com esse dualismo nacional a situação colonial, mantendo a nação no mesmo estado de duplicidade institucional.
2) Dificuldade da "transplantação" dos sistemas escolares

Desejamos examinar, neste trabalho, quanto esse dualismo, dir-se-ia congênito, da sociedade sul-americana, veio agravar no Brasil, pois só a respeito do Brasil podemos dar testemunho, o dualismo das instituições escolares, que buscamos transplantar, dando origem a paradoxal processo de expansão, pelo qual exaltamos o aspecto mais velho e destinado a desaparecer dos sistemas escolares que procurávamos copiar.
Entre as instituições sociais, sabemos que a escola, mais do que qualquer outra, oferece, ao ser transplantada, o perigo de se deformar ou mesmo de perder os objetivos. A escola já é de si uma instituição artificial e incompleta, destinada apenas a suplementar a ação educativa muito mais extensa e profunda que exercem outras instituições e a própria vida. Deve, portanto, não só ajustar-se, mas inserir-se no contexto das demais instituições e do meio social e mesmo físico. A verdade é que a escola, como instituição, não pode verdadeiramente ser transplantada. Tem de ser recriada em cada cultura, mesmo quando essa cultura seja polìticamente o prolongamento de uma cultura matriz.
No Brasil, a Universidade não chegou a ser transplantada. Motivos políticos levaram os colonizadores portugueses, ao contrário do que fez a Espanha, a esse ato de prudência pedagógica. Chegamos à independência sem imprensa e sem escolas superiores, com a maior parte de nossa elite formada nos colégios da Companhia de Jesus (cuja influência nunca poderá ser exagerada quanto a certos traços da tradição intelectual brasileira) e, a seguir, para a graduação superior, na Universidade de Coimbra, em Portugal, e assim continuamos, durante parte do império. Como que se percebia obscuramente o perigo de se transplantarem instituições delicadas e complexas como as da educação, sobretudo em seus níveis mais altos e, por isto mesmo, mais difíceis e complexos.
Durante toda a monarquia, já independentes, continuamos, quanto à expansão do sistema escolar, sumamente cautelosos e lentos. A classe dominante, pequena e homogênea, dotada de viva consciência dos padrões europeus e extremamente vigilante quanto à sua própria perpetuação, parece ter tido o propósito de manter restritas as facilidades de ensino, sobretudo de nível superior.
Com a abolição e a república, entramos, porém, em período de mudanças sociais, que a escola teria de acompanhar. O modesto equilíbrio dos períodos monárquicos, obtido em grande parte à custa da lentidão de nossos progressos e de número reduzido de escolas, com que se procurava manter a todo transe a imobilidade social, rompe-se afinal e tem início a expansão do sistema escolar.

3)Evolução de sistemas escolares europeus

Antes de examiná-la, cabe, porém, uma digressão para se fixarem as linhas de evolução das instituições escolares nos países de onde recebíamos as influências maiores.
É indispensável, preliminarmente, recordar que somente no século dezenove o Estado entrou a interferir, maciçamente, na educação escolar. E, a princípio, apenas para criar uma escola diversa das existentes, destinada a ministrar um mínimo de educação, considerado necessário para a vida em comum, democrática e dinâmica, da emergente civilização industrial.
Tal escola, ou seja, a escola primária, que logo se faz compulsória, não tem os objetivos da educação escolar tradicional, a que sempre existira, antes de o Estado se fazer educador, e que visava manter o alto status social do grupo dominante. A nova escola popular visa, tão-somente, e nunca é demais repetir, dar a todos aquele treino mínimo, considerado indispensável para a vida comum do novo cidadão no Estado democrático e industrial.
A seu lado, continuava a existir a outra educação, a de "classe", com os seus alunos selecionados, não em virtude de seus talentos, mas de sua posição social e de seus recursos econômicos, ministrada em escolas que, de modo geral, se achavam sob controle particular ou autônomo. Na Europa e, sobretudo, na França, os sistemas escolares correspondentes a esses dois tipos de escolas coexistiam, lado a lado, separados e estanques, mesmo quando vieram a ser mantidos pelo Estado. A escola primária, a primária superior, as escolas normais e as escolas de artes e ofícios constituíam o sistema popular de educação destinado a ensinar a trabalhar e a perpetuar o modesto status social dos que o freqüentavam. As classes "preparatórias" (primárias), o liceu, as grandes escolas profissionais, a escola normal superior e a universidade constituíam o outro sistema, destinado às classes abastadas e à conservação do seu alto status social. Está claro que ingressar em tais escolas seria um dos meios de participar dos privilégios dessas classes e, deste modo, ascender socialmente.
Como o critério da matrícula, nos dois sistemas, não era o de mérito ou demérito individual do aluno, isto é, de sua capacidade e suas aptidões, mas o das condições sociais, ou econômicas, herdadas ou ocasionalmente existentes, a distinção real entre os sistemas não era de nível intelectual mas de nível social. A longa associação da educação escolar com as classes mais abastadas da sociedade determinou que, só em mínima parte, a escola se fizesse realmente selecionadora de valores. Devendo receber todos os alunos cujos pais estivessem em condições de arcar com o ônus de uma educação prolongada dos filhos, independente da capacidade individual desses mesmos alunos e de seu nível intelectual, a escola desenvolveu filosofia da educação toda especial.
Tal filosofia era a de que quanto mais supérfluos fossem os estudos escolares, mais formadores seriam eles da chamada elite que às escolas fora confiada. Não se sabia o que seus alunos iriam fazer, salvo que deveriam continuar a integrar as classes abastadas a que pertenciam. Logo, se se devotassem os alunos a estudos inúteis, "desinteressados", mas, segundo uma falsa psicologia, "formadores da mente", deveriam depois ficar aptos a fazer qualquer coisa que tivessem de fazer, na sua função de componentes do chamado escol social...
E assim se afastou da escola qualquer premência do fator "eficiência", chegando-se a considerar tudo que se pudesse chamar de "prático" ou "utilitário" como de pouco educativo. A escola "acadêmica", isto é, supostamente treinadora do espírito e da inteligência, passou a ser algo de vago, senão de misterioso, educando por uma série de "exercícios", reputados de ginástica mental, ou pelo ensino de "matérias" tidas especialmente como dotadas de "poderes educativos", estas para o treino da memória, aquelas, da imaginação, outras, da observação, e, deste modo, capazes de produzir peritos do intelecto ou da sensibilidade. Por isto mesmo que buscava resultados tão abstratos e tão alusivos, não podia desenvolver critérios severos de eficiência. Os resultados só viriam a ser conhecidos mais tarde, na vida, quando os respectivos ex-alunos, vinte ou trinta anos depois, vitoriosos em suas carreiras, por motivos absolutamente diversos, apontassem para o latim distante ou os incríveis exercícios de memória e dissessem que tudo deviam àquela escola, aparentemente tão absurda e, no entanto, tão miraculosa!
Essa escola tradicional, tipicamente de "classe", destinada aos grupos mais altos da sociedade, e eficaz para eles, pois não ministrava senão educação para a fruição, para o lazer, não era e nunca foi uma escola seletiva de inteligência. Pelo contrário, constituía uma forma especial de educação, destinada a qualquer inteligência, desde que o aluno pertencesse aos grupos finos e abastados da sociedade.
Tal escola tradicional acabou por se fazer um anacronismo nos grandes sistemas escolares europeus. As força sociais e o desenvolvimento científico, que haviam compelido o Estado a criar a educação mínima compulsória e as escolas pós-primárias de educação prática e utilitária, renovaram as condições de preparo até mesmo para as velhas profissões liberais e impuseram várias outras profissões técnicas que também demandavam outro tipo de educação. Tais força vêm transformando e unificando toda a educação escolar, que passou a objetivar o preparo dos homens (de todos os homens), de acordo com suas aptidões, a fim de redistribuí-los pelas múltiplas e diversas ocupações de uma sociedade industrial, científica e extremamente complexa. Educação assim, com tais propósitos definidos e claros, já não visa a nenhum fictício "treino da mente", mas à especialização adequada para ocupações específicas, inclusive a ocupação acadêmica, no sentido de formação do professor, do estudioso ou do cientista. A educação para o lazer continuou e continua sem dúvida a existir, mas como parte integrante da educação de qualquer um, desde o cidadão comum até o de nível mais alto, em escolas que a todos visa a formar para o trabalho, segundo a sua inteligência, e para o consumo, segundo as suas posses ou as posses da sociedade de abundância em vias de surgimento.
O importante a notar é, porém, que esta nova educação já não é uma educação para "certa classe superior", mas educação para a inteligência: quanto mais inteligente o aluno, mais longe poderá ele ir. Por isto mesmo, não gozou daquela sedução da antiga escola acadêmica, a qual "classificava" o aluno e lhe permitia a ascensão automática à chamada "elite". A nova escola só facilitava a ascensão dos mais inteligentes e capazes.
A fusão ou integração dos dois sistemas escolares – o prático e especializado e o das elites – acabou por se processar, em todos os países desenvolvidos, desaparecendo, de certo modo, a antiga educação puramente de "classe". Na América do Norte, pela organização de um único sistema público de educação, com extrema flexibilidade de programas e a livre transferência entre eles. Na Inglaterra, pela "escada contínua" de educação, pela qual se permite que o aluno, seja lá qual for a escola que freqüente, ou a classe a que pertença, possa ascender a todos os graus e variedades de ensino. Na França, pela transferibilidade do aluno de um sistema para outro, com o que, de certo modo, se unificaram os dois sistemas, seguido de um regime de bôlsas-de-estudo, destinado a permitir aos alunos desprovidos de recursos, mas capazes, o acesso às altas escolas seletivas.
Além dessa interfusão dos alunos, pela qual se quebrou o dualismo do sistema, do ponto-de-vista das classes que abasteciam os dois tipos diversos de escolas, processou-se verdadeira revisão de métodos e programas, graças à qual as escolas chamadas utilitárias se vêm fazendo, cada vez mais, escolas de cultura geral, sem perda dos seus aspectos práticos, e as escolas chamadas "clássicas" ou "acadêmicas" se vêm transformando, cada vez mais, em escolas de cultura moderna, preocupadas com os problemas de seu tempo, sem perda dos aspectos de cultura geral, hoje mais inteligentemente compreendidas.
Em todos os países democráticos, os sistemas escolares tendem assim a constituir um único sistema de educação, para todas as classes, ou melhor, para uma sociedade verdadeiramente democrática, isto é, sem classes fechadas, em que todos os cidadãos tenham oportunidades iguais para se educar e, se distribuir, depois, pelas ocupações e profissões, de acordo com a capacidade e aptidões individuais demonstradas e confirmadas.
No novo sistema educacional, a classificação social posterior do aluno é resultado da redistribuição operada pelo processo educativo e não algo que decorra automaticamente de haver freqüentado certas escolas destinadas a grupos privilegiados de alunos de recursos. O aluno terá as oportunidades que sua capacidade e o preparo realmente obtido determinarem.
Está claro que nenhum país atingiu ainda esta perfeição. Mas, nos Estados mais desenvolvidos, já se estende aquela educação mínima oferecida pelo Estado até os 16 e os 18 ou 19 anos com ampla diversificação de currículos e programas para as diferentes aptidões, seguidas de um sistema de bolsas para os estudos superiores, a fim de facilitar o ingresso dos capazes sem recursos – uma vez que o ensino superior, de modo geral, ou depende dos recursos da família ou impõe sacrifícios pessoais consideráveis.

4) Evolução dos sistemas escolares brasileiros

Em nossos países, embora insista que me refiro especialmente ao Brasil, devia repetir-se evolução ao longo das linhas acima referidas. Ao iniciar-se, com efeito, a nossa expansão escolar, e a fim de obstar a que tal expansão gerasse perturbadores deslocamentos sociais, não faltou o cuidado de se desenvolver, como na Europa, dois sistemas educacionais: um pequeno, reduzido, acadêmico, destinado à classe dominante; e outro, primário, seguido de escolas normais e profissionais, destinado ao povo, com a amplitude que fosse possível. Os dois sistemas, paralelos e independentes, ainda mais afastados ficariam, se o primeiro fosse dominantemente particular. E assim se fez, evitando-se, desse modo, qualquer perigo de ascensão social mais acelerada.
Tivemos, pois, expansão, mas a imobilidade social, como na Europa, ficou assegurada, do modo acima exposto, ou seja, retirando-se qualquer atrativo ao sistema popular de educação, destinada a manter cada um dentro de seu status social, e transferindo à órbita privada o sistema acadêmico, pela sua escola secundária de elite, a fim de que não fosse acessível senão aos que tivessem recursos.
Graças a tais circunstâncias, conseguimos manter reduzidas as oportunidades educacionais destinadas a permitir efetivamente a ascensão social, limitando a escola secundária – propedêutica ao ensino superior - aos alunos que já se encontrassem em certas camadas da sociedade, não podendo os demais freqüentá-la, por falta de recursos econômicos ou por falta de condições prévias de educação doméstica e social.
Como organizávamos as nossas escolas segundo os padrões europeus e como tais padrões presumiam níveis de educação coletiva e doméstica relativamente altos, comparados aos existentes em nossa população mais baixa, a escola, mesmo a que se designava de popular, não era popular, mas tìpicamente de classe média. Não era só a roupa, e sapato, que afastavam o povo da escola, mas o próprio tipo de educação que ali ministrávamos e de que não podia aproveitar-se, em virtude da penúria do seu ambiente cultural doméstico. O "padrão europeu", cuidadosamente mantido, servia assim para limitar a participação popular à própria escola popular. A escola primária e a escola normal prosperavam, mas como escolas de classe média; a escola acadêmica e o ensino superior ficavam ainda mais restritos, destinando-se dominantemente a grupos da classe superior alta. Abaixo dessas classes, média e superior, dormitava, esquecido, o povo.
Toda expansão de educação, é preciso que se leve em conta, determina a alteração das condições existentes de estabilidade social e, também, importa em alteração dos tipos de educação anteriormente dominantes. É fácil compreender que, salvo casos de estados sociais regressivos, toda sociedade produz a educação necessária à sua perpetuação. A sociedade de tipo estagnado que se produzira, afinal, na América do Sul, tinha, em suas reduzidas oportunidades educativas, as condições apropriadas à perpetuação do estado social vigente.
Quando a aspiração da educação compulsória para todos surge, representa este fato um desejo de mudança social. Trata-se de ampliar a participação dos membros da sociedade na sua comunidade moral e política; trata-se de ampliar os direitos dos membros da sociedade; trata-se de melhorar suas condições de trabalho; trata-se de facilitar oportunidades, não só de participação, mas de ascensão social. E esta foi a situação em toda a Europa.
Entre nós, entretanto, proclamava-se o ideal da educação compulsória, mas, na realidade, a sociedade, pelas suas força conservadoras, a ela se opunha. Mil e um meios são utilizados para se restringirem as facilidades de educação compulsória. Como já não seriam legítimos tais movimentos de defesa do status quo, fazem-se eles, tortuosos, sutis e obscuros. A dualidade social já não pode ser proclamada. Proclamá-la agora é a aspiração à participação integradora. Como então evitá-la? Dificultam-se os recursos para o empreendimento; ministra-se educação do tipo inútil e que desencoraje a maioria em prossegui-la; e se a teimosia popular insistir pela freqüência à escola, abrevia-se o período escolar, oferece-se o mínimo possível de educação, alega-se que tal se faz por princípios democráticos, a fim de atender a todos ... Contanto que o processo educativo perca os seus característicos perturbadores, ou seja, a sua capacidade de facilitar o deslocamento e a reordenação social, em virtude da expansão escolar a todos.
Depois de assim degradar a educação popular compulsória, as nossas sociedades, em sua duplicidade proverbial, entram a manobrar para impedir a ampliação das oportunidades de educação de nível médio e superior.
No período de estagnação social, nenhuma dificuldade havia para isto. Bastava manter a educação, propriamente de elite, confiada à iniciativa privada, ou então, com currículos suficientemente "desinteressantes", em rigor inúteis, para desencorajar possíveis veleidades desconcertantes ...
O fracasso desses recursos habituais para o controle da expansão educacional, é a surpresa dos últimos trinta anos da vida brasileira e, acredito, de grande parte das nações sul-americanas.
A nascente classe média da década dos vinte, numa sociedade sem tradição de classe média, porque realmente constituída da casta semi-aristocrática e semifeudal dominante e do povo propriamente dito, entrou a exigir para si exatamente a educação acadêmica e semi-inútil da classe alta. Se passasse a exigi-Ia e tivesse a liberdade de tentar praticá-la experimentalmente, talvez acabasse criando uma escola que conviesse aos seus interesses e não prejudicasse a sociedade como um todo. Mas aí é que surgiu o obstáculo: mantiveram-se as leis antigas, elaboradas para impedir a expansão por meio de padrões de estudo, altos e complicados. Mantidos que foram tais padrões e currículos, abriu-se o caminho à falsificação, saída única para a expansão desejada. A alternativa deveria ser a de experimentação, de ensaio, de escolas com professores despreparados, mas livres de tentar ensinar o que soubessem, em progresso gradual com reconhecimento e classificação a posteriori. Negada tal alternativa, a saída única foi a ousada simulação do cumprimento dos "padrões" fixados a priori, altos e impostos pelo centro, fossem lá quais fossem as condições. Já não se tratava de tateios de ensaios, de esforços modestos, mas sérios, a serem apreciados a posteriori, repito, por meio de exames de Estado, ou processos semelhantes de verificação. Tratava-se de pura e simples burla; burla de currículos, burla de professores, burla de alunos. A educação fez-se um ritual, um processo de formalidades, como se tratasse de algo convencional, que se fizesse legal pelo cumprimento das formas prescritas.
O ideal professado da expansão das oportunidades educativas, ao invés de promover a educação real de um número maior de indivíduos, determinou a degradação das próprias formas destinadas à perpetuação da elite tradicional. Se um grupo social não tivesse criado para si condições especiais de privilégio, fundadas nos seus títulos formais de educação, não seria provável que o grupo ascendente da sociedade quisesse para si uma educação tão pouco eficiente e muito menos tornada inútil pela simulação e degradação dos seus próprios padrões. Se a burla ou engano traz vantagens, é que a sociedade era ainda aquela sociedade impregnada de duplicidade do tempo da colônia.
Trata-se, com efeito, de algo particular, e somente possível, porque o processo educativo de preparação da "elite" não se fazia com os recursos culturais reais e locais da vida brasileira, mas constituía processo especial de incorporação de aspectos de "cultura estrangeira" ou ainda estrangeira ... A burla cultural, ou seja, o charlatanismo, é logo descoberta em qualquer cultura, seja lá qual for o seu nível. Jamais algum país poderia estabelecer, conscientemente, um regime de burla cultural. Se tal se dá, em algum país, é que este país está a burlar algo de estranho à sua própria cultura. Trata-se de incorporação de algo estrangeiro, cuja importância, não sendo compreendida nem sentida, parece poder ser burlada sem maiores conseqüências. É evidente que a educação chamada de "elite" se fazia com o propósito de formar pessoas para uma cultura alienada da cultura local ou da cultura de seu tempo. Sabemos, com efeito, que as veleidades de formação humanística dessas escolas semi-aristocráticas dos nossos países centro e sul-americanos pretendiam transmitir uma cultura literária clássica, "latina", e supostamente herdada pelas nossas culturas indígenas ou mestiças.
A elite colonial estrangeira, depois a elite monárquica nativa e, por último, a elite republicana, vinda da Monarquia, todas se enfeitavam com traços dessa cultura européia e veleidades até de cultura clássica. Somente no século XX, e mais acentuadamente a partir do fim da segunda guerra mundial, é que se inicia a desagregação dessa pseudocultura e surgem sinais de uma autêntica cultura nativa.
Diante dessa ruptura dos quadros culturais, impunha-se, repetimos, a modificação dos "padrões" impostos e o início de, um regime de liberdade e experiência, com a fixação de padrões a serem gradualmente atingidos, em sucessivas verificações que, pouco a pouco, estabelecem, a posteriori, padrões locais, padrões regionais e, enfim, padrões nacionais. O nacional não se imporia, mas seria o resultado desejado e buscado, o resultado a alcançar. Por que jamais estabelecemos essas condições? Por que preferimos os diktats legislativos, impondo uniformes, rígidos e perfeitos "padrões", para, a seguir, sob a pressão das força de expansão, conceder autorizações para o funcionamento de escolas no mais terrível desacordo com tais padrões? Não é fácil de explicar. Mas, é isto que estamos tentando fazer.
Mantendo o poder centralizado, dificultando a experimentação e o ensaio, impondo, artificialmente, "padrões uniformes", que copiávamos de "modelos" europeus, já na própria Europa, aliás, como antes observamos, em processo de transformação, tomou o governo central, rigorosamente, a posição de "metrópole" colonizadora, submetendo a educação a modelos impostos e alheios às condições sociais e locais.
O desejo real seria o de "coarctar", o de "impedir" a expansão e assim manter o status quo. Ignorou-se, porém, aquele velho hábito de metamorfosear a realidade por meio de atos oficiais declaratórios. Logo que a pressão social se fez suficientemente forte para expandir de qualquer modo as oportunidades escolares, o grupo social ascendente procurou aproveitar-se daquela velha atitude de revalidação legal. O controle central, destinado aparentemente a assegurar a "qualidade" e a obstar a simplificação da escola, passou a ser, pelo contrário, o próprio instrumento da expansão, "revalidando" situações, apesar de seu desencontro com os padrões da lei, por meio de atos que equivaliam a considerá-las idênticas às daqueles padrões.
O governo central, "poder concedente", poderoso e distante, fez-se o instrumento da expansão, autorizando escolas, mediante um sistema de "formalidades" processuais, fiscalização "nominal" e "legalização" de papéis de exame, dando origem à criação originalíssima de verdadeiro "cartório educacional", por meio do qual se "certifica" a educação recebida e se declara não a sua eficiência, mas a sua legalidade. Educar, no Brasil, transformou-se numa questão de formalidades técnicas legais, da mesma natureza das que regem a compra e venda de um imóvel ...
A situação não se iniciou com o desembaraço que hoje a caracteriza. No início houve rigores. Mas o fato de a escola ser definida em lei e dever ser autorizada a funcionar, dentro dos "padrões" previstos na lei – altos, perfeitos e rígidos padrões, a priori fixados – tal fato somente poderia ser compreendido como um processo de impedir a expansão educacional, ou de não permiti-Ia senão quando a escola fosse do tipo conveniente a certa classe, em condições de aproveitar-se dos padrões estipulados, mais ou menos estrangeiros e em completa desvinculação com a realidade temporal e local. Se, em contradição com estes propósitos, a pressão social acabou por obrigar a expansão de qualquer modo das escolas, havia que mudar a legislação. Como não o fizemos, tivemos que manter apenas na aparência os tais "padrões", duplamente inexeqüíveis: primeiro, devido à falta de professores e, segundo – o que é mais importante ainda, se possível – devido a não estarem os alunos de origem social modesta, que buscavam as novas escolas, nas condições de classe ou de meio cultural necessárias para tirar real proveito do tipo de educação puramente acadêmica, previsto nas leis. Para a expansão imprudente faltavam, assim, professores e alunos do tipo exigido pelos "padrões" altos e estranhos à cultura local.
Recordemos, conforme já nos referimos, que também nós tivemos o cuidado de manter um sistema de ensino dual, embora sem a nitidez do paradigma francês. A escola primária, a escola normal e as chamadas escolas profissionais e agrícolas constituíam um dos sistemas; e a escola secundária, as escolas superiores e, mais recentemente, a universidade, o segundo sistema. Neste último, dominava a filosofia educacional dos estudos "desinteressados" ou inúteis, mas supostamente treinadores da mente, e no primeiro, a da formação prática e utilitária, para o magistério primário, as ocupações manuais ou os ofícios, as atividades comerciais e agrícolas.
No propósito de conservar tranqüilizadora imobilidade social, o Poder Público adotou a política de manter, de preferência, as escolas primárias, normais, técnicas e agrícolas – desinteressando-se pelo ensino secundário acadêmico. Estabelecimentos deste tipo, não manteria senão alguns poucos, considerados de demonstração ou modelos. A política educacional seria, assim, a de promover apenas o sistema público de educação, caracterizado por escolas populares e de trabalho. Com o objetivo disto assegurar é que o Estado conservou a legislação anterior de ensino, pela qual tinha o ensino secundário acadêmico o privilégio de constituir-se o meio de acesso ao ensino superior. Como tal ensino seria dominantemente particular e, portanto, pago, acreditou-se ser isto suficiente para limitar a sua matrícula às classes mais abastadas do país. O ensino primário, o normal e o técnico-profissional continuariam desse modo as vias normais de educação das classes populares, fechada, assim, a sua possibilidade de ascensão social. Pois o ensino secundário, destinado a tal ascensão, seria privado e pago.
Tal duplicidade legislativa deu resultado oposto ao visado. A grande maioria dos alunos das classes modestas, mas ascendentes, precipitou-se em grande afluxo para as escolas secundárias. O Estado julgava que, não as criando nem mantendo, poderia conter a pressão social para o acesso a elas. Mas, não reparou que, embora quase não as mantivesse, reconhecia, pela equiparação, as escolas particulares, quantas aparecessem. E isto era o mesmo, ou era mais do que mantê-las, pois com isto retiraria à matrícula o caráter competitivo que as escolas públicas desse nível, não sendo para todos, haveria de adotar. Por outro lado, também não refletiu que, dada a organização da escola secundária e, sobretudo, a sua mantida filosofia de escolas apenas para um suposto "treino da mente", tal escola podia ser barata, enquanto as demais escolas – para "treino das mãos", digamos, a fim de acentuar o contraste – seriam sempre caras, pois requeriam oficinas, laboratórios e aparelhagem de alto custo.
E foi deste modo surpreendente e paradoxal que se abriu o caminho para a expansão escolar descompassada, que se processou em todo o país, nos últimos trinta anos... De um lado, passamos a ter a escola secundária, regulamentarmente uniforme e rígida, de caráter acadêmico, e, portanto, aparentemente fácil de fazer funcionar, com o privilégio de escola de passagem para o ensino superior (passagem naturalmente ambicionada por todos os alunos), de custo módico e entregue à iniciativa particular, mediante concessão pública; e do outro, um sistema público de educação – a escola primária, a escola normal, o ensino técnico-profissional, comercial e o agrícola – sem nenhum privilégio especial, valendo pelo que conseguisse ensinar e não assegurando nenhuma vantagem, nem mesmo a de passar para outras escolas. Está claro que o sistema público de escolas, via de regra, entrou em lento perecimento, enquanto a escola secundária, em sua mor parte, de propriedade privada, mas reconhecida oficialmente, com o privilégio máximo de ser a estrada real da educação, iniciou a sua carreira de expansão, multiplicando muitas vezes a sua matrícula nos últimos trinta anos. Operada essa expansão, passou-se à do ensino superior. A escola secundária propedêutica tem de se continuar na escola superior. Multiplicam-se então as faculdades de filosofia, de ciências econômicas, de direito e, de vez em quando, mais audaciosamente, até escolas de medicina e de engenharia.
Tudo isto se fez possível, graças à manutenção de uma legislação anacrônica, destinada a conter a expansão do ensino e mantê-lo somente acessível às classes mais abastadas. Com efeito, a concessão desse ensino à iniciativa privada visava torná-lo um ensino caro. A falta de consciência, entretanto, da sociedade nascente, em relação às dificuldades de ensino desse tipo criou a oportunidade para que se multiplicassem exatamente as escolas desse molde acadêmico.
Sentido surpreendente dessa evolução. Dois conceitos anacrônicos.
Impossível não nos surpreendermos com tal resultado. Imagine-se que na Inglaterra alguém pensasse multiplicar Oxford e Cambridge, porque essas universidades eram, até o fim do século XIX, universidades clássicas, sem ciências nem tecnologia, puramente humanísticas e, portanto... fáceis de manter!
Ao invés da fusão transformadora dos dois sistemas, que se deu em todas as nações desenvolvidas, tivemos, no Brasil, a expansão da educação de tipo dominantemente acadêmico, ou como tal considerada. A educação desse tipo, a mais difícil das educações, foi aqui tornada a mais fácil e a mais barata. Mas a população brasileira não está a buscar tais escolas em virtude dos ensinamentos que ministram, pois realmente pouco ensinam, mas pelas vantagens que oferecem e pelo menor custo de seus estudos, o que permite que sejam elas ainda escolas privadas. Como nem professores nem alunos lá estão seriamente a buscar a educação que a escola "proclama" oferecer, reduzem-se todos os seus pseudo-estudos a expedientes para passar nos exames.
Os sistemas escolares que visamos imitar transformaram-se e hoje são sistemas unificados de estudos acadêmicos, científicos e tecnológicos, de acesso baseado na competência e no mérito. Nós, pelo contrário, expandimos tudo que era, na Europa, resultado de anacronismo ou de errôneas teorias psicológicas, levando os nossos sistemas escolares ao incrível paradoxo de se transformarem em uma numerosa congérie de escolas de ensino para o lazer, em uma civilização dominantemente de trabalho e produção.
No esforço de explicar tal paradoxo, talvez se deva recordar que no século dezoito gozava grande voga a teoria da educação para a ilustração, de certo modo aparentada à da educação acadêmica para cultura geral. Tal educação seria sempre um bem em si mesma e que importaria distribuir a quantos se pudesse, mesmo em quantidades ínfimas. Não seria impróprio chamar-se tal concepção de concepção mágica de educação. Diante dela, a escola passa a ser um bem em si mesma e, como tal, sempre boa, seja pouca ou inadequada, ou mesmo totalmente ineficiente. Algo será sempre aprendido e o que for aprendido constituirá um bem.
É graças a concepções desse feitio que devemos poder racionalizar a nossa expansão irresponsável de escolas e justificar a nossa coragem de chamá-las de escolas acadêmicas ou intelectuais.
Mas, se conservamos ainda a concepção perempta e mística dos séculos dezoito e dezenove, não conservamos as condições dominantes naquele tempo. Temos hoje as mesmas necessidades dos países desenvolvidos, precisando de nos educar para novas formas de trabalho e não apenas formas novas de compreender o nosso papel social e humano, como seria o caso nas tranqüilidades, a despeito de tudo, do século dezoito.
Daí, então, a educação – e quando falo em educação compreende-se sempre educação escolar – precisar ser, tanto num país subdesenvolvido, quanto nos países desenvolvidos, eficiente, adequada e bem distribuída, significando por estes atributos: que deve ser eficaz, isto é, ensine o que se proponha a ensinar e ensine bem: que ensine o que o indivíduo precisa aprender e mais, que seja devidamente distribuída, isto é, ensine às pessoas algo de suficientemente diversificado, nos seus objetivos, para poder cobrir as necessidades do trabalho diversificado e vário da vida moderna e dar a todos os educandos reais oportunidades de trabalho.
A educação faz-se, assim, necessidade perfeitamente relativa, sem nenhum caráter de bem absoluto, sendo boa quando, além de eficiente, for adequada e devidamente distribuída. Já não nos convém qualquer educação dada de qualquer modo. Deste tipo já é a que recebemos em casa e pelo rádio e pelo cinema. A educação escolar tem de ser uma determinada educação, dada em condições capazes de torná-la um êxito, e a serviço das necessidades individuais dos alunos em face das oportunidades do trabalho na sociedade.
A contradição entre estas novas necessidades educativas e o velho conceito místico e absoluto da escola-bem-em-si-mesma, juntamente com a expectativa de automática ascensão social pela escola que antes analisamos, deve ajudar-nos a identificar a gravidade da falsa expansão educacional brasileira.

5) Distância entre os valores proclamados e os valores reais

Estamos, com efeito, ao contrário do que fizeram os países desenvolvidos, a inspirar a nossa expansão educacional com os conceitos de educação-bem-em-si-mesma e de educação exclusivamente para fruição e lazer, há um século, pode-se dizer, superados. São estes os dois conceitos errôneos, que, a nosso ver, ainda dominam, na realidade prática, a política educacional brasileira, quiçá sul-americana: a) a concepção mística ou mágica da escola, pela qual toda e qualquer educação tem valor absoluto e, por conseguinte, é útil e deve ser encorajada por todos os modos; b) a concepção de educação escolar como processo de passar, de qualquer modo, automàticamente, ao nível da classe média e ao exercício de ocupações leves ou de serviço e não de produção.
Respondem tais conceitos pelas racionalizações com que substituímos os valores que proclamamos pelos valores reais bem diversos, que praticamos, conforme se poderia facilmente exemplificar.
Assim, ao mesmo tempo em que proclamamos a importância suprema do ensino primário, aceitamos a sua progressiva simplificação: pela redução de horários para alunos e professores e a tolerância cada vez maior de exercício de outras ocupações pelos mestres primários; pela redução do currículo a um corpo de noções e conhecimentos rudimentares, absorvidos por memorização, e a elementaríssima técnica de leitura e escrita; pela precariedade da formação do magistério primário; pela improvisação crescente de escolas primárias sem condições adequadas de funcionamento e sem assistência administrativa ou técnica; pela perda crescente de importância social da escola primária, em virtude de não concorrer especialmente para a classificação social dos seus alunos; pela substituição de sua última série pelo "curso de admissão" ao ginásio, buscado como processo mais apto àquela desejada "reclassificação social".
Ao mesmo tempo em que proclamamos o ensino médio como recurso para melhorar o nível de formação de nossa força de trabalho, admitimos a sua expansão por meio de escolas ineficientes, com programas livrescos, horários reduzidos e professores improvisados ou sobrecarregados, em virtude das expectativas que gera de determinar a passagem para as ocupações de tipo classe média que é o que realmente buscamos.
Proclamando a necessidade da formação dos quadros de nível superior, aceitamos, fundados na mesma duplicidade de objetivos, a improvisação crescente de escolas superiores, sobretudo aquelas em que a ausência de técnicas específicas permite a simulação do ensino, ou o ensino simplesmente expositivo, como as de economia, direito e filosofia e letras.
Nos demais campos, promovemos, cheios de complacência, campanhas educativas mais sentimentais do que eficientes, na área da educação de adultos, da educação rural e do chamado bem-estar social. Resistindo à idéia de planejamento econômico e financeiro, insinuamos, implicitamente, que se pode fazer educação sem dinheiro, animando campanhas de educandários improvisados e crenças ainda menos razoáveis de que toda a educação pode ser gratuita, para quem quiser, do nível primário, ao superior, sejam quais forem os recursos fiscais e em que pese a deficiência per capita da nossa "riqueza nacional".
Poderíamos continuar a alinhar outros fatos, ou desdobrar os apresentados em outros tantos, como, por exemplo, os relativos ao currículo secundário, reconhecidamente absurdo pela impossibilidade de ensinar tantas matérias, mesmo com professores ótimos, no tempo concedido, mas ainda assim tranqüilamente aceito em sua ineficiência, porque a educação sempre foi isto, uma espécie de atirar-no-que-viu-e-matar-o-que-não-viu, não se concebendo que haja exigência de tempo, espaço, equipamento, trabalho e dinheiro, acima de um minimum minimorum que torne a educação sempre possível e para toda a gente. Somente a concepção de educação como uma atividade de caráter vago e misterioso é que poderia levar-nos a aceitar essa total e generalizada inadequação entre meios e fins na escola. A isto é que chamo de concepção mágica da educação, que me parece a dominante em nosso meio como pressuposta inconsciente e base de nossa política educacional. Não podemos modificar por ato de força a mentalidade popular em educação, como não podemos modificar a crença de muitos no uso, por exemplo, da prece para chover; mas, já chegamos àquele estágio social em que não oficializamos, não legislamos sobre a obrigação de preces públicas contra flagelos climatéricos ...
Em educação, há que fazer o mesmo. Toda essa educação de caráter mágico pode ser permitida, pode ser deixada livre; mas, não deve ser sancionada tendo conseqüências legais. Este, o primeiro passo para que tais tentativas sejam realmente tentativas e tenham caráter dinâmico, tornando possível o progresso gradual das escolas, desse estágio mágico até o estágio lógico ou científico, em que meios adequados produzam os fins desejados.
A escola primária entre nós encontra-se, aliás, nessa situação. Não se dá ao seu diploma nenhum valor especial e, por esse motivo, chegou a ser uma escola de razoável autenticidade. Se hoje está perdendo esse caráter é que as escolas de nível secundário não obedecem ao mesmo regime e, tendo como alto prêmio o seu diploma, estão atraindo os alunos antes de terminarem o curso primário, o qual assim se isola e se desvaloriza socialmente.
É indispensável que a escola secundária tenha a mesma finalidade geral educativa que possui a escola primária, sem outro fim senão o dela própria. Só assim, como a escola primária, ela será, quando tentativa, uma tentativa com as vantagens e incertezas de uma tentativa, e quando organizada e eficiente, uma escola realmente organizada e eficiente, dando os frutos de sua eficácia.
É felizmente para isto que marchamos, à medida que a mentalidade da nação, sob o impacto das mudanças sociais e da extrema difusão de conhecimentos da vida moderna, vem, gradualmente, substituindo seus conceitos educacionais, ainda difusos, pelos novos conceitos técnicos e científicos, e apoiando uma reconstrução escolar, por meio da qual se estabeleça para os brasileiros a oportunidade de uma educação contínua e flexível, visando prepará-los para a participação na democracia e para a participação nas formas novas de trabalho de uma sociedade economicamente estruturada, industrializada e progressiva. Grande passo neste sentido foi a lei, já em vigor, de equivalência relativa entre o curso acadêmico e os cursos vocacionais.
Essa educação, nas primeiras seis séries, comum e obrigatória para todos, prosseguirá em novos graus, no nível médio, para os mais capazes e segundo as suas aptidões, visando, como a de nível primário, à preparação para o trabalho nas suas múltiplas modalidades, inclusive a do trabalho intelectual, mas não somente para este.
A continuidade da escola – em seus diferentes níveis irá emprestar-lhe o caráter de escola para todos, sem propósito de classificação social, dando a cada um o de que mais necessitar e mais se ajustar à sua capacidade, com o que melhor se distribuirá ou redistribuirá a população pelas diferentes variedades e escalões do trabalho econômico e social, segundo as necessidades reais do país em geral e de suas regiões em particular.
Tal sistema de educação popular, abrangendo de 11 a 12 séries ou graus, permitirá, quando completo ou integralmente organizado, que o aluno se candidate, após a última série ou grau, ao ensino superior, pelo regime de concurso. Não visa, entretanto, ao preparo para esse exame, pois terá finalidade própria, significando, nos termos mais amplos, a educação da criança, no período da escola primária, e a educação do adolescente, no da escola média.
O que será essa educação não será a lei que o vai dizer, mas a evolução natural do conhecimento dos brasileiros relativamente à criança e ao adolescente e à civilização moderna e industrial em que a escola, no primeiro nível, vai iniciar as crianças e, no segundo nível, habilitar economicamente os jovens adolescentes brasileiros. Tal escola mudará e transformar-se-á como muda e se transforma toda atividade humana baseada no conhecimento e no saber. Progrediremos em educação, como progrediremos em agricultura, em indústria, em medicina, em direito, em engenharia – pelo desenvolvimento do saber e pelo melhor preparo dos profissionais que o cultivam e o aplicam, entre os quais se colocam, e muito alto, os professores de todos os níveis e ramos.

(TEIXEIRA, Anísio. Valores proclamados e valores reais nas instituições escolares brasileiras. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v.37, n.86, abr./jun. 1962. p.59-79.)