sábado, 4 de julho de 2009

UM MARIMBONDO (Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa)

(Este é um artigo que se pode chamar justo e perfeito)
"Não sei por que tanto espanto.

O PT se apequenar e virar refém do Sarney estava nas estrelas desde que o partido se amesquinhou e deixou de ser um partido político aguerrido para ser o partido do Lula. O PT, como é mesmo a palavra que define O Cara, apud Barack Obama? Lembrei: o PT é pragmático.
Li comentaristas quase em choque com a atitude do senador Mercadante. Confesso que não me surpreendi. Acho que combina perfeitamente com sua carreira política a frase: “Minha combatividade está a serviço do presidente Lula”. Não é perfeito? Os paulistas o enviaram ao Senado Federal para que tratasse das questões paulistas e nacionais, posto que fazemos parte de uma federação. E ele tem culpa dos paulistas e paulistanos serem trouxas? Vai me dizer que não sabiam que entre combater por São Paulo e combater pelos desejos do Lula, o bravo senador não ia hesitar?

Li outros em êxtase de alegria por ter tido a suprema bênção de poder testemunhar aquela flor do Senado, dona Ideli, a defender o senador Sarney. Dizem ter sido a cena de dona Ideli no pódio a bradar loas a Sarney um dos melhores momentos de sua vida de espectador. Acredito. Tudo que aquela senhora fala e faz é, no mínimo, diferente.

Mas espantoso é que não é.

Já o PMDB... Ah! o PMDB é a glória nacional. Nunca antes em tempo algum tivemos uma agremiação política de tal porte. O PMDB representa o Brasil à perfeição. O presidente Lula tem uma qualidade inegável: seu faro político é de primeira. Ele sabe que não é o PT que representa o Brasil. Que tampouco é ele quem representa o país. Quando muito, o PT representa o rico ABC paulista e ele, L.I. Lula da Silva, em palanque, representa, nos mínimos detalhes, o eleitor dos grotões.

Mas representar o Brasil? A alma, o espírito, a índole brasileira? Esses atributos são do PMDB. De norte a sul, de leste a oeste, somos um país habitado por peemedebistas típicos. Escolham o representante do PMDB, de qualquer estado que quiserem, e olhem à sua volta nas ruas de sua cidade: verão montes de pessoas iguais a eles. Calados, já são parecidos. Falando então, só usando o velho ditado: cara de um, focinho de outro.

Por isso não é nada chocante ver os dois, PT e PMDB, tão unidinhos, tão amiguinhos. Vai ser um lindo casamento, vão ter lindos filhotes e a união durará até que a morte os separe. Crônica de uma morte anunciada, aliás: 3 de outubro de 2010.

Agradeço de antemão as delicadezas que deixarão aqui. Até vou retribuir dando a vocês uma boa notícia: um marimbondo de fogo, ontem à noite, indignado comigo e grato como tudo ao Senador pelo Amapá, me picou na perna e olha... a dor é lancinante. Até fiz uma oração a São Tiago, cuja festa, nem preciso lembrar ao representante do Amapá, é agora entre os dias 16 e 28 de julho, em Mazagão, cidade que fica a 65 km de Macapá e que aguarda ansiosamente seu insigne Senador. Se eu pudesse, ia também. Ver o senador Sarney no Amapá é fato histórico, que só perco por motivo de força maior.

Aproveite bem, Senador, são meus votos."
(Publicado em 3/07/2009 e copiado do blog do Noblat)

terça-feira, 30 de junho de 2009

O BOM DE EDUCAR DESDE CEDO (entrevista com James Heckman)

(Realizada por Monica Weinberg e publicada na revista VEJA de 10/07/2009)

"Ao economista americano James Heckman, 65 anos, deve-se a criação de uma série de métodos precisos para avaliar o sucesso de programas sociais e de educação – trabalho pelo qual recebeu o Prêmio Nobel, em 2000. Nessa data, Heckman estava no Rio de Janeiro, numa das dezenas de visitas que já fez ao Brasil. Achou que fosse trote quando lhe disseram da premiação. Formado por Princeton e há 36 anos professor da Universidade de Chicago, Heckman se dedica atualmente a estudar os efeitos dos estímulos educacionais oferecidos às crianças nos primeiros anos de vida – na escola e na própria família. Sua conclusão: "Quanto antes os estímulos vierem, mais chances a criança terá de se tornar um adulto bem-sucedido".
Em seus estudos, o senhor conclui que não há política pública mais eficaz do que investir na educação de crianças nos primeiros anos de vida. Por quê?
A razão é econômica. A educação é crucial para o avanço de um país – e, quanto antes chegar às pessoas, maior será o seu efeito e mais barato ela custará. Basta dizer que tentar sedimentar num adolescente o tipo de conhecimento que deveria ter sido apresentado a ele dez anos antes sai algo como 60% mais caro. Pior ainda: nem sempre o aprendizado tardio é tão eficiente. Não me refiro aqui apenas às habilidades cognitivas convencionais, mas a um conjunto de capacidades que deveriam ser lapidadas em todas as crianças desde os 3, 4 anos de vida.

O senhor poderia ser mais específico em relação a essas habilidades?
Há evidências científicas de que dois tipos de habilidade têm enorme influência sobre o sucesso de uma pessoa na vida. No primeiro grupo, situam-se as capacidades cognitivas – aquelas relacionadas ao QI. Por capacidades cognitivas entenda-se algo abrangente, como conseguir enxergar o mundo de forma mais abstrata e lógica. Num outro grupo, igualmente relevante, coloco as habilidades não cognitivas, relacionadas ao autocontrole, à motivação e ao comportamento social. Essas também devem ser estimuladas no começo da vida. Embora sejam cientificamente menosprezadas por muitos, descobri que elas estão diretamente relacionadas ao sucesso na escola – e, mais tarde, no próprio mercado de trabalho.
É realmente possível estimular esse tipo de habilidade?
Sem dúvida. Obviamente, há diferenças entre as pessoas, e estamos falando de capacidades muito relacionadas a personalidade e temperamento. Mas elas podem – e devem – ser melhoradas desde bem cedo. Defendo isso por uma razão: mesmo quando as intervenções em crianças pequenas não têm impacto sobre o QI, elas costumam trazer ótimo resultado sobre as capacidades não cognitivas. Muitos especialistas tendem a reduzir tudo ao QI, que é, logicamente, primordial para prosperar numa sociedade moderna. Hoje, no entanto, não se vai muito longe sem aquilo que poderíamos chamar de traquejo social, ou a capacidade de manter o controle diante de situações adversas. Isso pode ser desenvolvido. E, quanto mais cedo, melhor.
O que falta é investir mais na pré-escola?
Também. As escolas têm um papel fundamental, especialmente quanto ao desenvolvimento das habilidades cognitivas. Mas enfatizo ainda a relevância dos programas sociais que tenham foco nas famílias, de modo que elas consigam fornecer os incentivos certos num momento-chave. Iniciativas mínimas têm altíssimo impacto, como o hábito de conversar com os filhos ou emprestar-lhes um livro. Só que alguns pais precisam ser orientados a fazer isso, daí a necessidade de programas específicos. Não afirmo isso por bom-mocismo ou ideologia, mas com base em evidências. Elas indicam que qualquer tipo de intervenção que consiga despertar o interesse dos pais e fazê-los estimular, desde cedo, o aprendizado cognitivo e emocional dos filhos tem excelente custo-benefício. Infelizmente, governos no mundo inteiro ainda não se renderam ao que a ciência já sabe.

O senhor pode dar um exemplo do tipo de intervenção que funciona com as famílias?
Os estudos confirmam que um programa americano da década de 60, o Perry, amplamente copiado por outros países, tem ótimo retorno. Ele consiste, basicamente, em colocar crianças pobres na escola, em salas com poucos alunos, e envolver os pais no processo educativo. O professor visita as famílias para informar o que está sendo ensinado na aula, de modo que passem a participar mais ativamente. Sem esse amparo dos pais, dificilmente uma criança vai ter motivação para aprender, o que tende a se perpetuar no curso da vida escolar e resultar em adultos sem sucesso. Está provado que a família é o fator isolado que mais explica as desigualdades numa sociedade como a brasileira. Sob esse prisma, uma criança do Nordeste começa a vida em franca desvantagem em relação a uma do Sudeste. Com programas como esses, a ideia é tentar atenuar as diferenças no ponto de partida.

O que alguém que não desenvolve as principais habilidades nos primeiros anos de vida deve esperar?
Ela terá, certamente, mais dificuldade de assimilar tais conhecimentos. Os números são espantosos. Uma criança de 8 anos que recebeu estímulos cognitivos aos 3 conta com um vocabulário de cerca de 12 000 palavras – o triplo do de um aluno sem a mesma base precoce. E a tendência é que essa diferença se agrave. Faz sentido. Como esperar que alguém que domine tão poucas palavras consiga aprender as estruturas mais complexas de uma língua, necessárias para o aprendizado de qualquer disciplina? Por isso as lacunas da primeira infância atrapalham tanto. Sempre as comparo aos alicerces de um prédio. Se a base for ruim, o edifício desmoronará.

O senhor parece fatalista.
Não sou. Acho uma bobagem o que pregam os cientistas que até hoje defendem a tese das janelas de oportunidade. Segundo essa teoria, existe um único momento na vida para aprender cada coisa. Ao contrário desses colegas, vejo o aprendizado como um processo bem mais flexível. É verdade que, por volta dos 10 anos, como mostram os estudos científicos, as habilidades cognitivas já estão cristalizadas e se torna bem mais difícil desenvolvê-las. Mas não é impossível. A questão central é que isso demandará mais tempo, custará mais caro e não necessariamente produzirá os mesmos resultados.

Por que é tão mais caro para uma sociedade educar suas crianças depois que elas já passaram pelos primeiros anos de vida?
Isso ocorre porque é mais lento aprender toda uma gama de coisas depois da primeira infância e também porque a ausência dos incentivos corretos nessa fase da vida está associada a diversos indicadores ruins. Entre eles, evasão escolar, gravidez na adolescência, criminalidade e até os índices de tabagismo – sempre mais altos em sociedades incapazes de fornecer às suas crianças uma educação apropriada nos primeiros anos de vida. É claro que a falta de incentivos numa única fase da vida não explica 100% da ocorrência desses problemas, mas diria que o peso é grande. E isso tem seu preço. A criminalidade, por exemplo, pode ser reduzida, basicamente, de duas maneiras: investindo cedo em educação ou reforçando o policiamento nas ruas. Calculo que a opção pelo ensino custe algo como um décimo do gasto com segurança. Os Estados Unidos gastam trilhões de dólares a mais por ano só porque não entenderam isso.

Se há tanta clareza sobre os benefícios de programas que mirem os primeiros anos de vida de uma criança, por que os governos ainda resistem a essa ideia?
Há, sem dúvida nenhuma, alguma ignorância sobre o que a ciência já desvendou – mas isso é só uma parte do problema. A outra diz respeito a uma questão mais política. Para investir em programas com o objetivo de intervir nas famílias, é preciso, antes de tudo, reconhecer que há algo de errado com elas. Um ônus com o qual os políticos não querem arcar. Eles passam ao largo dos fatos e, pior ainda, divulgam uma imagem mistificada. Nessa visão ingênua, a família é uma unidade inabalável, que invariavelmente proporciona às crianças bem-estar. Além de não corresponder à realidade, essa imagem idílica só atrapalha, uma vez que ofusca o problema. Mais de 10% das crianças americanas são indesejadas, e muitas dessas jamais chegam a conhecer seus pais.
Que tipo de incentivo para aprender se pode esperar numa situação dessas?

Um colega seu na Universidade de Chicago, o economista Steven Levitt, apresenta em seu livro Freakonomics uma opinião diferente da sua sobre a influência da família na vida dos filhos. Levitt descambou para a simplificação absoluta de questões complexas, perigo eterno no meio acadêmico, sobretudo entre os economistas. Tendo bons números na mão, é sempre possível construir argumentos persuasivos, ainda que não passem de ciência social ruim. Uma das maiores bobagens de Levitt é justamente partir do pressuposto de que, se uma criança nasce em desvantagem, numa família que não lhe fornece nenhuma espécie de incentivo, não há nada a ser feito em relação a isso. Eu estou convicto do contrário. Só que é preciso começar cedo.

O Brasil investe sete vezes mais dinheiro no ensino superior do que na educação básica. O senhor considera essa uma inversão de prioridades?
Todo país precisa de boas universidades para formar cérebros e se tornar produtivo. É básico. Mas um país como o Brasil só conseguirá realmente alcançar altos índices de produtividade quando entender que é necessário mirar nos anos iniciais. Eles são decisivos para moldar habilidades que servirão de base para que outras surjam – um ciclo virtuoso do qual resulta gente preparada para produzir riquezas para si mesma e para seus países. Os governos, no entanto, têm se mostrado bastante ineficazes ao proporcionar esse ciclo.
Os educadores costumam dar muita ênfase à falta de dinheiro para a educação. Esse é realmente o problema fundamental?
O problema existe, mas não é o principal. O que realmente atrapalha nessa área é a péssima gestão do dinheiro. Se os governantes fossem um pouco mais eficazes, conseguiriam colher resultados infinitamente melhores. Em primeiro lugar, deveriam passar a tomar suas decisões com base na ciência, e não em critérios políticos ou ideológicos, como é mais comum. Veja o que aconteceu no caso da pesquisa com as células-tronco. Apesar de todas as evidências de que poderiam ser cruciais para curar doenças, deixamos de estudá-las durante oito anos nos Estados Unidos – isso por razões políticas. Um exemplo de obscurantismo em pleno século XXI. Na educação, há sempre a tentação de reduzir a discussão à luta do capitalismo contra o marxismo, da direita contra a esquerda ou de antissindicalistas contra sindicalizados. Meu esforço é justamente para trazer o debate a bases objetivas – e econômicas.
O que está comprovado sobre os benefícios da educação para um país?
Cada dólar gasto na educação de uma pessoa significa que ela produzirá algo como 10 centavos a mais por ano ao longo de toda a sua vida. Não há investimento melhor. A ideia é fornecer incentivos suficientes para que o talento atinja sempre o maior nível possível. Só com gente assim a Irlanda, por exemplo, conseguiu tirar proveito das oportunidades que surgiram depois que o país se integrou à economia mundial. É também o que ajuda a explicar o acelerado enriquecimento da Coreia do Sul nas últimas décadas. Nesse cenário, não há melhor aplicação do que canalizar o dinheiro para a formação de crianças em seus primeiros anos de vida. Insisto nisso porque são os países que já estão nesse caminho justamente os que se tornam mais competitivos – e despontaram na economia mundial."

domingo, 21 de junho de 2009

A PETROBRÁS E O MENSALÃO

A grande maioria da população brasileira lê e assiste, em silêncio, os noticiários do dia-a-dia. Espanta-se e admira-se dos desfazimentos no mundo. Vê com perplexidade, por exemplo, os esquisitos comportamentos da Petrobrás, na atualidade. Para fugir do dever de dar explicações ao Senado da República sobre o que faz debaixo dos panos com suas vultosas verbas publicitárias (e outras mais), a direção desta gigantesca empresa multinacional mobilizou mundos e fundos (mais estes que aqueles, é claro), para resistir ao imperativo legal e político a que está obrigada. Nada diferente, diga-se de passagem, da prática de empresas predatórias congêneres que costumavam – e ainda costumam – afrontar tantas repúblicas de bananas, desde tempos imemoriais, por toda Ásia, África e América Latina. E qual a razão para não abrir a “caixa preta” da Petrobrás, ainda mais quando inquéritos, ou sindicâncias, de órgãos como o TCU e a Polícia Federal apontam para a realidade de grossas malfeitorias? Ora, o senso comum já prescreve que onde há fumaça há fogo e que quem não deve não teme. O medo da luz, portanto, é sintomático. É indicador de que nos porões da Petrobrás deve haver coisas cabeludas que não podem ser mostradas ao grande público (que é, aliás, o maior acionista, via Tesouro Nacional), nem aos demais acionistas privados, nacionais ou estrangeiros.

Para dar um verniz brilhante, porém falso, de apoio popular aos seus indecorosos comportamentos, a Petrobrás mobiliza minorias atrevidas de beneficiários da prodigalidade de sua cornucópia inesgotável. Gatos pingados, aqui e ali, supostamente defendendo os interesses do Brasil em ridículas manifestações públicas, posicionam-se contra a instalação de uma CPI. Mas aí é que o espanto de tantos fica mais realçado. Principalmente quando o povo percebe que encabeçando tais eventos encontram-se figuras notórias da política nacional, como o mensaleiro petista José Genoíno e o ex-deputado cassado por corrupção José Dirceu (este, o articulador daquela que foi a maior cafajestada que o País já viu em toda sua história). Convenhamos: para ser cassado por trapaças, no Brasil, em vista dos costumes vigentes, o cidadão tem que ser verdadeiro artista (no mal sentido da palavra). Tem que ser, mesmo, do nível do Collor para cima. Pois é gente com este currículo suspeito (melhor dizendo, prontuário), que se arvora em defensora das esquisitices da Petrobrás e da sabotagem que se faz contra qualquer tentativa de investigação. Melhor faria a empresa (se é que ela não tem culpa no cartório), que dispensasse os apoios que têm recebido desta gente perniciosa. Eles contaminam qualquer eventual honestidade e seriedade. Quando pessoas de bem observam a escória política marchando numa determinada direção, a posição mais sensata é rumar na direção contrária. Velho adágio popular já dizia, a propósito: quem com porcos se mistura... Farelos come!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Rei do amendoim e Rainha da pipoca

As tradicionais festas juninas são importantes no calendário político brasileiro. Não no sentido estrito dado por parlamentares nordestinos quando debandam a seus estados para, segundo dizem, ouvir as bases e participar dos alegres folguedos de São João. Na sua origem estas comemorações reportam aos chamados ritos propiciatórios, quer ocorram antes, ou após, as colheitas. São festas cuja gênese imemorial encontra-se nos primórdios do paganismo. Perpetuam-se, hoje, travestidas de uma roupagem cristã, num sincretismo perfeitamente compreensível. Há, no entanto, uma curiosa prática no conjunto destes eventos e à qual não se dá uma devida atenção. Na sua aparente inocência a escolha do “rei do amendoim e da rainha da pipoca” soa isenta de malícia. Em escolas, principalmente as públicas, esta “eleição” costuma mobilizar energia e recursos dos pais, dos parentes, dos amigos e, até, de desconhecidos para a obtenção dos votos que irão definir os ocupantes do almejado trono. O processo, no entanto, pode ser visto qual uma operação antecipatória do que as crianças vivenciarão uma década mais à frente quando se transformarão em eleitores chamados a escolher os dirigentes do país.

O vencedor da inocente eleição festiva será aquele que conquistar mais votos em cima de alguma qualidade ou da defesa de alguma arte ou graciosidade própria? Não, o rei e a rainha assumirão o trono por meio da singela operação comercial de venda de votos. Professores e dirigentes escolares até estimulam o evento e vêem nele uma excelente oportunidade de reforçar o caixa escolar. Alegam, mesmo, que os recursos obtidos servirão, não só para financiar a festa propriamente dita, mas, também, eventuais necessidades da instituição (reparos, aquisição de papel, livros, suprimentos vários etc). Fins tão nobres justificariam métodos tão pouco ortodoxos de escolha, na concepção da maioria. Afinal, as escolas precisam da verba e o que o governo dá é insuficiente. Se a escolha dos reis deixará uma cicatriz no imaginário infantil, os professores pouco parecem se importar.

Talvez a complacência popular com práticas corruptoras como o mensalão (e o comportamento cínico de autoridades frente aos desatinos da companheirada), tenha sua gênese nestas primeiras escolhas a que as crianças são submetidas nas nossas festas juninas. Não é desconhecido daqueles que têm, ou tiveram, filhos em escolas a existência de pais que colocam como meta a ser alcançada, em determinado momento, a eleição do rebento como rei do amendoim ou rainha da pipoca. A qualquer custo e a qualquer preço, frise-se. A busca de certos mandatos no futuro, igualmente a qualquer custo e a qualquer preço, apenas repetirá em outro patamar o padrão inoculado muitos anos atrás. Tudo certo e tudo natural. Afinal, sempre foi assim, não é?

terça-feira, 16 de junho de 2009

Sobre o mal e outros comentários

A questão do Mal é discutida no Livro de Job. Sua existência não pode ser explicada, a não ser pela dimensão incompreensível dos desígnios divinos. De nada adianta ao homem o ter-se justificado pela fé em Deus e/ou pelas suas obras. Tudo Nele está mais além das medidas humanas. Deus não seria Justo nem Misericordioso: estes são atributos humanos. Aceitar a justificativa dada pelos teólogos sobre a identificação do Mal pela ausência do Bem é falso para qualquer um dotado de alguma sensibilidade. Uma dor física qualquer é tão vívida quanto qualquer prazer. A infelicidade não é a ausência de felicidade; ela é algo positivo. Quando estamos tristes sentimos isso como uma infelicidade. Uma visita a um asilo destinado a crianças com paralisia cerebral (Cf. o “Caminhos para Jesus”), é um libelo contra os teólogos que assim pensam. Como justificar um mundo tão cheio de erros; tão cheio de horror; tão cheio de pecados; com tanta dor física; tanto sentimento de culpa e tão cheio de crimes? O sofrimento (o zen), dizem os budistas, produz a vida, que é fundamentalmente desdita. Viver é nascer, envelhecer, adoecer, morrer e, além de outros males, um que é patético: não estar com quem queremos! Chegar ao Nirvana – onde nossos atos já não projetam sombras – significa estar livre do carma, aquela fina estrutura mental que transmigra. O Nirvana não é o Paraíso: é extinção, apagamento! Algo similar a Santo Agostinho, ao dizer que quando estamos salvos não temos por que pensar no mal o no bem. Seguiremos praticando o bem, sem pensar nisto! Mas o Buda insiste: o mundo é um sonho! Ou como está grafado num verso de Calderón de la Barca: “Viver é sonhar”. Não podemos renunciar ao mundo (como suicidar-se, ato apaixonado para Buda). Continuamos a sonhar o mundo, criar o mundo (onde os sonhos podem se transformar em pesadelos). Num eterno processo “sustentável” de volições aleatórias, onde a resultante, talvez, seja a criação da ordem final. Em O Paraíso Perdido, Milton sugere isso:

“O império do caos se estabelece,
E, por decisão, mais complica a desordem em que reina.
A seu lado, árbitro supremo,
O acaso governa tudo!”

Job era um homem justo. Numa disputa entre Deus e Satanás, suas provações foram levadas ao paroxismo. Nem seus amigos o pouparam na hora de suas dores. Apesar de tudo que sofria, não passava da queixa da “angústia do meu espírito...na amargura da minha alma” (Job, 7:11). No auge do desespero proclama estar “farto da minha vida; não quero viver para sempre” (Job, 7:16). Algo como uma preguiça de viver, de mágoa tão profunda que levaria qualquer vivente a proclamar: “Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago” (Sl. 6:6).

O brado de desespero de Job chega ao limite ao descartar a própria esperança: “Onde está, pois, a minha esperança? Sim, a minha esperança, quem a poderá ver? Ela descerá até às portas da morte, quando juntamente no pó teremos descanso” (Job, 17:15,16). Quanta diferença daquele que diz: “Em paz me deito e logo pego no sono” (Sl, 4:8). Quem pode dizer, como o salmista, que cai facilmente nos braços de Morfeu? De fato, a singela recomendação de consultar “no travesseiro o vosso coração” (Sl. 4:4), remete à paz e à alegria maiores que daqueles que assim ficam “quando lhes há fartura de cereal e de vinho” (Sl4:7). Um sentimento do mundo próximo daquele de Spinoza. Não da pieguice vulgar satirizada por Eça, quando o conde de Abranhos versejava:

Deus existe, tudo o prova;
Desde tu altivo sol,
Até tu raminho humilde
Onde canta o rouxinol.

Mesmo após todas as tentações de Satanás, Job permanece fiel: “enquanto em mim estiver a minha vida, e o sopro de Deus nos meus narizes, nunca os meus lábios falarão injustiça, nem a minha língua pronunciará engano” (Job, 27: 3,4).

A grande conclusão de Job (similar aos preceitos de Salomão), está no valor supremo da sabedoria: “Eis que o temor do Senhor é a sabedoria e o apartar-se do mal é o entendimento” (Job, 28:28).

Job pondera que na sua vida não houve desobediência aos preceitos divinos. Chega ao requinte de proclamar uma “aliança com meus olhos; como, pois, os fixaria eu numa donzela? Que porção, pois, teria eu do Deus lá de cima, e que herança do Todo-Poderoso desde as alturas?” (Job, 31:1,2). Recusando o verdadeiro pecado de Davi, insiste no tema da aceitação da punição... “Se o meu coração se deixou seduzir por causa de mulher, se andei à espreita à porta do meu próximo” (Job, 31:9). O crime de Davi não foi ter mandado matar a Urias – para ficar com Bathseba: foi ter olhado para ela. Isso que lhe conduziu à cobiça. Talvez daí o pacto, ou “aliança com meus olhos”, pois se não se vê não se deseja. Na sua conclusão, ele diz: “Se a minha terra clamar contra mim, e se os seus sulcos juntamente chorarem; se comi os seus frutos sem tê-la pago devidamente, e causei a morte aos seus donos, por trigo me produza cardos, e por cevada, joio” (Job, 31:38, 39,40).

Mas um dos amigos de Job tenta justificar os atos de Deus alegando que “retribuirá ao homem segundo as suas obras, e faz que a cada um toque segundo o seu caminho”, pois ...”Deus não procede maliciosamente; nem o Todo-poderoso perverte o juízo” (Job, 34:11,12)

No entanto, as manifestações do poder do Eterno são tão incompreensíveis como o são “os animais” (Behemoth). Seu tamanho é tão grande que se usa o plural na expressão hebraica (que pode significar o elefante ou o hipopótamo); ou, ainda, o Leviatan (que pode se referir à baleia ou ao crocodilo). Mas o Senhor foi generoso, ao final, após o embate com Satanás. Job – no caso – entrou no processo como Pilatos no Credo. Ao repor as perdas de todos os tipos sofridas pela inocente vítima ... “abençoou o Senhor o último estado de Job mais do que o primeiro” (Job, 42:12), dando-lhe riquezas, filhos e longevidade e “então morreu Job, velho e farto de dias” (Job, 42:17)

O desencontro entre um homem e seu Deus, por insondáveis que sejam os Seus desígnios, fica assim marcado para todo o sempre. Talvez nessa estreita brecha esteja uma das fontes do Mal. Talvez, deste modo, se possa compreender a ocorrência, entre simples mortais do “desencontro contínuo das almas congêneres - neste mundo de eterno esforço e de eterna imperfeição” (Cf. Eça de Queiroz: A Relíquia). Almas congêneres, aliás, costumam perceber, sentir, sua presença:

“- Diz lá, Alpedrinha! Tem-la visto, a Maricoquinhas? Que tal está? Hein? Rechonchudinha?
Ele baixou o rosto murcho, onde um estranho rubor lhe avivara duas rosas.
- Já não está... Foi para Tebas!
- Para Tebas? Onde há umas ruínas?... Mas isso é no alto Egito! Isso é em cascos de Núbia! Ora essa!... Que foi ela lá fazer?
- Alindar as vistas, com um amigo – murmurou Alpedrinha com desolação.
Alindar as vistas! Só compreendi quando o patrício me contou que a ingrata rosa de York, adorno de Alexandria, fora levada por um italiano de cabelos compridos, que ia a Tebas fotografar as ruínas desses palácios onde viviam face a face Ramsés, rei dos homens, e Amnon, rei dos deuses... E Maricoquinhas ia amenizar “as vistas” do amigo, aparecendo nelas, à sombra austera dos granitos sacerdotais, com a graça moderna do seu guarda-solinho fechado e do seu chapéu de papoulas...
- Que descarada! – gritei eu, varado. – Então com um italiano? E gostando dele? Ou só negócio?... Hein, gostando?
- Babadinha – balbuciou Alpedrinha.
E, com um suspiro, atroou o Hotel de Josafá. Perante este ai, repassado de tormento e de paixão, relampejou-me na alma uma suspeita abominável.
- Alpedrinha, tu suspiraste! Aqui há perfídia, Alpedrinha!
Ele baixou a fronte tão contritamente que o turbante lasso rolou nos ladrilhos. E antes que ele o levantasse já eu lhe empolgara com sanha o braço mole.
- Alpedrinha, escarra a verdade! A Maricoquinhas, hein? Também petiscaste?
A minha face barbuda chamejava... Mas Alpedrinha era meridional, das nossas terras palreiras da vanglória e do vinho. O medo cedeu à vaidade, e revirando para mim o bugalho branco do olho:
- Também petisquei!
Sacudi-lhe o braço para longe, cheio de furor e de nojo. Também aquela – com aquele! Oh, a terra! A Terra! Que é ela senão um montão de coisas podres, rolando pelos céus com bazófias de astro?
- E dize lá, Alpedrinha, dize lá, também te deu uma camisa?
- A mim um chambrezinho...
Também a ele – roupa branca! Ri, acerbamente, com as mãos nas ilhargas.
- E ouve lá... Também te chama “seu portuguesinho valente”?
- Como eu servia com turcos, chamava-me “seu mourozinho catita”.
Ia rebolar-me no divã, rasgá-lo com as unhas, rir sempre, num desesperado desprezo de tudo... Mas Topsius e o risonho Potte apareceram alvoroçados...” (Cf. Eça de Queiroz: A Relíquia).

PROFESSORES

Um dos maiores legados do Iluminismo pode ser visto na obra do pensador inglês Bertrand Russel, premiado duas vezes no século passado com o Nobel, pela suas atividades no campo da matemática e na literatura propriamente dita. Agnóstico e pacifista militante, enfrentou corajosamente o obscurantismo e a crueldade de seu tempo. Faleceu em fevereiro de 1970, com 98 anos, em virtude de uma pneumonia adquirida nas frias madrugadas londrinas, durante ato de protesto contra a guerra do Vietnã. Com esta idade poderia estar, sem críticas, abrigado defronte de uma lareira acariciando netos. Tinha o magistério em alta conta. Considerava que os professores eram essenciais para a humanidade, pois seriam eles os guardiães da civilização. Os valores maiores do Espírito seriam cultivados e estimulados pela ação lúcida dos mestres. Deveriam, para isto, “estar intimamente cônscios do que é a civilização, bem como desejosos de comunicar uma atitude civilizada aos seus alunos”.

Ao contrário do propagandista, para quem alunos são soldados potenciais de um exército, o professor de verdade cultiva nos estudantes a tolerância, a busca da verdade e a admiração pelo que deve ser admirado. Não é bom, por exemplo, ensinar aos alunos a admirar patifes ocultando a sua patifaria. Governantes no Brasil de hoje, por exemplo, são incensados apesar de seus crimes e desvios de conduta. O máximo de censura que recebem em salas de aula é o silêncio cúmplice sobre seus atos. Nada diferente do comportamento de professores durante os regimes nazista ou stalinista. Retomando a inspiração kantiana, prescreve Russel que o propósito da educação é curar os alunos da infantilidade, ou melhor, de estimular-lhes a maioridade. Esta seria, fundamentalmente, a capacidade de cada um pensar com a própria cabeça. Nos tempos bárbaros em que vivemos, recuperar as lições de um homem notável como este velho britânico é uma aragem na loucura disseminada. Talvez a Razão, temperada pela fraternidade e pela liberdade, possa lapidar esta dura pedra bruta, como Lord Russel queria, apesar do esforço de muitos em desmentir esta esperança.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

PETROBRÁS: EU TENHO A FORÇA!

A PETROBRÁS - uma das "oito irmãs" - vai confirmando nos seus atos tudo aquilo que muitos estudiosos vêm denunciando há décadas sobre o poder das transnacionais. Estas gigantescas estruturas econômicas e políticas ultrapassam a dimensão clássica dos estados-nações. Agindo segundo uma lógica que lhes é peculiar, constituem uma rede tentacular espalhada pelo planeta. Buscam o controle estratégico da vida social, produtiva e espiritual daqueles que se encontram sob seu jugo. Potencializada por um partido político de natureza totalitária (como é o caso do PT), a PETROBRÁS tem como remota referência aquilo que foi a Krupp para a Alemanha nazista. Ela, com efeito, não é um estado dentro de um estado como muitos imaginam. Ela configura, isto sim, a nova verdadeira ordem internacional em que o estado tradicional é, tão somente, uma extensão dos desígnios destas predadoras organizações. O estado brasileiro, portanto, é que se encontra "aparelhado" pela PETROBRÁS e, não, o seu contrário.

Prepara-se o polvo (designação que era aplicada antigamente a empresas como a ESSO e a SHELL), para o exercício de mais uma ousada manobra, similar ao que fizeram as petroleiras americanas ao patrocinarem a eleição de George W. Bush como presidente dos Estados Unidos. Aliás, vão um pouco além. Buscam ocupar a direção do partido político hegemônico no Brasil - o PT - através de um dos seus quadros dirigentes, quer dizer, um diretor da PETROBRÁS. Com a ajuda dos bilionários fundos de pensão de empresas estatais, ou para-estatais, pretende o polvo caboclo reduzir o processo político brasileiro a uma mera assembléia de acionistas com as cartas previamente marcadas. A configuração do novo "politburo" desta nova máquina de poder vai-se desenhando lenta, porém, inexoravelmente. O próprio Lula reconheceu numa de suas falas destrambelhadas que aspirava ser, quando terminar o seu mandato, o futuro presidente da PETROBRÁS. Apesar de toda grossura, canastrice e inconveniências que protagoniza no dia-a-dia, não se pode deixar de reconhecer que Lula tem clareza sobre o real sistema de poder vigente no Brasil. Não por acaso se curvou a aceitar que a manda-chuva do Conselho de Administração da PETROBRÁS - Dona Dilma - se tornasse a candidata oficial do PT nas eleições de 2010.

Roberto Campos chamava a PETROBRÁS de "petrossauro". O antigo senador de Mato Grosso, no entanto, equivocou-se redondamente. Imaginava que a empresa fosse uma espécie de fóssil vivo que ficara à margem da história e que estaria condenada à extinção natural. Mas ela é, de fato, um mutante, um espantoso mutante qual um Alien dos filmes de ficção científica. Um mutante que vai de maneira implacável se apossando e se assenhoreando deste País tropical abençoado por Deus. Seus ovos envenenados já se encontram em todos os nichos da vida coletiva. Qualquer hora dessas que ainda estão por vir uma resolução de Diretoria, ou um simples ato administrativo demite o Congresso e fecha o Supremo Tribunal Federal. Triste perspectiva para o povo Brasileiro ter que depositar suas esperanças na coragem e na escassa competência do "Esqueleto" para enfrentar um He-man enlouquecido pela volúpia de poder.