quarta-feira, 17 de junho de 2009

Rei do amendoim e Rainha da pipoca

As tradicionais festas juninas são importantes no calendário político brasileiro. Não no sentido estrito dado por parlamentares nordestinos quando debandam a seus estados para, segundo dizem, ouvir as bases e participar dos alegres folguedos de São João. Na sua origem estas comemorações reportam aos chamados ritos propiciatórios, quer ocorram antes, ou após, as colheitas. São festas cuja gênese imemorial encontra-se nos primórdios do paganismo. Perpetuam-se, hoje, travestidas de uma roupagem cristã, num sincretismo perfeitamente compreensível. Há, no entanto, uma curiosa prática no conjunto destes eventos e à qual não se dá uma devida atenção. Na sua aparente inocência a escolha do “rei do amendoim e da rainha da pipoca” soa isenta de malícia. Em escolas, principalmente as públicas, esta “eleição” costuma mobilizar energia e recursos dos pais, dos parentes, dos amigos e, até, de desconhecidos para a obtenção dos votos que irão definir os ocupantes do almejado trono. O processo, no entanto, pode ser visto qual uma operação antecipatória do que as crianças vivenciarão uma década mais à frente quando se transformarão em eleitores chamados a escolher os dirigentes do país.

O vencedor da inocente eleição festiva será aquele que conquistar mais votos em cima de alguma qualidade ou da defesa de alguma arte ou graciosidade própria? Não, o rei e a rainha assumirão o trono por meio da singela operação comercial de venda de votos. Professores e dirigentes escolares até estimulam o evento e vêem nele uma excelente oportunidade de reforçar o caixa escolar. Alegam, mesmo, que os recursos obtidos servirão, não só para financiar a festa propriamente dita, mas, também, eventuais necessidades da instituição (reparos, aquisição de papel, livros, suprimentos vários etc). Fins tão nobres justificariam métodos tão pouco ortodoxos de escolha, na concepção da maioria. Afinal, as escolas precisam da verba e o que o governo dá é insuficiente. Se a escolha dos reis deixará uma cicatriz no imaginário infantil, os professores pouco parecem se importar.

Talvez a complacência popular com práticas corruptoras como o mensalão (e o comportamento cínico de autoridades frente aos desatinos da companheirada), tenha sua gênese nestas primeiras escolhas a que as crianças são submetidas nas nossas festas juninas. Não é desconhecido daqueles que têm, ou tiveram, filhos em escolas a existência de pais que colocam como meta a ser alcançada, em determinado momento, a eleição do rebento como rei do amendoim ou rainha da pipoca. A qualquer custo e a qualquer preço, frise-se. A busca de certos mandatos no futuro, igualmente a qualquer custo e a qualquer preço, apenas repetirá em outro patamar o padrão inoculado muitos anos atrás. Tudo certo e tudo natural. Afinal, sempre foi assim, não é?

terça-feira, 16 de junho de 2009

Sobre o mal e outros comentários

A questão do Mal é discutida no Livro de Job. Sua existência não pode ser explicada, a não ser pela dimensão incompreensível dos desígnios divinos. De nada adianta ao homem o ter-se justificado pela fé em Deus e/ou pelas suas obras. Tudo Nele está mais além das medidas humanas. Deus não seria Justo nem Misericordioso: estes são atributos humanos. Aceitar a justificativa dada pelos teólogos sobre a identificação do Mal pela ausência do Bem é falso para qualquer um dotado de alguma sensibilidade. Uma dor física qualquer é tão vívida quanto qualquer prazer. A infelicidade não é a ausência de felicidade; ela é algo positivo. Quando estamos tristes sentimos isso como uma infelicidade. Uma visita a um asilo destinado a crianças com paralisia cerebral (Cf. o “Caminhos para Jesus”), é um libelo contra os teólogos que assim pensam. Como justificar um mundo tão cheio de erros; tão cheio de horror; tão cheio de pecados; com tanta dor física; tanto sentimento de culpa e tão cheio de crimes? O sofrimento (o zen), dizem os budistas, produz a vida, que é fundamentalmente desdita. Viver é nascer, envelhecer, adoecer, morrer e, além de outros males, um que é patético: não estar com quem queremos! Chegar ao Nirvana – onde nossos atos já não projetam sombras – significa estar livre do carma, aquela fina estrutura mental que transmigra. O Nirvana não é o Paraíso: é extinção, apagamento! Algo similar a Santo Agostinho, ao dizer que quando estamos salvos não temos por que pensar no mal o no bem. Seguiremos praticando o bem, sem pensar nisto! Mas o Buda insiste: o mundo é um sonho! Ou como está grafado num verso de Calderón de la Barca: “Viver é sonhar”. Não podemos renunciar ao mundo (como suicidar-se, ato apaixonado para Buda). Continuamos a sonhar o mundo, criar o mundo (onde os sonhos podem se transformar em pesadelos). Num eterno processo “sustentável” de volições aleatórias, onde a resultante, talvez, seja a criação da ordem final. Em O Paraíso Perdido, Milton sugere isso:

“O império do caos se estabelece,
E, por decisão, mais complica a desordem em que reina.
A seu lado, árbitro supremo,
O acaso governa tudo!”

Job era um homem justo. Numa disputa entre Deus e Satanás, suas provações foram levadas ao paroxismo. Nem seus amigos o pouparam na hora de suas dores. Apesar de tudo que sofria, não passava da queixa da “angústia do meu espírito...na amargura da minha alma” (Job, 7:11). No auge do desespero proclama estar “farto da minha vida; não quero viver para sempre” (Job, 7:16). Algo como uma preguiça de viver, de mágoa tão profunda que levaria qualquer vivente a proclamar: “Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago” (Sl. 6:6).

O brado de desespero de Job chega ao limite ao descartar a própria esperança: “Onde está, pois, a minha esperança? Sim, a minha esperança, quem a poderá ver? Ela descerá até às portas da morte, quando juntamente no pó teremos descanso” (Job, 17:15,16). Quanta diferença daquele que diz: “Em paz me deito e logo pego no sono” (Sl, 4:8). Quem pode dizer, como o salmista, que cai facilmente nos braços de Morfeu? De fato, a singela recomendação de consultar “no travesseiro o vosso coração” (Sl. 4:4), remete à paz e à alegria maiores que daqueles que assim ficam “quando lhes há fartura de cereal e de vinho” (Sl4:7). Um sentimento do mundo próximo daquele de Spinoza. Não da pieguice vulgar satirizada por Eça, quando o conde de Abranhos versejava:

Deus existe, tudo o prova;
Desde tu altivo sol,
Até tu raminho humilde
Onde canta o rouxinol.

Mesmo após todas as tentações de Satanás, Job permanece fiel: “enquanto em mim estiver a minha vida, e o sopro de Deus nos meus narizes, nunca os meus lábios falarão injustiça, nem a minha língua pronunciará engano” (Job, 27: 3,4).

A grande conclusão de Job (similar aos preceitos de Salomão), está no valor supremo da sabedoria: “Eis que o temor do Senhor é a sabedoria e o apartar-se do mal é o entendimento” (Job, 28:28).

Job pondera que na sua vida não houve desobediência aos preceitos divinos. Chega ao requinte de proclamar uma “aliança com meus olhos; como, pois, os fixaria eu numa donzela? Que porção, pois, teria eu do Deus lá de cima, e que herança do Todo-Poderoso desde as alturas?” (Job, 31:1,2). Recusando o verdadeiro pecado de Davi, insiste no tema da aceitação da punição... “Se o meu coração se deixou seduzir por causa de mulher, se andei à espreita à porta do meu próximo” (Job, 31:9). O crime de Davi não foi ter mandado matar a Urias – para ficar com Bathseba: foi ter olhado para ela. Isso que lhe conduziu à cobiça. Talvez daí o pacto, ou “aliança com meus olhos”, pois se não se vê não se deseja. Na sua conclusão, ele diz: “Se a minha terra clamar contra mim, e se os seus sulcos juntamente chorarem; se comi os seus frutos sem tê-la pago devidamente, e causei a morte aos seus donos, por trigo me produza cardos, e por cevada, joio” (Job, 31:38, 39,40).

Mas um dos amigos de Job tenta justificar os atos de Deus alegando que “retribuirá ao homem segundo as suas obras, e faz que a cada um toque segundo o seu caminho”, pois ...”Deus não procede maliciosamente; nem o Todo-poderoso perverte o juízo” (Job, 34:11,12)

No entanto, as manifestações do poder do Eterno são tão incompreensíveis como o são “os animais” (Behemoth). Seu tamanho é tão grande que se usa o plural na expressão hebraica (que pode significar o elefante ou o hipopótamo); ou, ainda, o Leviatan (que pode se referir à baleia ou ao crocodilo). Mas o Senhor foi generoso, ao final, após o embate com Satanás. Job – no caso – entrou no processo como Pilatos no Credo. Ao repor as perdas de todos os tipos sofridas pela inocente vítima ... “abençoou o Senhor o último estado de Job mais do que o primeiro” (Job, 42:12), dando-lhe riquezas, filhos e longevidade e “então morreu Job, velho e farto de dias” (Job, 42:17)

O desencontro entre um homem e seu Deus, por insondáveis que sejam os Seus desígnios, fica assim marcado para todo o sempre. Talvez nessa estreita brecha esteja uma das fontes do Mal. Talvez, deste modo, se possa compreender a ocorrência, entre simples mortais do “desencontro contínuo das almas congêneres - neste mundo de eterno esforço e de eterna imperfeição” (Cf. Eça de Queiroz: A Relíquia). Almas congêneres, aliás, costumam perceber, sentir, sua presença:

“- Diz lá, Alpedrinha! Tem-la visto, a Maricoquinhas? Que tal está? Hein? Rechonchudinha?
Ele baixou o rosto murcho, onde um estranho rubor lhe avivara duas rosas.
- Já não está... Foi para Tebas!
- Para Tebas? Onde há umas ruínas?... Mas isso é no alto Egito! Isso é em cascos de Núbia! Ora essa!... Que foi ela lá fazer?
- Alindar as vistas, com um amigo – murmurou Alpedrinha com desolação.
Alindar as vistas! Só compreendi quando o patrício me contou que a ingrata rosa de York, adorno de Alexandria, fora levada por um italiano de cabelos compridos, que ia a Tebas fotografar as ruínas desses palácios onde viviam face a face Ramsés, rei dos homens, e Amnon, rei dos deuses... E Maricoquinhas ia amenizar “as vistas” do amigo, aparecendo nelas, à sombra austera dos granitos sacerdotais, com a graça moderna do seu guarda-solinho fechado e do seu chapéu de papoulas...
- Que descarada! – gritei eu, varado. – Então com um italiano? E gostando dele? Ou só negócio?... Hein, gostando?
- Babadinha – balbuciou Alpedrinha.
E, com um suspiro, atroou o Hotel de Josafá. Perante este ai, repassado de tormento e de paixão, relampejou-me na alma uma suspeita abominável.
- Alpedrinha, tu suspiraste! Aqui há perfídia, Alpedrinha!
Ele baixou a fronte tão contritamente que o turbante lasso rolou nos ladrilhos. E antes que ele o levantasse já eu lhe empolgara com sanha o braço mole.
- Alpedrinha, escarra a verdade! A Maricoquinhas, hein? Também petiscaste?
A minha face barbuda chamejava... Mas Alpedrinha era meridional, das nossas terras palreiras da vanglória e do vinho. O medo cedeu à vaidade, e revirando para mim o bugalho branco do olho:
- Também petisquei!
Sacudi-lhe o braço para longe, cheio de furor e de nojo. Também aquela – com aquele! Oh, a terra! A Terra! Que é ela senão um montão de coisas podres, rolando pelos céus com bazófias de astro?
- E dize lá, Alpedrinha, dize lá, também te deu uma camisa?
- A mim um chambrezinho...
Também a ele – roupa branca! Ri, acerbamente, com as mãos nas ilhargas.
- E ouve lá... Também te chama “seu portuguesinho valente”?
- Como eu servia com turcos, chamava-me “seu mourozinho catita”.
Ia rebolar-me no divã, rasgá-lo com as unhas, rir sempre, num desesperado desprezo de tudo... Mas Topsius e o risonho Potte apareceram alvoroçados...” (Cf. Eça de Queiroz: A Relíquia).

PROFESSORES

Um dos maiores legados do Iluminismo pode ser visto na obra do pensador inglês Bertrand Russel, premiado duas vezes no século passado com o Nobel, pela suas atividades no campo da matemática e na literatura propriamente dita. Agnóstico e pacifista militante, enfrentou corajosamente o obscurantismo e a crueldade de seu tempo. Faleceu em fevereiro de 1970, com 98 anos, em virtude de uma pneumonia adquirida nas frias madrugadas londrinas, durante ato de protesto contra a guerra do Vietnã. Com esta idade poderia estar, sem críticas, abrigado defronte de uma lareira acariciando netos. Tinha o magistério em alta conta. Considerava que os professores eram essenciais para a humanidade, pois seriam eles os guardiães da civilização. Os valores maiores do Espírito seriam cultivados e estimulados pela ação lúcida dos mestres. Deveriam, para isto, “estar intimamente cônscios do que é a civilização, bem como desejosos de comunicar uma atitude civilizada aos seus alunos”.

Ao contrário do propagandista, para quem alunos são soldados potenciais de um exército, o professor de verdade cultiva nos estudantes a tolerância, a busca da verdade e a admiração pelo que deve ser admirado. Não é bom, por exemplo, ensinar aos alunos a admirar patifes ocultando a sua patifaria. Governantes no Brasil de hoje, por exemplo, são incensados apesar de seus crimes e desvios de conduta. O máximo de censura que recebem em salas de aula é o silêncio cúmplice sobre seus atos. Nada diferente do comportamento de professores durante os regimes nazista ou stalinista. Retomando a inspiração kantiana, prescreve Russel que o propósito da educação é curar os alunos da infantilidade, ou melhor, de estimular-lhes a maioridade. Esta seria, fundamentalmente, a capacidade de cada um pensar com a própria cabeça. Nos tempos bárbaros em que vivemos, recuperar as lições de um homem notável como este velho britânico é uma aragem na loucura disseminada. Talvez a Razão, temperada pela fraternidade e pela liberdade, possa lapidar esta dura pedra bruta, como Lord Russel queria, apesar do esforço de muitos em desmentir esta esperança.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

PETROBRÁS: EU TENHO A FORÇA!

A PETROBRÁS - uma das "oito irmãs" - vai confirmando nos seus atos tudo aquilo que muitos estudiosos vêm denunciando há décadas sobre o poder das transnacionais. Estas gigantescas estruturas econômicas e políticas ultrapassam a dimensão clássica dos estados-nações. Agindo segundo uma lógica que lhes é peculiar, constituem uma rede tentacular espalhada pelo planeta. Buscam o controle estratégico da vida social, produtiva e espiritual daqueles que se encontram sob seu jugo. Potencializada por um partido político de natureza totalitária (como é o caso do PT), a PETROBRÁS tem como remota referência aquilo que foi a Krupp para a Alemanha nazista. Ela, com efeito, não é um estado dentro de um estado como muitos imaginam. Ela configura, isto sim, a nova verdadeira ordem internacional em que o estado tradicional é, tão somente, uma extensão dos desígnios destas predadoras organizações. O estado brasileiro, portanto, é que se encontra "aparelhado" pela PETROBRÁS e, não, o seu contrário.

Prepara-se o polvo (designação que era aplicada antigamente a empresas como a ESSO e a SHELL), para o exercício de mais uma ousada manobra, similar ao que fizeram as petroleiras americanas ao patrocinarem a eleição de George W. Bush como presidente dos Estados Unidos. Aliás, vão um pouco além. Buscam ocupar a direção do partido político hegemônico no Brasil - o PT - através de um dos seus quadros dirigentes, quer dizer, um diretor da PETROBRÁS. Com a ajuda dos bilionários fundos de pensão de empresas estatais, ou para-estatais, pretende o polvo caboclo reduzir o processo político brasileiro a uma mera assembléia de acionistas com as cartas previamente marcadas. A configuração do novo "politburo" desta nova máquina de poder vai-se desenhando lenta, porém, inexoravelmente. O próprio Lula reconheceu numa de suas falas destrambelhadas que aspirava ser, quando terminar o seu mandato, o futuro presidente da PETROBRÁS. Apesar de toda grossura, canastrice e inconveniências que protagoniza no dia-a-dia, não se pode deixar de reconhecer que Lula tem clareza sobre o real sistema de poder vigente no Brasil. Não por acaso se curvou a aceitar que a manda-chuva do Conselho de Administração da PETROBRÁS - Dona Dilma - se tornasse a candidata oficial do PT nas eleições de 2010.

Roberto Campos chamava a PETROBRÁS de "petrossauro". O antigo senador de Mato Grosso, no entanto, equivocou-se redondamente. Imaginava que a empresa fosse uma espécie de fóssil vivo que ficara à margem da história e que estaria condenada à extinção natural. Mas ela é, de fato, um mutante, um espantoso mutante qual um Alien dos filmes de ficção científica. Um mutante que vai de maneira implacável se apossando e se assenhoreando deste País tropical abençoado por Deus. Seus ovos envenenados já se encontram em todos os nichos da vida coletiva. Qualquer hora dessas que ainda estão por vir uma resolução de Diretoria, ou um simples ato administrativo demite o Congresso e fecha o Supremo Tribunal Federal. Triste perspectiva para o povo Brasileiro ter que depositar suas esperanças na coragem e na escassa competência do "Esqueleto" para enfrentar um He-man enlouquecido pela volúpia de poder.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A INTELIGÊNCIA AINDA EXISTE NO BRASIL

"O pigmeu de Pyangyong e o gigante maranhense


Kim Jong-Il, apresento-lhe José Sarney. José Sarney, apresento-lhe Kim Jong-Il. Se Arnaldo Carrilho, o embaixador brasileiro na Coreia do Norte, cumprir a promessa de presentear Kim Jong-Il com os DVDs de Glauber Rocha, finalmente ocorrerá o encontro entre o "pigmeu de Pyangyong" - o apelido dado por George W. Bush - e o gigante maranhense.
Glauber Rocha fez um documentário sobre a posse de José Sarney no governo do Maranhão, em 1966. Título? Maranhão 66. O documentário reproduzia integralmente o discurso de posse de José Sarney, intercalando-o com cenas de miséria dos maranhenses. José Sarney, no palanque, proclamava: "O Maranhão não suportava o contraste de suas terras férteis, de seus vales úmidos, de seus babaçuais ondulantes e de suas fabulosas riquezas potenciais com a miséria, com a angústia, com a fome". Enquanto isso, na tela, Glauber Rocha exibia imagens de miséria, de angústia e de fome, reiterando didaticamente o discurso eleitoreiro de José Sarney.
Os glauberianos sempre argumentaram que, ao contrapor o discurso de posse de José Sarney às imagens de miséria, Glauber Rocha, na realidade, pretendia denunciar as falsas promessas do governador recém-eleito. Mentira. Maranhão 66 é pura propaganda política. Ele foi encomendado a Glauber Rocha pelo próprio José Sarney, sendo financiado pelo governo estadual. A rigor, aliás, quem o financiou foram os mesmos miseráveis mostrados no filme. José Sarney, eleito com o apoio do marechal Castelo Branco, contou também com o apoio do marketeiro baiano Glauber Rocha, predecessor daquele outro marketeiro baiano, Duda Mendonça. Maranhão 66 está para Glauber Rocha assim como a conta Dusseldorf está para Duda Mendonça.
Luiz Gutemberg, hagiógrafo de José Sarney, comentou o trabalho da seguinte maneira: "O filme concentra as esperanças que nasciam dos casebres, dos hospitais e, no meio de tudo, a voz de Sarney. Glauber, modificando a ciclagem da voz do novo governador, obteve um efeito emocionante e fez com que ela soasse como a voz de um vulto profético, fixando o choque entre o impossível, que a mensagem de esperança do novo governador anunciava, e a miséria que as imagens mostravam".
José Sarney ridicularizou a idéia de que Glauber Rocha pudesse ter qualquer propósito crítico, apresentando-o como um apaniguado cúmplice e obediente. Ele disse: "Quando fui eleito governador, o levei para fazer o documentário da posse. Ele se empolgou e fez. Eu também ajudei porque fiz, de certo modo, o roteiro do documentário, para fugirmos daquela coisa, para ver o contraste entre o que se encontrava e o que a gente desejava. E ele fez".
Maranhão 66 foi produzido por Luiz Carlos Barreto. E quem mais poderia ser? Atualmente, Luiz Carlos Barreto produz uma cinebiografia de Lula. Pena que Glauber Rocha tenha morrido, porque ele certamente se empolgaria com o projeto e o dirigiria. Seu filho, Erik Rocha, já dirigiu um documentário empolgado sobre Lula. De Maranhão 66 a Brasília 09, a política continua igual. E o cinema brasileiro continua igual: empolga-se e faz." (Diogo Mainardi, em 5/06/2009)

domingo, 31 de maio de 2009

ONDE LULINHA ESTUDOU?

"Olhem, como se diz por aí, “na boa”, não sei como Lula consegue se olhar no espelho depois de fazer certos discursos. Tá bom, vá lá, eu sei. Eu mesmo já identifiquei aqui uma possível patologia psíquica: Lula é destituído de superego. Por que isso agora? Ontem, esse gênio da raça descobriu os culpados pela baixa qualidade do ensino: a classe média. (Disse Lula da Silva):

“Uma das razões pelas quais a escola pública foi se deteriorando é porque grande parte da classe média se afastou dela. Para não brigar [por qualidade], decidiu colocar os filhos na escola particular. E pagar na mensalidade de 3º ano primário o mesmo preço de uma universidade particular”.

Não está sozinho nessa avaliação. Há alguns teóricos da educação — também de classe média ou acima disso, que jamais pisaram numa escola pública — que acham a mesma coisa. É a velha tese de que os responsáveis por seus problemas são as vítimas. Ora, a classe média se afastou da escola pública porque ela era ineficiente. Claro, claro: o pai e a mãe poderiam ter-se convertido em militantes da causa. Enquanto isso, os filhos ficariam comendo grama; enquanto isso, a esquerdopatia reinante nos sindicatos de professores ficariam promovendo greves. “Ah, os sindicatos só são assim porque as condições são ruins”. Mentira! Em São Paulo, a Apeoesp se opôs a um programa de qualificação do corpo docente. É gente que promove queima de livro. Mas me afastei um pouco.
Lula, quando ainda dirigente da oposição, poderia ter dado o exemplo. Poderia ter posto os filhos para estudar na escola pública. Quem melhor do que ele para liderar o movimento, não é mesmo? Pois se preparem para uma revelação. Sabem o Fábio Luiz da Silva, o Lulinha, o Ronaldinho de Lula? ESTUDOU EM ESCOLA PARTICULAR. É, em escola particular. Mais precisamente, no Colégio Singular, em Santo André, uma das mais conceituadas da região. Como eu sei? EU DAVA AULA LÁ.
Mas é claro que a coisa foi feita à moda Lula. Fábio estudou no Colégio Singular, mas com bolsa de estudos, entenderam? Lula, o burguês do capital alheio, pôs o seu prestígio político a serviço da concessão de um privilégio — ou vocês acham que ele não tinha dinheiro para pagar a escola do seu gênio empresarial? Tinha. Mas, vocês sabem, onde há uma mamata, Lula está lá, mamando. “O cara” até recebe pensão por ter lutado contra a ditadura, ora essa!!! Enquanto ele “lutava”, construía o PT, que o faria chegar à Presidência, constituía um patrimônio que nenhum outro trabalhador com o seu nível de instrução tem e garantia a melhor escola para os filhos — sem desembolsar um tostão por isso.
Do Singular, já saíram alunos que se transformaram em profissionais de primeiro time, alguns com renome internacional. Volta e meia, um ex-aluno de lá manda um comentário a este velho professor… Só tenho 47. É que comecei a dar aula muito cedo. Pois bem, não foi o caso de Lulinha. Cursou biologia, vagou aqui e ali etc. Quando o pai alcançou a Presidência, era monitor de Jardim Zoológico: “Lulinha, onde fica a zebra?” Ele indicava. “Lulinha, onde fica a anta?” Ele mostrava. “Lulinha, onde fica o jumento?” Ele dava o caminho. O pai chegou lá, e ele se transformou num empresário de enorme sucesso, não é? A Telemar — atual Oi, de que Sérgio Andrade, o principal financiador das campanhas do seu pai, é sócio — logo descobriu o seu talento para o mundo dos negócios. A fala a seguir é pura imaginação benevolente deste escrita: “Que é isso, Lulinha? Alguém com o seu talento em, bem…, em seja lá o que for, merece ser empresário”. E Lulinha virou empresário. A família Andrade gosta da família Lula. Custeou a educação de Lurian em Paris.
Como a gente vê, o Brasil continua mesmo a ser um país injusto. É preciso pôr um fim nesse regime que garante a existência de fidalgos — sejam eles da antes chamada “burguesia”, seja da antes chamada “classe operária”. O que o Brasil ainda não conseguiu ser, de fato, é uma República. É preciso pôr fim ao regime dos aristocratas. E Lula é o seu mais pançudo representante.
Mais uma vez, este senhor é flagrado a fazer o exato oposto do que enuncia e anuncia" (Transcrito do blog do Reinaldo Azevedo de 30/09/2009)

"NOVOS POBRES E NOVOS RICOS"

"Muita chiadeira por causa do post de ontem em que censuro a bobagem dita por Lula sobre a culpa pela baixa qualidade do ensino público. Segundo ele, é da classe média, que, em vez de brigar por mais qualidade, decidiu pôr os filhos em escolas particulares — que, de resto, na média, não são também nenhuma maravilha. Mas, ao menos, os filhos costumam estar ao abrigo das greves e das faltas. Lula queria pais, digamos, sindicalizados brigando, para depois tudo terminar num acordão, como aqueles que ele celebrava com o antigo Grupo 14 da Fiesp, afogado, quase literalmente, em Black Label. Porque Lula, vocês sabem, não é um homem de ferro. É de carne e osso. Mais carne do que osso. Por que os petralhas espernearam? Porque revelei que o gênio empresarial Fábio Luiz da Silva, o notório “Lulinha”, estudou em… escola particular. Mais precisamente, no Colégio Singular, em Santo André, destinado à “Dona Zelite” do Grande ABC.
Sei porque dava aula lá — não fui professor da sua turma. Aí me informa um leitor:
"Caro Reinaldo,
Não só o Lulinha, mas seus irmãos também estudaram no Singular. A Lurian fez o primeiro ano (em 1991) na unidade de São Bernardo, eu estava lá na época e lembro de uma visita do Apedeuta à escola. Não sei se teve bolsa também. Mas ela nem chegou a terminar o colégio lá, saiu no fim do primeiro ano. O irmão mais novo (o que levou os amigos para tomar banho de piscina no Palácio da Alvorada, com nosso dinheiro, em avião da FAB) também estudou lá, na unidade de Santo André."

É isso aí. Se ambos também tiveram bolsa, não sei. Lulinha teve. Lurian deve ter deixado a escola para ir a Paris, com o patrocínio de Marília Andrade, prima de Sérgio Andrade e uma das herdeiras da empreiteira Andrade Gutierrez. Sérgio é amigo pessoal de Lula e o maior financiador individual de sua campanha eleitoral. A sua construtora acaba de retomar a construção da usina nuclear de Angra 3 com uma licitação herdada do governo Figueiredo. Já é quase uma licitação balzaquiana: 26 anos. Em dólar, o preço saltou de US$ 1,8 bilhão para US$ 3,3 bilhões. Mas podem ficar tranqüilos: custará muito mais, como sempre. Vejam o que aconteceu com a refinaria Abreu e Lima…
Ah, bem: Lula também mudou uma lei apenas para legalizar a compra da Brasil Telecom pela Oi. Sérgio é um dos controladores da Oi. Tá… Convenham: recorrendo a metáforas do mercado financeiro, quando Sérgio descobriu Lula, o homem era ainda uma “opção magra”. E passou a ser uma “blue chip”. No mundo dos negócios, é preciso enxergar longe, né? Andrade, mais do que qualquer outro, entendeu quem era Lula de verdade. O dono da Andrade Gutierrez poderia dizer: “Ao vencedor, um batatal inteiro”.
Volto ao ponto. Por que lembrar isso tudo? Porque um dos mitos — eivado de falsidades e coisas verossímeis, como todos os mitos — sobre a biografia de Lula dá conta de sua vida sofrida. Convenham: até atingir a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, vá lá, algum mérito da superação existe. Depois? Depois ele passou a ser personagem privilegiada de um enredo muito maior, que ele soube capitalizar — ah, como as palavras são ricas!!! — como poucos: o da abertura política. O Lula sofrido é conversa mole pra trouxa dormir. O Lula sofrido só serve para deixar excitadas as metáforas das Mailenas Chauis e Marias Ditabrandas Victorias…
Lula tem todo o direito de pôr o filho em escola particular? Claro que sim! Não acho que os garotos deveriam pagar o pato de ter o ensino ruim só para o pai dar o exemplo. Mas, então, o Apedeuta não pode sair por aí enfiando o dedo na cara dos outros. Não pode porque, definitivamente, não tem moral para isso. Enquanto ele organizava a companheirada, por que Mariza Letícia — o “Sorriso Enigmático da República” — não ficou fazendo comício em porta de escola? Por que a companheira do companheiro não fez o que ele recomenda à classe média? Ora, dobre a língua então. E nem adianta dizer que não pagou a escola, que tinha bolsa. Só piora tudo. Porque é óbvio que ele tinha condições de arcar com o custo.
Um daqueles seres que come os restos que as ratazanas vão largando pelo caminho, manda o seguinte (ah, sim: IP nº 189.74.165.118):De que crime se acusa o Lula? O de defender o ensino público, mas colocou seu filho em um colégio particular? Pelo amor de Deus! Crime maior cometeu o filho do FHC que fazia parte da diretoria do Banco Nacional, quando a cúpula do banco estava produzindo balancetes falsos porque estava falido. Lembra do rombo: quatro bilhões! Ele e o pai (FHC) disseram que não sabiam de nada (anjinhos). Lembra o que FHC fez- criou o Proer. E usou dinheiro do povo para cobrir o rombo de seus protegidos políticos. E eu pergunto que moral tem os “tucanos” para falarem do filho do Lula? Ele não deu prejuízo ao dinheiro público e ainda fica esse monte de alienados políticos falando do filho do Lula!
Pois é. Se os citados quiserem a mensagem para uma ação judicial, eu passo. Eu não acusei Lula de crime nenhum. Ele é que acusa outros de criminosos. Mas a questão é boa. Não custa lembrar:
- Paulo Henrique nunca foi diretor do Banco Nacional;
- os controladores do Nacional perderam o banco; um deles chegou a ser preso (e foi solto pela Justiça, não por FHC);
- essa história de que “FHC não sabia de nada” é pura bobagem; tanto o governo ficou sabendo da situação grave do banco (à época, “de bancos”, no plural), que fez a intervenção. E veio o Proer — razão por que se tem hoje um sistema bancário sólido. Até o Apedeuta já reconheceu isso. Mas os petistas chamavam o programa de “mamata para banqueiro”. Há idiotas na rede repetindo isso até hoje, seguindo a dica de mentores a soldo.
PRESTEM ATENÇÃO NUMA, ENTRE MUITAS OUTRAS, DIFERENÇA ENTRE FHC E LULA.
Paulo Henrique, que nunca foi diretor do Nacional, era casado com Ana Lúcia Magalhães Pinto, uma das herdeiras do banco, sim. O governo interveio, a empresa foi para o vinagre, e os irmãos Magalhães Pinto — a então nora do presidente incluída — foram indiciadas em três artigos da Lei do Colarinho Branco.
Ana Lúcia e Paulo Henrique têm duas filhas — gêmeas. Quando o avô das então meninas chegou à Presidência, elas eram herdeiras de um dos maiores bancos do país. Quando o avô saiu, elas eram ex-herdeiras, e a mãe, que nunca dirigira o banco, era uma das indiciadas. Entenderam a diferença? Não! Então deixo a coisa ainda mais clara.
Quando FHC chegou à Presidência, suas netas eram herdeiras de um patrimônio bilionário; quando ele saiu, elas eram moças sem-banco. Quando Lula chegou à Presidência, o filho era monitor de jardim zoológico; dois anos depois, já era um dos felizes proprietários da Gamecorp, onde a antiga Telemar, hoje Oi (aquela de Andrade), havia metido aos menos R$ 10 milhões. Lula disse que não podia fazer nada se tinha um “Ronaldinho” dos negócios — de “Ronaldinho”, Lulinha só tem a forma física (se é que me entendem)… Também para registro: um dos sócios da Telemar, agora Oi, é o BNDES, um banco público. A empresa de que um banco público é sócia meteu dinheiro no empreendimento do “Ronaldinho” do presidente.
Os petralhas querem xingar e espernear? Fazer o quê? Pensar é que eles não iriam. É injusto exigir de alguém algo além das duas condições objetivas. Tentem contestar algum fato no texto acima.
Ficamos assim: depois de oito anos de mandato de FHC, a descendência dos Cardoso está mais pobre. Depois de oito anos de mandato do Apedeuta, os Lulas da Silva certamente estão mais ricos. E reparem como Tio Rei é singelo: se não dá acusar o que enriqueceu de irregularidade, certamente soa um tanto estranho acusar de maracutuaia o que empobreceu, não é mesmo? Vai ver os Cardosos têm inclinação para novos-pobres, e os Lulas da Silva, para novos-ricos." (Transcrito do blog do Reinaldo Azevedo de 31/05/2009)