terça-feira, 2 de setembro de 2008

A ditadura militar: quem se beneficiou?

Hoje já se tornou uma sólida tradição falar mal da ditadura militar, que vigiu no país entre 1964 e 1985, como estratégia para obtenção de votos em qualquer eleição que se apresente, municipal, estadual ou federal. Os generais daquela época, a maioria já morta e enterrada, sofrem assim como o antigo Bey de Túnis sofria sob a pena de Eça de Queiroz. Na falta de assunto para preencher um artigo que lhe era cobrado, o grande romancista e cronista português sacava do bolso do colete um tema infalível: baixar o cacete no tal Bey (título nobiliárquico do dirigente muçulmano da cidade de Túnis, algo equivalente ao título de Scheik, de Xá ou de Califa). Como a referida figura era detestada por todo o mundo civilizado, fazer-lhe toda e qualquer crítica era garantia de boa recepção por parte dos leitores.

Márcio Lacerda, candidato a prefeito de Belo Horizonte - um verdadeiro Tio Patinhas, tal sua fabulosa fortuna - também se coloca politicamente como um daqueles que combateram a ditadura militar. Chega ao requinte de acrescentar que "conhece Pimentel (atual prefeito da capital) há mais de 40 anos, quando lutaram juntos contra a ditadura pela volta da democracia no Brasil". Insinuando cruel perseguição movida contra ele pelos milicos, não pôde arrumar um bom emprego para se sustentar, tendo que se conformar em ser um simples estagiário da antiga Cia. Telefônica de Minas Gerais. Mas ele percebeu que isto não era tão ruim como podia parecer a uma primeira vista. Seguindo famoso conselho dado por Delfim Neto naquele tenebroso período, que pontificava : ("se eu fui estagiário da Gessy-Lever e cheguei a ministro, qualquer um pode fazer o mesmo"). Márcio Lacerda, talvez por também ser economista e captar competentemente as lições do balofo ministro, viu que os milicos eram duros mas podiam ser amaciados. Lulinha da Silva, nos dias atuais, parece que resolveu seguir a mesma recomendação de Delfim Neto. De simples estagiário no zoológico de São Paulo, durante o mandato da Dona Marta Suplicy, o jovem empreendedor já virou promissor empresário durante o mandato do generoso pai (e, por coincidência, navegando nas mesmas águas onde já havia navegado o Lacerda, ou seja, no ramo da telefonia). É verdade que nos tempos em que Márcio Lacerda se estabeleceu - e construiu alianças com os milicos que mandavam nas empresas de telefonia brasileiras, que eram todas estatais - qualquer fornecedor (ou parceiro, como se diz hoje), tinha que passar pelo crivo político dos generais. Ou será que não tinham? Se não tinham, então esta história de perseguição foi uma lorota, simples propaganda enganosa. Lulinha da Silva, fez melhor. Aliou-se com empreiteiros que controlavam a Telemar (atual Oi), e que, por extraordinária coincidência, também são os maiores contribuintes das campanhas de Lula pai, e virou sócio da Telemar. Este parece ser mais esperto que Márcio Lacerda. A continuar neste ritmo vai ter uma fortuna, nos próximos anos, superior à do pobre estagiário de Belo Horizonte.
Em todo caso, justiça seja feita: a ditadura militar fez bem aos negócios de Márcio Lacerda. Se ele tivesse entrado num emprego público, ou em alguma burocracia privada, talvez não fosse, hoje, mais que um sujeito de classe média, tipo funcionário público aposentado reclamando do governo e querendo fazer alguma greve ou manifestação contra os neoliberais de plantão. Sua sorte, ou esperteza, ou convenientes relações comerciais foi se estabelecer e, graças à sua "capacidade de liderar equipes e sua visão moderna e inovadora" levar "uma pequena empresa a se tornar uma das maiores de Minas e do Brasil", conforme rezam seus coloridos comerciais espalhados por toda Belo Horizonte. Mais rico que Maluf - que sempre teve fama de ser serviçal dos militares e capacho da ditadura - Márcio Lacerda é um exemplo de que se pode defender o socialismo e a revolução e, ao mesmo tempo, se tornar um nababo. Aliás, pelos exemplos de outros considerados "subversivos" daqueles tempos (como o lobista José Dirceu e a turma do mensalão), só os tolos não perceberam que combater verbalmente os generais (e por baixo do pano fazer bons negócios com eles), era a grande sacada, o verdadeiro mapa da mina. Estão aí as gordas aposentadorias especiais, as polpudas indenizações e outras sinecuras propiciadas pelo regime lulista da silva.

A meu pai

Nascido em 12 de abril de 1923, e falecido em 26 de agosto de 2008, era meu pai - Ephigênio de Oliveira Carvalho - a resultante de uma mistura de panteismo com ceticismo. Ensinou-me a ler Augusto dos Anjos e o grande poeta persa Omar Khayyán, cuja Rubaiata 161 segue abaixo. Creio que ele gostaria que tais versos lhe fossem dados por epitáfio.


Rubaiata 161

"Não só aqueles
que a velhice colheu,
como aqueles
que só conheceram
a juventude,
um a um foram partindo
mal haviam chegado.

Ninguém cria raízes
neste mundo enganador...

Uns partiram,
partirão os demais.

E os outros que estão para chegar
partirão também".

Seu talento como sonetista brindou-nos com uma das mais vívidas descrições do processo político brasileiro. No soneto denominado "3 de outubro" (data em homenagem ao dia no qual se realizavam as eleições após 1930), dizia ele, em 1960:

Ei-los vendilhões da Pátria escravizada,
Ei-los a disputar a marmita e a gamela.
Imorais fariseus arautos da embrulhada,
A preparar ao povo a cangalha e a sela.

E este povo infeliz que tomba na esparrela,
Que não compreende a fraude nem entende nada,
Não vê que esta canalha a própria pança zela,
E quer ver a caveira à plebe degradada.

No fim da apuração o eterno resultado
(Que desde oitenta e nove a nação avassala),
Levando ao poder o patife e o tarado.

C'o ajuda do eito vil e c' os votos da senzala,
Caco se elege e Ali-Babá é deputado,
Numa competição de rifa e de cabala.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Reinvenção da história

Na antiga URSS os inimigos de Stálin eram não só assassinados, de fato, como tinham seus rostos apagados de eventuais registros fotográficos. Desaparecendo o personagem (desta forma assim meio que compulsória), estava livre o caminho para as devidas “correções” do curso da história. Esta re-elaboração narrativa cumpria propósitos políticos e educativos óbvios, ensejando o surgimento de uma verdadeira “escola” de pensamento (?) que se popularizou em todos os quadrantes da terra, inclusive no Brasil. Aqui nos trópicos pôde-se alargar esta “tecnologia” com ajuda de contribuições vindas de outros lugares, como da Alemanha nazista. Desta veio o sensacional princípio que reza: repetir uma mentira inumeráveis vezes até que ela soe, ou pareça, verdade. Nosso país, portanto, não poderia ficar em posição secundária frente àqueles profissionais do embuste gerados pelos regimes soviético e nazista na primeira metade do século passado. Hoje, afinal de contas, os recursos propiciados pela informática vulgarizaram muitas ferramentas de fácil utilização.

Um exemplo notável dessa recriação da história está sendo feito em Belo Horizonte, com a campanha do candidato oficial a prefeito, aliás, triplamente oficial, pois recebe bênçãos do governo municipal, do governo estadual e do governo federal. Este feliz candidato – riquíssimo empresário que começou a vida como estagiário da antiga Telemig – é um predestinado. Ou, então, um Midas. Sua mãe deve ter-lhe passado açúcar no bumbum e, não, o singelo talco do comum dos mortais. Vai ser gostoso, rico e poderoso assim na puta que o pariu! Um homem que dá dinheiro para os trabalhadores; e dinheiro dele, segundo diz sua biografia, é demais, não? Inacreditável. Não é como Lula, que dá dinheiro p´ros pobres, mas dinheiro da “viúva”, vale dizer, dos outros, ou nosso, para ser mais preciso. Márcio Lacerda, ao contrário, mete a mão no próprio bolso e distribui sua bufunfa aos trabalhadores. A TV informa que foram U$1,5 milhão de dólares. Um empresário anarquista? Um empresário ao estilo do “banqueiro anarquista”, de Fernando Pessoa? Diz sua biografia que o homem enricou virando empresário (pois não conseguia arrumar um emprego ou uma “boquinha” em alguma repartição pública). Seus biógrafos, talvez por excessiva modéstia, não se referem aos anos e anos em que ele – coitado – deve ter passado comendo miojo no almoço e pão molhado no jantar. Cada tostão economizado, e devidamente investido, gerou ao longo do tempo sua fabulosa fortuna (maior, como é público e notório, que a fortuna de Maluf). Nem Tio Patinhas – que iniciou com uma simples moeda de um centavo achada no fundo de um bueiro – chega aos pés de Márcio Lacerda. Claro, tio Patinhas era, e é, um avarento: não gasta nada, não empresta nada, não dá nada para ninguém. Só sabe acumular e entesourar. Quão diferente é o comportamento de Márcio Lacerda, tão pródigo, tão bon vivant, tão capaz de moer vastos cabedais somente para ajudar os amigos! O que o torna mais admirável que o antipático personagem de Walt Disney.



Evidentemente que há saltos narrativos inexplicáveis (ou, ao contrário, seriam muito bem explicáveis, bastando uma ligeira investigação?). Por exemplo: sua saída do governo do companheiro Lula é informada com naturalidade; diz-se, apenas, que ele “saiu” e veio para Minas Gerais “servir” ao governador Aécio Neves. Nenhuma menção ao seu envolvimento com o mensalão, conforme denunciado pelo companheiro Marcos Valério, trapaça das maiores entre todas que foram feitas “neste país”. Que fazia Márcio Lacerda no cargo de vice-ministro de Ciro Gomes no ministério da Integração Nacional? Afora suas incumbências de “caixa” de campanha da companheirada, o ilustre candidato a prefeito era responsável por tocar uma das obras mais maléficas do período Lula da Silva: a transposição do Rio São Francisco. Este malsinado projeto – que recebeu quase que unânime reprovação em Minas Gerais pois até o governador Aécio questionou-o – era tocado pelo vice-ministro Márcio Lacerda, até ele ser defenestrado do antigo cargo. Pôs, então, o rabo entre as pernas e correu para a província onde nascera, à espera de uma mudança nos ventos. Bom navegador que é, Márcio Lacerda ficou boiando aqui e ali igual bosta n’água e, então, ocorreu o milagre. Valfrido Mares Guia, também enrolado com as tramóias do mensalão (porém de forma muito mais grave, pois suas presepadas remontavam ao proto-mensalão, ou mensalão mineiro), e que seria o nome a ser ungido por Aécio e Pimentel para a prefeitura de Belo Horizonte, foi colocado fora de batalha. Estava feito o jogo: guindado ao cargo de Secretário de Estado de Desenvolvimento de Minas Gerais, ficou numa espécie de quarentena enquanto sua candidatura foi sendo construída pelos dois patronos. Isto é que é homem de sorte, puta que o pariu! Para Pimentel é tudo que ele imaginava encontrar (um pau de amarrar égua que não vai futricar na contabilidade da PBH), e para Aécio, idem, ou seja, um pau de bosta de fácil manipulação, capaz de produzir uma posição de amparo no xadrês das futuras manobras na disputa de 2010. Aécio mira vantagens políticas; Pimentel, mais velhaco, mira um escape potencial da penitenciária, cuidado que um tal de Bejani – ex-prefeito de Juiz de Fora – não teve, ainda recentemente.

O mais divertido nesta biografia do candidato, inventada pelos publicitários, é a pose de humildade que o candidato vai ostentando: cabeça baixa, olhar compungido, fala baixa e macia, quase um tabaréu. E, para dar um toque de gênio, este sim, pregaram-lhe no queixo um cavanhaque similar ao dos “ursões” que vagueiam pelas baladas da zona sul de Belo Horizonte. Maior sucesso não poderia haver! Em vista da fragilidade dos demais concorrentes à prefeitura da capital mineira, a patacoada de Aécio, Pimentel e Márcio Lacerda bem pode dar certo, o que só confirmaria a decadência ética a que estamos sujeitos. Bem, não tanto, para ser justo. Trambicagens políticas são tão antigas como a humanidade. Não que isto justifique o farisaísmo de hoje mas não custa relembrar versos imortais de Khayyán de quase um milênio atrás:

“Com a moeda dos princípios
Não se compra nos mercados
Nem um triste pé de alface”.


terça-feira, 12 de agosto de 2008

OBSCURAS ALIANCAS EM BELO HORIZONTE

A sucessão em Belo Horizonte é um exemplo do vale-tudo, verdadeira luta livre onde todos os golpes são permitidos. Basta cada um observar o que está ocorrendo e tirar, então, suas próprias conclusões. Talvez a população da capital até esteja fazendo isto no seu íntimo, o que explicaria sua larga faixa de indefinição quanto à intenção de voto para prefeito. Com efeito, há chapas que são deploráveis sob qualquer ponto de vista. Veja-se o caso das duas candidaturas da continuidade – as encabeçadas por Márcio Lacerda e por Jô Morais.

A chapa de Jô Morais é uma obra prima do absurdo. Agrega ela a escória petista, mais os representantes do peleguismo sindical patronal, mais os herdeiros do delírio stalinista e, para coroar o balaio de caranguejo, as forças lideradas pelo bispo Edir Macedo - chefe inconteste da Igreja Universal do Reino de Deus. Quem este amontoado de gente quer representar, quando pede o voto ao eleitor? Sob a proteção suprema do atual vice-presidente – ex-senador José Alencar - empresário do tipo chapa branca, daqueles que enricaram com as benesses dos créditos oficiais, a deputada do PC do B ainda quer se apresentar ao eleitorado como se oposição fosse. Alguns desavisados chegam, mesmo, a acreditar nesta possibilidade.

O que une estes bandos, no entanto, não são convicções defensáveis. O que solda esta aliança estapafúrdia é a compreensão comum de que o poder público é um bom negócio, ou seja, uma sólida fonte de renda que cumpre cultivar. Dos cofres públicos, verdadeira cornucópia, jorra inesgotável pecúnia. Dali sai o gostoso dinheiro do BNDES e, também, o amoroso mensalão, aquele que adocica comportamentos, garante fidelidades e financia campanhas eleitorais. Todos estes “bons companheiros” são parte das falanges que enfeitaram as páginas políticas e policiais dos últimos cinco anos.

O partido do atual vice-presidente, que era comandado por um esquisito deputado paulista – um tal de Valdemar Costa Neto – por uma questão de prudência resolveu mudar de nome. Mudou o nome, porém, não promoveram a mudança dos nomes de seus integrantes. A nódoa, portanto, permanece. Só está esmaecida pelas graças do esquecimento popular. A pelegada eclesial do bispo Macedo (da linhagem de Anás e Caifás) move-se à sombra de José Alencar que, possuidor de uma cara de boi sonso, angaria vagas simpatias potencializadas por seu infortúnio pessoal na luta contra um câncer nas tripas. A cúpula da Universal sabe que é necessária uma espécie de aríete para arrombar a porta dos governos estabelecidos de maneira democrática. A experiência lhes tem mostrado que colocar um dos seus à frente das disputas eleitorais é condenar-se à derrota certa, uma inescapável crônica de uma morte anunciada. O exemplo do Rio de Janeiro, onde um sobrinho direto do próprio Edir Macedo (o senador Crivela, o mesmo que inventou um projeto vulgarmente assistencialista que resultou na morte de três jovens – assassinados por traficantes de um morro rival após serem entregues ao martírio por membros do exército brasileiro), está postulando a prefeitura da cidade maravilhosa, aponta para a importância de se ter alguém que faça, às vezes, de “cavalo de Tróia”. No caso de Belo Horizonte, a fachada do engodo é propiciada pela deputada do PC do B. Com cara que sugere aquelas beatas que vivem a debulhar o rosário nos escuros das sacristias, ela tem um álibi perfeito para o passa moleque pretendido. Realmente, é fantástico apreciar a implausível junção dos antigos endeusadores da infeliz Albânia com os cúpidos herdeiros do Sinédrio judaico.

No entanto, pode ser que nem seja tão absurdo assim, se estiverem corretas as análises de Djilas (um dos primeiros a denunciar a formação da “nova classe” dos burocratas profissionais stalinistas), em vista dos partidos em tela (PC do B e IURD), terem como projeto real cultuar uma espécie de “religião” que os enriqueça e os libere das fadigas do trabalho. As prescrições mosaicas estabeleciam que os levitas não deveriam trabalhar produtivamente, vivendo somente para servir ao Tabernáculo e às coisas de D´us. Os fiéis têm a obrigação, portanto, de bancar o vasto número de comensais da Salvação, através de dízimos, primícias e outras espórtulas complementares. Lênin e Stalin também prescreviam, como um dos pilares de sua exótica doutrina, que seus “sacerdotes” fossem profissionais da “política”, dedicados em tempo integral à defesa da “causa”. Para viabilizar isto haveria de se tomar de assalto os ricos cofres de sindicatos, de entidades estudantis e as inúmeras bocadas propiciadas por todos os governos, principalmente agora que o “ouro de Moscou” é só uma quimera do passado.

Na tessitura profunda de seus interesses materiais, e de suas convicções, se encontraria, assim, o lastro que une a Igreja Universal do Reino de Deus – a IURD – e a igreja atéia congregada no PC do B. Eis aí o pano de fundo da inefável chapa liderada por Jô Morais e um obscuro pastor do Reino de Deus, que é seu vice, e de quem nunca se fala nas propagandas da candidata. Aqui vale a máxima popular: Deus os fez e o diabo os ajuntou. Será cômico o dia em que a candidata comparecer a uma sessão de “macumba” no monumental templo da Avenida Olegário Maciel. A região ali próxima ficará impregnada dos “encostos”. Certamente, a “companheirada” exorcista terá muito trabalho para expurgar tanta coisa ruim. T’esconjuro!

Controlar a prefeitura de Belo Horizonte é garantir o acesso aos mecanismos que permitem obtenção de licenças e autorizações (como aquela que permitiu a construção do legítimo “shopping da fé”). Na sua insuperável visão, Dante Alighieri profetizou punições específicas para feiticeiros, falsários e simoníacos. Não imaginou, contudo, a que ponto poderiam chegar determinadas frações da humanidade atual. Se vivesse nos tempos contemporâneos, o capítulo do “Inferno” seria, certamente, bem mais extenso. O genial florentino haveria que postular novos pecados, e novas punições, para ampliar a Divina Comédia. A Arte seria, pelo menos, enriquecida com versos cuja apreciação se alonga pela Eternidade.

A turma de Jô Morais – estes verdadeiros “empresários” do patrimônio público – não busca se enriquecer individualmente, tal como o fazem empresários da iniciativa privada. Sua lógica é, antes a do formigueiro que da colméia (as abelhas têm a seu favor o fato de segregarem o mel, contribuindo para a floração da vida). Já a rainha das formigas só faz botar os ovos; enquanto isto, os operários buscam comida incessantemente, devastando os campos; os serviçais de plantão alimentam as larvas e os guardas vigiam os caminhos atacando os inimigos internos e externos. É uma compreensão da vida mais etológica que sociológica. Todos dentro do formigueiro beliscam alguma coisa (pois ninguém fica fora do negócio), vivendo a orgânica sociedade numa relativa harmonia.

Platão endossaria o projeto do qual Jô Morais é defensora. Talvez, até, se afiliasse ao PC do B. Afinal, o velho grego foi um dos primeiros a formular uma concepção totalitária de sociedade, tão ao gosto dos anacrônicos herdeiros do stalinismo.

As “formigas” de Jô Morais anseiam pelo aumento dos impostos. Ela própria defendeu, no primeiro debate televisivo na rede Bandeirantes, uma forte tributação imobiliária. Os maiores escorchados serão os donos de modestos apartamentos (comprados com uma vida inteira de poupança). O pessoal do PC do B e da IURD sabem que, para poder financiar a boa vida do vasto conjunto da companheirada, há que se extrair alguma “mais valia” do cidadão. Seu lema de campanha (até para fazer justiça aos aliados), deveria ser “fé em Deus e unha no povo”. Ai dos vencidos, já dizia Cezar! Numa eventual vitória dessa gente, os moradores deste Triste Horizonte se lembrarão com inveja dos tempos imemoriais da Conjuração Mineira, quando dona Maria, a louca, só queria extorquir uma quinta parte da renda dos mineiros. Se hoje já nos aproximamos do dobro (pois quase 40% da riqueza da sociedade é apropriada pelos governos), a eleição de Jô Morais, a tresloucada, sinaliza para uma verdadeira escravidão coletiva dos cidadãos. A famigerada CPMF, aliás, que o governo federal quer ressuscitar, teve o apoio entusiástico, além do voto, da deputada federal Jô Morais. Ela bem sabe que Lula e sua sofisticada quadrilha só querem, mesmo, é esfolar mais o povo brasileiro, notadamente a classe média. Para quê? Para poderem usar o dinheiro para pagar os juros aos banqueiros, para criar cabides infindáveis de empregos (não inventaram, agora recentemente, o Ministério da Pesca?), e para pagar o cala boca, na forma de mensalão, a seus aliados predadores (Sarney, Barbalho, Calheiros, Maluf, Professores Delúbio, Luizinho e Walfrido, Marcos Valério, bispo Rodrigues etc.), e mais uma lista infindável que cobriria um catálogo telefônico.

A escória do PT, por outro lado, é composta pelos “santinhos do pau oco” da política. Adeptos do mais deslavado assistencialismo como forma de fazer política, seu mentor espiritual é o ex-prefeito Patrus Ananias, o santarrão carola. Compreende um monte de parasitas dos escalões inferiores da máquina administrativa pública, distribuídos pelos diferentes níveis de governo – municipal, estadual e federal. São os pequenos mordedores que, em bloco, e de forma inteligente, se dividiram para, qualquer que seja o resultado esperado das eleições (caso vençam, ou Jô Morais ou Márcio Lacerda), poderem perpetuar a “boquinha”, conforme apontou, em memorável definição, o ex-governador Garotinho.

Este é o plano deles, o que não quer dizer que vá dá certo. Cevados em mais de 15 anos encostados nas inumeráveis assessorias, consultorias, gerências e múltiplas outras formas de terceirização (através de ONG´s, Cooperativas, sindicatos etc.), mecanismos usuais utilizados para abocanhar um naco das verbas públicas, vêem com terror a possível exigência, posta pelo destino, de terem que trabalhar, como o comum dos mortais, a fim de se sustentarem e às suas famílias. Nos cenários e nas articulações conduzidas pelo atual prefeito, o futuro da prefeitura de Belo Horizonte não comportaria esta arraia miúda. Na eventualidade da vitória de Márcio Lacerda, só os lambe cus de Pimentel é que continuariam abrigados no amplo regaço das dezenas de secretarias municipais e órgãos da administração indireta. Estes, não por acaso, são os que controlam o aparelho partidário municipal, decisivo para a definição futura do candidato a governador em 2010. Dependendo da situação política, as injunções podem levar Pimentel, até, a migrar para o PSB, juntamente com seu amigo do peito – o atual governador Aécio Neves. Seria uma dobradinha de arromba. O caminho para isto vem sendo pavimentado gradativamente. Os ratos já começam a abandonar o navio, conforme se vê no noticiário (Tilden Santiago, eminência dos maiores da nação petista acaba de se aboletar no PSB sob as bênçãos de Ciro Gomes). Percebem, estes velhacos, que um cansaço da população com o petismo começa a se configurar.

Desde tempos imemoriais os ratos são os primeiros a fugir. E um transatlântico do porte do PT demora muito a ir a pique. Só os ratos percebem o risco que o barco corre (talvez por uma qualidade genética de farejar grandes perigos). A fadiga de material, com efeito, não acomete somente as coisas físicas. Também instâncias simbólicas sofrem da mesma ameaça. Casamentos sólidos se dissolvem no ar, marcas históricas entram em colapso, discursos políticos se esvaziam como pregações no deserto. Alípio, o conde de Abranhos, ao justificar sua mudança partidária (na célebre obra homônima de Eça de Queiroz), alegou que “sentia” que o governo estava “gasto”. Era hora, portanto, de mudar de pouso. E é o que Pimentel e Aécio estão fazendo estrategicamente. Vão deixar o pau de bosta nas mãos dos outros e, seguindo o que farejaram, vão mudar para que tudo fique como está. Lampedusa puro!

Somente um eventual surto de lucidez do eleitorado de Belo Horizonte poderá abortar o plano destes cafajestes. A ala petista mais mercenária – aquela que transformou a busca do poder numa oportunidade de boas negociatas – marcha unida com seus aliados tucanos e seu séquito de desfibrados políticos (distribuídos no PV, PPS, PTB e outras siglas destinadas a operações de compra e venda). Buscaram um milionário que se enriqueceu fabulosamente com atividades na área da telefonia (isto no tempo em que as empresas de tele-comunicação eram, não por acaso, controladas pelo governo), e pretendem empurrar, goela abaixo dos eleitores, a escolha feita por eles, como se fossem mandarins. E eles o são: mandarins cintilantes, atualmente governando a prefeitura e o estado. O tal Márcio Lacerda é tão fabulosamente rico que chega a ter um patrimônio superior a um dos mais notórios ladrões e nababos brasileiros – o ex-governador Paulo Salim Maluf – conforme declarações dos candidatos a prefeito registradas nos tribunais eleitorais. Só o palacete onde mora – não em Belo Horizonte, é claro, e, sim, em Brumadinho, no mais luxuoso condomínio na região sul da capital mineira – está avaliado em R$3,4 milhões. Para uma residência valer tanto dinheiro, ela deve ter coisas como torneiras banhadas a ouro e revestimentos do mais puro mármore de Carrara. Se não é moradia de marajá, ao menos deve ser de algo próximo a rajá, tal a magnitude do seu valor. Seria interessante saber quanto paga de IPTU.

Percepção do risco que significa viver em Belo Horizonte, pelo menos ele tem, pois foi morar bem longe das mazelas que assolam grande parte dos cidadãos, além de outros males, como a poluição ambiental, e os infernais engarrafamentos de trânsito. Realmente, é muito mais aprazível, e mais seguro, viver num lugar com todas as bem aventuranças que a natureza oferece, e que uma boa quantidade de dinheiro pode comprar, que entre os simples mortais que labutam na cidade grande! E mais: velejar, nas férias, pelas águas azuis do Adriático, pousando aqui e ali nas paradisíacas ilhas que ponteiam a doce Itália e a vetusta Grécia, recuperando, quem sabe, a milenar e gloriosa vilegiatura de Ulisses. Dá para imaginar o tal Márcio Lacerda na pose de marinheiro viking, com sua barbicha dourada e a postura forte dos que são capazes de encarar até o canto das sereias, comandando sua disciplinada tripulação com a voz típica dos mandões de todos os tempos: “arriar velas, descer a bujarrona, subir à gávea, preparar os canhões...”. E, assim, o barquinho vai...





terça-feira, 22 de julho de 2008

O NOIVO

Mais que indicação de que o eleitor da capital ainda não se ligou à campanha para prefeito, os resultados das pesquisas disponíveis mostram que há uma fadiga de material. Um cansaço similar ao de velhos casamentos que não se renovam e se esgarçam ao longo do tempo. Belo Horizonte parece estar querendo um novo amor, uma paixão que desperte na cidade as energias congeladas pelo reinado, agora tedioso, a que se viu condenada por Pimentel e sua turma. O candidato oficial – apoiado pelo governador e pelo prefeito – patina nos 5% da preferência popular. Os artífices do decantado “projeto” (que mal esconde desmedidas ambições), e que justificou a insólita aliança entre o PT e o PSDB, tentam encontrar uma explicação que amenize o vexame público aí às vistas. É a tal situação da mocinha bem comportada e obediente que fica reticente e de má-vontade, se recusando a seguir o conselho dos pais na escolha do namorado, ou do futuro marido. Casamentos arranjados, aliás, nem sempre acabam bem. Ainda mais quando o “noivo” é sonso e não excita a imaginação. Candidato certo a um bom par de “chifres”, o pretendente com as características de “amigo” do papai e da mamãe, incapaz de seduzir por seus próprios méritos, tentará se impor pela força do dinheiro e do medo à palmatória.
Insatisfeitos e/ou desinteressados pelos nomes colocados à cidade, bocejantes eleitores mantêm-se sem maiores comprometimentos com as escolhas disponíveis. Realmente, está difícil se definir. Além do “noivo” apoiado por “papai e mamãe” há uma candidata, raivosa e ressentida com o oficialismo local e federal, desempenhando com perfeição um papel ao qual só falta a vassoura. É o nome ideal para se contrapor ao “noivo”, na perspectiva dos demiurgos inventores de prefeito. Parecem-se com os velhos MDB e ARENA: um candidato do “sim”, o outro do “sim senhor”. Outros postulantes – um demasiadamente jovem deputado federal e um ex-deputado federal sem bala na agulha para bancar as pretensões – flutuam nos seus nichos de simpatizantes sem manifestarem, por enquanto ainda, qualquer sentimento de empolgação popular. Completando o quadro disponível há, ainda, os tradicionais candidatos cacarecos (um deles chega, até, a superar o candidato oficial, segundo as pesquisas divulgadas). Os únicos que, potencialmente, poderiam ameaçar o cenário desejado pelos patrocinadores das duas candidaturas (a do sim e a do sim, senhor), são os nomes do PMDB e do PDT (aquele mais que este). Aos dois, certamente, se querem mesmo correr o risco de ganhar, deverão infundir audácia e competência nos seus atos e discursos. O eleitor é uma alma feminina: ele quer ser arrebatado. Cautelas demasiadas e pudores excessivos dos dois eventuais oposicionistas podem deixar o eleitor sem alternativa de futuro. Neste caso, melhor esquecer o “chifre” e votar no candidato do “papai e da mamãe”.