terça-feira, 12 de agosto de 2008

OBSCURAS ALIANCAS EM BELO HORIZONTE

A sucessão em Belo Horizonte é um exemplo do vale-tudo, verdadeira luta livre onde todos os golpes são permitidos. Basta cada um observar o que está ocorrendo e tirar, então, suas próprias conclusões. Talvez a população da capital até esteja fazendo isto no seu íntimo, o que explicaria sua larga faixa de indefinição quanto à intenção de voto para prefeito. Com efeito, há chapas que são deploráveis sob qualquer ponto de vista. Veja-se o caso das duas candidaturas da continuidade – as encabeçadas por Márcio Lacerda e por Jô Morais.

A chapa de Jô Morais é uma obra prima do absurdo. Agrega ela a escória petista, mais os representantes do peleguismo sindical patronal, mais os herdeiros do delírio stalinista e, para coroar o balaio de caranguejo, as forças lideradas pelo bispo Edir Macedo - chefe inconteste da Igreja Universal do Reino de Deus. Quem este amontoado de gente quer representar, quando pede o voto ao eleitor? Sob a proteção suprema do atual vice-presidente – ex-senador José Alencar - empresário do tipo chapa branca, daqueles que enricaram com as benesses dos créditos oficiais, a deputada do PC do B ainda quer se apresentar ao eleitorado como se oposição fosse. Alguns desavisados chegam, mesmo, a acreditar nesta possibilidade.

O que une estes bandos, no entanto, não são convicções defensáveis. O que solda esta aliança estapafúrdia é a compreensão comum de que o poder público é um bom negócio, ou seja, uma sólida fonte de renda que cumpre cultivar. Dos cofres públicos, verdadeira cornucópia, jorra inesgotável pecúnia. Dali sai o gostoso dinheiro do BNDES e, também, o amoroso mensalão, aquele que adocica comportamentos, garante fidelidades e financia campanhas eleitorais. Todos estes “bons companheiros” são parte das falanges que enfeitaram as páginas políticas e policiais dos últimos cinco anos.

O partido do atual vice-presidente, que era comandado por um esquisito deputado paulista – um tal de Valdemar Costa Neto – por uma questão de prudência resolveu mudar de nome. Mudou o nome, porém, não promoveram a mudança dos nomes de seus integrantes. A nódoa, portanto, permanece. Só está esmaecida pelas graças do esquecimento popular. A pelegada eclesial do bispo Macedo (da linhagem de Anás e Caifás) move-se à sombra de José Alencar que, possuidor de uma cara de boi sonso, angaria vagas simpatias potencializadas por seu infortúnio pessoal na luta contra um câncer nas tripas. A cúpula da Universal sabe que é necessária uma espécie de aríete para arrombar a porta dos governos estabelecidos de maneira democrática. A experiência lhes tem mostrado que colocar um dos seus à frente das disputas eleitorais é condenar-se à derrota certa, uma inescapável crônica de uma morte anunciada. O exemplo do Rio de Janeiro, onde um sobrinho direto do próprio Edir Macedo (o senador Crivela, o mesmo que inventou um projeto vulgarmente assistencialista que resultou na morte de três jovens – assassinados por traficantes de um morro rival após serem entregues ao martírio por membros do exército brasileiro), está postulando a prefeitura da cidade maravilhosa, aponta para a importância de se ter alguém que faça, às vezes, de “cavalo de Tróia”. No caso de Belo Horizonte, a fachada do engodo é propiciada pela deputada do PC do B. Com cara que sugere aquelas beatas que vivem a debulhar o rosário nos escuros das sacristias, ela tem um álibi perfeito para o passa moleque pretendido. Realmente, é fantástico apreciar a implausível junção dos antigos endeusadores da infeliz Albânia com os cúpidos herdeiros do Sinédrio judaico.

No entanto, pode ser que nem seja tão absurdo assim, se estiverem corretas as análises de Djilas (um dos primeiros a denunciar a formação da “nova classe” dos burocratas profissionais stalinistas), em vista dos partidos em tela (PC do B e IURD), terem como projeto real cultuar uma espécie de “religião” que os enriqueça e os libere das fadigas do trabalho. As prescrições mosaicas estabeleciam que os levitas não deveriam trabalhar produtivamente, vivendo somente para servir ao Tabernáculo e às coisas de D´us. Os fiéis têm a obrigação, portanto, de bancar o vasto número de comensais da Salvação, através de dízimos, primícias e outras espórtulas complementares. Lênin e Stalin também prescreviam, como um dos pilares de sua exótica doutrina, que seus “sacerdotes” fossem profissionais da “política”, dedicados em tempo integral à defesa da “causa”. Para viabilizar isto haveria de se tomar de assalto os ricos cofres de sindicatos, de entidades estudantis e as inúmeras bocadas propiciadas por todos os governos, principalmente agora que o “ouro de Moscou” é só uma quimera do passado.

Na tessitura profunda de seus interesses materiais, e de suas convicções, se encontraria, assim, o lastro que une a Igreja Universal do Reino de Deus – a IURD – e a igreja atéia congregada no PC do B. Eis aí o pano de fundo da inefável chapa liderada por Jô Morais e um obscuro pastor do Reino de Deus, que é seu vice, e de quem nunca se fala nas propagandas da candidata. Aqui vale a máxima popular: Deus os fez e o diabo os ajuntou. Será cômico o dia em que a candidata comparecer a uma sessão de “macumba” no monumental templo da Avenida Olegário Maciel. A região ali próxima ficará impregnada dos “encostos”. Certamente, a “companheirada” exorcista terá muito trabalho para expurgar tanta coisa ruim. T’esconjuro!

Controlar a prefeitura de Belo Horizonte é garantir o acesso aos mecanismos que permitem obtenção de licenças e autorizações (como aquela que permitiu a construção do legítimo “shopping da fé”). Na sua insuperável visão, Dante Alighieri profetizou punições específicas para feiticeiros, falsários e simoníacos. Não imaginou, contudo, a que ponto poderiam chegar determinadas frações da humanidade atual. Se vivesse nos tempos contemporâneos, o capítulo do “Inferno” seria, certamente, bem mais extenso. O genial florentino haveria que postular novos pecados, e novas punições, para ampliar a Divina Comédia. A Arte seria, pelo menos, enriquecida com versos cuja apreciação se alonga pela Eternidade.

A turma de Jô Morais – estes verdadeiros “empresários” do patrimônio público – não busca se enriquecer individualmente, tal como o fazem empresários da iniciativa privada. Sua lógica é, antes a do formigueiro que da colméia (as abelhas têm a seu favor o fato de segregarem o mel, contribuindo para a floração da vida). Já a rainha das formigas só faz botar os ovos; enquanto isto, os operários buscam comida incessantemente, devastando os campos; os serviçais de plantão alimentam as larvas e os guardas vigiam os caminhos atacando os inimigos internos e externos. É uma compreensão da vida mais etológica que sociológica. Todos dentro do formigueiro beliscam alguma coisa (pois ninguém fica fora do negócio), vivendo a orgânica sociedade numa relativa harmonia.

Platão endossaria o projeto do qual Jô Morais é defensora. Talvez, até, se afiliasse ao PC do B. Afinal, o velho grego foi um dos primeiros a formular uma concepção totalitária de sociedade, tão ao gosto dos anacrônicos herdeiros do stalinismo.

As “formigas” de Jô Morais anseiam pelo aumento dos impostos. Ela própria defendeu, no primeiro debate televisivo na rede Bandeirantes, uma forte tributação imobiliária. Os maiores escorchados serão os donos de modestos apartamentos (comprados com uma vida inteira de poupança). O pessoal do PC do B e da IURD sabem que, para poder financiar a boa vida do vasto conjunto da companheirada, há que se extrair alguma “mais valia” do cidadão. Seu lema de campanha (até para fazer justiça aos aliados), deveria ser “fé em Deus e unha no povo”. Ai dos vencidos, já dizia Cezar! Numa eventual vitória dessa gente, os moradores deste Triste Horizonte se lembrarão com inveja dos tempos imemoriais da Conjuração Mineira, quando dona Maria, a louca, só queria extorquir uma quinta parte da renda dos mineiros. Se hoje já nos aproximamos do dobro (pois quase 40% da riqueza da sociedade é apropriada pelos governos), a eleição de Jô Morais, a tresloucada, sinaliza para uma verdadeira escravidão coletiva dos cidadãos. A famigerada CPMF, aliás, que o governo federal quer ressuscitar, teve o apoio entusiástico, além do voto, da deputada federal Jô Morais. Ela bem sabe que Lula e sua sofisticada quadrilha só querem, mesmo, é esfolar mais o povo brasileiro, notadamente a classe média. Para quê? Para poderem usar o dinheiro para pagar os juros aos banqueiros, para criar cabides infindáveis de empregos (não inventaram, agora recentemente, o Ministério da Pesca?), e para pagar o cala boca, na forma de mensalão, a seus aliados predadores (Sarney, Barbalho, Calheiros, Maluf, Professores Delúbio, Luizinho e Walfrido, Marcos Valério, bispo Rodrigues etc.), e mais uma lista infindável que cobriria um catálogo telefônico.

A escória do PT, por outro lado, é composta pelos “santinhos do pau oco” da política. Adeptos do mais deslavado assistencialismo como forma de fazer política, seu mentor espiritual é o ex-prefeito Patrus Ananias, o santarrão carola. Compreende um monte de parasitas dos escalões inferiores da máquina administrativa pública, distribuídos pelos diferentes níveis de governo – municipal, estadual e federal. São os pequenos mordedores que, em bloco, e de forma inteligente, se dividiram para, qualquer que seja o resultado esperado das eleições (caso vençam, ou Jô Morais ou Márcio Lacerda), poderem perpetuar a “boquinha”, conforme apontou, em memorável definição, o ex-governador Garotinho.

Este é o plano deles, o que não quer dizer que vá dá certo. Cevados em mais de 15 anos encostados nas inumeráveis assessorias, consultorias, gerências e múltiplas outras formas de terceirização (através de ONG´s, Cooperativas, sindicatos etc.), mecanismos usuais utilizados para abocanhar um naco das verbas públicas, vêem com terror a possível exigência, posta pelo destino, de terem que trabalhar, como o comum dos mortais, a fim de se sustentarem e às suas famílias. Nos cenários e nas articulações conduzidas pelo atual prefeito, o futuro da prefeitura de Belo Horizonte não comportaria esta arraia miúda. Na eventualidade da vitória de Márcio Lacerda, só os lambe cus de Pimentel é que continuariam abrigados no amplo regaço das dezenas de secretarias municipais e órgãos da administração indireta. Estes, não por acaso, são os que controlam o aparelho partidário municipal, decisivo para a definição futura do candidato a governador em 2010. Dependendo da situação política, as injunções podem levar Pimentel, até, a migrar para o PSB, juntamente com seu amigo do peito – o atual governador Aécio Neves. Seria uma dobradinha de arromba. O caminho para isto vem sendo pavimentado gradativamente. Os ratos já começam a abandonar o navio, conforme se vê no noticiário (Tilden Santiago, eminência dos maiores da nação petista acaba de se aboletar no PSB sob as bênçãos de Ciro Gomes). Percebem, estes velhacos, que um cansaço da população com o petismo começa a se configurar.

Desde tempos imemoriais os ratos são os primeiros a fugir. E um transatlântico do porte do PT demora muito a ir a pique. Só os ratos percebem o risco que o barco corre (talvez por uma qualidade genética de farejar grandes perigos). A fadiga de material, com efeito, não acomete somente as coisas físicas. Também instâncias simbólicas sofrem da mesma ameaça. Casamentos sólidos se dissolvem no ar, marcas históricas entram em colapso, discursos políticos se esvaziam como pregações no deserto. Alípio, o conde de Abranhos, ao justificar sua mudança partidária (na célebre obra homônima de Eça de Queiroz), alegou que “sentia” que o governo estava “gasto”. Era hora, portanto, de mudar de pouso. E é o que Pimentel e Aécio estão fazendo estrategicamente. Vão deixar o pau de bosta nas mãos dos outros e, seguindo o que farejaram, vão mudar para que tudo fique como está. Lampedusa puro!

Somente um eventual surto de lucidez do eleitorado de Belo Horizonte poderá abortar o plano destes cafajestes. A ala petista mais mercenária – aquela que transformou a busca do poder numa oportunidade de boas negociatas – marcha unida com seus aliados tucanos e seu séquito de desfibrados políticos (distribuídos no PV, PPS, PTB e outras siglas destinadas a operações de compra e venda). Buscaram um milionário que se enriqueceu fabulosamente com atividades na área da telefonia (isto no tempo em que as empresas de tele-comunicação eram, não por acaso, controladas pelo governo), e pretendem empurrar, goela abaixo dos eleitores, a escolha feita por eles, como se fossem mandarins. E eles o são: mandarins cintilantes, atualmente governando a prefeitura e o estado. O tal Márcio Lacerda é tão fabulosamente rico que chega a ter um patrimônio superior a um dos mais notórios ladrões e nababos brasileiros – o ex-governador Paulo Salim Maluf – conforme declarações dos candidatos a prefeito registradas nos tribunais eleitorais. Só o palacete onde mora – não em Belo Horizonte, é claro, e, sim, em Brumadinho, no mais luxuoso condomínio na região sul da capital mineira – está avaliado em R$3,4 milhões. Para uma residência valer tanto dinheiro, ela deve ter coisas como torneiras banhadas a ouro e revestimentos do mais puro mármore de Carrara. Se não é moradia de marajá, ao menos deve ser de algo próximo a rajá, tal a magnitude do seu valor. Seria interessante saber quanto paga de IPTU.

Percepção do risco que significa viver em Belo Horizonte, pelo menos ele tem, pois foi morar bem longe das mazelas que assolam grande parte dos cidadãos, além de outros males, como a poluição ambiental, e os infernais engarrafamentos de trânsito. Realmente, é muito mais aprazível, e mais seguro, viver num lugar com todas as bem aventuranças que a natureza oferece, e que uma boa quantidade de dinheiro pode comprar, que entre os simples mortais que labutam na cidade grande! E mais: velejar, nas férias, pelas águas azuis do Adriático, pousando aqui e ali nas paradisíacas ilhas que ponteiam a doce Itália e a vetusta Grécia, recuperando, quem sabe, a milenar e gloriosa vilegiatura de Ulisses. Dá para imaginar o tal Márcio Lacerda na pose de marinheiro viking, com sua barbicha dourada e a postura forte dos que são capazes de encarar até o canto das sereias, comandando sua disciplinada tripulação com a voz típica dos mandões de todos os tempos: “arriar velas, descer a bujarrona, subir à gávea, preparar os canhões...”. E, assim, o barquinho vai...





terça-feira, 22 de julho de 2008

O NOIVO

Mais que indicação de que o eleitor da capital ainda não se ligou à campanha para prefeito, os resultados das pesquisas disponíveis mostram que há uma fadiga de material. Um cansaço similar ao de velhos casamentos que não se renovam e se esgarçam ao longo do tempo. Belo Horizonte parece estar querendo um novo amor, uma paixão que desperte na cidade as energias congeladas pelo reinado, agora tedioso, a que se viu condenada por Pimentel e sua turma. O candidato oficial – apoiado pelo governador e pelo prefeito – patina nos 5% da preferência popular. Os artífices do decantado “projeto” (que mal esconde desmedidas ambições), e que justificou a insólita aliança entre o PT e o PSDB, tentam encontrar uma explicação que amenize o vexame público aí às vistas. É a tal situação da mocinha bem comportada e obediente que fica reticente e de má-vontade, se recusando a seguir o conselho dos pais na escolha do namorado, ou do futuro marido. Casamentos arranjados, aliás, nem sempre acabam bem. Ainda mais quando o “noivo” é sonso e não excita a imaginação. Candidato certo a um bom par de “chifres”, o pretendente com as características de “amigo” do papai e da mamãe, incapaz de seduzir por seus próprios méritos, tentará se impor pela força do dinheiro e do medo à palmatória.
Insatisfeitos e/ou desinteressados pelos nomes colocados à cidade, bocejantes eleitores mantêm-se sem maiores comprometimentos com as escolhas disponíveis. Realmente, está difícil se definir. Além do “noivo” apoiado por “papai e mamãe” há uma candidata, raivosa e ressentida com o oficialismo local e federal, desempenhando com perfeição um papel ao qual só falta a vassoura. É o nome ideal para se contrapor ao “noivo”, na perspectiva dos demiurgos inventores de prefeito. Parecem-se com os velhos MDB e ARENA: um candidato do “sim”, o outro do “sim senhor”. Outros postulantes – um demasiadamente jovem deputado federal e um ex-deputado federal sem bala na agulha para bancar as pretensões – flutuam nos seus nichos de simpatizantes sem manifestarem, por enquanto ainda, qualquer sentimento de empolgação popular. Completando o quadro disponível há, ainda, os tradicionais candidatos cacarecos (um deles chega, até, a superar o candidato oficial, segundo as pesquisas divulgadas). Os únicos que, potencialmente, poderiam ameaçar o cenário desejado pelos patrocinadores das duas candidaturas (a do sim e a do sim, senhor), são os nomes do PMDB e do PDT (aquele mais que este). Aos dois, certamente, se querem mesmo correr o risco de ganhar, deverão infundir audácia e competência nos seus atos e discursos. O eleitor é uma alma feminina: ele quer ser arrebatado. Cautelas demasiadas e pudores excessivos dos dois eventuais oposicionistas podem deixar o eleitor sem alternativa de futuro. Neste caso, melhor esquecer o “chifre” e votar no candidato do “papai e da mamãe”.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

A CAVERNA

A caverna já foi usada como alegoria em diferentes ocasiões. Platão retratou com ela a dificuldade de se conhecer o real. Posto no fundo da caverna, o homem só via as sombras dos objetos exteriores, nunca os próprios objetos. Menos afeitos à metafísica, porém com grande sutileza, os antigos fabuladores orientais referiram-se a ela como um lugar ideal para servir de valhacouto de ladrões, tal como consta no relato da famosa aventura de Ali Babá. Quando para ela adentrava, após os saqueios habituais, o bando de larápios contemplava a fortuna acumulada e costumava, então, promover a divisão do butim amealhado de forma vil. Se, por acaso, ocorresse alguma divergência entre eles, certamente não era por razões mais nobres, ou por alguma filigrana ideológica. Na caverna de Ali Babá que, aliás, nada tinha a ver com os ladrões (ele tão somente furtou o que os outros tinham roubado, após descobrir a palavra mágica que abria a porta dos tesouros), só havia, portanto, divergências materiais e financeiras. Até porque o ideário comum de todos aqueles patifes era um só, muito similar ao que ocorre em outras cavernas pelo mundo afora: morder o dinheiro alheio e enricar o máximo possível.

Veja-se, por exemplo, o caso de Belo Horizonte. A turma do mensalão – aquela mesma que foi flagrada há algum tempo atrás saqueando o tesouro público – transformou a prefeitura da capital mineira em uma grande caverna. Presentemente brigam entre si, tal qual faziam seus similares da velha história das 1001 Noites, para saber quem vai comandar a caverna da Av. Afonso Pena. Ou, então, como os sapos que ficam nos brejos a cantar: “meu sapo foi rei”, gritam uns; “Foi, não foi”. “Meu sapo é rei” esgoelam-se outros; “É, não é”, num coaxar estridente que avança pela noite afora. Sem qualquer violentação aos fatos, o que está ocorrendo com os mensaleiros municipais, estaduais e federais, vinculados ao PT e partidos satélites, sob os olhos de uma cidade perplexa, é uma disputa inglória, não em defesa dos cidadãos, mas, sim, para saber quem vai assumir a boquinha e comandar o saqueio que a capital mineira sofre há uma década e meia. Um conchavo espúrio e vergonhoso entre caciques que consideram o povo de Belo Horizonte um bando de otários primitivos, tangidos facilmente por propaganda maciça, esmolas e obras cosméticas que mal arranham as grandes demandas da cidade.
Uma comparação com outras grandes cidades brasileiras mostra o medíocre desempenho dos governantes municipais no que se refere a obras estruturantes e grandes obras viárias. No Rio de Janeiro, em Salvador, em São Paulo etc. as intervenções urbanas foram, e tem sido, de grande alcance. Em Belo Horizonte, não! Aqui, os aduladores de todos os governos não fazem mais que incensar as medíocres realizações cujo porte dá a medida exata de seus executores.

MANIPULANDO A OPINIÃO PÚBLICA

Os defensores da aliança entre o PT e o PSDB na disputa para a prefeitura de Belo Horizonte manipulam vergonhosamente a opinião pública. Publicam pesquisas políticas feitas de encomenda, tentando convencer ao povo da cidade que o pacto pretendido recebe amplos aplausos dos eleitores da capital. Usam, em defesa do tal projeto, argumentos que seriam risíveis se não fossem da mais deslavada má fé. Por exemplo, querem nos fazer crer que um futuro prefeito aliado do governador e do presidente da república será algo excelente para a cidade. Sem entrar no mérito, ainda, veja-se o travo autoritário do raciocínio, similar ao que era praticado nos tempos do regime militar. Os generais gostavam de escolher os governadores e os prefeitos das capitais com a justificativa de que era necessário haver uma harmonia entre os gestores públicos. Era uma forma elegante de chamar os eleitores mais politizados de idiotas. Os grotões, ao contrário dos grandes centros, sempre são governistas. Basta ver o prestígio do PT nos vales da miséria e nas caatingas nordestinas. Nada diferente do que ocorria com a ARENA de outrora, incensada pelas aposentadorias do FUNRURAL, antecessor direto da bolsa esmola de hoje. Vê-se, assim, que tem explicação a afinidade aparentemente esdrúxula entre Lula e Delfim Neto.

Um dos mais graves problemas urbanos está no transporte coletivo. Pois bem, nos últimos cinco anos o metrô de Belo Horizonte não avançou um milímetro, apesar da decantada aliança entre o atual prefeito, o governador e o presidente. Por que não investiram nas obras, se são tão afinados politicamente? Mais estranho fica a coisa quando se sabe que o presidente da empresa que gerencia o metrô é mineiro, afiliado ao PT, e com experiência que remonta aos tempos da ditadura militar. Também a prefeita de outra cidade beneficiada pelo metrô – Contagem - é militante do petismo, tal qual o prefeito da capital. Se eles são tão próximos, qual a razão deste importante meio de transporte coletivo ter sido relegado a segundo plano? Falta de “vontade política” para usar um jargão da época? Interesses comerciais dos concessionários de ônibus? Estes, aliás, estão em processo de disputa das linhas de Belo Horizonte, no apagar das luzes de uma administração que durou 16 anos, numa espécie de xepa licitatória, coisa de fim de festa onde tudo fica na base do agarre o que puder. O mais estranho, contudo, é que nunca divulgam pesquisas de opinião contendo nomes dos eventuais concorrentes. Aí, claro, todos veriam que o candidato inventado pelos mandarins não tem qualquer substância nem viabilidade eleitoral. Todas as capitais sabem do pulsar da opinião pública local. Em BH, entretanto, fomos reduzidos à menoridade política.

A PSICOPATOLOGIA DO TOTALITARISMO

"A PSICOPATOLOGIA DO TOTALITARISMO


I) A angústia e o medo

Autores como FRANZ NEUMANN (in Estado democrático e Estado autoritário. Rio de Janeiro, Zahar editores, 1969), põe ênfase no exame das emoções humanas, em especial no estudo da angústia e do medo, marcadamente em relação a suas funções na vida política, baseando-se principalmente em Freud.

MEDO: Reação emocional diante de situações específicas despertadas por objetos, também específicos, do mundo externo;
ANGÚSTIA: É posta em ação por um fator desencadeante interior e, portanto, sem objeto externamente definido.

A angústia compreensivelmente desempenha papel de ainda maior significação na vida psíquica, por estar ligada às representações inconscientes do sujeito, vinculando-se a mais numerosas circunstâncias da vida. Já que situações e objetos que a desencadeiam pertencem á própria pessoa, pois lhe são internos, não lhe é possível deles evadir-se, como poderá fazê-lo com os determinantes do medo.

NEUMANN acentua a significação central da angústia para o estudo do comportamento das coletividades, ressaltando o papel desempenhado por tal emoção nas manifestações humanas e, portanto, para as ciências que têm por tema essas manifestações, pois, como acentua, “a grande preocupação da ciência é a análise e a aplicação do conceito de liberdade humana que lhe está indissoluvelmente ligado”.

(O medo, no entanto, não é emoção apenas e sempre caracterizável como conseqüência de um perigo real, pura e exclusivamente. Por exemplo, a maioria das pessoas sentirá medo diante de uma fera perigosa. Por outro lado, as crianças sentem medo em relação a seus pais. Habitualmente esse sentimento não chega, contudo, sequer à suspeita consciente de que esses poderão devorá-las. Não obstante, a prática psicanalítica amiúde mostrará que tal sentimento poderá ser inconscientemente abrigado. Portanto, mesmo que na emoção do medo esteja presente um objeto externo específico, ainda assim a percepção deste objeto está ligada a representações inconscientes sentidas como perigosas. Isso por serem, esses objetos, depositários de impulsos agressivos, neles colocados pelo processo psicológico inconsciente da projeção).


II – O mal estar na vida social

A sensação de mal-estar sentida em relação à vida social talvez seja sempre percebida mais agudamente, em qualquer caso, em relação à coletividade em que cada um vive. Qualquer outra que o sujeito considere como ponto de comparação é sempre vista a uma certa distância afetiva, despertando, pois, menos paixão. A sociedade atual, não obstante, com toda probabilidade é aquela em que há a mais clara percepção das realizações humanas dentro de seu âmbito. Na esfera material, naquilo que concerne ao avanço técnico, parece haver pouca ou nenhuma dúvida com relação à magnitude dos avanços desta cultura. Já no terreno organizacional e afetivo, as realizações parecem bem mais hesitantes e, de alguma forma, sujeitas a progressos envaidecedores e recuos vergonhosos. Precisamente aí, sente-se, nessa mesma sociedade, com mais agudeza, as limitações que a vida social impõe.

Freud já dizia que o programa de tornar-se feliz, que o princípio do prazer nos impõe, não pode ser realizado. No entanto, não devemos, nem podemos abandonar nossos esforços de vê-lo satisfeito. Freud, ao analisar as fontes de onde provém nosso sofrimento acentua uma delas – a de mais difícil superação – a “insuficiência” das regras que procuram ordenar as relações dos homens uns com os outros na família, no Estado e na sociedade. Isso porque os seres humanos “negamo-nos a aceitar tais limitações; não podemos compreender por que regras que demos aos mesmos não proporcionem proteção nem conforto a todos. Certamente, se ponderarmos quão mal nos houvemos nessa parte, prevenção contra o sofrimento, desperta-nos a suspeita de que também aqui pode ocultar-se uma parte da indomável natureza, desta vez, nossa própria constituição psíquica”.

NEUMANN, oportunamente, assinala que “os conflitos inevitáveis, que são gerados pelas limitações impostas às pulsões libidinais e destrutivas, são os verdadeiros motores da história”. É bem perceptível com que propriedade ele aponta para tal circunstância, tendo-se em mente que a vida social só será possível se e quando algum dique for oposto e mantido à livre satisfação das pulsões de todos e de cada um dos participantes, com a finalidade de, ao menos, atenuar os embates resultantes da colisão entre aspirações inconciliáveis. É preciso pensar-se nos necessários choques decorrentes da vida em sociedade na existência dos indivíduos, sem que se ignorem, em momento algum, os conflitos intrapsíquicos na arena interior de cada pessoa, desencadeados pelo viver coletivo. As possíveis e sérias conseqüências da limitação à satisfação das pulsões foram explicitamente mencionadas por Freud: “não é fácil de entender, como pode ser feito, o retirar a satisfação de uma pulsão. Isso não é conseguido inteiramente sem perigo; quando não se é economicamente compensado (do ponto de vista da economia libidinal), pode preparar-se para graves perturbações”. De acordo com o pensamento de NEUMANN, a alienação, no que à psicologia se refere, é instaurada precisamente por essas limitações e privações pulsionais.

Ao exame dos fatores psicológicos que contribuem para a instituição de um regime totalitário, segue-se a questão de colocar-se o liame lógico e psicológico entre alienação e angústia. Freud já havia concluído que a angústia produziria o recalque. Tal processo é que estaria interposto entre o sujeito e suas pulsões inconscientes. Podemos concluir que daí originar-se-ia a alienação na esfera psicológica. A opinião que encontramos em NEUMANN é a de que a angústia verdadeira corresponde à reação diante de perigos concretos externos e a angústia neurótica é produzida pelo eu – por antecipação – com o fito de evitar situações que poderão trazer perigos. Sabemos que essa formulação tem a vantagem de clarear conceitos e possui, pois, visíveis méritos expositivos. Entretanto, não se pode esquecer que, mesmo ali onde o sujeito defronta-se com situações de perigo concreto, vão ser desencadeadas angústias íntimas correspondentes a representações preexistentes, na maior parte das vezes inconscientes. A impossibilidade, determinada pela existência de processos psicológicos defensivos inconscientes, de ter acesso às representações consideradas inaceitáveis desencadeia a angústia. Essa sinaliza, pois, já não um perigo externo, mas a representação inconsciente de um perigo. Não sendo os sentimentos humanos de nenhum modo algo simples, logo se apresenta ao exame um dado ulterior a trazer uma complicação adicional: a efetivação, ainda que no terreno das representações psíquicas inconscientes, de exigências pulsionais pode ter como conseqüência o surgimento de sentimentos de culpa, os quais, é certo, não excluem necessariamente a angústia, antes, como assinalou Freud, são dela derivados pela via do perigo da perda de amor daqueles de quem se depende e a quem se ama. Acrescente-se a isto a circunstância, tantas e tantas vezes lembrada, de que os perigos da vida são muitos e que esses, mais preocupantes se tornam, quando somados às angústias desencadeadas a partir de representações inconscientes, as quais podem influir decisivamente na percepção dos acontecimentos exteriores.

Quando a fonte da angústia - lembra NEUMANN - que Freud (o qual inicialmente a teria apresentado como uma transformação automática da libido impedida de ser descarregada em conseqüência do processo psicológico do recalque), mais tarde introduziu certa modificação em suas opiniões. Face à concepção exposta por outros autores que sustentavam que a fonte da angústia era o medo da morte, argumentou Freud que não se tem, em geral, um modelo da sensação da morte - que se considera apenas suposta – por não encontrar correspondência em qualquer experiência vivida. Estaria reduzido, portanto, em sua concepção, esse pretendido medo à morte a um medo à castração, ao qual estaria vinculada a angústia. Dessas considerações retira NEUMANN a lição de que a angústia poderá ter uma útil função como sinal e aviso a alertar sobre a possível existência de perigos exteriores. Pode, segundo aparentemente crê este autor, quando os aspectos neuróticos forem predominantes (como no dizer de FENICHEL, “uma pulga for vista como um elefante”), tornar-se o homem incapaz de avaliar a situação em que se encontra.


III - A vida em sociedade é penosa; a vida sem sociedade é impossível

A neutralidade científica, tantas vezes apresentada como ideal do investigador, não obstante precise ser persistentemente buscada, parece ser um objetivo bastante esquivo e que em todo momento nos escapa. Não obstante Freud tenha forjado um método terapêutico que obrigatoriamente envolve a crença na possibilidade de melhora e, talvez, de aperfeiçoamento dos seres humanos, em várias ocasiões em sua obra mostra-se bem descrente e pessimista na possibilidade de que os homens venham a alcançar a concórdia e a paz. Possivelmente em uma dessas ocasiões é que tenha expressado seu pessimismo em palavras como “todo indivíduo é virtualmente inimigo da cultura, embora se suponha que ela constitui um objeto humano de interesse universal”. No mesmo pessimista modo de pensar, encontramos linhas adiante a assertiva de que “as criações humanas são facilmente destruídas, e a ciência e a tecnologia, que as construíram também podem ser utilizadas para sua aniquilação”. Sua descrença na capacidade autônoma de organização das massas é apresentada em uma expressão tão franca quanto taxativa como “é tão impossível passar sem o controle da massa por uma minoria quanto dispensar a coerção no trabalho da civilização, já que as massas são preguiçosas e pouco inteligentes”. Admitamos um tal ponto de vista sem discuti-lo, ainda que seja para fins de prosseguir nossas indagações. Tomando-o como válido, na seqüência nos será fácil aceitarmos a alta significação atribuída por NEUMANN da angústia na vida social. Embora nem de longe seja exclusividade de pessoas desprovidas da informação mais trivial, essa emoção é depressa despertada diante das circunstâncias da vida que não podem ser logo compreendidas. E há elementos inconscientes a escaparem até mesmo daquelas pessoas tidas por esclarecidas. A massa, psicologicamente desprotegida, necessita, como é assinalado por vários estudiosos desse tema, identificar-se com lideranças que ofereçam caminhos que, pelo menos, pareçam seguros. Tal massa, que por desconhecimento tem dúvidas especialmente quanto a seu futuro, precisa que lhe ofereçam certezas e poderá com presteza acreditar que ama aqueles que lhas proporcionam.

Desde que Freud chamou a atenção para esse fato, o vínculo afetivo que une os componentes das massas bem como essas a seus líderes é algo reconhecido como de suma significação. As características psicológicas das pessoas que irão desempenhar o papel que está destinado a quem lidera as massas demandam certa atenção. Trata-se em qualquer caso de, tanto quanto possível, identificar traços psicológicos comuns existentes em pessoas que seja levadas a aspirar à condição de liderança e que, especialmente, possam fazer com que as massas sintam-se impelidas, irrefletidamente (sua força não está na reflexão), à identificação com tais indivíduos.

Foi ainda Freud quem apresentou como assertiva quase evidente que, ao discorrer sobre a psicologia individual, torna-se necessário, exceto poucas vezes, abordar a psicologia coletiva, uma vez que não é possível, de um modo geral, “prescindir das relações do indivíduo com seus semelhantes”. Considera, portanto, que nesse sentido “a psicologia individual é, desde seu princípio, psicologia social”. Contrapondo-se à noção de “instinto gregário” assinalou ser manifestação claramente observável a atitude hostil com que o filho mais velho acolhe, a princípio, a intromissão em sua vida de um novo irmãozinho. Qualquer pessoa que tenha mais de um filho, se dispuser da vontade de observar e do tempo necessário, poderá por sua vez perceber a propriedade dessa assertiva. Com mais atenção será possível notar, além disso, que a atitude de aceitação plena não se manifesta nem mesmo da parte dos menores em relação ao primogênito. Claro está que a hostilidade franca não se destina a durar: sucumbe ao recalque e isto torna possível a vida em comum. Esse antagonismo, todavia, brota constantemente aqui e ali. São necessárias atitudes coercitivas dos pais e, mais tarde, esforços às vezes notáveis de todos os seus membros para que flua uma vida em família com poucos atritos. A vida gregária seria, pois, obtida através da ativa superação de tais antagonismos. Haveria aí uma constante tensão entre a imperiosa necessidade de coesão grupal e desejos de satisfação dos próprios impulsos – em cada pessoa – em prejuízo de qualquer outro. É óbvio que a ocorrência de frustrações há de ser freqüente face à necessidade de abrir mão da satisfação dos impulsos, indispensável à vida em comum. Ora, as frustrações desencadeiam sentimentos de raiva, os quais são projetados nas pessoas do ambiente em que se vive, as quais são vistas como responsáveis pela frustração. A percepção desses sentimentos é sentida como angústia, que aciona o processo do recalque, mantendo-os, assim fora dos limites da consciência. Como lembrou Freud, nas condições habituais, e por vários motivos, tal angústia, em geral, se vê suplantada, ao menos à primeira vista, por mútua aceitação e uma identificação de molde a estimular os laços familiares, podendo notar-se, freqüentemente, vínculos afetivos ali onde vigeram sentimentos hostis, por obra de um processo psicológico inconsciente designado como formação reativa.

Freud assinala ser da máxima importância, para a eficácia dessa transformação de hostilidade em solidariedade, a crença em cada um na existência de uma forma de tratamento igual e justa para todos. Cada qual pode considerar (e isto às vezes é efetivamente expresso), que na impossibilidade de ser ele próprio o predileto, será preferível ninguém o ser. O fracasso dessa expectativa é visto, vez por outra, e tem sido tema de extraordinárias realizações ficcionais que – não apenas por isso, mas, também, por isso – parecem destinadas a permanecer cativando a atenção e o interesse dos leitores. Seu paradigma é a lenda de Caim e Abel, a qual, milenar que é, segue atraindo a atenção em todas as variações que a imaginação lhe pode emprestar.

A satisfação da demanda de tratamento igualitário, de seu lado, atingindo êxito, como lembra Freud, encontra expressão no companheirismo e na amizade fraterna, que seriam derivados bem-sucedidos – transformados em seu contrário – da inveja uma vez existente. Aí também estaria expressa a expectativa infantil de que ninguém haveria de sobressair-se, todos sendo e obtendo o mesmo valor. Concedem-se, dessa forma, a cada um e a todos os mesmos direitos. Recusando-se privilégios, pela superação de certas expectativas infantis, poderão ser lançados os fundamentos da vida adulta. De um ponto de vista psicológico, é dessa matriz que se forma os sentimentos que conduzem à noção de justiça social, como oportunamente assinalou Freud.

Enraízam-se, destarte, em certa etapa do desenvolvimento, as aptidões para uma vida coletiva que contemple a liberdade com respeito à lei, que é a conseqüência, como processo da evolução psíquica, do reconhecimento dos demais como pessoas. Pressuposta está que – para o final desse primeiro período de desenvolvimento psicológico, ao qual Freud denominou de fase oral, quando o pequeno ser principia a perceber que sua mãe é um ser independente dele e, mais adiante, que há outras pessoas no mundo – seja ultrapassada satisfatoriamente a etapa de absoluta dependência da pessoa em relação a seus maiores, especialmente da figura materna.

É quando vai se desenvolvendo a próxima etapa, denominada fase anal, que se vai adquirir a noção de se ser alguém claramente distinto da mãe, que progride a aquisição da linguagem, que se obtém o controle dos esfíncteres e, concomitantemente, aprende-se da mesma forma que é possível controlar as pessoas adultas do ambiente mediante choro, riso, chegando até ao domínio da linguagem. Uma criança, nessa fase, todavia, não mede - como alguém plenamente desenvolvido - os limites de suas possibilidades, observando-se o que Freud denominou de onipotência dos pensamentos, pela qual pode – imagina a criança – exercer controle sobre seu ambiente." (continua)

Ronaldo Brum (in Tavares, J. Giusti. O totalitarismo tardio - o caso do PT).